7 coisas que demoraram 7 anos

Ontem completei 7 anos na Alemanha, e nada melhor que uma data desse tipo pra filosofar sobre o que passou e o que aconteceu.

Esse ano tem sido muito significativo na parte Alemanha da minha história pessoal, e 7 é um número que sempre soa importante. Quebrar espelho dá 7 anos de azar, a semana tem 7 dias, as maravilhas do Mundo eram 7, o Brad Pitt passou 7 anos no Tibet…

O processo de adaptação não é uma coisa que dura uma quantidade finita de anos, é um processo contínuo e possivelmente infinito. Há sempre coisas que vão mudando em você de acordo com as circunstâncias da sua vida e mesmo depois de muitos anos num lugar diferente há ainda coisas que você faz como fazia antes, ou que você foi mudando tão gradualmente que só depois de uma década percebeu de repente que não é mais do jeito que você lembrava. Então, pensando nas coisas que mudaram e nos anos de Alemanha, pensei em escrever sobre 7 coisas que demoraram 7 anos pra acontecer.

1. Vencer a fobia de conversas telefônicas
Eu nunca fui fã de resolver as coisas por telefone já antes de vir pra Alemanha. No curto tempo que trabalhei no Brasil depois de me formar, antes de mudar pra cá, eu já sentia um certo frio na barriga quando meu chefe pedia para resolver algo por telefone. E era raro, nos escritórios em que trabalhei no Brasil eu nunca tive meu próprio ramal de telefone e só precisava atender telefone quando por acaso do destino era a única pessoa presente no escritório no momento.

Daí comecei a trabalhar aqui e essa dificuldade, que era antes um problema pequeno, virou realmente um bicho de sete-cabeças (outra coisa com o número 7!). Pra somar à aversão que eu já tinha de telefone, veio: o fato de que os alemães preferem resolver as coisas por telefone; o fato de que nos escritórios o normal é cada um ter seu próprio ramal e resolver as coisas independentemente e não via chefe; e, claro, a maior pedra no caminho de qualquer imigrante na Alemanha: a língua level Extra Hard. Entender o que alguém está falando por telefone é sempre mais difícil do que entender a pessoa quando você está olhando ela falar. E qualquer coisa não compreendida tem muito potencial de gerar uma situação constrangedora.

E com isso, receber telefonemas ou precisar resolver coisas pelo telefone no trabalho virou um pesadelo, quando eu ouvia o telefone tocar já dava náusea. Quando eu tinha que entrar em contato com alguém, quase sempre dava pra deixar o telefone quietinho na base e resolver por email, mas quando ele tocava não tinha como fugir de atender.

Mas com a constante repetição da experiência, o medo foi bem gradualmente desaparecendo, até que percebi, há pouco tempo atrás, que ele não existia mais. Se preciso resolver algo que é mais simples e rápido de resolver com um rápido telefonema, nem penso duas vezes. E não sinto mais nenhum frio na barriga quando toca o telefone.

Aliás, uma dica de algo que ajudou a lidar com conversas telefônicas é: sempre que eu estou no telefone com alguém eu escrevo as palavras chave do que a pessoa está falando. Isso ajuda pra caramba pra lembrar a conversa em detalhes, porque com línguas estrangeiras é sempre o caso que o seu vocabulário passivo (as palavras que vc entende) é muito maior que o seu vocabulário ativo (as palavras que você usa). Então às vezes você está falando com alguém e entendendo 100% do que a pessoa está te dizendo, mas dois minutos depois, se você precisa repetir o que a pessoa falou vc não consegue porque muitas das palavras que vc compreendeu sem nenhum problema te faltam na hora de formar suas próprias frases. E aí se o negócio é resolver um problema, às vezes é essencial você lembrar mais detalhadamente as palavras que a pessoa usou depois que você desliga o telefone. Então eu vou escrevendo tudo, mesmo que eu esteja entendendo sem o menor problema. E eu percebi que eu faço isso totalmente automaticamente.

2. Me sentir segura o suficiente para ir sozinha em reuniões externas de trabalho
Também gradualmente com a experiência isso foi mudando. Eu me lembro da minha primeira reunião externa de trabalho nesse emprego, eu estava com meu chefe e um colega senior, eu nem precisava falar nada na reunião, meu chefe só estava me levando justamente pra eu acostumar com reuniões, e mesmo assim eu estava super nervosa. Embora eu já tivesse aprendido alemão até o nível C1 na época, eu entendia beeeeeem menos do que hoje, e ficava super perdida em reuniões ou conversas com mais de uma ou duas pessoas. Quanto mais experiência eu fui adquirindo, mais eu compreendia do que estava sendo dito, claro. E por sorte meu chefe me designava tarefas com uma graduação bem precisa de responsabilidades. Primeiro eu fui em reuniões em que algum outro colega era o principal responsável pelo projeto, com o colega em questão e o chefe, só pra assistir; depois eu fui em reuniões onde eu era a principal responsável pelo projeto depois do chefe, mas em que ele explicava o que tinha que ser explicado e respondia a maior parte das perguntas e eu só dava apoio aqui e ali em coisas q eu sabia melhor pq eu que tinha desenhado; depois fui em reuniões em que eu era a principal responsável, e em que eu explicava as coisas e meu chefe só ajudava adicionando algo aqui e ali e respondendo as perguntas mais difíceis; depois fui em reuniões em que eu tive que apresentar um projeto para um grupo grande de pessoas, com meu chefe junto só pra vir socorrer se o alemão abandonasse meu cérebro; daí comecei a ir sozinha em reuniões de trabalho menores com poucas coisas a resolver; comecei a ir sozinha em reuniões de obra; até culminar no desafio mais difícil até agora em termos de reuniões, no mês passado: ir sozinha numa reunião para dar uma apresentação de 20 minutos de um projeto para um grupo de umas 25 pessoas de vários departamentos da prefeitura.

E embora eu tenha ficado tensa pra essa apresentação, não foi nada além da tensão normal que eu teria sentido se fosse apresentar o negócio na minha própria língua.

3. Entender as coisas sem prestar atenção, entender o que está sendo dito em segundo plano
Isso parece que foi de um dia pra outro. Até pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que entendia praticamente tudo o que me fosse dito numa conversa direta com alguém, mas que eu não conseguia entender o que estava sendo dito numa conversa de fundos, no rádio enquanto eu trabalho, ou em qualquer situação similar em que eu não estou me comunicando diretamente com a pessoa que está falando.

Outro dia eu peguei um trem e atrás de mim duas pessoas conversaram a viagem inteira sobre os mais diversos temas. Eram amigos de escola que por acaso se encontraram no trem muitos anos depois e estavam conversando sobre tudo o que tinha acontecido no meio tempo. Eu passei parte da viagem lendo, outra parte fazendo sei lá o quê no computador, outra parte fazendo coisas no celular, mas o tempo inteiro eu fui involuntariamente acompanhando a conversa atrás de mim e trocando olhares com meu marido em reação a determinadas coisas que estavam sendo ditas. E aí que eu percebi que eu estava entendendo coisas de fundo sem prestar atenção, de repente. Não sei desde quando, foi daquelas coias tipo background conversation mode on *plin!*.

Também percebi essa mudança em outros aspectos: até há pouco tempo atrás, se alguém aleatório me falasse alguma coisa na rua inesperadamente, eu só entendia se pedisse pra pessoa repetir, pq na primeira vez eu não estava preparada pra prestar atenção. Notei que ultimamente eu tenho entendido de cara. O que pode ser inconveniente, também, não é mal não entender quando um desconhecido fala algo desagradável pra vc desnecessariamente.

4. Não me incomodar tanto com certas diferenças culturais
Outra coisa que mudou em um período curto de tempo durante o último ano foi o nível de incômodo que sinto com certas diferenças culturais. As pessoas aqui – especialmente aqui em Dresden – podem ser bastante grossas com desconhecidos, em situações totalmente desnecessárias. Qualquer “problema” que aconteça, por menor que seja, as pessoas envolvidas tendem a imediatamente assumir uma posição defensiva de “isso com certeza não foi minha culpa e portanto só pode ter sido culpa sua”. Mesmo quando é completamente desnecessário definir de quem foi a “culpa” pelo “problema” gerado por qualquer leve desentendimento de fácil e rápida solução. E se a pessoa tem bom motivo pra acreditar que está certa e o outro está errado, minha nossa senhora, a atitude de superioridade moral que a pessoa assume é pra deixar até Deus certo de que o erro foi dele.

Isso é uma coisa que pode gerar tanto, mas TANTO stress desnecessário que você fica se perguntando pra quê.

E lidar com isso, se você é de uma cultura diferente pode ser um exercício constante durante anos. Mesmo alemães de outras regiões da Alemanha sentem essa dificuldade por aqui.

Nossa, como eu me estressei com essas coisas nos últimos 7 anos.

E foi interessante perceber como eu passei pelas fases mais diversas pra lidar com isso. Mas, nos meses mais recentes, percebi que parece que essas coisas estão me incomodando bem menos. Que nessas situações eu dou de ombros e poucos minutos depois já esqueci do ocorrido. Bem diferente de antes, quando eu passava o resto do dia remoendo o acontecido, com raiva, ou até chorando pela grosseria com que me trataram tão desnecessariamente. Hoje é mais: whatever, quer se estressar com pouco, fique à vontade, eu tô de boas.

Tomara que continue assim, que não me incomodar tanto com essas coisas é um peso gigante que sai das costas!

5. Me sentir capaz de me integrar num grupo de alemães
Tem vários fatores que influenciam isso. Quem morando aqui nunca sentiu dificuldade de se integrar num grupo de alemães com certeza é exceção. Diferente de no Brasil, onde as pessoas (normalmente) se esforçam para fazer alguém recém chegado no grupo se sentir à vontade, além de mostrar uma clara curiosidade com a pessoa fazendo logo todo tipo de perguntas, na Alemanha as pessoas geralmente não fazem esse esforço. Elas esperam que o esforço de se integrar num grupo já existente seja todo da pessoa nova. Se você estiver tímido ou inseguro, é raro alguém mostrar interesse em você.

Escrevi alguns posts sobre isso, nos meus primeiros anos aqui. Foi motivo de muita frustração no início. Eu já não sou uma pessoa extrovertida, aí ser 100% responsável por me incluir em grupos alheios ou quase forçar as pessoas a me aceitarem como parte do grupo (seja lá que grupo for esse) era uma coisa totalmente estranha para mim.

Mas de uma maneira ou de outra, isso foi mudando aos poucos, talvez eu tenha começado a entender melhor como as pessoas são, o que elas esperam de você, o que elas não esperam de você… algumas diferenças culturais às vezes são tão sutis que não dá nem pra descrever, só sentir. E parece que essas são as que mais influenciam sua habilidade de fazer amigos num lugar novo.

6. Me sentir tão capaz profissionalmente quanto os colegas alemães
Outra coisa que demorou muito mais tempo do que eu imaginava. Eu já escrevi alguns posts sobre o exercício da profissão de arquiteto na Alemanha, onde eu comentei que tem grandes diferenças não só em como determinadas coisas são construídas, mas também como funciona o processo de projeto, licitação, construção no sentido formal e burocrático. Tem tanta coisa nova e diferente que a experiência fora da Alemanha é quase negligenciável. Eu sinto que meus primeiros anos no escritório foram quase uma nova formação, como se eu tivesse que aprender quase tudo do zero, novo, diferente e em alemão. E só depois de um bom tempo é que eu comecei a me sentir capaz de fazer as coisas sem grandes inseguranças de se estava certo ou errado ou o que poderia acontecer se estivesse errado, etc. Principalmente de um ano pra cá mais ou menos (depois de quase 3 anos de experiência no escritório) é que eu me sinto profissionalmente segura e no mesmo nível de capacidade profissional que os colegas alemães de mesma idade.

Ainda há coisas que eu sinto que falta um certo conhecimento, mas há outras coisas que eu faço no trabalho tão bem que no meio tempo acabei virando a pessoa no escritório pra quem os colegas perguntam como faz isso ou como é certo aquilo. E, curiosamente, as coisas que eu faço melhor são bem aquelas das quais eu realmente não tinha a menor ideia antes de trabalhar aqui.

Foi um caminho bem espinhoso, mas é das coisas mais difíceis que você sente mais orgulho no final.

7. A Laís que eu conhecia antes de mudar pra cá reaparecer
A principal consequência de todas essas mudanças (especialmente da última, da confiança na própria capacidade profissional) é que, de repente, pela primeira vez desde que eu cheguei na Alemanha, parece que a Laís que eu conhecia antes reapareceu. (Laís sou eu, tá).

Depois que eu mudei pra cá, e até há pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que a Laís versão Alemanha era uma Laís completamente diferente da Laís que eu conhecia antes de 2012. A Laís no Brasil era uma pessoa confiante, eloqüente, engraçada, segura de si, corajosa. A Laís versão Alemanha 2012-2018 era uma Laís medrosa, insegura, menos capaz, pouco eloqüente, tímida. Tive sérias crises de identidade imaginando o que as pessoas daqui, especialmente colegas de trabalho, deviam achar de mim dado que eu não conseguia demonstrar nenhuma das características que eu considerava que tinha e que eram tão importantes pra minha auto-identificação (principalmente a parte da eloqüência).

E isso foi mudando gradualmente, claro, mas foi bem de um dia pra outro – outro dia – que eu percebi que a Laís tinha voltado, que de repente eu me sentia aqui exatamente como eu me sentia no Brasil, em termos de identidade e personalidade. Perceber isso foi um dos melhores sentimentos que eu já tive!


Antes de terminar esse post, é bom lembrar que a experiência de cada um é diferente. Essas adaptações que pra mim demoraram 7 ou quase 7 anos, pra algumas pessoas podem ter demorado só 7 meses e outras pessoas talvez mesmo depois de 17 anos ainda não sintam que essas coisas mudaram. O tempo que o processo de adaptação leva pra cada um e pra cada aspecto da vida que exige adaptação num país e cultura novos depende de inúmeros fatores: as circunstâncias em que você está, o círculo social à sua volta no país novo, as minúcias culturais da região específica onde você está, o apoio que você tem à sua disposição, e, claro, sua própria personalidade e aquilo que é mais ou menos importante pra você.

Mas uma coisa é certa: o processo de adaptação não é, nunca, fácil. E como eu falei no começo, é constante e infinito. Mas dá um grande alívio ver as enormes pedras que ficaram para trás!


(Publicado em 22 de Julho de 2019)

Dirigir na Alemanha com CNH Brasileira DEPOIS de 6 meses

Eu recebi uma pergunta num comentário sobre dirigir na Alemanha com a CNH brasileira depois dos 6 meses limite, e, como já várias outras vezes me perguntaram isso, ou eu ouvi de pessoas dizerem com a maior naturalidade que dirigem regularmente com CNH brasileira por aqui, resolvi escrever um post SÓ sobre esse assunto, pra informar das possíveis conseqüências e recomendar fortemente que você não faça isso jamais.

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Como eu já expliquei no post sobre como trocar sua CNH brasileira pela Führerschein alemã, sendo residente na Alemanha, você pode dirigir com a sua carta brasileira por 6 meses. Esse período pode ser estendido por mais 6 meses, mas SÓ se você puder provar que vai ficar só 1 ano na Alemanha. Portanto são mais exceções. Mesmo que seja o caso: você tem que pedir a extensão e obter a extensão antes de sair por aí dirigindo.

Caso contrário, ou se você está aqui por um período maior ou indefinidamente, passados os 6 meses, a sua CNH brasileira não é mais válida na Alemanha. 

Já ouvi o argumento “awawa, mas a minha CNH ainda é válida, não é que eu estou dirigindo totalmente sem carta, não deve ser tão ruim assim.”

É.

Dirigir com a CNH brasileira depois de passados os 6 meses da sua chegada aqui, é, legalmente, exatamente a mesma coisa que estar dirigindo sem nunca ter tirado carta, com carta suspensa, ou com o direito de dirigir revogado. Dirigir com carta de fora do país depois de 6 meses é categorizado como dirigir sem habilitação, que é um delito cujas consqüências são independentes do motivo (ou seja, independente de vc ter carta válida em outro país).

E quais são essas conseqüências, afinal? Multa, claro. Mas também, dependendo da situação, você pode pegar até um ano de prisão. A multa é definida caso a caso de acordo com a sua renda, e uma coisa é certa: não vai sair barato. Li do exemplo de um jogador de futebol que foi multado em mais de 500.000€, quinhentos mil euros, por ter sido pego dirigindo sem carta. Lógico que pra pessoas comuns como você e eu, cujas contas bancárias têm uma quantidade limitada de zeros, a multa não vai ser de quinhentos mil euros. Mas ela vai ser definida de acordo com o que vc pode pagar, e certamente também de acordo com o que você preferiria não ter que pagar.

E a prisão? Se você só for parado pela polícia para fiscalização aleatória e não tiver carta, quase com certeza a única conseqüência vai ser a multa. Mas digamos que aconteça um acidente. Qualquer acidente, nem precisa ser algo sério, pode ser algo pequeno. E é nessas situações em que você pode acabar sendo preso por uma coisa boba, por estar dirigindo sem carta. E mesmo que você nem tenha causado o acidente, se você estiver dirigindo sem carta você vai ser parcialmente responsável. Além de quê, o fato de você não ter habilitação válida vai ser motivo suficiente pro seguro do carro se recusar a cobrir qualquer custo que você ou os outros envolvidos venham a ter por causa do acidente.

E além de todas essas coisas, se o carro não for seu, o dono do carro também pode ser parcialmente responsabilizado por deixar alguém sem habilitação válida dirigir o carro.

Ou seja: dirigir com a CNH brasileira depois dos 6 meses é dirigir carro sem seguro, pq o seguro não vai se responsabilizar por nada que acontecer, arriscar levar uma multa altíssima se for pego numa fiscalização de rotina, arriscar ser preso se se envolver em algum acidente qualquer que pode nem ter sido sua culpa, e ainda trazer problemas também para o dono do carro .

Não. Vale. A. Pena.

Já me perguntaram também se rola validar a CNH brasileira em Portugal, onde é muito mais fácil, e aí como Portugal é parte da UE, vc poderia a princípio ficar pra sempre dirigindo na Alemanha com a habilitação portuguesa, sem precisar passar por todo o processo custoso e demorado que é tirar a habilitação alemã.

De fato, se você tiver uma habilitação da UE você não precisa trocar pela alemã enquanto ela estiver válida. Apenas quando ela perder a validade, e você tiver que renová-la, você vai trocá-la pela alemã, mas sem ter que fazer nenhuma prova nem nada.

PORÉM, não, você não pode ir pra Portugal só pra trocar sua habilitação lá e aí voltar pra cá e ficar dirigindo aqui com a habilitação portuguesa, por dois motivos:

Em primeiro lugar, se você, enquanto residente na Alemanha (e quando eu digo residente na Alemanha não me refiro ao status do seu visto, mas ao fato de você ser registrado numa prefeitura na Alemanha como residente local), não pode ir fazer sua habilitação em outro país. Se você tiver feito sua habilitação em outro país enquanto residente na Alemanha, a validade dessa habilitação pode ser cancelada. Provavelmente enquanto a habilitação do outro país, Portugal ou o que for – estiver válida, ninguém vai questionar ou verificar se você estava morando aqui quando fez a habilitação lá. Mas aí quando ela perder a validade e você tiver que trocar pela alemã, você vai ter, sim, que provar que morava em Portugal quando tirou a habilitação lá. E aí como não era o caso, vc não vai conseguir trocá-la pela alemã (e de repente ainda vai ter problema por ter dirigido todo esse tempo com uma habilitação que vc não poderia ter feito).

O outro motivo pelo qual você não pode fazer isso, é que na verdade nem dá pq pra trocar a sua CNH brasileira pela portuguesa em Portugal, você também vai ter que provar lá que reside em Portugal. Você não pode trocar a habilitação sem ter residência lá. Então não rola.

Isso é tudo assim pq os países querem evitar justamente isso: turismo de habilitação, onde as pessoas vão prum país x onde é facinho tirar carta, tiram a carta numa viagem rapidão, e usam a mesma indefinidamente num outro país onde as regras são muito mais rígidas.

Já me perguntaram também de vários outros possíveis, digamos, atalhos, para ter a habilitação alemã com mais facilidade ou usar a brasileira por mais tempo. Por exemplo, se dá pra você sair rapidão da UE e voltar, carimbar o passaporte de novo, e aí “zerar” os 6 meses? Entre outras coisas similares.

Eu muito sinceramente duvido que qualquer dessas ideias mirabolantes funcione. Sair da Alemanha e voltar não adianta nada pq o que conta é você ser residente da Alemanha ou não. Se você tem seu Wohnsitz aqui, ou seja, está registrado aqui, é os 6 meses desde seu registro que importam. Se você for viajar e voltar, isso não vai mudar nada.

Você pode sempre ligar na Führerscheinstelle (ou mandar um e-mail) e perguntar diretamente se isso que você pensou vale, ou não. Não precisa dizer que já está fazendo isso, claro, mas você pode, por exemplo, perguntar coisas como:

“Eu vi que posso dirigir 6 meses com a minha carta brasileira. Mas esses 6 meses são contados a partir do quê? Da data no passaporte? Da data do visto? Ou da data da Anmeldung? São datas diferentes, por isso estou na dúvida.”

Aí dependendo da resposta você continua, por exemplo, se a pessoa respondeu que o que importa é a data do carimbo no passaporte, você poderia perguntar:

Mas eu fui viajar no mês passado pro Brasil, então tem dois carimbos no meu passaporte desse ano. Qual data vale?

Ou então você quer saber o que acontece se você dirigir depois dos 6 meses. Você não vai ligar lá e dizer que já está aqui a um ano e continua dirigindo com a carta de fora, mas você pode ligar, fazer várias perguntas sobre a validade da sua carta e como tirar a alemã, e no meio delas perguntar o que acontece se você dirigir sem a habilitação alemã depois dos 6 meses. Ou, se você está com medo de ligar direto pras autoridades, por assim dizer, perguntando o que acontece se você fizer algo ilegal, você pode também ligar pruma auto-escola e perguntar informações sobre transferir sua habilitação brasileira pra cá. Eles vão te informar tudo, e você ainda pode se sentir na liberdade de perguntar na cara de pau que que acontece se você não respeitar a lei.

O que eu recomendo é:

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Comece o quanto antes o processo de trocar a habilitação pela alemã, ESPECIALMENTE se você não precisar ainda. Porque eventualmente você provavelmente vai acabar precisando, e aí se começar o processo só quando precisar, a demora pode resultar em, digamos, você não poder aceitar uma oferta de emprego qualquer que exige que você dirija. Ou coisa do gênero.

Faça as coisas direitinho porque você é estrangeiro aqui e se der merda pra vc as conseqüências podem ser bem piores do que você gostaria (tipo, e se vc tiver mesmo problema sério com a polícia por dirigir sem carta e aí por isso ainda correr o risco de ser deportado? Ou de não conseguir estender seu visto pq tem passagem na polícia? Ou de não conseguir tirar a nacionalidade alemã num futuro distante, se você tem essa expectativa, por ter passagem na polícia? Vale a pena?)

Se você resolver dirigir mesmo não tendo uma habilitação válida aqui, certifique-se de que você sabe exatamente o que está fazendo e os riscos que está correndo. Não se engane dizendo para si mesmo que se a polícia te parar você explica a situação e eles vão te dar um desconto. Sério, o risco que você está correndo não vale a pena.

Leia aqui os posts sobre o processo de validação da CNH na Alemanha:

Dirigindo na Alemanha: validando a CNH

Dirigindo na Alemanha: a prova teórica

Dirigindo na Alemanha: a prova prática


Achou que esse post é só pra fazer terrorismo e as informações dele não são verdade?

Busque as informações na fonte!

Lei alemã sobre dirigir sem habilitação – StVG §21, pode ser lida aqui (site http://www.gesetzte-im-internet.de, do Ministério Federal de Justiça, que disponibiliza todas as leis alemãs online)

Um artigo sobre o assunto de dirigir sem habilitação do site Bußgeldkatalog.de, gerido pela empresa VRF Verlag für Rechtsjornalismus GmbH, que mantém diferentes sites sobre direito e finanças.

Um artigo sobre dirigir com carta estrangeira depois dos 6 meses limite, do IWW (Institut für Wissen und Wirtschaft)

Um artigo sobre o assunto no site Anwalt.de escrito por uma advogada especializada em leis de trânsito, que diz claramente que dirigir com carta estrangeira depois dos 6 meses é o mesmo que dirigir sem carta.

O mesmo num outro site de advocacia.


(Publicado em 20 de Junho de 2019)

Comprando bilhetes de trem (IC/ICE) – Parte 2: Entendendo seu bilhete e viajando com ele

Esse post é a segunda parte do post sobre como comprar bilhetes de trem da Deutsche Bahn. Se você comprou seu bilhete seguindo os passos descritos no primeiro post, você deve ter agora recebido seu bilhete por e-mail e está nesse momento olhando para ele sem entender patavina (assumindo que você está lendo esse post pq quer comprar um bilhete de trem mas não fala alemão).

2. Entendendo seu bilhete

Pois bem, essa é a cara do seu bilhete:

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Eu falei no outro post que você pode ou imprimir o bilhete ou mostrá-lo no celular, mas ATENÇÃO! Para mostrar o bilhete no celular, você precisa baixar o App da DB (DB Navigator) e carregar o bilhete lá! Não é pra mostrar esse PDF no celular (talvez funcione, também, mas eles falam que é pra baixar no app, então melhor não arriscar). Então ou você imprime esse PDF que recebeu por email, ou você carrega o bilhete no app DB Navigator usando para isso o Auftragsnummer  que aparece no bilhete, no assunto do e-mail e, inclusive, é o nome do PDF com o bilhete. É uma sequência de 6 dígitos, números 3/ou letras.

Note que, se você comprou uma passagem para duas pessoas, ou mais, o bilhete é um só. Ali aparece que o bilhete é válido para 2 adultos, um com um cartão de desconto BahnCard 25. (Erw: 2, mit 1 BC25)

As informações importantes desse bilhete, pra você, aparecem nesse quadro:

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A primeira parte (Ihre Reiseverbindung und Reservierung Hinfahrt am…) é o bilhete de ida.

Aparece a estação onde você vai pegar o trem, no caso Dresden-Neustadt, a estação de desntino, no caso Eisenach. A data, o horário de saída e horário de chegada, a plataforma de saída e plataforma de chegada, o número do trem (nesse caso é o ICE 1552), e os detalhes da reserva do assento. Ali diz que são 2 assentos (2 Sitzplätze), no Vagão 21 (Wg. 21), assentos 32 e 34, um na janela (Fenster) e um no corredor (Gang), no vagão aberto (com vagão aberto eu quero dizer sem compartimentos, com os assentos dispostos como num ônibus, por exemplo. Não sei se tem um nome específico em português pra isso. Em alemão é Großraum), Vagão para não-fumantes (Nichtraucher), Vagão com uso de celular permitido (Handy, no post anterior eu expliquei que tem vagões onde não é permitido falar no telefone durante a viagem), e número da reserva. Note que, apesar de estar especificado que o vagão é para não-fumantes, na verdade não há vagão para fumantes, é proibido fumar em qualquer lugar do trem. Eles escrevem em todos só pra deixar claro, mas não há um vagão onde seja permitido fumar.

Na segunda parte (Ihre Reiseverbindung und Reservierung Rückfahrt am…), os detalhes da viagem de volta.

Nesse caso são dois trens, um de Eisenach até Leipzig e um de Leipzig até Dresden Neustadt. Ou seja, você tem que trocar de trem em Leipzig HBF. O primeiro trem chega na plataforma 11 às 21:10 e o segundo trem sai da plataforma 15 às 21:30. Então você tem 20 minutos pra descer do trem, andar até a outra plataforma e pegar o segundo trem.

Ok, bilhete compreendido, como funciona a viagem?

3. A viagem

Você vai chegar na estação, de preferência com alguma antecedência, e a primeira coisa a fazer é, claro, descobrir de qual plataforma sai o seu trem. Embora esteja escrito no seu bilhete, é bom checar no painel grandão do saguão pra ter certeza que não mudou.

Na plataforma, os painéis menores também indicam o próximo trem a sair de lá. Por exemplo, esse painel da foto mostra que o próximo trem chega às 14:51 (Ankunft: chegada), é o trem de número RB 17221 (portanto um trem regional), e está vindo de Zwickau. Normalmente o painel mostra para o onde o trem vai, e não de onde ele vem. Mas esse trem provavelmente ia terminar aí, então o painel só motrava as informações do trem em si, e não da partida, mais pra quem estivesse por exemplo esperando alguém que chegue nesse trem.

Ao procurar seu trem em quaisquer painéis, lembre-se de que a estação que aparece na sua passagem, que é o seu destino, possivelmente não é a estação final do trem. E essa não aparece no seu bilhete. Então procure sempre pelo número do trem e o horário. De acordo com a passagem exemplo que eu coloquei lá em cima, é o ICE 1552 das 18:16 que você vai procurar no painel, e não um trem pra Eisenach. Esse ICE 1552 vai pra Frankfurt (Main), e o nome da cidade que é o seu destino (nesse caso-exemplo, Eisenach), não vai aparecer em lugar nenhum, exceto talveeeez no visorzinho digital do lado da porta de cada vagão do trem.

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O painel acima, da plataforma 3, mostra que o próximo trem, o IC 2448, sai às 19:10 para Hannover Hbf, passando em Leipzig Hbf e Magdeburg Hbf (não aparecem todas as cidades onde ele pára, só as principais). Ali pequenininho do lado tb mostra em que áreas da plataforma estão os vagões da segunda classe, os da primeira classe, e o vagão onde dá pra colocar bicicletas.

Tenha em mente também que, se você  chegar na plataforma muito cedo, é bem provável que o painel da plataforma esteja mostrando ainda algum trem anterior. Fique de olho no painel para saber também se é mesmo o seu trem que está chegando, e não algum outro que vem antes, e também para ficar a par de quaisquer avisos referentes ao seu trem – como atrasos, mudança de plataforma, troca na ordem dos vagões, etc. Na foto acima, aparecem na parte debaixo do painel os próximos dois trens que chegarão naquela plataforma: o IC 2047 vindo de Colônia, e o IC 2079 vindo de Berlim. Se aparece “von …”, significa que o trem está vindo daquela cidade, e não indo pra ela. Então ele provavelmente termina nessa estação e não segue para nenhuma outra, e o trem aparece no painel apenas para informar quem esteja por exemplo esperando alguém que vai chegar naquele trem.

Inconvenientemente para turistas, eventuais avisos nos painéis aparecerão somente em alemão, e serão anunciados no alto-falante da plataforma, também quase sempre só em alemão. Então se você notar algo estranho – algum aviso no painel que você não entende, alguma coisa anunciada no alto-falante a que as outras pessoas esperando na plataforma pareceram ter alguma reação (tipo todo mundo parado na plataforma começou a se mover proutro lugar), o jeito é perguntar para alguém ali.

Se você tiver reservado assento, você vai estar se perguntando como fazer pra encontrar seu vagão e seu assento. É claro que nos vagões estará escrito o número, mas se o trem vem, para 2 minutos pra todo mundo subir e descer, e continua, você vai querer saber mais ou menos onde vai parar seu vagão antes do trem chegar na plataforma. Pra isso servem uns painéis impressos com o mapa dos trens espalhados pela plataforma. Eles têm essa cara aqui:

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Lá você procura pelo seu trem e horário, digamos o ICE 1552 das 18:10. ali no mapinha do trem você procura o número do seu vagão, digamos 27 (os ICs têm vagões numerados 1, 2, 3…, enquanto nos ICEs a numeração começa no número 21). Achando o vagão, você vê em que área da plataforma ele vai parar, são as letrinhas que aparecem na última linha desse painel da foto, A, B, C, D, E ou F. Nesse caso, o vagão 27 estará na região D. Aí você se dirige pra área da plataforma que tenha uma plaquinha com aquela letra, elas têm essa cara:

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Chegando o trem, você vai olhando os números dos vagões que forem passando por você pra ir acompanhando. Ideal é sempre entrar direto no vagão onde está seu assento, pq ficar percorrendo os corredores do trem com um monte de mala na hora que tá todo mundo entrando, procurando seus lugares, guardando malas, dando espaço para outros sentarem, etc, é a maior inconveniência. Especialmente se o trem estiver super cheio e tiver um monte de gente de pé nos corredores, aí se você entrar num vagão distante do seu, se pá vc nem consegue mais chegar no seu assento. Mas, claro, se seu vagão parou do outro lado da plataforma e o trem é quilométrico e sai dali a 2 minutos, melhor entrar logo no meio e ir por dentro até chegar no seu.

MAS CUIDADO! Nem sempre dá pra acessar todos os outros vagões do trem por dentro! Isso porque alguns trens são divididos. São basicamente dois trens presos um no outro, e aí em alguma estação no meio do caminho eles são divididos em dois trens separados e vai cada um prum lado diferente. Então se você entrar no lado errado do trem, vc pode não conseguir chegar no seu vagão por dentro do trem (além de poder acabar indo pra outra cidade pq estava na parte do trem que ia pra outro lugar… ops!). Por isso o ideal é sempre ver no mapinha onde vai estar o seu vagão e entrar direto nele.

No painel da foto abaixo, o trem que está pra chegar é um desses com dois pedaços, e o mapa do trem aparece já no painel eletrônico (nem sempre aparece).

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Nesse exemplo, o trem ICE 1652 das 08:16 para Wiesbaden HBF têm duas metades, a primeira com os vagões 31 a 38, nas áreas A a C da plataforma, e a segunda metade têm os vagões 21 a 28, nas áreas C a F da estação. Então se seu vagão for o 24 e vc entrar no trem no vagão 32, vc não vai conseguir chegar no seu vagão por dentro do trem.

E se você não tiver reservado assento, tome cuidado em trens que se dividem de entrar na metade certa (aí o melhor é perguntar prum funcionário do trem na hora de entrar no mesmo, se vc não tiver certeza de qual metade é a sua).

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“Leipzig IC” by ArtVandelay13 – Own work – Wikipedia

Os números dos vagões estarão escritos nos visores ao lado das portas dos vagões, onde também vai estar escrito o número do trem, pra você checar de novo e não entrar no errado. Como cada vagão tem duas portas, uma em cada extremo do vagão, está escrito também a numeração do assento que é mais próxima daquela porta. Então, por exemplo: Numa porta estará escrito: 1-60 e na outra porta: 61-120. Quer dizer que os assentos 1-60 daquele vagão estão na primeira metade, e os assentos 61-120 na segunda metade. Se seu assento for o 34, digamos, o ideal é entrar na porta que estiver indicando 1-60, que a distância até o seu assento é mais curta. E quanto menos você tiver que atravessar corredores tropeçando nas pessoas e batendo sua mala pelos lados, melhor.

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Nesse IC da foto acima, o vagão na nossa frente é o vagão número 5. O 1 gigante ali em cima indica a classe, não o número do vagão. Então vagão 5 é da primeira classe. Entrando por essa porta você está mais perto dos assentos 10-50 do andar debaixo e 100-140 do andar de cima. O símbolo com o “Psst” que aparece aí indica que é um vagão “silencioso”  (onde não é permitido falar no celular durante a viagem, ou conversar alto, ou fazer barulhos desnecessários).

Entrando no trem, a numeração dos assentos está marcada ou sobre os assentos, ou, nos trens mais novos, na lateral encosto do assento do corredor:

Você vê o número do assento e a indicação de se o assento é na janela ou no corredor. Então nessa foto do exemplo o assento 33 é o da janela, e o 32 é o do corredor. No visorzinho aparece a informação da reserva do assento. Se o assento está reservado, aparecerá as estações entre as quais ele está reservado. Por exemplo, se você está indo de Hannover a Nuremberg num trem que começa em Hamburgo e vai até Munique, e vc reservou assento, aquele assento estará reservado apenas entre Hannover e Nuremberg. Então até o trem chegar em Hannover, vai aparecer no visorzinho “Hannover HBF – Nürnberg HBF” Então se uma outra pessoa entrar no trem em Hamburgo para descer em Hannover, ela pode tranquilamente sentar naquele assento sabendo que ele está reservado apenas a partir de Hannover.

O aviso do visorzinho vai desaparecer 15 minutos depois do trem sair da estação marcada como início da reserva. Então no nosso exemplo, 15 minutos depois do trem partir de Hannover HBF, o aviso da reserva desaparece do visor. Isso porque seu assento fica reservado por 15 minutos, depois desse tempo ou vc está sentado lá, ou o assento fica liberado pra quem quiser sentar lá. Outro motivo pra vc não entrar num vagão muito distante do seu, no trem.

Talvez você se pergunte, olhando a foto acima: Mas e esse “ggf. freigeben“, significa o quê? Alguns assentos terão esse aviso no visor porque eles ficam separados para reservas de última hora, ou outras situações como para pessoas com problemas de mobilidade. ggf. freigeben significa que a princípio vc pode sentar lá, mas pode ser que de repente apareça alguém com uma reserva praquele assento, ou com o direito de sentar lá por um motivo qualquer. Ou seja, sente lá só se todo o resto estiver ocupado.

Às vezes os visores por algum motivo qq não estão funcionando. Aí pode bem ser que você esteja lá sentandinho de boas num assento sem reserva marcada, e aí aparece alguém com reserva praquele assento. Paciência, quem reservou tem direito ao assento, independente do visor estar ou não funcionando.

Também pode ser que você tenha reservado um assento e ao chegar lá tenha alguém sentado lá – que ou não sabia que tava marcado no visor a reserva pq nunca viajou de trem, ou pq o visor tava desligado por um motivo qq na hora que a pessoa sentou, ou pq a pessoa sentou lá na esperaça de que você não aparecesse, ou não tivesse coragem de pedir pra ela ceder o lugar. Nesses casos eu não faço a menor cerimônia, aviso sem hesitar que o assento está reservado (aliás, acontece frequentemente). Se por algum motivo a pessoa se recusar a sair do seu assento (nunca me aconteceu, mas já presenciei ocorrer com alguém), procure logo o fiscal de bilhetes pra resolver o assunto. MAS Antes de chegar chegando falando que a pessoa está no seu assento, certifique-se de que ela está, mesmo, no seu assento! E que você não está no vagão errado sem querer, ou olhou errado a numeração.

Finalmente, pode ainda ocorrer de o assento não estar reservado mas estar ocupado por um objeto inanimado que não sente dor nas costas nem cansaço nos joelhos, digamos uma mochila. Uma situação recorrente em meios de transporte alemães, independente da quantidade de pessoas de pé no corredor ao lado do assento ocupado pela mal-educada mochila. Não espere que um alemão vá tirar sua mochila do lugar ao seu lado ao ver uma pessoa se aproximando e sendo aquele o único assento vazio, não vai ocorrer. Você vai ter que pedir. Peça, sem cerimônia. Mochila não precisa sentar. (claro, apesar da tremenda falta de educação de deixar uma mochila ocupando um assento num trem cheio, pergunte educadamente se o assento está livre que de repente a mochila é de alguém que só foi até o banheiro e já volta… Regras sociais locais: claro que vc pode levantar e ir ao banheiro ou buscar um cafezinho sem perder seu lugar.)

O seu bilhete será verificado pelo fiscal que passa depois de cada estação olhando os bilhetes. Se o fiscal for o mesmo que já passou por ali antes, ele passa dizendo “Zugestiegene Fahrgäste, Fahrscheine bitte”, ou “Passageiros que entraram agora, a passagem, por favor.” O que significa que se você já mostrou sua passagem pra ele antes, você pode ficar quietinho de boas sem mostrar de novo. Se eles decoram todo mundo de quem eles já olharam a passagem? Tenho minhas dúvidas. Mas se você confidentemente continuar fazendo o que estava fazendo sem dar atenção pro fiscal passando, ele quase provavelmente vai se convencer de que já viu sua passagem. Se você for uma pessoa que passa despercebido por aqui. Se você for alguém diferente da aparência típica alemã, certamente o fiscal vai perceber que não te viu antes. Se mudar o fiscal no meio do caminho, aí sim ele vai pedir pra ver todas as passagens de novo.

Se você baixou o app e colocou o ticket nele, você pode mostrar o “Handy-Ticket” no celular em vez de levar o bilhete impresso. E se você tiver também reservado assento, você pode fazer um check-in via app e aí não precisa mostrar bilhete nenhum pra fiscal nenhum. Esse sistema de check-in é uma coisa nova, o fiscal recebe na maquininha dele o aviso de que o passageiro do assento xyz já fez o check-in (e está portanto com o bilhete em ordem e sentado no assento que reservou) e não precisa verificar o bilhete do mesmo.

Durante a viagem, fique atento caso a sua estação não seja a estação final do trem. Em estações menores, o trem pára apenas por dois, três minutos, então você já tem que estar preparado para descer do trem na hora que ele chegar na estação. Atrasos de alguns minutos não são incomuns. Infelizmente, nos últimos temposa atrasos de muitos minutos também não tem sido incomuns. Se o trem estiver atrasado e você estiver correndo o risco de perder sua conexão, normalmente o condutor vai avisar no alto falante a situação de todas as conexões – se vai dar pra pegar, qual a plataforma, ou qual alternativa tem caso a conexão vá ser perdida pelo atraso. Normalmente eles fazem esses anúncios em inglês também. Se você ainda estiver em dúvida, pergunte para o fiscal de passagens que ele te dá as informações direitinho.

Se você vai pegar um segundo trem ao descer do primeiro, preste atenção que às vezes o tempo para a troca é BEM curto, por exemplo 4 minutos. Nesses casos a plataforma do segundo trem costuma ser a mesma, ou a que fica logo a frente da em que você vai descer. Mas esteja preparado para sair rápido e andar/correr para a plataforma do seu segundo trem, especialmente se o primeiro chegar atrasado.

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Ok, acho que é isso o que dá pra falar sobre os ICEs e ICs.

Nos próximos dias posto ainda a parte 3 deste longo post sobre comprar passagens de trem, falando de como funcionam as passagens para os trens regionais!


(Publicado em 18 de Junho de 2019)

Comprando bilhetes de trem (IC/ICE) – Parte 1: Passo a passo no site da Deutsche Bahn

Já faz um tempo eu escrevi um post bem completo sobre como funcionam os trens por aqui – os tipos de trem, como encontrar seu trem na estação, como encontrar seu vagão no trem, entre outras coisas. O post é de 2015, mas as informações ainda estão em dia, só tem uns trens mais modernos entre os que aparecem na foto, mas fora isso o resto funciona da mesma maneira.

Mas uma grande pergunta para uma pessoa que está viajando ou morando na Alemanha sem falar alemão pode ser: com comprar uma passagem de trem. Na verdade, alguns detalhes sobre comprar passagens e pegar trens até pra alguns alemães são misteriosas – tem gente que é tão acostumado a viajar de carro que praticamente nunca na vida pegou um ICE, embora em várias situações seja muito mais prático, e em algumas inclusive mais barato.

Curiosamente, eu comecei esse post uns dias atrás, escrevi esses dois parágrafos e deixei guardado. Aí ontem uma colega do trabalho me pede pra ajudar ela a comprar um bilhete de trem pelo celular porque ela nunca comprou e não tinha ideia como fazia! (sim, alemã).

Então pronto, faz mesmo sentido escrever esse post.

Bom, há 4 alternativas para você comprar seu bilhete de trem: Ou você baixa o App da Deutsche Bahn (DB Navigator) e compra pelo app, ou você compra pela internet normal, ou você compra numa das maquininhas de bilhetes disponíveis nas estações de trem, ou você compra no guichê na estação (mas só as estações maiores têm guichês de venda de bilhetes). Comprar no guichê é, contraditoriamente, a pior opção. Se você não ler esse post e tentar escolher a melhor forma de comprar seu bilhete, você provavelmente chegará à conclusão de que o mais fácil é ir no guichê, onde um funcionário treinado não apenas te venderá o bilhete correto, como também saberá te informar qual opção de bilhete faz mais sentido para a sua viagem.

Nope.

Na minha experiência com compra de bilhete em guichês, o atendente vai te vender o bilhete que você pedir mas não vai fazer o menor esforço de te informar se houver alguma opção melhor ou mais barata. Em uma ou outra ocasião eu perguntei e a resposta foi “não sei, isso você que tem que saber”. Hein?? Eu?? Achei que o funcionário da DB fosse ele não eu. Desde então eu me esforcei pra entender como funcionam as variações de bilhetes e ser capaz, assim, de descobrir por conta própria qual a melhor opção. Como você pode imaginar, eu nunca mais tentei ou tentarei comprar um bilhete no guichê. Mas essas experiências ruins foram de épocas passadas em que as pessoas nem tinham smartphones com internets sempre disponíveis. De lá pra cá passaram vários anos e se pá nesse meio tempo a Deutsche Bahn se esforçou em treinar melhor seus atendentes e agora o pessoal do guichê é super prestativo e te dá todas as dicas. Você pode testar, se quiser.

Oooooou você pode ler esse post até o final e ficar craque em comprar bilhetes de trem na Alemanha por conta própria.

As outras três opções – pelo app, pela maquininha na estação ou pelo site – são parecidas, é mais o layout da tela que muda. Eu vou explicar como comprar um bilhete pelo site, e depois comentar algumas particularidades do app ou da maquininha.

Entra lá em bahn.de e a gente vai seguindo junto.

Primeiro é bom você ter uma noção dos diferentes tipos de trem que existem. Eu falei sobre isso com mais detalhes no post sobre trens, mas resumindo: Tem os trens Regionais (Regionalbahn, RB ou Regionalbahn Express, RE), que conectam cidades e vilas numa mesma região. Vilas e vilarejos menores são conectados apenas com o sistema de trens regionais. Tem os trens entre cidades (Intercity, IC), que são mais rápidos, param em menos locais e fazem trechos mais longos. E tem os trens expressos (Intercity Express, ICE), que fazem as conexões mais rápidas, parando em menos estações, e com os trens mais modernos. Essas quatro abreviações são as mais importantes pra você saber o que você está comprando: RB, RE, IC ou ICE. Há ainda outros tipos também, mas esses são os básicos e mais comuns.

Pra começar a sua procura, você tem que ter uma idéia de qual desses trens você vai provavelmente precisar. Se sua viagem for algo curto, de uma cidade para uma outra vizinha, do mesmo estado, é um trem Regional, RB ou RE. Se for uma viagem mais longa, entre cidades grandes, é um IC ou ICE. (Você pode, claro, ir de Berlin a Stuttgart pegando só trens regionais se quiser, mas vai demorar a vida e nem vai necessariamente sair muito mais barato). Então dependendo de qual das duas opções for, a maneira de buscar o bilhete vai ser diferente. Como quero escrever um post bem completo, vou separar em pedaços. Essa primeira parte vai ser sobre o passo a passo para comprar um bilhete para os trens IC ou ICE. Na segunda parte vou explicar como funciona seu bilhete, o que está escrito nele, como encontrar seu assento, e como é a viagem. E na terceira parte, como funcionam os bilhetes para os trens regionais. Entõa bora:

Comprando um bilhete para os trens rápidos de longa distância IC ou ICE.
1 . Passo a passo da compra

Entrando no site da Deutsche Bahn, já logo lá na página inicial estão os campos de busca de passagens. Você pode usar esses campos para buscar passagens se vc tiver um horário específico quando você quer pegar o trem. Se você for um pouco mais flexível em termos de horário, uma boa alternativa é procurar a passagem usando o Sparpreis-Finder, a segunda aba preta ali logo em cima dos campos de busca, que é um sistema de busca que te mostra todas as passagens do dia escolhido, organizadas da mais barata à mais cara. É uma maneira boa de comparar os preços de acordo com o horário e ajustar o horário da sua viagem de acordo com o que for mais em conta.

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Pelo Sparpreis Finder ou pelo sistema de busca normal, as informações que você tem que colocar são basicamente as mesmas: estação de origem, estação de destino, data, horário. Se você clicar ali na flechinha ao lado das estações, abre o resto da página com o resto das informações: data e horário do retorno, número de passageiros e descontos de cada passageiro (se for criança é mais barato, ou se tiver um cartão de desconto – Bahncard – é lá que vc indica). Se você for comprar só uma passagem de ida, é só deletar o campo da passagem de volta clicando no simbolozinho do lixinho ali na direita (aparece na imagem a seguir). A página de busca no Sparpreis-Finder é assim:

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Em vez de colocar um horário específico, você coloca uma faixa de horário (pode ser o dia inteiro) que ele mostra todos as conexões praquela faixa de horário, pra você comparar.

Algo que você vai notar ao digitar uma cidade na estação é que: as cidades médias e maiores costumam ter mais de uma estação de trem. Digamos que você está indo de Colônia a Berlin. Ao digitar qualquer uma dessas duas cidades, o site te mostra várias opções de estações naquela cidade:

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Quase sempre tem uma estação chamada “Nome da Cidade HBF”. HBF é abreviação de Hauptbahnhof, que significa estação central (bom, na verdade significa “estação principal”, mas em português não se diz estação principal mas estação central). Ou seja, a estação principal, e maior, daquela cidade é a HBF. Mas se você sabe exatamente onde você vai, você pode procurar pela estação específica que fica mais próxima da sua casa/hotel/destino final. Não precisa nem ser uma estação de trem, na verdade. Até os pontos de ônibus aparecem, se você procurar pelo nome. O site vai te mostrar a conexão completa até chegar naquele ponto, ou seja: o trem ICE de uma cidade pra outra + o trem/tram/ônibus municipal que te leva até aquela estação ou ponto específico que você quer. É bem prático pq nooooormalmente o preço não muda. A passagem de ônibus ou tram ou o que for vai estar inclusa no preço do trem. Então é sempre ideal colocar as estações específicas que fazem mais sentido pra você. Se você colocar só a conexão de estação central pra estação central e aí quiser pegar um ônibus na cidade pra chegar no seu destino final, você vai ter que pagar o preço do ônibus extra e separado.

NEM SEMPRE a passagem do transporte municipal estará inclusa sem mudar o preço do trem, então vale a pena dar uma comparada.

Pois bem, vamos supor que estamos viajando da estação central de Colônia (Köln HBF) para a estação Friedrichstraße em Berlin, e você vai no dia 03 de Setembro e volta no dia 10 de Setembro. A página que o Sparpreis-Finder vai te mostrar é a seguinte:

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Você vê na coluna da esquerda um resumo das informações que você deu, daí de um lado as opções de passagens de ida, organizadas da mais barata pra mais cara, e do outro lado, as opções de passagens de volta. Você vê também o horário de saída e de chegada, a duração da viagem, a quantidade de trocas de trem, e o tipo de trem. Clicando ali na lupinha, o site te mostra bonitinho os detalhes da viagem: onde são as trocas, quanto tempo de espera entre os dois trens e qual o tipo de trem pra cada trecho. Digamos que a melhor opção na nossa opinião é ida às 12:48, custa 19,90€, a viagem dura 4:29 e vc troca de trem uma vez. Para a volta vamos escolher um horário similar, 12:37. Mesmo preço, duração de 4:32, uma troca. O preço que o site me mostra aqui é o preço total para todos os passageiros que você colocou nos campos de busca. Você talvez tenha notado – se prestou atenção na coluna da esquerda – que eu coloquei um adulto e duas crianças. Então os preços mostrados são para o adulto e as duas crianças, juntos. No caso dessa passagem as crianças tão indo de graça. Sinceramente não sei como funciona com preços de passagens pra crianças, se é sempre de graça, se depende da conexão, não tenho filhos portanto nunca precisei saber e portanto não sei. Rolando a página até o final aparece lá no cantinho direito um botão vermelho que diz “Zur Buchung“, que é o que vc vai clicar para reservar a passagem escolhida.

Mas nós vamos antes dar uma olhada em como escolher a passagem pelos campos de busca normais, quer dizer, sem ser pelo Sparpreis-Finder. Digitando lá as informações de busca, o site te mostra a seguinte página:

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Eu coloquei 12:00 como horário, então o site me mostra três opções de trem, as três primeiras a partir do meio dia. A primeira opção é aquela lá que nós escolhemos no Sparpreis-Finder. Aqui você vê dois preços diferentes, o “Sparangebote“, que é a oferta econômica, e o Flexpreis, que é o preço flexível, bem mais caro. O Sparpreis-Finder é especificamente para comparar os preços da oferta econômica, por isso ele não te mostra o preço mais caro, o Flexpreis. Quando for a hora de escolher os preços, mais pra frente, eu explico a diferença. Por enquanto vamos escolher a conexão. Se eu clicar na flechinha onde diz “Details einblenden”, ele me mostra os detalhes daquela conexão:

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Essa conexão começa com um ICE que sai de Colônia às 12:48, chega em Berlin HBF às 17:06. De lá eu tenho que andar até a estação do S-Bahn (trens metropolitanos), e pegar o S 3  na direção Erkner, que sai às 17:15 e chega em Berlin Friedrichstraße às 17:17.

Ok, parece razoável, vou escolher essa. Eu clico em Rückfahrt do lado da conexão escolhida, pra escolher em seguida a conexão da volta:

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Novamente, como eu coloquei meio dia como horário, ele me mostra as primeiras conexões a partir do meio dia, em ordem de horário. Vou escolher a primeira que é aquela que tínhamos visto no Sparpreis-Finder. Note que aqui o site está me mostrando como preço 39,80€ e não os 19,90€ que apareciam no Sparpreisfinder. Isso porque esse preço já é o das duas passagens juntas: de ida e de volta. A passagem de ida custava 19,90€, e escolhendo essa passagem de volta o preço total vai ser 39,80€. Ou seja, ela custa 19,90€ também. E mesma coisa: o preço mostrado é o total para todos os passageiros. Aqui eu coloquei um só.

Aí a página seguinte me mostra as opções de tarifa para aquela viagem:

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Estão aparecendo, para essa conexão, 4 opções diferentes de tarifa:

A Super Sparpreis é a mais barata, sai um total de 39,80€. Essa tarifa não te dá direito de cancelamento da passagem, você fica fixo nessa conexão específica, e não tem um City-Ticket incluso (já explico).

A Sparpreis é um pouquinho mais cara e te dá algumas vantagens: você pode cancelar a passagem pagando uma taxa (normalmente é 10€), e vem com o City-Ticket. Se sua passagem tem City-Ticket incluso, significa que você pode pegar ônibus e trams municipais à vontade pra chegar no seu destino final, no dia da viagem. Então, por exemplo. Se eu chegar em Berlin HBF e quiser ir pra algum outro canto qualquer de Berlin, não preciso me preocupar de comprar uma passagem de metrô que o bilhete de trem vai servir. Você está se perguntando: uai, mas pra que serve se vc já pode comprar a passagem especificamente pro ponto final que vc quer ir e o preço normalmente é o mesmo? Bom, talvez você não saiba ainda exatamente pra onde vc vai querer ir (digamos se vc ainda não reservou o hotel), ou então você vai querer ir mais tarde pro destino final, e não logo ao chegar na estação central… aí o City-Ticket resolve.

Nesse caso eu acho que não faz sentido comprar o Sparpreis. Mas se vc acha que tem boas chances de precisar cancelar o trem, for uma conexão bem mais cara que essa (19,90€ é o mais barato possível para um ICE se você não tiver cartão de desconto), ou coisa assim, aí talvez valha a pena. E às vezes a diferença de preço entre o Super Sparpreis e o Sparpreis é bem pequena. Fica a seu critério.

A tarifa seguinte é o Flexpreis. Ela é bem mais cara que as tarifas econômicas pq o bilhete não fica fixo a um trem específico. Você pode pegar qualquer trem naquela conexão durante o dia da viagem. Então se, por exemplo, você compra um bilhete pras 16h mas aí sua reunião atrasou e vc precisou sair às 17, vc pega o trem seguinte sem precisar trocar o bilhete. É bem prático para viagens a trabalho, viagens curtas (bate-e-volta) e situações onde você não consiga saber exatamente qual horário você vai poder ir. Nesse caso a diferença entre o Sparpreis e o Flexpreis é gigante pq o Sparpreis pra esse trem está realmente muito barato. Mas normalmente a diferença não é tããão grande assim, esse é um caso extremo.

E finalmente, o site te mostra também uma opção de viagem na primeira classe. Eu escolhi a segunda classe ao procurar as passagens, por isso ele me mostra as várias tarifas de segunda classe e só uma opção de primeira, que é mais uma dica assim caso de repente nem tenha considerado ir de primeira classe pq achei que fosse ser uma diferença de preço mto maior, sei lá. Nesse caso ele te mostra o Super Sparpreis na primeira classe, a passagem sai por 71,80€ e você tem assentos com mais espaço e reserva de assento inclusa. Se você colocar primeira classe no campo de busca, ele vai te mostrar aqui as diferentes tarifas na primeira classe, incluindo o Flexpreis, etc.

Bom, escolhida a tarifa você clica em Weiter.

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Na próxima página o site tenta te vender os cartões de desconto. Que são, a propósito, ótimos! Se você viaja de vez em quando de trem, o BahnCard 25 pode valer super a pena, te dá 25% de desconto em todas as viagens em ICEs e ICs. A gente tem o 25 faz uns anos já, achamos super prático. Se você viaja bastantão, tem inclusive o de 50% de desconto. E se você for funcionário da DB, ganha um BahnCard 100! Ou seja, pode viajar à vontade! Que sonho!

Mas imagino que se vc está aqui lendo esse post é pq vc está só viajando pela Alemanha rapidão, então não vale a pena comprar cartão de desconto nenhum. Rola a página até o final e clica em Weiter.

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A página seguinte é a página de login. Você pode fazer login na sua conta se tiver uma, criar uma conta se não tiver nenhuma, ou fazer a sua reserva sem conta. Ter a conta facilita pra vc ver lá seus bilhetes comprados bonitinho, é mais rápido pq seus dados já estão salvos, etc. Mas se você está só viajando pela Alemanha rapidão, não tem pq perder tempo fazendo uma conta, vai lá em “Ohne Anmeldung buchen” e clica no botão cinza “Weiter“.

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Agora é a hora de escolher se você quer reservar assento. Bom, primeiro você escolhe lá se quer um bilhete digital ou por correio. Não sei pq motivo misterioso alguma pessoa escolheria pagar 4,90€ pra enviarem o bilhete pra vc por correio se dá pra usar o bilhete digital. Escolhe o bilhete digital. Você pode imprimi-lo ou mostrá-lo no celular.

Aí ali embaixo aparece a opção clicável “Reservierung 1 Sitzplatz – 9 EUR“. Aqui na Alemanha os bilhetes de trem não estão ligados a um assento no trem. Isso significa que, se o trem tiver mto cheio: sim, você pode acabar tendo que viajar de pé.

Não é incomum que isso ocorra, por isso eu SEMPRE reservo. Só não reservo assento quando estou viajando sozinha num horário incomum (digamos saindo às 5 da manhã ou às 14h de uma terça-feira, ou coisa assim). E mesmo nessas ocasiões eu fico de olho nas informações e reservo assento correndo de última hora se achar que tô correndo o risco de ficar de pé. Dá pra reservar assento separado da compra do bilhete (ou seja, comprar só a reserva, sem o bilhete, se vc já tiver o bilhete). Se você comprar a passagem mais perto da data da viagem (não como nesse exemplo, 3 meses antes), o site tb te mostra, na hora de escolher a conexão, se é esperado que o trem esteja cheio ou não. Se você não quiser reservar assento logo de cara, você pode deixar pra checar poucos dias antes da viagem o que o site te diz e reservar assento se estiver dizendo que o trem vai estar bem cheio. Outra maneira de checar isso é procurando no site o trem que você vai viajar, pedindo pra reservar o assento, e aí checar se ainda tem bastante assento não-reservado, ou se já está quase tudo reservado. Mas pra evitar todo esse stress, eu quase sempre reservo logo de cara, é o mais confortável. Custa 4,50€ por viagem (na nossa viagem-exemplo o preço é 9€ pq é ida e volta, então 4,50€ pela ida e 4,50€ para a volta.

Reservar assentos só é possível em trens de longa distância como os ICs e ICEs. Nos Regionais e S-Bahns não tem assento marcado, então se a sua viagem contiver uma combinação de trens (como a nossa, que tem um ICE até Berlin HBF e de lá a Berlin Friedrichstraße um S-Bahn), e vc escolher reservar assento, só vai reservar pro ICE.

Se você ticar o quadradinho de reservar assento, ele vai te perguntar que tipo de assento você quer. Eu normalmente ignoro isso e clico direito em Weiter pq vc pode na página seguinte escolher o assento específico no mapa do trem. Mas pra explicar as opções que ele te dá:

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Abteilart:
beliebig significa indiferente. Großraum significa vagão aberto (sem compartimentos), Großraum mit Tisch significa um assento numa mesinha no vagão aberto, e Abteil significa compartimento (aquelas salinhas com 6 assentos como nos trens pra Hogwarts). Eu acho compartimentos super desconfortáveis pq vc fica lá apertado com 5 desconhecidos. Mas na verdade a maior parte dos trens praticamente não têm compartimentos. Os ICEs têm só um ou dois compartimentos aqui e ali que são marcados como áreas para famílias, que é pras pessoas que estão viajando com crianças barulhentas reservarem aqueles lá e deixarem os outros passageiros livres de gritos e choros infantis.

Platzlage:
beliebig, indiferente. Fenster, janela. Gang, corredor.

Bereich:
Aqui é assim: os trens tem alguns vagões que são Handybereich (“área de celular”), e vagões que são Ruhebereich (área de silêncio). Quer dizer, vagões onde vc pode fazer barulho como ficar a viagem inteira conversando no celular, e vagões onde é pra vc ficar quieto no seu canto. Se você estiver viajando com crianças, escolha Handybereich! Se você estiver no Ruhebereich, não fale no celular durante a viagem! E Handybereich ou Ruhebereich, se você for assistir filme no Netflix, ouvir música no celular, ou seja o que for, use fone de ouvido que mesmo no Handybereich seria bem mal-educado ouvir sem fone.

Mas, como eu disse, eu sempre ignoro essas escolhas e sigo pra próxima página:

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Lá ele te mostra os assentos escolhidos pra cada trem e te dá a opção, se vc clicar em “Sitzplatz auswählen”, de escolher o assento específico que te mais apetecer, no mapa do trem:

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Aí você fica a vontade de pensar no que é melhor pra vc: um assento numa mesinha? Bom, bastante espaço pro seu laptop ou o que for, mas meio desconfortável pq vc senta de frente pra outra pessoa e fica batendo perna com ela. Assento próximo da entrada do vagão? Pode ser prático se o trem estiver mto cheio, pra vc chegar logo no seu assento. Assento do lado da estante de mala? Muito prático se você estiver com malas grandes pq a estante que fica em cima dos assentos é minúscula nos ICEs. Enfim, vários critérios. Vc pode também escolher um assento que fique perto da área pra bicicletas, se vc estiver levando uma bicicleta, ou no vagão vizinho ao vagão restaurante, se vc quiser mto ir no vagão restaurante durante a viagem, sei lá. Várias opções.

Escolhidos os assentos, a próxima página é a página de pagamento:

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Caso você tenha escolhido reservar sem login, você tem que primeiro colocar seus dados ali em cima. Depois, escolher o modo de pagamento. São as seguintes opções:

SEPA-Lastschrift é débito automático da sua conta, só funciona se você tiver uma conta no site, tiver autorizado a DB a debitar automaticamente da sua conta, e tiver, claro, uma conta num banco alemão.

Sofort é um sistema para débito automático que vc autoriza na hora via um site terceiro que conecta com seu banco. Para usar esse método de pagamento você precisa ter uma conta num banco alemão.

Se você está só viajando por aqui, provavelmente vai escolher uma das duas opções seguintes: cartão de crédito ou Paypal.

Escolhido o método de pagamento e inseridos os dados do mesmo, você clica em Weiter e é levado para a página final para conferir todos os dados da viagem e clicar confirmar. Essa página eu não vou mostrar pq eu teria que colocar os dados do cartão e não quero correr o risco de comprar uma viagem de Colônia pra Berlin sem querer, rsrsrs.

É isso, comprado o bilhete você vai receber o mesmo por email!

Amanhã eu posto a parte 2: entendendo seu bilhete e a viajando com ele!


(Publicado em 15 de Junho de 2019)

Eleições na Alemanha

No domingo ocorreram aqui as eleições para o parlamento europeu.

Eu já escrevi alguns posts diversos sobre eleições por aqui, mas sempre é um assunto bom já que as coisas mudam e tem tantas complexidades que sempre tem tópicos relacionados a serem discutidos. E essa foi a primeira vez que eu votei aqui sendo alemã.

E aqui em Dresden, no domingo foram eleições não só do parlamento europeu, mas também da (equivalente à) câmara municipal, e do conselho distrital, que é uma coisa nova aqui em Dresden. Então achei que valia a pena fazer um post com o overview de tudo o que se vota por aqui.

MAS acontece que é diferente em cada cidade e estado. Depende de como cada estado ou cidade organiza as suas subdivisões, e mesmo o tempo de cargo difere de um estado ou cidade para outro/a. Então esse post é especificamente sobre o que se vota se você é um cidadão alemão residente em Dresden. Algumas dessas eleições você vota no resto da Alemanha também, e outras podem ser um pouco diferentes se você mora em outro lugar da Alemanha.

Aqui são 6-7 eleições diferentes. Pera, 6-7? Mas é 6 ou 7? Vou explicar no final!

Uma observação antes de começar o falatório: após terminar esse post eu percebi que algumas partes dele são bem detalhadas e podem ser complicadas se você não se interessa pelos pormenores de como funciona a eleição. Esses trechos eu deixei em azul escuro, aí qualquer coisa se você achar que tá chato, pula pro próximo parágrafo em preto e pronto! 😉

Primeiro, algumas informações gerais do funcionamento da votação:

Como no Brasil, as eleições aqui acontecem sempre aos domingos. Os locais de votação ficam abertos das 8:00 às 18:00. Não é obrigatório votar, só vota quem quiser. A votação ocorre em cédulas de papel, que são normalmente uns negócios gigantescos. Por exemplo, a das eleições do parlamento europeu era assim:

stimmzettel_parteien_europawahl_2019

A largura é de um A4.

E o negócio todo funciona da seguinte maneira: Você não precisa se inscrever em lugar nenhum, escolher lugar de votação, nada disso. Você está automaticamente inscrito como eleitor na cidade em que tiver sua residência registrada. O local de votação também é definido automaticamente, o mais próximo possível do seu endereço.

Uns dois meses antes das eleições, você recebe uma carta da prefeitura da sua cidade te avisando das eleições que vão ocorrer. Eu bobona esqueci de tirar uma foto da carta, quando tiver a próxima eu adiciono aqui. Nessa carta aparecem as informações sobre o que você vai votar, quando é a votação, o endereço do seu local de votação, a seção eleitoral, e o seu número nela. No verso, vem um formulário que você preenche e envia de volta caso queira votar por correio. Como eu já expliquei num post só sobre isso, aqui na Alemanha é possível enviar o seu voto por correio, caso você não vá estar na sua cidade no dia da eleição.

Mas se você quiser votar normal lá no dia, ao receber essa carta você não precisa fazer nada além de guardá-la cuidadosamente e esperar o dia das eleições.

Quando chegar o dia, é dessa carta que você precisa pra ir lá votar. Como no Brasil, a votação ocorre em escolas. Você vai lá no endereço da sua carta, acha a sala da sua seção eleitoral e espera a sua vez. Normalmente é bem tranquilo, mas dessa vez esperamos 1 hora na fila! Não sei pq estava demorando tanto no domingo, mas a taxa de participação dessa vez foi um tanto mais alta que nos últimos anos, talvez por isso.

Chegando a sua vez, você passa numa primeira mesa onde eles olham a sua carta, fazem um xizinho no seu nome numa lista e te dão as cédulas. Importante uma observação: você não necessariamente pode votar em todas as eleições que estão ocorrendo ao mesmo tempo. Por exemplo: se se está votando para o parlamento europeu e para o parlamento estadual do estado em que você mora, e você for um cidadão europeu mas não alemão, você vai poder votar apenas no parlamento europeu. Na sua carta aparece isso, e também nessa lista na primeira mesa, em qual caso você receberia apenas uma das cédulas em questão, a para o parlamento europeu.

Então você pega as suas cédulas e espera uma das cabines de votação ficar livre. Você senta lá, abre suas cédulas, vota direitinho com um x no local desejado, fecha sua cédula, e vai para a segunda mesa, onde você entrega sua carta, eles conferem de novo e ficam com a mesma, e abrem a urna pra você depositar sua cédula. Uma urna pra cada cédula (quando é mais de uma, elas são codificadas por cor, pra não confundir).

Nem sempre é só um xizinho a ser feito, às vezes são mais. Depende de como funciona cada eleição: às vezes você vota prum partido, às vezes você vota diretamente em alguém, mas pode votar em até 3 pessoas, as vezes você vota prum partido e pruma pessoa separadamente… tem várias variações que eu vou explicar direitinho logo menos.

Na carta diz também que você tem que levar seu documento de identidade, mas acho que eles só olham se algo estiver estranho com a sua carta, sei lá. Normalmente nem precisa mostrar.

Então vamos falar das eleições diferentes uma a uma.

Vou ordenar de cima pra baixo, ou seja, das mais gerais para as mais locais. Pra cada uma vou colocar, como primeira informação, a duração do cargo, a data da eleição mais recente (ou da próxima, se for mais perto que a mais recente) e quantos votos/para o quê.

1 – Europawahlen – Eleições para o Parlamento Europeu
A cada 5 anos | 2019 | 1 voto, para um partido

O parlamento europeu fica em Strasburgo, na França, e é constituido por 751 assentos, distribuídos por país proporcionalmente à população do mesmo. A Alemanha, sendo o país mais populoso da UE, tem direito a 96 assentos, seguido em quantidade da França (74), Reino Unido (73), Itália (73) e Espanha (52). Os países com a menor representação são Malta (6), Luxemburgo (6), Chipre (6), Estônia (6) e Letônia (8). A proporção de assentos por população não é linear. Os países com populações maiores tem menos representantes por pessoa do que países com populações menores. Pegando os dois extremos pra comparar: A Alemanha (com 82 mi de habitantes) tem 1 representante pra cada 838.799 pessoas. Malta (com 400 e pouco mil habitantes) tem 1 representante pra cada 70.227 pessoas. Esse ajuste é necessário porque se fosse uma proporção linear, seriam 200 parlamentares alemães pra um parlamentar maltês. 

Nas eleições vota-se para um partido, de uma lista de partidos registrados no seu país (ou no país que você reside, se você for um cidadão europeu morando em outro país europeu que não o seu de origem). Então cada país tem partidos diferentes, e os assentos no parlamento são ocupados proporcionalmente de acordo com a proporção de votos em cada país para cada partido. Ou seja, no parlamento europeu há dezeeenas e dezenas de partidos diferentes. Eles criam grupos e alianças de acordo com afinidades políticas, e claro, há sempre partidos equivalentes nos diferentes países. Todo país tem um partido de centra-direita, um de centro-esquerda, um partido verde, um partido liberal, etcetc. E esses se juntam no parlamento europeu.

Também interessante é falar sobre a porcentagem de participação na eleição. Aqui na Alemanha (e na maioria dos países europeus), o voto é facultativo, então a porcentagem de eleitores que participam em cada eleição é sempre um interessante tema para discussão e observação. Esse ano, a participação aumentou bastante tanto aqui na Alemanha quanto em outros países europeus. 50,94% dos eleitores europeus compareceram às urnas, em comparação com 40,62% nas últimas eleições (2014). Na Alemanha, a porcentagem esse ano foi de 61% (em comparação com 48,10% em 2014). Os países com a maior taxa de participação nas eleições européias em 2019 foram: Bélgica (88%), Luxemburgo (84%), Malta (73%), Dinamarca (66%), Espanha (64%) e Alemanha (61%). (Mas vale aqui a observação de que na Bélgica e em Luxemburgo a votação é obrigatória, daí a alta taxa de participação.) Os países da Europa Oriental costumam apresentar taxas bem baixas de participação das eleições do parlamento europeu. Esse ano, os países com a menor taxa de participação foram: Eslováquia (23%), Eslovênia (28%), República Tcheca (29%), Croácia (30%) e Bulgária (31%).

Sobre os resultados das eleições de 2019, no geral viu-se pela Europa tendências similares: os partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda perderam eleitores, e quem saiu ganhando foram os partidos verdes e partidos populistas de direita. Na Alemanha, o partido verde foi o partido mais votado, indicando que a preocupação com o meio ambiente é uma prioridade entre os eleitores hoje.

2 – Bundestagswahlen – Eleições para o Parlamento Alemão
A cada 4 anos | 2017 | 2 votos, um para um partido, um para um representante local

Sobre o parlamento alemão eu falei bastante nesse post aqui, mas é um post de 2013 que já está bem desatualizado, especialmente a parte sobre os partidos. Nas últimas eleições, em 2017, eu queria ter escrito um post novo sobre o assunto mas estava viajando na ocasião e escrever sobre as eleições três semanas depois da mesma não tem mais graça. Só em 2021, agora.

Mas os básicos a gente fala aqui. O parlamento alemão tem 598 assentos atualmente, mas esse número varia um pouco em cada eleição. Na cédula, você dá dois votos: um para uma pessoa específica representante do seu círculo eleitoral. São 229 círculos eleitorais, então nesse primeiro voto são escolhidos 229 parlamentares,  o mais votado de cada região. O seu segundo voto vai para um partido. A proporção dos segundos votos é o que define a proporção de parlamentares de cada partido no parlamento, incluindo aqueles que foram eleitos diretamente. Então para exemplificar de maneira simples, vamos imaginar que o Parlamento tem 100 assentos, 50 são para os representantes dos círculos eleitorais e há 4 partidos com candidatos. Se o resultado das eleições foram:

Partido A: 42% dos segundos votos e 23 parlamentares eleitos diretamente
Partido B: 35% dos segundos votos e 14 parlamentares eleitos diretamente.
Partido C: 22% dos segundos votos e 12 parlamentares eleitos diretamente.
Partido D: 1% dos votos e 1 parlamentar eleito diretamente.

Para entrar no parlamento, seu partido tem que ter obtido 5% ou mais dos votos. Então os 100 assentos serão divididos entre os Partidos A, B e C. MAS todos os parlamentares eleitos diretamente entram, então o parlamentar do partido D que foi eleito diretamente entra também. Então os 99 assentos restantes são divididos entre os partidos A, B e C. Pela proporção dos votos, o Partido A recebe 42 assentos, o Partido B, 35 e o Partido C, 22. Dos 42 assentos do Partido A, 23 serão preenchidos pelos parlamentares eleitos diretamente, e os outros 19 assentos serão preenchidos por parlamentares escolhidos pelo partido (cada partido publica antes da eleição uma lista de pessoas que preencherão os assentos que o partido conseguir). O Partido B preenche 14 dos seus 35 assentos com parlamentares eleitos diretamente, e os outros 21 com os da lista. E o Partido B tem 12 parlamentares eleitos diretamente e 10 escolhidos pela lista. E o Partido D ganha um assento não pelo 1% dos votos, mas pelo parlamentar eleito diretamente. Se nenhum tivesse sido eleito diretamente, eles não entrariam no parlamento. E se você está acompanhando a linha de raciocínio, você talvez esteja agora se perguntando: Mas como faz se a quantidade de parlamentares de um partido eleitos diretamente exceder a quantidade de assentos que o partido tem direito pela proporção? Pois é, por isso que o número de assentos no parlamento varia a cada eleição. Pq se um partido ganhar mais assentos por eleição direita a que ele teria direito pela proporção, os outros partidos têm que ganhar mais assentos também para corrigir a diferença e respeitar a proporção.

Complicado? Um pouco.

E aí pra governar você precisa de uma maioria. Então partido com maior quantidade de votos, nesse caso o A, tem que formar uma aliança com um ou mais partidos de maneira a conseguir mais de 50% do parlamento do seu lado. Se o partido A e o Partido C têm linhas similares, eles poderiam formar uma aliança e assim controlar 64% do parlamento. Aí o chanceler é escolhido pelo Partido A, e os ministros serão políticos dos Partidos A e C. A princípio, se o Partido A não conseguir formar aliança nem com o B nem com o C, esses podem também formar uma aliança entre si e assim obter uma maioria de 57%. Aí o governo será formado pelos partidos B e C embora o A tenha tido mais votos. Mas isso é raro, normalmente o partido com mais votos consegue formar uma aliança pra obter maioria.

3 –  Landtagswahlen – Eleições para o Parlamento estadual (Saxônia)
A cada 5 anos | 2019 | 2 votos, um para um partido, um para um representante local

Funciona exatamente da mesma maneira que o parlamento federal. O governador é então escolhido pelo parlamento, sendo (normalmente) do partido com a maior quantidade de votos.

4 – Oberbürgermeisterwahlen – Eleições para prefeito (de Dresden)
A cada 7 anos | 2022 | 1 voto direto, dois turnos

O único cargo executivo individual eleito diretamente aqui é o de prefeito (Não sei se é assim em todas as cidades, pode ser que não). Os outros (governador, chanceller) são eleitos pelos parlamentares daquele âmbito.

Como o normal nesse tipo de eleição (onde é eleito uma pessoa só), como o primeiro turno não costuma dar maioria total para um candidato, há um segundo turno. Mas funciona diferente de como conhecemos no Brasil. Basicamente, no segundo turno podem entrar os candidatos que quiserem, não só os dois com a maior quantidade de votos. E aí no segundo turno é eleito aquele com a maior quantidade de votos, mesmo que não seja mais de 50%. Na última eleição para prefeito, em 2015, eu escrevi um post explicando direitinho como funciona o segundo turno.

5 – Kommunalwahlen – Stadtratswahlen – Eleições para o conselho municipal (de Dresden)
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos para um, dois ou três representantes do seu bairro

Aqui tem uma diferença importante de se apontar. Como a gente aprende já na escola, o poder nas democracias é dividido em três, legislativo, executivo e judiciário, sendo executivo aquele exercido por presidentes, governadores e prefeitos, e o legislativo exercido pelos parlamentos, congressos, e câmaras.

Então se falamos de um conselho municipal, um grupo de pessoas eleitas para representar os interesses dos cidadão de um determinado município, no Brasil estamos falando do poder legislativo, a câmara dos vereadores.

Mas aqui o conselho municipal é na verdade poder executivo. Os representantes eleitos para o conselho municipal decidem, juntamente com o prefeito, as diversas medidas e ações específicas que serão tomadas na cidade: infraestrutura, verde, habitação, etc. O cargo de membro do conselho municipal não é uma ocupação de período integral: o conselho se reúne apenas uma vez a cada três semanas. Então as pessoas eleitas para esse cargo continuam nos seus respectivos empregos.

Esse conselho é eleito a cada 5 anos. Os candidatos de cada partido são específicos da sua zona eleitoral, então eu só posso votar nos candidatos que são do meu bairro. Cada partido tem uma lista de vários candidatos pra cada bairro, que são ou não eleitos de acordo não apenas com a quantidade total de votos diretos mas também de acordo com a proporção dos votos pra cada partido. Como nos parlamentos, a quantidade de assentos pra cada partido é definida de acordo com a proporção de votos totais para candidatos daquele partido, e o candidatos específicos são então escolhidos obedecendo a quantidade de votos, mas também a quantidade de assentos e a quantidade de pessoas por zona eleitoral. Complicado? Bastante. Vale a pena explicar com detalhes e exemplos? Acho que não, confia em mim que tem um sentido lógico no negócio e pronto.

Mas o mais interessante de tudo é: cada pessoa tem três votos. Três? Três. Então na cédula, cada candidato aparece com 3 circulinhos do lado onde vc pode fazer o seu xizinho. Vc pode fazer um total de 3 xizes, que podem ser todos para o mesmo candidato, ou então um pra cada candidato de sua preferência. Assim você pode, inclusive, dividir seu voto entre três partidos de sua preferência. Ou dar todos pra candidatos do mesmo partido. Ou dar dois pra um candidato e um pra outro. Como você quiser.

Eis aqui uma amostra da cédula de uma das zonas eleitorais para a eleição do conselho de Dresden:

SRW

6 – Kommunalwahlen – Stadtbezirksbeiratswahlen – Eleições para o conselho distrital (do bairro)
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos, para um, dois ou três representantes

Juntamente com o conselho municipal, vota-se aqui em Dresden para o conselho distrital, quer dizer, um conselho do seu bairro. É mais ou menos a mesma coisa do conselho municipal, um conselho que faz decisões executivas para o bairro, em conjunto com a prefeitura. Como na eleição do conselho municipal, você tem três votos que você pode distribuir entre um, dois ou três candidatos. Uma pessoa pode ser candidata e ser eleita para ambos os conselhos, inclusive, já que como eu mencionei, essa não é uma ocupação de período integral, mas algo que as pessoas eleitas fazem ao mesmo tempo que continuam seus respectivos outros empregos e ocupações.

7 – Integrations- und Ausländerbeiratswahl – Eleições para o conselho municipal de cidadãos estrangeiros
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos, para um, dois ou três representantes

O sétimo cargo preenchido por eleição por aqui é o conselho municipal de cidadãos estrangeiros. Nessas eleições só participam pessoas residentes em Dresden que sejam nacionais de outros países. Esse conselho é a oportunidade para o estrangeiros que aqui moram também terem alguma representação no poder. Podem se candidatar cidadãos estrangeiros ou alemães naturalizados, e os eleitos se reúnem regularmente com o prefeito para discutir assuntos que dizem respeito à comunidade estrangeira de Dresden.

Por isso que quando eu falei lá em cima que quem mora em Dresden vota em 6/7 eleições. Na verdade só vota em 7 eleições alemães naturalizados que tenham também suas nacionalidades de origem. Como eu! 😉 Estrangeiros não podem votar nas eleições alemãs e alemães não votam, claro, no conselho de estrangeiros.


UFA! Acabou! Próximas eleições são em Setembro (aqui na Saxônia) pro parlamento estadual e pra esse conselho municipal de estrangeiros. É isso!


(Publicado em 29 de Maio de 2019)

Impressões sobre o Brasil

Há alguns dias atrás voltei de uma curta viagem a São Paulo, a terceira desde que mudei pra Alemanha, mas a primeira desde 2015. Fazia 4 anos desde minha última visita!

Eu achei que fosse parecer tudo muito estranho, sei lá, diferente ao mesmo tempo que familiar. Mas não, tava tudo igual. Na verdade o mais estranho dessa viagem foi chegar e tá tudo bem normal e me sentir tão normal quanto se eu tivesse ficado fora um fim de semana. E aí voltar pra cá alguns dias depois e ter exatamente o mesmo feeling. Foi como se a gente não tivesse viajado continentes mas só ido visitar a mãe noutra cidade rapidinho!

Mas claro, houveram algumas coisinhas que eu notei. A maioria das coisas que eu achei que fosse estranhar depois de tanto tempo fora eu não estranhei nenhum pouco, foram totalmente normais. Mas uma em especial eu estranhei demais, algo que eu, enquanto morava no Brasil, nunca tinha notado. Nem quando mudei pra cá tinha percebido a diferença. Só agora voltando depois de vários anos que eu notei. Que coisa é essa?

1 . BARULHO, VOLUME, ALTO, SOCORRO

Todo o resto das coisas diferentes eu achei adaptável, pelo menos assim só por duas semanas. Mas isso me incomodou DE-MAIS. Tudo. É. MUITO. Barulhento. A cidade é barulhenta, tem muito carro, muito ônibus, motos extremamente barulhentas em grandes quantidades, tudo muito denso, os prédios muito altos em grandes quantidades só contribuem pra reverberação infinita dos barulhos, nas casas os materiais mais comuns refletem em vez de absorver os sons (pisos frios, janelas de alumínio…), e nenhum lugar tem nenhum tipo de isolamento acústico. E como tudo é muito barulhento, as pessoas ficam menos sensíveis ao volume e coisas que nem precisavam ser barulhentas acabam sendo. Como restaurantes, vários dos quais tem música de “fundo” tão alta que você tem que levantar a voz pra conversar com seu amigo. E aí o restaurante é grande e como brasileiros têm muitos amigos e famílias grandes, vão todos em grandes grupos no restaurante, e todos tem que levantar a voz, e aí fica maior barulho e aí todo mundo tem que falar ainda mais alto e aí fica mais barulho e aí as pessoas têm que falar ainda mais alto e etc etc espiral infinita de volume cada vez maior e sensibilidade para barulho cada vez menor.

Nesses poucos dias que estivemos lá, fomos num show com amigos e tivemos que sair mais cedo por causa do som em volume exagerado. Mas era exagerado MESMO. Era num volume absolutamente intolerável, de doer os ouvidos. E antes mesmo de começar o show (tinha um DJ colocando algumas músicas pra ir animando a platéria) o volume já estava exageradamente alto a ponto de ser completamente impossível conversar. Completamente impossível. Isso antes do show começar… não deu pra ficar. Que decepção.

Tudo bem que eu sempre fui particularmente sensível a barulhos muito altos (se quiser me ver desejar a morte lenta e dolorida de alguém, basta passar de moto com o escapamento alterado por perto), mas até passar um tempo num país e cidade onde as casas e apartamentos são super bem isolados acusticamente, as pessoas no geral fazem menos barulho e o trânsito é bem mais tranquilo, nunca tinha percebido o quão exagerado é o volume de São Paulo. Sério, foi uma coisa que me incomodou demais nesses últimos dias. A única coisa que me incomodou, na verdade. Outras coisas eu tinha esquecido ou achei curioso lembrar que era assim ou assado, mas essa foi a única que me incomodou profundamente.

Mas já que esse não é um post de um tema só, vou continuar e comentar as outras coisas que eu notei diferentes (que eu obviamente já sabia ser diferentes, mas que foi interessante perceber com clareza de novo):

2 . Pessoas muito simpáticas, muito fáceis de conversar, tudo fácil

MEUDEUS como os brasileiros são simpáticos! Que alívio passar alguns dias numa cidade onde as pessoas sorriem ao conversar com você SEM MOTIVO ESPECÍFICO! Apenas pq estão sendo tão simplesmente simpáticas e só isso! E as pessoas desconhecidas não fazem um tremendo esforço sobrehumano pra fingir que todas as outras pessoas na rua são absolutamente invisíveis! Elas pedem desculpas se esbarram em você! Elas falam com você quando necessário! Elas sorriem quando querem ser educadas! Elas riem pra ser simpáticas, só pq faz bem! Dava vontade de abraçar todo mundo!

Não estou dizendo que os alemães são maus. Mas é que na Alemanha, as pessoas só são simpáticas com você (talvez) quando elas te conhecem. Não assim, na rua, só porque sim. Entre desconhecidos, os alemães tentam sempre não ver ninguém. A diferença já notamos logo no ônibus do aeroporto pra casa (ao voltar pra Alemanha, digo). Nossas malas estavam no espaço do ônibus para malas, bicicletas ou carrinhos de bebê. Ao fazer uma curva mais brusca, as nossas e a mala de uma outra senhora escorregaram rápido em direção à porta do ônibus. Nós teríamos ficado de pé na frente das malas para evitar que isso ocorresse, já que elas têm rodinhas, mas assim que colocamos as malas lá um outro fulano – um com mala pequena de carregar no ombro – colocou a sua lá também e postou-se de pé na frente de todas as outras malas. Quando as mesmas escorregaram na curva, dito fulano pula para longe das mesmas deixando-as escorregar descontroladamente e cair-se umas por cima das outras. Uma mãozinha estendida teria evitado que as malas escorregassem. Até aí até tudo bem. Nós levantamos para colocar as malas de volta no lugar (desta vez, claro, deitadas), mas o fulano tinha se postado do lado da sua mala não espaçosa de maneira a ocupar todo o espaço dedicado a malas. A gente colocou uma no cantinho que ele deixou sobrando, meu marido pediu licença, ele ignorou, e ficaram as duas outras malas (a nossa e a da outra senhora) no meio do corredor. Porque o fulano queria ficar lá de pé no lugar dedicado as malas para não ficar longe da sua MALINHA DE OMBRO que tinha que ficar no chão. Ah, não…… após colocar nossas malas de volta no local – depois da pessoa mega simpática finalmente descer do ônibus – eu e meu marido comentamos um pro outro: “ah, que alívio voltar pra Saxônia, não?”…

Mas sério. De verdade. Eu sei que você vai dizer “Ai, magina, aqui no Brasil tem muita gente mal educada!” ou então talvez “Ah, quando eu estive na Alemanha achei todo mundo muito simpático.”, mas acredita no que alguém que mora aqui há sete anos tá dizendo: os brasileiros são MUITO simpáticos e amigáveis. MUITO. Existe amor em SP e como!

3 . Amigos tranquilos, soltos, relax

Não apenas as pessoas no geral são mais simpáticas, mas inclusive os amigos são mais soltos. O que quero dizer com isso é que, entre alemães demora demais pra uma amizade chegar num nível tal que as duas pessoas se sintam plenamente confortáveis uma com a outra pra falar sobre assuntos mais difíceis ou íntimos. Eu tenho duas amigas alemãs que eu gosto muito e com quem me dou muito bem, mas mesmo com elas ainda tem uma certa pequena barreira ainda existente, em que nem eu nem elas nos sentimos 100% no pleno conforto de uma amizade próxima. Com os amigos do Brasil – lógico que eles são amigos de mais tempo, mas mesmo assim – rola uma tranquilidade maior na relação, um comforto muito grande. Aliás eu sinto essa tranquilidade e abertura mesmo com amigos brasileiros que eu fiz aqui, quer dizer, que são mais recentes. Sei lá, tem um nível de tranquilidade entre as pessoas que aqui na Alemanha parece que só se atinge depois de décadas de amizade, sei lá.

4 . Trânsito muito lento, mesmo quando não tem mto trânsito

Quando a gente reclama de trânsito em São Paulo, ou outras grandes cidades brasileiras, normalmente a gente pensa que a causa desse problema é ou a quantidade de carros ou a quantidade de faixas disponíveis para carros. Como boa urbanista que sou, meu argumento teria sido quantidade de carros e insuficiência do transporte público. Tá certo, claro. Mas é mais que isso. Tem um outro fator que eu desconhecia, que eu só percebi agora após reaprender a dirigir na Alemanha, ter um pouco de experiência no tráfego urbano alemão (como pedestre, ciclista e motorista) e voltar para o Brasil.

Esse fator é a organização do tráfego.  A impressão que eu tive nessa curta viagem a São Paulo é que os carros têm que parar com muita freqüência, mesmo quando a rua está vazia, e as paradas são muito longas. Você estará pensando “Pô, isso não precisa ir pra Alemanha pra perceber, eu sou motorista no Brasil e sempre reclamei dos muitos semáforos e que ficam muito tempo no vermelho.”. Tanto não sou a primeira pessoa a achar isso que umas pessoas lá a uns anos atrás resolveram desenhar uma cidade inteira pensando no bom fluxo ininterrupto de carros.

Então o que estou dizendo é que o modelo de Brasília é a solução pro trânsito das metrópoles brasileiras ou mundiais? Não mesmo. Nem de longe.

O que eu percebi e não sabia antes foi só a comparação de como funcionam as coisas aqui. Em primeiro lugar: muitas ruas não tem semáforo pq a regra de quem tem preferência é sempre MUITO clara. Se você já leu meu post sobre a prova teórica para habilitação alemã, você já tem uma idéia: tem várias regras diferentes e específicas e placas específicas diversas definindo quem tem a preferência em cada caso. Foi o fator que eu mais senti dificuldade em me acostumar ao tirar a carta de motorista aqui, porque no Brasil é uma coisa bem mais instintiva. Às vezes tem placa de pare, mas muitas outras vezes a regra é mais vaga e as pessoas se entendem ao chegar no cruzamento. Dá certo também, mas não quando é uma rua com mais movimento. Aí tem semáforo. Aqui é sempre bem precisa, a regra. Então tem menos semáforo.

Em segundo lugar: quase sempre (exceto em avenidas grandes) você pode fazer a conversão à esquerda num cruzamento daqui, raramente você precisa dar a volta no quarteirão virando à direita três vezes pra conseguir entrar à esquerda.

E finalmente, quando tem semáforo, são normalmente só duas fases, e não  três. O que quero dizer é: num cruzamento com semáforo na Alemanha, tem a fase em que está vermelho pra rua Norte-Sul (por exemplo) e verde pra rua Leste-Oeste, e aí a fase em que está vermelho pra rua Leste-Oeste e verde pra Norte-Sul. No Brasil em cruzamentos maiores têm ainda a terceira fase: vermelho pras duas ruas e verde pros pedestres.

Você está pensando: mas nossa, super centrado no motorista esse sistema, péssimo pro pedestre, você não consegue atravessar é nunca!

Pois é, aí que está a GRANDE diferença. Por lei, e isso é igual na Alemanha e no Brasil, na conversão a preferência é do pedestre. Isso significa que, ao virar à esquerda ou à direita para entrar numa rua, você tem que parar se tiverem pedestres atravessando (ou ciclistas à sua direita que sigam em frente). Se essa regra é levada a sério, como é aqui, você não precisa da terceira fase do semáforo, nem precisa sempre de semáforo pros pedestres conseguirem atravessar com segurança, pq quando está vermelho pra rua que você está atravessando, os carros entrando da rua em que está verde vão necessariamente esperar você atravessar antes de fazer a conversão.

A diferença de respeitar regras que são mais difíceis de multar (multar violação do semáforo é fácil, é só colocar um radar. Mas multar o não respeito à preferência do pedestre na conversão, ou o não respeito às regras de preferência gerais, precisa necessariamente de um fiscal de pé na esquina assistindo o trânsito) é uma coisa tão profundamente cultural que eu fico meio desenperançosa que dê pra mudar no curto prazo, no Brasil. Interessante que é o nosso próprio desrespeito como motorista às regras de trânsito que faz com que a gente fique parado no trânsito mais tempo….

Então não vejo que simplesmente adotar o sistema alemão de tráfego resolveria os problemas do trânsito paulistano. Teria que ter uma mudança muito mais profunda da cultura de respeito às regras… sei lá… acho que investir em muito metrô é uma solução mais realista (e bom, essencial AINDA QUE o sistema alemão pudesse ser adotado no Brasil).

5 . MUITO plástico

Uma coisa muito positiva dos alemães é que eles realmente não são fãs de plástico. Qualquer coisa de plástico é vista como tosca e se dá sempre preferência a outros materiais como madeira, metal, louça, vidro ou o que for dependendo do objeto em questão.

Mas uma reclamação recorrente por aqui é a quantidade de plástico em embalagens de supermercado. Em muitos supermercados, as frutas e verduras já vêm pré-embaladas em plástico, algo que mais e mais alemães criticam. Não é incomum por aqui a embalagem ser critério de decisão na compra de um produto – muita gente prefere comprar a marca que vem menos embalada.

Embora isso também venha mudando no Brasil, a diferença ainda é gritante. Sacos plásticos ainda são muito comuns, mesmo em situações em que qualquer sacola é completamente desnecessária. Tipo, sei lá, comprar frutas ou verduras no supermercado e colocar as frutas/verduras escolhidas numa sacolinha transparente que depois vai dentro da sacola das compras no caixa. Tá, se você estiver comprando trinta limões, tudo bem colocá-los numa sacola ali na hora de escolher pq não é muito fácil carregar trinta limões na mão, assim. Mas se for um ou dois limões, que vão no carrinho, e depois vão na sacola quando passarem no caixa, pq uma sacola extra? Na feira, a mesma coisa, vc compra um abacaxi, sei lá, e você tem lá sua sacola retornável, e mesmo assim te dão o abacaxi numa sacola plástica pra vc colocar dentro da sacola retornável. como se as frutas e verduras diferentes não pudessem se encostar, sei lá? E na hora de passar no caixa, no supermercado, é um exagero de sacolas, como se cada produto ligeiramente diferente precisasse de uma sacola pra si porque ai de todos nós se a banana encostar no Iogurte. ?? Sei lá, é um exagero grande de plástico, um uso completamente desnecessário…

Mas, como eu falei, isso vem mudando bastante também no Brasil. Da última vez que eu fui pra lá, em 2015, isso me incomodou também, e era bem pior que agora. Dessa vez, se eu não quisesse sacola plástica, eu conseguia que não me dessem nenhuma sacola. Da outra vez eu lembro de precisar tirar as coisas de sacolas que eu não queria e devolver as mesmas pq antes que eu pudesse dizer que não precisava de sacola para levar A UMA CAIXINHA DE ASPIRINA que eu tinha comprado na farmácia, a mesma já tinha sido colocada dentro de uma sacola plástica altamente desnecessária. Dessa vez senti que em vários lugares as pessoas perguntavam se eu queria sacola, antes de ir colocando as compras na mesma.

 

Enfim, acho que esses foram os pontos principais! Eu gostei muito de voltar pro Brasil – a longa ausência já estava ecoando. Pena que foram poucos dias e acabou não dando pra rever todo mundo que eu gostaria de ter revisto. Mas fez bem, voltar. E o marido desatou a falar um português que impressionou todos!


(Publicado em 12 de Maio de 2019)

 

O que há numa carteira alemã

Quais documentos levam os alemães na carteira pode parecer um tema meio desnecessário para um post mas ele abre outras discussões interessantes. E como eu acabei de buscar minha carteira de identidade alemã, depois de me naturalizar alemã, é um assunto fresco na cabeça. E também o blog é meu e eu posso escrever qualquer coisa que eu quiser, e eis que eu quis escrever sobre isso.

Se você encontrar uma carteira perdida numa rua alemã, o que você provavelmente vai achar, na mesma? Quais documentos são essenciais para ter sempre em mãos, na Alemanha?

Antes de continuar, uma pequena observação: as imagens dos documentos que aparecem aqui são os modelos oficiais emitidos pela Bundesdruckerei que têm sempre (ou quase sempre) a pessoa fictícia Erika Mustermann (Muster = modelo) como exemplo. Não me escrevam e-mails endereçados para “Erika”, por favor, meu nome é Laís.

A primeira coisa é, claro, um documento de identidade (Personalausweis, também conhecido pelo apelido “Perso).

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A carteira de identidade alemã é um cartãozinho todo chiquento com cara de importante, cheio das marcas d’água, onde aparecem as seguintes informações sobre sua ilustre pessoa:

  • Seu número de identidade – O primeiro ponto já é interessante de discutir. O número de identidade aqui é uma combinação de números e letras, de onde os 4 primeiros dígitos são letras que codificam o local de emissão do documento. Quando eu contei para uma amiga que tinha tirado minha identidade alemã, ela logo me perguntou se eu tinha que decorar o número, o que foi um dos motivos que me fez pensar nesse post. Aqui ninguém sabe seu número de identidade. Inclusive, como acontece com passaportes (no Brasil tb), o número é na verdade o número DO DOCUMENTO, não seu. O que significa que quando você renova a identidade, o número muda. Eu ia começar a explicar aqui como funciona com números de identificação mas acabo de perceber que isso precisa de um post só pra si. Em breve!
  • Nome completo – nada especial aí
  • Data de nascimento – ok
  • Local de nascimento – apenas a cidade. Curiosamente mesmo que não seja na Alemanha, também aparece apenas a cidade, o que me leva a indagar pra quê, então, colocar essa informação? Digamos que eu tivesse nascido na Pápua Nova Guiné, especificamente num pequeno vilarejo no meio da floresta tropical papuásia de nome Manu. Apareceria na minha identidade alemã tão somente “Manu”, que convenhamos, não diz nada a ninguém e deve existir umas outras 349 cidades e vilarejos pelo mundo chamados Manu. Mas enfim, deve ser mais no sentido de diferenciar do que, de fato, informar algum dado importante sobre você.
  • Nacionalidade – Isso é um grande mistério pra mim. Você só tem um Personalausweis se você for alemão. Não é um tanto redundante escrever, portanto, no mesmo, “Nacionalidade:  alemã”? Deve ter algum motivo pra isso que eu não consegui descobrir. Quando eu procurei no google, a única coisa que eu achei foram centenas de sites perguntando/explicando porque é que aparece “deutsch” (adjetivo não declinado) e não “Deutsche” ou “Deutscher” (Alemã / Alemão, substantivo pra definir uma pessoa alemã) ou “Deutschland“. A resposta eu acho meio óbvia. Deutsch no caso se refere à nacionalidade, a nacionalidade é alemã. Não à pessoa em si, que seria Deutsche ou Deutscher. Ou ao país. Mas os alemães pelo visto acham isso bem estranho.
  • Assinatura – ok
  • Data de emissão – tá
  • Data de validade – ah, esse é um dos pontos que eu queria discutir. Diferente do RG brasileiro, que tem validade indeterminada e pode ser usado até estar caindo aos pedaços e dissolvendo na sua carteira, o cartão de identidade alemão vale por 10 anos, ou 5 se você tiver menos de 25 anos de idade. Imagino que seja pra ter certeza que você se parecerá com a pessoa da foto.
  • Cor dos olhos – um fato curioso, aparece a cor dos seus olhos na sua identidade alemã! É só um fator pra ajudar a te identificar, mesmo, assim, como o seguinte:
  • Altura – yup, aparece a sua altura. Mas ninguém me mediu quando eu fui fazer a identidade, só me perguntaram, mesmo.
  • Autoridade que emitiu o documento – no caso a prefeitura da cidade em que você mora
  • Endereço – falei mais sobre isso no post anterior, sobre endereços na Alemanha, mas isso é outra coisa interessante: no documento de identidade aparece seu endereço atual. Não, você não precisa renovar a carteira de identidade toda vez que mudar de casa, quando você se muda, eles colam um adesivinho com o endereço novo por cima.
  • E finalmente: Nome artístico/religioso – Caso você seja mais conhecida como, sei lá, digamos Madonna ou então Lady Gaga, aparece esse nome também. Portanto escolha bem seu nome artístico antes de ficar famoso!

O cartão de identidade é um cartão com chip, que contêm essas informações assim como as digitais dos dedos indicadores, que não aparecem impressas no cartão. O Personalausweis é o documento de identidade básico que a maioria dos alemães carrega consigo sempre. A carta de habilitação não serve como documento de identidade. Oficialmente não é obrigatório você ter sempre sua identidade consigo, desde que ela esteja próxima o suficiente que você poderia ir em casa buscá-la, se necessário. Em outras palavras, você não precisa obrigatoriamente carregar a identidade com você se você estiver na cidade onde mora. Mas a maioria das pessoas leva sempre na carteira. Para não-alemães residentes na Alemanha, o principal documento de identidade do dia-a-dia é ou o a carteira de identidade do país de origem para cidadãos da UE, ou o Aufenthaltstitel, “título de permanência”, que é um cartão similar à identidade, só que com a informação adicional do tipo de visto de residência que você tem e até quando ele é válido. É seu visto em formato de cartão, basicamente.

330px-Aufenthaltserlaubnis-Beschaeftigung Kopie
Se não me engano, ele não é exatamente um documento de identidade, oficialmente só seu passaporte é um documento de identidade válido na Alemanha se você não for cidadão europeu. Mas esse cartão serve pro dia-a-dia como documento, quando você está na cidade onde mora e pode ir buscar seu passaporte em casa se for necessário.

Se você for turista, aí, claro, tem que ter seu passaporte sempre com você.

O próximo documento presente em 99,9999% das carteiras de alemães maiores de idade é a amada carta de habilitação (Führerschein).

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TODO MUNDO AQUI tem carta. Se você não tem carta e comentar isso com um alemão, espere ser visto como um alienígena verde com antenas. Nem todo mundo tem carro, não ter carro é aceitável. Mas não ter carta é injustificável.

Algumas informações na carteira de habilitação são similares às da identidade, e óbvias: nome, local e data de nascimento, assinatura, cidade de residência, data de emissão e de validade. Mas uma coisa interessante é a validade: a carta de habilitação alemã é válida por 15 anos, mas até pouco tempo atrás ela era válida indefinidamente! Curioso, o RG ter validade e a habilitação, não. Mas agora isso mudou e após 15 anos você tem que renovar a habilitação. Mas a única coisa que muda ao renovar (por enquanto) é a foto. Nem o exame de vista precisa refazer. Estranho.

No verso aparece ainda a informação de quais veículos você está habilitado a dirigir, assim como eventuais observações como a de que você tem que usar óculos obrigatoriamente (mas aparece codificado). A habilitação também tem um número, claro, que eu não sei se permanece o mesmo ou se muda quando você renova a carta. Daqui a 12 anos eu digo.

Próximo item essencial, presente em 100% dos casos, é a carteirinha do seguro de saúde. Aqui é obrigatório ter um seguro de saúde, que pode ser um seguro privado ou público, como eu discuti nesse post aqui. As carteirinhas dos seguros de saúde são relativamente padronizadas, e têm essa cara:

elektronische_gesundheitskarte_pPros seguros públicos, só muda o logo ali no centro (no exemplo acima, a carteirinha é da AOK). Os privados acho que às vezes são um pouquinho diferentes, mas não o muito.

É sempre uma carteirinha com chip, que o seu médico têm uma maquininha pra ler, e no chip contém, claro, as informações pessoais, e também dados sobre o cartão ainda ser válido ou não. O verso do cartão (que na foto acima aparece do lado esquerdo) é a versão europeia do cartão, basicamente. Quer dizer que o verso é padronizado na europa inteira, e é onde o que o médico ou hospital de outro país europeu vai olhar caso você precise de assistência médica na UE fora do seu país de residência.

Finalmente, também sempre presente são eventuais cartões de banco. Aqui as pessoas também têm um cartão de crédito e um de débito, normalmente. O de débito chama-se Girocard (Girokonto é a conta corrente), mas todo mundo chama de EC Karte (Eletronic cash), que é como chamava o sistema até 2007. Desde 2007 é Girocard. Mas ninguém fala “Pode pagar com Girocard?”, todo mundo fala “pode pagar com EC Karte?”

O Girocard tem esse símbolo:

Girocard_mit_Rand_hochformat_cmyk.png

Pagar com cartão de crédito é bem raro, por aqui, a maioria dos lugares só aceita débito (isso quando não é só em dinheiro…). Escrevi um pouco sobre essa questão nesse post aqui. Mas mesmo assim, ter um cartão de crédito não é incomum já que é a maneira mais comum de comprar coisas de sites estrangeiros, por exemplo, ou então de pagar ou tirar dinheiro no exterior.

É isso! Muitos têm um cartão de doador ou não-doador de órgãos, sobre o qual eu escrevi nesse post aqui. Além desses essenciais, o que aparece nas carteiras varia de pessoa pra pessoa.

Esse post acabou ficando uma mistura de diversos assuntos e links para posts mais completos sobre outros assuntos, mas há pontos interessantes. Em breve escrevo um post sobre números de identificação por aqui!


(Publicado em 13 de Março de 2019)