Levando multa na Alemanha

Esses dias recebi algo inédito (pra mim) nesses 6 anos e meio de Alemanha… uma multa! Ops!

Por sorte foi uma multa bem pequena, 15 euros e nenhum ponto. Mas é uma ótima oportunidade pra falar um pouco sobre como funcionam as multas por aqui, os preços e o sistema de pontuação.

Primeiro, então, a multa em si. Como no Brasil, algumas semanas após ser pego no radar você recebe uma carta pelo correio com as informações da infração: local, carro, infração cometida, e a foto. Uma diferença das multas no Brasil, é que a foto que aparece na multa daqui é especificamente para fins de identificação do motorista. O carro em si nem aparece na foto, só aparece o rosto do motorista, para o dono de carro – que é quem recebe a multa – saber quem foi o responsável pela infração e redirecionar a multa. No verso da folha há o formulário a ser preenchido neste caso.

Uma diferença aqui é que você só precisa especificar quem cometeu a infração se a mesma der pontos. Nem todas as infrações de trânsito aqui dão pontos, só as mais sérias. Algumas dão pontos só quando cometidas pela segunda vez num determinado período de tempo. Mas as mais simples, como exceder a velocidade limite em menos de 10 km/h, não dão pontos mesmo que cometidas muitas vezes.

Foi o meu caso: eu não vi uma placa que reduzia a velocidade máxima permitida em uma rua para 30 km/h num trecho próximo a uma escola. Passei pelo radar a 41 km/h. Como há uma tolerância de 3km/h para cobrir eventuais imprecisões do velocímetro ou do radar, fica registrado que eu estava a 38 km/h, portanto menos de 10km/h acima da velocidade permitida. Assim, a multa foi de 15€ e sem pontos.

Pagando essa multa em menos de 1 semana, fica dispensada a necessidade de especificar quem era o motorista no momento da infração.

Ok, mas o que provavelmente mais interessa saber é o preço das multas, e como funciona o sistema de pontuação.

Começando pelo sistema de pontuação. Como você já percebeu pela primeira parte do post, nem todas as infrações computam pontos na carteira. As mais simples normalmente não dão pontos. As que dão, dão entre 1 e 3 pontos.

Mas antes que você diga “nossa, que beleza, muito mais justo, demora bem mais pra vc chegar no limite dos pontos, awawa indústria de multas no Brasil awawawa”, lembre-se que a escala de pontos é de acordo com o limite. No Brasil, o limite de pontos é 20. Aqui é 8. Então a escala acaba sendo a mesma: 3 infrações gravíssimas = perda do direito de dirigir. Também diferente do Brasil é que as infrações graves, mesmo que não somem o limite de pontos, já resultam automaticamente numa suspensão temporária de habilitação. Quer dizer, se você cometer uma infração que dê dois ou três pontos, você vai ficar proibido de dirigir por um a três meses (dependendo da infração), mesmo que ainda não tivesse nenhum ponto na carteira antes.

Além disso, a soma de pontos tem diferentes consequências, antes do limite de 8 que resulta na perda da habilitação. São essas:

1 a 3 pontos: Ficam registrados, mas ainda não há nenhuma conseqüência.
4 a 5 pontos: O motorista recebe uma advertência com a recomendação para comparecer a um seminário de direção que resultará no cancelamento de alguns pontos.
6 a 7 pontos: Advertência e recomendação para comparecer ao seminário. O cancelamento de pontos não é mais possível.
8 pontos: perda da habilitação. Iniciar o processo de recuperação da habilitação só é possível após de 6 meses.

Também diferente do Brasil, o tempo em que os pontos permanecem na habilitação são bem maiores. No Brasil, após 12 meses da data da infração, os pontos resultantes da mesma expiram, independente da infração. Na Alemanha, depende: para infrações que computam 1 ponto, o prazo é de 2 anos e meio. Para infrações que resultam 2 pontos, o prazo é de 5 anos. E para infrações que dão 3 pontos, os pontos permanecem registrados por 10 anos.

Agora vejamos uma seleção de algumas infrações e a multa, pontuação e conseqüências resultantes, pra dar uma idéia. Já aviso que assuta, fiquei aqui um tempo olhando o catálogo e agora estou com medo de dirigir.

Velocidade

As de velocidade são as menos preocupantes, o que talvez seja de se esperar no país da BMW, Porsche, Mercedes, Audi, e das Autobahn sem limite de velocidade.
Uma observação: as consequências para excesso de velocidade são diferentes se você estiver dentro ou fora de uma cidade/vilarejo

A tabela para infrações dentro de cidades:

ExcessoMultaSuspensãoPontos
até 10 km/h15 €
11 a 15 km/h25 €
16 a 20 km/h35 €
21 a 25 km/h80 €1
26 a 30 km/h100 €1 mês (na segunda vez)1
31 a 40 km/h160 €1 mês2
41 a 50 km/h200 €2 meses2
51 a 60 km/h280 €2 meses2
61 a 70 km/h480 €3 meses2
mais de 70 km/h680 €3 meses2

A tabela para infrações fora de cidades:

ExcessoMultaSuspensãoPontos
até 10 km/h10 €
11 a 15 km/h20 €
16 a 20 km/h30 €
21 a 25 km/h
70 €1
26 a 30 km/h80 €
1 mês (na segunda vez)
1
31 a 40 km/h120 €1 mês (na segunda vez)1
41 a 50 km/h160 €1 mês2
51 a 60 km/h240 €1 mês2
61 a 70 km/h440 €2 meses2
mais de 70 km/h600 €2 meses2

Passar no Vermelho

Brasil, passar no vermelho é uma infração gravíssima e dá 7 pontos na carteira. Mas a multa é apenas R$190 e alguns quebrados. Se você acha isso muito, veja só os preçosdas multas de sinal vermelho aqui – que variam de acordo com vários critérios:

Passar no vermelho…ValorPontosSuspensão
…menos de um segundo depois
do sinal fechar
90 €1
+ Colocando alguém em risco200 €21 Mês
+ Danos materiais240 €21 Mês
…mais de um segundo depois
do sinal fechar
200 €21 Mês*
+ Colocando alguém em risco320 €21 Mês*
+ Danos materiais360 €21 Mês*
…virar à direita na flecha verde
sem parar**
70 €1
+ Colocando alguém em risco100 €1
+ Danos materiais120 €1
+ atrapalhando a passagem de
ciclistas, pedestres, ou
carros na direção liberada
100 €1

*Pode decorrer em perda da habilitação ou prisão dependendo do caso
**Aqui tem alguns semáforos onde tem uma placa com uma flecha verde apontando para a direita. Significa que os carros na faixa da direita podem fazer a conversão à direita com o semáforo fechado. Mas é obrigatório parar antes e, óbvio, dar preferência para quem está vindo na rua para a qual o semnáforo está aberto. Se você está atrás de outros carros que não querem virar à direita, mesmo numa situação em que você poderia virar antes de abrir o semáforo, você tem que esperar. Quer dizer, você não é obrigado a fazer a conversão se você está na faixa da direita com uma flecha verde, você pode esperar o semáforo abrir e ir em frente normalmente.

Então basicamente a multa é diferenciada entre se você passou no vermelho logo depois do farol fechar, ou se você passou no vermelhão bem óbvio. E a situação mais simples, passar assim rapidão depois que deu o vermelho, sem acontecer nada, sem ninguém por perto, já dá uma multa de 90 € e um ponto na carta.

Além disso as multas (não só as de vermelho, várias outras também) tem esses extras se tem alguém por perto que foi colocado em risco pela sua infração

Distância

Uma outra multa comum por aqui é relacionada à distância de segurança entre você e o carro da frente. Quer dizer, se você colar o carro no da frente, fazendo pressão pro motorista ir mais rápido ou dar espaço pra você ultrapassar, a multa pode sair caríssima. O preço muda de acordo com a distâcia e a velocidade. A distância de segurança tem que ser em metros mais do que 5/10 da velocidade em km/h. Assim: Se a velocidade é de 100 km/h, a distância tem que ser de pelo menos 50m (100*5/10 = 500/10 = 50 m).  Eis aqui a tabela das multas:

Violação da distância de segurançaMultaPontosSuspensão
… a menos de 80 km/h25 €
+ Colocando alguém em risco30 €
+ Danos materiais35 €
… Entre 80 e 99 km/h
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor
no velocímetro
75 €1
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
100 €1
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
160 €1
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
240 €1
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
320 €1
… Entre 100 e 129 km/h
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor 
no velocímetro
75 €1
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
100 €1
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
160 €21 Mês
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
240 €22 Meses
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
320 €23 Meses
… A mais de 130 km/h
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor 
no velocímetro
100 €1
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
180 €1
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
240 €21 Mês
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
320 €22 Meses
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
400 €23 Meses

Dirigir alcoolizado

Sem dúvida uma das piores infrações que você pode cometer aqui é dirigir alcoolizado. A multa também varia de acordo com a situação. O limite é uma concentração de 0,05‰ no sangue, exceto para motoristas com carteira provisória (a definitiva tira-se depois de um ano), para quem a proibição é completa – quer dizer, qualquer concentração de álcool no sangue já é uma infração. Então vamos à tabela:

Concentração de álcool
no sangue
MultaPontoSuspensão
Com carteira provisória,
menos de 0,05‰
250 €1
Para todos os motoristas,
mais de 0,05‰
500 €21 Mês
… quando for uma segunda
ofensa relacionada a álcool
1.000 €23 Meses
… quando for a terceira ofensa1.500 €23 Meses
Concentração maior que 1,1‰Multa a decidir,
possivelmente
resultando em
prisão
3a decidir
Concentração menor que 1,1‰
mas com visíveis déficits
de atenção 
Multa a decidir, 
possivelmente 
resultando em 
prisão
3a decidir

Portanto as conseqüências são bem pesadas em qualquer situação. Nos casos mais graves, a serem decididas pela justiça caso a caso.

Bom, não vou colocar todas as tabelas de todas as possíveis infrações aqui porque seria uma coisa infinita. Mas tem vários sites onde você pode ver as conseqüências para cada infração possível, por exemplo http://www.bußgeldkatalog.de, que foi a fonte que eu usei pros dados aqui compartilhados, e que é atualizada sempre que há alguma mudança nas leis.
Mas para terminar, só mais alguns exemplinhos básicos sem especificar as diferenciações:

Estacionar em calçada ou ciclovia: 20 a 35 €
Mexer no celular na direção: 100 a 200 €, 1 a 2 pontos, 1 mês de suspensão
Não parar na placa de Pare: 25 a 100 €
Não parar antes atrás da linha (no farol vermelho): 10 €
Não parar na faixa de pedestre quando há alguém querendo atravessar:
80 €, 1 ponto
Fazer conversão sem dar preferência para pedestres atravessando:
70 a 85 €, 1 ponto
Virar sem dar seta: 10 €

Ok, acho que já deu pra dar uma idéia, e esse post já está gigante!

Eis aqui outros posts no tema direção e carteira de habilitação alemã:

Sobre trocar sua CNH brasileira pela alemã
Sobre a prova teórica
Sobre a prova prática
Sobre estacionar em cidades alemãs
Sobre as regras relacionadas a atravessar a rua, quando tem faixa, quando tem semáforo, etc.
Um dos primeiros posts do blog, sobre as Autobahns.

(Publicado em 29 de Novembro de 2018)

O (ou a falta de) senso de humor alemão

Sempre que algum colega faz aniversário, no escritório, o chefe dá de presente um buquê de flores para o aniversariante. Já comentei em outro post que, aqui, os aniversários redondos (20, 30, 40, 50…) são especialmente importantes. Hoje foi o aniversário de 40 anos de um colega meu, e por isso o buquê de flores dele foi particularmente especial: veio com diferentes tipos de massa como enfeite! Massa, macarrão, mesmo. Curioso. Eu queria tirar uma foto mas acabei esquecendo. Eram basicamente diferentes tipos de macarrão, embalados num plástico transparente (pq a idéia, é, de fato, fazer o macarrão eventualmente) de tal maneira que pareciam, no buquê, flores curiosas.

Todos acharam bem inusitado. Ele foi logo colocar o buquê num vaso com água, para não secar, e eu não resisti fazer uma piadinha: “Só não deixe na água muito tempo se não fica mole demais!”. Estava me referindo ao macarrão lógico. Ele não entendeu. Tive que explicar.

Há duas semanas atrás fui a Paris encontrar uma amiga que estava viajando lá. Ela estava com um grupo de outros brasileiros. Fizemos um picnic. Compramos, no supermercado, muitos queijos. O supermercado tinha um funcionário que era especificamente um recomendador de queijos. Brincamos que ele era “queijoliê”. Durante o picnic, combinamos que não era para conversar sobre trabalho. O assunto ficou voltando repetidamente como piada, cada vez que alguém comentava qualquer coisa que poderia ser minimamente relacionada à profissão de alguém presente, a pessoa em questão logo comentava que não podia responder porque não era pra falar de trabalho. Ao conversarmos sobre os vários queijos que estávamos comendo, eu comentei “Ainda bem que nenhum de nós é queijoliê”. Foi uma piadinha bobinha puxando os assuntos daquele dia – o queijoliê e o não falar sobre trabalho. Todos riram, felizes. Eu percebi que era a primeira vez que todos riam, felizes, de alguma piadinha boba que eu fiz EM ANOS. (É possível que o vinho tenha ajudado)

Mas esse comentários bobos fazendo referência a outras partes da conversa é algo que nunca teria gerado risos num grupo de alemães. O senso de humor alemão (ou a falta dele) é uma característica conhecida e frequentemente apontada em piadas e comentários a respeito da cultura alemã. É verdade que o humor alemão é diferente do que a gente conhece.

Uma diferença grande está muito á língua alemã. Em comparação ao português, a língua alemã tem bem menos variações na entonação. A gente sempre ouve (de vários estrangeiros, não só alemães) que o português brasileiro é uma língua muito “cantada”. Em português é fácil, alterando só a entonação das palavras, denotar maior informalidade, maior formalidade, carinho, sarcasmo, impaciência, e vários outros significados subentendidos. Você pode falar uma frase cujo significado é quase exatamente o oposto do que as palavras usadas indicam, e só pela entonação deixar o significado real claro. Digamos, um exemplo bem simples: “Nossa, você canta bem, né?”. Dá pra falar essa frase com uma entonação honesta e uma sarcástica. Ou então meio sem entonação, pra demontrar que você não está nem um pouco interessado nas habilidades de canto da pessoa em questão, um significado de indiferença. Outras pequenas indicações físicas reforçam um significado ou outro. Se você fala isso olhando diretamente pra pessoa, é ou a frase honesta ou a sarcástica. Olhando pra outro lado é a frase indiferente. Expressões faciais também colaboram. E assim vai. Na nossa cultura e na nossa língua, o significado de uma frase vai muito além do significado real das palavras usadas, dependendo de todo um conjunto de expressões faciais, comportamento, entonação e contexto pra ser entendido.

Não é que em alemão não tenha isso também. Tem. Só que esses outros fatores são bem menos importantes pra compreensão do significado. Eles contribuem, mas o principal mesmo são as palavras usadas. Muitos alemães entre brasileiros se confundem na comunicação achando que coisas que foram ditas tinham significado literal, quando não tinham. Um caso típico é você comentar com um alemão “ah, então passa lá em casa qualquer hora” e aí ele te liga no fim de semana perguntando se pode ir na sua casa às 16h.

São várias as vezes que eu faço comentários sarcásticos, deixando bem claro pelo meu tom de voz que é sarcasmo, e vejo que os interlocutores alemães estão me olhando com cara de quem não sabe se eu tô falando sério ou não. Em situações em que seria bem óbvio, num grupo de brasileiros, que eu não estava falando sério.

Além disso, uma outra característica da língua que dificulta certas piadas, é que ela é muito precisa e dá menos margem para ambigüidades em comparação com outras línguas. E eu suspeito que seja isso responsável por impossibilitar o senso de humor como o que a gente conhece, que é uma aparente incapacidade de relacionar comentários com temas anteriores da conversa. Como o caso do queijoliê. Ou o macarrão nas flores. Porque colocar as flores na água mto tempo faria elas ficarem moles? Pq não era óbvio que eu estava fazendo uma piadinha me referindo ao macarrão? Suponho que seja essa ausência de ambigüidade da língua alemã é que faça com que eles sejam menos “treinados” pra identificar outros tipos de ambigüidade. Será? Não sei. Só sei que são vááários os exemplos de piadinhas desse tipo que eu faço e me vejo tendo que explicar pra pessoa o que eu quis dizer.

Quando eu estava pra casar, ano passado, o tema casamento era um assunto recorrente nas conversas de almoço entre as colegas do trabalho. Numa ocasião estávamos falando do meu vestido, que eu tinha escolhido que seria vermelho, e não branco. Eu tinha acabado de buscar o vestido, pronto, da costureira, daí o assunto. Poucos minutos depois, o assunto mudou para a apresentação do coral de uma colega. O nome do coral tem qualquer coisa a ver com frutas vermelhas, e por isso as meninas (é um coral feminino) tinham que todas ir com roupas vermelhas, rosas ou roxas para a aprensentação, e minha colega estava comentando que não tinha nenhuma roupa vermelha, rosa ou roxa (ela usa mais roupas de cores azuladas). Eu comentei, brincando “Bom, eu tenho um vestido vermelho novinho se você quiser emprestado…” me referindo, é claro, ao meu vestido de casamento, que eu tinha acabado de buscar, que era vermelho, e sobre o qual tínhamos conversado poucos minutos depois. Ela não entendeu. Eu tive que explicar.

Também numa conversa de almoço do trabalho, estávamos conversando sobre o fato de que a máquina de café estava na assistência técnica. A máquina de café do escritório faz cafés maravilhosos, eu (e outros colegas também) estava bem transtornada com a ausência da máquina de café. Minha colega comentou que a outra colega que tinha levado a máquina pra assistência técnica, a Ana, disse que provavelmente ficaria pronta e voltaria no dia seguinte. Algumas frases depois, comentando sobre alguma outra coisa da tal Ana, a mesma colega com quem eu estava conversando sobre a máquina de café falou que a Ana parecia estar com um início de gripe e se pá ia acabar tendo que ficar o resto da semana em casa. Eu comentei, com um tom dramático exagerado “Ó Não!! A Ana não pode ficar em casa o resto da semana!!!” me referindo, na verdade, ao fato de que se a Ana não viesse ela também não traria de volta a máquina de café. Quer dizer, a gente tinha conversado sobre a máquina de café SEGUNDOS antes, sério. Nope, não rolou uma compreensão direta, tive que explicar que eu estava brincando que não era a Ana que faria falta, mas a máquina de café.

As piadas dos alemães são como a comunicação alemã: diretas, sem sutilezas, sem risco de serem mal compreendidas.

E pra pessoas de outras culturas – especialmente pra nós, que fazemos graça de tudo, que floodamos a internet com memes de qualquer situação segundos depois dela ter ocorrido – pode bem parecer que os alemães não têm senso de humor. Mas talvez o pior resultado disso seja que se você estava acostumado a fazer as pessoas rirem com o que você fala no Brasil, aqui você perca essa habilidade…


(Publicado em 28 de Agosto de 2018)

Hino Nacional Alemão

Durante a Copa, uma coisa que não saía da minha cabeça era o hino nacional. Adoro o hino nacional, acho ele bonito na melodia, na letra, sempre emociona ouvir.

Estando na Alemanha durante importantes eventos esportivos mundiais outra coisa que fica na sua cabeça, claro, é o hino da Alemanha. Bom, esse ano nem tanto já que só o ouvimos três vezes, néam. Mas embora a melodia do hino alemão já me seja muito bem conhecida, uma coisa que eu não aprendi ainda é a letra.

Isso porque aqui pega um pouco mal sair cantando o hino alemão. No estádio (a maioria) dos jogadores e alguns torcedores cantam, mas se vc for assistir o jogo em algum biergarten ou bar, vai logo ver que poucas pessoas cantarão o hino. Por causa do passado nazista ultra-nacionalista, os símbolos nacionalistas como hino e bandeira acabaram ficando com uma conotação ruim. Por aqui se você vir alguém com bandeira da Alemanha na janela – fora da época de copa do mundo ou eurocopa – certeza que não é uma pessoa bacaninha. Grandes chances de ser um neonazi.

Assim sendo, a maioria das pessoas prefere não cantar o hino e você vai logo perceber, num Biergarten ou bar assistindo a um jogo, o tipo de pessoa que canta o hino junto: normalmente um grupo de homens mal-encarados com a maior cara de briguentos.

E por esse motivo eu não ouvi a letra do hino alemão suficientes vezes para aprender por osmose. Só se for uma coisa ativa, mesmo. Já pedi pro meu marido me ensinar, ele se recusou. Outro dia eu estava com o hino alemão na cabeça e comecei a distraidamente cantarolar baixinho a melodia e ele me deu bronca, rsrsrs. Por sorte o hino brasileiro não tem para nós essa mesma conotação ultra-nacionalista (exceto quando tocado em manifestações bizarronas pedindo intervenção militar), então eu tentei ensinar a letra do hino nacional pro meu marido. Até agora ele já aprendeu: “Ouviram das piranhas às margens plácidas, de um povo herói o tambor brilhante.” Como vocês podem ver, lhe falta algum vocabulário, mas tá indo.

Mas voltando ao hino alemão. Essa introdução toda era só pra explicar pq eu resolvi escrever um post sobre o hino nacional alemão e tal. Só não saia cantando por aí quando estiver na Alemanha, pega mal.

A melodia do Hino Alemão foi composto pelo famoso compositor Joseph Haydn, e a letra foi escrita por August Heinrich Hoffmann von Fallersleben em 1841, e chamada Deutschlandslied (canção da Alemanha).

Fallersleben e Haydn são esses dois ilustres senhores, aqui, nesta ordem.

Talvez você já tenha ouvido falar que a letra original continha 3 estrofes, das quais atualmente apenas a terceira foi mantida e constitui a letra oficial do hino alemão. As duas primeiras estrofes já não são mais cantadas desde o fim da guerra, e desde 1990 passou a ser oficial que apenas a terceira estrofe da Deutschlandslied constitui o hino nacional alemão.

O motivo pelo qual as duas primeiras estrofes foram descartadas é que elas não correspondem mais à sociedade alemã atual. Em primeiro lugar, a primeira estrofe conhecidamente começa com as frases “Alemanha, Alemanha sobre tudo”, o que não cai bem cantar depois da história toda do nazismo e talz. Em seguida, a letra menciona referências geográficas que não estão mais na Alemanha. A letra diz:

“Von der Maas bis an die Memel,
Von der Etsch bis an den Belt,”

Do Maas ao Memel, do Etsch ao Belt. Esses são rios que antes da guerra marcavam os pontos do Leste, Oeste, Norte e Sul do mapa alemão de então. Hoje, porém, o Memel está pra lá da Polônia (na pontinha do que antes foi a Prússia), o Etsch está na Áustria, o Belt na Dinamarca, o Maas na França. Mesmo na época em que o hino foi composto usar esses rios como limites da Alemanha já era meio duvidoso, já que apenas dois estavam de fato dentro das fronteiras alemãs. Os outros dois fizeram parte do mapa alemão em diferentes momentos depois da composição da música, mas atualmente nenhum dos rios toca em nenhum momento o solo alemão. Não faz nenhum sentido cantar isso no hino, portanto.

Finalmente, a segunda estrofe também foi abandonada por ser bizarramente machista, basicamente colocando mulheres alemãs no mesmo nível de bens culturais da alemanha que a música e o vinho alemães… nada a ver e com certeza não condiz com a sociedade alemã contemporânea, que é bem mais igualitária.

Assim sendo, restou apenas uma estrofe como sendo o hino nacional oficial. É ela:

“Einigkeit und Recht und Freiheit
Für das deutsche Vaterland!
Danach lasst uns alle streben
Brüderlich mit Herz und Hand!
Einigkeit und Recht und Freiheit
Sind des Glückes Unterpfand;
Blüh’ im Glanze dieses Glückes,
Blühe, deutsches Vaterland!”

União, justiça e liberdade
para a pátria alemã!
Por esses ideais lutemos,
fraternalmente com o coração e as mãos!
União, justiça e liberdade,
São o fundamento para a felicidade
Floresça no irradiar desta felicidade,
Floresça, pátria Alemã.

Meio bobinho, mas simpático, e bem melhor que as coisas bizarras das duas estrofes descartadas. Mas ainda sou mais a resplandecente imagem do cruzeiro no impávido colosso, o verde louro da flâmula, os bosques com mais vidas e os risonhos e lindos campos com mais flores…


(Publicado em 06 de Agosto de 2018)

Ciclovias de longa distância

Há duas semanas atrás fizemos uma atividade nova para a gente (ou melhor, pra mim), mas bem comum entre os alemães: Um tour de longa distância de bicicleta! Pedalamos 60km, de um local na Böhmische Schweiz (o lado tcheco da Sächsische Schweiz) até em casa, em Dresden. A pedalada demorou 5 horas (contando três paradas de aproximadamente 20 min) e foi uma das coisas mais legais que eu já fiz por aqui: o caminho ao longo do vale do rio Elba é super cênico e o sentimento de missão cumprida ao chegar em casa depois de 60km na bike é ótimo.

O mais legal é que pela Alemanha há diversas ciclovias de longa distância, de maneira que se você for dessas pessoas ativas que gosta de pedalar por horas a fio, não vai precisar se arriscar pedalando do lado de carros há 120km/h. (Fora que nenhuma auto-estrada é assim nossa, que lugar bonito!)

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A ciclovia em que pedalamos, que cruza a Sächsische Schweiz, chama-se Elberadweg. Como diz o nome, é uma ciclova ao longo do rio Elba, mas o mais impressionante: ao longo de TODA a sua extensão!! Um total de 1260km de ciclovia, muitas vezes dupla (duas ciclovias, uma em cada margem do rio), começando na nascente do rio Elba, na República Tcheca, passando por Praga, pelas paisagens maravilhosas da Sächsische Schweiz, por Dresden, Meißen, Dessau, Magdeburg, Hamburgo e terminando na foz do Elba no Mar do Norte, quase na Dinamarca! Perto desse total, nosso tour de míseros 60km ficou até sem graça!

mapa Elberadweg

Mas ter uma ciclovia dessas na porta de casa é realmente um privilégio pra quem gosta de pedalar. Mesmo percorrendo um pequeno trecho você já vai cruzar pequenos e bucólicos vilarejos, campos, florestas, passar por castelos, maravilhosas montanhas (vistas do vale do rio, claro) e grandes cidades. É um caminho extremamente cênico.

E bastante conveniente é ser uma ciclovia ao longo de um rio, o que significa que ela é relativamente plana a maior parte do percurso. Principalmente se você escolhe descer o rio (ou seja, em direção a Hamburgo), não haverá longas e difíceis subidas.

E porque na Alemanha não poderia ser diferente, é claro que tem um site do Elberadweg com mil informações super detalhadas do percurso todo incluindo mapa interativo, pontos de interesse ao longo do percurso como biker-friendly hotéis, pensões, restaurantes e cafés, além de pontos turísticos, etcetcetc. Dá pra planejar todo o seu passeio, tirar um mês de férias e percorrer a ciclovia completa, parando nos diversos pontos interessantes pelo caminho!

Para terminar, ficam algumas fotos da região do nosso passeio!


Leia também os outros posts com o tema bikes!

Pedalando na Alemanha 1 – Onde e para quem
Pedalando na Alemanha 2 – Quando pedalar e onde estacionar
Pedalando na Alemanha 3 – Com chuva e carga
Bikes para alugar
Bicicletas e polícia


(Publicado em 04 de Agosto de 2018)

Trümmerfrauen – As mulheres que reconstruíram a Alemanha

Recentemente eu precisei para um projeto procurar algumas fotos antigas de uma rua aqui de Dresden. A dica de uma colega foi dar uma olhada no catálogo da Deutsche Fotothek – o departamento de fotografias históricas da Biblioteca Estadual da Saxônia, a SLUB (Sächsische Landesbibliothek – Staats- und Universitätsbibliothek), onde eu então me perdi por horas a fio. A Fotothek disponibiliza online as fotos do seu catálogo, um imenso banco de fotografias antigas – a maioria aqui da região, mas outras de outros locais também. Dá pra ficar horas lá assistindo a história de Dresden se desenrolar desde o advento da fotografia até anos recentes. Claro que as fotos mais impressionantes são as da época da guerra e especialmente do pós-guerra. Como expliquei no post sobre Dresden, a cidade foi destruída quase por completo em 13 de Fevereiro de 1945, um dos últimos bombardeios de grande escala da segunda guerra. Mais impressionante que as fotos da cidade destruída (que já são tão famosas e amplamente divulgadas) são porém as fotos dos anos seguintes, quando os sobreviventes limparam os destroços e reconstruiram partes da cidade.

A história da Enttrümmerung (remoção de destroços) e Wiederaufbau (reconstrução) de Dresden (e outras cidades alemãs) é particularmente interessante porque esse foi um trabalho realizado majoritariamente por mulheres. Os homens sobreviventes, que não eram muito velhos ou doentes para serem soldados, permaneceram algum tempo detidos pelas forças aliadas após o final da guerra.

Desta história criou-se o termo “Trümmerfrauen“, literalmente traduzido para “mulheres dos destroços”, para se referir ás mulheres sobreviventes que juntas removeram os destroços de suas cidades destruídas e reconstruíram as mesmas.

Em Dresden há inclusive um monumento à Trümmerfrau (Trümmerfrau – singular, Trümmerfrauen – plural), uma escultura bem na frente do edifício da prefeitura.

A iniciativa de recordar e comemorar o esforço dessas mulheres é bem digna. Foi um trabalho que não apenas exigiu muito esforço físico e muitas horas de trabalho árduo ao longo de vários meses, mas especialmente que necessitou uma tremenda resiliência e e força de vontade de ver sua cidade completamente destruída e ainda assim encontrar energia mental para se levantar todos os dias e ir empilhar tijolos.

Infelizmente essa memória é muitas vezes resignificada por grupos neo-nazis ou ultra-nacionalistas que usam esse e outros monumentos que glorificam os esforços de reconstrução do país como motivo para enaltecer e exaltar os alemães etcetc, convenientemente esquecendo de mencionar que a cidade precisou ser reconstruída porque foi destruída pela guerra que os maridos daquelas mulheres inventaram de começar, e que a sociedade como um todo leva a culpa pelas atrocidades cometidas durante a guerra, tenha sido por participação ativa ou passiva. Vítimas da guerra eram os sobreviventes de certa maneira, mas ainda sempre culpados pela mesma, e pelo assassinato em massa de judeus e outros grupos. Se não pela direta participação então pela silenciosa aquiescência aos horrores do holocausto.

Mas mesmo mantendo em vista o contexto, ainda é possível admirar os esforços da reconstrução, então voltando às fotos. Li as regras e consultei a Fotothek a respeito do uso das fotos da Fotothek e por sorte é permitido publicar as imagens na resolução disponibilizada gratuitamente online desde que seja para uso pessoal – no caso de websites, contam como uso pessoal aqueles que não visam lucro, não têm propagandas, etc.  E lá na Fotothek há inúmeras fotos desses trabalhos de remoção dos destroços e reconstrução e é um tanto engraçado ver que as mulheres que nas fotos aparecem são mesmo iguaizinhas à escultura! Nos tempos de austeridade pós guerra não era muita a variedade de vestimentas, de maneira que todas estão exatamente como a mulher símbolo esculpida: um avental para proteger as poucas roupas que sobraram, um pano na cabeça para segurar o cabelo e proteger a cabeça do sol, e uma machete, pá ou outra ferramenta similar na mão.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Rössing, Roger & Rössing, Renate. 1953.  http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88897352

(Clicando na foto você verá a página da mesmoa na Deutsche Fotothek, com todas as informações sobre a foto e link para download. Antes de sair compartilhando por aí, leia as regras de uso! Compartilhar em redes sociais, por exemplo, não é permitido.)

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham em montanha de destroços na frente da fábrica de cigarros Yenidze.

O que mais me impressiona nessas fotos é ver as mulheres rindo e sorrindo, como se cantassem e conversassem enquanto reorganizam sua cidade em ruínas. Me emociona ver a resiliência do ser humano simbolizada nessas imagens. Certamente todas as mulheres dessas fotos perderam um ou vários familiares na guerra, muitas certamente perderam suas casas e todos os seus pertences. Mas lá estão elas trabalhando juntas na reconstrução, ainda capazes de sorrir!

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301521

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SLUB/Deutsche Fotothek,  Höhne, Erich & Pohl, Erich. 1946. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/70600276

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301520

As pedras e tijolos retirados dos destroços que podiam ser reutilizados para a reconstrução eram meticulosamente organizados, empilhados e marcados.

Hamburg Nachkrieg

SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, GERMIN. 1948. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71555864

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1954. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/90041153

Mas também é importante notar que a história das Trümmerfrauen é a partir de certo ponto um tanto exagerada. Se você procurar Trümmerfrauen no google, vai encontrar diversos artigos explicando que a idéia de que todas as mulheres sobreviventes se uniram para reconstruir suas cidades é um mito. Como explicam alguns pesquisadores e historiadores, embora a maioria dos trabalhadores no esforço de remoção de destroços e limpezas fossem de fato mulheres (e isso se vê com clareza nas fotos históricas), foi na verdade uma porcentagem pequena das mulheres sobreviventes que se dedicou a esse trabalho. A maioria da população ainda via esse tipo de trabalho manual e físico como algo indigno. Principalmente na Alemanha Ocidental a imagem da Trümmerfrau é uma distorção da verdade – uma vez que nas regiões do país então controladas pelos Estados Unidos, França e Inglaterra a imagem tradicional do papel das mulheres na sociedade tornava a realização de trabalho manual por mulheres ainda mais indesejado pela sociedade. Foi mais na Alemanha Oriental, então controlada pela União Soviética, em que as mulheres trabalhando na reconstrução das cidades eram em número mais significativo, pois fazia parte dos ideais soviéticos representar as mulheres também como trabalhadoras. Muitas faziam aquele trabalho não por ideais bonitos de esforços generalizados para a reconstrução do país, mas porque era o único trabalho disponível, ainda que pagasse quase nada.

Toda história tem muitos lados e um contexto muito mais complexo que o que pode ser mostrado em uma dúzia de fotos, é claro. Mas independente disso, não deixa de ser admirável o papel importante que as mulheres tiveram na recuperação do país no pós-guerra, e especialmente o quanto isso mostra a resiliência humana. No fundo é essa a principal mensagem passada pelo monumento à Trümmerfrau: a de sobrevivência.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham retirando destroços na frente das ruínas do edifício da prefeitura de Dresden, onde hoje localiza-se o monumento à Trümmerfrau.

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Alguns artigos sobre o assunto, onde pesquisei o tema para escrever esse post:

http://www.spiegel.de/spiegelgeschichte/mythos-truemmerfrauen-nachkriegs-elend-in-deutschland-a-1190734.html

https://www.dw.com/en/dismantling-the-german-myth-of-trümmerfrauen/a-18083725

https://www.welt.de/geschichte/article174070519/Was-die-echten-Truemmerfrauen-geleistet-haben.html

O site da Deutsche Fotothek:

http://www.deutschefotothek.de


(Publicado em 03 de Agosto de 2018)

Pagamentos e Transferências

Faz tempo que eu não escrevo. É uma mistura de falta de inspiração com falta de tempo, mas também porque ultimamente os assuntos sobre os quais eu tenho vontade de escrever são meio difíceis de expressar num texto coeso. Tem um post gigantesco sobre as mazelas de imigrar, que estou escrevendo há uns dois meses e não consigo terminar por causa disso. Mas uma hora ele verá a luz do dia.

Enquanto isso, pra dar uma limpada nas teias de aranha que estavam cobrindo o blog, resolvi escrever alguma coisa, e esses dias me deparei com um assunto bom prum post fácil: pagamentos e transferências.

O pagamento de contas por aqui funciona bem diferente do Brasil. Aqui, todo tipo de pagamento é feito através de transferência. Quer dizer, óbvio, você pode pagar com cartão de crédito, com dinheiro, etc. O que eu quero dizer é que toda conta que você tem pra pagar você paga através de uma transferência bancária. Não tem boleto com mil números pra digitar ou código de barras, você faz uma transferência normal para uma conta, como se estivesse mandando dinheiro pra alguém.

Eis um exemplo. Em vez de um boleto, você vai receber uma conta assim:

BahnCard_Rechnung (1)-1

Essa é uma conta para pagar o cartão de descontos da companhia de trens. A conta mostra o valor, sempre colocando os impostos (19%) a parte.

Daí em seguida aparecem os dados para a tranferência (IBAN e BIC) e em algum lugar terá uma instrução do que você deve escrever como observação para eles saberem do que se trata a transferência. Esse campo de observação que aparece quando você faz uma transferência chama-se Verwendungszweck. Então costuma aparecer na conta o que você deve escrever como Verwendungszweck. Nesse caso, está dizendo, embaixo do número da conta:

Wichtig: Bitte denken Sie daran, die Rechnungsnummer und die BahnCard-Nummer anzugeben, damit wir den Betrag sofort zuordnen können. Vielen Dank. Traduzindo: “Importante: por favor, lembre-se de colocar o número da conta e o número do cartão de desconto, para que possamos atribuir a transferência corretamente.” Então é isso que você tem que escrever no campo Verwendungszweck, o número da conta e o número do cartão de descontos.

Aqui um exemplo da página de transferências de um banco:

Überweisung

Os dados que você têm que preencher são: Empfänger, IBAN, Betrag in EUR e Verwendungszweck.

(por curiosidade caso você se pergunte, os dois últimos itens são Überweisung als Vorlage speichern – “salvar a transferência como modelo” pra caso você vá fazer a mesma transferência mais vezes no futuro, ele já salva os dados do IBAN, beneficiado, etc pra vc não ter que digitar tudo de novo; e Terminüberweisung – transferência agendada, pra caso você queria agendar a transferência para outro dia que não hoje.)

Então se formos pagar aquela conta do exemplo, teremos que digitar:

Empfänger: DB Vertrieb GmbH – O nome do beneficiado não precisa ser exatamente o mesmo que está cadastrado no banco, isso é mais pra você lembrar que transferência foi essa. O importante para o banco é o IBAN.

IBAN: DE0000 0000 0000 0000 00 – IBAN é basicamente o número da conta bancária.

Betrag in EUR: 62 – pode ser só o número assim sem vírgula, mesmo, se não tiver centavos.

Verwendungszweck – Rechnungsnummer 00000000
                                          Nome do Cliente, BahnCard-Nummer 00000000000000

Em algumas contas, eles às vezes colocam uma tabelinha com os dados resumidos pra você não precisar ficar procurando os números na carta. Essa conta, por exemplo, veio com uma segunda página onde aparecia essa tabelinha:

BahnCard_Rechnung (1)-2.jpg

Com todas as informações num lugar só. Você talvez esteja perguntando: E esse BIC, pq aparece, pra que que serve? BIC é o código internacional do banco. Mas você só precisa digitar o BIC se estiver fazendo a transferência a partir de uma conta internacional. Se a conta for da Alemanha e a tranferência para uma conta na Alemanha, basta o IBAN.

O nome do banco você não precisa digitar, ele aparece automaticamente quando você coloca o IBAN. Aí na tabelinha aparece mais pra você confirmar.

Você talvez tenha notado que o Verwendungszweck é um campo super livre, você pode digitar qualquer coisa lá. Como saber exatamente o que digitar? Tenho que colocar um tracinho entre o número da conta e o número do cartão? Tenho que colocar meu nome? Tenho que escrever “Rechnungsnummer:“? Esse Verwendungszweck é a parte que mais vai te confundir no começo. Basicamente você pode escrever qualquer coisa ali, qualquer coisa mesmo. Se você tiver fazendo uma transferência prum amigo seu, pode escrever uma coisa engraçada qualquer, uma brincadeira. Tanto faz. Esse campo é uma referência pro beneficiado da transferência saber do que se trata a transferência.

Normalmente quando você paga uma conta, o Verwendungszweck vai ser lido automaticamente por algum computador que vai, por exemplo, confirmar para a empresa em questão que você pagou aquela conta. Não precisa dar os dados de algum jeito muito específico. Tanto faz se você colocar um traço, um espaço, uma vírgula entre o número do cliente e o número do pagamento ou qualquer que seja a infomação que eles pedem que você dê como referência, o computador vai procurar os números que precisa pra saber qual transferência é aquela, e pronto.

E se ao pagar uma conta você esquecer de colocar a informação no Verwendungszweck ou colocar a informação errada ou incompleta? Basicamente o que vai acontecer é que o computador não vai saber do que se trata a transferência e portanto não vai saber que você pagou aquela conta. Então provavelmente uma hora você vai receber uma carta dizendo que aquela conta está atrasada e se você não pagar, terá que pagar com multa, blá blá. Aí você vai ligar lá na empresa e dizer “uai, eu já paguei essa conta faz mó tempo” e eles “ué, é? mas quando?” aí vc vai olhar no site do banco quando que pagou a conta e responder “paguei no dia 20 de fevereiro, acho que esqueci de preencher o Verwendungszweck” e eles vão olhar na conta deles e ver a transferência sua do valor correto naquela data e dizer “Oh, puxa, é mesmo, recebemos sim, então tá tudo em ordem!” “Oh, ok, obrigado então.”. Fim. Não vai ser nenhum grande problema.

O que nos leva ao próximo tema: O que acontece se você não pagar uma conta, ou pagar com atraso?

Na verdade foi isso que me levou a pensar nesse tópico para o post, porque recentemente eu esqueci de pagar uma conta importante, e lembrei só três dias depois.

Apesar dos alemães serem muito preocupados com regras e pontualidade, eu diria que com pagamentos de conta eles são relativamente tranquilos. Noooormalmente o que acontece é que depois de umas 2 semanas da conta atrasada, você recebe uma carta lembrete, Zahlungserinnerung, te avisando que você ainda não pagou aquela conta, para por favor fazê-lo nos próximos x dias úteis, e para ignorar a carta se você já tiver feito a transferência antes de recebê-la. Esse primeiro lembrete normalmente não te cobra multa pelo atraso, mas te avisa da multa que será cobrada se você não pagar dentro da data definida. Se depois disso você ainda não pagar, você receberá uma primeira carta advertência, 1. Mahnung, avisando que você ainda está devendo aquele valor, com a multa de tantos euros adicionada à ele, e mais uma data limite para o pagamento. E se mesmo depois disso você ainda não pagar, você receberá uma segunda advertência, 2. Mahnung, possivelmente “Letzte Mahnung” (última advertência), com mais uma multa e o aviso de que, se você não pagar nos próximos dias outras medidas serão tomadas (cancelamento do serviço e registro do nome no esquivalente daqui ao Serasa, esse tipo de coisa).

Então no geral, se você esquecer você ainda vai poder pagar sem ter que pagar multa. Se você lembrar depois de passar a data e antes de receber o primeiro aviso, melhor ainda: paga correndo que aí as chances de eles te cobrarem multa são bem pequenas.

A quantidade de avisos e advertências que uma empresa vai te mandar a respeito da dívida antes de tomar outras medidas vai variar de empresa pra empresa. Algumas já mandam uma 1. Mahnung com multa logo de cara, outras não. Pela minha experiência, esquecer não vai ter problema se você pagar imediatamente assim que lembrar ou assim que receber o aviso. Mas, como falei, e repito por via das dúvidas: cada empresa faz de um jeito. Então não deixe de pagar achando que não vai tomar multa porque eu falei que é tranquilo! Mas se você esqueceu, não entre em pânico: provavelmente não vai ter problema.

Por coincidência, essa conta exemplo da companhia de trem eu esqueci de pagar na data, e recebi, sim, uma Mahnung com multa. Mas como era um valor pequeno, a multa tb não era mais que um ou dois euros, então não foi tão trágico. Mas esqueci de bobeira e tive que pagar multa. Mas já me aconteceu muitas vezes, quando eu tinha seguro de saúde privado, de meu seguro pagar uma conta de uma consulta que eu mandei pra eles mas esquecerem de preencher o Verwendungszweck, e aí eu recebia avisos ou advertências de que o pagamento não tinha sido feito. E nesses casos os avisos nunca vieram com multa logo de cara. (e como o pagamento tinha sido de fato feito, era fácil de corrigir. Mas era um saco pq acontecia toda hora)

A transferência costuma cair na conta do beneficiado no dia seguinte, se você fizer pela internet. Não tem taxa de transferência entre bancos diferentes. E se for uma conta que você recebe regularmente, tipo aluguel, você pode agendar uma transferência mensal (por exemplo) daquele valor para aquela conta com aquela referência, pra não precisar ficar lembrando de pagar todo mês.

É isso!


(Publicado em 20 de Junho de 2018)

 

Sie/Du: Formas de Tratamento

A inspiração para esse post veio de uma conversa durante o almoço com colegas do trabalho. Por algum motivo qualquer alguém comentou sobre tratar alguém por Sie ou por Du, e seguiu-se uma longa discussão sobre as preferências pessoais de cada presente – quando eles preferem ser tratados por Sie, quando eles preferem ser tratados por Du, quando eles preferem tratar alguém por Sie ou quando acham estranho, e o mesmo para Du.

O que você terá aprendido na sua aula de alemão, provavelmente na primeira ou segunda aula do Básico 1 do curso de alemão é: amigos e família você trata por Du, pessoas no ambiente de trabalho e pessoas desconhecidas, você trata por Sie.

Mas a realidade é bem mais complexa que isso. E além disso esse blog não é sobre língua alemã, mas sobre cultura alemã. Então eu não vou falar de regrinhas que aparecem no seu livro Deutsche Sprache A1 ou no Duolingo, mas do que eu ouço os alemães falarem sobre quando eles se sentem confortáveis ou desconfortáveis com o uso do Sie ou do Du.

A conversa no almoço do trabalho começou com uma discussão sobre como usamos Sie e Du dentro do escritório. Em cada local de trabalho é diferente. No nosso escritório usamos sempre Sie com o chefe e Du com os colegas. E o chefe sempre usa Sie com todos. O normal é, quando você usa Sie você também usar o sobrenome da pessoa, e com Du vai o primeiro nome. Então, por exemplo, se algum colega me pedisse para imprimir uma planta qualquer, ele diria da seguinte forma (todos os nomes dos exemplos são fictícios, exceto meu primeiro nome):

Laís, kannst du mir den Plan so und so ausdrucken?

E meu chefe, pedindo o mesmo, diria:

Frau Ribeiro, können Sie mir den Plan so und so bitte ausdrucken?

Mas a grande questão – que é o que estávamos discutindo no almoço – é: que nome usar quando você está conversando com o chefe sobre outro colega? Por exemplo, se uma colega minha fosse falar para o chefe que eu imprimi a planta, ela poderia dizer ou:

Herr Steinmeier, Frau Ribeiro hat schon den Plan ausgedruckt. ou…

Herr Steinmeier, die Laís hat schon den Plan ausgedruckt.

Obviamente o “correto” seria usar o sobrenome nesse caso. Mas aí é que entra a complexidade do negócio: tem vários níveis de distância que você pode manter de uma pessoa de acordo com a maneira que você conversa com ela. Como você escolhe usar Sie, Du, nomes e sobrenomes é uma dessas maneiras. Então no meu escritório foi definido que o chefe usa sempre Sie e a gente usa sempre Sie com o chefe. Mas o nível de intimidade que ele tem com os seus empregados pode variar e aparecer de outras maneiras, incluindo essa. Então alguns colegas se sentem na liberdade de se referir aos outros colegas para o chefe com o primeiro nome. E o chefe dependendo da situação ou da pessoa a quem ele está se referindo, usa o primeiro nome ou o sobrenome. Alguém que começou a trabalhar no escritório a pouco tempo é sempre “Herr” ou “Frau” Fulano. Alguém que já trabalha lá a mais tempo, embora ele trate por Sie e pelo sobrenome, ele às vezes se refere àquela pessoa para outras pelo primeiro nome. Outra maneira de mostrar uma intimidade maior ou de manter uma distância maior é na escolha de suprimir ou não ou “Herr” ou “Frau” antes do sobrenome quando você fala diretamente com a pessoa. Se minha colega do exemplo acima se sente bem de boas com o chefe, ela poderia dizer simplesmente:

Steinmeier, die Laís hat schon den Plan ausgedruckt.

Mas essa é uma escolha arriscada. Falar só o sobrenome de alguém sem Herr ou Frau na frente costuma soar bem grosseiro e mal-educado.

Essas dinâmicas funcionam diferente em cada lugar. Tem escritórios em que todo mundo se trata sempre por Sie e pelo sobrenome, mesmo entre colegas que almoçam juntos todos os dias. Mas em outros lugares, por exemplo o escritório onde meu marido trabalha, todo mundo se trata por Du, incluindo os chefes.

Mas uma coisa é certa: outras pessoas no ambiente profissional, que não trabalham diretamente com você (digamos pessoas de outra empresa com quem você está fazendo algum trabalho, clientes, terceiros, firmas contratadas para algum serviço, etc) você certamente sempre trata por Sie e sobrenome. Tem pessoas com quem eu trabalho em conjunto há mais de um ano (digamos o mestre de obra responsável pela obra de algum projeto meu, ou a pessoa da prefeitura responsável pelo projeto que estamos fazendo) de quem eu nem sei o primeiro nome. Só sei a inicial do primeiro nome porque é parte do endereço de email da pessoa.

Mas regras sociais à parte, é sempre muito interessante prestar atenção nas preferências pessoais de cada um e no significado que fica atribuído a cada escolha de linguagem. Na conversa do almoço do outro dia, os colegas presentes todos concordaram veementemente que é ótimo que na nossa empresa tratamos o chefe por Sie e vice-versa, e que eles acham ótimo que seja mantida essa distância entre chefe e empregados pelo emprego do Sie. Depois de dois anos e meio na empresa eu já acostumei com isso e acharia estranhíssimo tratar o chefe por Du. E o mais curioso é que meu entendimento sobre respeito e pessoalidade também mudou um pouco no seguinte sentido: no início eu achava negativo vc, como chefe, manter distância dos seus empregados, porque na minha visão isso facilitaria pro chefe por exemplo mandar as pessoas embora em qualquer oportunidade, sem pensar no impacto pessoal que vai ter na vida daquela pessoa perder o emprego. Mas agora trabalhando lá há um tempo eu vejo que o contrário é verdade. Meu chefe respeita pra caramba os empregados do escritório. As pessoas que trabalham lá são todos contratados fixo desde o início, recebem salários decentes, trabalham lá há muito tempo. Tirar férias é tranquilíssimo, ninguém trabalha de fim de semana nunca, raramente depois das 18, ninguém jamais entra em contato com vc durante suas férias… como é correto. E se eu vejo o que os meus amigos do Brasil contam, ou uma ou outra experiência que tive lá, onde as pessoas são extremamente próximas num nível pessoal, as pessoas frequentemente trabalham sem serem contratados fixo, não conseguem tirar férias, trabalham uma quantidade de horas extras absurda… e tudo isso enquanto o chefe tá sendo super fofo contigo e te tratando como bff. Quer dizer. Talvez a distância que é mantida quando vc trata alguém por Sie e não por Du não sirva pra vc esquecer que seu empregado é um ser humano com vida pessoal mas pra vc não esquecer que vc tem que ter um respeito profissional por ele. E não achar que ele tá lá trabalhando pra vc pq ele é seu parça que tá te dando um help e que vc pode pedir pra ele trabalhar até às duas da manhã do domingo por um salário lixo porque é pra isso que servem os amigos.

Mas saindo um pouco do ambiente de trabalho, vale a pena discutir também o uso do Sie/Du em outras situações.

Por exemplo lojas. Na maioria dos lugares em que você for, como cliente você será tratado por Sie. Tem alguns lugares, lojas ou empresas que querem parecer jovens e inovadoras, onde você talvez seja tratado por Du. Parece que não cai muito bem, exceto com outras pessoas muito jovens.

E uma coisa que eu acho curiosa é a forma de tratamento em ambientes familiares. No Brasil é bem normal tratar todo mundo por você. A principal exceção são pessoas idosas, que costuma tratar-se por senhor ou senhora. Mesmo que a pessoa seja próxima, é bem comum chamar os próprios avós de senhor e senhora. Já os alemães são diferentes nesse sentido. Dentro de ambientes familiares, mesmo a avó e o avô são tratados por Du. Mas e se for a família do seu namorado ou namorada, ou amigos? O mais comum é logo tratar por Du, mas nesse caso lembre-se de respeitar a hierarquia antes de sair chamando o seu sogro de Carlão. Deixe que as pessoa mais velhas definam que o Du pode ser usado..

O que nos leva ao próximo ponto: quem pode decidir quando trocar de Sie pra Du? Se você assiste muitos filmes e séries americanos, talvez acha que funcione como lá: as pessoas mais velhas te tratam pelo primeiro nome e você os trata por Sr. Sobrenome até que eles lhe digam “pode me chamar de Fulano”. Não. Aqui não é uma decisão unilateral. O que acontece é que, em situações em que ambas as alternativas seriam possíveis, a pessoa mais velha ou que está acima na hierarquia é quem por perguntar se vocês podem se tratar por Du. Mas atenção: a diferença aqui é que é realmente uma pergunta, você poderia responder ‘não, preferia continuar usando Sie se você não se incomodar’.

Mas a maior parte das situações do dia-a-dia é meio pré-definido. Em situações de trabalho sempre Sie, na universidade todo mundo se trata por Du, exceto os professores, que te tratam e devem ser tratados por Sie, em situações familiares usa-se Du, etc… a melhor dica que se pode dar: presta atenção em como a outra pessoa te trata e segue a mesma linha. Se alguém está te tratando por Sie, nunca mude pra Du sem antes esclarecer com a pessoa se tudo bem. Se alguém está te tratando por Du, significa que vc pode usar Du também, mesmo que seja numa situação em que vc sentiria um certo receio em tratar a pessoa pelo primeiro nome, porque é o chefe ou uma pessoa muito mais velha, sei lá. Se a pessoa está usando Du com vc (e vc for adulto) você pode usar Du com ela. O que não tem por aqui é uma relação entre dois adultos em que um usa Sie com o outro e o outro usa Du com o primeiro. Ou os dois usam Sie e sobrenome ou os dois usam Du e primeiro nome.

Resumindo: é tudo um tanto mais complicado que as regras que você aprende no curso de alemão, rsrsrs. Na dúvida, evite formular frases com “você” até ter certeza qual dos dois é pra usar. Por exemplo, em vez de “você já imprimiu os documentos?”, use “os documentos já estão impressos?”. (Sind die Unterlagen schon ausgedruckt worden?) Ou em vez de “aqui no escritório vocês fazem de tal jeito?, você pode falar “aqui no escritório faz-se de tal jeito?” (Wird das hier im Büro so gemacht?) Ou então, é, vez de “Você precisa de alguma ajuda?” você pode dizer “Posso ajudar com alguma coisa?” (Kann ich helfen? – o correto seria dizer kann ich Ihnen helfen? ou kann ich dir helfen?, mas na dúvida vc deixa o Ihnen ou dir conveniente de fora assim não corre riscos.) Sempre tem um jeito ou outro de evitar colocar a segunda pessoa numa frase, e em vez disso reestruturar a frase para a primeira pessoa ou de uma maneira genérica.

E talvez você esteja se perguntando, mas e se eu sem querer usar Du com uma pessoa que era pra usar Sie? É muito ruim? Fica muito feio?

Olha, ficar fica. Mas se vc é estrangeiro, as pessoas podem levar isso em consideração e te dar um desconto pq vc não conhece as regras. Se você errar e perceber: corrija. De preferência peça desculpas e repita a frase com Sie no lugar de Du.

Por exemplo:

Die Unterlage habe ich dir heute früh geschickt. Entschuldigung, ich habe sie Ihnen heute früh geschickt.

Se vc erra às vezes sem perceber, quando perceber peça desculpas já pelas vezes passadas e futuras, tipo:

Ach, entschuldigen Sie mich wenn ich Sie manchmal duze, es ist nur weil es in meiner Sprache nur eine Form von Anrede gibt und ich das deswegen manchmal verwechsle.
(Ah, eu já peço desculpas se eu te tratar por Du às vezes, é que na minha língua só tem uma forma de tratamento, e por isso eu às vezes troco.)

E muito importante também é não se referir pelo primeiro nome a uma pessoa com a qual você não deveria ter nenhuma intimidade. Por exemplo: como no meu escritório todo mundo trata o chefe pelo sobrenome, se eu num almoço entre colegas falasse do chefe pelo primeiro nome, todo mundo ia achar MUITO estranho, talvez suspeitar que a gente tá tendo um caso ou coisa do tipo. Ia cair muito mal. Uma vez numa reunião sobre um projeto, uma colega minha do escritório, conversando com uma pessoa da prefeitura, estava tratando ela por Du e primeiro nome, e vice-versa. Depois da reunião, a colega fez questão de me explicar que estudou junto com aquela pessoa e que elas portanto são super amigas e se conhecem muito bem. Eu já tinha imaginado que fosse algo assim, mas achei interessante que ela fizesse questão de justificar pra mim, pra que eu não achasse estranho. E mesmo assim, ela não se referiu pra mim àquela pessoa pelo primeiro nome. Tipo, ela não disse “Ah, eu conheço a Angela da faculdade, a gente estudou juntas e somos amigas”, ela disse “Ah, é que eu conheço bem a Sra. Merkel da faculdade, a gente estudou juntas e somos amigas”. Numa situação de trabalho, se você trata alguém por Du que não é colega da mesma empresa, espera-se uma justificativa de da onde você conhece aquela pessoa no nível pessoal. Porque só de trabalhar em conjunto, mesmo que por muitos anos, você nunca trocaria de Sie para Du.

Espero que esse post não tenha ficado muito confuso… mas o assunto é confuso, mesmo! Mas não se preocupe, no início você estranha, mas depois de um tempo você acostuma com essas regras sociais e o contrário começa a te parecer estranho!


(Publicado em 29 de Abril de 2018)