Mês: julho 2013

Camas Alemãs

Pode parecer um tópico estranho para um post, mas certas coisas devem ser ditas sobre camas alemãs. Elas não são como as nossas. A foto a seguir mostra bem algumas diferenças:

A primeira coisa estranha são as opções de tamanho de camas de casal. No Brasil, o tamanho mais comum para um colchão de casal é 1,60m, o dito Queen Size. Esse tamanho é quase inexistente na Alemanha. Os colchões maiores disponíveis (ok, dá para achar maiores, mas não é padrão) são de 1,40m. Tudo bem que embora altos, os alemães costumem ser bem magrelos, mas 1,40m para duas pessoas? Aí que tá, na verdade a cama de 1,40m não é pensada para duas pessoas, mas só para uma pessoa bem espaçosa.

Sim, na Alemanha existem já vários casais não tradicionais que escolhem dormir em camas e até quartos separados, mas lógico que muitos outros ainda preferem dormir de conchinha, ainda mais confortável quando neva lá fora. Na verdade a cama de casal padrão tem 1,80m, só que com dois colchões de 0,90m. Como na foto acima. (O que não facilita dormir de conchinha, a propósito.)

Mas os alemães te explicarão que blábláblá dos movimentos durante o sono, que awawaw você dorme melhor se o seu colchão não está sujeito aos movimentos do parceiro, etcetc. Pf. Sei não, não compro essa história. Mas seja como for, se você ficar com seu namorado/a/esposo/a/amigo colorido ou o que for num hotel alemão, a cama de casal provavelmente terá dois colchões. Pelo menos é grande.

A segunda coisa são os cobertores.

Os cobertores aqui são meio como travesseiros. São “recheados” com pena, como edredons, só que são colocados dentro de lençóis de cobertor, tipo fronhas. São mega confortáveis e como você consegue tirar o lençol que o cobre facilmente, fica fácil de lavar. O cobertor mesmo, vc acaba precisando lavar só muuuito de vez em quando. (se você tiver um cachorro pequeno, talvez com mais freqüência…). Além disso, vc não precisa de vários cobertores/edredons diferentes para variar a aparência da sua cama, é só trocar o lençol, que obviamente dobrado no armário ocupa bem menos espaço que um cobertor inteiro.

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Eles têm, ainda, cobertores de inverno e de verão. Basicamente o que muda é a espessura e quantidade de penas dentro. Tem uns sete níveis de cobertor.

Além disso, seguindo a lógica dos colchões separados, na maioria dos casos as pessoas têm dois cobertores de solteiro, ao invés de um de casal. Isso sim é uma idéia sagaz. Depois de usar cobertores separados, não vejo a menor possibilidade de explicação lógica para um único cobertor para duas pessoas. Muuuuito mais prático cada um ter seu cobertor, e ninguém ficar com frio durante a noite pq o parceiro roubou o cobertor todo pra si.

A maneira como eles arrumam a cama também é diferente. Os alemães não costumam usar lençóis na cama, exceto pelo lençol com elásticos que cobre o colchão, claro. Isso acho estranho. Nos dias quentes, eles dormem sem nada mesmo. Estranho. Mas pelo menos facilita para arrumar a cama. E ao fazer a cama, é normal deixar o cobertor dobrado ao meio, como na primeira foto.

E finalmente, o travesseiro. Travesseiros alemães também são feitos com pena de pato (acho que é de pato. Não é de ganso) e são bem moles e deformáveis. Eles não ficam bonitinhos retangulares. E aliás, nem retangulares eles são. O tamanho padrão de travesseiro aqui é 80x80cm.

Travesseiros

É isso! E aliás, se você vier para a Alemanha e experimentar os deliciosos travesseiros e cobertores alemães no hotel ou albergue, e ficar com vontade de levar uns pra casa, saiba que é perfeitamente possível! Eles vêm enroladinhos e mega-comprimidos, vai caber fácil na mala. Basta dar um pulo no IKEA mais próximo.


(Publicado em 27 de Julho de 2013)

Erlebnisbäder

Na Alemanha há uma cultura forte de “banho”. Não banho, assim, de chuveiro. Banho de piscina e lago. É relativamente comum as pessoas irem nadar em lagos ou rios nas proximidades de onde moram, uma coisa que para a gente parece um tanto estranha e “rural”. Um hobbie talvez para o Chico-Bento, não para quem mora em cidade.

Mas, nos poucos e preciosos dias de verão, com o tempo aberto e as temperaturas no topo, e sendo a Alemanha um país quase totalmente cercado por outros países, e portanto com poucas praias, qualquer água serve. Até as fontes pela cidade ficam cheias de criancinhas se divertindo. De biquini, de roupa, sem, tanto faz, o importante é não perder a oportunidade de se molhar.

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E para aproveitar a água mesmo no inverno, você encontra em qualquer cidade alemã uma variedade de piscinas freqüentáveis sem necessidade de ser sócio de clube nenhum, fazer exame médico, nem nada.

Tem piscinas cobertas e piscinas abertas, mas, a opção mais legal mesmo são os Erlebnisbäder. Erlebnis significa algo como aventura, uma tradução talvez um pouco exagerada, mas, basicamente, um Erlebnisbad seria um mini-parque aquático.

Em um Erlebnisbad você vai provavelmente encontrar:

Uma piscina olímpica, possivelmente com trampolins;

Uma piscina para diversão, com eventuais cachoeiras, águas borbulhando num canto, mais bolhas saindo da parede para massagem nas costas, possivelmente até um pequeno rio com corrente;

Um toboágua divertido;

Hidromassagem, normalmente para até 6 pessoas;

Sauna;

Área para crianças pequenas com piscininhas rasinhas e talvez um escorregador, quem sabe em formato de elefante;

Uma piscina descoberta (mas você entra na piscina na parte coberta), possivelmente mais quente que as outras. Em um ou outro caso também já vi a piscina descoberta ser com água salgada;

e, claro, uma lanchonete, onde você deve comer batata-frita, que aparentemente é o que se come quando se vai na piscina na Alemanha.

Na área descoberta tem também sempre um gramado para tomar sol. Algumas piscinas mais avançadas vão oferecer ainda mais opções para você relaxar e se divertir na água.

Mas e como funciona? Não precisa ser sócio?

Não.

Essa é a melhor parte. Funciona mesmo como um parque aquático, só que bem mais barato, lógico, e com preços variados. Normalmente tem opções como 2h, 5h, ou diária. E você não precisa decidir antes quanto tempo quer ficar, você paga o tempo que tiver ficado na saída (ou a diferença, em alguns casos, quando você tem que pagar já na entrada).

Os preços variam, claro, de acordo com o tamanho e variedade de opções oferecidas da piscina, mas costuma ser algo em torno de 5 ou 6 euros para 2h, e 10, 12 euros para a diária. Algumas piscinas mais avançadas podem oferecer ainda opções, por exemplo, piscina + sauna por um preço, só piscina por outro.

Se você vai com freqüência, tem normalmente alternativas de passes com desconto. Não precisa fazer exame médico, basta chegar e mergulhar.

Os vestiários também são um ponto interessante: na maioria das piscinas que visitei, os vestiários não eram separados por sexo. Quer dizer, você entra para se trocar numa cabine só para você, mas as cabines não são agrupadas por sexo, e tem sempre umas cabines família, para pais com filhos pequenos, e tal. (também ajuda se você vai com o namorado mas leva tudo numa mochila só).

E funciona sempre assim. Você chega por um corredor e as cabines estão dispostas ao longo de corredores perpendiculares a esse corredor de acesso. Aí você vai lá, entra na cabine, se troca, e sai pelo outro lado. As cabines têm então duas portas, uma que dá para o corredor que te leva para a saída, e outra que dá para o corredor com os armários e que te dá acesso à piscina. E para evitar que as cabines desocupadas fiquem com a porta trancada do lado em que a pessoa entrou e destrancada só do lado em que a pessoa saiu, elas tem um mecanismo simples porém sagaz que tranca as duas portas de uma vez só.

Muito bem, calção de banho ou biquini colocados, toalha em mãos e havaina no pé, você sai pelo outro lado e deixa sua mochila/bolsa/sacola/o que for em um dos inúmeros armários.

Antes de entrar na piscina, é normalmente obrigatório tomar uma ducha. Não se preocupe, os banheiros e duchas são sim, separados por sexo! =D MAS saiba também que os alemães, especialmente os da antiga Alemanha Oriental, são bem tranqüilos em relação aos seus corpos. Se você for à praia, por exemplo, não é raro que as pessoas se troquem ali mesmo, em público, sem grandes preocupações, e topless ou whatever-less também não são raros. Então em piscinas acontece de vez em quando das pessoas (claro, senhores e senhoras mais velhos, não pessoas novas) se trocarem fora da cabine mesmo, na frente do armário. Não se assuste, portanto, se vir um senhor peladão. Ele provavelmente não é um tarado maluco.

Vale a pena experimentar um Erlebnisbad se você estiver na Alemanha, mesmo viajando. Você encontra dessas piscinas em quase qualquer cidade da Alemanha, principalmente no sul do país. O melhor horário para ir é durante a semana no final do dia. Vários fecham só às 22h, então é tranqüilo chegar lá pelas 19h e ter ainda bastante tempo de piscina, sem muita gente. Só preste atenção, caso você queira comer a importante e tradicional batata-frita, que as lanchonetes costumam fechar antes, às 20h.

É uma ótima maneira de aproveitar o verão, e também de se animar nos invernos gelados e escuros!


(Publicado em 25 de Julho de 2013)

Schrebergärten

Se você já viajou de trem pela Alemanha, talvez tenha notado ao longo da linha na periferia das cidades estranhas casinhas super pequenas em pequenos lotes com quintais. Se você tiver passado no inverno, quando as plantas estão secas, pode ter imaginado que seriam casas de pessoas mais pobres.

Não.

Acontece que os alemães adoram um jardim. Mesmo. Ter um jardim em casa é um grande ponto positivo, muitas vezes mais importante que ter espaço para carro.  Aqueles quintais típicos de casas brasileiras, forrados de pisos frios e azulejos sem um pedacinho de terra aqui seriam uma medonha aberração incompreensível.

Mesmo os prédios costumam ter um pedacinho de jardim, ainda que pequeno.

Jardins no espaço livre de edifícios de apartamentos

Jardins no espaço livre de edifícios de apartamentos

Você ficaria surpreso de saber que os apartamentos no térreo não são fortemente rejeitados, apesar da inconveniência e falta de privacidade de ter suas janelas de cara para a calçada. Vários deles têm seus próprios jardins, e morando no térreo, dá para deixar seu gato sair para dar uma volta. (São pouquíssimos os gatos daqui que moram só dentro do apartamento. A maioria dos gatos pode sair.)

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Alemães gostam tanto de um jardinzinho que aqueles que não têm um em casa alugam um Schrebergarten. Os agrupamentos de pequenos lotes de jardins são encontrados principalmente às margens das ferrovias e estradas, onde é complicado construir por causa do barulho. Você encontra desses por toda a Alemanha, é realmente comum. A maior parte das pessoas que alugam são mais velhos, principalmente aposentados. A idade média é de 60 anos. Mas tem famílias novas também. Inclusive alguns apartamentos vêm com um jardim junto, não necessariamente vizinho ao apartamento.

Os aluguéis variam de acordo com o tamanho e localização, claro, mas são no geral bem baratos. Parece que a média é de 373 euros por ano, o que dá só 31 euros por mês de aluguel. Bem em conta, para um lugarzinho ao sol. (exceto que sol na Alemanha é meio raro, mas tudo bem). Os tamanhos podem variar entre 50m² e 300m², se não me engano.

A tradição dos Schrebergärten é antiga, tendo tido início há aproximadamente 200 anos atrás, quando as pessoas começaram a mudar das áreas rurais para as cidades em busca de empregos, e sentiam falta de contato com a natureza, espaços verdes e tranqüilos.

Lá os alemães aproveitam para plantar verduras e frutas, flores, plantas, às vezes tem um espaço para as crianças brincarem… As casinhas abrigam pequenas cozinhas, talvez uma salinha para sentar, certamente um banheiro, e, claro, as ferramentas de jardinagem.

Loteamento de jardins ao longo de linha ferroviária em Dresden.

Loteamento de jardins ao longo de linha ferroviária em Dresden.

Ótima ocupação para velhinhos aposentados que gostam de jardinagem!


(Publicado em 3 de Julho de 2013)