Mês: setembro 2013

Toques e conversas

Eu já falei um pouco sobre cumprimentos e comunicação na Alemanha, que estão também ligados ao que a gente ouve falar sobre a cultura européia (norte-européia, mais especificamente), sobre eles serem “frios”.

Essa impressão fica clara também na freqüência com que os alemães se tocam.

Claro, amigos próximos e família se abraçam, por exemplo, quando se encontram, antes de ir embora… mas só! Quer dizer, durante uma conversa ninguém se toca, ninguém coloca a mão no ombro do outro, dá um abraço, sei lá. É até difícil explicar porque falando, assim, parece totalmente normal, ué, você também não abraça pessoas aleatoriamente enquanto conversa durante um jantar, né? Mas depois de um ano convivendo praticamente só com alemães eu conheci várias pessoas de outros lugares do mundo e percebi que sentia falta de contato humano!

Sempre que eu lia sobre o Brasil textos que diziam coisas como “ah, os brasileiros se tocam o tempo todo, tem um contato muito próximo entre as pessoas, não ache estranho se alguém que você mal conhece encostar em você, etcetc” sempre me pareceu meio exagerado, até parece que você sai abraçando desconhecidos na rua, sei lá. E não é nenhum pouco difícil você se adaptar a não encostar nas pessoas jamais, você nem percebe que está agindo diferente porque é normal, pra você também, só encostar em pessoas quando a outra pessoa está de alguma maneira passando algum sinal de ser receptiva.

Então durante o primeiro ano na Alemanha, em que só tive contato com alemães, nem percebi que não encostava nunca em ninguém a não ser para cumprimentar, e também não percebi que da mesma maneira que eu parei de encostar nas pessoas, eu também passei a não esperar que as pessoas encostassem em mim.

Aí de repente conheci várias pessoas de outros países onde como no Brasil o contato também é mais próximo, e primeiro percebi que depois de pouco tempo, pessoas que tinham acabado de se conhecer já estavam se abraçando com freqüência, encostando nos ombros, na cintura, nos braços, como se fossem grandes amigos. Mas comigo não faziam isso! De alguma maneira – não sei como – as pessoas não sentiam que eu estivesse tão receptiva a toques quanto os outros. De alguma maneira eu tinha me acostumado a não encostar nas pessoas e a passar a mensagem que não queria que encostassem em mim.

Assim que eu comecei a iniciar o contato – abraçando as pessoas, por exemplo – essa barreira desmanchou, e eu percebi o quanto eu sentia falta de contato humano! Engraçado!

O estranho é que eu tenho a impressão que até para casais de namorados o contato é bem restrito, pelo menos na frente de outros.

Apesar de conviver com essas diferenças, não acho que descrever os alemães como “frios” seja muito justo. Dá a impressão de que eles não se encostam porque não se gostam, ou porque não querem intimidade, sei lá. Não é o caso. É só mesmo uma diferença cultural, mas não significa que as pessoas em si sejam diferentes.

Esse contato mais próximo que a gente tem no Brasil, ou na América latina inteira, melhor dizendo, também aparece em outras situações.

Se você for uma pessoa introvertida, que não consegue com facilidade se entrosar em grupos sem ajuda, você vai logo perceber convivendo com alemães que eles NÃO SABEM INCLUIR PESSOAS DE FORA.

Fato. Esquece. Não leve pro lado pessoal. É cultural. Os alemães não sabem fazer uma pessoa de fora (seja de fora do país, de fora do grupo de amigos, de fora da família, ou o que for) se sentir incluída. Se você for com um amigo alemão a uma festa, ou a algum evento social qualquer, onde todo mundo já se conhece e ninguém conhece você, nããããão espere que alguém venha falar com você, te perguntar da sua vida, nem nada. Não mesmo. É difícil de entender e parece super antipático. Se você não falar alemão, por exemplo, ninguém vai se incomodar de falar inglês só pq vc está sentado na mesma mesa, ainda que seja um grupo pequeno de umas 3 pessoas. Você tem que ser bem direto e explicar “olha, rola falar inglês que eu não entendo uma palavra do que vocês estão dizendo e acho super chato, isso?”. Se você pedir diretamente, eles provavelmente vão respeitar e falar inglês na sua frente. Mas se você não falar nada, não espere que eles percebam por conta própria que é super antipático excluir alguém da conversa dessa maneira. Sério, eles não percebem mesmo.

Mas mesmo que você fale alemão, se você não iniciar a comunicação por conta própria, ou se entrosar numa conversa em andamento, não espere ser incluído. Sabe aquela coisa de vir alguém curioso saber de você, falando “ei, porque você está aí quieto num canto, vem conversar com a gente! Fala, da onde você é, exatamente? Como é lá? Como é a sua família?”? Não existe. Nunca vi. Juro, raríssimo. É cultural, mas é muito difícil não sentir, numa situação dessas, que é pessoal. Mas não é: Se você for lá falar com as pessoas, elas vão te tratar super bem, ser simpáticas, conversar. Só que você é que tem que ir.

Tenho quase certeza que não é de propósito

Se você for daquelas pessoas comunicativas, extrovertidas, Sr. Simpatia, e tal, você provavelmente não vai ter nenhum problema.

De repente conhecendo pessoas de outros países, principalmente da América Latina, percebi o quanto era difícil fazer amizade com alemães. De novo, eles são legais, são simpáticos, são do bem. Só que a intimidade demora demais para aparecer, você começa a achar que a pessoa não está interessada. Entre a gente na América latina, é super comum você se dar bem com alguém logo de cara, já sentir que se conhece há anos. Aqui na Alemanha amizades demoram um pouco (poucão) mais para se firmar.

Talvez ao invés de “frios” possamos dizer que os alemães são reservados.


(Publicado em 25 de Setembro de 2013)

Eleições

Hoje, 22 de Setembro, foi o dia de eleições parlamentares na Alemanha.

Na Alemanha funciona assim: Tem o Bundestag, que é o parlamento, cujos membros são eleitos pelo povo a cada 4 anos. A chanceler Angela Merkel é a chefe do governo e é eleita pelo parlamento, não diretamente pelo povo. Tem um presidente, que é eleito pelo parlamento e pelos parlamentos estaduais, mas ele não tem nenhum poder efetivo e só serve para acenar da sacada, entregar flores, e tal.

O edifício do Parlamento Alemão

O edifício do Parlamento Alemão

Angela Merkel, a chanceler alemã.

O Bundesrat é o “Conselho federal” e seria algo como o nosso senado. Tem 69 membros, cada um representando seu estado (são 16 federações (estados) na Alemanha, cada um tem direito a 3-6 representantes no Bundesrat de acordo com a população do estado). O Bundesrat pode vetar leis propostas pelo Bundestag. Os membros do Bundesrat não são eleitos diretamente pelo povo, mas pelo governo do estado. Pode inclusive incluir o próprio governador do estado e seus parlamentares

Daí cada estado tem também seu governador e seu parlamento. De novo é o parlamento que é escolhido nas eleições, e esse escolhe o chefe do parlamento que é então o governador do estado.

E então o que exatamente foi a eleição de hoje?

Nesse domingo os alemães foram às urnas e fizeram dois xizes (Uhuu, somos mais avançados que a Alemanha em alguma coisa! Aqui eles ainda votam em papel, pfff!): um para um candidato, vou chamar de “Voto 1” e um para um partido, vou chamar de “Voto 2”.

A cédula tem essa cara:

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A coluna da esquerda é o “Voto 1”, a um candidato a parlamentar referente à sua área. As “áreas” não seguem necessariamente os limites de uma cidade ou estado, eles montam as áreas de acordo com a quantidade de pessoas que mora lá e outros critérios diversos. (Curiosidade engraçada: note que embaixo do nome do candidato(a), diz a profissão do mesmo!)

A coluna da direita é o “Voto 2”, o voto a um partido.

Todos os candidatos que forem eleitos diretamente, quer dizer, aquele que ganhar mais Votos 1 na sua área, entram no parlamento. Esses são mais ou menos metade do parlamento. A outra metade dos lugares é dividida entre os partidos, de acordo com as porcentagens de Votos 2 para os mesmos.  Um partido precisa ter pelo menos 5% dos Votos 2 para entrar no parlamento. Com 4,9%, fica de fora.

Esse sistema de votos significa que acontece, às vezes, de os candidatos de um partido que foram eleitos pelo Voto 1 excederem a quantidade de cadeiras no parlamento às que o partido tem direito de acordo com a porcentagem do Voto 2. Todos os candidatos eleitos no Voto 1 entram no parlamento. Então se isso significar que um partido vai ter, digamos, 3 membros a mais que a porcentagem permitia, aí todos os outros partidos ganham mais cadeiras, também, para respeitar a porcentagem indicada pelo Voto 2. Portanto a quantidade de membros do parlamento não é sempre a mesma.

Outra coisa que pode acontecer é de um fulano ter sido eleito pelo Voto 1, mas seu partido não ter conseguido o mínimo de 5% no Voto 2. Esse candidato entra no parlamento mesmo assim. Então ainda que um partido não tenha tido o mínimo necessário, pode ser que tenha uma ou outra pessoa do partido no parlamento.

Uma vez terminada a contagem (manual! pf!) dos votos, os eleitos já imediatamente assumem o cargo.

Acho que a essa altura só sobrou lendo a post quem se interessa por política. Então vale a pena explicar um pouco sobre os principais partidos, por que não?

Como na maioria dos países, na Alemanha tem dois partidos maiores que sempre ganham. Alguns partidos médios que entram no parlamento às vezes sim às vezes não, e os pequenos que quase nunca entram.

Os resultados da eleição de hoje ainda não estão completamente definidos, mas provavelmente não vão mudar muito mais do que os cálculos feitos a partir das cédulas já contadas e da pesquisa de boca-de-urna, e tal. O resultado mostrado pelos jornais no momento (meia noite) é o seguinte:

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O partido que tem a maior quantidade de eleitores, no momento, e que portanto elege a chanceler Merkel é a CDU, ou União democrática cristã (na imagem aparece como “Union”). É o partido de centro-direita, que se preocupa prioritariamente com a economia e menos com programas sociais. A Angela Merkel já é chanceler desde 2005, e ao que tudo indica nos resultados das eleições de hoje, será reeleita pela segunda vez. (Bom, embora a eleição não seja diretamente para chanceler, as pessoas já sabem antes a escolha de cada partido, então com o resultado da eleição parlamentar vc sabe quem vai ser eleito para chanceler pelo parlamento). Na Alemanha não tem limite para reeleição, então uma mesma pessoa pode ser reeleita mil vezes. O ex-chanceler Kohl, por exemplo, também da CDU, foi chanceler por nada menos que 16 anos seguidos!

O texto diz “A Alemanha é forte e deve permanecê-lo”. A CDU costuma usar sempre nas suas propagandas a Angela Merkel, que é bem carismática e no geral a população gosta dela. Vários cartazes gigantes da CDU mostram só uma grande foto dela escrito embaixo “Chanceler pela Alemanha”. Meio “chanceler, chanceler, é ela, é ela, uhuu!”

O segundo maior partido alemão é o SPD, ou Partido social-democrata. É o partido de centro-esquerda. Eles dão prioridade a programas sociais, educação, emprego, coisa e tal, e menos à economia, o que provavelmente explica porque no momento com a crise do Euro não é o partido mais votado. Entre outras propostas, querem implantar um salário mínimo (Nope, na Alemanha não tem um salário mínimo!) de 8,50€.

(Observação adicionada em 15 de Novembro de 2014 – Após as eleições, cujos resultados foram basicamente os apontados acima, a pela ausência de outros partidos de direita no parlamento, a CDU foi “forçada” a fazer coalizão com SPD para obter maioria no parlamento (sem maioria, fica quase impossível para o chanceler governar). Para que os dois partidos concordassem e entrassem em coalizão, alguns acordos foram feitos, incluindo um a respeito do salário mínimo de 8,50€, que agora foi aprovado e adotado na Alemanha.)

O candidato da SPD para chanceler. O texto diz “VOCÊ o tem nas mãos”. (se referindo ao poder de mudar as coisas) Na verdade não diz “você” mas “O/a Senhor/a”, que os alemães são super educados, e tal.

Em terceiro lugar nos votos até o momento está o partido “Die Linke”, que significa literalmente “A Esquerda”. Eles, claro, só falam de programas sociais. Sugerem salário mínimo de 10€, maiores impostos sobre grandes riquezas, sistema de saúde único, entre outras coisas. Embora Die Linke tenha algumas propostas em comum com o SPD (embora mais “radicais”), eles normalmente não fazem coalizões porque Die Linke é um partido que descende de certa forma do partido da alemanha oriental, e os outros partidos não querem se ligar à ele pelos motivos históricos.

Os cartazes de Die Linke são sempre vermelhões com grandes textos brancos. Nos das imagens temos “Parar os nazistas”, “Creches para todos”, “Bilhete social de transporte” (uma coisa muito específica, não sei bem a que se refere), “salários mais altos”, “Mais impostos para milionários” e “Direitos iguais para todos” (em várias línguas, indicando que o cartaz se refere a direitos para imigrantes).

Em quarto lugar aparece o Grüne, que é o partido verde alemão. Eles se preocupam, claro, com o meio ambiente, e querem 100% de energia renovável, por exemplo. Mas também têm a vertente social, querem mais creches (está em falta, na Alemanha), programas sociais, integração de imigrantes, casamento gay. Uma coisa muito legal do Partido Verde, é que eles são super atentos à igualdade entre os sexos, e aplicam isso diretamente no próprio partido: Entre os membros do partidos, tem que ter SEMPRE 50% de mulheres! E o chefe do partido são sempre dois, uma mulher e um homem. Eles também propõe um salário mínimo de 8,50€ e mais leis para assegurar que mulheres recebem salários iguais aos dos homens.

Cartaz do partido verde sugerindo mais creches. A menininha faz um trocadilho de Hello Kitty com Kita (Kindergarten). Do tipo, não quero Hello Kitty, quero creche! Fofo!
O slogan “Und du?” significa “E você” e aparece em todos os cartazes. No caso, diz “eu digo creches! E você?”. O interessante aqui é que eles usam sempre o “du”, você, ao invés do “Sie”, senhor/a. Isso indica que eles querem se aproximar mais do eleitor, e que são jovens e tal. (as novas gerações usam “du” mais e mais freqüentemente)

Em quinto e sexto lugares aparecem o FDP (Partido livre democrático) e a AfD (Alternativa para a Alemanha).

FDP (sim, FDP!) é um partido de direita, que realmente só dá prioridade para a economia, bancos e pessoas com muito dinheiro. O nome já diz tudo. Aliás, ao que tudo indica esse ano vai ser a primeira vez que o FDP não vai entrar no parlamento.

“Para a Alemanha permanecer forte”. Senhores brancos de terno são os candidatos e os eleitores do partido.

Eu não sei muito sobre a AfD, só que eles querem a volta do Marco Alemão (a moeda que a Alemanha adotava antes do Euro).

Finalmente, vale ainda falar sobre os Piraten (Partido Pirata) (Sim, pirata, mesmo) e o NDP (Partido nacional da Alemanha).

Os Piratas são um partido bem recente, criado por jovens e como o nome já diz, a coisa mais importante do partido é mudar as leis relacionadas à internet. A Alemanha é um país suuuper chatinho no que diz respeito à internet. Praticamente todos os vídeos do Youtube com músicas originais são bloqueados por direitos autorias, o Grooveshark também é bloqueado assim como o Netflix. Você corre sim o risco de ser processado se baixar músicas ou filmes ilegalmente e o negócio é tão ridículo, que se você tocar uma música num local público sem pagar a taxa necessária referente aos direitos autorais, pode ter que pagar multa. Para dar um exemplo do exagero e da fiscalização, meu namorado contou que alguns amigos da faculdade tiveram que pagar multa por ouvir música na faculdade, numa sala com 150 pessoas, sei lá, sem ter pago a taxa dos direitos autorais. Basicamente as leis alemães referentes a internet foram criadas por senhores de 70 anos que certamente nunca na vida usaram a internet. Daí os piratas. Claro que eles discutem outras coisas além da internet, mas como são um partido muito novo, ainda não está muito claro qual é o programa.

“Vigilância do Estado nunca mais!” é uma referência às dicussões recente de vigilância dos EUA na internet alheia, e como o governo atual alemão tem lidado com isso. “nunca mais” é uma referência à Alemanha Oriental. A senhora com a cabeça de câmera, é, claro, a Angela Merkel, facilmente reconhecível pela posição das mãos.

A NDP é o partido da extrema-direita. Basicamente, como já indica o nome, é o partido que descende do partido nazista da época do Hitler (o qual se chamava NSDAP, ou Partido trabalhador Nacional-socialista alemão). Eles não se definem nazistas, claro, até porque não pode, mas 100% das pessoas sabem que é isso. Eles têm propostas radicais e extremistas, são fortemente anti-imigrantes, anti-islâmicos, homofóbicos, anti-democráticos, etc etc. As propagandas deles incluem sempre criancinhas loirinhas de olhos azuis e frases referindo-se a família, Alemanha, Alemanha, alemães, Alemanha, família, Alemanha, alemães. Medo. Felizmente, eles nunca entram no parlamento. Mas em alguns estados conseguem votos suficientes para entrar nos parlamentos estaduais.

Bom, tem ainda alguns outros pequenos partidos menos importantes e de que se ouve pouco falar, mas basicamente é essa a minha resumida e altamente imparcial explicação dos partidos alemães que certamente não reflete nem precisa minhas preferências pessoais.

Uma última curiosidade sobre as eleições que cabe mencionar, é que na Alemanha dá para votar por correio, também. O voto não é obrigatório, como na maioria dos países, mas se você quiser votar e não puder ir às urnas no dia da eleição (porque está viajando, ou o que for), pode enviar seu voto por correio algumas semanas antes. Todos os eleitores recebem antes das eleições uma carta em casa que diz onde você deve votar, data, etc, e junto a cédula para votação por correio. Mais e mais pessoas estão escolhendo votar por correio. Eu acho bizarro e impossível de saber se o voto foi seu mesmo… Acaba com a obrigatoriedade do voto ser secreto, e facilita loucamente a compra de votos, né? Mas sei lá, se eles fazem assim, deve funcionar suficientemente bem.


(Publicado em 23 de Setembro de 2013)

 

Sistema educacional alemão

Continuando na linha dos “sistemas numéricos que não fazem o menor sentido”, o sistema de notas nas escolas e universidades alemãs também é bem questionável.

As notas podem variar de 1 a 6, onde, pasmem, 1 é a nota mais alta e 6 é a nota mais baixa.

Cada número significa um “conceito” variando de muito bom para insuficiente.

1 = sehr gut (muito bom) – entre 90% e 100%

2 = gut (bom) – entre 80% e 90%

3 = befriedigend (satisfatório) – entre 65% e 80%

4 = ausreichend (suficiente) – entre 50% e 65%

5 = mangelhaft (deficiente) – menos de 50%

6 = ungenügend (insuficiente) – também menos de 50% só que tipo bem menos

4 é a nota mínima (máxima?) para aprovação. Então se você tirar 5 ou 6, é reprovado. Portanto para facilitar, nas universidades eles costumam usar notas só de 1 a 5, meio numa idéia de não precisar especificar o quão mal vc foi, apenas que foi mal o suficiente para não passar.

O que eu acho que não condiz muito com a cultura alemã… os alemães são mega precisos e específicos, acho que faria muito mais sentido para eles dizer exatamente o quão mal você foi na prova. Mas enfim!

E já que estamos falando de notas, porque não uma breve explicação do complicado e esquisito sistema educacional alemão?

Na Alemanha tem algumas opções diferentes de escolas. Achei um desenho na internet que resume bem como funciona:

Como fica claro por essa bela palavra colorida em comics sans a vida escolar começa no Kindergarten, ou Jardim de Infância, aos 3 anos de idade. Claro que para crianças mais novas tem creches, também. E a educação obrigatória só começa na Grundschule, ou escola primária.

Aliás, aqui na Alemanha esse negócio de educação obrigatória é levado muito a sério. Se a criança estiver fora da escola, a polícia vai lá na casa da criança buscar a criança e levar para a escola. (claro, não pq vc faltou na aula um dia, mas se vc tiver sumido da escola sem explicações, e tal). Aliás, se vc faltar na aula um dia, já deve explicações para a escola.

Mas enfim, a Grundschule, ou escola primária, começa aos 6/7 anos de idade e dura 4 anos. E aí vem a parte estranha da história: aos 10 anos de idade você já tem que escolher para que tipo de escola você vai: Hauptschule, Realschule ou Gymnasium. Não é uma escolha totalmente livre, o professor vai orientar os pais do que é mais indicado para a criança de acordo com as notas. Cada tipo de escola tem uma quantidade diferente de anos e só com um diploma do Gymnasium que você pode ingressar na universidade, então a escolha aos 10 anos de idade basicamente decide se vc vai ter um emprego simples que não exige qualificação, um emprego médio que só exige qualificação tipo ensino técnico, ou um emprego que exige qualificação universitária. Um tanto cedo para definir todo o futuro da criança, na minha opinião.

Mas sejamos um pouco mais específicos: a Hauptschule dura 5 anos, portanto você estuda até os 14/15 anos mais ou menos. O mínimo permitido por lei.

A Realschule tem 6 anos e com o diploma da Realschule você pode fazer um ensino técnico para profissões que não exigem alta qualificação.

o Gymnasium dura 8 anos, então você termina com 17/18 anos (depende do estado, em alguns estados tem um ano a mais) e faz ao final o Abitur. O Abitur é uma prova nacional estilo vestibular, só que não específica para cada universidade, mas geral do país. É tipo a prova mega-final do colegial.

Um Gymnasium.

Um Gymnasium.

Com o Abitur é que você pode se inscrever em universidades, e ser aceito dependendo da sua nota. Se você não tiver tido nota suficiente para a universidade ou o curso que você quer fazer, você ou fica na lista de espera ou tenta um outro curso ou universidade que exija uma nota um pouco mais baixa. Na verdade a diferença maior vai ser entre os cursos, porque não tem uma grande diferença entre as universidades alemãs. A grande maior parte é pública e num nível similar de qualidade. Inclusive para alguns cursos, como medicina, você não pode escolher a universidade. Você se inscreve numa instituição central, que então distribui os alunos entre as diversas universidades.

Nem todos os cursos universitários exigem uma nota específica, então ainda que você tenha ido mal no Abitur, você consegue ingressar em algum curso de alguma universidade. Mas o Abitur tem uma nota mínima para passar também, de acordo com aquele sistema de notas explicado no começo. Então se você tirar 5 no seu Abitur, você não passa e portanto não pode se inscrever na universidade, mas tem que repetir o último ano do colegial.

Basicamente aqui não tem a questão das universidades públicas não terem vagas suficientes para todos os alunos que querem estudar. Mas algumas universidades são bem lotadas, e nos primeiros anos em alguns cursos tem aluno assistindo aula sentado no chão e tal. Então não é totalmente perfeito.

E, claro, esse sistema maluco de decidir o quão inteligente você é para fazer a escola boa, média ou ruim aos 10 anos é bem questionável. Mas existem atalhos e caminhos entre as escolas e portanto não é que se você for fazer a Haupschule seja completamente impossível forever fazer um curso universitário depois. Mas não é muito comum.

O sistema todo é portanto bem mais complicado do que esse resumo, e melhor explicado por esse maluco diagrama abaixo:

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A Hauptschule costuma ser bem ruim e bem mal vista e falam de fechá-las e deixar só Gymnasium e Realschule. E também há discussões sobre fazer uma escola única que vai até o final, afinal todo mundo é esperto o suficiente para terminar o colegial e é altamente tosco definir que uma criança de 10 anos é muito burra para fazer o Gymnasium… quem sabe mudem isso em algum momento do futuro. Mas, pelo menos, as escolas são na sua grande maioria públicas, e suficientes para todas as crianças. Tem escolas particulares, também, mas é bem incomum estudar em escola particular.

E boa qualidade e suficiente oferta das universidades públicas é também super positivo, claro. (E, pasmem, a infraestrutura das universidades públicas NÃO está caindo aos pedaços!). Na maioria dos estados a universidade é gratuita, mas você paga uma taxa de uns 200 euros no começo de cada semestre. A maior parte dessa taxa é para pagar o seu bilhete de transporte público ilimitado que vale no estado inteiro, e o resto vai para o grêmio estudantil. Então na verdade você não paga nada para a universidade em si. Em alguns poucos estados isso é diferente e tem também uma taxa que você paga para a universidade no começo do semestre, de uns 500 euros. Mas essa taxa é super impopular e está sendo aos poucos extinta em todos os estados.

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Uma universidade alemã.

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O edifício da Faculdade de Biologia da Universidade Técnica de Dresden.

Biblioteca da Universidade Técnica de Dresden

Biblioteca da Universidade Técnica de Dresden

Comecei esse post querendo falar sobre o sistema de notas na Alemanha e acabou virando um post sobre todo o sistema educacional! Mas tudo bem. Em breve escrevo um post mais específico sobre coisas interessantes referentes às universidades.

Mas resumindo: a educação é pública e decente, embora tenha seus problemas e coisas a melhorar!


(Publicado em 20 de Setembro de 2013)