Mês: novembro 2013

Martinstag

Martinstag, ou Dia de São Martinho, é uma data religiosa comemorada em alguns países da Europa Central e do Norte, incluindo, claro, a Alemanha. A data oficial é dia 11 de Novembro, mas a comemoração referente costuma ocorrer em diferentes datas, de acordo com a conveniência da escola. Escola?

Eu não sei se outras pessoas comemoram o Martinstag por algum motivo qualquer, mas pelo menos por aqui é tipicamente uma festinha do jardim da infância.

Mas espere, antes de mais nada. Quem é esse tal São Martinho? O Lutero? Não, o Martinho em questão é o São Martinho de Tours, conhecido pela história em que ele corta seu casaco na metade para dividi-lo com um mendigo durante uma nevasca.

El_Greco_-_San_Martín_y_el_mendigo

Ele é também conhecido por ser amigo das crianças e padroeiro dos pobres.

Embora seja comemorado pelas escolinhas, não é uma comemoração brega chatinha. É bonitinha porque as crianças saem andando em grupos pela cidade com “lampiões”. Sei lá qual o melhor nome, mas são assim:

Tradicionalmente a procissão das criancinhas é puxada por alguém representando o São Martinho, em um cavalo. Mas acho que não é sempre que a escolinha arranja um cavalo pro evento… E voltando à história da data mais conveniente, como depende um pouco da escola, e a maioria prefere fazer o evento numa sexta-feira para ficar mais fácil para os pais participarem, em diferentes dias de Novembro você vê criancinhas com lampiões andando por aí.

Mas a comemoração não se limita à procissão. A mesma termina em uma fogueira, onde as crianças se juntam e comem o Martinstag Weckmann, um pãozinho em forma de homenzinho com um charuto.

Também faz parte da tradição do dia de São Martinho, comer ganso. Segundo a lenda, para evitar tornar-se bispo, São Martinho teria se escondido em um viveiro de gansos. Mas os gansos cacarejaram (cacarejaram?) e delataram o pobre São Martinho.

Eu nunca vi essa parte, mas de acordo com alguns alemães ocidentais, depois da procissão as crianças vão em grupinhos de porta em porta cantar músicas típicas de São Martinho para ganhar doces. Como cai normalmente no início de novembro, o dia de São Martinho é meio que a tradição alemã “comparável” ao Halloween. (com a diferença de que para ganhar doces as crianças cantam musiquinhas fofas ao invés de ameaçar os adultos com travessuras).

Embora Halloween não seja tradição na Alemanha, aos poucos mais e mais crianças saem com fantasias no dia das bruxas para pedir doces na vizinhança. Não é super comum, mas talvez apareçam um ou dois grupos de monstrinhos e bruxinhas à sua porta dizendo “Süßes oder Saures!”, a versão alemão de Trick or Treat.

Sou mais manter o tal dia de São Martinho, é mais simpático!


(Publicado em 17 de Novembro de 2013)

Universidades alemãs: aplausos curiosos

Universidades alemãs tem diversas particularidades interessantes e diferentes do Brasil. Não vou abordá-las todas num único post, ouvi dizer que é melhor criar suspense.

Mas uma das peculiaridades mais interessantes, e totalmente específica da Alemanha, são os “aplausos” ao final da aula.

Você já está pensando aí com seus botões, como assim, o que tem de especial em aplaudir a aula, super normal, a gente também aplaude!

Mas a diferença reside no aplauso. Eis que na Alemanha não é exatamente um aplauso. Ao final de uma aula na universidade – e isso é exclusivo das universidades, em outros eventos aplaudíveis o aplauso é normal – os alunos batem na mesa com os nós dos dedos (também não sabia que chamava assim, quem me disse foi o Google translator, mas nó dos dedos são aqueles ossinhos da mão que você usa para verificar se um mês tem 30 ou 31 dias), da mesma maneira que você bateria numa porta antes de entrar, só que na mesa! Assim:

Eu sei, eu sei, é provavelmente a coisa mais bizarra que você já ouviu sobre a Alemanha nesse blog ou em qualquer outro lugar! Mas é verdade e totalmente difundido: provavelmente qualquer aula em uma universidade alemã que você presencie terminará com a típica batidinha de nós-de-dedos na mesa. Se você chegar desavisado vai achar totalmente incompreensível e talvez imaginar que os alunos estão fazendo graça do professor ou coisa do tipo. Mas é o equivalente de um aplauso.

Pesquisei um pouco e descobri um artigo no Deutsche Welle sobre o assunto, que descreve algumas possibilidades para a origem deste curioso costume alemão. Segundo o artigo, não existem estudos sobre o assunto e portanto a origem não é certa. Mas o autor sugere (entre outras alternativas) que possa ser relacionado ao fato de que ao final das aulas, há uns dois séculos atrás, aos alunos munidos de suas penas e pergaminhos (ok, pergaminhos talvez não) restava apenas uma mão livre para demonstrar seu entusiasmo com a proeminente fala de seu ilustre professor. Aparentemente deixar a pena de lado por alguns segundos para um aplauso normal era irrealizável restando-lhes apenas a oportunidade de bater na mesa como se fosse uma porta. Plausível.

Origens duvidosas à parte, interessa saber que bater na mesa é um gesto multifuncional!

Se quando realizado ao final da aula representa aplausos, ao ser efetuado poucos minutos antes do horário de término da mesma indica ao professor que a aula já durou o suficiente e os alunos estão cansados e desesperados para que chegue ao fim. Alunos batendo na mesa com esse intuito eu nunca presenciei, mas segundo o meu namorado, com mais anos de experiência em universidades alemãs que eu, acontece sim, de vez em quando, e não é desrespeitoso como soa! Conveniente!


 

(Publicado em 13 de Novembro de 2013)

Esquentadores-de-mão

Pequenas e sagazes soluções para enfrentar o frio alemão incluem um tal esquentador-de-mão. Não, não são luvas. Esquentador-de-mão seria a tradução literal para Handwärmer, embora eu concorde que “esquentador-de-mão” não é assim, “nooossa, que sacada de marketing, esse nome, vai dar a maior publicidade!”. Mas o que são, afinal, esses Handwärmer?

É isso aqui:

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É basicamente um “pacotinho” com um líquido dentro e uma coisinha dobrável de metal do tamanho de uma moeda.

Nessa outra foto dá pra ver melhor a moedinha:

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Não é que ela é dobrável, mas talvez dê para ver na foto que ela é côncava, e basicamente se vc “dobrar” ela fica convexa. Ou côncava pro outro lado. Nossa, que difícil explicar.

Enfim, e como é que esse negócio serve pra esquentar sua mão? É quente? Não. Bom, enquanto ele está líquido, não. Daí a moedinha: serve para você iniciar uma reação que cristaliza todo o líquido, e, no processo, gera calor. O líquido vai se solidificando aos poucos e o pacotinho vai ficando bem quente, chega a uns 55˚C. Você coloca no bolso e esquenta o seu bolso e as suas mãos no dia frio! O processo dura de uns 20 a 40 minutos, dependendo do tamanho e da quantidade de líquido dentro e tal. O tempo que você demora num percurso a pé. Prático, não?

solidificando

Mas e depois, joga fora?

Não, claro que não, o Handwärmer é reutilizável. Para fazê-lo líquido novamente basta colocar em água fervente de uns 5 a 10 min. E aí reiniciar todo o processo quando quiser, com a tal moedinha.

Mas que mágica é essa?? Cooomo assim esse líquido de pirilimpimpim solidifica quando vc dobra a moedinha, que negócio dos diabos é esse?

Na verdade é uma coisa super simples. A reação em questão é a geracão de calor por uma cristalização exotérmica de uma solução supersaturada. O líquido no pacotinho é uma solução supersaturada de acetato de sódio, ou seja, tanto acetato de sódio quanto possível colocar na água de maneira que todo o acetato dissolva. Dobrando a moedinha você gera uma nucleação, que inicia a cristalização, que gera calor. Para voltar ao estado líquido, o calor é necessário para dissolver o sal de novo.

Talvez você tenha percebido através da minha explicação-tradução-livre-direta-do-wikipedia que meus conhecimentos de química se limitam a aulas de muitos anos atrás no colegial. Se alguém aí entender melhor de química que eu e quiser escrever uma explicação mais acessível para leigos, agradeço.

Na dúvida tem aqui um vídeo explicando todo o processo. Está em alemão, mas as imagens são bem auto-explicativas:

(Como vc pode ter notado pelo título do vídeo, outro nome possível em alemão é Wärmepad)

Mas químicas à parte, basicamente é o seguinte: a água é uma solução supersaturada de acetato de sódio, e eis que se você gera energia nessa solução ela imediatamente começa a cristalizar e gerar calor, fim. O fato é que é um negócio bem simples e dá até pra fazer em casa. O que nos leva ao próximo ponto:

Mas quanto custa um mágico esquentador-de-mão?

Super barato, tipo 1 ou 2 euros no máximo. Dá pra comprar uma caixa e levar de presente para todos os seus amigos no Brasil, que provavelmente nunca vão usar já que quase nunca faz frio.

Não é uma coisa particular da Alemanha, claro, você provavelmente encontrará esquentadores-de-mão em outros países frios. Existem ainda outros tipos, que duram várias horas, ou esquentadores de sola, vários outras coisas menos simples, mas acho que são mais raros ou mais específicos para pessoas que fazem esportes de inverno e coisas do tipo.

Na verdade, mesmo esses esquentadores de mão não são assim “nossa, que objeto essencial, todo mundo tem!”. Embora você ache para vender com relativa facilidade, confesso que nunca vi ninguém com um.

Você encontra sagazes esquentadores-de-mão em lojas de tranqueiras (Mäcgeiz, por exemplo) , às vezes como souvenir de algum ponto turístico (como no da foto, comprado na catedral de Colônia), e de vez em quando você até ganha de brinde-propaganda de alguma empresa. Ou em lojas online como Amazon.

Mas vale a pena ter um desses no bolso nos dias de inverno!

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(Publicado em 10 de Novembro de 2013)

Correio alemão

O correio alemão oferece alguns serviços muito sagazes que valem a pena um post.

Uma das coisas provavelmente mais práticas é o serviço de mudança de endereço. Se você se mudar, você pode pagar uma pequena taxa para o correio para que eles reencaminhem para o endereço novo toda a correspondência no seu nome que for enviada para o endereço antigo. O serviço se chama “Nachsendenservice” e custa 15,20 € por 6 meses ou 25,20 € por um ano! Convenhamos que é muito conveniente você não precisar quebrar a cabeça para lembrar todas as pessoas ou empresas que podem te mandar alguma correspondência importante para ir mudar o endereço registrado assim que se mudar de casa. Ao invés disso, você vai mudando o endereço registrado a medida que for recebendo as correspondências no endereço novo. O mesmo serviço pode ser utilizado também para reencaminhar a sua correspondência a cuidados de outra pessoa, caso você resolva morrer, ou então passe um tempo fora do país, ou então esteja em alguma condição qualquer que te impossibilite de receber ou cuidar de correspondência. Prático!

Outra coisa que eu acho bem supimpa é como eles entregam pacotes. Aquela coisa que você precisa estar em casa para receber, ou porque precisa de assinatura ou porque não cabe na caixa de correio, sabe? E, lógico, o/a carteiro/a vem entregar o pacote no mesmo horário que você está no trabalho, e aqui as pessoas não tem empregados domésticos ou porteiro do prédio para receber por você. No Brasil, se eles não conseguirem entregar, eles voltam com o pacote umas duas vezes em outros dias. Aqui eles costumam entregar o pacote para algum vizinho, alguém da família da casa do lado, do apartamento de baixo ou até na loja no térreo do seu prédio.

Aí você não precisa esperar mais 2 ou 3 dias para receber o pacote, ou buscar na filial sei-lá-qual do correio durante o expediente. Você aperta a campainha do vizinho depois do trabalho, pega lá seu pacote e tudo resolvido.

Claro, você está aí pensando, pô, mas e eu lá sei se o vizinho é de confiança? E se eu comprar um computador na internet e o carteiro entregar pro vizinho, que por sinal odeia meu cachorro, e o fulano resolve ficar com o computador e insistir que nunca recebeu computador nenhum?

Bom, claro que eles são alemães e tudo é feito com muita formalidade… o vizinho tem que assinar por você, vai ficar registrado quem recebeu o pacote e quando, e o vizinho passa a ser responsável pelo pacote até que você o receba. Se você estiver esperando uma entrega e ela tiver sido feita para o vizinho, você receberá na sua caixa de correio um papelzinho como esse:

DHL

Embaixo da palavra “Empfänger” estará escrito seu sobrenome e seu endereço. No quadradinho do lado, o sobrenome e o endereço do vizinho para quem o pacote foi entregue. Algumas vezes o carteiro escreve a mão, mas outras vezes, como no exemplo acima, ele simplesmente imprime as informações de uma maquininha portátil tipo aquelas de pagar com cartão, que ele tem sempre em mãos. Você assina na maquininha, também, e não no papel! Uh, hi-tech!

A princípio você teria que entregar para o seu vizinho esse papel amarelo e mostrar um documento de identidade. Mas e se você quiser que alguém busque o pacote pra você? Aí você usa o verso do papel, que tem essa cara:DHL 1Você teria que preencher esses campos com o nome e endereço do fulano que vai buscar seu pacote e assinar embaixo.

Só que, claro, na maioria dos casos o seu vizinho que você encontra todo dia de manhã saindo de bicicleta ou levando o lixo pra fora não vai se preocupar de pedir uma identidade ou verificar se você tem mesmo o papel amarelo com o seu nome antes de entregar seu pacote. Esses formalidades são mais para casos especiais.

Eu acho bem prático buscar a entrega com o vizinho ao invés de ter que ter alguém em casa na hora que o carteiro vier para receber, ou ter que ir buscar numa filial x dos correios.

Mas talvez a coisa mais legal do correio alemão é a máquina de selos.

Na frente das filiais, e em alguns outros lugares aleatórios, como talvez um shopping ou o aeroporto, você encontra uma máquina onde você pode comprar selos de quaisquer valores inimagináveis. Basicamente você define o valor, e a máquina imprime o mesmo num selo e pronto! Muito prático para comprar selos a qualquer hora do dia e da noite, e não somente quando o correio está aberto.

Os selos impressos pela máquina têm essa cara.

Além disso, diferente da maioria de máquinas desse tipo onde você coloca notas e moedas, a máquina de selos do correio aceita até moedinhas de 1 e 2 centavos, as moedas mais inúteis da face da terra! E aqui na Alemanha, claro, se uma coisa custa 4,99 € e você paga com uma nota de 5 €, eles SEMPRE, 100% das vezes, te dão o 1 centavo de troco. Sempre. Resultado: carteira pesando dois quilos com uns 50 centavos em moedas de 1 e 2….

Comecei a guardar as moedas de 1 e 2 centavos num cofrinho e usar sempre que preciso mandar uma carta. É só ir lá no correio num horário qualquer e comprar os seus selos na máquina. Claro, de preferência um horário em que não vá ter pessoas esperando para usar a máquina depois de você, porque convenhamos: pagar 0,58 € (o valor do selo para correspondência padrão) colocando na máquina, uma por uma, moedas de 0,01 € e 0,02 €, vai demorar um bocado.

Só vale lembrar que a máquina só aceita 15 moedas por selo. Então às vezes vc tem que comprar dois ou três selos de valores aleatórios somando 0,58 €, ou o que for que você precisar, para gastar todas as moedinhas. (você vai colocando as moedinhas na máquina até dar 15, e imprime o selo no valor aleatório que foi somado com as tais moedinhas, digamos, 0,21€. Depois imprime outro selo com outras moedinhas somando os 0,37 € restantes). Claro que às vezes você acumula um cofrinho de porquinho gordo de moedas de 1 e 2 centavos e no final compra só dois selos. Mas eu acho uma alternativa sagaz para se livrar dessas malditas moedinhas de maneira economicamente vantajosa.


(Publicado em 5 de Novembro de 2013)