Mês: fevereiro 2014

Televisão alemã 2: Die Sendung mit der Maus

Antes de ler esse post, leia a parte 1 sobre televisão alemã!

Como eu dizia no post anterior. Tem um programa na televisão daqui que vale a pena mencionar.

É um programa super antigo, voltado ao público infantil, mas meeeega famoso, que absolutamente TODOS os alemães conhecem e muitos assistem regularmente mesmo não sendo mais crianças (não, não é Chaves).
Observação adicionada posteriormente: na verdade 100% dos alemães “ocidentais” conhecem. Na parte da Alemanha que era a Alemanha Oriental, o programa é conhecido, mas não tããão essencialmente assistido.

É o Sendung mit der Maus, ou “o programa do rato” (Também não é Ratinho). É um programa que basicamente mostra como as coisas funcionam. Qualquer coisa, todas as coisas. Como se constrói um avião, ou como se produz chocolate, como são as prisões alemãs, ou como funcionam chaves, ou como se produz aspargos, ou como funcionam moinhos de vento, ou como é a gravidez e o nascimento, ou como é a cultura japonesa, ou como funciona uma lapiseira. O programa é semanal e existe desde 1971, então eles basicamente já explicaram como funcionam TODAS. AS. COISAS. DO. MUNDO. Tem um, inclusive, sobre o Brasil. De uma série de episódios sobre países (até agora tem Brasil, Japão, Índia, África do Sul e Grécia) que mostra, basicamente, o dia-a-dia de uma criança regular nesses países (ou seja, como são as escolas, como são as casas, as famílias, etc.). O do Brasil é esse daqui:

O apresentador acompanha uma menininha de Brasília para ver o dia-a-dia no Brasil. É bem simpático.

E onde entra o rato, nessa história? Na verdade, o nome original do programa era “Lach- und Sachgeschichten für Fernsehanfänger“, ou “histórias engraçadas e educativas para iniciantes de televisão“.  Só que entre os diferentes quadros aparece um episódio curtinho de um desenho com um rato laranja e um elefante azul. E o programa acabou ficando conhecido pelo rato, e sendo rebatizado Sendung mit der Maus. O desenhinho é esse aqui:

Como fica óbvio nesse exemplo, é um desenhinho beeeem bobinho, bem simplesinho, para crianças bem pequenas mesmo. MAS TODO MUNDO CONHECE E AMA ESSE TAL RATO. Tem até loja do rato, onde você pode comprar todo o tipo de brinquedo ou coisas quaisquer com a marca do rato e do elefante. De verdade, esse Sendung mit der Maus é o Chaves da Alemanha.

Aí você vai falar, ahhh, mas o Chaves é um programa bobão de comédia pastelão, esse tal Sendung mit der Maus é mó educativo, outra coisa!

Bom, de fato o Sendung mit der Maus tem esse viés educativo, e um motivo muito particular para tal. Quando ele começou a ser feito, era proibido ter programas na TV para crianças menores de 6 anos. Com a intenção de focar o público infantil sem provocar a ira dos pais super-protetores, criaram esse programa que não tinha como fim só entretenimento, mas também educação. Deu tão certo que 43 anos depois o programa ainda é produzido e distribuído semanalmente. No mínimo impressionante. O Sendung mit der Maus já recebeu 75 prêmios e tem até teses de doutorado sobre ele. No 40˚ aniversário do programa, o página do google na Alemanha tinha um doodle com o rato e o elefante:

-Google Doodle, Germany, March 7th 2011

Uma coisa interessante sobre a TV e sobre a cultura alemã que eu percebi assistindo o Sendung mit der Maus é que os alemães são bem francos e abertos com as crianças. Um bom exemplo é o episódio sobre gravidez e nascimento:

Assiste se você tiver paciência. É muito interessante perceber a franqueza com que o assunto de gravidez é tratado com as crianças. O corpo feminino não é tabu, sexo não é tabu, tudo é explicado honestamente. Claro, em linguagem apropriada e com as informações apropriadas para crianças, mas sem colocar cegonhas na história. Achei bem interessante.

Enfim! Super recomendo os episódios de Sendung mit der Maus para praticar seu alemão E aprender como as coisas funcionam ao mesmo tempo!


(Publicado em 25 de Fevereiro de 2014)

 

Televisão alemã 1: Rundfunkgebühr

Preciso achar títulos melhores para meus posts. Todos eles têm “Alemão” ou “Alemanha”, está ficando meio repetitivo.

Mas vamos lá. Televisão alemã. (podia usar “germânica” de vez em quando!)

Uma coisa bem particular daqui é que você tem que pagar uma taxa pelos serviços de radiodifusão. Até o ano passado, você só pagava a taxa se tivesse uma TV ou rádio ou um computador com acesso à internet. Com TV, era um valor um pouco mais alto, se fosse só rádio ou computador, era um valor um pouco mais baixo. Só que o provedor dos serviços de rádiodifusão, que recolhia a taxa, não tinha permissão para entrar na casa de ninguém. Então basicamente bastava você falar que não tinha nenhum desses eletrônicos em casa, e eles teriam que acreditar em você. Obviamente isso não estava funcionando muito bem, porque é claro que a essa altura da história do mundo todo mundo tem uma TV, um rádio, um computador e/ou um outro dispositivo que se conecte à internet. Então sabendo que as pessoas estavam provavelmente mentindo sobre não ter nenhum dos tais dispositivos, os fiscais batiam à sua porta e falavam todo o tipo de ameaças vazias para que você se assustasse e deixasse-os entrar no seu apartamento e ver que você tinha sim, uma TV. (Contanto que você soubesse que não importa o que eles te digam, eles realmente não podem entrar na sua casa, não tem problema. Mas chega um fulano com cara de oficial, uniforme e crachá na porta da sua casa falando sério e ameaçador, certamente que muitas pessoas já não estariam mais tão seguras de que o fulano não pode, mesmo, entrar para verificar.)

Para resolver logo todos esses problemas, a partir de 2013 essa taxa passou a ser obrigatória para todas as casas. Quer dizer, você paga uma vez por casa/apartamento, então se vc mora sozinho, vc paga sozinho, se vc mora em 10 pessoas numa mesma casa, você divide o valor entre os 10.

Como aqui é obrigatório se inscrever na prefeitura quando você se muda para uma cidade alemã, eles sabem quem mora onde. Cada pessoa ao se mudar para uma casa nova recebe uma carta sobre Rundfunkgebühr (taxa de radiodifusão), e você tem que responder ou se cadastrando para pagar a taxa, ou com os dados da pessoa que já se cadastrou e já está pagando a taxa no seu endereço.

O valor é de 17,98€ por mês, mas eles só te mandam a conta (ou debitam da sua conta) a cada 2 ou 3 meses. Não é um valor muito alto, mas é chato ter que pagar se você nem assiste TV.

Embora pareça muito estranho ter essa taxa geral pela TV aberta, parece que só nas Américas que é incomum. Na Europa, Ásia e África, vários países têm taxas similares com o objetivo de financiar os serviços de radiodifusão sem a necessidade dos intermináveis comerciais. Bom, TV sem comerciais até que não é má idéia, né? Só que na verdade tem comerciais, sim. Na Alemanha, até às 20h os canais abertos podem mostrar comerciais e depois desse horário, não. A idéia é que, tendo esse financiamento, os canais públicos não precisariam depender de comerciais nem do governo para funcionar, e portanto seriam menos influenciáveis e mais democráticos. Mas é permitido que até 4% da receita dos canais seja proveniente de comerciais, por isso que ainda sobram alguns. Existem discussões no sentido de remover totalmente os comerciais da TV pública, mas isso resultaria num acréscimo de 1,50€ na taxa mensal.

Quanto aos canais, tem 3 canais públicos de televisão, que são portanto financiados por essa taxa, e mais alguns privados que se financiam com comerciais, mas são abertos. E, claro, como em qualquer lugar, você pode sempre assinar uma TV à cabo.

Eu sinceramente não assisto TV jamais, então não tenho muito idéia da qualidade ou variedade dos programas dos canais públicos. MAS o que eu sei – e que é muito legal e portanto precisa ser falado – é que como tem essa taxa geral, os canais tem sites online muuuuuito completos, onde você pode assistir livestream de tudo. Por exemplo no site da ARD (o canal 1, que é o maior e mais antigo e principal e tudo mais)  estavam disponíveis, agora durante as olimpíadas de inverno, livestream de todos os jogos. E se você não conseguisse assistir ao vivo, dava para assistir no site, mais tarde, vídeos às vezes completos, às vezes resumidos, de quase todos os jogos. Muito conveniente para esses grandes eventos esportivos. Isso é, aliás, uma boa dica para quem quiser assistir copa ou olimpíadas enquanto estiver na Alemanha. Mesmo se você tiver uma TV, normalmente a TV não mostra todos os jogos, até porque alguns acontecem ao mesmo tempo. Bom, no site da ARD dá para assistir todos, é só escolher.

not bad

(Tá, confesso que não sei o que está disponível nos sites da Globo e do SBT, de repente eles são igualmente completos, vai saber. Não sei, não estou a fim de entrar no site da Globo para saber.)

Mas dei uma perguntada para alemães (ok, confesso, só para um alemão, que está sentado aqui do meu lado no momento) e parece que no geral a oferta de programas é bem similar. Tem jornal, jornais sensacionalistas estilo Datena, documentários de natureza, documentários de crimes, programas de auditório, os talk shows com celebridades, os programas de jogos tipo Passa ou Repassa (estou usando um exemplo mega arcaico ou ainda existe Passa ou Repassa?), Big Brother tem também, bobeira em TV aberta não é exclusividade brasileira, não. A única coisa que pareceu novidade para o alemão entrevistado para fins desse post foi programas tipo Faustão com mulheres-decoração dançando no fundo. Programas estilo Faustão existem, mulheres-decoração dançando no fundo, não. Pelo menos um avançozinho!

E tem um programa específico que vale a pena mencionar. Não, espera, sobre esse programa vale escrever um post inteiro. Então esse fica sendo parte um e daqui a pouco eu posto a parte dois do post.


(Publicado em 25 de Fevereiro de 2014)

 

5 coisas da Alemanha e do Brasil das quais eu sentiria/sinto falta

Esses dias descobrimos no youtube um canal engraçadíssimo de um britânico que mora na Alemanha e faz vídeos similares aos posts desse blog, mas com uma intenção mais cômica.

É esse aqui:

http://www.youtube.com/user/rewboss?feature=watch

Claro, eu já sabia quando pensei em começar esse blog que ele não seria novidade nem inovação. Tem uma pá de expatriados de todos os países do mundo em todos os países do mundo compartilhando suas experiências com o resto do mundo. Afinal, se tem uma coisa com que absolutamente todo mundo tem que lidar ao mudar de país são, óbvio, as diferenças culturais. Que na maioria das vezes são interessantes, engraçadas ou curiosas. E o legal é que, como cada um têm suas próprias impressões, experiências, e vivências, o resultado é sempre diferente.

Mas enfim, encontrei esse canal no Youtube, me diverti com alguns dos vídeos e um deles achei que dava um ótimo post, porque é realmente específico da experiência pessoal. O vídeo era sobre 5 coisas da Alemanha das quais o moço não sentiria falta, e 5 coisas das quais ele sentiria falta.

Resolvi fazer minha versão, ligeiramente alterada: ao invés das 5 coisas das quais eu não sentiria falta, escrevo 5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta (e que portanto eu não sentiria falta daqui se voltasse a morar no Brasil). Então vamos lá. Em alguns pontos tem links para posts onde eu já escrevi sobre aquele assunto.

5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta aqui:

1. A facilidade em fazer novas amizades.
Sei lá, no Brasil você conhece uma pessoa, e, se der com a cara, na mesma hora vocês já estão se tratando como amigos. E uma vez que você tenha se dado bem com alguém logo de início, parece que já fica meio regra que vocês vão se dar atenção na próxima vez que se encontrarem, entende? Quer dizer, você conheceu alguém, digamos, numa aula, na próxima aula vocês vão provavelmente sentar perto e conversar. Aqui, sei lá, é uma aventura fazer amizades. É meio devagar, demora dias e dias para você sentir que tem liberdade de chamar a pessoa para fazer alguma coisa no fim de semana, ou de comentar numa foto da pessoa no facebook, sei lá. Mais daí eu também não sou a pessoa mais sociável do mundo, sou bem introvertida. Talvez pessoas mais extrovertidas não vejam essa dificuldade.

2. Co-mi-da. 
Gente, como comida alemã é bizarra, credo. Como eu sinto falta de um arroz e feijão, açaí na tigela com banana e granola, coca-cola com gelo e limão, pãozinho de padaria recém-saído do forno, bife à parmigiana, pavê, palmito, pizza normal, coxinha, tapioca, pudim de leite, omg morri escrevendo isso.

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Parecem vermes, mas é só comida alemã.

3. Pessoas que sabem falar coisas sem parecer grossas.
Claro, gente grossa tem em qualquer lugar do mundo, o Brasil certamente não é exceção. MAS a diferença é que aqui às vezes a pessoa está sendo super educada e soa totalmente grossa. Sei lá, alemão (a língua) não tem entonação nem delicadeza nas palavras escolhidas. A comunicação é sempre muito direta, e às vezes dá a impressão que a pessoa está sendo horrível mesmo quando não é o caso. É meio difícil acostumar.

4. Abraços e toques em geral (de amigos, claro, não de desconhecidos!)
Aqui encostar é mó proibido. Amigos só se abraçam na hora de falar oi e tchau, e não se encostam no meio tempo. Sei lá. Eu preciso de mais contato humano.

5. Da ausência de neve.

Schnee... schrecklich!

Schnee… schrecklich!

5 coisas da Alemanha das quais eu sentiria falta de voltasse a morar no Brasil

1. Total e completa ausência de assédio de rua.
Aqui, assediar mulheres na rua é totalmente impensável, e não importa o que ela vista, todo mundo tem noção de que respeitar as pessoas (no caso, as mulheres) não é condicional, é obrigação. Só ouvi assédio uma vez, de um cara que estava bem obviamente tentando arranjar briga com pessoas na rua. Foi um caso totalmente isolado.

2. A aversão geral e profunda à extrema-direita
Se tem neonazistas, tem 10 vezes mais gente bloqueando-os.

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3. Equidade e respeito entre as classes
Aqui ninguém se acha melhor que o garçom ou que o faxineiro. (bom, tá, “ninguém” certamente é generalização. Mas basicamente, no geral, as pessoas não acham que merecem mais respeito do resto da sociedade pq têm mais dinheiro ou pq fizeram faculdade).

4. Poder escolher seu meio de transporte à vontade
Ir de bike é possível sem ser atropelado, andar na rua é possível sem ser atropelado, andar de ônibus e metrô é possível sem ser comprimido, e enfim, é tão menos estresse na vida.

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5. Da neve.

Schnee... wunderbar!

Schnee… wunderbar!

Schnee... super!

Schnee… super!

Schnee... schön!

Schnee… schön!

Schnee... klasse!

Schnee… klasse!

Schnee... toll!

Schnee… toll!

Schnee... kalt!

Schnee… kalt!

Schnee... mal wieder...

Schnee… schon wieder…


(Publicado em 19 de Fevereiro de 2014)

Alemães e a Internet

Os alemães são bem avançados em várias coisas. Mas quando se trata de internet, a Alemanha vive, parece, em 1984. Digo 1984 por dois motivos: o atraso óbvio que um ano na década de 80 conota, e, claro, o big brother. Os alemães são meeeeega noiados com privacidade na internet.

Claro, não vou dizer que acho que não devemos nos preocupar com o fato de a NSA ler todas as nossas mensagens particulares na internet, e talvez pensando bem os alemães até tenham razão. Mas se você tiver amigos alemães, e quiser se comunicar com os mesmos online, pode ser um desafio.

Primeiro, já vai ser o maior sucesso se você conseguir encontrar o seu amigo no facebook. A maioria dos alemães não coloca o nome completo verdadeiro no face. Eles com freqüência colocam só uma parte do sobrenome (tipo “Mü” ao invés de “Müller”), ou trocam o sobrenome por outra coisa qualquer, ou mudam o nome inteiro para algo nada a ver. Daí, se ocorrer do fulano ter a ousadia de colocar seu nome verdadeiro no face, muito provavelmente a foto do perfil não mostrará o rosto da pessoa. Se mostrar, vai ser assim bem de longe que não dê pra reconhecer. Acho que é realmente uma minoria dos alemães que coloca na foto do perfil uma foto do próprio rosto. Se combinar os dois fatores – nome completo e foto do rosto – deve sobrar uns 5% dos alemães que passam no “teste”.

Se apesar de todas essas dificuldades você conseguir achar e adicionar seu amigo, pode ter certeza que o facebook é o pior meio para se comunicar com ele. A maioria dos alemães – bom, a maioria dos que eu conheço, pelo menos – usa o facebook bem raramente, nunca posta nada, e enfim, é bem inativo.

Email também é uma coisa engraçada. Claro que todos os alemães – como pessoas normais – têm email, e lêem e escrevem emails diariamente. Mas, diferente de pessoas normais, NENHUM ALEMÃO TEM GMAIL! Ainda estou para encontrar um alemão com gmail! Ao invés disso, usam um site alemão com o endereço @gmx.de. A maioria tem esse gmx. Que não agrupa emails da mesma conversa e não tem espaço infinito, diga-se de passagem. E também não te avisa que você esqueceu de anexar o arquivo se você escrever “anexo” no corpo do email e não anexar nada. Mas é um serviço alemão, e os alemães são suuuper noiados e só confiam em serviços alemães. (Bom, novamente, talvez não seja totalmente insano não usar emails de provedores americanos, maaas… nah. Gmail.)

Essa atenção toda com privacidade, claro, continua em outros sites, onde eles raramente colocam nome verdadeiro, etcetc. Recentemente, após a história com o Snowden revelando que os EUA vigiam todo o mundo através da internet, um político alemão inclusive sugeriu fazer uma internet exclusivamente alemã, mostrando que não entende o objetivo principal da internet – comunicação geral globalizada.

E no que diz respeito a leis referentes à internet, tenho quase certeza absoluta que todos os políticos envolvidos na criação e aprovação de tais leis jamais em toda a vida fizeram uma única busca no google. Eles têm um entendimento bizarro de direitos autorais, que vai muito além do que faz sentido lógico para uma pessoa normal que convive com internet. Aqui levam muito a sério se você linkar uma imagem que não seja sua. Claro, pra isso precisa aparecer o autor reclamando, mas já soube de caso de alguém fazer algo tão banal quanto postar um link no facebook – aparecendo de thumbnail uma foto qualquer – e o autor da foto processar a pessoa que postou o link por usar sua foto sem autorização – E GANHAR O PROCESSO. Olha que insano!!! Uma foto que aparece como thumbnail de um link, para mim, é como se eu pegasse uma revista, mostrasse uma foto dessa revista para outra pessoa, e o autor da foto me processasse por compartilhar a foto sem autorização!

Quanto a músicas também é um saaaaaco. Praticamente qualquer vídeo no youtube com alguma música qualquer é bloqueado por direitos autorais!!! Não precisa nem ser o clipe oficial da música uploadado por alguém que não tem os direitos autorais, pode ser um videozinho bobo do seu gato dormindo no sofá com uma música de fundo, o vídeo é bloqueado porque você não tem os direitos autorais da música. É muito exagerado. Nem aquele canal do youtube que posta legalmente vários clipes, o vevo, funciona aqui. Tudo bloqueado, com essa mensagem aqui:

Screen Shot 2014-02-18 at 9.25.57 PM

GEMA. A coisa mais bizarra da Alemanha. Eu ia postar o logo deles aqui, mas capaz de me processarem por usar a imagem sem autorização, né. GEMA significa “Gesellschaft für musikalische Aufführungs- und mechanische Vervielfältigungsrechte”. Basicamente é uma sociedade autorizada pelo governo que recolhe taxas referentes à direitos autorais sobre músicas. Não sei detalhes de como funciona, mas lendo pelo wikipedia parece que se você quiser tocar uma música em público, sem tem os direitos autorais sobre ela, você tem que pagar uma taxa para essa sociedade, que então distribui a receita entre os membros (gravadoras e artistas, suponho) de acordo com regras definidas.

Até aí tudo bem, só que a história é levada tão a sério que se você levar tocar MP3s do seu iphone digamos num parque, com caixinhas de som, pode ser que passe um fiscal e te multe. Sério, sem brincadeira. De acordo com meu namorado, alguns colegas da faculdade já tiveram que pagar por estarem tocando música na faculdade quando apareceu um fiscal do GEMA. Não é assim, ‘nossa, que multa terrível, teremos que vender todos os nossos pertences para pagar’, é alguns poucos euros por música tocada, mas é totalmente bizarro.

Portanto na dúvida, aqui na Alemanha, com essas coisas de internet é melhor não se arriscar.


(Publicado em 18 de Fevereiro de 2014)

 

As manifestações de 13 de Fevereiro em Dresden

Na noite de 13/14 de Fevereiro de 1945, Dresden foi palco de um dos piores bombardeios da II Guerra Mundial.  Foi uma das ações mais controversas da guerra por parte dos aliados. O centro histórico ficou completamente destruído e aproximadamente 25.000 pessoas morreram. Por ter ocorrido no final da guerra, discute-se até hoje se o bombardeamento foi “justificável”, ou se foi um crime de guerra. Aceita-se amplamente que a ação foi desnecessária, pois a guerra já estava praticamente ganha, e que teria sido realizada principalmente como vingança pelo bombardeamento da cidade de Coventry, na Inglaterra.

Dresden após o bombardeio em 1945. -Bundesarchiv

Por esse motivo, a data acabou tendo uma importância simbólica para grupos neo-nazistas. Todos os anos, em 13 de Fevereiro, Dresden é palco de enormes manifestações. Neo-nazistas e a extrema direita realizam neste dia uma marcha pela cidade que constitui a maior concentração de neo-nazistas, vindos de todas as partes da Alemanha e da Europa. Só que a aversão ao nazismo aqui também é muito grande, então no mesmo dia, uma outra dezena de manifestações não-nazistas acontecem também, inclusive a organizada pelo Dresden-Nazifrei, que tem como objetivo simplesmente bloquear a marcha nazista e não deixá-los passar. Essa manifestação junta muita gente, muito mais que os nazistas. Os números variam de ano a ano e de fonte a fonte, então vale fazer uma rápida retrospectiva.

A primeira manifestação oficial dos nazistas foi em 1999, com aproximadamente 150 participantes. Oficial entre aspas. A manifestação em si foi oficial, mas ser nazista, fazer apologia ao nazismo, mostrar suásticas ou fazer aquele gesto nazista são crimes na Alemanha. Então a manifestação tem uma desculpa qualquer, “lembrar o dia do bombardeamento”, e são organizadas por grupos neo-nazistas.

Nos anos seguintes a manifestação foi crescendo e em 2009 atingiu o pico de 7.000 neonazistas. À medida que cresceu o número de neo-nazistas, cresceu também a reação e as manifestação anti-facismo no mesmo dia. Em 2009, dois grupos anti-facistas que se manifestavam na cidade tentaram se unir para bloquear os nazistas, sem sucesso devido à ação da polícia. O problema é que como a manifestação neo-nazista é autorizada, pq é uma “marcha silenciosa para lembrar o dia do bombardeamento”, a polícia tem que abrir espaço para eles passarem.

Após o fracasso em impedir a marcha nazista de 2009, os diversos grupos anti-facistas se uniram e criaram a organização Dresden-Nazifrei, com o único intuito de se organizar para bloquear a marcha nazista dos anos seguintes. Mais do que isso, Dresden-Nazifrei desde o início foi totalmente aberto e público quanto à intenção de bloquear a marcha nazista, ainda que isso fosse a princípio ilegal.

Em 2010, poucos dias antes da manifestação, a polícia tentou de diversas maneiras parar o grupo de manifestantes anti-nazistas, o que fez com que mais e mais pessoas se mobilizassem e aderissem à manifestação. Ao mesmo tempo, o prefeitura da cidade sofria pressão para mostrar alguma reação às manifestações nazistas, o que levou à mobilização para uma manifestação em forma de uma corrente humana em volta do centro histórico para lembrar o bombardeio e proteger a cidade da violência e do extremismo. O grupo Dresden-nazifrei conseguiu mobilizar mais de 12.000 pessoas vindas de várias partes da Alemanha, Áustria e Suiça para realizar bloqueios em massa e não deixar os nazistas passarem. Após diversos confrontos com a polícia, a manifestação nazista foi cancelada à tarde devido aos bloqueios em massa. Pela primeira vez os nazistas foram barrados de marchar pela cidade pela mobilização das pessoas. No mesmo dia, a mobilização da prefeitura para “abraçar” a cidade juntou entre 170.000 e 270.000 pessoas.

Em 2011, antes das manifestações uma corte local decidiu em favor das manifestações neonazistas que a polícia não fez o suficiente para assegurar que eles pudessem marchar. Além disso, Dresden-Nazifrei tentou organizar uma manifestação que seria um tour pela cidade parando em alguns pontos estratégicos onde historiadores explicariam parte da história da segunda guerra mundial (“aqui morou o fulano de tal, que assinou a ordem para assinar tantos mil judeus em câmaras de gás”, “aqui tinha uma biblioteca grande com importantes obras que foi incendiada pelos nazistas”, “aqui era uma indústria têxtil onde nazistas utilizavam trabalhos forçados para confeccionar uniformes para os soldados”, coisas desse tipo), como uma contrapartida à marcha nazista “para relembrar o bombardeamento”, no sentido de relembrar não só o bombardeamento, mas também os fatos que levaram ao mesmo. Porém, essa demonstração, denominada “Täterspurenmahngang” (marcha sobre os traços dos responsáveis, algo assim), não foi autorizada pela prefeitura, que como já deve ter dado pra perceber, é super de direita.

Novamente, as tentativas de opressão só levaram à mobilização de mais gente, e no dia da manifestação mais de 20.000 pessoas se uniram para bloquear a marcha nazista, apesar da forte repressão policial com cães, spray de pimenta, helicópteros, mangueiras jorrando água a 0˚C sobre os manifestantes (lembrando que fevereiro é invernão aqui) e outras táticas. A polícia atacou manifestantes totalmente pacíficos que sentavam na rua fazendo os bloqueios. A marcha nazista reuniu nesse ano 2000 pessoas, mas não obteve sucesso. O plano era vários grupos marcharem pela cidade para se encontrarem num único ponto, mas devido aos bloqueios apenas por volta de 50 pessoas conseguiram chegar ao ponto de encontro.

Apesar da repressão policial, os bloqueios anti-facistas tiveram apoio da mídia e da população. Historiadores e sobrevivente de Auschwitz criticaram fortemente a justiça saxônica, especialmente pela proibição da manifestação Täterspurenmahngang, aquele tour para relembrar as ações nazistas na cidade durante a guerra. No ano seguinte, a manifestação foi liberada e juntou 3000 pessoas. No dia 13 de fevereiro, por volta de 1600 e 2000 nazistas compareceram para a marcha, e 6000 pessoas vieram bloquear, enquanto 13.000 pessoas participaram daquele “abraço” na cidade. Dessa vez a polícia não atacou manifestantes, e tentaram apenas dispersá-los. Devido aos bloqueios, a marcha nazista foi reduzida a um passeio em volta do quarteirão da estação central.

Em 2012. -zeit.de

Na semana seguinte, Dresden-Nazifrei organizou uma manifestação para comemorar a vitória dos bloqueios, juntando 10.000 pessoas.

Em 2013, apenas aproximadamente 500 nazistas compareceram para a manifestação, mas nem conseguiram sair da estação central, enquanto milhares de manifestantes anti-nazistas jogavam bolas de neve sobre a barricada policial.

Mas a manifestação neo-nazista em Dresden ainda não é história. Nesse ano eles mudaram um pouco a tática e pegaram a população de surpresa. Como de costume, as manifestações eram esperadas para o dia 13 de fevereiro. A prefeitura, ainda super conservadora e estranhamente apoiadora do direito democrático de nazistas de manifestarem contra a democracia, recusou-se a passar informações precisas sobre os planos dos mesmos. Houve uma tentativa de organizar uma manifestação (nazista) estacionária na frente da Frauenkirche, o ponto turístico mais importante de Dresden, mas a justiça não autorizou. No dia 12 de fevereiro, alguns nazistas se agruparam na Theaterplatz (outro ponto turístico importante) , e a polícia bloqueou toda a área em volta. Os grupos organizadores dos bloqueios logo começaram a avisar pelo facebook e twitter que os nazistas estavam se organizando para realizar a marcha naquela noite, e várias pessoas foram para o centro tentar bloquear. Mas como foi inesperado, a quantidade de gente para bloquear não foi suficiente, conseguimos apenas atrapalhar um pouco o processo. Os nazistas, por volta de 300 a 350, realizaram uma marcha com tochas (creepy!) até a estação central. Os bloqueios não foram possíveis, mas a quantidade de pessoas presentes foi o suficiente para acompanhar a marcha com vaias e gritos de todos os tipos. Corremos de um lado para o outro pela cidade tentando descobrir a tática da polícia antes que eles bloqueassem nossa passagem. No ponto final da manifestação, a estação central, os nazistas se reuniram para assistir a um vídeo projetado a respeito dos bombardeios, sob incessantes vaias dos manifestantes anti-facistas atrás das barricadas policiais. Entre os gritos organizados destes ouvia-se “Nazis Raus!” (fora nazistas), “Haut ab!” (caiam fora), “Nazis, verpisst euch, Keiner vermisst euch!” (Nazistas, caiam fora, ninguém sente falta de vocês), “Alerta, alerta, antifascita!” (dispensa traduções, e é pra ser espanhol, só que eles pronuciam “antifaxista” que nem alemão.) e outros.

No dia seguinte (hoje!), as outras manifestações (Täterspurenmahngang” e a corrente humana) ocorreram sem problemas e não ouve grandes concentrações de nazistas (exceto por grupos pequenos de 20 pessoas aqui e ali).

A corrente humana (não sei que ano). -http://rt.com/

Embora a quantidade de nazistas na marcha do dia 12 tenha sido bem reduzida (350, comparando com os 7.000 de 2009), eles conseguiram novamente marchar pela cidade, o que certamente vai ser visto como positivo para eles e pode resultar num aumento no número no ano que vem. Infelizmente, neo-nazistas em Dresden ainda não são passado.

Abaixo, alguns vídeos das manifestações. O primeiro, parte da marcha de 12 de fevereiro de 2014, com vaias dos manifestantes anti-facistas:

Em 2013:

Em 2012:

Em 2011:

Em 2010:

Uma coisa que eu achei interessante, participando das manifestações esse ano, é que apesar da confusão, pessoas correndo de um lado para outro tentando bloquear nazista, muuuuuuuuuuuita polícia, nazistas marchando, em volta as lojas e restaurantes continuavam abertos normalmente! Então você estava lá, apostando corrida com a polícia, correndo de um lado para outro, mas aí se cansasse e desse uma fominha era só parar e entrar no primeiro restaurante ao lado.

Outra coisa que foi interessante notar é como as cidades aqui são mais democráticas. Porque praticamente não existem muros e portões, as ruas não são grandes canaletas penetráveis apenas pelas ruas transversais. O que significa, basicamente, é que é muito mais difícil para a polícia bloquear uma manifestação, porque você pode vir de qualquer lado e ir para qualquer lado.  Quer dizer, em qualquer ponto da cidade que você está, sempre tem muito mais opções de “saídas”, você como pedestre, nunca fica preso numa rua. Isso não vale para qualquer cidade, claro, nem mesmo para qualquer parte da cidade. Nos bairros mais antigos, onde as ruas são estreitas e os edifícios fecham as quadras, não é assim. Mas no geral as cidades são muito mais abertas, penetráveis, e democráticas.

Eu não participei das manifestações em 2010 e 2011, que foram menos calmas, mas pelo menos pela minha experiência desse ano deu para ver que o pessoal estava bem tranquilo. Correndo de um lado para outro tentando bloquear os nazistas antes da polícia bloquear a passagem, sim, mas sempre pacíficos, não vi nada que desse para colocar na capa de jornais ou revistas sensacionalistas (COFCOFCOFCOFCOFFOLHAVEJAESTADOCOFCOFCOFCOF). Tinha muita polícia, e os policias estavam calmos e tranquilos, sem se exaltar, e eles sempre filmam tudo.

A manifestação Täterspurenmahngang, com as paradas nos locais estratégicos e informações sobre a segunda guerra por historiadores também é muito interessante, e uma boa idéia de contraste à marcha neo-nazista. Vai gente de todo o tipo, com todo o tipo de manifestação (digo, se manifestando com bandeiras, por exemplo), é basicamente como se todo mundo se unisse contra o nazismo, é bem legal.

Aglomeração no início da Täterspurenmahngang.

Até o Grumpy Cat acha racismo bem tosco.

Até o Grumpy Cat acha racismo bem tosco.

"Dresden stellt sich Quer". Meio difícil de traduzir, mas Quer significa transversal, e nesse sentido significa algo como se colocar no caminho, no sentido de bloquear.  O outro lado da bexiga diz "Wi(e)der setzen. Nazis blockieren". Wieder setzen significa "sentar de novo" (no caminho, para bloquear) e "widersetzen" significa se opor. Um jogo sagaz de palavras.

“Dresden stellt sich Quer”. Meio difícil de traduzir, mas Quer significa transversal, e nesse sentido significa algo como se colocar no caminho, no sentido de bloquear.
O outro lado da bexiga diz “Wi(e)der setzen. Nazis blockieren”. Wieder setzen significa “sentar de novo” (no caminho, para bloquear) e “widersetzen” significa se opor. Um jogo sagaz de palavras.

E nessa data, pela cidade, você vê ainda várias demonstrações de apoio aos bloqueios e às manifestações anti-nazistas, como esse cartaz no teatro de Dresden:

Minha tradução livre: "De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram." Erich Kästner

Minha tradução livre: “De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram.” Erich Kästner

Os números divulgados de manifestantes de cada lado em cada ano são suuuper variáveis dependendo da fonte. As duas principais fontes de onde eu tirei as informações para esse post.

http://www.dissentmagazine.org/online_articles/dresden-nazi-free-the-new-politics-of-german-civil-disobedience

http://en.wikipedia.org/wiki/Neo-Nazi_marches_in_Dresden

Aí tem descrições bem mais completas, em inglês, e que vale a pena ler se você se interessou pelo assunto.


(Publicado em 14 de Fevereiro de 2014)

 

Zum Mitnehmen

Eis uma maneira prática para se livrar de coisas inúteis que ainda podem vir a ser úteis para outro.

Não sei se isso acontece em vários lugares da Alemanha, ou se é uma coisa típica só aqui em Dresden, e mais especificamente da Neustadt, o bairro jovem-artístico-alternativo da cidade. Mas por aqui andando pela rua é beeem comum você encontrar caixas com tralha de diferentes tipos e uma plaquinha ou papelzinho escrito “Zum Mitnehmen” (para levar) ou “Zu verschenken” (para dar). Pessoas que estão se mudando, ou fazendo uma limpeza geral na casa, coisa do tipo, juntam as coisas velhas que não querem mais guardar, mas que ainda podem ser úteis para alguém, colocam numa caixa com a plaquinha e deixam na frente da porta do prédio. No final do dia, a caixa está vazia.

Ok, essa não tinha o papel escrito 'Zum Mitnehmen'. Mas basicamente qualquer caixa aberta com livros ou coisas velhas, totalmente à vista, na porta de um prédio vc pode ter certeza que é para doar.

Ok, essa não tinha o papel escrito ‘Zum Mitnehmen’. Mas basicamente qualquer caixa aberta com livros ou coisas velhas, totalmente à vista na porta de um prédio, vc pode ter certeza que é para doar.

O que você mais encontra nessas caixas são livros, na sua maioria livros velhos meio toscos, tipo, sei lá, um guia de leis alemãs para estudantes de advocacia, ou o livro da igreja não sei qual sobre a Bíblia, umas coisas assim que ninguém tá muito a fim de levar. Bom, talvez apareçam coisas legais e coisas ruins com a mesma freqüência, só que como as coisas legais somem rápido e as coisas ruins ficam sobrando, você acaba vendo mais coisas ruins do que legais. Seja como for, sempre que eu vejo uma caixa dessas (e é bem comum), dou uma olhada pra ver se tem algo que vale a pena guardar. Já achei um Goethe, um livro do Darwin (não era A Origem das Espécies, infelizmente, mas um outro), e uma ou outra coisa que trouxe pra casa. Minha aquisição mais recente é esse livro sobre a América do Sul que aparece na foto acima. Saí de casa só para procurar uma caixa para fotografar e colocar aqui. Achei duas caixas, e um livro que valia a pena levar. Ou seja, é bem comum.

E, claro, não são só livros. Coisas de cozinha aparecem de vez em quando, ligeiramente quebradas mas usáveis (Já vi forno microondas, panela de pressão, batedeira…), e até móveis velhos como cadeiras, poltronas. Vi uma vez até uma porta (a maçaneta e as dobradiças sumiram no primeiro dia, mas o resto da porta ficou lá bastante tempo até o dono se tocar que ninguém ia levar e jogar no lixo).

Quando nos mudamos para esse apartamento, deixamos uma caixa que continha alguns livros velhos e toscos, umas coisas de escritório (pastas, fichários), e um cachecol do time de futebol de Dresden, o Dynamo. O cachecol sumiu nos primeiros cinco minutos, os livros e pastas foram desaparecendo ao longo do dia, e no final só sobrou o livro religioso do encontro de jovens da igreja sei lá qual, que acabou tendo que ir pro lixo, mesmo.

O que não é recomendável deixar na rua para levarem são coisas quebráveis (quebráveis mesmo como vidro, ou uma TV.). Não por eventuais acidentes, mas porque por algum motivo misterioso toda e qualquer TV que você deixe na rua terá sua tela chutada e quebrada por alguém nos primeiros 10 minutos. Sei lá, acho que TVs velhas são o escape de raiva do sistema dos transeuntes, ou algo assim. TVs antigas ou outras coisas que pedem para ser quebradas é melhor doar diretamente para alguém através de um anúncio no jornal de estudantes, ou coisa assim.

Aliás, com o jornalzinho de anúncios da faculdade dá para mobiliar a casa inteira por poucos ou nenhum euro. Como aqui a maioria dos universitários mora em república, o tempo todo tem república sendo desmontadas e móveis velhos e baratos sendo oferecidos por 10 euros, uma cerveja, ou nada, para o primeiro que vier buscar correndo e livrar os atuais donos do trambolho antes da mudança. E assim doamos uma TV velha por 2 cervejas, uma mesinha de centro por 25 centavos de liras turcas (coleciono moedas), e compramos um sofá-cama por 45 euros (isso pq já tínhamos desistido de vários outros sofás, gratuitos, pq eram muito velhos e feios. Mas se você não se incomodar com móveis alternativos – e normalmente estudantes montando república não se incomodam –, dá pra arranjar muita coisa de graça!).

Neustadt

Neustadt, o bairro artístico-jovem-alternativo de Dresden.

E assim um pequeno passeio pelo bairro pode ser super lucrativo!


(Publicado em 12 de Fevereiro de 2014)

 

Tandem

Uma jeito muito prático de aprender uma outra língua sem gastar com cursos e livros aqui na Alemanha é ter uma dupla de tandem. O nome vem das bicicletas tandem, aquelas bikes para duas pessoas:

E a idéia é essa: Duas pessoas se ajudam para chegar mais longe. Como tem muitos estrangeiros por aqui, é fácil encontrar alguém que seja falante nativo de alguma língua que você queira aprender. E estrangeiros por aqui, claro, querem melhorar seu alemão. Então através da internet ou de escolas de línguas, você acha algum alemão que queira aprender português brasileiro, entra em contato, combina de se encontrar, e cada um ensina para o outro sua língua materna.

É uma maneira prática e sem custos para aprender uma língua nova, se você for alemão, ou melhorar o seu alemão, se você for um estrangeiro morando aqui. Para ser eficiente depende, claro, de um certo compromisso das duas pessoas e talvez algum método definido. Eu já tentei parcerias tandem 3 vezes, e só a terceira foi além de um ou dois encontros.

Na primeira vez eu que entrei em contato com a pessoa, uma menina que tinha passado um semestre de intercâmbio em Portugal. A gente tinha várias coisas em comum, achei que daria super certo. Mas depois do primeiro encontro ela não voltou a entrar em contato. Na época meu alemão era meio ruim e ela achava que tinha esquecido todo o português que sabia e não quis falar português. Então acho que acabou não funcionando porque não fazia muito sentido para ela, e todas as minhas frases em alemão terminavam com “afe, alemão é tão difícil!”.

Na segunda vez era alguém que queria ir pro Brasil, estava começando um curso de português na faculdade, e entrou em contato comigo e com um outro brasileiro. Nesse caso ela tentou um tandem mais metódico, fez um plano de tópicos para conversarmos em cada encontro, insistiu um pouco mais, e nos encontramos duas ou três vezes. Mas no final acabou não indo mais longe, talvez pq ela estivesse realmente beeeem no básico do básico de português.

Na terceira tentativa quem entrou em contato foi um estudante de ciências sociais que tinha passado um ano em São Paulo trabalhando com crianças de uma favela. O português dele já era bem bom, e meu alemão no meio tempo já tinha melhorado bastante, então dava pra ter conversas contínuas e não-repetitivas em ambas as línguas, e talvez por isso tenha dado mais certo que nas outras tentativas. E como ele tinha morado logo no Brasil, ele já conhecia e entendia melhor o país e a cultura (é bem cansativo lidar sempre com as mesmas perguntas de quem não conhece mais do que o que vê na mídia).

Logo, baseado nas experiências descritas acima, eu sugeriria que para um tandem dar certo é necessário que as duas pessoas já tenham um conhecimento intermediário da língua, que dê para levar uma conversa cotidiana, e fazer encontros em que basicamente vocês conversam sobre alguma coisa qualquer, alternando a língua, e aproveitando para anotar vocabulários ou expressões novas, por exemplo.

Mas, claro, cada um tem suas preferências, talvez o tandem mais metódico estilo aulinha de inglês seja mais produtivo para outras pessoas, principalmente se ambos não tiverem muito conhecimento da língua do outro, ainda. Mas pelo jeito o ideal, mesmo, é que ambos estejam mais ou menos no mesmo nível de aprendizado da língua um do outro.

Tooooodas as escolas de línguas (ok, eu não conheço todas, mas conheço algumas) na Alemanha oferecem um serviço de troca de contatos para tandem, ou direto na escola, ou pelo site da escola. Outros sites gratuitos independentes também são úteis para encontrar contatos, como o Speak2Speak, o Tandem partners ou o Erste nachhilfe. Mas basta colocar “tandem partner Deutschland” no google que você vai achar vários outros sites com o mesmo intuito.

Por aqui é bem comum procurar duplas tandem, e também é uma ótima oportunidade para conhecer pessoas novas!


(Publicado em 11 de Fevereiro de 2014)