Dia: fevereiro 19, 2014

5 coisas da Alemanha e do Brasil das quais eu sentiria/sinto falta

Esses dias descobrimos no youtube um canal engraçadíssimo de um britânico que mora na Alemanha e faz vídeos similares aos posts desse blog, mas com uma intenção mais cômica.

É esse aqui:

http://www.youtube.com/user/rewboss?feature=watch

Claro, eu já sabia quando pensei em começar esse blog que ele não seria novidade nem inovação. Tem uma pá de expatriados de todos os países do mundo em todos os países do mundo compartilhando suas experiências com o resto do mundo. Afinal, se tem uma coisa com que absolutamente todo mundo tem que lidar ao mudar de país são, óbvio, as diferenças culturais. Que na maioria das vezes são interessantes, engraçadas ou curiosas. E o legal é que, como cada um têm suas próprias impressões, experiências, e vivências, o resultado é sempre diferente.

Mas enfim, encontrei esse canal no Youtube, me diverti com alguns dos vídeos e um deles achei que dava um ótimo post, porque é realmente específico da experiência pessoal. O vídeo era sobre 5 coisas da Alemanha das quais o moço não sentiria falta, e 5 coisas das quais ele sentiria falta.

Resolvi fazer minha versão, ligeiramente alterada: ao invés das 5 coisas das quais eu não sentiria falta, escrevo 5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta (e que portanto eu não sentiria falta daqui se voltasse a morar no Brasil). Então vamos lá. Em alguns pontos tem links para posts onde eu já escrevi sobre aquele assunto.

5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta aqui:

1. A facilidade em fazer novas amizades.
Sei lá, no Brasil você conhece uma pessoa, e, se der com a cara, na mesma hora vocês já estão se tratando como amigos. E uma vez que você tenha se dado bem com alguém logo de início, parece que já fica meio regra que vocês vão se dar atenção na próxima vez que se encontrarem, entende? Quer dizer, você conheceu alguém, digamos, numa aula, na próxima aula vocês vão provavelmente sentar perto e conversar. Aqui, sei lá, é uma aventura fazer amizades. É meio devagar, demora dias e dias para você sentir que tem liberdade de chamar a pessoa para fazer alguma coisa no fim de semana, ou de comentar numa foto da pessoa no facebook, sei lá. Mais daí eu também não sou a pessoa mais sociável do mundo, sou bem introvertida. Talvez pessoas mais extrovertidas não vejam essa dificuldade.

2. Co-mi-da. 
Gente, como comida alemã é bizarra, credo. Como eu sinto falta de um arroz e feijão, açaí na tigela com banana e granola, coca-cola com gelo e limão, pãozinho de padaria recém-saído do forno, bife à parmigiana, pavê, palmito, pizza normal, coxinha, tapioca, pudim de leite, omg morri escrevendo isso.

photo (9)

Parecem vermes, mas é só comida alemã.

3. Pessoas que sabem falar coisas sem parecer grossas.
Claro, gente grossa tem em qualquer lugar do mundo, o Brasil certamente não é exceção. MAS a diferença é que aqui às vezes a pessoa está sendo super educada e soa totalmente grossa. Sei lá, alemão (a língua) não tem entonação nem delicadeza nas palavras escolhidas. A comunicação é sempre muito direta, e às vezes dá a impressão que a pessoa está sendo horrível mesmo quando não é o caso. É meio difícil acostumar.

4. Abraços e toques em geral (de amigos, claro, não de desconhecidos!)
Aqui encostar é mó proibido. Amigos só se abraçam na hora de falar oi e tchau, e não se encostam no meio tempo. Sei lá. Eu preciso de mais contato humano.

5. Da ausência de neve.

Schnee... schrecklich!

Schnee… schrecklich!

5 coisas da Alemanha das quais eu sentiria falta de voltasse a morar no Brasil

1. Total e completa ausência de assédio de rua.
Aqui, assediar mulheres na rua é totalmente impensável, e não importa o que ela vista, todo mundo tem noção de que respeitar as pessoas (no caso, as mulheres) não é condicional, é obrigação. Só ouvi assédio uma vez, de um cara que estava bem obviamente tentando arranjar briga com pessoas na rua. Foi um caso totalmente isolado.

2. A aversão geral e profunda à extrema-direita
Se tem neonazistas, tem 10 vezes mais gente bloqueando-os.

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3. Equidade e respeito entre as classes
Aqui ninguém se acha melhor que o garçom ou que o faxineiro. (bom, tá, “ninguém” certamente é generalização. Mas basicamente, no geral, as pessoas não acham que merecem mais respeito do resto da sociedade pq têm mais dinheiro ou pq fizeram faculdade).

4. Poder escolher seu meio de transporte à vontade
Ir de bike é possível sem ser atropelado, andar na rua é possível sem ser atropelado, andar de ônibus e metrô é possível sem ser comprimido, e enfim, é tão menos estresse na vida.

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5. Da neve.

Schnee... wunderbar!

Schnee… wunderbar!

Schnee... super!

Schnee… super!

Schnee... schön!

Schnee… schön!

Schnee... klasse!

Schnee… klasse!

Schnee... toll!

Schnee… toll!

Schnee... kalt!

Schnee… kalt!

Schnee... mal wieder...

Schnee… mal wieder…


(Publicado em 19 de Fevereiro de 2014)

 

Alemães e a Internet

Os alemães são bem avançados em várias coisas. Mas quando se trata de internet, a Alemanha vive, parece, em 1984. Digo 1984 por dois motivos: o atraso óbvio que um ano na década de 80 conota, e, claro, o big brother. Os alemães são meeeeega noiados com privacidade na internet.

Claro, não vou dizer que acho que não devemos nos preocupar com o fato de a NSA ler todas as nossas mensagens particulares na internet, e talvez pensando bem os alemães até tenham razão. Mas se você tiver amigos alemães, e quiser se comunicar com os mesmos online, pode ser um desafio.

Primeiro, já vai ser o maior sucesso se você conseguir encontrar o seu amigo no facebook. A maioria dos alemães não coloca o nome completo verdadeiro no face. Eles com freqüência colocam só uma parte do sobrenome (tipo “Mü” ao invés de “Müller”), ou trocam o sobrenome por outra coisa qualquer, ou mudam o nome inteiro para algo nada a ver. Daí, se ocorrer do fulano ter a ousadia de colocar seu nome verdadeiro no face, muito provavelmente a foto do perfil não mostrará o rosto da pessoa. Se mostrar, vai ser assim bem de longe que não dê pra reconhecer. Acho que é realmente uma minoria dos alemães que coloca na foto do perfil uma foto do próprio rosto. Se combinar os dois fatores – nome completo e foto do rosto – deve sobrar uns 5% dos alemães que passam no “teste”.

Se apesar de todas essas dificuldades você conseguir achar e adicionar seu amigo, pode ter certeza que o facebook é o pior meio para se comunicar com ele. A maioria dos alemães – bom, a maioria dos que eu conheço, pelo menos – usa o facebook bem raramente, nunca posta nada, e enfim, é bem inativo.

Email também é uma coisa engraçada. Claro que todos os alemães – como pessoas normais – têm email, e lêem e escrevem emails diariamente. Mas, diferente de pessoas normais, NENHUM ALEMÃO TEM GMAIL! Ainda estou para encontrar um alemão com gmail! Ao invés disso, usam um site alemão com o endereço @gmx.de. A maioria tem esse gmx. Que não agrupa emails da mesma conversa e não tem espaço infinito, diga-se de passagem. E também não te avisa que você esqueceu de anexar o arquivo se você escrever “anexo” no corpo do email e não anexar nada. Mas é um serviço alemão, e os alemães são suuuper noiados e só confiam em serviços alemães. (Bom, novamente, talvez não seja totalmente insano não usar emails de provedores americanos, maaas… nah. Gmail.)

Essa atenção toda com privacidade, claro, continua em outros sites, onde eles raramente colocam nome verdadeiro, etcetc. Recentemente, após a história com o Snowden revelando que os EUA vigiam todo o mundo através da internet, um político alemão inclusive sugeriu fazer uma internet exclusivamente alemã, mostrando que não entende o objetivo principal da internet – comunicação geral globalizada.

E no que diz respeito a leis referentes à internet, tenho quase certeza absoluta que todos os políticos envolvidos na criação e aprovação de tais leis jamais em toda a vida fizeram uma única busca no google. Eles têm um entendimento bizarro de direitos autorais, que vai muito além do que faz sentido lógico para uma pessoa normal que convive com internet. Aqui levam muito a sério se você linkar uma imagem que não seja sua. Claro, pra isso precisa aparecer o autor reclamando, mas já soube de caso de alguém fazer algo tão banal quanto postar um link no facebook – aparecendo de thumbnail uma foto qualquer – e o autor da foto processar a pessoa que postou o link por usar sua foto sem autorização – E GANHAR O PROCESSO. Olha que insano!!! Uma foto que aparece como thumbnail de um link, para mim, é como se eu pegasse uma revista, mostrasse uma foto dessa revista para outra pessoa, e o autor da foto me processasse por compartilhar a foto sem autorização!

Quanto a músicas também é um saaaaaco. Praticamente qualquer vídeo no youtube com alguma música qualquer é bloqueado por direitos autorais!!! Não precisa nem ser o clipe oficial da música uploadado por alguém que não tem os direitos autorais, pode ser um videozinho bobo do seu gato dormindo no sofá com uma música de fundo, o vídeo é bloqueado porque você não tem os direitos autorais da música. É muito exagerado. Nem aquele canal do youtube que posta legalmente vários clipes, o vevo, funciona aqui. Tudo bloqueado, com essa mensagem aqui:

Screen Shot 2014-02-18 at 9.25.57 PM

GEMA. A coisa mais bizarra da Alemanha. Eu ia postar o logo deles aqui, mas capaz de me processarem por usar a imagem sem autorização, né. GEMA significa “Gesellschaft für musikalische Aufführungs- und mechanische Vervielfältigungsrechte”. Basicamente é uma sociedade autorizada pelo governo que recolhe taxas referentes à direitos autorais sobre músicas. Não sei detalhes de como funciona, mas lendo pelo wikipedia parece que se você quiser tocar uma música em público, sem tem os direitos autorais sobre ela, você tem que pagar uma taxa para essa sociedade, que então distribui a receita entre os membros (gravadoras e artistas, suponho) de acordo com regras definidas.

Até aí tudo bem, só que a história é levada tão a sério que se você levar tocar MP3s do seu iphone digamos num parque, com caixinhas de som, pode ser que passe um fiscal e te multe. Sério, sem brincadeira. De acordo com meu namorado, alguns colegas da faculdade já tiveram que pagar por estarem tocando música na faculdade quando apareceu um fiscal do GEMA. Não é assim, ‘nossa, que multa terrível, teremos que vender todos os nossos pertences para pagar’, é alguns poucos euros por música tocada, mas é totalmente bizarro.

Portanto na dúvida, aqui na Alemanha, com essas coisas de internet é melhor não se arriscar.


(Publicado em 18 de Fevereiro de 2014)