Mês: abril 2014

DreckWegApp – o aplicativo de limpeza urbana

Uma das coisas super incríveis na Alemanha, e admiráveis até em contraste com alguns países vizinhos, é a limpeza das cidades. No geral, a maioria das cidades alemãs são super organizadas, limpas e arrumadinhas. Digo a maior parte só porque não visitei 100% para dizer que são todas, mas suspeito que sejam todas. Dresden, a cidade me que moro, é um dos melhores exemplos nesse sentido. Exceto pela Neustadt – o bairro alternativo/artístico/jovem da cidade, onde você encontra ainda uma baguncinha – o resto da cidade é quase constantemente impecável.

Mas porque ainda não era o bastante, a prefeitura de Dresden resolveu lançar um aplicativo para smartphones, para aprimorar ainda mais a limpeza urbana. É o DreckWegApp.

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O nome, DreckWegApp, significa algo como “AppForaSujeira”.

A idéia é que qualquer cidadão pode mandar para a prefeitura, através desse aplicativo, requerimentos para a limpeza de determinados pontos da cidade. Funciona assim:

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Na página inicial do App tem esses três botões na parte inferior: “Meldungen”, “Einstellungen” e “Info”. “Meldungen”, nesse contexto algo como “registros” é onde você inclui um novo pedido de limpeza.

Em “Einstellungen”, ou configurações, você pode se registrar com nome, telefone e email para receber notícias sobre seus pedidos de limpeza (mas não é necessário se registrar para mandar pedidos). E em “Info” você encontra uma breve explicação de como o aplicativo funciona (o pedido é enviado para um departamento da prefeitura que verifica e encaminha para as equipes de limpeza).

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Clicando lá em Meldungen, tem o botãozinho “Neue Meldung” ou novo registro, que abre esse formulário:

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O formulário é super simplificado. Em “Foto” você adiciona uma fotinho do lugar sujo. Em “Adresse”, o endereço já aparece automaticamente. Em Meldungstyp você define que tipo de sujeira você está registrando, as opções sendo “Verschmutzung von Grundstücken” (lixo em terreno baldio), “Verschmutzung von Straßenbäumen, Straßenbegleitgrün” (lixo em áreas verdes ou árvores urbanas), “verschmutzte Wertstoffcontainerplätze” (lixo na área de containers de lixo reciclável), “überfüllte Abfallbehälter” (lixeira superlotada) ou “Sonstige” (outros). E em “Beschreibung” você pode adicionar uma descrição se achar necessário (“Olha, tá uma bagunça aqui, vêm logo limpar que eu pago impostos pra isso!”) (Ok, talvez não. Mas de repente algo como “garrafas quebradas e pedaços de vidro na calçada, perigoso para pedestres”, sei lá).

Claro que testei o aplicativo. Foi meio difícil porque primeiro foi necessário achar um local sujo na cidade, o que se provou um certo desafio. Mas mandei dois pedidos ontem:

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O primeiro foi referente a lixo em um canteiro em uma praça de grande movimento da cidade. O segundo, uma lixeira superlotada com lixo transbordando.

Segundo a prefeitura, se você mandar um pedido, a limpeza será feita em no máximo três dias. Mas enviei meus pedidos quase às 20h de ontem e, quando passei de novo nos dois locais hoje a tarde, já estava tudo resolvido!

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No segundo local, o da lixeira, já tinha uns lixinhos novos em volta (papéizinhos e palitos de sorvete), mas a lixeira tinha sido esvaziada e os lixos do dia anterior, que estavam já pela calçada, removidos.

Claro que é difícil saber se a limpeza foi feita por causa do meu pedido, ou se simplesmente a equipe de limpeza passou por ali e limpou o local no seu percurso normal de limpeza. Mas o aplicativo já recebeu vários artigos em jornais com elogios de sua eficiência, então deve funcionar!


(Publicado em 23 de Abril de 2014)

 

Nichtlustig

Antes de mais nada, feliz páscoa ligeiramente atrasado! Aqui está menos atrasado que no Brasil porque segunda feira depois da páscoa ainda é feriado de páscoa.

Ano passado eu escrevi um post sobre Páscoa, então esse ano escrevo sobre outra coisa: Nichtlustig.

Nichtlustig (nicht lustig = sem graça) é o nome de um quadrinho muito muito famoso na Alemanha, desenhado por um rapaz de nome Joscha Sauer. Não é uma história continuada, como a Turma da Mônica, mas mais no estilo tirinha, só que com só um quadrinho. E, como o nome indica, as piadas são meio bobonas, meio simples (o humor alemão não costuma ser muito refinado), mas de alguma maneira o traço do desenhista deixa as coisas mais engraçadas. Todos os personagens são fofos, tem olhões gigantes e cara de bobões. Acaba adicionando para as piadas “sem-graça”, e para o carisma dos personagens. Para mostrar exemplos, eis aqui alguns quadrinhos com o tema páscoa:

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Nichtlustig – nichtlustig.de

“Onde estão as minhas coisas??”
“Esse ano escondi tudo EXCETO os ovos! Boa páscoa!”

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Nichtlustig – nichtlustig.de

“Desculpa! Pensei que fosse de chocolate!” (aqui na Alemanha é comum, na Páscoa, comer coelhos de chocolate ao invés de ovos de chocolate)

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Nichtlustig – nichtlustig.de

“Socorro! Onde estou?”
“Esse ano eu escondi VOCÊ e os ovos que têm que TE procurar!”

Nichtlustig - nichtlustig.de

Nichtlustig – nichtlustig.de

“Desentupi o vaso. Fica 200 euros.”
“Mas admita, foi um bom esconderijo.”

Não tem personagens principais, mas alguns são recorrentes, como o Yeti, o Papai Noel, o Dinossauro, a Morte, entre outros.

O Nichtlustig é tão conhecido por aqui que com freqüência você vai encontrar quadrinhos em livros de alemão, por exemplo. Em qualquer livraria na Alemanha você encontra alguns dos livros publicados pelo autor dos quadrinhos (com uma seleção dos quadrinhos) a venda, além de outros produtos com a “marca”, como camisetas, calendários, cartões postais, bichos de pelúca, canetas, cadernos, canecas, etc. Dá para comprar na loja online, também.

Enfim, simpáticos e engraçados, esses quadrinhos são também uma boa maneira de aumentar seu vocabulário alemão! Dá um like na página deles no face para receber quadrinhos no seu feed! =)

(ah, e para quem não fala e nem pretende falar alemão, tem uma página do face que posta versões em inglês dos quadrinhos. Não sei se é oficial, mas acho que serve!)


(Publicado em 22 de Abril de 2014)

 

Como fazer amizade com alemães?

Bom, primeiro já vou avisando que não sei.

Depois, aviso que o que eu vou escrever é baseado apenas na minha experiência pessoal, que pode ou não ser representativa de como as coisas funcionam na Alemanha. Mas pode ser que eu seja um caso especial, uma exceção, um E.T. Seja como for, se vc mora na Alemanha e já teve a experiência de tentar fazer amizade, aqui, com alemães (aqui, não no Brasil, pq se a pessoa está fora do país se comporta diferente, também), conte nos comentários como foi para você!

Mas pra mim é o seguinte. Eu acho muuuito difícil fazer amizade com alemães na Alemanha. Não porque eles sejam antipáticos, grossos, sem graça ou anti-sociais, nada disso. A maioria é suficientemente simpático e nossas culturas não são tããão gritantemente diferentes assim que o jeito de se comunicar seja completamente outra. Mas existem, claro, várias diferenças na maneira com a qual os alemães se comunicam, e, especialmente, em como eles começam uma conversa com pessoas desconhecidas em diferentes situações.

Como você fez amigos na faculdade, na escola ou no trabalho, no Brasil? Provavelmente na primeira semana de aula da faculdade você já conheceu um monte de gente nova, perguntou o nome de umas 30, das quais vários você esqueceu imediatamente depois de perguntar, mas enfim. Certamente foi uma situação em que você se apresentou para e perguntou informações básicas sobre um número grande de pessoas. Quem tinha sotaque diferente você já perguntou de onde era. Todas as pessoas com quem vc trocou pelo menos 3 palavras, vc perguntou o nome. Não foi algo assim?

Então, aqui é – repito, na minha experiência – totalmente diferente.

Os alemães começam uma conversa com potenciais amigos de maneira totalmente diversa. As primeiras coisas que você perguntaria – nome, de onde a pessoa é, o que ela faz no caso de não ser alguém que necessariamente estuda o mesmo que você – aqui só aparecem bem depois, bem, bem depois.

No meu mestrado tem só 2 alemães, então nem dá para usar de exemplo. Mas aproveitei a universidade para fazer esportes, e nessas situações percebi que as coisas funcionam diferente. Imagine que você se inscreva para fazer um esporte na faculdade e aí vai lá no primeiro treino e tem umas 30 pessoas, todos estudantes da mesma universidade, de cursos diferentes, de idades aproximadas (e obviamente com o mesmo interesse de esportes que você), que não se conhecem. Ontem comecei um curso assim e, enquanto estávamos os 30 desconhecidos esperando o treinador chegar, a pessoa de pé do meu lado puxou conversa, perguntando se era minha primeira vez fazendo Krav Magá. Sim, era. Depois de uma ou duas outras frases, perguntei o que ela fazia, e ela me olhou com uma cara tão estranha, quase como se eu tivesse perguntado qual é a marca de calcinha que ela usa, sei lá. Pareceu que tinha sido uma pergunta muito pessoal. Depois da aula quando as pessoas estavam no vestiário se trocando, percebi que a conversa girava em torno do que tinha sido a aula, de como era o treinador e tal, mas ninguém em nenhum momento perguntou para nenhuma outra pessoa seu nome, ou qualquer outra informação do tipo. Ficou uma conversa normal sobre a aula, quase como se todo mundo já se conhecesse, mas sem se conhecer (no começo estava bem óbvio que ninguém se conhecia). Mesmo o treinador, que percebeu ao longo da aula que eu a amiga brasileira que eu trouxe junto não éramos alemã e deu uma atenção especial para a gente por causa disso, não perguntou da onde a gente era, o que eu acho que teria sido uma pergunta muito automática fosse essa situação no Brasil.

Podia ter sido uma ocasião especial, mas no semestre passado, no curso de patinação no gelo, foi a mesma coisa. As pessoas comentavam ou conversavam umas com as outras coisas como se já se conhecessem, mas em nenhum momento perguntavam uma sobre a outra, nem mesmo o nome. Uma vez depois da aula um outro aluno puxou conversa comigo (perguntando se eu já tinha andando de patins antes do curso) e ficamos uns bons 10 minutos conversando sobre uma coisa qualquer, e em nenhum momento, nem no “bom, tô indo, tchau!” rolou um “ah, e qual é seu nome?”. Muito esquisito.

Em situações em que as pessoas são um pouco menos desconhecidas também não é diferente. Quando conheci os amigos ou família do namorado, obviamente perguntaram (ou já sabiam) o meu nome e de onde sou. Mas as perguntas “pessoais” nunca foram além disso. Pouquíssimos se aventuraram a perguntar “Onde do Brasil?”, e nenhum jamais perguntou alguma outra coisa qualquer como “onde vc estudou?” “vc também é arquiteta?” “o que vc está achando da Alemanha?” “Você tem irmãos?” ” Você tem gatos ou cachorros?” “Você pratica algum esporte?”, sei lá, qualquer uma dessas perguntas básicas que você faz com alguém para tentar puxar uma conversa e quem sabe começar uma amizade. Se eles sabiam qualquer uma dessas informações, era porque em algum momento tinham perguntado para o meu namorado, nunca diretamente para mim. Até hoje, quatro anos depois, as irmãs do namorado nunca fizeram nenhuma pergunta desse tipo. Incompreensível.

Inclusive eu já escrevi sobre a dificuldade que você pode ter em se sentir incluído em grupos de alemães nesse post aqui.

Engraçado que, se para eles é estranho fazer perguntas pessoais desde o início, para mim (e suponho que para outros brasileiros também) é completamente esquisito ter uma conversa casual sobre a aula de Krav Magá (“gostei desse treinador, muito simpático, né?” “Ah, não sei, achei ele meio ríspido às vezes” “mas a aula foi boa” “Nossa, amanhã vou estar toda quebrada, fato” “afe, e eu ainda vim de bike hoje, tenho mais 20 minutos de exercício até chegar em casa”) com alguém sem nem saber o nome da pessoa! De verdade, não consigo me imaginar continuando essa conversa por 10 minutos sem perguntar o nome do meu interlocutor e possivelmente o que ele estuda. Para mim, a impressão que dá se alguém puxa esse tipo de conversa com você sem perguntar de você, é que a pessoa está completamente desinteressada e não tem a menor vontade de ser seu amigo. Porque não perguntar o nome é uma coisa que vc faria só se tivesse, sei lá, conversando com alguém brevemente na fila do banco! (“Nossa, que demora, hoje, hein?” “ai, eu venho aqui toda sexta, é sempre assim esse horário, viu.” “puxa, mas se é sempre assim, porque eles só têm três caixas abertos? Não dava para colocar mais duas pessoas atendendo?” “Pois é, o atendimento ao cliente desse banco é péssimo. Mas eu recebo do trabalho aqui, não tem escolha.”). Nessa situação vc não se preocuparia de perguntar o nome da pessoa porque sabe que essa é a primeira e última vez que vocês vão se encontrar, então pouco importa mostrar interesse um no outro, basta ser simpático. Mas se é alguém que faz um curso com vc, ou um amigo de amigo, alguém que vc sabe que vai encontrar ainda muitas vezes e portanto que pode vir a ser seu amigo, acho bizarro não perguntar as coisas básicas antes de ter essa conversa (ou no mínimo durante)!

Essa diferença certamente tem a ver com o fato de que os alemães são bem reservados e em algum momentos é positivo, também, claro. É muito raro alguém mexer com você na rua, por exemplo. (Não digo nem só referente a assédio de rua, mas também naquelas situação em que uma pessoa aleatória na rua acha que tem que dar palpite na sua vida? Um breve exemplo: uma vez fui de bicicleta, em SP, encontrar umas amigas e na volta fui com elas até um ponto qualquer. Como elas não estavam de bike, fui andando e levando a bike do lado. Passou um ser aleatório do lado e disse “Bicicleta é pra pedalar, viu?”. Ou quando você está andando com uma câmera tirando fotos e alguém fala “Tira uma foto minha!”. Esse tipo de abordagem de desconhecidos é quase completamente inexistente aqui.).

Mas como, então, se faz uma amizade com alguém sem saber nem o nome nem nenhuma informação básica da pessoa? Não tenho a menor idéia. Juro, não tenho nenhuma suspeita de como é que os alemães ficam amigos uns dos outros. Deve demorar uns 5 anos encontrando alguém diariamente na escola ou trabalho até chamar essa pessoa de amigo, sei lá. Uns 6 meses até você achar que já rola perguntar o nome da pessoa…

Claro que tem diferentes situações, e diferentes pessoas, e provavelmente em vários momentos rolam perguntas pessoais na primeira ou segunda vez que você encontra o fulano. Alemães que já moraram fora da Alemanha parecem bem mais abertos à comunicação na maneira com a qual a gente está acostumado (para não dizer a maneira normal e sensata de se comunicar, né, mas tá). Só que no geral, a minha impressão é de que aqui é meio invasivo você perguntar coisas sobre a vida de alguém que não conhece ainda. Vai inventando outro jeito de conhecer a pessoa sem ser perguntando sobre ela. Parece que se você estiver fazendo esportes com a pessoa, é seguro perguntar se ela já fez aquele esporte antes ou não. Tente partir daí.


(Publicado em 15 de Abril de 2014)

 

Velhinhos alemães

Hoje é um dia muito importante, possivelmente o dia mais importante do ano. Já sugeri várias vezes para as autoridades que declarassem feriado, mas não rolou. Mas a partir de hoje, meu aniversário, posso finalmente dizer que estou chegando nos 30. Droga. Ano passado eu já escrevi um post sobre aniversários na Alemanha. Então hoje, como estou ficando velha, nada mais justo que escrever um post sobre velhinhos alemães, que eu já estava planejando escrever há vários meses.

Velhinhos alemães. Eles são assim:

Para que essa ilustre senhora não se incomodasse com o uso da sua imagem, coloquei um efeitinho photoshop no rosto. Mas era um rosto bem elegante.

Para que essa ilustre senhora não se incomodasse com o uso da sua imagem, coloquei um efeitinho photoshop no rosto. Mas era um rosto bem elegante.

A primeira coisa que observei em senhorinhas alemãs é que elas são muuuito estilosas! A ilustre senhora da foto acima não é nenhuma exceção, já vi vááárias senhoras de cabelos brancos com mechas coloridas, coloridas mesmo, azul, roxo, vermelho. Mal posso esperar para meu cabelo ficar todo branco para fazer algo estiloso assim com ele. Já está bem encaminhado, inclusive.

Claro, nem todas são assim, também tem umas senhoras bem vovózinhas, e tal. Mas uma impressão que eu tenho de pessoas idosas aqui, é que elas são, no geral, mais independentes que no Brasil.

Bom, talvez não, agora olhando dados da CIA, parece que a porcentagem de dependência de idosos alemães é de 32.1%, enquanto que no Brasil, essa taxa é de 11%. Talvez então essa impressão de que velhinhos aqui são mais independentes seja pela alta quantidade de velhinhos que você vê andando por aí. E realmente, se tem uma coisa que a Alemanha tem de sobra são vôs e vós. Para ter uma idéia, a porcentagem da população com 65 anos ou mais é de admiráveis 20,9%, ainda mais notável considerando que a próxima faixa etária, a de 55 a 64 anos, acumula outros 21,1% da população! Ou seja, 42% dos alemães tem mais de 55 anos de idade, quase metade da população do país! A idade para aposentar, atualmente, é de 65 anos tanto para homens quanto para mulheres, e espera-se que aumente para 67 até 2029. A idade média da população alemã é atualmente de 46,1 anos, a segunda mais alta do mundo juntamente com o Japão (Em primeiro lugar está Mônaco). A expectativa de vida no momento do nascimento, aqui na Alemanha, é de 80,4 anos, sendo 78,1 anos para homens e 82,2 anos para mulheres. (Fonte)

Em uma rápida comparação com o Brasil: 7,3% dos brasileiros tem 65 anos ou mais, 7,6 têm entre 55 e 64 anos, a idade média da população é de 30,7 anos e a expectativa de vida é de 69,7 anos para homens e 77 anos para mulheres. (Fonte)

Enfim, deixando os dados estatísticos de lado, o que convém falar sobre velhice na Alemanha? Uma coisa particular é que aqui não tem filas ou vagas preferenciais para idosos. Não importa o quão ruim esteja sua dor nas costas, tem que ficar esperando de pé, mesmo. E, embora me contradigam os alemães com quem eu comentei isso, nunca vi ninguém dar lugar no metrô nem no ônibus para o velhinho de pé do lado. Para moças grávidas, pessoas com bebês, deficientes, sim, mas idosos, juro, nunca vi.

Como as famílias cuidam de seus avôs e avós também dá uns parágrafos prum post. Casas para idosos (vulgo asilos) são bem comuns, mas devido aos altos preços, está ficando cada vez mais freqüente para famílias alemãs exportarem seus idosos para asilos dos países vizinhos! Em alguns casos, as pessoas vão por escolha própria, porque além de ser mais barato, a qualidade do tratamento nas casas para idosos alemãs está decaindo. Mas em várias situações as pessoas acabam num país estrangeiro, de uma língua diferente e cultura diferente, sozinhos, contra a sua vontade (para mais sobre esse assunto, leia a notícia no link acima).

Uma opção bem interessante disponível por aqui, é um meio termo entre casa para idosos e apartamento particular. Essa “modalidade” de habitação para os mais velhos chama-se Betreutes Wohnen. É como se fosse um condomínio normal, onde você aluga um apartamento, só que como serviços adicionais você pode, se precisar, chamar um enfermeiro ou alguém para te assistir quando e se necessário. Me pareceu uma opção super razoável, não sei se existe no Brasil. Eu pelo menos, nunca tinha ouvido falar.

Mas felizmente com quase 30, apesar de ser uma idade super super avançada, ainda estou bem longe de precisar de qualquer uma dessas opções!


(Publicado em 4 de Abril de 2014)

Mas um dia eu posso precisar disso!

Uma particularidade dos alemães é que eles não sabem jogar coisas fora. Eles tem uma séria mania de guardar coisas velhas e desnecessárias que eles com certeza nunca mais vão usar, mas que eles têm medo de algum dia precisar e não ter mais.

Eu costumo fazer uma comparação com o Brasil comentando que na Alemanha é ao contrário: No Brasil as cidades são desorganizadas e bagunçadas, mas as casas das pessoas costumam ser super limpas e arrumadas. Na Alemanha as cidades são impecáveis e brilhantes, mas as casas das pessoas são bagunçadas e cheias de bobeira.

Uma coisa, por exemplo, que todo o alemão tem em casa em grandes quantidades são pastas de documentos exatamente como essas daqui:

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Te juro que em qualquer casa onde vive um alemão, vivem também pelo menos umas 10 dessas pastas, se ele for bem jovem. Se já for velhinho, umas 40. Tá, guardar documentos em pastas não é exatamente um sinal de desorganização, mais o contrário. Só que se você se aventurar a abrir algumas dessas pastas, encontrará os documentos do seguro de um carro que foi vendido em 1998, o comprovante de matrícula do primeiro semestre (e todos os outros semestres) da universidade, de cujo curso a pessoa já está comemorando 10 anos de formado, o jornalzinho do jardim da infância em que apareceu o nome do fulano na parte de “alunos destaques do ano”, etc etc. Ou seja, se houvesse uma revisão anual do conteúdo das pastas para ver o que convém continuar guardando, provavelmente a quantidade de pastas diminuiria drasticamente.

Se em casas já tem um monte de pastas, imagina em escritórios?

Se em casas já tem um monte de pastas, imagina em escritórios?

Outra coisa que alemães adoram guardar são caixas. Tipo a caixa do computador, a caixa da impressora, a caixa do aspirador de pó, a caixa da churrasqueira, porque vai que quebra e você tem que mandar para assistência técnica por correio porque não tem uma assistência técnica na sua cidade? Aí o melhor jeito de mandar é na caixa original! E se for vender? Melhor vender na caixa original! Melhor guardar, a caixa, DE TUDO!

Claro que em alguns momentos esse costume é até sensato. Em qualquer casa alemã, se vc precisar de uma sacola, pode ter certeza que terão sacolas de todos os tamanhos disponíveis. Papel? Rascunho, A4, A3, sulfite, com linha ou colorido? Qualquer sobra ou resto de qualquer coisa que possa ser reutilizado será guardado. É uma coisa bem sustentável, só que com freqüência levada ao extremo. Outro dia, limpando a gaveta de sacolas, encontrei umas sacolinhas minúsculas, daquelas que simplesmente você NUNCA vai precisar. E se precisar, nem vai lembrar que existe. Mesma coisa com as folhas avulsas de papéis diferentes… Uma amiga (brasileira) contou que na casa do namorado (alemão) encontrou o exagero de três prateleiras inteiras de sacolas.  E isso porque raramente, aqui, te dão sacola, quando você compra coisas. Ou, seja, para acumular tantas, significa que tem sacola que tá lá pelo menos há uns 3 anos.

Visitando casas de pessoas com filhos, sejam os filhos crianças, adultos, ou já pais, pode ter certeza que o porão estará repleto de trabalhinhos da terceira série. A máscara da fantasia de carnaval de quando a criança tinha 3 anos, tipo em 1989. O coração de cartolina vermelha com borda de glitter, com um “Feliz aniversário, mamãe!” escrito de cola colorida.

Eu queria ter tirado umas fotos de casas alemãs para ilustrar melhor a situação, mas achei que de repente acontecia dos donos entrarem no blog e ficarem ofendidos, e tal, achei melhor deixar pra lá. Não sei se esse medo de jogar as coisas fora tem alguma coisa a ver com tempos de guerra ou algo assim. Pode ser. Certamente os alemães têm um espírito menos esbanjador que a gente, demoram bem mais para comprar algo novo quando o velho ainda é utilizável, e tal. Como eu falei, existe um lado positivo. Às vezes levado ao extremo.

Um resultado desse medo de jogar as coisas fora são os Flohmaärkte, ou mercados de pulgas. São super comuns, em qualquer cidade tem possivelmente vários, semanais, onde você encontra tooodo tipo de tralha à venda. Tipo a feirinha do MASP subtraindo as coisas de valor. Mas são ótimos para encontrar bicicletas usadas bem baratas, ou mesmo alguns livros bons.

Wikipedia – Stefan Kühn

OBS adicionada mais tarde: Lendo esse post, minha amiga brasileira previamente mencionada, com quem eu não tinha previamente conversado sobre a particularidade das pastas e caixas, comentou que é absolutamente verdade e que as pastas do namorado contém, entre outras coisas: plantas de um apartamento que ele quase alugou, mas não alugou, em 2002; propagandas que ele recebe por correio (tipo da pizzaria da esquina), em alta quantidade, provavelmente de vários estabelecimentos comerciais que nem existem mais; uma pasta inteira de recibos de hotel, incluindo hotéis em que a estadia ocorreu nos idos de 1998; documentos da vespa alugada durante o intercâmbio feito 10 anos atrás, e por aí vai. Quanto as caixas, ela conseguiu convencê-lo a se livrar de uma parte – só as dos eletrônicos ou eletrodomésticos cuja garantia já estava vencida. E eu lembrei ainda que no escritório onde trabalha meu namorado, eles imprimem TODOS os emails que o escritório recebe e os guardam em pastas. TODOS.

(Publicado em 2 de Abril de 2014)