Mês: junho 2014

Assistindo à Copa na Alemanha

Provavelmente não é novidade que os alemães gostam muito de futebol. As últimas novidades da Bundesliga (o equivalente alemão do Brasileirão) (Alemanhão?) também são tópico de conversa na mesa de jantar e nos encontros de família, e, pelo menos entre as pessoas que eu conheço, futebol parece ser tão de interesse das mulheres quanto dos homens.

Na Copa, claro, não é diferente. Todo e qualquer alemão lembra profundamente bem e com detalhes a decepção de perder a final de 2002 para o Brasil, e a semifinal de 2006 para a Itália, na Copa da Alemanha…

A Copa de 2006 na Alemanha foi, inclusive, um marco na relação dos alemães com seu próprio país, pelo que me contam. Até hoje os alemães carregam um peso muito grande de culpa da Segunda Guerra Mundial, e por causa disso nacionalismo é muito mal visto por aqui (e com frequência quando aparece vem mesmo de neonazistas). É bem raro, por exemplo, ver bandeiras da Alemanha em janelas ou na frente de residências familiares tal qual se vê muito em alguns países como os EUA. Normalmente as bandeiras da só são vistas na frente de edifícios públicos governamentais e olhe lá.

A exceção é durante a Copa do Mundo, desde 2006. Entre o jogo de abertura e a final, todo mundo vira patriota. Bandeiras podem ser vistas – especialmente nos dias de jogos – nos vidros dos carros, nos espelhos retrovisores, nas vitrines de lojas e mesas de bar. Pessoas trajando a camisa oficial da seleção alemã são vistas com frequência, e, durante o jogo, todo tipo de apetrechos esdrúxulos nas cores da bandeira decoram os torcedores. Mais ou menos como no Brasil.

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Mas, apesar disso, aqui você não sente a mesma vibe de Copa que no Brasil. Nos dias de jogo não dá aquela sensação de que a cidade inteira está naquela expectativa, esperando a hora do jogo. Depois do jogo – ainda que a Alemanha tenha ganhado de 4×0 – as pessoas não saem felizes buzinando e soltando fogos.

Só que uma coisa positiva que me parece diferente do Brasil é que aqui é muito mais comum ir assistir ao jogo em algum bar ou algum lugar com telão do que em casa. Na verdade, qualquer restaurante, bar ou lugar que venda comida ou bebida vai mostrar os jogos da Copa em uma TV razoavelmente grande. É o que eles chamam de “Public Viewing“, assim em inglês mesmo. E se você ouvir esse termo na Alemanha, saiba que se refere necessariamente a assistir futebol em público. Uma opção comum para a Copa – já que a mesma acontece sempre em Junho/Julho, quando aqui é verão – é assistir aos jogos em Biergartens. Durante jogos da Alemanha os mesmos lotam e ninguém vai te incomodar se durante as 3 horas que você passou lá (2 horas de jogo + 1 hora de antecedência para pegar um lugar bom) você só tomar uma cerveja. Mas não conte com cornetas e fogos quando sai gol. Quem sabe na Final. E, a propósito, cantar o hino da Alemanha junto é proibido. Nacionalista demais. Suspeite se alguém por perto estiver cantando, melhor sentar mais longe e ficar alerta.

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Mas estranho mesmo é assistir aos jogos do Brasil com comentarista alemão. Claro que no Brasil, num jogo digamos Guiné Bissau x Butão, o comentarista não vai gritar “Gooooooooooooooooooaoaoaoaooalllllll!!! Do Butããão!!! * Butão-tão-tão-tão…*”, mas pelo menos um “Gol!” suficientemente óbvio para você saber que foi mesmo gol vai rolar. Aqui já me aconteceu várias vezes de achar que o Gol não valeu porque o comentarista não falou nada na hora do Gol! Como recentemente num jogo da Costa do Marfim. Um jogador de nome Gervinho marcou um gol para a Costa do Marfim quando o placar estava 2×0 para a Colômbia. Os comentários foram os seguintes: *Jogador se aproximando do gol* “Gervinho…. Gervinhoooooo…..” *jogador marcando o Gol* “…” *uns 20 segundos passam sem nenhum comentário* “É, parece que a Costa do Marfim ainda está no jogo.”.

Sai o gol e você não sabe se pode comemorar ou se estava impedido ou coisa do tipo.

Para piorar a experiência do último jogo do Brasil (Brasil x Camarões, o último jogo da fase de grupos), o canal alemão que estava transmitindo o jogo estava mostrando, ao mesmo tempo, o jogo México x Croácia. Eles ficavam alternando entre um e outro, e claro que era na hora que estavam mostrando o México que saía gol do Brasil. Dos 5 gols marcados durante o jogo só vimos 2 em tempo real (pelo menos não vimos o de Camarões). Destrói completamente a tensão e emoção de assistir o jogo…

A única saída nesse caso teria sido assistir ao jogo pela internet. Os jogos da Copa estão sendo transmitidos por dois canais alemães, o ARD e o ZDF. Eles dividem os jogos entre si, e nos seus sites oficiais é possível acessar os livestreams de todos os jogos. O problema é que o livestream vem com 1 minuto de atraso, então você ouve as pessoas comemorando em volta mas só vê o gol 1 minuto depois… mas para o jogo da Costa do Marfim serve!


(Publicado em 26 de Junho de 2014)

 

Alemães reclamões

Uma breve convivência com alemães é suficiente para perceber uma característica cultural típica: alemães reclamam muito. Eles não são calmos tranquilos e despreocupados como os brasileiros, sempre que alguma coisa não funciona direito eles reclamam,especialmente quando é algo que era pra funcionar direito.

Transporte público é um bom exemplo. Uma amiga morou em Berlim por um tempo e, durante sua estadia, uma determinada linha de metrô foi fechada para reforma. A linha de ônibus que foi organizada para substituir o percurso do metrô contava com um ônibus a cada 10 minutos. Ao entrar no ônibus, uma senhora começou a comentar com a minha amiga: “mas isso é um absurdo. O metrô quando estava funcionando passava a cada 4 minutos, agora esse ônibus cabe menos gente e vem a cada 10 minutos!”

A senhora reclamou por uns bons minutos durante o percurso e, não satisfeita em expressar seu descontentamento para outros passageiros, aproveitou o tempo de viagem para telefonar para a companhia de transporte de Berlim e registrar oficialmente sua reclamação.

O exemplo certamente é um pouco extremo – os outros passageiros estavam suficientemente satisfeitos com o serviço para não fazer o mesmo telefonema – mas ilustra bem o comportamento alemão.

A Alemanha é um pais todo perfeitinho: o transporte público é ótimo, as cidades são limpas, tudo é organizado e bem sinalizado, as pessoas são eficientes. Consequentemente, o nível de exigência dos alemães condiz com a realidade do país.

Em diversos momentos esse constante descontentamento com qualquer detalhe que não funcionou de acordo com o esperado pode ser extremamente irritante, especialmente se o alemão em questão está fora da Alemanha, onde as coisas não funcionam tão sincronizadamente e as reclamações portanto tornam-se constantes. Por outro lado, a minha impressão é de que a alta exigência dos alemães é também responsável pela eficiência dos serviços do país. Claro, as duas coisas vêm juntas: a boa eficiência dos serviços têm como consequência o alto nível de exigência, e este por sua vez assegura a permanência dos altos padrões de organização. E o ponto positivo é que depois de morar um tempo na Alemanha, tem coisas que você sabe que jamais seriam possíveis lá. Por exemplo, num restaurante, o garçom trazer um couvert sem perguntar e te cobrar depois. Nuuuunca que isso aconteceria na Alemanha, os clientes iam ficar malucos de indignação.

Mas claro, nem tudo na Alemanha é perfeito. Variás coisas são mais complicadas aqui que no Brasil, dois exemplos são seguros de saúde (muitas regras sem sentido para definir qual seguro vc pode ter) e declaração de imposto de renda (ainda não é totalmente eletrônica e o formulário não é tão explicativo como o brasileiro). E como em qualquer lugar do mundo, as pessoas tendem a reclamar daquilo que não lhes parece normal. Se algo sempre foi de determinado jeito e a pessoa nunca conheceu um exemplo melhor, não é provável que vá reclamar de como as coisas são. Isso, inclusive, cria um problema para quem vai morar fora do seu país de origem. Você nunca está plenamente satisfeito em lugar nenhum, porque sempre tem alguma coisa que funciona melhor no país em que você não está. Sempre que tenho que declarar imposto de renda na Alemanha tenho uma vontade quase incontrolável de telefonar para a receita federal alemã e mandá-los baixar o software de declaração brasileiro para ver como se faz o negócio direito.

O fato é que depois de um tempo você fica um chato insuportável que só vê defeito em tudo. Como os alemães! Boa sorte!


(Publicado em 15 de Junho de 2014)

 

Christopher Street Day

Neste fim de semana em Dresden aconteceu o Christopher Street Day, o evento anual análogo à parada Gay em outros países. O Christopher Street Day acontece não só em Dresden, mas em diversas cidades da Alemanha e da Suiça, em diferentes fins de semana entre Junho e Agosto. O nome é em memória à Rebelião de Stonewall, a primeira grande manifestação LGBT contra a ação da polícia em um bar chamado Stonewall Inn, na Christopher Street de Nova Iorque em 1969.

A primeira CSD em Berlim ocorreu em 1979, e hoje Berlim é a cidade alemã onde ocorrem as maiores paradas gay da Alemanha. Outras cidades com eventos grandes de Christopher Street Day são Hamburgo, Colônia e Zurique (Suiça).

Em Dresden, a CSD esse ano juntou eventos durante uma semana, incluindo shows, festas, e claro, a parada em si, da qual participei.

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Sendo uma demonstração politizada – no sentido de se manifestar por direitos iguais – vários partidos estavam também presentes na parada, expressando seu apoio pela mudança das leis, incluindo principalmente Die Grüne, Die Linke e Die Piraten (para mais informações sobre os principais partidos alemães, leia o post sobre as eleições para o parlamento alemão).

A manifestação começou no centro histórico, subiu até a Neustadt – o bairro alternativo/estudantil/artístico da cidade – e voltou para o centro histórico, como mostra o mapa.

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Chegando de volta no Altmarkt, a praça importante no centro histórico onde a parada começou e terminou, representantes de quase todos os partidos estavam presentes para discutir um pouco o assunto que concernem o movimento LGBT – casamento gay, adoção, etc. Estavam presentes representantes da CDU, SPD, Die Linke, Die Grüne, FDP, Freie Wähler e Die Piraten.

Os direitos para casais gays na Alemanha são cada vez mais próximos àqueles de casais hétero, mas ainda não são 100% iguais.

Durante o 3˚ Reich (o período do Nazismo), as leis anti-gay foram enrijecidas e gays e lésbicas foram abertamente perseguidos. Entre 5.000 e 15.000 pessoas suspeitas de atos homossexuais foram enviadas a campos de concentração onde a maioria morreu. Após o término da Segunda Guerra, a Alemanha foi dividida em duas. Na Alemanha Oriental, sob o regime socialista, as leis do 3˚ Reich foram alteradas para versões mais brandas, mas relações homossexuais entre dois homens permaneceu ilegal até 1968. A Alemanha Ocidental, sob forte influência da igreja, manteve a versão mais rígida da lei e a homossexualidade deixou de ser ilegal em 1969. Um resultado da influência da igreja é que o partido da CDU (União democrática Cristã), oriundo da Alemanha Ocidental, até hoje barra avanços nas leis referentes aos casais gays.

O primeiro beijo gay em TV aberta ocorreu na popular novela Lindenstraße, em 1986, e, em 1994, a idade de consentimento para relações sexuais passou a ser igual para gays, lésbicas e héteros (14 anos).

Desde 2001, casais homossexuais são reconhecidos e podem ter algo análogo a um contrato de União Estável, o que lhes dá quase todos os mesmos direitos de um casal hétero, embora ainda não todos. Em 2004 a SPD e o Die Grüne (Partido Verde) propuseram a legalização do casamento gay, que portanto daria aos casais homossexuais direitos plenamente iguais aos casais hétero. Mas como a CDU têm maioria no parlamento alemão desde 2005, a lei ainda não avançou, e casais gays ainda não podem se casar.

Um dos resultados é que gays e lésbicas ainda não têm o direito de adoção. A exceção é para caso a criança seja filha biológica de um dos indivíduos do casal, direito adquirido em 2004. Um avanço recente é que desde Julho de 2013 os casais gays passaram a gozar dos mesmos benefícios de impostos que casais hétero (que pagam menos impostos que pessoas solteiras).

No geral, a aceitação na Alemanha à homossexualidade é bem alta. Segundo uma pesquisa de 2013, 87% dos alemães aceitam gays e lésbicas, a segunda maior taxa no mundo, perdendo apenas para a Espanha. Berlim é conhecida como uma das cidades mais receptivas a gays, inclusive seu prefeito é abertamente gay.

No que se refere aos direitos para transgêneros, a Alemanha também está bem avançada. Desde 1980, pessoas transgêneras têm o direito de mudar seu gênero legal, porém apenas após a cirurgia de mudança de sexo. Há 3 anos, o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha determinou que exigir a cirurgia de mudança de sexo para a mudança de gênero legal é inconstitucional, mas a lei ainda não foi alterada.

A Alemanha foi também o primeiro país europeu a permitir que pais registrem seus filhos sem definir seu gênero – lei que visa beneficiar crianças hermafroditas e intersexuais –, e o primeiro país do mundo a incluir o preconceito por identidade de gênero nas leis anti-discriminação.

A fonte da maioria das informações referentes aos direitos LGBT na Alemanha foi esse post no Wikipedia, que também fornece a sagaz tabelinha-resumo abaixo:

LGBT rights in Germany

*HSH = Homens que fazem sexo com outros homens

Ao que tudo indica, os direitos que ainda faltam aos casais homossexuais não estão longe de serem adquiridos, considerando o considerável apoio da sociedade e da maioria dos partidos políticos.

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(Publicado em 1˚ de Junho de 2014)