Mês: julho 2014

Como abrir uma cerveja alemã

Ainda que você saiba bem pouco sobre a Alemanha, você certamente sabe da cerveja, a Alemanha é conhecida pelas suas cervejas. E uma diferença básica do Brasil é que aqui cerveja em lata praticamente não existe. Comprando num bar ou biergarten, a cerveja vem normalmente da tap (máquina, torneira, sei lá se tem um nome específico). Em mercados e supermercados, vende-se sempre em garrafas de meio litro.

A idade a partir da qual você consegue comprar álcool varia para o tipo de bebida. Cerveja e vinho – ou outras bebidas alcoólicas mais simples podem ser consumidas a partir dos 14 anos em presença dos pais ou responsáveis, ou a partir dos 16 anos sem a presença de pais ou responsáveis. Já bebidas mais fortes como whisky, vodka, etc, só podem ser consumidas a partir dos 18 anos. Em supermercados é pouco provável que você consiga comprar bebidas alcoólicas sendo menor de idade. Para facilitar para o caixa, ao passar uma bebida alcoólica pelo leitor de código de barras, o barulhinho que a máquina faz é diferente daquele feito para outros produtos, para lembrar o caixa de verificar se a pessoa fazendo a compra tem a idade mínima. Mas, claro, nunca é completamente impossível.

Como no Brasil, beber álcool na rua não é proibido – muito pelo contrário, é bem comum. E uma coisa bem típica para jovens é comprar cervejas e beber no parque ou na rua em points da cidade onde os estudantes se reúnem com freqüência quintas, sextas e sábados a noite. Aqui em Dresden, ainda não descobri se é algo típico daqui ou comum em outras cidades também, mas na Neustadt – o bairro “alternativo” da cidade, onde os bares estão, e consequentemente os jovens – tem muitas lojinhas de bebida, as chamadas Spätshop. Spät significa “tarde” (não tarde de o período do dia após o meio dia e antes do anoitecer, mas tarde o contrário de cedo), portanto um Spätshop é, a princípio, simplesmente uma loja que fica aberta até tarde. E o objetivo dessas lojinhas é justamente vender álcool para jovens à noite – uma vez que todos os supermercados fecham às 22h e não abrem de domingo.

E aí talvez tendo lido o título desse post tenha lhe ocorrido agora: mas puxa, se eles só compram cerveja em garrafa em lojinhas de rua para beber na rua… como que eles abrem as garrafas? Todo mundo anda com um abridor de garrafa no bolso?

Pois então, esse é na realidade o tópico desse post. Como abrir cervejas alemãs.

Os alemães freqüentemente bebem cerveja de garrafa em situações em que não há um abridor de garrafa em mãos, e por tal motivo acabaram por desenvolver diversas técnicas para abrir garrafas de cerveja. Morando na Alemanha você certamente presenciará garrafas de cerveja (ou outras bebidas vendidas em garrafas de vidro) sendo abertas em uma das maneiras ilustradas a seguir, ou similares…

1. Usar uma garrafa para abrir a outra.IMG_1829

Possivelmente a técnica mais comumente usada para abrir uma garrafa de cerveja é usar uma segunda garrafa como abridor. Funciona bem porque a tampa é de metal – bem resistente – e, claro, a garrafa é comprida e portanto fácil de segurar e usar como alavanca. Só tome cuidado para não abrir a garrafa errada (a que está de cabeça para baixo)! Outra coisa que pode acontecer, caso você ainda seja amador na ciência de abrir cervejas, é quebrar ligeiramente a boca da garrafa aberta… e perder os estilhaços de vidro dentro da cerveja!

E, claro, ainda que você seja super expert em abrir garrafas com outras garrafas, o fato é que a última garrafa da turma terá que ser aberta de outra maneira.

2. Abrir na borda de alguma coisa.IMG_1823

Uma opção fácil é encontrar uma borda – um banco, uma lixeira, qualquer coisa com uma borda – e usá-la para segurar a tampa enquanto você empurra a garrafa para baixo. Diferente da foto, a borda ideal é de metal, e não madeira.

3. Abrir com uma chaveIMG_1828IMG_1826

Algo que todo mundo tem no bolso, facilmente disponível, é uma chave. E pela sua boa resistência, pode ser usada de diferentes maneiras para abrir uma garrafa. Claro, é muito menos conveniente pelo seu tamanho pequeno e formato difícil de manusear.

4. Abrir com o celularIMG_1831

Pode parecer uma alternativa não muito esperta, mas já presenciei alemães usando iPhones para abrir garrafas. Mas sim, eu concordo com o que você está pensando, se for pra usar o iPhone melhor simplesmente comprar um chaveiro abridor de garrafas.

5. Com algum objeto qualquer que você tenha à disposição no momento.IMG_1825IMG_1824

Com habilidade, qualquer coisa funciona.

Uma outra alternativa muito comum é abrir garrafa com um isqueiro, um objeto também frequentemente carregado em bolsos e bolsas. Mas esse não tínhamos em mãos, por isso faltou a foto.

E, finalmente, uma possibilidade em último caso é tentar abrir a garrafa com o dente. Tem quem consiga. Não recomendo.

Mas a conclusão é que basicamente qualquer coisa serve. Menos abridores de garrafa. Acho que é meio que uma questão de honra para os alemães saber abrir garrafas de maneiras menos habituais.


(Publicado em 31 de Julho de 2014)

 

Contas de consumo

Esse post talvez seja menos interessante para os curiosos regulares de cultura alemã, mas mais para aqueles que planejam vir morar na Alemanha e querem saber detalhes dos custos de vida.

Contas de consumo. Antes de falarmos das contas em específico, vale a pena discutir um pouco os típicos consumos de uma casa alemã. A primeira coisa bem óbvia é, claro, o aquecimento. Aqui na maioria das casas e prédios têm aquecimento a gás. O mais comum é um aquecimento central para o edifício inteiro, e, claro, em cada cômodo do seu apartamento você tem um aquecedor que você pode ligar, desligar, aumentar ou diminuir de acordo com o necessário. A conta a pagar é calculada do seu consumo particular. Algumas casas e apartamentos ainda têm aquecimento com carvão, mas não é muito comum.

Então o gás você usa para o aquecimento da casa, e para aquecer a água também. Lembrando que aqui tem água quente não só no chuveiro, mas também em todas as pias. Mas uma coisa que praticamente nunca é a gás são fogões. Fogão elétrico é muuuuito mais comum, e em vários – talvez a maioria – dos apartamentos nem tem ligação de gás para o fogão, de maneira que não é opção.

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A única outra coisa que gera gastos diferentes da casa média brasileira é a máquina de lavar louça, também extremamente comum por aqui. A princípio, lavar a louça na máquina gasta menos água que lavar a mão, mas vai também um pouco de energia no aquecimento da água (Aqui isso não faz muita diferença já que é comum usar água quente na torneira também). O que me lembra de mais uma diferença: aqui as máquinas de lavar roupa todas têm escolha de temperatura. É normal lavar roupas com água quente, especialmente para roupas de baixo e toalhas e panos de chão.

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Mas vamos para o que importa. Quanto você vai pagar por tudo isso? Caro. Caro pra xuxu. Eletricidade e água, na Alemanha, são caríssimos, mais que o dobro do preço no Brasil. Água em específico aqui é uma das mais caras do mundo. Vai aprendendo a racionar que a conta vai doer no bolso. Tem seus pontos positivos: esbanjos absurdos de água – como lavar a calçada ou o quintal com mangueira – é uma coisa que você jamais vai testemunhar por aqui.

E as contas de consumo funcionam de maneira um pouco diferente, por aqui. Ao invés de pagar mensalmente de acordo com o consumo, para todas as contas é calculado um valor fixo de acordo com o que é esperado que você gaste, e anualmente calcula-se a diferença do que foi gasto e o que foi pago.

Então por exemplo agora, Julho de 2014, acabamos de receber a conta para a diferença dos consumos e gastos de 2013 inclusos no condomínio. O condomínio por aqui costuma incluir a água, o aquecimento (gás) e eventuais pequenos gastos do edifício como limpeza semanal, manutenção do elevador se tiver, etc. Esses gastos são pequenos em comparação com as contas de consumo, já que os edifícios residenciais aqui não empregam porteiros, faxineiras, jardineiros ou manobristas (limpeza e eventuais serviços são contratados a parte por empresas terceirizadas). Então a maior parte do valor do condomínio são mesmo as contas de água e gás. O preço é calculado de acordo com o ano anterior, então, quando você se muda para um apartamento novo, o preço que você vai pagar vai ser aquele que o locatário anterior estava pagando. Se antes morava uma pessoa sozinha e agora você se mudou com mais outras duas pessoas para o apartamento, espere uma conta gorda no ano seguinte e um belo dum reajuste.

O que acontece, portanto, é que ao final do ano (ou melhor, lá pela metade do ano seguinte), eles fazem o cálculo do que foi gasto e do que foi pago, te cobram (ou devolvem) a diferença, e reajustam o valor do condomínio de acordo com os gastos do ano anterior para tentar equalizar a conta para o ano que vem.

Só que o consumo varia bastante de ano a ano devido ao aquecimento. Tem ano que o inverno é rigoroso e portanto o gasto com aquecimento é muito maior que em outros anos com invernos mais brandos.

Portanto, após invernos muito frios, pode ir contanto com uma conta salgada a chegar lá pelo meio do ano.

Com a conta de eletricidade é quase a mesma coisa, com a diferença de que é você que contrata a empresa fornecedora de energia por conta própria – tem várias opções, inclusive empresas que fornecem energia oriunda exclusivamente de fontes renováveis – e o valor a pagar será calculado de acordo com o tamanho da residência e o número de moradores.

Pesquisando sobre o assunto de preço de contas de consumo, encontrei esse interessante site que compara custo de vida em dois países de sua escolha:

http://www.numbeo.com/cost-of-living/compare_countries_result.jsp?country1=Germany&country2=Brazil

Dá para escolher duas cidades específicas também. Com a comparação desse site, dá para ver que uma das diferenças mais gritantes de custo de vida está mesmo nas contas de consumo, que na Alemanha são aproximadamente 3 vezes mais caras que no Brasil… Bom, pelo menos a água daqui é super bem tratada e é perfeitamente confiável para beber direto da torneira…


(Publicado em 29 de Julho de 2014)

 

Lagos

Ontem experimentei um hobby super típico no verão na Alemanha: nadar em lago.

Já comentei um pouco sobre isso no post sobre as piscinas (Erlebnisbäder), mas os alemães adoram água. No verão, qualquer aguinha é imediatamente ocupada por crianças e adultos se divertindo. E como a Alemanha não é um país com muitas praias, o substituto que os alemães que não moram perto da costa norte do país encontraram para resolver o verão são os vários lagos espalhados pelo país.

Vários, talvez a maioria, desses lagos não são naturais. São grandes buracos criados no processo de escavação para obtenção de carvão para produção de energia ou cascalho para utilização na construção civil. Após a extração do minério desejado, o buraco é então preenchido com água e voilà: Um belo lago para o uso da comunidade local. Alguns são também pequenas represas. Seja qual for a origem do lago, no verão estará repleto de alemães felizes nadando e tomando sol às margens. Uma praia sem ondas e com grama no lugar de areia (em alguns lugares eles até colocam areia).

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E embora os lagos sejam normalmente um pouco afastado das cidades, alguma infraestrutura pode ser encontrada às margens. Biergartens, por exemplo, são quase imprescindíveis.

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Lá você poderá tomar um sorvete, ou comer alguma coisinha e beber uma cerveja numa pausa entre mergulhos.

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Os lagos viram mesmo praias no verão. Você encontrará pessoas com guardas-sol ou, alternativamente, barracas de camping (pela sombra, não para acampar), toalhas estendidas na grama para tomar sol, bóias de diferentes tipos e tamanhos para as crianças, e até pedalinhos, canoas e banana boats poderão ser vistos.

A experiência de nadar em lago é um tanto incomum no Brasil – pelo menos para pessoas que nasceram e passaram a vida inteira em grandes cidades como eu. No Brasil lagos e rios nem sempre são limpos, existem doenças tipicamente contraídas em águas de lagos (esquistossomose) e lugares afastados das cidades são normalmente vistos como perigosos. De maneira que até vir morar na Alemanha eu nunca tinha nadado em um lago, e nunca tinha imaginado que poderia ser um hobbie normal para o verão. Mas o fato é que é uma experiência totalmente diferente de nadar em piscinas ou praias. A primeira coisa que você nota é o espaço infinito para nadar. Piscinas são pequenas e o mar, apesar de não ter o problema do tamanho, é sempre um tanto perigoso para nadadores. Nunca é muito recomendado se afastar da costa e ir onde não dá pé. Passando de um determinado ponto, a correnteza dificulta a volta. Fora que a água salgada e as constantes ondas, embora ofereçam suas próprias particularidades em experiências aquáticas, não são as versões mais confortáveis para o nado. No lago é diferente. Espaço não falta, sabendo nadar não há grandes perigos em se afastar da margem, e a água calma e doce não dificulta a permanência. Me senti um peixe.

Claro, as bordas dos lagos, um tanto lamacentas e cheias de algas são um tanto desconfortáveis, mas basta avançar alguns metros para onde não dá pé que a experiência muda.

E, claro, sendo a Alemanha, não precisa se preocupar com qualidade da água ou segurança. Os lagos mais visitados (aliás, provavelmente todos, mas com certeza os mais visitados) são constantemente e minuciosamente monitorados na qualidade da água e outros possíveis perigos para visitantes.

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Mas certamente o ponto mais particular mesmo de um passeio a um lago alemão – especialmente se você estiver na antiga Alemanha Oriental – é a grande quantidade de nudistas. Grande mesmo. Ontem o lago estava cheio de gente, das quais no mínimo metade estava totalmente nu. Isso é completamente normal por aqui, portanto não estranhe. Os alemães são muuuuuito tranquilos em relação a corpos e aparência. Ninguém estava preocupado em prestar atenção no corpo de ninguém. Mesmo mulheres jovens tinham total liberdade para tomar sol nuas sem nenhum tipo de assédio, ninguém nem mesmo olha duas vezes (na verdade, espere você receber olhares feios e broncas se parar para olhar outras pessoas nuas).  Essa cultura de liberdade do corpo (em alemão chama-se FKK – Freikörperkultur, cultura do corpo livre) é super típica da ex-Alemanha Oriental, sendo a alta taxa de não-religiosos entre os alemães um dos principais motivos.

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Aproveite para fazer um longo passeio de bicicleta para um lago nas proximidades. O caminho certamente será simpático.

Informações sobre os lagos próximos à você podem ser encontradas com facilidade na internet, basta digitar “Badeseen in *nome da cidade ou região*”. Esse site, por exemplo, reúne informações sobre todos, ou quase todos, os lagos visitáveis da Alemanha incluindo atividades disponíveis no local, infraestrutura presente, se é possível fazer nudismo, se tem areia, etc. Aproveite!


(Publicado em 21 de Julho de 2014)

 

Interjeições alemãs

Embora esse blog não seja sobre a língua alemã, de vez em quando algumas observações sobre o alemão vale a pena fazer.

Uma delas é uma pequena explicação de algumas das mais comuns interjeições alemãs, que volta e meia aparecem na linguagem e no começo é um pouco difícil de entender o que significa. Eis aqui cinco bons exemplos:

Naaa…?

O misterioso Naaa…? Pode ser ouvido entre alemães no começo de conversas de pessoas que acabaram de se encontrar. Basicamente significa algo como “Ahh, vc aqui, e aí, tudo bem?” ou “oi, que bom falar com vc de novo, como vc tá?”. É comum começar conversas telefônicas com amigos com um “Naaa?” e especialmente comum usá-lo ao encontrar alguém por acaso no tram, na fila do supermercado ou na padaria.

Oha!

Oha é uma interjeição bem específica mas bem comum. Usada para situações em que vc fica surpreso, de uma maneira negativa, mas ao mesmo tempo aceitando a realidade. Sei lá, digamos assim que vc conte prum alemão que não estava acompanhando a copa, que o Brasil perdeu da Alemanha de 7×1. “Oha!” seria uma reação plausível, se a pessoa não ficou particularmente feliz que a Alemanha ganhou de 7×1, mas entendendo que deve ter sido chato pros brasileiros, entende? Imagina que seu colega de apartamento te ligou para pedir para trazer papel higiênico pq o seu gato destruiu todo o papel higiênico disponível no banheiro. “Oha!”.

Pronúncia: “Ô-rrá”

Naja….!

Naja significa, literalmente, “não sim”. Pode ser usado de diferentes maneiras. Se você estiver tendo uma conversa que de repente parou e você não tem nada mais a dizer sobre o assunto, pode soltar um “Naja…”, do tipo “Pois é…”.  Ou ainda, se você perguntar alguma coisa para alguém, e a pessoa quiser responder tanto sim quanto não. Por exemplo… “Você tem mesmo que ir trabalhar nesse fim de semana?” “Naja… não é que eu TENHO que, mas ia ficar chato não ir…”.

Pronúncia: Naiááá

Ach so!

Meu preferido, o Ach so! aparece uma vez a cada 10 palavras, pelo menos!  Muito antes de eu entender qualquer palavra em alemão, já tinha percebido que eles falavam Ach So! com muita freqüência! A interjeição mesmo é “Ach!”, “so” significa “então”. Mas a interjeição “Ach so!” ou “Ach so?” significa algo como “é mesmo?”, “Sério?”, “Oh puxa!”, “Orly?”, e tal. Pode ser tanto uma perguntinha como uma exclamação. Pode ser usado em qualquer contexto, o tempo todo, por qualquer um. Se quiser soar alemão, insira bastantes Ach sos nas suas conversas.

Pronúncia: Arrr zôôô?

Tja!

Outro bom para se usar com freqüência é o “Tja”. É um “Ja” (sim) meio enfatizado, tipo um sim insatisfeito. Digamos… “Vc trabalha de sábado tb?” “Tja… que fazer, né?”. Ou… “Nossa, que tempo ruim, hein?” “Tja…”. Pode ser usado mesmo sem contexto, só para representar um “Pois é, que vida, né…”.

Pronúncia: Tchá….


(Publicado em 19 de Julho de 2014)

 

Roupas funcionais

Roupas funcionais. Desde sempre eu notava que os alemães eram obcecados com essa ou aquela roupa não sei das quantas pra não sei que situação, que todo mundo tem uma em casa. Demorou para eu fazer a conexão e entender o que estava por trás disso. São as roupas funcionais.

Alemães adoram uma roupinha com funções específicas.

A primeira obsessão que eu notei foi com os casacos de chuva. Todo alemão que se preze tem um casaco de chuva, o qual ele usa com bastante freqüência. Não se engane, não estamos falando de uma capa de chuva estilo capucha, ou pica-pau em Niagara Falls. O casaco de chuva que os alemães acreditam imprescindível é uma jaqueta normalmente fina, à prova d’água, com capuz, para você usar por cima do que você tiver usando em basicamente qualquer dia em que exista a possibilidade de chuva. Assim:

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Típico. E falando em chuva, outra coisa facilmente encontrável em uma típica residência alemã são galochas. Saca aquela bota totalmente impermeável que você usaria para um passeio em um pântano, ou talvez em um dia em que, por alguma inadvertida desventura do destino, você teve que andar sobre um esgoto a céu aberto? Essas daqui:

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Então. Super comum. Especialmente entre as crianças. Em dias de chuva, fácil ver crianças indo para a escola de galocha. Os adultos não as usam com tanta freqüência, mas certamente têm uma em algum canto da casa para o caso – pasmem, pasmem muito, por favor – de resolverem IR À PRAIA. Sem mais.

(Aliás, fato incontestável, absolutamente indiscutível: os alemães não entendem patavina de praia. Mas deixo detalhes para um post específico sobre praias alemãs).

Voltando às roupas funcionais. No quesito calçado, temos que mencionar também os sapatos/botas de caminhada. Eu as acho bem legais e talvez conveniente tê-las, mas jamais teria imaginado que alguém poderia entender botas de caminhada como um artigo tão imprescindível. Mas conhecendo os alemães, sei que para eles realmente faz todo o sentido. Uma forma de lazer muito comum por aqui é passear na floresta, muito comum mesmo. É totalmente parte da cultura alemã, essa relação próxima com a floresta. Também estou planejando um post sobre o assunto para o futuro. Mas sendo assim, botas/sapatos de caminhada são de fato bem oportunos. E sendo os mesmos sempre super cheio de habilidades especiais (uh, sola especial no formato ideal para a pisada perfeita, altamente não escorregadios, revestidos com o couro mágico à prova da água, neve e vento, e ainda solta um repelente poderoso a cada pisada para evitar carrapatos, etcetc), espere salgados preços para adquirir o seu par.

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E caminhadas e viagens requerem outra relíquia característica. São as calças que viram shorts. É. Aquelas com o zíper. Tem umas que viram até shorts de diferentes tamanhos, com zíperes em duas alturas diferentes, e tal.

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Aliás, reconhecer alemães viajantes é muito fácil, eles estão sempre de uniforme. Calça que vira bermuda, capa de chuva, bota de caminhada e mochilão.

Enfim. Essas coisas descritas assim parecem bem engraçadas, mas o fato é que é bem alemão ter coisas altamente funcionais, testadas 700 vezes, comparadas com todas as alternativas até chegar à solução ideal e infalível. E realmente eles são bons em fazer coisas – seja lá o que for – muito confiáveis, seguras e eficientes. Além do que no quesito roupa o pessoal daqui é muuuuito tranqüilo. Me parece que os alemães não estão muito preocupados em prestar atenção no que os outros vestem, não. Pode ficar à vontade para sair na rua com sua bota de borracha.


(Publicado em 10 de Julho de 2014)

 

Xenofobia

Quarta-feira passada eu assisti a uma palestra na universidade de Dresden sobre o Brasil, por um professor que deu aula como professor convidado na Faculdade de Arquitetura da USP – onde eu me formei – por 4 anos.

Foi péssima. Ele apontou apenas pontos negativos e mesmo as coisas que ele mostrou que são positivas ele expôs de uma maneira negativa (de certa forma comparando com a Alemanha ao invés de comparar com a situação anterior no Brasil) e quase debochando, de modo que em vários momentos da palestra os alunos presentes riam. Todos os problemas mencionados foram descritos de maneira extremamente superficial, ignorando o contexto social e histórico por trás daquela situação. Eu era a única brasileira assistindo à palestra, e apenas dois outros presentes alemães pareciam ter qualquer conhecimento a respeito do Brasil (e os dois contestaram muitas das coisas que ele falou, ao final da palestra).

O mais frustrante é que, tendo dado aula na minha faculdade, não é possível que ele não tenha entrado em contato com as várias soluções e projetos positivos realizados pelo Brasil. A impressão que passou é que ele foi para o Brasil e não conversou com nenhum brasileiro sobre o país. Apenas fez seus próprios julgamentos com seu olhar de europeu superior, e voltou aqui para explicar para os outros alemães como as coisas funcionam.

Vim até checar os meus posts no blog para ver quantos deles passam uma impressão negativa da Alemanha. Mas me parece que mesmo nos posts em que escrevo sobre coisas que eu não gosto daqui, eu tento deixar claro que essas coisas podem ter lados positivos, ou que são diferenças culturais que exigem tempo para se habituar. Tenho certeza que nunca escrevi um post que soasse tão negativo e depreciativo da Alemanha quanto a palestra sobre o Brasil que vi, até porque eu escrevo meus posts com um alemão sentado do meu lado dando opinião.

MAS esse blog não é para contar sobre experiências particulares não-representativas, mas experiências mais gerais que mostram um pouco do país e da cultura. Então resolvi aproveitar a oportunidade dessa palestra horrível para discutir a receptividade dos alemães com estrangeiros.

Na verdade eu acho bem difícil falar sobre isso, porque a minha experiência varia bastante. Às vezes extremamente positiva, às vezes bem negativa. Mas acho que fazendo um balanço geral não só da minha experiência mas também das de amigos estrangeiros de diversos lugares, a Alemanha não é super receptiva. Primeiro preciso frisar que eu acredito que essa palestra desse fulano foi um caso à parte. Eu acho que os alemães no geral tomam muito mais cuidado de não falar sobre a cultura alheia de maneira negativa.

Uma coisa boa daqui é que os alemães carregam ainda um estigma muito grande da segunda guerra mundial. Um alemão regular, pelo menos da minha geração (eu tenho 27), toma muito cuidado em não dizer e de preferência nem pensar nada que possa soar minimamente similar ao que um neonazista diria. Dá para fazer uma boa comparação com a Itália, onde morei por 1 ano. Lá, sempre que eu conhecia uma pessoa nova e comentava que vinha do Brasil, as respostas variavam entre “Nossa, e, como é a vida lá, é muito ruim? AHBOMPelo menos o tempo lá é bom, né, no mínimo, hahahah!”, “Aham… e você quer ficar aqui, então?” (ao que eu respondia “não, vou voltar pro Brasil depois de um ano”, ao que eles respondiam com alívio, e, uma certa vez, até com “obrigado!”) e “nossa, mas lá tem universidades?”. A ignorância sobre o Brasil era tão grande que mais de uma vez eu tive que responder sobre o Obama ser presidente do continente inteiro, ou só dos estados unidos.

Já os alemães, quando você fala que é do Brasil, não costumam fazer nenhum comentário inconveniente. Freqüentemente acham que você fala espanhol, mas fora isso mantém eventuais ignorâncias a respeito do país dos outros pra si próprios.

Além disso, eles viajam de-mais. Muito muito muito. TODOS os alemães que já conheci já saíram da Europa pelo menos uma vez. E diferente de nós, eles viajam para TODOS os lugares, não só para os mais famosos. Sendo assim, vários alemães já visitaram o Brasil e portanto não são tão ignorantes sobre o país.

Uma observação que precisa ser feita é que no quesito aceitação a imigrantes, existe uma diferença razoável entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental. Nos estado que compunham a antiga Alemanha Oriental, a quantidade de estrangeiros é bem menor que na Alemanha Ocidental. De maneira que a aceitação aos mesmos, é, também, menor. Isso porque ainda antes da reunificação, a Alemanha Ocidental já estava recebendo imigrantes, enquanto a Alemanha Oriental só passou a recebê-los após 1990. (Com exceção daqueles oriundos de países socialistas, como é o caso dos vietnamitas, em grande número em Dresden).

Mas o resultado é que, enquanto nos estados da Alemanha Ocidental os alemães convivem diariamente com pessoas de diferentes aparências, aqui em Dresden a quantidade de africanos ou muçulmanos, por exemplo, é muito reduzida. Nas cidades pequenas da antiga Alemanha Oriental, então, é ainda mais raro. Assim, principalmente os imigrantes que são obviamente não-alemães se sentem mais à vontade nos estados do oeste do que nos do leste. Esse relato conta uma situação de racismo vivida por uma mulher brasileira, em Bremem (no oeste), em que várias pessoas presentes se levantaram em sua defesa. Uma história bem bonita.

Eu sou branca e não tenho traços muito obviamente não-europeus (embora também não pareça alemã), de maneira que tenho a sorte de passar razoavelmente despercebida por aqui, especialmente se estiver na companhia de alemães.Mas pelo que os amigos obviamente estrangeiros relatam, não é tão tranquilo ser negro, moreno, indiano, asiático ou muçulmano, por aqui. Todos já foram parados pela polícia para aleatoriamente mostrarem seus documentos sem motivo pelo menos uma vez (Segundo as leis alemãs, a polícia tem que te dar pelo menos um motivo para te pedir para mostrar seus documentos, e cor de pele ou aparência física não é motivo válido). Todos relatam problemas em conseguir encontrar uma república para morar (muitos tiveram que ouvir, antes mesmo de conhecer as pessoas pessoalmente, que a república procurava apenas coinquilinos alemães). Alguns relatam terem sido barrados na entrada de baladas. E, na minha experiência pessoal, conseguir emprego tendo um nome não-alemão também não é fácil. Já li relatos de outros que, enquanto viam todos os seus colegas de universidade com nomes alemães conseguirem estágio com facilidade, não eram chamados nem para entrevistas. Minha experiência foi a mesma, e a impressão que dá é que basta que leiam seu nome para que seu currículo já seja descartado. Para corroborar com as suspeitas, uma pesquisa recentemente publicada por aqui mostrou que, de fato, se seu nome não soar alemão, suas chances de conseguir emprego por aqui são bem menores, ainda que você tenha nascido e vivido a vida inteira aqui.

Aliás, alemães com pais estrangeiros têm grandes problemas para serem aceitos e vistos como alemães. Na Alemanha, não basta ter nascido aqui para ter direito à cidadania alemã. Se seus pais forem estrangeiros, você também o é, mesmo se tiver nascido aqui. E até muito recentemente, se quisesse adquirir a cidadania alemã por ter nascido e vivido a infância inteira aqui, teria que abrir mão da nacionalidade original dos pais. O mesmo vale, aliás, para qualquer um que queria nacionalidade alemã, exceto aqueles que tem um dos pais alemão e o outro estrangeiro. Mas se você casar com um alemão e quiser a nacionalidade alemã, terá que abrir mão da brasileira. Ainda essa semana uma lei mudou um pouco as coisas. A partir de agora, se você tiver nascido na Alemanha e vivido aqui pelo menos 8 anos, ou freqüentado a escola aqui por 6 anos, terá direito a adquirir a cidadania alemã sem abrir mão da sua nacionalidade original.

Esse tumblr reúne alguns breves relatos de alemães de origem estrangeira sobre os comentários preconceituosos ou no mínimo irritantes que eles ouvem de outros alemães.

Apesar disso, existem alguns pontos positivos, também. Há diversas iniciativas por parte do governo alemão no sentido da inclusão de estrangeiros. O DAAD, por exemplo, é uma instituição que dá bolsas para alunos estrangeiros estudarem aqui e para alunos alemães estudarem fora, pagas pelo governo alemão. Mais de 100.000 bolsas são concedidas anualmente, para cursos de qualquer área, e pessoas de qualquer lugar do mundo. De fato, ao escolher os bolsistas para cada curso, o DAAD procura sempre um grupo heterogêneo, com gente de cada continente. Além de serem híper organizados, a instituição ainda prevê ajuda tanto para os bolsistas que querem ficar na Alemanha quanto para aqueles que pretendem retornar aos seus países, como procura de emprego, financiamento, etc.

E no caso de você entrar em um processo de imigração, contará com cursos de integração (alemão e cultura), e ajuda para conseguir emprego.

E, claro, vários alemães são super abertos à presença de estrangeiros. O próprio presidente da Alemanha fez recentemente um bonito discurso em que frisou que hoje os alemães não são mais de uma única etnia e origem, condenou a discriminação e xenofobia, e se mostrou totalmente positivo à imigração. O discurso inteiro gigante em alemão você pode ler aqui (boa sorte). Abaixo vai um trechinho que eu gostei entre as partes que li, e que é bem representativo do espírito do discurso.

Uma jovem de família vietnamita nos Estados Unidos ou na Inglaterra é aceita como americana ou britânica sem questionamentos. Na Alemanha, por sua vez, lhe é perguntado com freqüência de onde ela vem “de fato”. Claro, curiosidade não é crime. Mas precisa ficar claro o que essa pergunta sinaliza: “Seu lugar não é aqui”. Quem quase automaticamente fala em inglês com um negro na rua talvez esteja tentando ser educado, mas ao mesmo tempo está imediatamente excluindo a possibilidade de um negro ser alemão.

(…)

Isso não pode continuar assim. A gente não pode mais falar de “nós” e “deles”. Agora existe um novo “nós alemães”, que é a união dos diferentes. E a esse ” novo nós” pertencem vocês [o discurso estava sendo realizado a um grupo de “novos” alemães, estrangeiros que estavam naquela ocasião recebendo suas nacionalidades alemãs] tanto quanto eu.

O original em alemão desse trecho:

“Eine junge Frau aus einer vietnamesischen Familie wird in den Vereinigten Staaten oder in Großbritannien ohne weiteres als Amerikanerin oder Britin akzeptiert. In Deutschland hingegen wird sie oft noch gefragt, woher sie “eigentlich” komme. Nun ist Neugier ja nicht verboten. Aber es sollte klar sein, dass solche Fragen auch signalisieren könnten: “Du gehörst nicht wirklich zu uns.” Wer auf der Straße eine Schwarze quasi automatisch auf Englisch anspricht, will vielleicht höflich sein, zugleich aber schließt er aus, dass eine schwarze Deutsche vor ihm stehen könnte.

(…)

Das darf nicht sein. Wir sollten nicht länger von “wir” und “denen” sprechen. Es gibt ein neues deutsches “Wir”, das ist die Einheit der Verschiedenen. Und dazu gehören Sie genauso selbstverständlich wie ich.”

Que outros alemães sigam o exemplo de tolerância demonstrado pelo presidente Joachim Gauck.


(Publicado em 5 de Julho de 2014)