Mês: outubro 2014

Flores

Ontem pela primeira vez comprei um buquê de flores na Alemanha. Logo percebi que merecia um post. Fomos na floricultura, escolhemos algumas flores, a pessoa da floricultura montou um buquê adicionando umas plantinhas, até aí tudo normal.

A coisa ficou estranha quando foram embrulhar o buquê.

Estava esperando, claro, um buquê com essa cara:

IMG_2667.JPG
Embrulhado em um papel bonito, com um belo laço para segurar as flores, as quais, por sinal, estariam visíveis. Ou seja, um negócio bonito com cara de presente.

Em vez disso, recebi algo assim:

IMG_2668.JPG
Nessa foto é um vaso de flores que esta embrulhado, talvez dê para perceber. No meu caso era um buquê, mas estava embrulhado dessa mesma maneira: num papel qualquer, cobrindo inteiramente as flores. Nesse, o papel ainda estava aberto em cima. No que eu comprei, estava fechadinho, como se eu tivesse comprado um pão e a pessoa da padaria o tivesse embrulhado num papel qualquer. Para ficar pior, só faltava colocar num saquinho de supermercado.

Mas por aqui é assim mesmo que se compra e se dá buquês ou vasinhos de flores. Eles vêm totalmente embrulhados, o presente não é o preparo do buquê, mas as flores que estão dentro, mesmo. Ao receber um buquê de flores, o presenteado abre o papel como se fosse uma surpresinha, e coloca as flores imediatamente na água. O embrulho, realmente, não faz parte do presente, é só para facilitar o transporte.

Bem particular e um tanto decepcionante!


(Publicado em 19 de Outubro de 2014)

 

Pão e sal

Um costume bem interessante aqui na Alemanha é a tradição referente a mudanças para novos lares.

Como no Brasil, quando você se muda para uma casa nova, é comum fazer uma festinha com os amigos ou familiares para comemorar a casa nova. Mas uma coisa diferente e bem interessante é o presente que habitualmente se dá a um amigo ou familiar que se mudou para uma casa nova: pão e sal.

Olli Niemitalo – Wikipedia

Normalmente preparadinhos de uma maneira decorativa, o pão talvez enrolado num pano bonito e o sal em um pequeno recipiente simpático, a combinação pão e sal é uma tradição típica da Alemanha e alguns outros países vizinhos.

E, como toda tradição, o presente não é sem significado. O sal, em tempos passados um condimento muito caro, simboliza a riqueza que você deseja para seu conhecido na nova casa. O pão, um item essencial da cozinha alemã, simboliza os votos de que seu conhecido sempre tenha o suficiente para comer em sua nova casa.

Em tempos passados a combinação de pão e sal era um presente não apenas simbólico mas realmente valioso uma vez que a comida era escassa e os ingredientes, custosos. Hoje, claro, tanto pão quanto sal podem ser adquiridos por poucos euros em qualquer supermercado ou padaria, de maneira que o presente é puramente simbólico. Mas isso dá uma certo valor diferente para o mesmo. Afinal, não sendo caros, fica fácil preparar um presentinho de boas vindas para novos e desconhecidos vizinhos também, facilitando a criação de um relacionamento bom na vizinhança. Quer dizer, a simbologia do presente faz com que você passe uma boa impressão de simpatia ao bater na porta do seu novo vizinho com um pão e um pouco de sal. A tradição existe na Alemanha toda. Fica a dica!


(Publicado em 18 de Outubro de 2014)

 

Achado é roubado, sim!

Uma expressão que não existe correspondência em alemão é o velho “achado não é roubado”. Bem típico da cultura alemã é não tocar em objetos perdidos, exceto para colocá-lo num lugar bem visível. Claro, não exageremos. Se você perder uma nota de 100 euros na rua, é bem pouco provável que ela continue lá por mais do que alguns minutos. Mas objetos diversos sem grande valor – digamos um cachecol, uma luva, um brinquedo – uma vez perdido você tem boas chances de reencontrar voltando para o lugar onde perdeu. Me parece que na nossa cultura (brasileira), quanto menor for o valor do objeto perdido, menor é a culpa para aquele que o encontrar levá-lo para casa. Acredito que a expressão “achado não é roubado” é realmente algo que a gente considera verdade.

Com alemães é realmente diferente. Eles vêem um objeto perdido não como algo sem dono, mas como algo cujo dono pode voltar para procurar.

Não estou dizendo que os alemães são melhores pessoas por isso – como já expliquei, essas “regras” tanto na nossa cultura quanto na deles só vale para objetos de menor valor. Para, por exemplo, um iPhone perdido, acredito que a regra, as decisões envolvidas e a carga de culpa resultante varia não de cultura para cultura mas de pessoa para pessoa. Quer dizer, tanto um brasileiro quanto um alemão, ao encontrar um iPhone na rua, saberá que o dono quer reencontrar o iPhone, tentará reencontrar o iPhone, e vai ficar extremamente decepcionado em perder o iPhone, que também representará um prejuizo financeiro considerável. A decisão de ficar com o celular ou tentar reencontrar o dono vai depender do seu nível de honestidade e empatia individual, não da sua cultural

Já com objetos pequenos eu vejo que é uma questão cultural, mesmo. No Brasil, alguém que encontre um objeto de pouco valor não vai se preocupar com empatia ou honestidade porque entende que a perda do objeto não representa uma grande perda para o dono. E achado não é roubado. Para um alemão, a idéia é ‘se não é meu, eu não toco’, mesmo que tenha poucas chances de alguém voltar e reencontrar o objeto perdido, ou ficar muito chateado com a perda.

Vai, exemplos concretos para ilustrar e divertir.

Num dos meus primeiros momentos de convivência com alemães, estava passeando com um alemão em um parque, e vi, no meio de um gramado, um livro esquecido. Fui buscar o livro e trouxe comentando alguma coisa a respeito do mesmo com o dito rapaz. Era um livro qualquer, algo do tipo “aprenda a pescar”, com cara de que tinha custado uns 2 euros, talvez 3. E uma característica importante: as folhas estavam completamente onduladas, como se, depois de ter sido esquecido no gramado, o livro tivesse tomado uma chuva forte o suficiente pra ensopar as páginas. Era um dia de sol sem uma nuvem no céu. Ou seja, o livro devia estar lá há pelo menos 2 dias.

Eu mostrei o livro para o amigo, e qual não foi a minha surpresa quando, depois de breves comentários a respeito do livro, ele fez questão de devolver o livro exatamente no local onde tinha sido encontrado? Ou melhor, ele o deixou sobre um banco próximo, de maneira bem obviamente visível.

Outro exemplo é uma situação recente que me inspirou para escrever o post: semana passada, passeando novamente em um parque com o mesmo alemão da história anterior, vi sentadinho em um banco de maneira bem obviamente visível um ursinho rosa de pelúcia. Passamos de bicicleta, eu notei o bichinho, e continuamos o nosso caminho para algum outro canto do parque.

Quando chegamos no parque era 10:30. Ao ir embora, às 14:00, me ocorreu de passar lá de novo. O ursinho continuava sentadinho no mesmo local. Até tirei uma foto:

ursinho rosa

E note que era um feriado ensolarado, em um dos últimos dias de relativo calor antes do inverno. Ou seja, o parque tava cheio de famílias com crianças, mas ninguém levou o bichinho.


(Publicado em 9 de Outubro de 2014)

 

Universidades Alemãs: esportes

Eu queria já há um tempo fazer uma série de posts sobre aspectos das universidades alemãs. Mas claro, tudo o que eu posso dizer a respeito de universidades alemãs é baseado na minha experiência com a universidade onde eu estudo – a Universidade Técnica de Dresden.

Uma das coisas que me impressionou logo no início do curso foi a quantidade de esportes oferecidos pela Universidade semestralmente. Aliás, mais que semestralmente. Tem também esportes oferecidos nos dois períodos de férias – durante março, e durante agosto e setembro.

Só para dar um exemplo da variedade, nesse semestre de inverno (os semestres aqui são denominados semestre de inverno – o primeiro semestre, que vai de Outubro até Fevereiro – e semestre de verão – o segundo semestre, que vai de Abril a Julho) tem, entre os esportes mais comuns, também as seguintes opções:

Canoagem, sinuca, frisbee, caminhada, esgrima, equilibrismo (segundo o wikipedia chama Slackline também em português: se equilibrar em cima de uma corda. Eu chamo de equilibrismo), malabarismo (sim, malabarismo), danças diversas (flamenco, salsa, samba, hip hop, dança havaiana, dança do ventre, jazz), todas as ginásticas possíveis, lutas variadas (ju jutsu, jiu jitsu, Kung Fu, Krav Magá, defesa pessoal), esportes de inverno diversos (ski, patinação no gelo), patinação, bicicleta, sauna (?? sei lá o que se aprende num curso de sauna, mas tem), arco e flecha, xadrez, capoeira (!) e até bateria de escola de samba.

Oswald Hicker - Flickr

Oswald Hicker – Flickr

Isso sem falar, claro, nos clássicos futebol, basquete, vôlei, natação…

Ou seja, basicamente qualquer esporte que lhe vier à mente, ou até atividades que muito duvidosamente poderiam ser denominadas esportes (sauna??), dá pra fazer na universidade. Alguns são oferecidos por outras escolas/academias/empresas que oferecem esportes específicos, mas aí numa turma especial para a universidade por um preço bem mais baixo que o normal.

O que nos leva ao próximo assunto: tem que pagar? Sim. Mas é basicamente um valor simbólico. A maioria dos cursos custa apenas 20€. O semestre inteiro. Vale super a pena! Alguns cursos são um pouco mais caros, como canoagem, que custa 40€, e os cursos oferecidos por externos ficam na faixa dos 40, 50€. Mas raramente mais que isso.

Outra coisa muito legal é que os cursos não são restritos aos estudantes da universidade. Cada curso tem três preços: o primeiro, mais baixo, para estudantes, o segundo para funcionários, e o terceiro (normalmente na faixa dos 60€ para cursos que custam 20€ para estudantes) para pessoas sem ligação com a universidade. Alguns poucos cursos não têm essa opção, mas a maioria é aberto para pessoas de fora também.

Mas para se registrar para algum desses cursos tem que ficar atento: tem uma data de matrícula que vale para todos os cursos, mas cada um tem um horário específico em que o cadastro (online) abre. As matrículas para os cursos mais concorridos (os esportes mais comuns, e também alguns mais diferentões que servem a muitos gostos) acabam literalmente em segundos. Tem que ficar pronto no site atualizando até abrirem as inscrições e fazer tudo o mais rápido possível. Semestre passado tentei me inscrever para o curso de canoagem, cliquei no botão de inscrição no exato momento em que ele apareceu, digitei meus dados o mais rápido que pude, e quando cliquei “OK” as vagas já tinham terminado! Foi bem frustrante… mas com os outros cursos que tentei não foi tão extremo (patinação, patinação no gelo, krav magá). Os cursos mais concorridos também têm uma infinidade de vagas (vôlei, basquete, futebol…) em mil horários diferentes.

Bloemmie29 - Flickr

Bloemmie29 – Flickr

E, novamente, estou falando especificamente da TU Dresden… mas suspeito que em outras universidades não seja tão diferente.

Mas se você estudou em universidades brasileiras, você já deve ter notado uma diferença bem básica: os esportes e cursos não são ligados a nenhuma faculdade específica. Ou seja, as faculdades não têm seus times próprios de esportes, e, consequentemente, aquelas competições inter faculdades ou inter universidades também não existem por aqui. (Bom, talvez as faculdades de educação física tenham algo do tipo, já que é mais específico da área. Mas para um aluno regular de outras áreas certamente não tem aqueles eventos famosos “inter…” super típicos e importantes nas universidades brasileiras.


(Publicado em 1˚ de Outubro de 2014)