Mês: novembro 2014

Caminhando pela floresta

Uma diferença que eu percebo entre brasileiros e alemães são os hobbies e atividades de lazer típicas preferidas pelas pessoas. Pelo menos é a minha impressão como alguém que nasceu e cresceu numa metrópole. Em São Paulo, as atividades de lazer típica são ir ao shopping, comer fora, ir a bares e baladas, ir ao cinema, e, bem de vez em quando, a parques. A minha impressão é que a maior diferença é que os alemães preferem atividades ao ar livre. Talvez pelos invernos rigorosos, que os impedem de aproveitar o ar livre por vários meses, nenhuma oportunidade de realizar atividades fora de lugares fechados é desperdiçada.

Entre os hobbies mais comuns estão os churrascos em parques, atividades diversas nos parques das cidades, atividades esportivas como ciclismo, patinação, e, uma das atividades favoritas da maior parte da população alemã: caminhada. Na verdade é difícil achar o termo correto. Em inglês, “hiking” se refere a uma caminhada longa, na natureza, normalmente incluindo subidas e descidas. Já ouvi o termo, em português, “escalaminhada”, uma mistura de escalada com caminhada que talvez se aproxime mais de “hiking”. O Wikipédia traduz como “passeio”, que eu acho que não faz muito sentido.

Então vou usar o termo caminhada.

E os alemães adoram uma caminhada na floresta. Basicamente todos (ainda estou por encontrar uma exceção) os alemães têm tênis especiais de caminhada. Esses assim:

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O uniforme de caminhada inclui também uma boa capa de chuva. Alguns alemães mais entusiastas de caminhadas como esporte terão também aquelas “bengalas”, ou “walking sticks” e “trecking poles” em inglês, não consegui descobrir o termo específico em português.

Um fator que facilita a permanência da caminhada como importante hobbie dos alemães é a lei que determina que todas as florestas devem ser abertas a acesso público. Nenhuma floresta, nem mesmo as privadas, pode ser cercada ou de qualquer maneira fechada ao acesso público. Quer dizer, essa lei não é tanto a causa dos alemães dedicarem tanto tempo a certas atividades, mas consequência. Os alemães, mesmo os de cidades maiores, têm uma relação muito próxima com o uso da floresta para lazer. É tão comum passear pela floresta que eu já vi até uma senhora numa cadeira de rodas motorizada passeando com o cachorro sozinha! 

Essa relação já vem de longa data. Passeando pelas florestas alemãs você logo se lembra de contos de fadas e fábulas clássicas como Chapeuzinho Vermelho e João e Maria. E não por acaso – todas essas histórias famosas são contos tradicionais alemães, registrados de forma escrita pela primeira vez pelos irmãos Grimm no século XVIII. E passear por florestas alemães te lembra tais contos primeiro porque os animais descritos nessas histórias – lobos, veados, raposas, coelhos – são típicos dessa região e volta e meia você vê um desses por aí. E depois porque a simples ação de andar pela floresta já é uma coisa que só funciona em determinadas florestas. Numa floresta tropical, com plantas de todos os tipos nascendo de todos os lados e ocupando todo o espaço, é quase impossível andar tranquilamente sem existir uma trilha. E mesmo quando há, as temperaturas altas, alta umidade e grande presença de mosquitos faz com que o passeio não seja uma caminhada tranquila e confortável (sem querer dizer com isso que passear nas florestas brasileiras não é agradável, muito pelo contrário. Mas é uma experiência completamente diferente).

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Mas nas florestas alemãs há trilhas também. Na verdade, é bem difícil se perder passeando na floresta. As trilhas além de mantidas são marcadas (com símbolos nas árvores). A Alemanha é um país pequeno com uma população enorme, então nenhuma floresta é longe demais de algum lugar habitado, e portanto pelas trilhas você sempre encontra outras pessoas.

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Para descobrir interessantes percursos de caminhada, as seções de viagens de livrarias sempre têm uma variedade de livros e mapas com percursos possíveis para diversas regiões. Você pode escolher passeios que te levem a bonitos panoramas, belos castelos, pequenos vilarejos ou o que lhe interessar mais.

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E não se preocupe se for inverno, para os alemães não é obstáculo (e a floresta fica bem bonita sob neve).

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(Publicado em 26 de Novembro de 2014)

Manda um abraço!

Os alemães levam tudo a sério. Já discuti aqui como se um alemão te oferece alguma coisa você pode aceitar tranquilamente porque não é só por educação. E se vc disser não, eles não vão insistir. Assim como se você oferecer algo, tenha em mente que eles vão se sentir na liberdade de aceitar. Sarcasmo não é uma figura de linguagem comumente empregada por alemães nem em piadas nem em conversas, e se usado em discussões será um tanto ofensivo para os eles.

E uma das coisas que eles levam muito a sério são cumprimentos remotos. Sabe quando vc fala pra alguém “ah, manda um abraço para o fulano!”? Eles mandam. Mesmo.

Essa diferença você percebe bem rápido ao conhecer alemães, quando começa a receber cumprimentos remotos dos familiares ou amigos de amigos que te conhecem. Uma coisa bem comum, por exemplo, é, após um telefonema do meu namorado com alguém da sua família, ele vir me dizer que o tio/tia/pai/mãe/primo/irmã/avó me mandou um abraço. Tá, com telefonemas não é tão estranho, porque você está ali do lado quando a pessoa te manda o abraço, então está fácil para o “entregador” do abraço remoto lembrar de te avisar que a outra pessoa pensou em você. Mas eles levam a sério mesmo. Ontem encontrei uma amiga para um café, é bem no final, quando estávamos nos despedindo, ela falou: “ah, já estava esquecendo! O Andreas [namorado dela, também meu amigo] te mandou um abraço! Ah, e fala pro seu namorado que eu mandei um abraço pra ele também!”. E ela falou de um jeito tão sério que deixou bem claro que era realmente importante, para ela, lembrar de me dizer que o Andreas lembrou de me mandar um abraço.

Claro que eu não lembrei de repassar o abraço para o meu namorado como ela pediu, porque para mim lembrar de mandar um abraço para alguém da família do seu amigo é algo que vc faz não para que esse familiar saiba que vc lembrou dele, mas para que o seu amigo saiba que vc lembrou das pessoas que lhe são importantes. Pra gente, no Brasil (me corrijam se discordarem), o importante do cumprimento remoto é mostrar para o seu interlocutor que você lembra dos nomes das pessoas importantes para ele, das pessoas com quem ele vive, e tal. Certo que em algumas situações vc lembra sim de repassar o abraço – digamos por exemplo se você encontrar alguém que você não vê há um tempo e a pessoa manda um abraço pro seu marido. Aí a noite você encontra seu marido e comenta “ah, eu encontrei o fulano, hoje, imagina!” “Puxa, sério? Que legal, como ele tá?” “Tá ótimo, te mandou um abraço!”. Mas para pessoas que você encontra regularmente, jamais lhe ocorreria de lembrar de comentar que a pessoa mandou um abraço. E os alemães fazem questão não apenas de repassar os tais abraços, como de lembrar de mandá-los em basicamente todas as situações.

E depois que você percebe isso, uma dúvida cruel segue: será que eles te acham super antipático se você não mandar um abraço? Ou se você não repassar o abraço enviado por outro, corre o risco de fazer com que este seja falsamente acusado de antipático por ter esquecido de mandar um abraço, quando na verdade foi você que esqueceu de repassar?

Não tenho certeza da resposta. Na dúvida, o mais seguro é sempre lembrar de mandar e repassar abraços (eu ainda não me acostumei).

E, aliás, uma observação. Na verdade em alemão não é abraço que se manda, mas um cumprimento, mesmo. Em alemão se diz, por exemplo, “Grüß den Andreas von mir!”, ou “Cumprimente o Andreas por mim!”. Claro, eles não mandariam abraços, é íntimo demais, né? E cumprimentos remotos eles mandam realmente pra todo mundo, lembro de receber cumprimentos remotos de familiares do meu namorado antes mesmo de conhecê-los pessoalmente…


(Publicado em 21 de Novembro de 2014)

 

A pirâmide social alemã

Um tópico sugerido por uma amiga que eu achei interessante para discutir aqui é sobre os empregos que não exigem qualificação acadêmica. Eu já escrevi, bem no começo do blog, sobre empregos que não existem na Alemanha. Em um país onde a desigualdade é uma das mais baixas do mundo (12˚ lugar de acordo com o índice de GINI que mede a desigualdade dos países), empregos com baixos salários e que não exigem alta qualificação são bem menos numerosos. Um texto muito interessante (e já extensivamente compartilhado em redes sociais) sobre o assunto da desigualdade nos países europeus é esse, escrito por um brasileiro que mora em Amsterdam.

Mas vamos ao assunto. Quem faz os trabalhos com menores salários, na Alemanha?

Vários empregos são ocupados majoritariamente por estrangeiros. Peões de obra, por exemplo, especialmente na ex-Alemanha Oriental, são em sua grande maioria poloneses. Na Alemanha Ocidental, turcos. Outras ocupações empregam esses mesmos grupos, como lixeiros e trabalhadores rurais.

Já para ocupações relacionadas a atendimento – caixa de supermercado, atendentes em padarias, garçons em restaurantes – que para a gente no Brasil estaria no mesmo patamar de salário dos peões de obra, a situação é um tanto diferente. Em cidades como Dresden, com poucos estrangeiros (em relação ao resto da Alemanha), mas em que mesmo assim as obras são realizadas em peso por poloneses, os empregos de atendimento são ocupados principalmente por alemães.

Mas entre esses empregos também há uma diferença: enquanto, por exemplo, atendendo em uma padaria ou dirigindo um ônibus você vai encontrar alemães de diferentes idades, garços e garçonetes de restaurantes e cafés são na maioria jovens de menos de 30 anos.

Essa breve descrição mostra então três “níveis” de empregos de baixa-qualificação, e que, no Brasil, estão mais ou menos na mesma linha: Trabalhos pesados braçais, ocupados por estrangeiros; garçons e garçonetes, ocupados por jovens alemães e outros empregos gerais de baixa qualificação, ocupados por alemães em geral.

Por que a diferença?

Acontece que por aqui, mesmo um emprego que exige baixa-qualificação é razoavelmente bem pago. Esse ano mesmo o governo alemão aprovou o salário mínimo de 8,50 euros por hora, o que corresponde a aproximadamente 1360,00 euros por mês em um trabalho de período integral. 1360 euros, como você pode imaginar, é dinheiro suficiente para uma vida decente por aqui. Somando ainda extras que você recebe do governo alemão, por exemplo, se tiver filhos, um emprego em período integral que pague o salário mínimo é suficiente para morar num lugar bom, sustentar os filhos, opções de lazer, compras necessárias e algumas desnecessárias, e assim vai. Vejo esse salário mínimo não como “o mínimo salário que alguém pode pagar”, mas como “o mínimo salário que alguém pode receber”. Por isso esses empregos gerais são ocupados por alemães diversos de várias idades. Para quem escolhe não continuar a educação em uma instituição de ensino superior (leia aqui como funciona o sistema educacional alemão), as opções são suficientes e proporcionam vidas dignas.

A diferença dos garçons e garçonetes é que não são empregos vistos como duradouros, digamos assim, não são vistos como profissões. A maioria desses cargos são ocupados por estudantes universitários aproveitando as horas livres para ganhar um dinheiro extra durante os estudos. Essas ocupações são no geral mais flexíveis e pagam por hora.

E, finalmente, na base da pirâmide social, empregos braçais. Esses, sim, são última alternativa. Além dos malefícios para a saúde que essas profissões causam a longo prazo, empregos como trabalhador rural e trabalhador em canteiro de obras são por temporada: não existem no inverno. Os imigrantes que ocupam esses cargos são normalmente pagos salários bem abaixo daqueles que recebem os alemães (mesmo alemães exercendo a mesma função), mesmo trabalhando aqui legalmente. 3 ou 4 euros por hora, são porém salários mais altos que receberiam nos seus países de origem (mesmo no caso da Polônia, ainda sendo um país vizinho), e por isso continuam atrativos. Mas, para os alemães, tais empregos com piores conseqüências para o corpo e a saúde, são de fato última alternativa.

(Ironicamente, na Suiça os alemães é que são a mão-de-obra barata)

Vale ainda fazer uma pequena observação a respeito de estrangeiros na Alemanha. Embora os empregos menos desejados por alemães sejam ocupados majoritariamente por estrangeiros, não significa que a maioria dos estrangeiros ocupem tais empregos por aqui. Na verdade, de acordo com uma pesquisa recente, a população de origem não-alemã, na Alemanha, é em média mais qualificada que a população alemã. O que também não significa que tendo um doutorado você tem entrada livre no mercado de trabalho alemão, muito pelo contrário. Já escrevi um pouco sobre a aceitação dos alemães aos imigrantes aqui, mas para resumir: a língua é uma barreira difícil de transpor, e a “desconfiança” dos alemães por profissionais estrangeiros é, infelizmente, ainda bem alta.


(Publicado em 7 de Novembro de 2014)