Mês: janeiro 2015

Pãezinhos

Em um antigo post sobre comidas alemãs eu falei um pouco sobre o café-da-manhã típico daqui, que inclui pãezinhos de todos os tipos. Resolvi então escrever um post só sobre os variados pãezinhos.

Se você for daqueles que não consegue começar o dia sem antes comer um delicioso pão francês, não se preocupe. Por aqui eles também são comuns. Aliás, são inclusive o tipo default de pãozinho, aquele que você sempre encontra nas padarias, embora não sejam necessariamente os mais comprados. Se você ficar na casa de um alemão, talvez ele não pense em comprar os pãezinhos franceses que você tanto gosta. Mas se você mesmo for à padaria, certamente os encontrará. Só que não chama pão francês, claro. Eu costumo encontrar pelo nome de Klein Brötchen – pãozinho pequeno – mas se você disser só Brötchen (pãozinho) ou Normales Brötchen (pãozinho normal), todo mundo vai entender que você está falando do pão francês. Aliás, com os nomes é meio complicado porque com freqüência o mesmo tipo de pãozinho tem nomes diferentes em diferentes padarias, e especialmente em diferentes partes da Alemanha.

Mas claro que eu não vim escrever um post sobre pão francês, mas sobre os outros variados tipos. Então lá vai:

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Começando pelos pães brancos, temos o Doppelbrötchen.

Doppelbrötchen

Doppelbrötchen

Aqui no leste esse tipo é bem comum. Eu não entendo muito o objetivo do Doppelbrötchen. É tipo um pãozinho francês normal grudado em outro. Na hora de assar eles colocam dois a dois do ladinho de maneira que eles ficam grudados. Mas o porquê grudar dois pãezinhos é uma coisa que eu ainda não descobri. Essa versão da foto é bem grande, aliás, normalmente eles são um pouco menores.

Também branco é o Kaiserbrötchen, esse daqui:

Kaiserbrötchen

Kaiserbrötchen

Também não muito diferente do pão francês exceto pelo formato redondo.

Parecido com o Kaiserbrötchen é o Laugenbrötchen:

Laugenbrötchen

Laugenbrötchen

Lauge significa água com sal, que é basicamente como esse pãozinho é feito. É a mesma massa do Kaiserbrötchen, só que antes de assar eles molham a pãozinho em água com sal. Então, ao assar, ele fica assim escurinho e mais salgado que um pãozinho normal. Meio como um Pretzel (que aliás também merece um post porque não tem nada a ver com os pretzels que as vezes vende no Brasil, e aliás, nem chama Pretzel, mas Bretzel, com B).

Agora começa os que tem 10 nomes possíveis diferentes…

Esse aqui é às vezes chamado de Kartoffelbrötchen, ou pãozinho de batata

Kartoffelbrötchen

Kartoffelbrötchen

Mas ele não é feito de batata. O nome vai ver é porque ele parece uma batata? Mas ele não parece uma batata. Sei lá. Tem desse branco (com outro nome) e mais escuro como o da foto. A diferença é, claro, o branco é feito com farinha de trigo enquanto o escuro com outros cereais, mas a diferença deles para os pães normal é que eles incluem um processo sei lá qual que envolve umas bactérias X. Puxa, acho que eu não sou a pessoa mais indicada pra escrever esse post dos pães.

O próximo é o Kurbiskernbrötchen:

Kürbiskernbrötchen

Kürbiskernbrötchen

Kürbis é abóbora, Kern é semente, então, como o nome e a foto indicam, esse é o pãozinho com sementes de abóbora. A massa, como de todos os outros pãezinhos exceto os brancos básicos, é de uma mistura de cereais além de trigo, então é sempre um pãozinho mais escuro por dentro. Esse tipo com as sementes de abóbora é bem comum.

A questão também com os nomes é que os alemães são bem criativos com pãezinhos, eles inventam mil misturas de sementes e cereais e formatos possíveis para fazer seus diferentes pãezinhos. Então fica difícil saber o nome de todos eles porque basicamente eles nomeiam de acordo com o que tem no pãozinho, né. Esse aqui eu vi pelo nome de Dinkelbrötchen:

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Dinkelbrötchen

Tipo um pãozinho francês com gergilim, uma farinha por cima, e a massa é não só de trigo mas de espelta (pergunta pro Google).

Esse outro também com gergilim por cima chama-se Körnerdreieck, ou triângulo de cereais.

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Körnerdreieck

E aqui mais dois que eu não tenho idéia de como chamam. Esse primeiro, que eu vou carinhosamente batizar de Brötchen X, tem grãos ralados por cima.

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E esse daqui, o muito famoso Brötchen Y, me parece um Bagel com gergilim e sementes de papoula (outro ingrediente bem comum em padarias):

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Um favorito das crianças (e meu) é o Schokobrötchen, que pode vir em vários formatos diferentes, mas é sempre um pão fofo branco (não salgado e não crocante) com pedacinhos de chocolate:

Schokobrötchen

Schokobrötchen

Nham. Tem também o Rosinenbrötchen, que é como o Schokobrötchen só que com uvas passas ao invés de pedaços de chocolate. Mas esse eu não comprei pra fotografar, porque, cá entre nós, quem iria querer comer um pãozinho com pedaços de uva passa, quando se pode comer um com pedaços de chocolate?

Aqui são só alguns pequenos exemplos do que eu achei numa única padaria num único dia, pra dar uma idéia. Mas, realmente, a variedade de pãezinhos diferentes por aqui tende ao infinito.

A única coisa ruim dos pãezinhos daqui, é que é muito raro você comprar pãezinhos recém-saídos do forno, quentinhos e tal. Nossa, só de escrever essa frase já me deu água na boca. Mas realmente, é raríssimo eles virem quentinhos porque por aqui está ficando cada vez menos comum que a padaria onde você compra os pães asse os mesmos. Normalmente eles são feitos em padarias industriais grandonas, em enormes quantidades, e distribuídos pelas padarias da cidade de manhãzinha. Então quando você compra seu pãozinho, ele saiu do forno, foi separado, colocado num caminhão, distribuído na sua padaria e só então vendido. =/ Mé. Mas eles não são menos gostosos por isso, não, só não vêm quentinhos.

E uma coisa que é importante de mencionar, se falamos de pãozinho, é que aqui só se come pão em tábua de madeira, como nas fotos. Nunca, jamais, em prato. Se você estiver na casa do seu amigo alemão e ele pedir pra você colocar a mesa enquanto ele faz o café, e você colocar pratos ao invés das tábuas, pode ter certeza que seu amigo vai te olhar como se você fosse um alien. Jamais passou pela cabeça dos alemães comer pão em um prato. Vai entender.


(Publicado em 31 de Janeiro de 2015)

 

Pegida parte 2: Uma resposta de Dresden

Antes de ler esse post, leia a primeira parte aqui para entender do que se trata.

Ah, a Alemanha. Às vezes tem que se admirar. Se por um lado volta e meia aparecem manifestações racistas, xenófobas e neo-nazis, as respostas que você vê pela cidade são simplesmente tocantes. No post anterior eu comentei, em uma das fotos, o grande cartaz no Zwinger – o museu mais importante de Dresden, que dizia “A coleção de arte estadual de Dresden – 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação.”, em uma clara resposta à xenofobia do Pegida. Algumas outras discretas manifestações pela cidade deixam claro a posição da maioria – por exemplo uma loja que vende roupas fair-trade importadas de países de terceiro-mundo com um cartaz dizendo algo como “Nós também defendemos uma Dresden colorida e multicultural” entre outros detalhes assim por aí. Essa descrição, “Dresden colorida”, está sendo frequentemente usada por quem se manifesta contra a xenofobia, se referindo às diferentes cores e etnias de uma cidade multi-cultural.

No último 13 de fevereiro, durante a bagunça das manifestações nazistas e anti-nazistas, o cartaz gigante no teatro municipal com uma citação de Erich Kästner, “De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram.”, em um claro apoio aos bloqueios à marcha dos neo-nazis.

Se por um lado essas manifestações racistas, xenófobas e anti-democráticas da extrema-direita são chocantes, assustadoras e deprimentes, por outro as respostas criativas e bem-humoradas do resto da sociedade são tocantes e emocionantes.

Uma dessas respostas aconteceu ontem, 26.01, em Dresden. Um evento organizado por artistas de Dresden sob o nome “Offen und Bunt – Dresden für alle” (Aberta e colorida – Dresden para todos), reuniu diversos artistas e pessoas famosas da Alemanha – tanto alemães quanto imigrantes – em um enorme show aberto no centro histórico da cidade, pela tolerância e por um “mundo aberto” (Weltoffenheit é o termo em alemão, não tem uma tradução precisa, mas significaria um mundo sem fronteiras, sem muros).

Entre as performances – músicas com o tema tolerância, e algumas especificamente a respeito do Pegida – algumas pessoas famosas ou nem tanto davam declarações contra a xenofobia e pelo multi-culturalismo. Uma das falas mais tocantes foi de uma refugiada da Síria convidada, que disse, em seu breve discurso, uma frase que sintetiza bastante a questão: Eu acho legal que eles [o Pegida] perguntem porque nós [refugiados] estamos aqui. Mas eles estão perguntando para as pessoas erradas. Eles estão perguntando para a gente, porque estamos aqui, mas deveriam perguntar para o seu governo [o governo alemão], porque estamos aqui. E o seu governo deveria responder honestamente. Que estamos aqui porque eles vendem armas para governos ditatoriais de outros países. [a Alemanha é o sexto país que mais exporta armamentos]” (tradução livre de memória).

Outras declarações desse gênero, criticando o Pegida, criticando a xenofobia, e elogiando uma cidade multi-cultural e aberta completaram a noite.

E não foi um evento pequeno. Além da Neumarkt (a praça na frente igreja símbolo da cidade) lotada de pessoas (os organizadores estimaram 25.000), holofotes coloridos iluminavam o skyline da cidade em diferentes cores vibrantes, criando um cenário impressionante, e, pelo seu significado – a cidade colorida, multicultural –, profundamente comovente.

Veja aqui uma foto panorâmica de 360˚ da Neumarkt lotada de pessoas.

Algumas fotos oficiais da imprensa:

© DPA

© DPA

Michael Schmidt

Michael Schmidt

Algumas fotos minhas do skyline colorido da cidade:

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(Publicado em 27 de Janeiro de 2015)

Pegida: o movimento islamofóbico da Alemanha

Estou enrolando há um tempo para escrever esse post porque o assunto é chato. Mas como percebi que algumas pessoas têm visitado o blog procurando informações sobre as recentes manifestações islamofóbicas em Dresden – conhecidas pelo nome de Pegida – está na hora de escrever sobre o assunto.

“Pegida” é abreviação de Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes, ou “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”. Segundo os organizadores, a Pegida não é islamofóbica nem xenófoba, e a intenção é só se manifestar contra o radicalismo islâmico. Mas não é tão simples assim, infelizmente. Aqui, devido à história alemã, ninguém que não seja xenófobo e de extrema-direita se auto-denomina “patriota” ou “nacionalista”. A idéia de nacionalismo aqui ainda está diretamente ligada ao passado nazista do país. E além disso, islamofobia é uma coisa séria por aqui. Há uma grande quantidade de imigrantes de países árabes, e a integração desses (e dos outros imigrantes tb, mas principalmente dos muçulmanos) por aqui é muito difícil, pela cultura e religião diferentes e o preconceito dos europeus com muçulmanos. Então uma manifestação patriota contra a “islamização do ocidente”, aqui, é muito mais que uma manifestação contra religiosos radicais, mas uma manifestação efetivamente xenófoba. Direcionada principalmente aos imigrantes e refugiados muçulmanos, mas é óbvio que ódio não tem um limite claro de onde termina. De maneira que o Pegida junta dezenas de neonazis, xenófobos, racistas, e todo tipo de ódio.

Fundado em Dresden em Outubro de 2014, o Pegida começou a fazer manifestações semanais, toda segunda feira, e aos poucos foi juntando MUITA gente. A penúltima manifestação deles, dia 12 de Janeiro, juntou 25.000 pessoas. E claro, não ficou só em Dresden, o movimento foi se expandindo para outras cidades, também. Só que nas outras cidades, as manifestações contrárias ao Pegida foram bem maiores.

O mapa mostra o número máximo de pessoas que compareceram a uma manifestação do Pegida (em laranja) ou contra o Pegida (em azul) pela Alemanha. Dresden, onde foi fundado o movimento, é também a única cidade em que ele tem alguma força.

O mapa mostra o número máximo de pessoas que compareceram a uma manifestação do Pegida (em laranja) ou contra o Pegida (em azul) pela Alemanha. Dresden, onde foi fundado o movimento, é também a única cidade em que ele tem alguma força.

Como a maioria dos alemães é bem consciente da história e do perigo da extrema-direita, sempre que acontece alguma manifestação de alguma maneira ligada aos neo-nazistas, junta muita gente para bloqueá-los, como é o que acontece em 13 de fevereiro em Dresden.

Na segunda feira dia 05.01, vários monumentos e edifícios importantes ao redor da Alemanha, como a Catedral de Colônia, desligaram sua iluminação externa para mostrar que não apoiavam o Pegida.

No sábado dia 10.01, uma manifestação em Dresden pela tolerância e respeito, juntou mais de 35.000 pessoas. Em uma atitude que eu achei muito correta, o reitor da Universidade Técnica de Dresden convidou, por email, todos os alunos e professores da universidade para participarem da manifestação e mostrar para o mundo que o Pegida não representa Dresden.

Até a chanceler Angela Merkel, em seu discurso de ano novo, se manifestou conta o preconceito religioso e o racismo, e declarou seu apoio à tolerância.

Para complicar a história toda, um refugiado da Eritreia, um rapaz negro de 20 anos de idade, Khaled Idris Bahray, foi assassinado a facadas na frente do seu prédio, na noite de 12 pra 13 de Janeiro, logo após uma manifestação do Pegida. O contexto do assassinato indicou o provável motivo racista. Os colegas de apartamento, também refugiados da Eritreia, relataram hostilidade dos outros moradores do prédio, inclusive a pixação de uma suástica na porta de seu apartamento 3 dias antes do assassinato, seguida dos dizeres “nós vamos pegar vocês todos.” E porque a história já não era ruim o suficiente, a polícia saxônica, ao encontrar o corpo ensangüentado do rapaz, não classificou a morte como assassinato, declarando que “não havia sinais de crime”. A polícia saxônica é conhecida por declarações e ações polêmicas e problemáticas.

Enquanto um político do partido verde entrou com um processo contra a polícia pela demora em considerar a morte como assassinato, perdendo a oportunidade de colher provas nas primeiras 30h após a morte, grupos de apoio a refugiados e imigrantes organizaram uma demonstração no sábado 17.01 em memória a Khaled e pela segurança e proteção à refugiados, que juntou tanto imigrantes quanto alemães.

Porém na semana seguinte, a polícia prendeu um suspeito pelo assassinato, um colega de apartamento de Khaled, também da Eritreia. O racismo da polícia e as polêmicas envolvendo investigações relacionadas a refugiados resulta, ainda, em muito ceticismo em relação às investigações da morte de Khaled. Para muitos, os verdadeiros fatos por trás do assassinato ainda continuam sendo uma incógnita. (O vídeo abaixo, filmado em uma manifestação de neo-nazistas em Dresden, em fevereiro de 2011, mostra um grupo de neo-nazis atacando um edifício onde moram refugiados, com pedras e xingamentos racistas. No fim da rua, dois carros de polícia parados assistem a agressão sem fazer nada a respeito).

Mas independente da polêmica sobre o assassinato de Khaled, as manifestações do Pegida e contra o Pegida continuam acontecendo.

Para segunda-feira 19.01, A organização Dresden Nazifrei havia organizado uma enorme manifestação anti-Pegida com várias frentes. Mas no domingo à noite, o Pegida cancelou sua manifestação para o dia seguinte, e a polícia de Dresden subsequentemente proibiu qualquer concentração de pessoas ao ar livre para o dia 19.01, uma medida inédita na democracia alemã. O motivo divulgado foi que um dos organizadores do Pegida teria recebido ameaças de um grupo extremista islâmico, que a polícia considerou reais e perigosas o suficiente para proibir manifestações naquele dia. Mas nada foi esclarecido ou provado a respeito para o público. No dia seguinte, um dos principais líderes fundadores do Pegida, Lutz Bachmann, se afastou do movimento após a publicação em um jornal de Dresden de uma foto sua com um bigode e corte de cabelo remetendo a Adolf Hitler. Além da foto, postada na sua página do facebook algumas semanas antes do início da Pegida, prints de um grupo fechado do facebook com declarações racistas e xenófobas de Bachmann também foram divulgados. O grupo foi deletado poucos momentos após a divulgação.

Na semana seguinte, o Pegida reagendou sua manifestação para domingo (hoje, 25.01) ao invés de segunda. Ao invés de marchar, o movimento realizou uma manifestação estacionária na Theaterplatz que juntou, segundo a polícia, aproximadamente 17.000 pessoas. Atrás do bloqueio policial, a manifestação contrária juntou 5.000 pessoas. As diversas organizações e pessoas se unindo contra o Pegida em Dresden e ao redor da Alemanha têm se manifestado mais recentmente com símbolos relacionados a limpeza: vassouras, escovas de privada, batas laranja e amarelas usadas pelos garis daqui, entre outros objetos com a idéia de limpar a cidade do racismo, da xenofobia e do nazismo.

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Manifestantes usando batas laranja e amarelas que os garis usam e carregando vassouras e espanadores para limpar a cidade da xenofobia e do racismo.

Manifestação do Pegida de 25 de Janeiro. A grande concentração de bandeiras alemãs deixa clara a intenção nacionalista e de extrema-direita do Pegida. Ao fundo, na fachada do museu Zwinger, uma clara declaração anti-xenofobia: "A coleção de arte estadual de Dresden - 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação."

Manifestação do Pegida de 25 de Janeiro. A grande concentração de bandeiras alemãs deixa clara a intenção nacionalista e de extrema-direita do Pegida. Ao fundo, na fachada do museu Zwinger, uma clara declaração anti-xenofobia: “A coleção de arte estadual de Dresden – 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação.”

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Ao fundo, a manifestação do Pegida. Na frente, atrás do bloqueio policial, parte da manifestação anti-Pegida.

E essa é a história do Pegida até esse momento. Como essas manifestações vão se desenrolar – se perderão a força ou crescerão – veremos nas próximas semanas ou meses, e especialmente a influência que o Pegida terá sobre as manifestações anuais neo-nazistas que ocorrem em Dresden em 13 de Fevereiro. A ironia disso tudo é que a cidade em que o Pegida – o movimento contra a islamização e tal – foi fundado e tem alguma força, Dresden, tem uma população de muçulmanos de aproximadamente 0,1%. Que ameaça!

Edição: Leia aqui uma continuação desse post!


(Publicado em 25 de Janeiro de 2015)

Trens alemães

OBS: Caso queira saber exatamente como comprar um bilhete de trem, passo a passo, e como viajar com ele, leia esse post e esse daqui, que explicam tudo nos mínimos detalhes!

O transporte sobre trilhos é um dos principais e mais tradicionais meios de transporte na Alemanha. Para ter uma idéia, a Alemanha é o sexto país com mais ferrovias, 41.981km, perdendo apenas para Canadá, Índia, China, Rússia e Estados Unidos, países infinitamente maiores em área que a Alemanha. Em relação à área, a Alemanha é provavelmente o país com mais quilômetros de ferrovias por km².

Todas as conexões de trem na Alemanha. Em Vermelho, conexões de ICE, em azul, conexões de IC, e em cinza, conexões de trens regionais e outros. Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png: Qualle derivative work: YouthOfSword (talk) - Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png - Wikipedia

Todas as conexões de trem na Alemanha. Em Vermelho, conexões de ICE, em azul, conexões de IC, e em cinza, conexões de trens regionais e outros.
Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png: Qualle derivative work: YouthOfSword (talk) – Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png – Wikipedia

Viajar de trem na Alemanha é portanto comum – mas não é barato. Para encontrar a opção mais econômica, é bom ter uma noção das possibilidades que a Deutsche Bahn – a companhia ferroviária alemã – oferece. A começar pelos tipos de trem. Primeiro uma definição simples: normalmente na estação você vê trens brancos e trens vermelhos. Os brancos são os trens de longa distância, e os vermelhos, os de curta distância.

ICE – Intercity Express

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“ICE3 Cologne” by Heinz Albers, http://www.heinzalbers.org–%5B%5BUser:Heinz Albers|Heinz Albers]] – Wikipedia

O ICE é a opção mais rápida, e também a mais cara. Os ICEs fazem as conexões entre as principais cidades com poucas paradas pelo caminho. São os trens mais modernos e rápidos da Alemanha, podendo atingir 320km/h!  Porém, embora os trens tenham essa capacidade, poucas linhas têm. Na maior parte das linhas existentes, os trens têm que correr abaixo da velocidade máxima que são capazes. Os motivos são questões técnicas dos trilhos e do traçado da linha. É mais fácil, claro, desenvolver e produzir trens mais rápidos que retraçar e consequentemente reconstruir todas as linhas com curvas mais suaves para comportar as velocidades mais altas. Então o trem já tem a capacidade, mas as linhas vão sendo renovadas aos poucos.

O mapa abaixo mostra as linhas por onde os ICEs viajam e as velocidades permitidas de acordo com a legenda de cores.

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Rede dos ICEs. Linhas em vermelho: 300km/h, linhas em amarelo: 250 a 280 km/h, e linhas em azul: 200 a 230 km/h. Todas as outras (cinza): máximo de 160km/h.

Mas mesmo a 150km/h eles são trens super modernos e confortáveis. Achar espaço para a bagagem às vezes é um desafio se suas malas forem muito grandes, mas aqui e ali tem alguns bagageiros. Tem sempre também um vagão restaurante, e algum funcionário que passa pelos vagões oferecendo café ou outras bebidas para os passageiros. A única coisa que falta mesmo, e já está bem atrasada, é wifi grátis (Atualização em Maio de 2018: desde 2017 os ICEs agora todos têm Wi-Fi grátis! Demorou… agora falta o mesmo para os ICs…). Mas pelo menos tem tomada ao lado dos assentos, normalmente uma para cada dois assentos, no meio dos dois.

Vagão restaurante de um ICE

Vagão restaurante de um ICE

“Interior of 2nd class carriage of ICE 3 train” by Maxim75 – Wikipedia

Outra coisa legal dos ICEs é que para todas as viagens eles deixam, nas mesinhas ou nos assentos, um plano do percurso que mostra todas as cidades em que o trem para, o horário de chegada e de saída e as conexões a partir de cada cidade. Bem útil e interessante.

Reise Plan

IC – InterCity

“Leipzig IC” by ArtVandelay13 – Wikipedia

Menos modernos que os ICEs, os ICs também fazem conexões longas, mas com mais paradas pelo caminho. Eles são um pouco menos confortáveis que os ICEs, mas mais espaçosos (tem bagageiros para malas maiores em todos os vagões, e mesmo no bagageiros sobre os acentos cabem bagagens maiores). Ele é mais lento que os ICEs, e o problema é que nem sempre têm vagão restaurante no trem. Provavelmente tem na maioria das vezes, mas eu já fiz uma viagem de 8h em um IC sem restaurante, achei meio insano. (Atualização de Maio de 2018: tem trens ICs novos desde o ano passado, e eles são tão modernos quanto os ICEs, e com dois andares. Eles não têm vagão restaurante, mas tem alguém que passa oferecendo café, com quem você pode também comprar algumas coisas para comer.)

“DB Bpmz interior” by ArtVandelay13 – Own work – Wikipedia

Tanto o IC quanto o ICE têm assentos marcados, mas para reservar um assento específico é preciso pagar extra (4,50 euros por assento por trecho). Vale a pena reservar especialmente em alta-temporada ou em conexões com grande fluxo de passageiros (por exemplo Colônia-Frankfurt) para não correr o risco de ficar de pé. Sobre o assento, onde tem a indicação do número, vai aparecer ou eletronicamente (no ICE) ou um papelzinho (no IC) que diz que aquele assento está reservado da cidade x até a cidade y. Desta maneira, se você não tiver reservado um assento, saberá se aquele assento vazio está reservado para alguém ou se você pode sentar lá tranquilamente. (Na verdade, se vc estiver na Alemanha só como turista, eu recomendo reservar assento: aí você sabe que entrou no vagão certo e não num que vai para outra cidade (explico isso mais pra frente no post), e é sempre meio complicadinho entender o que está escrito nos visores que dizem se o assento está reservado ou não, e às vezes eles estão inconvenientemente desligados, awawawa mor complicado. Melhor reservar e ter seu assento ali esperandinho. E não fique constrangido, caso alguém esteja sentado no seu lugar quando vc chegar, em falar que vc reservou aquele assento. Já me aconteceu muitas vezes de ter alguém sentado no lugar que eu reservei, eu falo sem cerimônia que reservei ali e a pessoa normalmente levanta sem cerimônia.)

E se você tiver um assento reservado, antes de embarcar procure na estação a informação sobre a posição dos vagões do trem. Assim você poderá entrar no trem direto pelo seu vagão, e evitar ter que carregar suas malas ao longo de todo o trem até achar o seu lugar. O “mapa” da localização dos vagões fica em uns pôsteres ao longo da plataforma, assim:

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O desenhinho do trem mostra a localização de cada vagão (números), e na primeira linha e última linhas, em cima/embaixo de todos os desenhos de trens, aparece a localização na plataforma (letras). Na foto acima, por exemplo, o último vagão do trem EN477 das 21:07 (o último, lá embaixo) está na área B da plataforma. Você acha esse trecho da plataforma procurando umas grandes placas azuis com as letras correspondentes:

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E para saber em qual vagão você está? No seu bilhete, as informações do seu trem serão mostradas dessa forma:

reservierung

Produkte indica o tipo e o número do trem, nesse caso, IC1952. Em Reservierung você verá o número do vagão (Wg. 9, aqui), o(s) número(s) do(s) assento(s) (Pl. 95 96, aqui), e a indicação de que tipo de assento é (2 Fensters = 2 janelas; Tisch = na mesa). Finalmente, algumas informações extras sobre aquele vagão. Aqui, por exemplo, diz Nichtraucher, o que significa que é um vagão para não-fumantes (embora seja uma informação meio desnecessária já que não tem nenhum vagão para fumantes em trem nenhum). Outra informação que aparece às vezes é “Handy“, indicando que é permitido falar no celular naquele vagão.

RE e RB – Regional Express e Regional Bahn

Os trens regionais fazem conexões mais curtas, normalmente dentro de um mesmo estado, ou no máximo até o estado vizinho. Tem mais de um tipo de trem entre os trens regionais, mas normalmente esses são os mais comuns.

Trens regionais, ou aliás qualquer trem sem ser o ICE ou o IC, não têm vagão restaurante nem assentos marcados. Normalmente você compra um bilhete que não diz dia nem horário, e carimba na estação antes de entrar no trem.

A diferença entre um RE e um RB é que o RE, expresso, pára em menos estações, enquanto o RB pára basicamente em todas as estações pelo caminho.

S-Bahn

Os S-Bahns são trens locais ou metropolitanos, que conectam algumas cidades maiores às cidades ou vilarejos vizinhos, parando em todas as estações por qual passa. São um meio termo entre trem regional e metrô, basicamente.

Os mais comuns são esses trens simpáticos com dois andares:IMG_9755

U-Bahn e Straßenbahn (ou Tram)

U-Bahn e Straßenbahn são trens municipais. U-Bahn é como chama o metrô por aqui, e Straßenbahn, ou tram, são os bondes de rua, ou VLT. Eles são diferentes de cidade pra cidade.

Além desses tipos básicos, em alguns locais você vai encontrar alguns trens diferentes pertencentes a outras companhias que não a Deutsche Bahn. Normalmente eles fazem ligações regionais específicas, e funcionam como um trem regional. Nas estações de trem alemãs você poderá ainda encontrar outros trens diferentes vindos de outros países da europa, que são os correspondentes ao ICE ou IC dos seus países de origem.

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Uma coisa que convém saber sobre trens por aqui – que pode gerar confusão para quem não está acostumado a viajar de trem – é que alguns trens se dividem em dois. Eles começam juntos numa cidade, e em alguma outra cidade no caminho parte do trem é desconectada da outra e cada um continua seu próprio percurso. Então é bom prestar bastante atenção no que diz o seu bilhete e o que diz no visor do trem (lateral próximo às portas nos ICEs e ICs, e frontal, como em ônibus, nos trens regionais) e nas placas informativas na plataforma. Na dúvida, pergunte.

Exemplo de placa informativa na plataforma. Esta está indicando um trem que está para chegar (Ankunft = chegada) às 12:51, vindo de Zwickau.

Exemplo de placa informativa na plataforma. Esta está indicando um trem (RB 17221) que está para chegar (Ankunft = chegada) às 12:51, vindo de Zwickau.

Esses grandes cartazes amarelos podem ser encontrados em qualquer estação e plataforma, e indicam os trens que saem daquela estação, e os horários.

Esses grandes cartazes amarelos podem ser encontrados em qualquer estação e plataforma, e indicam os trens que saem daquela estação, e os horários.

Quanto às passagens, você pode comprá-las online, nos guichês nas estações de trem, ou nas máquinas de bilhetes das estações de trem.

No site da Deutsche Bahn você pode procurar conexões e adquirir passagens para os ICEs e ICs. Lembre-se que o quanto antes você comprar sua passagem, mais chances você tem de achar um preço bom ou alguma promoção. Nunca deixe para comprar a menos de 3 dias antes da viagem. Preste atenção nas conexões da sua passagem, algumas conexões exigem que você saia de um trem e entre no seguinte em menos de 10 minutos. Se você estiver com muita bagagem, pode ser mais seguro evitar conexões muito apertadas. Se o seu primeiro trem atrasar e você achar que vai perder a conexão, peça informações para o fiscal que passa verificando os bilhetes – ele vai poder te informar se vai ser possível pegar a conexão, e, se não, quais são as alternativas. Se você perder sua conexão por culpa de atrasos dos trens, a DB vai te indicar uma alternativa sem que você tenha que pagar nada, claro. Se for a última conexão do dia e tiverem suficientes passageiros fazendo aquela conexão, o segundo trem espera o primeiro chegar.

Pelos guichês nas estações você também pode comprar bilhetes, mas é menos prático do que parece. Você imaginaria que pelo guichê é a melhor opção para perguntar a alternativa mais econômica para a viagem que você quer saber mas que nada. Várias das promoções e descontos são disponibilizados só pelo site, então comprar online é sempre a melhor opção. No guichê eles só te perguntam origem, destino e dia/horário da viagem, e não te dão alternativas.

Para os trens regionais, a opção mais fácil é comprar o bilhete nas máquinas disponíveis nas estações.

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Para ler sobre outras maneiras de viajar pela Alemanha, este post aqui descreve as várias alternativas.

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(Publicado em 19 de Janeiro de 2015) (Parcialmente atualizado em Março de 2018 e em Junho de 2019)

Gentileza cotidiana

Em comparação com brasileiros, americanos, sul americanos em geral e mesmo vários europeus, os alemães podem parecer bastante grossos. Não é só o fato de eles serem bem diretos, tem várias coisinhas do dia a dia que também passam essa impressão. Por outro lado, pequenas diferenças culturais às vezes também dão a impressão de que eles são mais educados que a gente. Tudo depende do ponto de vista, tudo tem dois lados.

Então vou falar de algumas dessas diferenças de como as pessoas por aqui se comportam no dia-a-dia, que pra gente são interpretadas como diferenças positivas ou negativas. Começando pelas negativas:

– Se você estiver num lugar cheio de gente, como digamos um mercado de natal, é bem comum as pessoas esbarrarem em você e não fazerem o menor esforço de pedir desculpas. Aliás, às vezes eu tenho a impressão de que eles nem fazem esforço de não esbarrar em você se tiver muita gente. Claro, se for uma situação em que reeeealmente a pessoa não precisava mesmo ter encostado em você, e foi um super acidente, com certeza vai rolar um pedido de desculpas. Mas numa situação que tem mta gente e encontros são quase inevitáveis, esquece.

– Atendentes em lojas, fast-food e lugares assim, raramente são simpáticos ou bem humorados… Principalmente fast-food, lanchonete, tal, raramente a pessoa do caixa vai te atender com um sorriso. Em várias situações vai parecer, pelo jeito que eles tão te tratando, que você está fazendo algo super errado – sem nem saber o quê. É. (isso pode ser que seja diferente em outras partes da Alemanha… mas pelo menos aqui na Saxônia é bem assim).

– Os alemães costumam ser muuuito apressados. No supermercado, no caixa, assim que você paga, o caixa já começa a passar as compras do próximo cliente, mesmo que vc não tenha terminado de guardar as suas compras ainda e mesmo que não tenha espaço nenhum pra você fazer isso. No começo pode parecer super grosso, mas depois que você acostuma, até faz sentido, o caixa vai bem mais rápido, assim. E, com certeza, se os caixas fizessem diferente, os alemães iam se incomodar pra caramba com a demora. Essa pressa pra fazer logo as coisas é meio geral. Pra pagar, por exemplo, se tiver uma fila atrás de você, deixe o dinheiro preparado e pronto pra pagar. Uma vez passeando com uma amiga que estava de visita, num ponto turístico, ela se atrapalhou para achar o dinheiro certo (já que não estava acostumada com as moedas diferentes) e a mulher do caixa foi suuuuper grossa, ficou fazendo óbvios sons e caras de impaciência e desaprovação, parecia que era a minha amiga que estava sendo mal-educada e fazendo algo errado. E, de fato, para os alemães é isso mesmo.

– Eles assoam o nariz super alto em qualquer situação ou ambiente.

– No trem, metrô e meios de transporte, é muuuito comum as pessoas ocuparem dois assentos, um para si e um para a mochila/bolsa/o que for. E com freqüência eles só tiram a mochila do outro banco quando alguém pede pra sentar lá. Mesmo quando está bem cheio isso acontece (embora menos, claro). Um exemplo emblemático foi uma vez que eu e uma amiga pegamos um trem, era uma viagem de 15 min. Estava bem cheio quando entramos, mas achamos um banco vazio. Quando a minha amiga foi sentar, o cara do lado falou “não, aqui está ocupado, aquele homem está sentado aqui” apontando para um cara que estava de pé conversando com umas pessoas que estavam sentadas uma fileira na frente. Até aí tudo bem. A gente ficou de pé do lado daquele banco e durante os 15 minutos de viagem, o tal homem não se sentou no banco que era “dele”. Foi muito grosso, ele viu que a gente quis sentar lá, ele viu que a gente estava de pé ali do lado, e ele mesmo não pretendia voltar a sentar no banco até o destino final. Me arrependi de não ter falado bem alto “nossa, que mal-educado!” ou coisa do tipo…

– Também nos transportes públicos, uma coisa que pra gente é muito comum e aqui ninguém faz jamais é quem está sentado oferecer pra segurar a bolsa ou o que for de quem está de pé. Isso seria totalmente estranho aqui.

– Outra coisa que pode parecer estranha pros brasileiros é que os alemães quase nunca oferecem aquilo que estão comendo ou bebendo para os outros provarem. Claro, sei lá, se o fulano estiver com um enorme saco de cookies e vários amigos do lado, a pessoa vai oferecer. Mas se for uma coisa pequena, sei lá, um chocolate, o que for, eles vão comer na tranquilidade sem oferecer. E oferecer para desconhecidos (tipo, sei lá, no trem, whatever) também seria totalmente estranho por aqui.

Mas as coisas positivas também existem:

– É super comum os alemães segurarem as portas uns para os outros. Qualquer pessoa pra qualquer pessoa, desde que você passe por uma porta e tenha alguém vindo na direção daquela porta, você segura a porta pra pessoa. Às vezes até já me seguraram a porta embora eu ainda estivesse super longe da porta quando a outra pessoa passou por lá. Segurar porta é regra.

– Voltando ao transporte público, se você estiver com carrinho de bebê, sempre alguém vai dar uma ajuda pra subir ou descer o carrinho do trem, se precisar. Quando você tá obviamente precisando de ajuda com alguma coisa, assim, bem óbvia, os alemães percebem de longe e vem ajudar sem hesitar.

– Se você estiver correndo pra não perder o tram, sempre alguém vai ver e segurar a porta pra vc, pro tram não ir embora sem você. Algumas vezes, mesmo depois de o/a maquinista (maquinista?) do tram já ter fechado as portas definitivamente, se ele vir você correndo pra pegar o tram às vezes eles te esperam e abrem de novo só a porta que você vai usar. Nem sempre, porque eles têm uma agenda pra cumprir. Mas se der pra esperar, eles esperam.

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– É muito raro alguém ouvir música alto nos transportes públicos. Ás vezes tem uns que ouvem tão alto no fone que é quase como se não tivesse o fone. Mas sem o fone, mesmo, acho que nunca vi.

– Os alemães seeeeeeeeeempre esperam todos antes de começar a comer ou beber. Sempre rola um tim-tim antes de beber. Mesmo que você estiver, sei lá, comendo junto no McDonald’s, eles sempre esperam todo mundo estar sentado com a comida antes de começar a comer. Eu tenho a impressão de que, principalmente com bebida, no Brasil a gente não espera. E brinde é só em situações bem especiais, e tal. É super comum eu começar a beber e de repente me toco que tá todo mundo esperando e aí tenho que pedir desculpas e explicar que pra mim isso é super incomum!

– Eles também sempre dizem “bom dia!” ou “olá”, e “tchau”, mesmo para desconhecidos. Claro, não no meio da rua numa cidade de tamanho razoável. Mas dentro do seu prédio sempre, num local em que tenham só você e outra pessoa mesmo que desconhecida (elevador, por exemplo), ou até se você estiver, por exemplo, fazendo uma trilha na floresta e cruzar com outras pessoas, eles sempre dirão bom dia/boa tarde.

– Eles não riem de você. Se você, por exemplo, tropeçar e cair, na rua, vem logo alguém perguntar se você se machucou ou se está bem. Ninguém, nem conhecido nem desconhecido, acha engraçado ver outras pessoas se machucarem. Eles também não fazem piadas preconceituosas. Piadinhas machistas, racistas e homofóbicas, que são super comum numa mesa de família ou no escritório, no Brasil, por aqui é muuuuuuuuuuito raro ouvir. Aliás, por exemplo, com aquele resultado do jogo Brasil x Alemanha da Copa. Imagina se fosse 7×1 pro Brasil e fosse um alemão no Brasil. Tooooooooodo mundo ia ficar enchendo o saco do fulano, fazendo graça, e tal. Nenhum alemão fez isso comigo. Ok, mentira, lembrei de um, um professor. Mas só. Os outros ou nem comentaram o assunto, ou, quando comentaram, foi mais num sentido “nossa, o que aconteceu naquele jogo, hein? Que resultado inesperado!”, coisa do tipo.

– E, pra mim, o ponto mais importante e mais positivo dos alemães, é que eles sempre te deixam em paz. Os alemães sempre. deixam. as pessoas. em paz. Sempre. Ninguém mexe com você na rua, assédio de rua, chamar moça de gostosa ou o que for, é uma coisa que simplesmente não existe aqui. Os alemães respeitam muito a privacidade das pessoas na rua e em locais públicos. Ninguém jamais fala com você sem ser necessário. Quer dizer, pode até ser que em um caso ou outro eles puxem conversa (por exemplo já aconteceu de algum alemão que se interessa pelo Brasil e fala um pouquinho de português puxar conversa comigo e algum amigo ao nos ouvir falar português, e tal), mas é sempre de maneira super respeitosa e tranquila, e sem insistência. Essa característica é uma das coisas que eu mais gosto nos alemães.


(Publicado em 10 de Janeiro de 2015)