Mês: março 2015

Universidades alemãs: bibliotecas

Não sei se dá pra falar sobre bibliotecas de universidades alemãs como um conjunto e tão distinto de bibliotecas de universidades brasileiras. Mas eu adoro visitar bibliotecas públicas em lugares novos porque volta e meia você encontra umas muuuuito legais. E na minha universidade, a TU Dresden, tem um ótimo exemplo de uma biblioteca imperdível.

O nome da biblioteca é Sächsische Landesbibliothek Staats- und Universitätsbibliothek Dresden, convenientemente abreviado para SLUB. É a biblioteca central da universidade de Dresden, e também a biblioteca estadual da Saxônia.

O edifício da SLUB foi projetado pelo escritório de arquitetura Ortner & Ortner, e inaugurado em 2003, e tem essa cara:

IMG_2497 IMG_5876 IMG_9718

Mas essa é só uma partezinha da biblioteca. Na verdade, a maior parte da biblioteca – incluindo praticamente toda a parte aberta ao público – é subterrânea.

Vou fazer basicamente um tour virtual mostrando as diferentes coisas legais dessa biblioteca. A entrada se dá pela avenida principal que cruza a universidade, em uma pequena praça que se abre para a entrada da biblioteca. Essa praça fica literalmente lo-ta-da de bicicletas em fins de semestre e durante o verão (Não é o caso dessa foto).

IMG_0155

Entrada a partir da rua, chegando na praça das bicicletas

IMG_5873

A praça com o estacionamento de bikes (nesse dia com poucas bikes). A entrada da foto anterior aparece ali no canto à direita

IMG_3274

Praça de bikes na entrada, com poucas bikes. Essa foto é no outono, ou seja, bem no início do semestre de inverno. Durante o verão e primavera tem várias linhas de bicicletas no centro da praça.

Aliás, é interessante saber os momentos em que a biblioteca fica cheia. A época mais crítica é em fevereiro. Fevereiro é final do semestre de inverno na faculdade e freqüentemente o mês mais frio do inverno. Em fevereiro, se você chegar na biblioteca depois das 10 da manhã já não encontra lugar pra sentar. E olha que mesa de trabalho é o que não falta! Mas o mesmo não acontece no final do semestre de verão, em Julho/Agosto. Mesmo nas semanas de prova dá pra chegar tranquilamente a tarde e achar lugar pra sentar. Com o sol e tempo bom lá fora, acho que as pessoas não ficam muito animadas em estudar dentro da biblioteca, muito menos nessa que é subterrânea…

Mas voltando. Entrando então pela entrada principal, a primeira coisa são os armários. Uma saguão gigante lotado de armários (e em fevereiro é difícil até encontrar armário vazio, se você chegar tarde).

IMG_3276

Saguão de entrada, com os armários. Seguindo ali pela esquerda têm bem mais armários do que os que aparecem na foto.

Em dias de chuva as pessoas deixam seus guarda-chuvas secando sobre os armários e fica parecendo uma intervenção artística.

Em dias de chuva as pessoas deixam seus guarda-chuvas secando sobre os armários e fica parecendo uma intervenção artística.

Os armários nessa biblioteca assim como em qualquer outra biblioteca ou aliás em qualquer lugar que tenha armários para guardar coisas, na Alemanha, funciona, da seguinte maneira: A chave fica presa ao armário quando ele está aberto. Você coloca as suas coisas, e pra trancar e tirar a chave, você tem que depositar uma moeda de 1 ou de 2 euros (tem armário que aceita moeda de 1 euro, armário que aceita moeda de 2 euros, e armário que aceita as duas). Assim:

schoollockers.com

Uma vez colocada a moeda, você fecha o armário e a ao trancar, a chave sai. Quando você voltar e colocar a chave para destrancar, a moeda inserida cai nessa bandejinha que aparece na foto, e você pega ela de volta e sai feliz e contente com seu euro. Mas isso significa que convém ter sempre uma moeda de um ou dois euros guardada num local separado da carteira para essas situações. Nessa biblioteca tem em um canto do saguão uma máquina de troco, para você trocar dinheiro e pegar umas moedas caso tenha gastado a sua moeda-de-biblioteca pra comprar um docinho na padaria de manhã.

E de quebra você ainda volta e meia encontra uma moeda esquecida num armário recentemente esvaziado! (e em compensação também esquece moedas de quando em quando ao esvaziar seu armário) Aliás, muitas coisas seguem esse esquema de depositar moeda, carrinhos no supermercado, carrinhos no aeroporto, armários em museus, academias, lugares diversos… é bem prático.

Bom. Como qualquer biblioteca, você deve deixar sua mochila e casaco no armário e entrar só com o material que for usar. Mas na verdade, ao passar pela catraca e entrar na biblioteca, o primeiro espaço é um salão de trabalho com muitas mesas onde você pode levar sua mochila e casaco. Nesse salão você pode também conversar em voz alta, diferente do resto da biblioteca. Então é onde ficam as pessoas que estão fazendo trabalhos em grupo, por exemplo, ou aquelas que chegaram realmente sem nenhuma moeda e conseqüentemente não puderam usar os armários, hehe.

Num dos lados têm os balcões e máquinas onde você empresta os livros. Nos balcões o funcionário da biblioteca faz o empréstimo pra você. Nas máquinas, você passa o código de barra do livro e a sua carteirinha e faz o empréstimo self-service! Bem prático.

Ali do lado do balcão tem também umas estantes onde ficam os livros encomendados. Nem todos os livros do acervo ficam acessíveis para você na parte aberta da biblioteca. Vários dos livros ficam guardados nos depósitos. Aí quando você quer retirar algum desses livros, você reserva e eles trazem para você do depósito e colocam naquela estante, marcado com o número da sua carteirinha para você encontrar. Os seus livros ligados à sua carteirinha vão sempre ser colocados mais ou menos no mesmo cantinho específico. E uma coisa muito legal – que eu infelizmente não tenho uma foto pra colocar – é que os livros são retirados do depósito (3 andares abaixo) e trazidos para o lugar onde ficam essas estantes automaticamente! Quando você reserva um livro (dá pra reservar pela internet), uma máquina o encontra no depósito e o coloca no elevador. Tem umas janelas dentro da biblioteca que mostram os livros chegando nas esteiras rolantes e subindo nos elevadores de livros, é bem legal! Mas eu infelizmente não tenho uma foto para mostrar. Volte aqui daqui a umas semanas e quem sabe eu tenha tirado uma foto e colocado aqui.

Também ali do lado ficam outros armários. Esses são especiais: para usar um você precisa se cadastrar e reservar. Você receberá uma chave assim que liberar um armarinho, e poderá usá-lo por 14 dias. As portas dele são transparentes de maneira que é possível ver que neles são guardados apenas livros: A idéia é que você pode usá-los para guardar os livros que estiver usando na biblioteca. Quer dizer, se você tem um livro que você está usando, mas não quer levar ele pra casa todo o dia só pra trazer de volta pra biblioteca no dia seguinte, você pode deixá-los lá nos armarinhos transparentes. Os livros dentro dos armarinhos têm que estar emprestados normalmente como se você os tivesse levado pra casa. É só um jeito sagaz de você não precisar carregá-los para lá e para cá caso vá trabalhar principalmente na biblioteca.

Daí seguindo pelos corredores da biblioteca você vai encontrar, além das várias estantes com muitos livros, muitas mesas de trabalho diferentes.

Tem mesa com banquinho alto, mesa com cadeira normal, mesa sem banquinho… e tem sempre pelo menos uma tomada por mesa com cadeira. Algumas mesas têm computadores, eu chutaria que uns 10% das mesas têm computadores fixos. E todas têm lâmpadas, claro. É bem comum para as pessoas que estão trabalhando na biblioteca deixar suas coisas na mesa quando precisa sair para ir ao banheiro, comer, fumar, sei lá. Se for uma coisa breve como ir ao banheiro, as pessoas deixam até o laptop na mesa. Se for algo mais longo como almoçar ou tomar um café na cantina, aí normalmente as pessoas levam seus eletrônicos e deixam só os livros/cadernos, etc. Não sei o quão seguro é, eu costumo deixar o laptop em saídas curtas, mas não sejamos ingênuos de achar que não há nenhuma possibilidade de furto. É um risco, talvez pequeno, mas ele existe.

IMG_3429 IMG_3301 IMG_3294 IMG_3293

Falando ainda em mesas de trabalho, uma das melhores opções se silêncio é importante para você é o salão de leitura, ou Lesersaal, em alemão. Ele fica no nível -2, o nível mais baixo da parte aberta da biblioteca, mas tem um pé direito tão alto que chega à superfície. Ele é iluminado por aberturas zenitais (janelas no teto), sendo uma das poucas partes da biblioteca com iluminação natural durante o dia. Nesse salão há também uma área em que não é permitido usar eletrônicos, de maneira que nem o som de alguém digitando no teclado do laptop deve te incomodar.

IMG_3288

Lesersaal

Caso você queira fazer um trabalho em grupo na biblioteca, tem ainda outra alternativa bem legal: as salas para trabalhos em grupo. Tem salas de diversos tamanhos, para 4, 6, 10, 15 e até 20 pessoas. São salas fechadas, algumas com computador, algumas com projetor, outras só com mesas. E qualquer um pode reservá-las e usá-las gratuitamente pela internet. No site da SLUB tem um calendário mostrando os horários em que cada sala está ocupada. Claro que em certos períodos – como fim de semestre – fica difícil achar uma sala livre em horários normais (que não seja domingo às 8 da manhã, por exempl0). Mas reservando com antecedência, tudo é possível. No formulário de reserva online você pode até reservar ela repetidamente sempre naquele mesmo horário toda semana – e fazer um grupo de estudo, por exemplo. Bem legal!

E uma dessas salas de grupos é uma sala especial para pais com crianças. Tem uns brinquedos, colchões, e coisas para entreter as crianças enquanto os pais ficam trabalhando nos seus trabalhos ali do lado! Aliás, a universidade me parece bem friendly para pessoas com filhos (Não sei pq não tenho filhos, mas pelo que sei tem muitas opções pra quem quer estudar e não tem com quem deixar as crianças).

E ainda outra opção de mesa de trabalho na biblioteca – possivelmente a opção mais legal de todas – são as salinhas individuais. Você pode reservar uma salinha individual pra seu uso próprio para usar por 3 meses. Você recebe a chave da salinha e pode inclusive deixar suas coisas lá, fica sendo sua sala, mesmo. Só que claro, tem bem menos sala do que pessoas que gostariam de usar essas salas, então funciona da seguinte forma: As salas são emprestadas por 3 meses. Algumas semanas antes de começar um trimestre abre no site na biblioteca as inscrições para usar as salinhas. Você se inscreve e eles sorteiam aleatoriamente os nomes dos alunos que poderão usar as salinhas. Se você for sorteado, eles te avisam por email e você vai lá buscar a chave para usar a salinha naquele trimestre. A única condição para se inscrever para as salinhas é que você precisa estar fazendo um trabalho de conclusão de curso, dissertação ou tese. No momento de receber a chave você tem então que apresentar uma carta do seu orientador ou orientadora atestando que você está, de fato, escrevendo um TCC, tese ou dissertação. Dentre as, se não me engano, 40 salinhas disponíveis, 10 são isoladas acusticamente para que eventuais estudantes de música possam usá-las para seus trabalhos com música, também.

E, porque sentar em mesas não é o suficiente, tem pela biblioteca, também, sofás. Algumas opções diferentes de sofás. Que são usados majoritariamente para tirar uma sonequinha depois do almoço. Eu, por exemplo, fiz bom uso de um dos sofás quando tive a brilhante idéia de ir à biblioteca ler para um trabalho no dia 22 de dezembro, o último dia antes das férias de natal. Cheguei quase na hora do almoço, fiquei meia hora lendo, fui almoçar, e voltei morrendo de sono. Pensei “puxa, vou continuar lendo sentada naquele confortável sofazinho!”. Acordei 3 horas depois.

IMG_3292

Sofás dentro da biblioteca, ao lado do salão de leitura, freqüentemente ocupado por estudantes capotados.

IMG_3315

Sofás no saguão de entrada. No fundo aparecem as máquinas de devolução self-service e de troca de dinheiro.

Além de tudo isso, a SLUB tem em seus três andares abertos ainda áreas de revistas e jornais, áreas de livros raros, área de CDs e DVDs, área com copiadora e impressoras, livros de qualquer área de conhecimento (embora o acervo não seja suuuuuper bom, segundo o que me contam os alunos alemães, porque o governo gastou todo o dinheiro para construir a biblioteca e depois não tinha mais dinheiro para comprar livros! Mas não sei até que ponto essa história é verídica ou lenda urbana entre os estudantes), etc.

IMG_3330 IMG_3302

E como faz para encontrar um livro específico nessa infinidade de salas, corredores, cantos e estantes? Muito fácil! No site da biblioteca tem nada menos nada mais que um mapa 3D virtual da biblioteca! Quando você procura um livro no catálogo, tem lá do lado do código de identificação do livro um botãozinho para mostrar em que estante ele está, no mapa virtual.

Pela internet, fazendo o login com seu número de carteirinha e senha, você pode ver todo o histórico de livros emprestados, livros a serem devolvidos e quando, pode fazer a renovação online, reservar as salas de grupos, reservar livros, pedir livros, etcetc. Tudo é possível pela internet. A maior parte das mídias são emprestadas por 28 dias, exceto CDs e DVDs que são emprestados por 14 dias. Esse período pode ser renovado duas vezes se não houverem reservas. E se você esquecer de devolver o livro, pode ter certeza que não escapará da multa! Só não consegui descobrir pelo site qual o número limite de mídias que podem ser emprestadas simultaneamente. Será que não tem limite?

Aliás, para ser associado da biblioteca e emprestar livros, não é necessário ser estudante da universidade. Como é uma biblioteca estadual, qualquer um pode ser membro, basta ter 14 anos de idade ou mais.

Assim como a máquina self-service de empréstimo, tem também a máquina self-service de devolução. Você passa a carteirinha, e coloca o livro numa esteira que lê o código de barras, engole o livro, e te dá um recibo de devolução. Bem prático, especialmente se você quiser devolver livros aos domingos.

Aos domingos?

Sim, aos domingos. A SLUB fica aberta todos os dias da semana e quase todos os dias do ano com pouquíssimas exceções! De segunda a sábado, o horário de funcionamento é das 8:00 à meia noite. De domingo, das 10:00 às 18:00. Alguns feriados durante o ano têm horários reduzidos de abertura, e em outros a biblioteca fecha. Mas o fato é que a maior parte do tempo a biblioteca está aberta.

Só que aos domingos e depois de certo horário não tem funcionários nos balcões de empréstimos e em outras áreas da biblioteca. De maneira que, se você quiser emprestar ou devolver um livro no domingo, tem que usar as máquinas self-service de empréstimo e devolução.

MAS, calma, não acaba aí! Saindo da área da biblioteca, e voltando ao saguão, temos ainda algumas opções de entretenimento na SLUB. Subindo um andar chegamos no andar onde tem o auditório e a cantina. A cantina, claro, possivelmente o lugar mais importante da biblioteca, tem opções diversas de sanduíches, cafés, doces e frutas, pãezinhos e salsichas. Eles pedem pra não levar marmita de casa, mas sendo essa a única área da biblioteca com mesas onde é permitido comer, esse pedido é solenemente ignorado pelos estudantes.

IMG_3318

Subindo mais um andar, no nível +2, tem um pequeno museu. Com livros raros, originais de pessoas importantes, e tal. O museu é uma grande sala com uma outra sala dentro dessa sala. A sala dentro da sala chama-se Salão dos tesouros! Essa sala fica trancada, mas para visitar bastar usar um interfone na porta da sala para pedir que suba alguém da administração para abrir a sala para você. Dentro dela você encontra partituras originais de Beethoven, desenhos originais de Dürer, mapas e livros extremamente antigos, e, pasmem, pasmem, o calendário maia do Fim do Mundo! Sim, ele mesmo, aquele calendário que terminava em 2012 e fez as pessoas acharem que o mundo terminaria então fica ali, no salão dos tesouros da biblioteca de Dresden, acessível para visita de Segunda a Domingo das 10:00 às 18:00!

É isso, agora acho que falei tudo. Provavelmente amanhã eu vou lembrar de mais alguma coisa muito legal relacionada a essa biblioteca que eu esqueci de falar, mas enfim. De qualquer maneira, fica a dica: se você for arquiteto, a visita à biblioteca é imperdível. Se você não for arquiteto, mas for um amante de bibliotecas, também. Se você não for nem arquiteto nem amante de livros ou bibliotecas, vá pelo menos para ver o tal calendário Maia.

Ficam aí mais algumas fotos:

IMG_9723IMG_3425 IMG_3295


(Publicado em 31 de Março de 2015)

 

Encontros de família

Estou passando uns dias no Brasil e redescobrindo várias coisas que eu tinha esquecido que eram assim aqui (no Brasil). Você acostuma com a coisa do outro jeito e esquece que era daquele jeito.

Uma dessas coisas são almoços de família. Aqueles almoços com TODA a família, os tios, primos, sobrinhos, a vó da prima de segundo grau, o filho do irmão do tio-avô, aqueles almoços em que não tem uma única pessoa presente que conhece absolutamente todos os outros. Esses na Alemanha eu nunca vi. Claro, minha experiência com famílias alemãs se resume à família do meu namorado, talvez em outras famílias seja diferente (duvido).

Na Alemanha não é muito comum fazer um almoço e chamar tanta gente. Almoços/jantares de família normalmente incluem só a família direta, mesmo, pais e filhos e quando muito os casais dos filhos. Mesmo no Natal – que pra gente é um evento sempre com muitas pessoas – lá eles costumam comemorar só com a família direta, talvez uma avó.

E aí você pergunta, mas quando então se encontram as famílias alemãs? Uma vez que você tem filhos você nunca mais encontra os seus irmãos?

Eu também me pergunto isso. Mas pela minha experiência, esses grandes encontros familiares existem em menor número – talvez um por ano – e em eventos mais especiais, o casamento de alguém, o aniversário de 60 anos do tio (pros alemães os aniversários de anos redondos (40, 50, 60, 70..) costumam ser motivo para grandes festas), o de 90 anos da avó. Nessas ocasiões é comum organizar festas mesmo, em algum lugar como uma sala reservada de um restaurante, coisa assim. Aí chama-se todos os tios, primos, sobrinhos e amigos.

E também é diferente o que acontece nesses encontros familiares. Por exemplo. Aqui no Brasil, num almoço informal assim, as pessoas não esperam todas as outras antes de começar a comer ou beber. Normalmente você senta, pega a sua comida e começa a comer, ainda que nem todos os outros já estejam sentados também. Na Alemanha, se você está sentado numa mesa com outras pessoas, vc sempre espera todos os outros estarem sentados com suas comidas nos pratos para dizer “Guten Apetit” e começar a comer juntos. E sempre, seeeeeeeeempre as pessoas só começam a beber depois de brindar.

Outra diferença é que no Brasil me parece que a televisão ainda é um elemento importante desses eventos. Depois de almoçar, se for domingo, uma parte das pessoas senta na frente da TV pra ver o jogo, ou então pra ficar assistindo Faustão ou uma bobeira qualquer e conversando ao mesmo tempo. Lá a TV fica desligada. Mas, claro, são eventos diferentes. Na Alemanha, um evento familiar na casa de alguém, como falei, não teria tanta gente, então é factível ficarem todos numa mesa conversando, ou começarem todos a comer ao mesmo tempo. No Brasil, como são muitas pessoas, elas acabam se dividindo em grupos menores depois do almoço, uns na frente da TV, outros na mesa de jantar do lado das sobremesas, etc.

Ah, e enquanto no Brasil é bem comum que esses eventos sejam almoços, a tarde, na Alemanha um evento que juntasse todo mundo como um aniversário importante ou casamento é, na maior parte das vezes, uma janta, a noite.

No geral me parece que no Brasil as famílias são mais unidas, se encontram com mais freqüência, e tal. Mas também, é mais comum que todos morem na mesma cidade, enquanto na Alemanha me parece que a maioria das famílias estão espalhadas em diferentes cidades do país. Tanto é que é relativamente comum (segundo meu namorado) para os alemães se referirem aos seus avós com o nome da cidade onde moram, tipo a Oma (avó) Düsseldorf e a Oma Frankfurt! 

Então resumindo: se você for a um encontro de família na Alemanha, saiba que você provavelmente não deveria estar lá! Ok, ok, se te convidaram, tudo bem. Mas não esqueça de esperar e brindar antes de começar a beber e comer, porque isso é sério e eu sempre faço papelão!


(Publicado em 12 de março de 2015)

Igualdade de gênero na Alemanha

Provavelmente uma característica que não vem à sua cabeça quando você pensa sobre alemães é que seja uma cultura particularmente machista, especialmente no século XXI.

Realmente, em comparação com o machismo muitas vezes forte no Brasil, morando na Alemanha um tempo pode lhe parecer que por aqui isso é bem reduzido. Mas será que é, mesmo, ou ainda existe uma considerável desigualdade de gênero na Alemanha?

Os alemães provavelmente dirão, na sua maioria, que não, não são machistas. Para os alemães, em termos de liberdade e igualdade, a Alemanha e a Europa atingiram um patamar bem elevado, e certamente muitos alemães, inclusive mulheres, achariam sem sentido lugar por igualdade de gênero na Alemanha. Me parece, após morar aqui um tempo, que realmente em vários sentidos a igualdade de gênero por aqui é bem maior que no Brasil. Mas daí a dizer que não existe machismo aqui já é um grande salto. No ranking do Global Gender Gap de 2014, que analisa a desigualdade de gênero nos diferentes países, a Alemanha aparece em 12˚ lugar de país com mais igualdade, ou seja, uma posição super boa (o Brasil aparece em 71˚ lugar). Mas quase igual ainda não é igual, e mesmo na Alemanha ainda há espaço para evolução nesse sentido.

Esse Global Gender Gap mede a igualdade em quatro áreas principais: educação, oportunidade e participação na economia, saúde/sobrevivência e empoderamento político. A Alemanha pontua muito bem nos quesitos educação e saúde, onde a diferença entre homens e mulheres é praticamente nula. Em termos de participação econômica, a pontuação é razoável (73%), mas é em participação política é que o país ainda deixa a desejar em igualdade, com uma pontuação de apenas 40%.

Esses dados são traduções de diferenças reais como a presença de mulheres no parlamento alemão (36%) e a diferença entre salários de homens e mulheres exercendo o mesmo cargo (mulheres alemãs recebem em média 76% do salário dos homens no mesmo cargo, uma das maiores diferenças de salário na europa).

Mas quais são as diferenças ou igualdades percebidas no dia-a-dia?

Uma coisa bem clara é a uma diferença entre as gerações mais velhas, das pessoas com 50 anos acima, pras gerações mais atuais, das pessoas com 30, 20 anos de idade. Entre os casais mais jovens, a divisão de trabalho doméstico é muito comum e, pelo menos pela minha experiência e pelas pessoas que eu conheço, parece bem balanceada. Isso é um ponto bem positivo.

Mas por outro lado, ainda existe uma expectativa razoável da sociedade de que a mulher pare de trabalhar (ainda que temporariamente) uma vez que se torne mãe. Nesse ponto, é interessante notar a diferença que existe entre a Alemanha Ocidental e a Oriental. Na Alemanha Oriental, esperava-se de todos os adultos que trabalhassem e fossem portanto “úteis à sociedade”. Por isso o governo oferecia todas as facilidades necessárias para as mães: escolas e creches em período integral, por exemplo, eram a regra e não a exceção. Já na Alemanha Ocidental isso não aconteceu, de maneira que ainda se espera da mãe maior responsabilidade com a família que do pai, e ainda se critica discretamente mulheres que escolhem continuar suas carreiras depois de ter filhos. Em termos de lei, essa diferença já não é tão presente: os direitos de licença maternidade e paternidade são extensos e praticamente idênticos. Tanto o pai quanto a mãe podem tirar 12 meses de licença, recebendo 65% do salário, ou 14 meses caso seja mãe/pai solteira/o. É possível ainda para ambos tirar uma licença extra não-paga até que a criança complete 3 anos. Ou seja, se as famílias assim escolherem, pode ser o pai a ficar em casa cuidado da criança e não a mãe. A única diferença é que a mãe tem ainda direito a 14 semanas de licença recebendo 100% do salário, pela gravidez em si, sendo 6 semanas a tirar antes do nascimento, e o resto depois. Só que, embora na lei seja igual, na prática não é tão simples. Não tem creche suficiente para todas as crianças da Alemanha, de maneira que o governo, ao invés de construir mais creches, criou um programa em que eles pagam uma bolsa para mães ou pais que fiquem em casa cuidando da criança até a mesma atingir a idade escolar. Ou seja, ao invés de pagar pela creche, o governo paga para a mãe ou pai cuidar da criança. Só que isso resulta em uma desvantagem para as mulheres. Se um dos dois pais vai abrir mão do emprego para criar a criança, mesmo que nem houvesse nenhuma expectativa em relação a qual dos dois teria que fazer isso, seria natural e razoável para o casal escolher que aquele que ganha mais no emprego continue trabalhando, enquanto o outro pare de trabalhar. E, como já discutimos, a diferença de salário ainda é considerável e as oportunidades de emprego também. Assim, pagar para que um dos pais cuide da criança ao invés de construir creche inevitavelmente diminui a probabilidade da mãe poder continuar trabalhando após o nascimento do filho.

E claro, como mencionado antes, em termos de oportunidades no mercado de trabalho, ainda existe uma diferença bem razoável entre mulheres e homens. Mulheres têm menos oportunidade e recebem menos pelo mesmo trabalho, além do ainda existente teto de vidro em grandes empresas, que impede que mulheres – mesmo muito melhor qualificadas que seus colegas homens – sejam promovidas aos cargos mais altos. Para tentar mudar um pouco essa situação, o governo alemão recentemente aprovou a criação de cotas para mulheres nas cúpulas de empresas. A partir de 2016, grandes empresas terão de reservar 30% dos cargos nos conselhos de administração de empresas para mulheres. A medida já foi aplicada em outros países da europa como a Noruega, França e Holanda. Para ilustrar um pouco a desigualdade: 59% das empresas de médio porte alemãs não têm nenhuma mulher em cargo de liderança, um dado bem mais negativo que a média européia de 36%.

Mas voltando ao dia-a-dia. Diferenças positivas que você percebe na Alemanha em relação ao Brasil no quesito igualdade de gênero é a total e completa ausência de assédio de rua. Homens desconhecidos dando opinião sobre a sua aparência no meio da rua, olhando para você de maneira desrespeitosa, buzinando de carros ou qualquer outro tipo de assédio de rua é praticamente inexistente. Um alívio. E outro ponto positivo, também relacionado, é que na Alemanha as mulheres vestem o que bem entendem e ninguém diz nada a respeito. você pode sair de shorts curto, decote, saia, o que for, sem medo de ser assediada por desconhecidos ou criticada por conhecidos por isso. Ninguém solta aquelas bobagens de que “mulher precisa se dar o respeito”. Me parece que a maioria dos alemães já entenderam que não existe condição pra respeito que só se aplica a um gênero.

Já as coisas negativas do dia a dia. Como no Brasil e na maioria dos países, os padrões de beleza impostos para mulheres ainda têm uma influência muito forte, e a objetificação feminina na mídia também é ainda muito presente. Quanto às expectativas para crianças, também ainda é bem comum a separação de “brinquedos para meninas” e “brinquedos para meninos”. E ainda é bem forte também a idéia de que certas ocupações são mais masculinas enquanto outras mais femininas. Mulheres nas engenharias e ciências, por exemplo, são em número bem reduzido em relação aos homens. Aliás, uma diferença forte que eu notei: na faculdade em que eu estudei no Brasil, a relação de professores homens para professores mulheres era de quase 1 pra 1. Eu lembro que contei uma vez e tinha aproximadamente 55% de homens e 45% de mulheres professoras doutoras no meu curso. Já meu namorado conta que na faculdade dele (ele fez o mesmo curso que eu e no mesmo período, só que na Alemanha), o número de professoras era extremamente reduzido, ele lembra de no máximo duas durante o curso inteiro.

Tem um programa legal do governo alemão que tem como intenção justamente incentivar mais meninas a seguirem carreiras que são tradicionalmente masculinas, chama-se Girl’s Day. Eles fazem eventos nas escolas com crianças a partir dos 11 anos, mostrando para as meninas profissões técnicas, científicas e “braçais” (marcenaria, por exemplo), e incentivando-as a considerarem também essas carreiras. Um pouco depois do início do Girl’s Day, o governo começou também o Boy’s Day, para fazer o mesmo para os meninos: incentivá-los a seguir carreiras tradicionalmente consideradas femininas, como professor de escola primária/creche, enfermeiro, e outras profissões ligadas ao cuidado de pessoas.

Então, resumindo: a Alemanha está evoluindo, e existem várias leis e programas do governo com a intenção de diminuir a desigualdade de gênero no país. Mas há, ainda, bastante espaço para melhorias nas condições atuais.


(Publicado em 8 de Março de 2015, dia internacional das mulheres)