Mês: julho 2015

Doces alemães

Apesar da comida alemã não ser a mais atraente que você já conheceu, em uma coisa eles bem que acertam: doces.

O curioso é que, se você for tentar fazer doces brasileiros por aqui, vai perceber que leite condensado não é tão fácil de encontrar, doce de leite não existe, várias coisinhas que pra gente são essenciais para doces aqui não são comuns. Mas na verdade isso é até um ponto positivo daqui: os doces alemães não são mega doces e enjoativos, como aquele bicho-de-pé que vc come uma bolinha e já não agüenta mais pensar em doce. Sempre que eu faço algum doce brasileiro aqui, os alemães reclamam do excesso de açúcar. E você acaba acostumando e depois também acha tudo muito doce no Brasil. (mas não menos delicioso, hehehe)

Um ou outro doce ou sobremesa alemã eu já comentei aqui no blog: a Bomba de Iogurte, o Pudim de baunilha com cerejas e o Berliner, que parece um sonho.

Um tipo de doce que você vai sempre encontrar em padarias são tortas de morango/framboesa/groselha ou outras frutinhas desse tipo. Elas têm essa cara aqui:

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O bolinho do lado é outra coisa que você encontra com freqüência por aqui, chama Quarkbällchen (bolinha de quark) e é bem parecido com um bolinho de chuva, só que com uma casca menos crocante.

Parecidas e também comuns são outras tortas/bolos como cheesecake, Zupfkuchen (é um cheesecake com chocolate), e outras várias sempre cortadas exatamente nesse tamanho padrão de torta de padaria.

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Da esquerda pra direita temos: alguma torta com frutinhas vermelhas; Pflaumenkuchen, que é torta de ameixas; Apfel mit Decke, um bolo de maçã com cobertura de açúcar derretido; Eierschecke, é um bolinho típico aqui de Dresden feito com ovo e uma cobertura de maçã e; Karibikschnitte, que é um bolo de chocolate, abacaxi e côco que é uma delícia.

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E outro doce que você sempre encontra em padarias diversas chama Schweineohr (orelha de porco). O nome talvez não seja tão atrativo, mas o doce bem que é:

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É uma massa folhada com as pontas mergulhadas em chocolate. Esse outro parecido é menor e feito de marzipã, portanto um tanto mais doce:

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O outro da foto é alguma massa folhada qualquer, tem vários doces folhados. Não sou muito fã então acho que nunca experimentei nenhum desses, logo não sei dizer o que eles contêm.

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Um bolo que você encontra sempre por aí é o Donauwelle (ondas do Danúbio). É esse daqui:

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Uma massa com chocolate e creme, recheado com cerejas e uma cobertura meio durinha (mas não muito) de chocolate. Qualquer doce com cerejas dentro é uma delícia, claro.

Um ingrediente bem comum em doces por aqui e que não existe no Brasil é semente de papoila. Não existe no Brasil porque aparentemente papoila é uma planta com a qual dá pra fazer sonífero, ou drogas, sei lá, e portanto ela é proibida. Mas aqui não é e as sementes, ou a pasta feita delas, dá ótimos doces. Como esse bolo abaixo. Às vezes parece chocolate, então você pode acabar pedindo um doce achando que é com chocolate, mas na verdade é a pasta dessa semente. Em alemão chama Mohn, então já sabe, se tiver Mohn no nome, não é chocolate. Mas é bom, também.

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Mas o que é provavelmente meu doce preferido é o Johannisbeerschnecke. Johannisbeer é a groselha (a fruta), sobre a qual discutimos nesse post sobre frutas. Schnecke significa caracol, e é o nome dado a doces em formato espiral com açúcar derretido por cima. É MUITO gostoso.

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Outros Schneckes também são ótimos, como o abaixo, de quark.

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Tem muitos outros doces que eu não falei porque não consegui fotografar desde que comecei a “colecionar” fotos (toscas tiradas com o celular, mas enfim) de doces pra esse post. Então quem sabe uma hora dessas aparece um Doces Parte 2.


(Publicado em 29 de Julho de 2015)

Sobre a língua alemã

Eu não costumo falar muito sobre a língua alemã, já que o blog é mais sobre curiosidades do país, e tal. Mas fiquei pensando que talvez valesse a pena abordar uma questão importante que ocorre sempre a quem pensa (ou não pensa) em aprender alemão:

Alemão é uma língua feia?

Eu achava que sim, e parei de achar quando comecei a aprender a língua. A primeira coisa que eu percebi foi a suavidade de alguns sons. Tipo, digamos, a palavra Tag, que significa dia. Tag eles não falam com um G forte, soa quase como “tak”, um g bem suave. Outras consoantes soam assim mais suaves também em algumas palavras.

Claro que o som do R, que é bem forte, às vezes faz a língua soar meio feia. Mas mesmo o R só soa ruim quando pronunciado com mais intensidade que o necessário. Em alguns casos, o R nem é pronunciado, tipo no final de palavras, depois de vogais. Mutter (mãe), por exemplo, o ER no final é pronunciado mais como um A. Mir (mim) por exemplo, pronuncia-se “Mía”. O R no final vira quase um A, é muito louco.

Outro som que as vezes soa bem ruim é o som do CH depois de A, O e U. Doch, Ach, Rauch. Também soa um pouco como um R forte. (é muito difícil descrever em português sons que não existem em português, né. Mas minha intenção não é ensinar como se pronuncia o alemão, mas falar sobre a língua, mesmo, então não se preocupe tanto com os detalhes)

Mas eu acho que não é nada disso que faz com que alemão seja uma língua “feia” de acordo com a opinião de muita gente. Todas as línguas tem um ou outro som que soa meio estranho e desagradável a ouvidos alheios. Eu tenho uma teoria de que as pessoas só dizem que alemão é uma língua “feia” porque a maioria das pessoas só conhecem a língua alemã de filmes de segunda guerra. Onde, claro, as pessoas falando alemão são nazistas gritando coisas horríveis. E é óbvio que alguém gritando algo ofensivo e violento, seja em que língua for, vai soar totalmente horrível. E se esse é o único alemão com que você teve contato, é óbvio que vc vai achar que alemão é uma língua totalmente péssima que você nunca quer aprender.

Eu, por exemplo, nunca tinha tido interesse em aprender alemão até conhecer o namorado alemão. Aprendi um monte de língua, mas alemão, nunca. E por ironia da vida, era justo alemão que eu tinha que ter aprendido, hehehe.

Mas para provar que alemão poder soar super fofinho, basta ouvir uma criança fofa falando alemão. Não sobram dúvidas. Para mostrar, peguei como exemplo o trailer do novo filme do Snoopy (vi esse trailer esses dias no cinema e achei um ótimo exemplo):

Talvez você já tenha visto algum vídeo desses comparando palavras em várias línguas, no qual a palavra em alemão é sempre dita de maneira agressiva e híper exagerada, para soar horrível? Que tal esse aqui pra te fazer crer o contrário?

Basicamente o alemão que você acha que soa ruim é o alemão falado da maneira como essas pessoas nesse vídeo estão falando as outras línguas!

Portanto, se você estiver planejando vir para a Alemanha, não tenha medo de aprender o alemão. Não é a língua mais fácil de todo tempo, mas certamente não é a mais feia nem a mais difícil, também.

Adendo: me perguntaram lá no facebook sobre os diferentes sotaques de alemão. Uma coisa curiosa aqui, é que alemães diferentes são chamados de “dialetos”, não de sotaques. Isso porque existe um alemão padrão, inclusive com pronúncia padrão, que é o que eles chamam de Hochdeutsch, É o alemão que se aprende nas escolas, que é falado em situações oficiais, etc. Variações são então chamadas de dialetos, pq não são consideradas o alemão correto. É diferente da gente no Brasil. Nossos diferentes sotaques são todos igualmente corretos, meu sotaque paulistano é português tão correto quanto o sotaque carioca ou o baiano.


(Publicado em 18 de Julho de 2015)

As quatro estações 2: Verão

O que a gente ouve falar sobre o clima alemão é quase sempre relacionado ao inverno e ao frio. De maneira que muitas pessoas se surpreendem quando eu digo que aqui, no verão, faz fácil mais calor que no Brasil. (Ou melhor, que em São Paulo. Certamente em outras partes do Brasil faz ainda mais calor)

Aqui em Dresden, por exemplo, o verão costuma apresentar máximas de 37˚C e 38˚C em alguns dias de Julho e Agosto. A maior temperatura já registrada na Alemanha foi 40,3˚C, em Agosto de 2003 na Saarland. Mas semana passada mesmo a mesma temperatura foi registrada novamente em alguma cidade por aqui. Em Berlim, a maior temperatura já registrada foi de 38,6˚C em Julho de 2007. A boa notícia (caso você não goste de calor extremo, claro, caso contrário é má notícia) é que esses dias não são a maioria. Eu diria que faz calorzão assim umas duas semanas. Mas calor de 30˚C também não é raro entre Junho e Setembro. A diferença desse para o nosso verão (caso na sua cidade as temperaturas máximas sejam parecidas) é que mesmo nos dias bem quentes a temperatura costuma cair bastante a noite, dando uma ótima refrescada. De maneira que eu nunca precisei de um ventilador para conseguir dormir num dia de verão, basta deixar a janela aberta. (O que aliás é totalmente normal por aqui – dormir de janela aberta – e meio que impensável para muitos brasileiros não sei bem porquê.)

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Temperatura às 15h do dia 5 de Julho de 2015 em Dresden.

E também tem bastante variação. Se em alguns dias faz 38˚C, poucos dias depois já tá fazendo 20˚C. (como no exemplo acima).

Resumindo: faz um calor infernal, mas não continuamente, então dá pra resistir sem ar condicionado e até sem ventilador.

Os alemães adoram o verão. Eles aproveitam muito. Embora tenha praias na Alemanha, elas são no norte do país, as temperaturas por lá são mais baixas e o mar é bem gelado. Então a maioria dos alemães, quando querem pegar uma praia, vão para os países vizinhos, especialmente para a Espanha. A ilha de Mallorca, no sul da Espanha, é um destino tão comum para alemães nos meses de verão que por aqui até se brinca que Mallorca é um estado da Alemanha.

Mas praia não é a única maneira de aproveitar o verão. Por aqui tem muitos lagos, e é muito comum ir nadar em lagos como se fosse praia. No ano passado eu escrevi um post inteiro sobre a experiência de nadar em lagos. Durante o verão, eles ficam realmente muito cheios!

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Além dos lagos, as várias piscinas também são uma boa alternativa para refrescar o clima. (mas no caso as piscinas, que são quase sempre cobertas, são muito usadas também nos meses de inverno)

Os parques e quaisquer pedaços de gramado ao sol ficam lotados nos finais de tarde e nos fins de semana, com pessoas fazendo churrascos, picnics, jogando jogos ao ar livre ou apenas bebendo uma cerveja.

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E aliás, quanto aos roupas, os alemães não têm frescura nenhuma. Durante o verão as mulheres saem tranquilamente com shorts e saias super curtos, vestidos mega leves, com tudo à mostra, e, o melhor: ninguém enche o saco de ninguém. Você pode andar à vontade pela rua vestida de acordo com a temperatura sem ouvir cantada indesejada, sem ninguém te olhar duas vezes ou te julgar por isso. Rapazes também andam de boas sem camisa às vezes, e tem gente que anda até descalço. Os alemães são bem tranquilos em relação a corpo, nudez, etc, ninguém aqui acha que roupa define valor. (e aliás, nos lagos, é bem comum fazer nudismo, beeeem beeem comum.)

Outra maneira de aproveitar o verão: sorvetes. Os alemães não são conhecidos por seus sorvetes, mas por aqui você encontra sorveterias ou cafés e docerias com sorvetes super produzidos!

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Meio caros, é verdade, mas absolutamente necessários, convenhamos.

Verão também é época de fruta. Muitas frutinhas típicas daqui dão principalmente no verão, como groselha, morangos, framboesas e outras frutas vermelhas.

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Groselha, uma frutinha típica daqui que dá no verão.

O problema daqui no verão são as bebidas. Os alemães ainda não sacaram o conceito de “bebida gelada”. Tem bebidas frias. Mas geladas, geladas mesmo, daquelas que você mal consegue segurar a lata porque dói a mão de tão gelada? Esquece. Mas, para beber uma cervejinha, você pode ir a algum dos vários Biergartens, jardins com mesinhas onde as pessoas ficam bebendo cerveja e comendo um salsichão.

Aliás, comer “dentro” é uma coisa quase impensável para alemães em dias quentes. Qualquer restaurantezinho mixuruca terá mesas no lado de fora, na calçada, onde for, e os alemães fazem a maior questão de sentar fora, mesmo que esteja 38˚C, solão, e no lado de dentro esteja bem fresquinho e confortável… (Aliás, eles acham que 15˚C já é quente o suficiente pra sentar fora)

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Ah, claro, e no verão todo mundo faz tudo de bike. Eis a entrada da biblioteca da universidade de Dresden hoje mesmo:

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Acho que é isso! Em Maio eu escrevi também um post sobre a primavera, e a intenção é escrever também sobre o outono e no inverno nos próximos meses!


(Publicado em 7 de Julho de 2015)

Algo sobre celulares

Faz três anos que estou morando na Alemanha, e desde o início tenho o mesmo número de telefone. O que não é estranho. O que é estranho é que até agora, três anos depois, eu ainda não sei exatamente como “ditar” o meu número de telefone. Os alemães não têm uma maneira padrão de dividir os dígitos do número de telefone.

Eu percebi isso na minha primeira semana aqui, quando, ao colocar meus dados em um formulário qualquer com a ajuda do namorado alemão, na hora de escrever o telefone ele falou algo como “melhor dividir os dígitos pra ficar mais fácil de ler, você pode talvez colocar um espaço aqui depois do 3 e um outro entre o 5 e o 9.”. Ahm? “Talvez”? “Por exemplo”? Certamente se tivesse um padrão, o comentário teria sido “ah, aqui você separa o número do telefone assim sempre, viu?”.

Não separar dificulta ler o número, inclusive. É muito mais fácil ler e ditar 112 – 232 – 539 – 972 – 927 sem misturar do que 112232539972927. (números totalmente aleatórios) Tanto que absolutamente todas as seqüências númericas como número de documento, número de código de barras, o que for, separa os dígitos em grupinhos de 3 a 5 dígitos com pontos, traços ou espaços.

E para dificultar mais ainda, os números de celulares daqui são super compridos. Tem números com 12 e números com 11 dígitos. Aqui não existe DDD pra celular, todos os celulares são “válidos” igualmente em qualquer lugar da Alemanha. Os primeiro 4 dígitos do seu número de celular é sempre um código da operadora. São combinações começadas com 015, 016 ou 017. Só que como os números têm portabilidade, se seu amigo tem o mesmo prefixo pro número de celular dele que você, não signifique que ele use a mesma operadora, apenas que ambos os números eram, originalmente, da mesma operadora.

A agenda do meu celular, por exemplo (que sabe separar os telefones brasileiros em +55 (00) 0000-0000), separa o prefixo, mas não separa o resto, fica 0155 00000000.

Para números fixos, a quantidade de dígitos varia bastante também, de cidade pra cidade. Os de Dresden têm 7 dígitos, os que eu tenho de Berlim têm 8 dígitos, um outro de uma cidade bem pequena tem só 5. Os DDDs têm de 3 a 5 dígitos. Aqui em Dresden, por exemplo, o DDD é 0351. Em Berlim, é 030.

E a essa altura você já percebeu que todos os números de telefone aqui começam com 0. Se você estiver ligando de fora da Alemanha você digita o DDI (+49) em vez desse zero no início.

E já que estamos falando de telefones, porque não falar um pouco sobre planos de celular? Em comparação com o Brasil, aqui celular é bem barato.

Um pré-pago básico costuma custar 9 centavos por minuto e 9 centavos o SMS. Eu tenho um plano na minha operadora, a Blau, que eu acho muito bom: você paga 9,90 euros por mês e têm 200 minutos (para ligações para qualquer número na Alemanha), 200 SMSs (qualquer celular na Alemanha) e 200MB de 3G de alta velocidade, e 3G mais lento ilimitado depois dos 200MB. E é um plano pré-pago: ele só funciona se você colocar os 10 euros de crédito antes de virar o mês. Se vc não tiver o crédito suficiente, o plano fica inativo e volta a valer os 9 centavos por minuto até você colocar crédito de novo! Acho muito prático. Tem várias outras opções de planos pré-pagos desse tipo, e você pode escolher e ativar um muito facilmente online no site da operadora, sem tem que ficar fazendo ligações intermináveis e extremamente irritantes.

Os chips você pode comprar facilmente em supermercados e farmácias, costumam custar algo em torno de 15€, e vêm já com 10€ de crédito. E para colocar crédito, dá para fazer online ou comprar crédito também em farmácias e supermercados.

E uma boa notícia é que a União Européia decidiu que a partir de 2017 não vai ter mais roaming entre países europeus. Quer dizer, a partir de 2017, qualquer celular de qualquer lugar da UE funcionará em qualquer outro lugar da UE sem taxas extras. Daí vc ainda vai poder usar o seu 3G tranquilamente em outros países europeus sem pagar mais.


(Publicado em 6 de Julho de 2015)

 

Eleições 3 – Como funciona o segundo turno

Já escrevi dois posts sobre as eleições na Alemanha, esse, que fala um pouco sobre as eleições parlamentares (a mais importante), e os diferentes partidos, e esse, que fala sobre as eleições para o parlamento europeu, para o parlamento municipal, e como funciona para se registrar para votar.

E quando eu achei que não tinha mais nada para falar sobre eleições alemãs, apareceu um ótimo tema para um post.

Hoje foi dia de eleição municipal aqui em Dresden, mais especificamente, eleições para a prefeitura. Como eu já expliquei em outros post, as datas de eleições por aqui são beeem variadas. Cada estado tem seu próprio calendário eleitoral para os cargos do governo e das prefeituras. E mesmo esses são separados: o parlamento municipal, algo como a câmara dos vereadores, foi eleito no ano passado, e agora estamos elegendo o/a prefeito/a.

Hoje foi, na verdade, o segundo turno. E é sobre isso que eu vou escrever. Segundos turnos.

Por aqui é bem raro ter segundo turno de alguma coisa. Isso porque são pouquíssimos os cargos com apenas uma vaga que você elege diretamente. Quer dizer, a chanceler, por exemplo, é eleita pelo parlamento federal, o Bundestag. O presidente é escolhido também pelo Bundestag e convidados (pessoas famosas, tipo jogadores de futebol ou atores de televisão convidados pelos membros do parlamento. Sim, bem esquisito, mas como o presidente não tem nenhuma função muito importante, é mais um representante para acenar da sacada, talvez não seja tão esquisito assim). Os governadores e governadoras (chama Ministerpräsident/in) também é escolhido pelo parlamento estadual, chamado Landtag. O eleitor elege os parlamentares que elegem alguém para esses cargos. O único cargo com só uma vaga eleito diretamente é o cargo de prefeito. Então é o único cargo para qual pode haver um segundo turno.

Qual a lógica do segundo turno? Você tem um cargo com uma vaga e, digamos, 7 candidatos. 30% votam para o/a candidato/a A, 20% votam para o/a candidato/a B, e os outros têm os cinco 10% dos votos, cada. Sem um segundo turno, o/a candidato/a A vence com 30%. Só que talvez aquele A seja o único, por exemplo, que fez uma campanha proibindo a adoção de gatos na cidade. Todos os outros candidatos e candidatas gostam de gatos e têm diferentes propostas para melhorar a vida dos felinos urbanos. 30% da população detesta gatos enquanto os outro 70% ama gatos e dividiu seus votos entre os candidatos e candidatas restantes de acordo com as outras propostas específicas da campanha. Sem um segundo turno, aqueles 30% da população vence embora a vontade representada por eles e seu candidato não seja a vontade da maioria, que adora gatos. Então você faz um segundo turno entre os candidatos com mais votos, nesse caso A e B, e nesse segundo turno muito provavelmente o candidato/a A receberá 30% dos votos, e o/a B, 70% dos votos. E aí, simplificando a história, você sabe a vontade da maioria.

Né? Então qualquer segundo turno minimamente lógico ocorre entre os dois candidatos com mais votos. Certamente na Alemanha é assim também, não?

NÃO.

A regra pro segundo turno aqui é a mais bizarra já inventada: todos os candidatos podem concorrer novamente. Simples assim. Eles que escolhem se querem concorrer novamente ou não. O segundo turno acontece se nenhum candidato conseguir 50% + 1 dos votos, mas todos os candidatos podem escolher concorrer, e, se for o caso, e o resultado for exatamente idêntico ao do primeiro turno, vence aquele com mais votos mesmo que não seja mais que a metade!

Muito estranho. A idéia por trás é que candidatos com propostas similares abririam mão de concorrer para dar a chance para aquele que tem mais chances de ganhar, ou entrariam em acordo, do tipo “se você colocar tal coisa entre as suas propostas, eu abro mão de concorrer de novo”, coisas assim. Quer dizer, a lógica do segundo turno está muito mais em um jogo de coalizões, acordos, apoios e especulações.

Quando eu fiquei sabendo que era assim (e meu namorado só conseguiu me fazer acreditar que era assim depois de me mostrar a lei que diz isso) me pareceu completamente absurdo e sem sentido. Mas agora escrevendo esse post estou até vendo uma lógica por trás. Talvez a idéia é mesmo de forçar os candidatos a fazerem acordos entre si de maneira a juntarem mais eleitores satisfeitos. Talvez para não ter tantos eleitores votando num fulano só para que o outro fulano muito pior não vença. Imagina se você tem os candidatos A, B e C, A com propostas totalmente opostas de B e C, que tem propostas similares mas não idênticas. Num segundo turno, os candidatos B e C discutiriam entre si, fariam acordos para adaptar um pouco as propostas do candidato entre eles que teve mais votos, para satisfazer também aos eleitores do outro, e o com menos votos aceitaria abrir mão de concorrer novamente. Pensando bem, faz realmente muito sentido.

Uma pessoa votando na Alemanha. „Wahlen 2“ von Das Original wurde von Bayernnachrichten.de in der Wikipedia auf Deutsch hochgeladen - Übertragen aus de.wikipedia nach Commons.Original text: selbst fotografiert / Alexander Hauk / www.alexander-hauk.deselbst fotografiert / Alexander Hauk / www.bayernnachrichten.de. Lizenziert unter Attribution über Wikimedia Commons - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wahlen_2.jpg#/media/File:Wahlen_2.jpg

Uma pessoa votando na Alemanha.
„Wahlen 2“ von Das Original wurde von Bayernnachrichten.de in der Wikipedia auf Deutsch hochgeladen – Übertragen aus de.wikipedia nach Commons.Original


(Publicado em 5 de Julho de 2015)