Mês: agosto 2015

Calçadas

O que há para falar sobre calçadas, você deve estar se perguntando.

Se seu interesse por urbanismo for mínimo, então há muito para se falar sobre as calçadas na Alemanha.

Quando a gente vai de um país para outro, a gente percebe bem mais as coisas que incomodam, e às vezes você precisa voltar para o primeiro país para perceber algumas das coisas boas do outro. Na última vez que estive no Brasil, uma coisa que me incomodou muito foram as calçadas, e como é difícil ser pedestre em São Paulo. Ou melhor, como é confortável ser pedestre na Alemanha.

A primeira coisa que você talvez perceba passeando por uma cidade alemã é a grande quantidade de calçadões e areas só para pedestres (e bicicletas), especialmente nos centros históricos. Aliás, uma pequena observação antes de continuar: toda área exclusiva para pedestre é livre para bicicletas também, então sempre que eu disser pedestres pense pessoas e ciclistas.

É super comum que tenha um calçadão principal, bem grande, bem comprido, que também é a rua comercial mais importante da cidade. Em Dresden, é a Prager Straße, essa daqui:

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Dá para ir quase só em áreas exclusivas para pedestres da estação central até o norte da cidade, a Neustadt. Você vai pela Prager Straße, segue pelas ruazinhas que levam à igreja principal, a Frauenkirche, continua por um calçadão-terraço ao longo do rio, cruza uma ponte que pode ser que em breve seja exclusiva para pedestres também, e continua pela Haupstraße, a rua mais fofa de Dresden.

Área só para pedestres no entorno da Frauenkirche

Área só para pedestres no entorno da Frauenkirche

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

E Dresden não é exceção. Calçadões em ruas comerciais nos centros históricos de várias outras cidades podem ser vistos nas fotos abaixo:

Schildergasse em Colônia

Schildergasse em Colônia

Frankfurt

Frankfurt

Mas não são só os calçadões que fazem das ruas alemãs especialmente confortáveis para pedestres (até porque calçadões no centro histórico tb não são raros no Brasil). O desenho das calçadas é muito cuidadoso, e sua execução muito precisa.

As calçadas são frequentemente arborizadas por aqui. Uma maneira de fazer isso, quando a calçada não é suficientemente larga, é pegar o espaço de uma vaga de carro (a cada x metros) para plantar uma árvore. Por exemplo nessa rua aqui:

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Ou nessa:

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Ou nessa:

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No geral as ruas não são desenhadas tendo o carro como prioridade mór do universo, mas sim o pedestre. Um outro exemplo disso são as esquinas. Quando é permitido estacionar na rua, com freqüência a esquina é alargada, tomando o espaço das vagas, para permitir maior visibilidade tanto para o pedestre quanto para o carro, e proporcionando ainda um espaço extra para o pedestre esperar de boas para atravessar, sem ficar no caminho de quem está passando.

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Também não é raro que, em algumas ruas com pouco tráfego de automóveis, não haja desnível (ou praticamente não) entre a rua e a calçada, de maneira que a rua é, de certa forma, uma extensão da calçada. É o carro que tem que dar a prioridade para os pedestres e ciclistas, claro.

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E quando eu falo da execução e do acabamento: são alguns detalhes aqui e ali na construção da rua e calçada que deixa tudo mais simpático e arrumado. Por exemplo, quando é possível estacionar em um dos lados da rua, freqüentemente a área para vagas tem um piso diferente, por exemplo um paralelepípedo, pra separar visualmente essa área do leito carroçável. Nos grandes calçadões, desenhos de piso com diferentes materiais criam essa organização e delimitação do espaço sem a necessidade de bloqueios físicos e visualmente indesejáveis. Quando o bloqueio físico é necessário – por exemplo para impedir que carros entrem em calçadões – ele é feito com elementos singelos e discretos, que não atrapalham o fluxo de pedestres.

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A rua asfaltada, a área para estacionar em paralelepípedo, e a área para atravessar no mesmo piso da calçada.

Desenhos de piso marcando diferentes espaços

Desenhos de piso marcando diferentes espaços

Desenho de piso

Desenho de piso

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Bloqueio físico para impedir a entrada de carros em uma área de pedestres

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Bloqueios físicos para impedir a entrada de carros numa área de pedestres

E às vezes são pequenos detalhes que mostram o cuidado com que esses espaços são pensados. Por exemplo nesse calçadão, como o material do piso muda em volta do mobiliário urbano, fazendo com que cada lata de lixo ou poste de luz se encaixe perfeitamente no espaço que ocupa. Mobiliário urbano é outra coisa a se elogiar também: bancos em calçadas e calçadões não são raros, e freqüentemente bem projetados. Até a maneira como a água pluvial é recolhida ao longo das ruas é feita cuidadosamente: grelhas discretas e bocas-de-lobo bem escondidas fazem o trabalho sem prejudicar visualmente o espaço.

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Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Mobiliário urbano em uma praça

Mobiliário urbano em uma praça

Não sei explicar bem, mas um lugar em que eu sempre percebo esse cuidado de acabamento é no encontro da rua com o edifício. É um detalhe bobo mas faz diferença e não é fácil fazer direito. Alguns bons exemplos:

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Além disso, frequentemente as calçadas e calçadões se misturam com áreas privadas dentro de lotes de edifícios diversos. Às vezes o uso público desse espaço privado é desejado e encorajado – quando por exemplo uma passagem é criada ligando duas ruas por dentro de um lote privado – às vezes indesejado e desencorajado. A grande diferença é que a separação no último caso não é feita com portões e muros hostis que tiram a permeabilidade visual dos espaços públicos mas com pequenos elementos que já avisam ao passante que aquele espaço é menos aberto – embora não completamente fechado – que o espaço público. Vegetação, desnível ou uma entrada estreita são alguns desses elementos.

Passagem aberta por dentro de lotes privados conectando duas ruas. Com restaurantes e lojinhas.

Passagem aberta por dentro de lotes privados conectando duas ruas. Com restaurantes e lojinhas.

Essa área é aberta mas é claramente marcada como privativa pela diferença de piso que desencoraja o transeunte a entrar.

Essa área é aberta mas é claramente marcada como privativa pela diferença de piso que desencoraja o transeunte a entrar.

E como já descrevi nos posts sobre bicicletas, as ruas alemãs são desenhadas para caber todo mundo – o pedestre, a bicicleta, a cadeira de rodas, o transporte público, a árvore e, quando sobra um espacinho, o carro também. Eu nunca tentei cruzar a cidade numa cadeira de rodas, mas suspeito que não seja muito difícil – não é totalmente incomum ver pessoas em cadeiras de roda sem acompanhantes por aí, e quem como eu anda quase sempre de bike também logo percebe como são incomuns calçadas sem rebaixamento na esquina. Eu posso contar nos dedos as de Dresden, são tão raras que sei exatamente onde estão.

Área rebaixada para cadeira de rodas.

Área rebaixada para cadeira de rodas.

E, talvez a coisa mais importante para o conforto visual dos cidadãos e, inclusive, sua segurança: você nunca vai ver numa cidade alemã fiação aérea. Tipo nunca. Nunca vi. Só em área rural e mesmo assim bem de vez em quando. Toda a fiação é enterrada, e que diferença gigante isso faz para a cidade. Ainda que isso não significasse uma melhoria na segurança – mas significa – só pela questão estética já faz todo o sentido ter a fiação enterrada. Estética urbana não é uma questão pequena e insignificante, ela influencia demais a qualidade de vida das pessoas. Há estudos que mostram, por exemplo, que um espaço arborizado facilita a recuperação de pacientes em hospitais, melhora a socialização entre vizinhos em um bairro, e até é responsável pela diminuição da criminalidade local. A fiação aérea prejudica demais a estética da cidade e certamente também contribui para aumentar o stress e a insatisfação das pessoas que nela moram.

Umas fotos aleatórias para terminar:

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Rua em Dresden com uma calçada bem mais larga que o leito carroçável.

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Detalhe de grelha cobrindo canteiro de árvore

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Uma rua arrumadinha em Dresden

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Uma passagem de pedestre com uma pracinha super simpática em Hamburgo

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Uma calçada arrumadinha em Hamburgo

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No centro de Hamburgo, uma rua super estreita, com apenas uma faixa, e calçadas largas e generosas.

Acho que é isso que tem a ser dito sobre calçadas alemãs. Acabou ficando um post pra arquitetos, mas taí!


(Publicado em 29 de Agosto de 2015)

Escolas alemãs

Esses dias eu recebi um email de um rapaz me pedindo para escrever sobre o dia-a-dia nas escolas alemãs.

É um assunto um tanto difícil uma vez que eu vim pra cá bem depois de terminar a escola, e não tenho filhos ainda para acompanhar seus dias escolares.

Mas, andei dando uma perguntada para alguns alemães e juntei algumas informações que dão um post talvez interessante sobre escolas por aqui. E também é um ótimo momento pra escrever esse post, já que amanhã começa o ano letivo por aqui (mas isso varia de estado pra estado, então em alguns estados já começou na semana passada ou anterior, e em outros ainda vai começar na semana que vem ou seguinte).

No geral, me parece que as escolas aqui funcionam de maneira bem parecida às escolas no Brasil. O sistema educacional eu já expliquei como funciona neste post aqui, onde eu expliquei também como funciona o sistema de notas, que é bem diferente.

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Uma escola, aí.

Já as aulas são mais ou menos as mesmas: 5, 6, ou 7 por dia dependendo da escola e da série, de 45 min, com 5 minutos de intervalo entre as aulas e 20 minutos a cada 2 aulas. As matérias são mais ou menos as mesmas, mas no colegial você tem algumas opções de matérias. Por exemplo, além de inglês você tem que estudar uma outra língua estrangeira. Na escola do meu namorado, as opções eram francês ou latim. Nos últimos dois anos você ainda pode escolher algumas matérias para focar. Então por exemplo, se você escolher física você tem 5 aulas de física por semana, enquanto os que não escolheram física têm só 3. Isso considerando que você escolheu fazer o Gymnasium, ou seja, estudar todos os 12 anos de escola (lê lá o post do sistema educacional pra entender as possibilidades e diferentes tipos de escola. Gymnasium é a versão mais “completa”, que te dá como diploma o Abitur, que é o que você precisa para ingressar em uma universidade). No Abitur (o exame final de término da escola, seria como um vestibular, só que em vez de ser um exame de ingresso na universidade é um exame de término do ensino médio) você também pode escolher algumas matérias para fazer o exame, mas tem algumas regras: parece que tem 4 “blocos” de matéria (por exemplo, um bloco seriam as línguas estrangeiras, outro, as matérias exatas, etc), e você tem que fazer o exame para pelo menos uma matéria de cada bloco. Você vai escolher, claro, baseado no curso que você quiser estudar na universidade e as matérias exigidas no Abitur para aquele curso.

Uma diferença é que não tem períodos diferentes (matutino, vespertino, noturno…). Todo mundo estuda no mesmo horário, começando lá pelas 8 da manhã (varia de escola para escola e principalmente nos diferentes estados), e vai até por volta da hora do almoço, embora em algumas ocasiões, séries ou semestres pode ir até um pouco mais tarde, também. Outra coisa é que se você chega atrasado você não espera até a segunda aula pra entrar, você entra quando chegar para perder o mínimo possível da aula. Mas, claro, chegar atrasado é bem problemático, a “punição” (sei lá, ligar para os pais, nota, o que for) variando de escola para escola.

E freqüentar a escola é obrigatório aqui. Se você faltar muitas vezes sem uma justificativa dos pais (atestado médico ou o que for), a polícia pode ir até a sua casa te buscar e te levar para a escola (e seus pais certamente enfrentarão problemas com as autoridades se você não estiver freqüentando a escola). O que significa que por aqui não existe aquela alternativa de educar os filhos em casa que é relativamente comum nos EUA. Todo mundo tem que ir pra escola, aqui.

Tem escolas particulares também, mas não é tão comum como no Brasil. São mais escolas com iniciativas pedagógicas diferentes como a Escola Waldorf, escolas Montessori, ou internatos. Mas tem escola pública pra todo mundo e elas são bem boas, então as particulares são mesmo para casos “especiais” (pais que queiram uma educação particular, e tal).

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Um Gymnasium cuja construção tinha acabado de terminar, prestes a ser inaugurado.

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O mesmo Gymnasium

Positivo é que, mesmo a maior parte das escolas sendo pública, elas não estão hiper saturadas de alunos. Como eu falei tem só um período, e as salas costumam ter não mais que 30 alunos, mesmo no colegial. Normalmente a classe é a mesma através dos anos (exceto, claro, quem saiu e quem entrou na escola, mas no geral eles não costumam misturar os alunos de novo a cada início de ano letivo).

Uma coisa particular é que, pelo que me disseram, não é sempre que tem cantina na escola. Normalmente os alunos trazem comida de casa. Meu namorado contou que na escola dele tinha uma cantina que era gerida pelos pais, que faziam comidinhas para vender lá. Mas não é a regra. E em nenhuma escola tem lanche ou almoço ‘incluso’, você que traz ou compra o seu.

Mas os livros parece que você ganha da escola, não precisa comprar.

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Uma sala de aula fofinha da primeira serie, com os livrinhos e uns docinhos pras crianças preparadinhos para receber os alunos no primeiro dia de aula. Deu até vontade de voltar pra primeira série!

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Outra salinha preparada pro início das aulas, com os livrinhos novos separadinhos ali do lado. A coleção de livros novos no começo do ano letivo era a melhor parte de estudar, não era?

Uma diferença bem grande é que aqui só se chama os professores e professoras pelo sobrenome, com Frau (senhora) ou Herr (senhor) na frente. Imagina você chamando a sua tia da primeira série de Senhora Oliveira? (mas no jardim da infância eles também chamam as tias de tias, ufa!) Ah, os professores e professoras são senhores, mas as alunas e alunos eles (profs) chamam pelo primeiro nome, mesmo. E aqui se aplica aquela regrinha que você aprendeu na sua aula de alemão: Os professores você trata por Sie (senhor/a), os alunos e alunas são tratados por du (você).

Talvez a coisa mais interessante é que tem um ano de escola – o décimo ano, que seria o correspondente ao primeiro colegial – em que os alemães estudam o ano inteiro a respeito do 3˚ Reich (o período entre 1933 e 1945). Quase em todas as matérias esse tema é tratado exaustivamente nesse ano, e os jovens alemães terminam o décimo ano sabendo nos mínimos detalhes todas as atrocidades cometidas pelo país durante a segunda guerra mundial. A idéia é chocar, mesmo, para que a história não seja repetida.

Mas, de longe, de looooooooonge a melhor parte de estudar em uma escola alemã é a Schultüte!! Escrevi um post inteiro sobre isso aqui, mas vou dar uma resumida: no primeiro dia de aula da primeira série, ou seja, quando as crianças entram na escola, todas as crianças ganham uma Schultüte. É um cone gigante cheio de doces e brinquedos dentro, preparados pelos pais! É uma coisa totalmente regra, todo mundo ganha, e é meio que um símbolo de início da escola, você vê sempre por aí.

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Nessas duas salas de aula preparadas para o início das aulas, por exemplo:

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Ali no mural ali atrás uns desenhinhos de Schultüte.

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Ou nessa daqui, com os desenho de uma Schultüte na lousa! Fofo.

Acho que é isso o que eu tenho a falar sobre escolas. Se uma hora dessas eu resolver arranjar alguma criança, saberei mais sobre escolas alemãs e escreverei um outro post. (Provavelmente quando esse blog estiver comemorando seu décimo aniversário, ou coisa assim.)

Pra terminar, umas fotos de umas escolas por aqui:

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Ah, sim, vale lembrar que a maioria das coisas que eu escrevi aqui foi baseado no que alguns poucos alemães me contaram sobre suas experiências em suas escolas. Pode ser que algumas das informações passadas não sejam gerais e variem entre escolas em diferentes lugares da Alemanha. Se você tem alguma coisa pra adicionar, deixa um comentário! =)


(Publicado em 23 de Agosto de 2015) (Espero que o post tenha te ajudado um pouco no que você queria saber, Rômulo! =) )

Precisão alemã

Os alemães são conhecidos no mundo por serem bons engenheiros. Eu, como arquiteta, posso dizer que em termos de construção eles são realmente bem detalhistas, todos os detalhes construtivos são executados muito perfeitamente, os projetos tem milhares de pranchas de detalhes… Não por acaso a revista de arquitetura alemã mais conhecida e vendida chama “Detail”.

E isso indica uma característica da cultura alemã: precisão.

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Os alemães são muuuuuito precisos.

Eu poderia dar como exemplo os horários dos trens e ônibus. Realmente, todo transporte público aqui tem horário específico para passar em cada ponto (preciso no minuto, tipo 13:48, 16:23, etc), que eles costumam acertar. Mas para trens isso não é tão estranho – é meio que nem avião, tem que ter uma hora certa exata pra sair. Para ônibus, claro, já é uma precisão bem avançada saber exatamente o minuto em que ele vai passar.

Mas esse nem é o melhor exemplo. Outras coisas mostram essa precisão com mais… precisão.

Como por exemplo receitas. Sim, receitas, de comida. As receitas aqui não dizem “meia xícara de chá de açucar”, “3 colheres de chá de sal” ou “3 copos de leite”. Elas dizem “85g de açúcar”, “10g de sal” e “600mL de leite”. Tudo bem, todo mundo tem uma balança de cozinha e um copo com medidas de volume em casa. O curioso mesmo é que eles ficam totalmente confusos com receitas que medem os ingredientes em xícaras, colheres e copos! O meu namorado uma vez comentou comigo, achando que me surpreenderia, que quando ele morou nos Estados Unidos as receitas eram todas em xícaras e como você ia saber quanto era meia xícara de chá? Qual xícara? Tem xícaras de chá de tantos tamanhos! Eu, achando receitas em xícaras totalmente normais, logo argumentei que o que importa é a relação, não a medida exata. Tanto faz se é a aquela ou essa xícara, se você usar a mesma xícara pros vários ingredientes da receita, já basta. Fora que em que receita importa uma medida tão precisa do ingrediente que uma xícara um pouco maior ou um pouco menor faria diferença? Mas os alemães acham um absurdo receitas que não dizem medidas precisas.

Outro exemplo é o troco. Aqui, como em qualquer lugar, vários preços são quebrados: 1,99€, 0,62€, etc. A diferença é que aqui eles te dão o troco exato, sempre. Sempre. O que significa que depois de poucas semanas você já tem uma coleção infinita de moedinhas de um e dois centavos, que você nunca usa. Aliás, não apenas eles dão o troco exato, mas se você pagar algo que custa 0,99€ com uma moeda de 1€, é totalmente normal esperar o troco de um centavo. Totalmente normal. E troco “em bala” é completamente impensável.

E o que fazer com os montes de moedinhas de um ou dois centavos? Você pode começar a pagar com elas, também, para pagar exatamente os preços quebrados. Eu já estou aprendendo a fazer isso, para não acumular. Mas uma boa alternativa para as moedinhas acumuladas é comprar selos na máquina que vende selos na frente das agências dos correios. São as únicas máquinas que eu conheço que aceitam moedinhas até de um e dois centavos, porque os preços dos selos são super quebrados e a máquina não dá troco. Então eu vou guardando essas moedinhas num cofrinho e sempre que preciso de um selo, junto as moedinhas necessárias e pago tudo em 1 e 2 centavos. Depois de uns 6 meses acumulando moedinha, já dá pra comprar um selo, hehehe!

Ah, outro ótimo exemplo. Sabe quando você vai num restaurante/lanchonete e tem a opção grande e a opção pequena? Aqui, normalmente o menu não diz “grande” ou “pequeno”. Diz 0,3L ou 0,5L (eles raramente falam de volume de bebidas em mL como a gente, mas sempre em L, e às vezes em cL!). Ou, se for uma pizza, diz 28cm ou 32cm. Grande ou pequeno é muito relativo, tem que ser mais preciso que isso. E aí todos os copos de restaurante tem a marquinha mostrando onde que é 0,3L, ou 0,5L, ou o que for. (É bem capaz que tenha alguma lei que diga que isso é obrigatório!)

Os próprios alemães têm noção que eles são obcecados com precisão. Eles brincam que a expressão em inglês “Fuck you!”não era suficientemente precisa, de maneira que a versão alemã da expressão ficou “Fick dich ins Knie!” ou “vá se foder no seu joelho”, afinal, tinha que especificar onde, né.

Esse detalhismo todo é bom em muitas situações, mas em outras, altamente irritante. Eles acabam ficando super exigentes com qualquer coisinha. Por exemplo: nos meus primeiros meses aqui, eu dei aula de inglês para alguns alemães. Em uma ocasião, eu tinha feito uma frase que tinha que completar os pronomes que estavam faltando. E a frase era algo desse tipo: “Todos os meus colegas do escritório estudaram na mesma faculdade que eu”. E o alemão em questão, quando leu a frase parou, e olhou… e disse: “não… mas isso não é possível… porque no escritório sempre tem pessoas de diferentes áreas, tem a pessoa do RH, a pessoa do departamento jurídico… não dá pra ter estudado todo mundo o mesmo curso!” … Era só uma frase boba para completar os pronomes! E o pior: quando eu contei essa situação para o meu namorado, rindo e achando que ele iria responder “hahaha, nossa, que exagero!”, a resposta dele foi “Ah, mas é que às vezes essas frases de curso de línguas não fazem sentido mesmo, e…”… (reticências ad infinitum).

E aliás, em qualquer situação que eu faça alguma reclamação pro meu namorado do tipo “Ah, você sempre faz tal coisa!” ou “você sempre diz sei lá o quê!”, ele SEMPRE (e nesse caso é sempre mesmo) responde “não, não é verdade! Não é sempre! Naquele outro dia lá eu fiz diferente, e…”. Ele acha um absurdo que eu diga “sempre” quando o correto seria “a maioria das vezes” ou “realmente muitas vezes” ou “bem mais vezes do que o necessário”, etc…

Mas a verdade é que você acostuma com essa precisão, que é muito conveniente em várias situações.


(Publicado em 1˚ de Agosto de 2015)