Mês: setembro 2015

Bicicletas e a polícia

O que tem uma coisa a ver com a outra, você está se perguntando?

Eu já escrevi vários posts sobre pedalar na Alemanha (esse, esse também, mais esse, esse aqui e esse outro), mas recentemente, passei por três situações diferentes que eu achei que calhariam contar no blog, e talvez combinem bem num post. Um post sobre bicicletas e a polícia.

Como eu já devo ter mencionado em algum dos outros posts sobre bicicletas, é obrigatório para ciclistas terem farol na frente e atrás da bike a noite. Isso não é novidade, nem diferente: no Brasil é obrigatório também. Mas desde que eu cheguei me avisaram que por aqui isso é levado a sério e você pode mesmo ser parado pela polícia e multado se seu farol não estiver funcionando. Então eu sempre me certifiquei que as luzes estavam em ordem, mas nunca tinha me acontecido de me pararem ou de ver algum policial parando ciclistas sem farol. Até outro dia.

O meu farol dianteiro tinha queimado, e eu demorei um pouco pra trocar porque era verão e só escurecia depois das 21h, e normalmente esse horário eu já tinha voltado pra casa. Alguns dias aconteceu de eu voltar depois de escurecer, e eu super preocupada com o farol, olhando ansiosa pra cada carro de polícia que passava achando que eles poderiam me parar e me multar a qualquer momento. Mas não aconteceu nada e eventualmente eu comprei uma lâmpada nova, troquei, e tudo bem.

Só que o fio que liga a lâmpada à roda (é daqueles faróis que acendem com a energia produzida pela roda) estava (ainda está) meio com mal contato e às vezes o farol apaga e eu preciso dar uma mexidinha de leve no fio para ele voltar a acender. Lógico que a única vez na vida que eu passei por um policial parando bicicletas foi num desses momentos em que o farol apagou por causa do mal-contato do fio.

O policial estava numa esquina fazendo justamente isso: olhando as bicicletas que passavam e parando aquelas que estavam irregulares por um motivo ou outro. Ele me parou e perguntou se eu sabia que o farol da frente não estava funcionando. Eu respondi que estava sim, era só um mal-contato que fazia com que ele apagasse de vez em quando. Lógico que quando testamos – ele segurou a bicicleta e eu girei o pedal pra ligar o farol – não funcionou. Testamos umas 20 vezes e nada… E eu insistindo “não, mas eu troquei na semana passada, é só um mal-contato, eu tenho certeza que está funcionando, não pode ser!!”
Aí ele foi checar a de trás e LÓGICO que nessa situação o farol de trás TAMBÉM resolveu não funcionar. Por que, né, seria muito fácil se tudo funcionasse como devia. E o policial falando “mas como assim, uma bicicleta tão nova e você não troca o farol… não pode, é perigoso, bláblá…” “Mas eu troquei, eu juro que está funcionando!!”.

Ele falou que a multa para cada farol que não estava funcionando era 10 euros, e eu teria que voltar empurrando a bicicleta… Aí, inconformada com os faróis, eu falei que ia dar uma volta ali na esquina num círculo pra ver se funcionava. Pronto, foi só pedalar de verdade que os dois faróis voltaram a acender… Ele deu ok, e eu fui embora bem aliviada, que os 20 euros teriam feito falta.

Então taí, eles fiscalizam mesmo. Na ocasião era no final do verão, quando começa a escurecer mais cedo, e já é mais freqüente que as pessoas pedalem a noite também. Então acho que nessa época eles fiscalizam com mais freqüência, até pra algumas pessoas multadas servirem de exemplo pra todo mundo ir consertar logo seus faróis antes do outono e inverno, quando escurece beeeem mais cedo.

Primeira dica: não ande a noite sem faróis.

A segunda experiência com bicicletas e a polícia foi um pouco menos feliz. Eu estava outro dia saindo tranquilamente da biblioteca quando encontrei um amigo – também brasileiro – meio sem saber o que fazer: a bicicleta dele tinha sido roubada, ali na frente da biblioteca. Era uma bicicleta super boa que ele tinha trazido do Brasil, achando que aqui poderia usá-la tranquilamente sem medo de roubo… só que não.

Ligamos para a polícia, que nos disse que teríamos que fazer um B.O. ou online ou numa delegacia. Foi até bem fácil fazer o B.O. no site da polícia, apesar de que precisamos de uma ajudinha alemã pra entender tudo o que estava sendo perguntado no formulário. Coisas importantes que eles perguntam: uma descrição da bicicleta – se você tiver foto melhor ainda; algum número de registro (tipo um número do chassi pra bicicletas, que fica gravado em algum lugar do quadro, costuma ter nas bicicletas daqui, imagino que nas do Brasil também); e se você tem um documento que comprove a compra da bicicleta. Isso é um detalhe que se você comprou uma bicicleta usada, meio tosca, você certamente não tem, e eu acho que se eles encontrarem a bicicleta roubada mas você não puder provar que é sua porque não tem esse documento de compra, suspeito que eles não devolvem ela pra você, não…

Então se você comprar uma bicicleta nova, ou semi-nova, boa e cara, certifique-se de guardar ou exigir o documento de compra pra poder provar que ela é sua!

Então segunda dica: cuidado onde você deixa sua bicicleta, se ela for boa vale a pena investir num cadeado mais seguro. Os melhores que tem aqui, pelo que eu sei, são esses assim:

ou assim:

E são super caros, por volta de uns 80 euros por um cadeado bom. E mesmo assim, não deixe sua bike em locais com pouca visibilidade e com pouco movimento (ou use uma toscona qualquer que se roubarem tudo bem).

A terceira experiência com bicicletas e as autoridades (dessa vez não foi a polícia) aconteceu no fim de semana passado. Eu deixei a bicicleta de manhã na estação de trem, e voltei para buscá-la a noite. Quando cheguei, tinha o seguinte adesivo na minha bicicleta:

2015-09-29 14.45.18

Na verdade ele não tinha sido colocado na minha bicicleta mas em alguma outra do lado, e a pessoa quando buscou tirou o adesivo e jogou na minha bicicleta. É um adesivo da prefeitura, e está dizendo a bicicleta já está lá há vários dias, e não é permitido deixar sua bicicleta em locais públicos por tempo indefinido. O aviso informa que se você não retirar a sua bicicleta até dia 8 de outubro, eles vão “guinchar” a bicicleta e aí você (se quiser buscar a bicicleta na prefeitura depois) terá que pagar uma taxa pelo trabalho deles de quebrar o cadeado, retirar a bicicleta e guardá-la até você ir lá buscar. Está marcado com a data de 15 de setembro, então eles te dão umas três semanas pra descobrir esse aviso lá na sua bicicleta e retirá-la, bastante tempo. O adesivo é de plástico pra não estragar na chuva e dessa cor agradável pra você ver bem de longe. Eu olhei as outras bicicletas paradas por ali e algumas outras tinham esses adesivos colados no quadro.

Como era na estação de trem, devem ter várias pessoas que deixam a bike lá e vão viajar e voltam sabe-se lá quando, e tal. O que eu não sei é como que a prefeitura consegue controlar quais bicicletas já estão lá há muito tempo e devem receber avisos pra retirar… Será que eles fotografam o local e chegam de tantos em tantos dias? Me parece tanto trabalho…

Então, terceira e última dica: não deixe sua bicicleta por muitos dias seguidos num local público.

E isso. Bicicletas dão vários posts mesmo.

Vegetarianismo e produtos orgânicos

Desde que vim morar na Alemanha passei a conhecer vários vegetarianos. No Brasil eu conhecia uns dois. Aqui cada vez que convidamos alguém em casa temos que oferecer uma alternativa vegetariana pro jantar, ou no mínimo ter o cuidado de perguntar antes de decidir o que cozinhar, porque as chances são grandes de que carne não possa estar no menu.

As fontes divergem, mas parece que há mais de 6 milhões de vegetarianos, o que daria quase 10% da população total alemã. É a terceira maior taxa de vegetarianismo na União Européia, perdendo apenas pra Itália e pra Suécia. Desses 6 milhões, aproximadamente 800.000 são veganos.

Pesquisando esses números, descobri também um termo que nunca tinha ouvido falar: part-time vegetarians. Parece um tanto engraçado que alguém escolha ser vegetariano apenas parte do tempo, mas parece que uma boa parte dos alemães escolhem reduzir o consumo de carne ao invés de cessá-lo totalmente, conscientemente não comendo carne em 3 ou mais dias da semana. Eu li em uma fonte que 52% dos alemães fazem essa escolha… não sei se é fato, mas não duvido completamente.

O resultado é que praticamente qualquer restaurante tem opções de pratos vegetarianos, embora carne suína seja um elemento super importante da cozinha alemã. Nos refeitórios, por exemplo, como os de universidades (conhecido como mensa), SEMPRE tem no mínimo uma opção vegetariana, sem exceção.

O engraçado é que, embora vegetarianismo seja super normal, churrascos entre amigos também são, mesmo entre vegetarianos. Eles não grelham só carne, mas também legumes, queijos, carne de soja, um monte de alternativas.

Essa alta taxa de vegetarianismo no país é sintoma de uma crescente preocupação com maus-tratos de animais, além de outras questões de sustentabilidade e saúde relacionadas com a produção de carne.

E para quem também atenta ao bem estar dos animais, mas não escolhe o vegetarianismo, existem alternativas: as comidas orgânicas, ou “bio”. Agora isso está aos poucos ficando mais comum no Brasil também, mas aqui já há um tempo tem essa tendência de escolher produtos definidos como orgânicos. São os produtos que tem um selo “bio”, esse aqui:

EU_Organic_Logo_Colour_rgb

Esse selo garante um nível de qualidade de acordo com regras da União Européia, que, resumindo:

  • O produto respeita a natureza
  • O produto foi produzido de maneira sustentável
  • Os processos de produção desse produto são controlados anualmente por autoridades para certificar que eles respeitam todas as regras de produção orgânica, além das regras da vigilância sanitária e do respeito ao consumidor.
  • Animais de fazenda podem pastar livremente ao ar-livre e são tratados de acordo com condições avançadas de bem-estar animal.
  • Organismos modificados geneticamente não são permitidos
  • Para comida, há limitações estritas quanto ao uso de pesticidas químicos, fertilizantes e antibióticos.
  • Agricultura orgânica tem limitações estritas quanto ao uso de aditivos alimentares e outros.
  • A maioria dos aditivos para os produtos da fazenda vêm da própria fazenda usando recursos e conhecimento locais.

(Lógico que essas regras são bem mais precisas que esses itens vagos que são só pra dar uma idéia geral)

Esse é um dos selos de comida orgânica que existe (o europeu), o mais comum, mais há outros selos tb, com regras mais ou menos estritas. Além disso, o prefixo “bio” só pode ser usado no nome de um produto se ele respeitar essas regras e tiver algum dos selos. Então você não pode dar um nome qualquer pro seu produto com “bio” na frente sem ter esse selo.

IMG_4950

Alguns produtos orgânicos no supermercado. Obviamente eles sempre têm embalagens verdes.

IMG_4952 IMG_4949

Então comprar carnes orgânicas também é uma boa alternativa pra quem não escolhe o vegetarianismo.

Qualquer supermercado vende uma seleção de produtos orgânicos, mas há também supermercados só de orgânicos, pra quem realmente quer consumir exclusivamente produtos orgânicos.

Mas claro que nem tudo é lindo e perfeito: o maior problema dessa questão dos orgânicos é que os produtos com esse selo são bem mais caros que os “normais”. Como a foto lá de cima exemplifica bem, o litro de leite orgânico custa 1,09€, enquanto o litro de leite “normal”, apenas 0,55€. Então a questão de escolher produtos orgânicos não se limita só a uma preocupação com o meio-ambiente, mas também a uma questão financeira e social: se você está com o dinheiro contado, certamente não é a maneira como o leite foi produzido que vai ser seu critério pra compra, especialmente quando um é o dobro do preço do outro…

Mas é claro que essa tendência de preferir orgânicos não é nada negativa, e a Alemanha é o maior importador de produtos orgânicos na Europa: 40% dos produtos no mercado têm o selo.

Esse artigo do Spiegel (em inglês) fala um pouco mais sobre os produtos orgânicos na Alemanha pra quem interessar o assunto.


(Publicado em 24 de Setembro de 2015)

 

Small talk

Eis uma coisa em que os alemães são realmente péssimos: Small talk. Conversinha boba entre pessoas que não se conhecem bem, aquele “nossa, que tempo feio, né?” “ah, sim, parece que amanhã vai chover de novo, e…”

Se você encontra algum conhecido alemão na rua por acaso, e pára para uma conversinha boba (e cuidado que falar “oi, tudo bem?” é o mesmo que falar “oi, nossa, vamos parar aqui pra conversar que eu quero ouvir da sua vida, que que tá rolando?”) dá quase pra ver o desconforto no ar. Não é que eles não queiram conversar com você, é que eles realmente não sabem como ter uma conversinha de boas sem compromisso tranquilamente como quem não quer nada.

O mais curioso é como eles identificam socialmente essas coisas. Esses dias eu e o namorado conhecemos um casal de americanos, e passamos várias horas conversando com eles. Conversinha sem nada importante, sobre bichos de estimação, sobre a cidade (eles moram aqui a pouco tempo), sobre aprender alemão… Alguns dias depois eu sugeri para o namorado que convidássemos o casal para alguma coisa, que eles pareceram legais, e tal. A resposta dele foi “Bom, não dá pra saber ainda se eles são legais porque americanos são muito bons de Small Talk, né?”. Quer dizer, ser bom em small talk para os alemães não é uma característica que melhora a sua personalidade, mas que a esconde! Como que uma maneira de disfarçar quem você realmente é ou o que você realmente pensa, e tal. Achei muito curioso. Ano passado a gente esteve nos EUA e a primeira coisa que eu notei é que os americanos são tão legais e simpáticos. Justamente porque eles são bons de Small Talk. Assim como a gente no Brasil, também, ou na América inteira, por sinal. A gente sabe ser simpático, conversar de boas, e tal. Com os alemães é bem diferente, ainda estou por ver um alemão desconhecido sendo simpático comigo sem motivo nenhum. Sabe essa amizade leve que você faz com as pessoas do seu dia-a-dia, não sei, o cobrador do ônibus que você pega todo dia, a senhora simpática que passa toda semana na loja em que você trabalha pra comprar alguma coisa? Vocês se vêem com tanta freqüência que já sabem o nome um do outro, pergunta dos filhos, qualquer coisa bobinha. É, isso não rola aqui, não.

A chance de alguém puxar conversa com você no consultório do médico, no metrô, no ponto de ônibus, exceto se for pra perguntar algo específico são quase nulas, na minha experiência.

E até pela total incapacidade de fazer small talk que é tão difícil fazer amizade com alemães.

Mas nada disso significa que eles não tenham boa vontade ou não estejam dispostos a fazer novas amizades, nem nada disso.

Aliás, uma coisa que eu noto por aqui é que, se desconhecidos não costumam bater-papo, todo mundo sempre se olha nos olhos, em qualquer situação. Às vezes se você está, por exemplo, pagando alguma coisa num caixa, fazendo um pedido num balcão, vendendo alguma coisa pra alguém numa loja, o que for. Você nem sempre (pra não dizer quase nunca) olha nos olhos da outra pessoa. Você fala com educação, mas está olhando a carteira pra achar o dinheiro, ou a coxinha que você está escolhendo pra comer, ou a coisa que está vendendo, etc. Ultimamente eu comecei a prestar atenção e tenho visto que nessas situações, a outra pessoa tá realmente me olhando nos olhos, e comecei a me esforçar pra olhar a pessoa de volta dessa maneira mais direta. E também percebi como é difícil isso, pra mim, de olhar nos olhos de algum desconhecido. Normalmente você olha em volta, no rosto, meio pro lado, o que for, mas tenho percebido que raramente eu olhava desconhecidos diretamente nos olhos.

Talvez a simpatia dos alemães com desconhecidos não esteja nessas conversas tranquilas a que nós estamos acostumados mas em outros gestos mais sutis como uma troca direta de olhares.


(Publicado em 23 de Setembro de 2015)