Mês: outubro 2015

Como os alemães contam

Em alguns outros posts eu já discuti alguns problemas relacionados a números na Alemanha. Na língua alemã, as dezenas são faladas de trás pra frente. Por exemplo. O número 64, em alemão, é “vierundsechzig”, ou “quatro e sessenta”.

Lógico que isso dá um nó enorme na cabeça na hora de falar e entender números em alemão… E resulta em umas confusões bem inusitadas, também. Hoje, por exemplo: estava conversando com o namorado alemão durante o almoço, e ele perguntou “quantas páginas você tem que imprimir, mesmo?”. Como eu estava mastigando, respondi com dedos. Primeiro mostrei 2 dedos, e depois, 8 dedos. E ele: “Oitenta e duas páginas??? Mas é muita coisa!”. E na hora a gente nem tava conversando em alemão. Nada justifica esse erro, a não ser, claro, o costume de raciocinar as dezenas ao contrário por causa da língua materna da pessoa. Achei curiosíssimo.

Então se eu tivesse perguntado pra ele quantas páginas eram, e fossem 28, ele teria mostrado com os dedos 8, e depois 2. Mas, talvez ainda mais curioso que isso é como ele teria feito o número 2 (ou qualquer outro) com os dedos. Quando os alemães contam com os dedos, eles começam COM O POLEGAR!

Tipo assim:

Jeito duvidoso de contar

Não, gente, isso tá errado! Começar contando com o dedo indicador tem lógica: você usa o dedão pra segurar os outros dedos que não estão levantados!

Dois JCDC

Porque o anular sempre levanta com o do meio, e o mindinho com o anular… faz todo sentido usar o dedão pra segurar os outros, sabe.

Não, desculpaí, alemães, vocês não sabem contar direito, não. Mas quem assistiu Bastardos Inglórios já sabia dessa diferença:

Outra maneira diferente que eles têm de contar é quando você vai marcando no papel tracinhos um por um pra ver o resultado depois. Se você está, sei lá, olhando pela janela anotando quantas bicicletas passam na frente da sua casa em 15 minutos. Aí você faz um tracinho pra cada bicicleta e depois vê o resultado total, certo? Assim:

Jeito certo de contabilizar

Vinte e três bicicletas. Os quadradinhos fazem todo sentido porque mesmo um quadrado incompleto é fácil de bater o olho e saber o número. Mas os alemães contam no papel assim:

Jeito duvidoso de contabilizar

Engraçado é que a gente vê bastante esse jeito de contar em filmes/desenhos, então deve ser comum entre pessoas de outros países. Eu nunca usei e nunca tinha visto alguém usar, achei que fosse aquelas coisas que só existem na TV, tipo limão amarelo com pontas. Mas eis que ambas as coisas (o “limão” e essa maneira de contar) existem aqui e são default. Lugar estranho.


(Publicado em 25 de Outubro de 2015)

Sobre nomes não-alemães na Alemanha

Esse post é mais um desabafo que efetivamente informação útil, mas serve.

Uma “dificuldade” inesperada que você pode talvez encontrar aqui na Alemanha é o seu nome. Tem vários nomes em alemão que são iguais ou pelo menos parecidos com nomes em português. Por exemplo Julia, Lisa, Stefanie, Carolina, Mathias, Lucas, Laura, Daniel, entre outros diversos, às vezes idênticos, às vezes com pequenas diferenças na grafia.

Vários outros nomes não são usados em alemão mas não soam estranho para os alemães, pq são nomes bem comuns em Italiano, Espanhol, ou outras línguas da europa ocidental (inclusive português).

Mas alguns nomes mais “exclusivos” do Brasil podem gerar grandes confusões para os alemães.

Mesmo nomes extremamente bonitos como, não sei, por exemplo, digamos, Laís. Laís não é o nome mais indicado para se dar para uma criança caso você planeje que a mesma viva um dia na Alemanha, vamos combinar (tudo bem, mãe, eu sei que não estava nos seus planos!). Vou escrever sobre as dificuldades do nome Laís – porque eu tenho uma certa experiência com esse nome – mas elas valem para qualquer nome um pouco menos mainstream.

A primeira dificuldade é que, ao ler seu nome, os alemães não vão ter muita idéia de como pronunciá-lo. E aí na dúvida eles preferem simplesmente não dizer seu nome nunca, pra não correr o risco de dizer errado. Se você por acaso se apresentar dizendo o seu nome – por mais devagar e claro que você o diga – eles não vão entender e também não vão fazer muito esforço pra entender e lembrar como se pronuncia. E aí quando eles precisarem falar seu nome, vai ser totalmente awkward.

Por exemplo: eu tava fazendo treino de patins na universidade há quase um ano. Era um grupo pequeno com umas 10 pessoas, só. Os dois treinadores sabiam o nome de todo mundo, e em várias situações chamavam ou se referiam às pessoas pelo nome… menos eu, óbvio. Ao invés de simplesmente perguntar, “ei, como fala seu nome, mesmo?”, eles preferiam disfarçar e evitar precisar falar meu nome, o que me fazia sentir totalmente excluída, já que eles tratavam todos os outros por nome. E consequentemente eles nunca me chamavam pra escolher time, ou pra escolher um jogo, ou pra começar um jogo, ou o que for.

Outra situação que me deixou bem ofendida foi quando um tio do meu namorado – alguém que já me conhece há uns 5 anos – precisou se referir a mim e me chamou de “coisa”, tipo “ah, vou dar carona pro Niklas e pra coisa”.  Sabe quando vc fala ‘coisinha’ quando vc não lembra o nome de alguém? Tipo isso. Guardarei rancor dessa situação pro resto da vida. Pô, alguém que eu vejo com relativa freqüência há alguns anos e a pessoa ainda não se deu o menor trabalho de tentar aprender um nome de quatro letras e duas sílabas? Obrigada.

Pela minha experiência, se algum alemão fez esforço para guardar seu nome (sendo ele um pouco diferente) e ainda acertar a pronúncia pelo menos um pouquinho, tenha esse alemão em alta estima: ele ou ela realmente se importa com você.

Uma dificuldade adicional se seu nome não termina com A nem O (que mesmo não sendo as terminações de substantivos femininos e masculinos em alemão, são interpretadas assim com facilidade) para os alemães é saber se você é homem ou mulher. Claro que se a pessoa te conhece pessoalmente não vai ser o caso, mas digamos se você manda um email pra alguém que não conhece. Em situações formais os alemães SEMPRE se dirigem a você por “Sra. Fulana” ou “Sr. Fulano” sendo Fulano seu sobrenome, claro. Como fazer se seu sobrenome não diz nada pra eles? Normalmente eu recebo cartas ou emails endereçados ao Senhor Laís. Isso me deixa mais com raiva que qualquer coisa: putz, é só digitar Laís no Google Images pra descobrir que é um nome feminino, sabe. Que dificuldade… E a impressão que dá é que eles na dúvida escolhem te tratar por “Herr” achando que um homem se ofenderia mais ao ser tratado por “senhora” que uma mulher por “senhor”. Isso que me deixa com mais raiva.

A única boa noção que os alemães têm em relação a nomes que lhe soam estranhos é de não fazer careta quando ouvem seu nome pela primeira vez. Se eles acharem seu nome estranho, feio, ridículo ou engraçado, certamente não deixam transparecer no rosto essa opinião. Só uma vez me aconteceu de dizer meu nome pra alguém e a pessoa fazer uma cara de “what?”, e é alguém que eu nem tenho certeza se era mesmo alemão, então de repente nem era e os alemães todos têm essa boa noção.

Puxa, esse post ficou amargo! Mas para compensar, podemos também mencionar alguns nomes alemães bem duvidosos: Imke, Sieglinde, Dorit, Eberhard, Inga, Uwe (e ainda se pronuncia “Uva”), Jochen, Wolfgang, Jens, Antje, Jörn, Aljoscha. Todos tirados numa rápida olhada na lista de contatos do meu namorado. Ha!

Se você quiser saber um pouco sobre nomes na Alemanha (como funcionam sobrenomes, quais nomes podem ser registrados em crianças (tem regra!) e outras coisinhas assim, dá um pulo nesse post aqui!


(Publicado em 18 de Outubro de 2015)

As quatro estações 3: Outono

Esse é o terceiro post da série As Quatro Estações! Já escrevi sobre a primavera, sobre o verão, e agora chegou a hora de escrever sobre a estação mais legal: o outono!

Eu sei, no post sobre a primavera eu falei que a primavera era a melhor estação do ano. Mas eu também falei que uma das melhores coisas de se morar na Alemanha são as diferentes estações do ano serem bem marcadas e terem suas próprias características e atividades e hobbies ligados e elas. Então a verdade é que cada vez que começa uma nova estação você pensa “oh, finalmente o inverno/verão/outono/primavera chegou, a melhor estação do ano!”!

E como o outono começou há poucas semanas atrás, é hora de apreciar as belezas dessa época do ano. Como por exemplo ficar uma semana inteira de cama com gripe porque a temperatura caiu loucamente de um dia pro outro – esse post está sendo escrito entre espirros.

Mas é bem por aí, mesmo, em termos de temperatura: cai relativamente de repente. Num dia você está indo de regata comprar um sorvete, no outro você está tirando o casaco de inverno do armário e procurando as luvas que ficaram perdidas em algum canto da casa desde o inverno passado.

Pra ter uma noção essa semana (a segunda de outubro) deu uma nevada em alguns lugares mais frios. Aqui em Dresden, dentro da cidade não nevou, mas em volta da cidade nevou.

Mas 15 de Outubro é realmente um recorde em termos de neve, pelo menos nesses anos em que estive aqui. No primeiro ano que estava na Alemanha, nevou no dia 26 de Outubro, mas normalmente a neve chega só em Dezembro, Janeiro, mesmo.

Então de vez em quando tem neve no outono, mas a característica mais marcante mesmo dessa época são, claro, as árvores coloridas.

Tudo fica em tons de amarelo, vermelho e marrom nessa época. IMG_2230 IMG_2290 IMG_2312 IMG_2317

Bom, pra ser sincera essa última foto aí em cima é um caso meio a parte: as espécies de árvores nativas daqui na verdade não ficam vermelhas, só amarelas. As árvores que ficam vermelhas são algumas poucas espécies norte-americanas plantadas em alguns lugares por aqui, mas no geral você vai ver mais amarelo, laranja e marrom, mesmo. É menos colorido que o outono na América do Norte, mas é beeeem bonito mesmo assim:

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Só que nem adianta tentar marcar a sua viagem pra coincidir com a época das árvores coloridas. Isso porque nunca é na mesma data que as folhas começam a ficar secas, e o período mais colorido, em que quase todas as árvores estão secando mas ainda não perderam as folhas, é na verdade um período bem curto, umas duas semanas. Às vezes é mais no começo de outubro, às vezes mais no final… depende das temperaturas daquele ano. A única certeza é que é em Outubro. Mas, mesmo que você venha e fique Outubro inteiro na Alemanha pode ser meio decepcionante, porque também varia de ano pra ano o quão colorido que fica. Alguns anos as folhas ficam bem amarelas, outros anos elas já ficam logo marrons. As três fotos acima são do outono de 2013, que foi o mais colorido que eu vi até agora.

Então outubro é um mês bem bonito. Até porque além das folhas, costuma fazer um tempo relativamente bom em outono, com vários dias de sol, e o frio ainda é bem ameno (entre 5˚C e 20˚C). Mas pra compensar a beleza de outubro tem novembro, que é o mês mais sem graça do ano, provavelmente. As folhas já caíram todas em novembro, então todas as árvores estão secas e sem folhas (exceto as árvores perenes – que nunca perdem as folhas – como os pinheiros. Mas essas árvores tem sempre essa cor bem escura e são bem sem graça e não dão muita vida pra paisagem, não), já faz frio, mas normalmente sem neve, e normalmente o tempo é bem ruim, também, uma chuvinha constante. Novembro é o pior mês.

(Embora dezembro oficialmente seja mais parte do outono que do inverno, acho que não faz ato sentido discutir dezembro no post do outono, então fica pro post sobre o inverno.)

Muito típico dessa época do ano são cogumelos. Em um breve passeio pela floresta você vai ver vááárias espécies diferentes de cogumelos em grandes quantidades. IMG_8048 IMG_8053 IMG_8408 IMG_8416

E um hobby super comum é ir à floresta colher cogumelos. Se você for passear na floresta nessa época do ano vai com certeza encontrar alguns alemães com cestinhas cheias de cogumelos colhidos.

Mas não vai se aventurando a colher cogumelos e comê-los de curiosidade!! Existem algumas espécies super venenosas, e tem que conhecer bem pra saber quais espécies são comestíveis e quais não. Inclusive esses dias apareceram notícias de refugiados que comeram alguns cogumelos de alguma espécie de aparência idêntica a algum outro cogumelo comestível que eles encontram em seus países de origem. O resultado, tragicamente, foi fatal: as pessoas morreram envenenadas!

Outra coisa típica: Abóboras.

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Já tinha se perguntado qual era a relação entre abóboras e Halloween? É que é isso que é produzido nessa época do ano, mesmo. Muitas abóboras. E também maçãs, pêras e ameixas, que são frutas desses meses. Aliás, não é incomum encontrar por aí macieiras cheias de maçãs, e sempre que eu como uma maçã direto da árvore eu me pergunto porque que eu pago por comida se ela cresce em árvores, hehe.

Esse friozinho que começa em outubro já vai te deixando no mood de inverno. Dá vontade de tomar chocolate quente, chá, comer uns cookies… E você começa a perceber um cheirinho típico que te remete ao inverno – o cheiro do carvão queimando, vindo dos sistemas de aquecimento a carvão das casas e prédios mais antigos. É um cheirinho muito típico que você sente andando pelas ruas nos dias mais frios, e pra mim é meio que um cheiro de Alemanha.

Acho que é isso o que há para ser dito sobre o outono. E, claro, as folhas no chão. Muitas folhas no chão.

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Pra terminar, ficam umas últimas fotos de outono:

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(Publicado em 16 de outubro de 2015)