Mês: fevereiro 2016

Shoppings na Alemanha

No Brasil, passear no shopping é um hobby comum, principalmente em cidades grandes. Especialmente entre adolescentes, o shopping é um ponto de encontro onde se pode passar várias horas passeando olhando as vitrines, indo ao cinema, comendo no McDonald’s, tomando um sorvete, etc.

Aqui o shopping é um lugar para fazer compras, onde se vai com esse específico intuito. A parte talvez mais curiosa que eu notei logo de início, é que nem todos os shoppings têm uma praça de alimentação. Dos shoppings que eu conheço, o único que tem algo assim é uma praça beeem pequena, nada a se comparar com um andar inteiro de praça de alimentação que é o comum nos shoppings brasileiros. A questão é que aqui as pessoas não vão no shopping para comer. Elas vão num shopping comprar alguma coisa e de repente, talvez, aproveitem para comer algo. Mas o restaurante no shopping não é o destino final. O principal shopping aqui de Dresden, a Altmarkt Galerie, só tem alguns restaurantes aqui e ali espalhados pelo shopping. o McDonald’s de dentro do shopping nem tem lugar pra sentar nem dentro nem em volta!

Ontem mesmo, sábado à noite, fomos a esse shopping comprar tinta pra impressora e aproveitamos para almoçar/jantar num restaurante muitíssimo parecido com o América que tem nos shoppings brasileiros. Um restaurante relativamente grande, de comida típica americana (vulgo hamburger, mas aqueles mais “especiais” (pra não dizer gourmet)), com uma decoração meio anos 50, e tal. Sábado às 18h, 19h, e o restaurante tava praticamente vazio!

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Mesmo o shopping estava bem vazio se for usar os shoppings no Brasil de comparação.

Outra coisa bem diferente é que os shoppings por aqui raramente têm cinema. Digo raramente porque eu não conheço todos pra dizer que nenhum tem, mas a verdade é que eu ainda não visitei um que tenha.

Sem cinema e praça de alimentação, só sobra compras, mesmo… que você tem que fazer no sábado, porque de domingo fecha. Todos os shoppings fecham aos domingos, e isso não é uma coincidência – é lei, mesmo. Por lei, as únicas lojas que podem abrir aos domingos são aquelas localizadas em estações de trem ou aeroportos, e que vendam coisas essenciais para quem está viajando (mas esse detalhe é ignorado e nas estações de domingo normalmente todas as lojinhas abrem). Mas shoppings, supermercados, lojas no geral são realmente proibidos de abrir no domingo (restaurante pode! Ufa!).

Também diferente é o uso do banheiro em shoppings, que nunca é gratuito como no Brasil. Por aqui, normalmente você tem que pagar 50 centavos para usar o banheiro, mas na maior parte dos casos vc recebe em troca um vale 50 centavos que vc pode usar nas lojas do shopping.

Outra coisa que vc não vai achar é um caixa eletrônico do seu banco… aqui no máximo vai ter um caixa eletrônico geral, daqueles que serve pra todos os bancos mas vc tem que pagar uma taxa extra pra tirar dinheiro lá… não vai rolar um cantinho com um caixa de cada banco como no Brasil.

E, para finalizar a série de esquisitices, os shoppings fecham SUPER cedo. O mais tarde é às 21h, mas tem shopping que às 20h já tá fechado.

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Bom, pelo menos tem escada rolante!


(Publicado em 28 de Fevereiro de 2016)

 

Dirigindo na Alemanha 1 – Validação da CNH

Nesse post, vou tentar detalhar os passos necessários para validar a habilitação brasileira na Alemanha. Nessa parte 1 vou descrever os documentos e passos necessários para começar o processo, e nas partes 2 e 3 falarei respectivamente sobre o exame teórico e o prático.

Começando pelo básico: como turista você pode dirigir de boas na Alemanha com sua CNH brasileira. É bom ter uma tradução em mãos. Aliás carteira internacional: isso é algo pra turista, só. “Carteira de motorista internacional” não é nada além de uma tradução, ela não tem nenhuma validade diferente, nenhuma diferença da sua CNH, é simplesmente uma tradução. Mas se você está vindo morar aqui nem perca tempo fazendo uma “carteira de motorista internacional” porque não vai te ajudar em nada.

Se você estiver morando na Alemanha, você pode dirigir com a sua CNH brasileira por até 6 meses aqui (que é o tempo que você poderia ficar como turista). Depois desse tempo para continuar dirigindo você vai precisar trocar sua CNH pela habilitação alemã, que em alemão se chama Führerschein. O processo de validação da habilitação estrangeira aqui se chama “ausländischen Führerschein umschreiben“.

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A carteira de motorista alemã é um cartão com essa cara aqui.

Infelizmente essa troca não é tão simples nem rápida. Prepare-se para o que eu vou dizer: você vai ter que praticamente fazer tudo de novo, e vai demorar vários meses. Praticamente porque você não precisa fazer nem o curso teórico nem o prático. Mas precisa fazer as duas provas, e elas são beeem mais difíceis que no Brasil. De maneira que eu aconselho, fortemente, a fazer tantas aulas práticas quanto o instrutor da sua autoescola julgar necessário. Dá uma lida no post sobre as provas teórica e prática pra ter uma noção melhor.

Espere gastar entre 6 meses e 1 ano de tempo e 500 e 1000 euros de dinheiro para tirar sua habilitação aqui!

Eu vou explicar direitinho os preços de cada item, e onde que eles podem ser diferentes dos que eu paguei.

Outra observação que eu acho bom fazer já no começo: você talvez tenha lido em outros sites – inclusive no site da embaixada brasileira na Alemanha – que pra validar sua carta aqui você tem que fazer isso antes de completar 3 anos morando na Alemanha. Isso não confere!!! Não sei se é uma informação antiga que mudou ou porque diz isso no site da embaixada, mas eu li todas as informações disponíveis no site do Fahrerlaubnisbehörde (o “Detran” daqui) sobre validar CNHs estrangeiras e não diz uma palavra sobre tempo máximo. E, para não restar dúvidas, eu dei entrada no processo na Fahrerlaubnisbehörde quando já estava morando na Alemanha há quase 4 anos e não foi problema nenhum. E uma amiga falou que conhece alguém que fez quando já morava aqui há 12 anos. Então essa informação do máximo de 3 anos não confere, esquece.

E antes de começar a descrever um processo, uma observação: Não dirija depois dos 6 meses limite sem ter uma carteira alemã!!! É exatamente a mesma coisa que dirigir sem habilitação!! Eu escrevi um post só sobre isso, conseqüências possíveis de dirigir com CNH depois dos 6 meses limite, aqui.

Ok, agora vamos para o passo a passo para dar entrada no processo de validação da sua CNH. Vou explicar cada passo/documento necessário, como obtê-lo, preço, tempo de demora e nome em alemão. Os preços em azul são fixos/tabelados, e os em verde são variáveis de acordo com o lugar onde você for.

Passo 1: Tradução da sua CNH para o alemão • 48€ •  2 semanas • Führerschein-Übersetzung
Esse é o primeiro passo porque é o papel que vai demorar mais, talvez. A tradução da CNH  você pode fazer com algum tradutor juramentado ou, o que é provavelmente mais fácil, fazer na ADAC. A ADAC é tipo uma seguradora de carro… não é exatamente uma seguradora, aqui chama “Automobilclub“, ou clube de automóvel, basicamente eles têm vários serviços relacionados a carros, incluindo seguros, e sei lá o que mais. E um desses serviços é tradução de habilitações estrangeiras. Você pode ir na “loja” deles da sua cidade, entrega lá sua habilitação e eles traduzem e te devolvem. Foi beeeem simples, mais do que ficar procurando algum tradutor juramentado. O preço varia um pouco de estado para estado. Aqui na Saxônia eu paguei 48€. E o tempo de demora também varia um pouco, porque na verdade as traduções são feitas todas na sede deles em Colônia. Então eles têm que mandar sua CNH pra lá e eles traduzem e mandam de volta. Então se você estiver já em Colônia, certamente é bem mais rápido. Pra mim demorou duas semanas, ao final das quais eu fui lá buscar um papel carimbado com as informações da minha CNH traduzidas para o alemão, além da classificação equivalente aqui (as habilitações aqui como no Brasil têm diferentes classes de acordo com o tipo de veículo que ela te dá o direito de dirigir. B é a classe para carros normais).

Passo 2: Curso de Primeiros Socorros • 35€ • 1 dia de curso • Unterweisung in lebensrettenden Sofortmaßnahmen am Unfallort ou Erste Hilfe Ausbildung
Parece complicado, mas é bem simples. Aqui para dirigir é obrigatório ter um curso de primeiros socorros. Esses cursos são muito fáceis de achar, a Cruz Vermelha (Rote Kreuz) daqui oferece esses cursos quase todo dia (inclusive aos domingos). Eu me inscrevi numa quinta-feira e no sábado já fiz o curso, então é bem rapidinho resolver isso. E aqui tem uma diferença: para a habilitação referente à classe B (carros normais), você não precisa do curso “completo”, mas apenas da Unterweisung in lebensrettenden Sofortmaßnahmen am Unfallort, ou “instrução em medidas de resgate em caso de acidente”, que é basicamente uma versão mais simples do curso de primeiros socorros que você precisa para habilitação para caminhões e ônibus, por exemplo. Eu fiz o curso completo, mais por interesse, mesmo, já que é um conhecimento útil de se ter. E escrevi um post só sobre o curso, como funciona, o que aprende, e tal, aqui. Por essa versão completa do curso eu paguei, na Cruz Vermelha, 35€. Pelo que eu vi, o curso mais simples costuma custar por volta de 20€. Ah, uma última observação: o único problema que você pode ter aqui é se você não fala alemão. Pode até ser que você encontre o curso em inglês em algumas cidades maiores, mas se não é só em alemão…

Passo 3: Exame de vista • 6,43€ • 10 minutinhos • Sehtest für Führerschein
Uma coisa legal aqui na Alemanha é que se você quiser fazer um teste de vista pra ver se seu grau mudou, ou se você precisa de óculos, você não precisa marcar consulta num oftalmologista, você pode fazer o teste direto na ótica. Eles oferecem o exame de vista de graça, pra te encorajar a já fazer seu óculos lá com eles. Estou falando isso apenas para avisar que NÃO É ESSE EXAME DE VISTA QUE VOCÊ PRECISA PRA HABILITAÇÃO! O Exame de vista que você precisa pra habilitação é um ainda bem mais simples e muito mais rápido. Mas custa 6,43€. É um preço fixo definido por lei, então vai ser esse preço em qualquer lugar que você for. E o exame é assim: você olha num daqueles instrumentos de oftalmologista que parece um microscópio, e lá tem uma série de bolinhas com uma aberturazinha em algum dos lados. Você tem que ir dizendo de que lado está a abertura na bolinha. Primeiro com um olho, depois com o outro olho, depois com os dois, fim. É uma coisa de 10 minutos, mesmo. E aí eles te dão um papel dizendo se você passou ou não no exame. Se você usa óculos você faz o exame de óculos. É só ir em qualquer ótica e pedir pra fazer o exame, e eles fazem ali na hora. Suponho que dê pra fazer no oftalmologista, também, mas de uma maneira ou de outra você vai pagar os 6,43 e marcar consulta certamente dá bem mais trabalho.

Passo 4: Se inscrever numa autoescola • 40€-70€ • Digamos 1 ou 2 dias pra vc perguntar os preços e escolher a escola • Fahrschule Grundgebühr
Esse é o item mais irritante da história. Embora você não precise fazer o curso teórico nem as aulas práticas, mas apenas os dois exames, você vai ter que se inscrever em uma autoescola. Isso porque não dá pra você como pessoa física se registrar pras provas. Só a autoescola pode fazer isso. Isso significa que você tem um monte de custos extras totalmente idiotas: o preço da inscrição na auto-escola, e depois na hora de se registrar nas provas vc vai pagar uma vez para a DEKRA (o “Detran”), e uma vez pra auto-escola quase o mesmo valor. É um valor fixo tabelado, é assim em todas as auto-escolas e sempre o mesmo valor. Enfim. O valor que vai variar é o preço da inscrição na autoescola. Eu perguntei em três auto-escolas por aqui, duas me ofereceram a inscrição por 70€ e uma por 40€, então me inscrevi – claro – na mais barata. O melhor que você tem a fazer é descobrir onde tem auto-escolas (Fahrschule) nas proximidades e ir lá pessoalmente perguntar, porque no site se eles informarem o valor da inscrição, vai ser o valor total, que você pagaria se fosse fazer também as aulas e curso teórico, que é por volta de uns 150€ (só a inscrição, sem contar o próprio valor do curso e das aulas). Mas quando você for lá e explicar que o que vc precisa é só que eles te inscrevam nas duas provas, eles vão dar um desconto no valor da inscrição. Eles vão te dizer que a prova aqui é bem difícil e aconselhar fazer algumas aulas práticas, mesmo sem precisar oficialmente, antes de marcar a prova. ACREDITE E FAÇA. As aulas costumam custar por volta de 30€ por uma hora-aula (45min), pelo menos aqui em Dresden, e sempre são aulas duplas (portanto, 60€). Aliás, imagino também que a inscrição numa autoescola em cidades maiores talvez seja mais cara.

Passo 7: Tirar uma foto 3×4  • 7,10€ • 10 minutinhos • Biometrisches Lichtbild
Você pode até tentar tirar uma você mesmo e imprimir, como eu às vezes faço com fotos 3×4, mas precisa ser biométrica. Isso significa que precisa seguir umas regrinhas lá pra foto poder servir pros programas de reconhecimento de rosto: não pode ter sombra no seu rosto, tem que estar totalmente reto, não pode sorrir, coisas assim. É mais fácil, pra você ter certeza que a foto vai servir, tirar numa loja de fotografia qualquer, mas é meio caro, mesmo. Eu paguei 7,10€, talvez dê pra achar por menos, certamente dá pra pagar mais. O tamanho que você precisa na verdade é 35mm por 45mm, e os cantos não podem ser arredondados. Mas se você for tirar a foto numa loja, eles te perguntam pra que documento que é e já sabem qual o formato que tem que ser praquele determinado documento, no caso a habilitação.

Passo 6: Ir na Faherlaubnisbehörde entregar todos os documentos e dar entrada no processo • 42,60€ • 1 hora (aqui em Dresden) • Fahrerlaubnisbehörde / Führerscheinstelle / Dekra

Primeiro deixa eu explicar esses três nomes. Fahrerlaubnisbehörde significa “autoridade para a autorização de direção”, Führerscheinstelle significa “escritório da habilitação”. E DEKRA (Deutscher Kraftfahrzeug-Überwachungs-Verein) é, se não me engano, a organização que faz e aplica os exames teórico e prático para a habilitação. Quando você quiser as informações sobre o que você precisa levar pra validar sua carta, onde você precisa ir, os horários de atendimento, telefone, etc, procure no google por “Fahrerlaubnisbehörde + o nome da cidade em que você está”. Aqui, por exemplo, é o site da Fahrerlaubnisbehörde de Dresden onde tem essas informações.
O segundo ponto importante da história: descobre se na sua cidade você precisa marcar um horário na Fahrerlaubnisbehörde, ou se você pode ir lá em qualquer horário dentro das opções de horários de atendimento. Aqui em Dresden é só chegar lá segundas-feiras das 9h ao meio dia, terças e quintas das 9h às 13h ou das 14h às 18h, ou sextas das 8h ao meio dia. Às quartas e fins de semana eles estão fechados. Chegando lá você pega uma senha (num computador que vai ter setecentas e trinta e cinco mil, novecentas e quarenta e sete opções de serviços, entre as quais você tem que descobrir onde está “ausländischer Führerschein” e  “ausländischer Führerschein umschreiben” ou coisa similar, pra clicar e receber sua senha. Vai demorar uns muitos minutos pra você achar o botão certo, boa sorte.), senta bonitinho numa cadeira e espera ser chamado pra entregar seus documentos. Uma amiga minha que fez a carta dela em Berlim, porém, me falou que por lá você tem que primeiro ligar para marcar um horário (e pagar por isso) para então poder ir lá no horário marcado entregar os tais documentos, certamente porque o número de pessoas lá é tão grande que se não tiver isso de marcar horário vira Poupatempo da Sé (na época que não dava pra marcar horário). Então antes de mais nada descobre se precisa marcar horário (olha no site, liga lá, e tal). Se, como aqui, não precisar, vai ser bem rapidinho. Se precisar, pode ser que o próximo horário disponível seja só daqui a x semanas. Aí é, paciência.
E os documentos que você precisará ter em mãos são os seguintes:

I. Sua carta de motorista brasileira, DENTRO DA DATA DE VALIDADE! Isso é bem importante, não pode estar fora da validade!
II. A tradução da sua CNH, que já discutimos lá em cima
III. Seu passaporte. Se você tiver nacionalidade européia, leva os dois passaportes.
IV. Seu comprovante de registro de endereço na Alemanha (o papel que você recebe quando você se inscreve na cidade que você mora, o meu chama “Anmelde-Bestätigung
V. O comprovante de que você fez o curso de primeiros socorros discutido lá em cima
VI. O comprovante com o resultado do seu exame de vista discutido lá em cima
VII. A foto biométrica (só uma, mesmo)
VIII. O contrato da sua auto-escola (na verdade só o nome já é suficiente, a princípio, mas leva o contrato por via das dúvidas que eles podem pedir pra ter certeza que vc já se inscreveu)
IX. Algum comprovante de que você morou pelo menos 6 meses no Brasil – Esse item aqui pra mim é meio misterioso: Não tava falando nada disso no site, mas quando eu cheguei lá pra entregar os documentos eles me falaram que precisava provar que eu morei pelo menos 6 meses no Brasil, embora eu seja de lá, tenha nascido lá, etc… achei bem besta. O comprovante podia ser, por exemplo, um histórico escolar de uma escola no Brasil (tradução juramentada). Eu acabei levando o histórico da universidade, que eu já tinha a tradução juramentada há um tempo de quando me inscrevi no mestrado aqui. O que eu não sei é se todo mundo precisa desse documento ou se é só pra quem tem dupla-nacionalidade. Eu aaaaaacho que se você é “só” brasileiro, o documento que vc tem de registro de endereço na Alemanha tb já tem essa informação de que você morava no Brasil antes, mas não sei como é. Eu tenho cidadania portuguesa tb, então acho que por isso que precisava provar que eu morei no Brasil. Sei lá, achei meio estranho, e certamente irritante ter perdido a viagem e voltar outro dia, mas por sorte eu já tinha tradução do histórico, então foi tranquilo. Se você já tiver uma tradução de algum documento qualquer que prove que você morou no Brasil, leva. Se você não tem e quer saber se precisa mesmo, sei lá, liga lá no Fahrerlaubnisbehörde e pergunta, é sempre a melhor opção.

São esses. Aí você entrega esses documentos lá, eles fazem uma cópia de tudo, te dão uns papéis diversos pra assinar, e, importante, te dão a opção de escolher em qual língua você quer fazer o exame teórico! Você pode escolher entre várias línguas, inclusive português. Eu não escolhi português porque li por aí em outros blogs que a prova em português é, na verdade, português de Portugal… E como com vocabulário específico às vezes têm umas diferenças grandes e palavras que você não tem nem idéia do que possam ser, achei mais seguro fazer o exame em inglês, que é pra mim uma opção totalmente segura. Você pode, óbvio, fazer também em alemão. Eu considerei mas embora eu me comunique bem em alemão, ainda me falta muito vocabulário e achei bem provável aparecer na prova umas palavras que eu não vou ter a menor idéia do que poderiam significar. Inglês foi a opção mais segura pra mim. No final acabou que eu estudei pra prova com material em alemão, então teria feito mais sentido fazer em alemão mesmo. Mas tudo bem.

Finalmente, você paga a taxa fixa de 42,60€ e eles dão entrada no processo.

Eles vão ficar com a sua habilitação brasileira e enviar para a polícia criminal, ou coisa assim, que vai verificar se o documento é verdadeiro e válido. Depois que eles fizerem isso (o tempo deve variar bastante de cidade para cidade, aqui a moça da Fahrerlaubnisbehörde me disse que deveria demorar entre 2 e 3 semanas, demorou QUATRO MESES.) você recebe uma carta dizendo que você já pode se inscrever para a prova teórica. E aí o resto virá nos posts parte 2 e 3.

Passo 7 (opcional): Comprar o material para estudar pra prova teórica  • 55€ • Só ir em qualquer auto-escola e comprar  • Lernmaterial für die theoretische Prüfung
Bom, a princípio você não é obrigado a comprar o material pra estudar, mas eu diria que é bem necessário uma vez que a prova teórica não é tão ridícula quanto a do Detran… O kit com o material inclui um livro (mó grosso, não é um livretinho tipo o do CFC, não!) e um DVD. Curiosamente, embora você possa fazer a prova em mil línguas, as auto-escolas só vendem o livro em alemão… Estou olhando online e parece que dá pra pedir online, mas é bem mais caro… quando eu descobrir com mais detalhes, atualizo aqui.

Bom, espero que esse post tenha ajudado a listar tudo o que é necessário saber pra validar sua CNH aqui. Tentei escrever pensando no post que eu gostaria de ter lido quando estava tentando descobrir como fazia (as informações que encontrei foram bem incompletas e misturadas e no final acabei tendo que descobrir tudo sozinha em alemão mesmo)!

O total que você vai ter pago até esse momento da entrega de documentos é, mais ou menos, 240€ (já contando o material para a prova teórica).

As continuações deste post você pode ler aqui:
Parte 2 – Prova Teórica
Parte 3 –  Prova Prática


(Publicado em 16 de fevereiro de 2016)

Um detalhe sobre o Carnaval

No ano passado eu escrevi um post sobre o famoso Carnaval de Colônia, o maior e mais tradicional da Alemanha.

Aqui em Dresden não se comemora muito o carnaval, mas uma coisinha ou outra acontece. A principal comemoração são as crianças que fazem, nas escolas. Aqui não é feriado no carnaval (só em Colônia) então nesses dias, especialmente hoje, terça-feira, as crianças vão fantasiadas pra escola.

Mas é bem comum comer sonho (Pfannkuchen ou Berliner, fiz um post só sobre esse doce aqui) nessa época do ano, particularmente nesses dias de carnaval. Sexta, segunda e hoje tinha uma enorme caixa de sonhos na cozinha do escritório pra todo mundo. Sexta e segunda as caixas ficaram lá abertas para quem quisesse pegar um sonho. Hoje, porém tinham duas caixas enormes de sonhos, fechadas, e pouco antes do almoço a gente se juntou na cozinha para tomar um copo de champagne (pra comemorar o carnaval?) e comer os sonhos. E aí que eu descobri uma outra “tradição” dessa época. Na caixa tinha um único sonho “falso”. Em vez de ser recheado com geléia ou creme, como os outros, ele estava recheado com mostarda!! Aparentemente isso é uma brincadeira típica do Carnaval, de todo mundo comer os sonhos juntos e aí um deles ser “falso” e essa pessoa tem que fazer a limpeza depois. Sorte que eu não peguei o sonho com mostarda, não ia ter entendido nada de porque tinha mostarda no sonho, lol.

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Mas não se preocupe, pelo menos no nosso caso a pessoa que pegou o sonho com mostarda pôde substitui-lo por um gostoso com geléia.

Ok, esse post ficou meio curto, mas é porque de fato não tem muito o que falar sobre carnaval quando se mora em Dresden.


(Publicado em 9 de Fevereiro de 2016)

 

Arquitetando na Alemanha

Como eu já comentei em outros posts, eu sou arquiteta e atualmente trabalho em um escritório de arquitetura e planejamento da paisagem aqui.

No último post sobre escritórios alemães, eu falei um pouco sobre as diferenças entre trabalhar na Alemanha e no Brasil, mas tentei me limitar a questões mais genéricas, não relacionadas a escritórios de arquitetura especificamente. Nesse post eu vou falar mais precisamente sobre as diferenças (algumas mais básicas) e similaridades de se trabalhar como arquiteto aqui e no Brasil.

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A primeira diferença que eu notei (e eu já mencionei isso no outro post também como uma coisa geral) é a quantidade de burocracia. No Brasil, trabalhando em escritório de arquitetura, eu basicamente só desenhava. Foram pouquíssimas as vezes que eu tive que fazer algum texto, tabela, preencher formulário, sei lá. Claro que tinham burocracias relacionadas ao projeto também, mas isso quem fazia eram principalmente os chefes, mesmo. Aqui TUDO vem com um papel extra: um formulário pra preencher, um protocolo pra escrever, uma lista detalhada de tudo o que tá no desenho, etc… Os alemães adoram umas listas e formulários. E isso, claro, acaba sendo uma dificuldade extra pra quem é de fora. Se alemão já é difícil, alemão formal, lei em alemão, etc, nem se fala… Aí vai da sorte de encontrar um escritório onde os chefes ou colegas entendam que isso é uma dificuldade extra pra você e ou não se incomodem de fazer essa parte enquanto você nos foca nos desenhos, ou de te dar um tempinho extra pra se entender com a língua.

De uma maneira ou de outra, cedo ou tarde (provavelmente mais cedo que tarde) você vai ter que fazer essas coisas, de maneira que se sua intenção é trabalhar aqui, se esforça muito pra aprender bem alemão o mais rápido possível, que vai ser importante.

Isso também tá bem relacionado ao próximo ponto: responsabilidades. A minha impressão até agora é que trabalhando como arquiteto num escritório aqui você tem bem mais responsabilidades que fazendo o mesmo tipo de trabalho no Brasil. Por exemplo, ir em reunião com o cliente, ir em obra, etc. Nos escritórios que eu trabalhei no Brasil, quem fazia isso eram os chefes, só em algumas ocasiões eu fui, e sempre acompanhando os chefes. Aqui espera-se que você vá em reuniões inclusive sozinho. O trabalho no geral é bem mais independente do chefe que a minha experiência no Brasil.

Por isso também uma outra diferença: no Brasil os escritórios (não todos, mas vários) sempre têm muitos estagiários, não raramente mais estagiários que arquitetos formados. Aqui – a não ser que seja um escritório muito grande – tem, quando muito, um estagiário. E sempre tem uns arquitetos que trabalham naquele escritório há 10, 15 anos. Me parece que a média de idade dos arquitetos que trabalham em escritórios é bem mais alta que no Brasil, onde a maioria são jovens.

Tem duas maneiras de trabalhar como arquiteto aqui: ou você é contratado pelo escritório num esquema equivalente a CLT (Festanstellung) que pode ser tanto sem tempo definido quanto um contrato com tempo específico, de maneira que você tem todos os direitos trabalhistas, ou você pode ser autônomo (Selbstständig) prestando serviços para o escritório meio estilo freelancer (Freie Mitarbeiter). Nesse caso você não está preso a um único escritório, mas pode fazer projetos para diferentes escritórios, fazer sua própria hora, e tal. Mas, claro, tem que cuidar do seu próprio seguro de saúde, seguro desemprego, etc. É lógico que oficialmente se você está trabalhando em período integral num único escritório por um tempo mais longo, o escritório é obrigado a te dar o contrato fixo, a Festanstellung. Se você ficar nesse esquema de Freie Mitarbeiter por muito tempo (um ano +-) trabalhando só para um único escritório, o escritório vai ter problemas com a receita federal por não ter te contratado oficialmente. O que acontece muito em arquitetura é que você começa como Freie Mitarbeiter, mas trabalhando lá em período integral, mesmo, e depois de um tempo eles te dão um contrato fixo. Mesmo como Freie Mitarbeiter o escritório te dá um contrato, você emite uma nota, declara tudo direitinho.

Uma pergunta certamente bem importante é como validar o diploma de arquiteto na Alemanha. A princípio você pode trabalhar em escritório de arquitetura sem validar o diploma, mas sem poder assinar projeto. Para se registrar no equivalente ao CAU, daqui, a Câmara dos Arquitetos (Architektenkammer) você precisa ter dois ou três anos de experiência trabalhando em escritório e, em alguns estados (as regras específicas variam de estado pra estado), algumas horas de cursos extras. Aí a câmara vai analisar seu currículo (da sua faculdade) pra ver se é equivalente ao currículo alemão, e decidir se você pode então receber o título de arquiteto daqui. Aí sim você pode assinar projetos, ter seu próprio escritório, participar de concursos e licitações, e tal. Essas regras, inclusive, são as mesmas para os próprios alemães. Mesmo se formando aqui eles também precisam desses 2, 3 anos de experiências e horas de cursos extra curriculares, e tal.

Mas esse post tá ficando muito chato com toda essa parte burocrática, vamos voltar ao dia-a-dia do escritório.

Outra coisa diferente aqui tb é em relação aos programas que eles usam. No Brasil quase todo mundo usa AutoCAD, pelo menos enquanto eu trabalhava lá eram raríssimos os escritórios que trabalhavam com outro programa que não CAD. Aqui isso varia bastante. Como tem muito escritório que usa Mac e não Windows, vários trabalham com Vector Works, ArchiCAD, entre outros. E outra coisa é que todos os escritórios trabalham sempre com versões oficiais de todos os programas. Nada de programa pirata por aqui. Isso acaba resultando em algo às vezes irritante: versões muito antigas de programas… eu fiz um trabalho num escritório ano passado onde eles estavam usando CAD 2008… era uma tortura. Mas nem sempre é assim, vários escritórios estão sempre com as versões mais atuais dos programas, ainda bem. Eu atualmente trabalho no CAD 2016, o que é ótimo, mas com o Adobe CS2 para Photoshop e Indesign.

E quanto ao tipo de trabalho, uma questão importante daqui é que paisagismo, arquitetura e urbanismo são coisas bem separadas. Paisagismo é uma faculdade diferente, separada, e quem se forma arquiteto não faz paisagismo e quem se forma paisagista não faz arquitetura. Urbanismo é algo extra na faculdade de arquitetura que pra fazer profissionalmente você tem que fazer algumas eletivas e fazer seu TFG nisso (acho que talvez tenham algumas faculdades só de urbanismo também, mas não tenho certeza).

Volta e meia me perguntam se é difícil conseguir emprego como arquiteto por aqui. Eu diria, bem sinceramente, que sim. Ainda é no geral bem mais difícil conseguir emprego sendo estrangeiro por aqui do que sendo alemão, e arquitetura é uma área onde tem bastante gente se formando. Mas, lógico, isso não significa que seja impossível ou que é pra desanimar. Uma coisa que ajuda muito (me parece) é ter uma formação aqui, então se você está pensando em tentar trabalhar por aqui, pense na possibilidade de fazer um mestrado ou algo assim, antes, acho que dá uma boa vantagem extra. Aprender alemão é suuuuuuper mega importante, não se iluda achando que vai dar pra se virar trabalhando aqui só falando inglês. Talvez até tenham alguns escritórios internacionais que trabalham em inglês, mas não são muitos e esses certamente serão os mais concorridos. Também vale a pena lembrar que tem diferença entre Alemanha oriental e ocidental. Na parte Oeste eles já estão mais acostumados com estrangeiros e não tem tanto medo e preconceito, então eu suponho que por lá seja mais fácil que por aqui, na parte leste. Aqui, qualquer escritório em que você trabalhar você vai ser o único estrangeiro… o que coloca uma pressão muito maior, né.

Não falei tanto do trabalho em si, ou de diferenças de como se faz arquitetura por aqui… mas esse é um tema que também já dá uns 3 outros posts, que certamente serão escritos no futuro!


 

(Publicado em 8 de Fevereiro de 2016)

Escritórios alemães – Parte 1

O tópico de como é trabalhar na Alemanha é um sobre o qual eu ainda não falei muito no blog. Esse post já faz um tempo que eu tô pra escrever, mas sempre que eu tento acabo desistindo porque nunca sei se as coisas que eu acho diferentes aqui são mesmo gerais ou particulares do escritório em que eu trabalho.

Então, se você também trabalha na Alemanha e tiver uma experiência totalmente diferente da descrita nesse post, compartilha nos comentários pra gente saber que nem todos os alemães são estranhos! =)

Minha experiência é com escritórios de arquitetura, que são normalmente escritórios pequenos, de no máximo 10 pessoas. Certamente tem muitas coisas muito diferentes em empresas grandes. Eu conheço aqui quatro escritórios, dois para os quais eu fiz alguns trabalhos temporários, o no que eu estou trabalhando há alguns meses, e o no qual meu namorado trabalha. Vou tentar falar de coisas mais genéricas, e não específicas de escritórios de arquitetura, até porque eu quero também fazer um post sobre a prática de arquitetura na Alemanha em breve.

A primeira coisa que eu notei por aqui foi que as pessoas não trabalham ouvindo música. Nos escritórios em que trabalhei no Brasil, sempre ficava o rádio ligado com música de fundo, ou então se não tivesse música de fundo, todo mundo ficava ouvindo a própria música no fone de ouvido. Música no trabalho dá pra viver sem, mas certamente faz bastante falta. A princípio, até dá pra levar seu fone e ficar ouvindo música, mas dado que ninguém faz isso e volta e meia seu chefe ou algum colega vem falar com você sobre qualquer coisa do trabalho, fica meio chato.

Acho que um dos motivos pra isso é que toda hora toca o telefone. Direto. No Brasil, normalmente tinha só o telefone geral do escritório, e normalmente quem ligasse falava com o chefe (lembrando, novamente, que estou falando de escritórios pequenos, de 5 a 10 pessoas). Aqui, mesmo em escritórios pequenos, é comum cada pessoa ter seu próprio ramal e falar diretamente com os clientes, fornecedores, etc, relacionados aos projetos em que está trabalhando.

A diferença que pra mim é mais estranha é ser chamada pelo sobrenome. No meu escritório, o chefe chama todo mundo pelo sobrenome e pela forma formal de tratamento Sie, mesmo quem trabalha com ele há mais de 10 anos. Já os colegas se tratam pelo primeiro nome e por du, entre si. Ficar trocando entre Sie (Senhor/a) e du (você) ainda gera uma certa confusão pra mim, principalmente pra conjugar os verbos de acordo. Mas isso também varia de escritório pra escritório. No do meu namorado, todo mundo se trata por du, mesmo com os chefes. Acho assim mais fácil, até porque eu ainda acho muito estranho ser chamada pelo sobrenome. E com outros profissionais que trabalham com você só que não no mesmo escritório, como os fornecedores, clientes, etc, todo mundo sempre se trata pelo sobrenome e Sr. ou Sra. Sempre sempre.

Outra diferença importante aqui é a quantidade insana de burocracia. Pra tudo, tudo, tudo, tem um papel, um documento, um contrato, um formulário, um comprovante. Em qualquer escritório – e isso eu tenho certeza que é geral em 100% das empresas alemãs – tem uma quantidade infinita de pastas exatamente assim:

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Juro, exatamente assim. Se você me disser que encontrou um escritório na Alemanha que não tem PELO MENOS umas 20 dessas pastas exatamente assim, eu te direi que você ou cruzou a fronteira pra algum país vizinho e não percebeu, ou não viu todos os cômodos do escritório – talvez as pastas estejam no porão. Mas em algum lugar elas estão.

Já falei sobre isso nesse post aqui, os Alemães são muuuuito noiados com papel, eles guardam TU-DO. No escritório do meu namorado, até pouco tempo atrás eles chegavam ao exagero de imprimir TODOS os emails que o escritório recebia para guardar nessas pastas!!!!!

E esse exagero acho que se expressa bem em desperdício de papel. Talvez eu que seja noiada com isso, mas eu sempre guardo qualquer pedaço de folha em branco pra usar pra alguma coisa, e folhas usadas só de um lado eu sempre uso de rascunho. Rascunho eles até usam, mas o que é desperdiçado de papel com a plotter, por exemplo, pra mim é dolorido de ver.

E no tema computadores, tem umas diferenças grandes também. Aqui é bem comum usar mac. Claro, várias empresas, provavelmente ainda a maioria, usa windows, mesmo. Mas em muuuuuuitas se usa mac. Principalmente em escritórios de arquitetura têm vários que usam Apple. O que no Brasil é raríssimo, na minha experiência.

E a questão da internet é outra coisa: alguns escritórios bloqueiam a internet TOTALMENTE. Ok, isso talvez seja raro, mas num dos escritórios em que eu trabalhei, e no escritório em que um amigo meu trabalha, simplesmente não tem internet nos computadores. Não é que o facebook ou o gmail são bloqueados: simplesmente não. Tem. Internet. Quer dizer, o programa de email com o email do escritório tem, mas o browser é totalmente bloqueado. Nesse escritório que eu fiquei temporariamente, tinha um computador no escritório todo com internet pra caso você precisasse pesquisar alguma coisa específica. Isso eu acho totalmente inviável hoje em dia. Não sei de outras profissões, mas como arquiteta eu preciso da internet direto – olhar coisas no google maps, pesquisar esse ou aquele detalhe construtivo, pesquisar materiais, fornecedores… não tem como trabalhar direito sem internet.

Fora que para um escritório tão pequeno – aquele tinha umas 6 pessoas além dos dois chefes – é uma mega falta de confiança por parte dos chefes bloquear a internet. Sabe, pra quê? Isso acaba criando um clima ruim na empresa em que em vez de trabalhar junto, você tem a impressão de que o chefe está contra você. Isso acabava naquele escritório se traduzindo de outras maneiras também: ninguém conversava absolutamente nada durante o trabalho, ficava todo mundo trabalhando em silêncio como zumbis nos seus computadores sem internet. Credo.

E falando sobre trabalhar junto e colegas: aqui as pessoas não fazem happy hour com os colegas da empresa! Pelo menos nos escritórios que eu conheço realmente não tem isso. A confraternização entre os colegas acontece de outras formas: por exemplo sempre que tem aniversário de alguém, aí ou o aniversariante traz um bolo pra todo mundo, ou rola um almoço com os colegas, etc…

Outra coisa que não é rara é um almoço “comunitário” onde um cozinha para todos. No escritório do meu namorado, às sextas, sempre um cozinha macarrão para todos, cada semana um dos colegas que cozinha. No escritório de um amigo, que é num lugar meio afastado sem restaurantes por perto, todo dia alguém cozinha pra todo mundo. Pra quem não se adapta bem à comida duvidosa alemã, como eu, algo assim seria um pesadelo!

Ok, ainda dá pra escrever várias outras coisas, mas o post já está muito grande, então o resto ficará para uma parte 2.


(Publicado em 4 de fevereiro de 2016)

 

Primeiros socorros na Alemanha

Esse fim de semana eu fiz um curso de primeiros socorros por aqui. O curso é um dos requisitos para trocar a sua CNH brasileira pela carteira de habilitação alemã – processo longo e um tanto complicado que eu estou começando agora e depois que terminar certamente escreverei um post a respeito.

Mas por hora apenas um post sobre os tais primeiros socorros. A idéia de que todo mundo que dirige tem que ter feito um curso de primeiros socorros é bem boa, embora talvez fizesse mais sentido incluir isso logo como parte do currículo no colegial, já que o curso que você tem que fazer para tirar a habilitação é muito curto e corrido.

Normalmente os cursos são de um dia, e você pode fazer em vários lugares. Eu fiz o curso oferecido pela cruz vermelha por 35 euros, e o que eu fiz na verdade é um pouco mais completo do que seria necessário para tirar a habilitação para automóveis. Com ele eu poderia tirar a habilitação para qualquer veículo. Mas achei que valia a pena fazer esse mais completo já que, né, é um conhecimento útil de se ter.

Algumas coisas relacionadas a primeiros socorros são diferentes na Alemanha. Quando eu fiz o CFC no Brasil – o curso teórico pra tirar carta – as instruções referentes a primeiros socorros em casos de acidentes foram bem resumidas. Inclusive em alguns casos, como em acidentes com motociclistas, a recomendação no CFC era não fazer nada e esperar a ambulância chegar porque tirar o capacete do motociclista é super complicado e se você fraturar a coluna vertebral dele no processo poderia ser processado depois.

Aqui a recomendação é para tirar o capacete, sim, e realizar os procedimentos de primeiros socorros necessários. Eles ensinam com exercícios práticos a virar uma pessoa inconsciente de lado, a retirar o capacete de motociclista, a fazer o procedimento de reanimação cardiorrespiratória (em alemão abreviado para HLW – Herz-Lungen-Wiederbelebung), e a fazer curativos com gaze corretamente. Aqui, como no Brasil (apesar de que não sei se ainda é assim no Brasil, pq lembro da lei ter mudado e desmudado algumas vezes), é obrigatório ter no carro um kit de primeiros socorros. No curso o instrutor mostrou um por um todos os itens que contém no kit e explicou como e quando usá-los corretamente. Além disso, ele mostrou também como ajudar uma pessoa que está engasgando, como retirar uma pessoa inconsciente de dentro do carro, como proceder quando alguém está tendo um ataque cardíaco, e como usar um desfibrilador “portátil”, daqueles que às vezes tem pendurado na parede em alguns prédios ou locais com muita gente.

E o importante de se saber é que aqui é obrigatório parar para ajudar em caso de acidente (mesmo você não estando envolvido no acidente) e que qualquer coisa que você faça na tentativa de salvar alguém, se der errado, você não será culpabilizado. Quer dizer, se você tentar realizar os procedimentos de primeiros socorros mas cometer algum erro e acidentalmente piorar a situação da vítima, você não poderá ser culpabilizado por isso. A idéia por traz é que tem mais chances da vítima de um acidente morrer por não ter recebido primeiros socorros do que por algum erro da pessoa que estava socorrendo. Então a recomendação é sempre tentar ajudar como você puder. Claro, nem por isso você precisa tentar fazer qualquer coisa se você não tiver a menor idéia do que fazer, né. Na dúvida, ao ligar para a emergência (112 é número de emergência em toda a União Européia), peça instruções.

E outro ponto interessante é referente a assistência médica no caso de você ser ferido tentando ajudar alguém: normalmente você precisa de um seguro contra acidentes para receber assistência a longo prazo. Quer dizer, seu seguro de saúde paga a assistência médica de emergência, mas se você precisar, digamos, de uma prótese, sem um seguro de acidentes você teria que pagar do bolso. No caso de você ser ferido tentando ajudar alguém, você está automaticamente assegurado pelo estado.

Enfim, ao final do curso de 6h você recebe um livretinho com o conteúdo do curso explicadinho, e um certificado de participação.

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Apesar do curso, eu certamente teria o maior medo de fazer esses procedimentos, principalmente a reanimação, num caso de acidente… Mas os primeiros minutos após o acidente são absolutamente essenciais e algumas ajudas simples que qualquer um pode aprender a dar realmente podem fazer a diferença entre vida e morte. Acho que mesmo se não precisasse para a carta a idéia de fazer um curso de primeiros socorros de vez em quando é bem útil. Mas certamente espero nunca precisar aplicar o que eu aprendi nesse curso!

E para terminar, uma quadrinho do site Nichtlustig sobre primeiros socorros que eu acho que define muito bem os alemães, hehehe:

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Nicht Lustig – nichtlustig.de / http://www.facebook.com/nichtlustig

“Será que vocês já não poderiam ir começando…”
“Não, não, tudo tem que ter sua ordem.” 
“Mas cadê eles, hein?”
Escrito nas ambulâncias: “Segundos socorros” “Terceiros socorros”


(Publicado em 1˚ de Fevereiro de 2016)