Mês: março 2016

Pago ou gratuito

A gente automaticamente assume que certas coisas sempre serão gratuitas enquanto outras sempre serão pagas porque sempre foi assim. Aí quando você vai para outro país, surpreende-se ao descobrir que várias coisas que você estava acostumado a receber de graça lá tem que pagar, enquanto outras que eram pagas de repente são gratuitas.

Planejando esse post, fiz uma lista de coisas que são pagas aqui e grátis no Brasil e vice-versa, mas enumerei bem mais itens que são pagos aqui e não no Brasil… São os seguintes:

Pago aqui, gratuito no Brasil:

1. Televisão
Esse é talvez o mais estranho. Aqui existe uma taxa que você paga pela televisão. Mas ela é independente de vc ter uma televisão ou não. É uma taxa paga por apartamento ou casa. Cada local de moradia, por assim dizer, tem que pagar essa taxa mensal de 17,98 euros. Isso tem origem em fatores históricos: depois da segunda guerra mundial, a idéia era que a mídia passasse a ser livre de influências governamentais e comerciais, então todo mundo que tivesse uma TV em casa teria que pagar uma taxa, para evitar que as redes de televisão dependessem de subsídio do governo ou de comerciais. De fato a TV aqui (me dizem, eu não assisto TV pra saber) tem bem menos propaganda (embora ainda tenha). Até a pouco tempo atrás, essa taxa só era paga se você tivesse uma TV ou rádio em casa, e como eles não tinham direito de entrar na sua casa pra checar, vc poderia simplesmente dizer que não e eles teriam que aceitar (mas apareciam na sua porta fazendo pressão pra vc deixar eles entrarem e verificarem). Como as redes de TV passaram a oferecer seus programas também online, ter um computador já era suficiente pra ter que pagar a taxa. E aí como hoje em dia praticamente ninguém (provavelmente ninguém mesmo) realmente não tem nenhum objeto em casa que possa receber um sinal de TV ou rádio, a taxa passou a ser obrigatória para todos. Chama Rundfunkgebühr. Nesse post eu falei um pouco sobre a TV alemã, essa taxa, e outras coisas.

2. Filme/música
Bom, lógico que isso é pago no Brasil também. Mas no Brasil é totalmente tranquilo baixar filme ou música na internet, nunca ouvi falar de ninguém que tenha tido problema com isso. Aqui isso é REALMENTE uma questão diferente. Eu conheço VÁRIAS pessoas que baixaram alguma música ou fizeram torrent de filme online, e receberam poucos dias depois uma carta em casa cobrando ALTOS MIL EUROS de multa!!! A questão é longa e complicada, e eu falei melhor dela nesse post aqui. Mas pra resumir: aqui não rola baixar coisa de fontes “alternativas”. O jeito é pagar serviços de streaming mesmo (netflix, apple music, spotify…), que aliás são uma opção tão boa ultimamente que eu nem tenho sentido falta da habilidade de fazer downloads não-exatamente-legítimos.

3. Dízimo
Bom. Dízimo, por definição, não é gratuito, óbvio. Mas uma diferença BIZARRA na Alemanha é que aqui, se vc faz parte de uma igreja, o dízimo É OBRIGATÓRIO! Não assim obrigatório de ah, se não pagar vai pro inferno ou o padre não te deixa entrar na igreja domingo que vem. Obrigatório de É PARTE DO SEU IMPOSTO DE RENDA. Sério. Se vc é ‘registrado’ (sei lá como fala) em alguma religião cristã aqui, vc paga dízimo no imposto de renda. Nem vou comentar o que eu acho disso. Mas tem um post sobre religião na Alemanha aqui (que misteriosamente é de longe o post mais visitado do blog).

4. Wifi nos lugares
Cada vez que eu viajo pra fora da Alemanha – e pode ser pra qualquer país, até os que tão logo aqui do lado – eu lembro como funciona wifi no resto do mundo: tem wifi grátis em praticamente qualquer restaurante/café/lugar. Aqui isso ainda é mega atrasado, são poucos mesmo os restaurantes e cafés que oferecem wifi grátis…

5. Impostos (pra qualquer coisa)
Jeitinho pra disfarçar e não declarar isso ou aquilo por aqui é inexistente. Tem que declarar tudo. Qualquer trabalhinho que vc faça que te pagou 50 euros, tem que emitir tipo uma nota fiscal e declarar tudo direitinho. Até prostitutas têm que pagar imposto sobre o que elas recebem do seu trabalho (prostituição é legal e regularizada na Alemanha).

6. Saquinho de supermercado
No geral as pessoas levam suas próprias sacolas. Se esquecer, tem que comprar. Até teeem uns saquinhos que vc pode pegar gratuitamente, mas é basicamente tipo aqueles saquinhos de colocar fruta. Beeeem toscos, bem fininho e mega pequenos, também. Praticamente ninguém usa. Qualquer saquinho ou sacola minimamente decente é cobrado.  Eis um post sobre supermercados aqui.

7. Orçamento
No Brasil se você quiser, por exemplo, consertar alguma coisa, você pode deixar na loja para fazer um orçamento do serviço de reparação sem precisar pagar nada. Eles olham, vêem o que está errado, e te dão o preço do conserto, e vc decide se quer pagar ou tentar outra loja. Aqui mesmo o orçamento é pago. Tem exceções, claro, principalmente se for algo simples que dê pra saber ali rapidinho qual o problema. Mas se for algo que algum funcionário vai ter que desmontar o objeto pra tentar descobrir o problema, certamente o orçamento será cobrado, uma vez que a pessoa já teve que trabalhar pra descobrir o problema.

8. Banheiro
Não é muito fácil encontrar banheiros gratuitos na Alemanha. Em shoppings, estações, e aos poucos até nos museus está começando a ser assim, os banheiros normalmente custam 50 centavos. Em alguns lugares como shoppings você costuma receber em troca um vale de 50 centavos, pra usar caso compre alguma coisa no local. Mas nem sempre. Por outro lado sempre dá pra achar banheiros públicos, de rua. Claro que para mulheres isso normalmente é uma opção totalmente fora de cogitação…

9. Carrinho no supermercado / aeroporto ou armário no museu / biblioteca
Não é que são pagos. São gratuitos. Mas vc SEMPRE tem que depositar uma moedinha pra retirar o carrinho ou a chave do armário. Então precisa sempre ter com vc uma moeda de um ou dois euros pra essas situações. Quando vc devolve o carrinho ou coloca a chave de volta no armário, a moeda é devolvida.

10. Qualquer entrega
Se vc compra algo em alguma loja, digamos por exemplo um SOFÁ, pode ter certeza que se quiser entrega vai ter que pagar extra. E normalmente as pessoas dão um jeito de levar pra não ter que pagar a entrega. E pelo que ouvi de uns amigos, serviços de entrega ou mudança são meio toscos, tipo trazem o sofá até sua casa mas se recusam a levar ele até o andar que você mora, coisas assim… melhor escalar uns amigos fortes, alugar uma van, e fazer as coisas do jeito alemão!

Gratuito aqui, pago no Brasil:

1. Transporte pra estudantes
Na verdade não é que é gratuito. Você paga uma taxa fixa no começo do semestre (por volta de uns 250 euros), que é obrigatória para todos os estudantes. E essa taxa é pra pagar o bilhete de transporte público, que é um bilhete infinito para qualquer transporte público NO ESTADO INTEIRO! Not bad, Alemanha, not bad.

2. Frete de livros no Amazon
É gratuito sempre! XD

3. Óculos
Não, não é gratuito, óbvio. Mas é que os seguros de saúde costumam cobrir óculos até um certo valor.

4. Exame de vista
Esse sim é gratuito, vc pode fazer exame de vista em óticas sem pagar nada, e sem obrigação de comprar óculos lá.

5. 4 horas extras por semana
Gratuito pro seu chefe. A princípio (na maioria dos contratos é assim), se vc trabalhar até 10% de horas extras (ou seja, até 44 horas por semana ao invés das 40 previstas no seu contrato), vc não recebe nem um centavo extra por isso. É, esse é um gratuito que não é nada vantajoso (bom, exceto se vc for o dono da empresa).

É isso! Esse post foi inspirado em um post similar nesse blog sobre o Canadá aqui.


(Publicado em 31 de Março de 2016)

 

Nö?

Quando se aprende uma língua nova, demora um pouco pra conseguir começar a perceber e reconhecer sotaques diferentes dentro da mesma língua. E o alemão tem uma particularidade nesse sentido. Existe uma pronúncia específica do alemão que é a correta. Esse alemão padrão se chama “Hochdeutsch“, ou “Alto alemão”. É esse alemão que se ensina em cursos de alemão e na escola, que se fala na televisão, etc. Qualquer sotaque diferente, aqui chamado de dialeto, é considerado uma variação local não-oficial da língua. Isso inclui gírias e palavras locais como também a pronúncia típica do alemão naquela região. Cada região tem o seu dialeto local.

No começo você percebe que tem uma dificuldade maior pra entender algumas pessoas enquanto outras você entende com mais facilidade, mas não consegue apontar precisamente as diferenças em como cada pessoa fala o alemão.

Aqui na Saxônia é falado o alemão saxão, ou Sächsisch. Eu trabalho com pessoas daqui que falam com um sotaque local BEM carregado, e tem vezes que eu não entendo patavina do que a pessoa tá falando. Mas as poucos o ouvido vai ficando treinado a perceber as sutilezas (ou obviedades) nas diferenças de pronúncia.

O dialeto saxão, para o ouvido dos alemães não-saxões, soa bem engraçado e um tanto ridículo. Deve ser principalmente por causa das vogais:

O → Ö – talvez o som mais notavelmente diferente e que faz o sotaque soar engraçado é que na maioria das palavras com o, eles pronunciam ö, que é uma mistura entre o e e. Fica como se em português em vez de a vc falasse ã em todas as palavras que são com a.

A  O – E o a, em vez de eles falarem um som aberto, eles falam ele bem fechado, soa como o.

EI → ÊI – O ditongo ei em alemão se pronuncia ai, com a, mesmo. Mas no dialeto saxão eles falam ei fechado, com som de ê.

Então basicamente em Sächsisch as vogais são pronunciadas fechadas onde em Hochdeutsch elas são abertas. Eu tenho a impressão de que deve soar para os alemães meio que nem aquelas venusianas daquele episódio do Chapolin Colorado em que ele vai pra Vênus, saca? Esse aqui:

Outras diferenças:

CH → SCH – Aquele som típico do alemão, que não existe em português, o ch em palavras como ich (eu). É tipo um som de x só que com a língua presa. Mas na saxônia eles falam ch como x, mesmo (ou o equivalente alemão sch).

T  D, P  B – Alguns sons, tipo T, e P, são as vezes em Sächsisch falados mais fortes, tipo D ou B. Por exemplo: Tag (dia) às vezes é pronunciado Dag.

Nicht  Ni – Ao falar nicht (não), os saxões muitas vezes não pronunciam o cht, falando apenas “ni”.

Um exemplo do Sächsisch escrito com fonemas alemães nesse quadrinho:

Flix.jpeg

Flix (www.der-flix.de) – Das war mal was

Essa tirinha é de um livro de quadrinhos onde o autor, Flix, conta a impressão que ele e seus amigos tinham da Alemanha Oriental antes da queda do muro. Na historinha acima, a dele, ele conta como ele tinha ouvido falar que na Alemanha Oriental era proibido ter tanques de guerra de brinquedo. Então ele imagina vários esquemas para contrabandear um tanque de guerra de brinquedo da Alemanha Ocidental para a Alemanha Oriental – por exemplo escondendo o tanque dentro de um ursinho. O guarda da Alemanha Oriental olha o carro e comenta, com seu sotaque forte saxônico: “Podem passar! Posso ver claramente que vocês não estão trazendo nenhum tanque de guerra de brinquedo!” ou algo assim: “Bõdem bossar! Bõsso ver gloromente gue võcês não esdão drozendo nenhum donque de guerra de bringuedo!” (a fala do guarda em alemão normal seria: “Sie können passieren! Sie haben ja offensichtlich keine Spielzeugpanzer dabei!!”)

Mas depois desse post inteiro que certamente está bem chato pra quem não fala alemão, a grande questão é: Que que é o Nö? do título, afinal?

Nö? é uma palavra-interjeição saxônica muuuuuuuito utilizada por aqui. Eles brincam que Nö? quer dizer Sim, mas na verdade você pode imaginar o Nö? como sendo um “Né?”, é basicamente isso. E eles usam pra responder perguntas ou até só pra dizer “aham”.

Eis alguns exemplos de diálogos onde o Nö? pode ser utilizado:

“Eu queria dois pãezinhos, por favor?”
“Nö?”

“Bonito o dia hoje, não?
“Nö?”

“Nossa, tá quente aqui, vou abrir a janela.”
“Nö?”

“Posso pegar essa caneta?”
“Nö?”

“Vou te mandar os dados por email, então.”
“Nö?”

Ou seja. É basicamente um é-ok-aham-tá-sim-pois não-fique à vontade.

O engraçado é que eles usam esse Nö? com tanta frenqüência que às vezes vc ouve alguém daqui falando no telefone e a conversa inteira que você está ouvindo é só uma sucessão de Nö?s. Talvez a pessoa do outro lado da linha também esteja falando só Nö?s e a conversa é um código secreto que só as pessoas da Saxônia compreendem!

Eis um vídeo bem bobo que eu achei no Youtube sobre o dialeto saxão:

No vídeo, uma moça aborda alguns rapazes em Colônia, falando no dialeto saxão, convidando-os pra ir tomar um café ou uma cerveja, e todos recusam. Depois ela tenta de novo falando em Hochdeutsch e todos aceitam. Achei meio preconceituoso e não creio que seja de fato tão extremo assim, mas realmente pelo que parece na Alemanha o dialeto saxão é mesmo um tanto desprezado. Isso pode ter também um pouco (ou muito) de fundo no fato de a Alemanha Oriental e os alemães orientais serem vistos como um tanto atrasados pelos ocidentais depois da reunificação. Certamente também por isso o sotaque do leste acabou ganhando essa conotação negativa. Segundo meu namorado, que é da região de Colônia mas mora em Dresden há mais de dez anos, na verdade qualquer dialeto soa meio ridículo e dá a impressão de que a pessoa não é muito educada, e tal (educada no sentido de ter ido pra escola, mesmo).

E para concluir, aqui nesse artigo do Bild tem um mapa da Alemanha com áudios dos dialetos típicos de algumas regiões.


(Publicado em 22 de Março de 2016)

Olhando nos olhos

Esse é um assunto que eu já mencionei de passagem em alguns outros posts, mas vale a pena um post só pra falar disso.

Eu tenho percebido cada vez mais claramente que os alemães olham nos olhos uns dos outros MUITO mais que a gente. Isso é uma coisa que eu jamais teria imaginado, porque eu nunca achei que eu ou as pessoas no Brasil evitassem olhar nos olhos umas das outras. Olhar nos olhos é uma característica forte da cultura ocidental, da qual nós também fazemos parte. Então é uma surpresa pra mim perceber que isso aqui é tão diferente.

Os alemães olham nos olhos das pessoas com quem estão falando SEM.PRE. Em qualquer diálogo, por mais curto que seja, eles olham bem diretamente nos olhos da outra pessoa.

A primeira situação em que eu percebi isso foi na hora de brindar. Os alemães ADORAM brindar, eles brindam em tipo QUALQUER situação. E aí, eu já estava morando aqui há uns 2 anos quando uma amiga brasileira comentou que tinha aprendido que é uma regra mega importante olhar nos olhos durante o brinde. Nunca tinham me falado isso, mas desde então eu comecei a prestar atenção e, de fato, as pessoas estavam sempre me olhando nos olhos quando brindavam comigo! Realmente era uma regra tão básica que ninguém nunca tinha pensado em me falar… eu escrevi um pouco sobre esses e outros costumes que os alemães não te avisam que é assim porque é óbvio demais pra eles nesse post aqui.

Depois disso, eu comecei a prestar atenção e perceber que várias outras situações em que eu desviava o olhar e a outra pessoa estava olhando diretamente pra mim. A primeira e que mais me “chocou”, por assim dizer, foi em lojas/padarias/restaurantes ou similares. Eu percebi que eu nunca olhava no olho da pessoa do balcão, do caixa, etc. Quando eu comecei a prestar atenção nisso, vi que aqui as pessoas do outro lado do balcão estavam sempre me olhando nos olhos quando vendiam alguma coisa, pegavam o dinheiro que eu estava pagando, pegavam meu pedido, o que for. Pode parecer meio absurdo o que eu estou falando, mas presta atenção: normalmente nessas situações a gente tende a desviar o olhar – você olha pro dinheiro, pro pãozinho que vc está comprando, pro menu, o que for. Quando vc olha pra pessoa, vc olha rápido e meio de lado, não diretamente nos olhos. Aqui as pessoas realmente se olham nos olhos nessas situações.

E mais recentemente, eu andei notando isso novamente em outras situações. Como nos últimos meses eu tenho passado mais tempo com alemães que eu não conheço super bem (colegas de trabalho, por exemplo), eu andei percebendo também que eles fazem questão de olhar nos olhos do interlocutor em situações que a gente não faz, por exemplo, quando eles estão andando lado-a-lado com alguém na rua conversando, ou então no carro, um dirigindo e um sentado no banco do passageiro. Nessas situações eu notei que eu costumo mais olhar pra frente, ou por onde estou andando, e não necessariamente virar pra olhar a pessoa com quem eu estou falando o tempo todo. Mas eles realmente me olham diretamente quando estão falando comigo, mesmo andando ou dirigindo.

Não sei se sou eu que evito olhar nos olhos das pessoas quando não sou super próxima delas por alguma fobia social (não sou lá a pessoa mais confortável em situações sociais), de repente é isso. Mas acho mesmo que no Brasil as pessoas não se olham tão diretamente em todas as situações, porque eu nunca tinha sentido esse olhar direto tão freqüentemente por lá.

Pode ser um pouco desconfortável em algumas situações, mas certamente olhar nos olhos do seu interlocutor mostra um respeito pelo mesmo, mostra que você está realmente prestando atenção nele e no que ele está dizendo, e isso é bem positivo. E talvez seja a maneira dos alemães compensarem pelo fato de eles nunca encostarem uns nos outros e não serem tão simpáticos e delicados como nós, hehehe!

Se você tem uma experiência similar ou totalmente oposta nesse assunto com os alemães, conta lá nos comentários!


(Publicado em 4 de Março de 2016)