Mês: maio 2016

O Meio-Ambiente em obras alemãs

Recentemente uma comissão do senado, no Brasil, pré-aprovou uma lei que basicamente torna o licenciamento ambiental para obras descenessário. Isso poucos dias depois do aniversário de 6 meses do desastre de Mariana, o maior desastre ambiental da história do país, resultado da negligência e descaso de grandes empresas com o meio ambiente.

Nesse triste contexto, achei que valia a pena fazer alguns posts sobre o assunto meio ambiente, e como a Alemanha lida com isso. Planejei três posts: um sobre como se lida com o impacto ambiental em obras aqui, o segundo sobre rios e o terceiro sobre árvores na cidade. São três assuntos com que, como arquiteta paisagista, eu lido diariamente, então acho que dá pra falar alguma coisa a respeito.

Esse primeiro post, então, é sobre como o meio-ambiente influencia o andamento de obras na Alemanha. Nele, vou contar quatro histórias. Eu tive a ideia desse post durante essa semana quando meu namorado – também arquiteto – me mandou umas fotos de um falcão. A história é essa:

Estava o humilde arquiteto tranquilamente em seu escritório projetando uns projetos quando recebeu uma ligação de uma pessoa do departamento de meio ambiente da prefeitura. O telefonema era a respeito de uma família de falcões da espécie Falco tinnunculus, uma espécie de falcão relativamente comum na Europa. Eis que a família de falcões em questão está alojada no telhado do prédio em que o dito arquiteto está pra começar uma obra de reforma do último andar e do térreo. Segundo a pessoa da prefeitura, a espécie é protegida (não ameaçada de extinção, somente protegida por ser uma ave silvestre) e portanto enquanto a família de falcões permanecer alojada no telhado a obra não pode ser continuada porque é contra a lei fazer qualquer coisa que atrapalhe o casal de falcão em seu trabalho de gerar e criar novos falcõezinhos. Para complementar o aviso, a prefeitura ainda enviou por email umas fotos do casal em questão:

Turmfalke +

Falco tinnunculus – fêmea

Turmfalke >

Falco tinnunculus – macho

A reação do arquiteto? Encaminhar imediatamente o email pra namorada (no caso eu) com o comentário “olha só o que encontraram no nosso prédio! É aquele falcão que estávamos procurando pra fotografar!! Vou levar a câmera lá amanhã e ver se consigo vê-los!”. (adoramos bichos e já faz um tempo que estamos passeando por parques quando o tempo está bom para “caçar” (com câmeras fotográficas) as diferentes espécies de aves locais)

Mas falando sério: a fauna silvestre é de fato bem protegida por aqui, e a simples presença de um ninho de alguma ave silvestre ou algum outro animal é o suficiente pra parar temporariamente uma obra ou impedir uma árvore de ser cortada. Por isso que com árvores, por exemplo, os responsáveis pelos projetos que envolvem algum corte de árvore têm que sempre calcular pra tirar as árvores durante o inverno, que se chegar na primavera sem cortar, a chance de algum bichinho se apropriar dos galhos e buracos no tronco pra se reproduzir e proteger os filhotes é bem alta. E aí não pode mais nem encostar na árvore. A proibição em relação à obra nesse prédio por causa dos falcões não é apenas uma norma que você recebe uma multinha boba se desobedecer, mas é considerado de fato um crime!

Como o departamento de meio ambiente da prefeitura sabe tão bem onde moram todas as famílias de falcões da cidade já é uma outra questão que eu não saberia responder. Imagino que os falcões em questão não tenham suficiente conhecimento das leis alemãs pra saber que poderiam chamar a polícia, então suponho que a prefeitura monitore bem de perto as populações de fauna silvestre na cidade.

Histórias de como a fauna pode influenciar obras diversas são várias. Em um outro projeto que o meu namorado conduziu recentemente, uma reforma de uma escola primária, o departamento de meio ambiente da cidade também esteve presente checando a presença de aves locais. Eles observaram as aves voando nas redondezas e se elas tinham habitats nos telhados da escola, se existiam vestígios de determinadas espécies (ossos, dejetos, etc) e até usaram um instrumento não sei qual para escutar sons de morcegos (se eles estiverem presentes). Nesse caso a presença das aves não inviabilizou ou atrasou a obra – uma vez que elas não estavam em período reprodutivo, que é o fator limitante – mas fez com que fosse necessário instalar, em algumas das paredes externas, caixas de reproduções adequadas para determinadas espécies de pássaros.

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Recentemente no escritório em que trabalho fizemos um projeto de análise de impacto ambiental de uma obra de turbinas eólicas. O vilarejo ao lado do qual as 24 turbinas seriam implantadas nos contratou para verificar se todos os requisitos em relação a meio ambiente tinham sido respeitados. Obviamente a empresa responsável pelo projeto também tem que fazer essa análise, mas não é incomum que grandes empresas tentem dar uma disfarçada aqui e ali pra passar um projeto lucrativo. E só porque a empresa é de turbinas eólicas, não significa que eles estejam tão super preocupados com o meio ambiente quanto dão a entender pros seus clientes. Verificamos vários fatores, não apenas ambientais, mas também sociais. Os principais argumentos que levantamos que podem realmente atrasar, parar, ou pelo menos forçar a empresa a alterar o projeto foram dois: o primeiro é que parte da área onde seriam construídas as turbinas está dentro de um raio de tantos metros de um castelo protegido como monumento histórico. De acordo com a lei, dentro desse raio não podem ser realizadas obras de determinado porte, de maneira que o projeto em questão não poderia avançar para dentro desse raio. O outro argumento importante era que a área em questão era uma conexão importante para populações de morcegos da região, além de algumas aves. Como esses animais podem ferir e prejudicar esses animais, o projeto talvez tenha que ser alterado ou movido para outro local.

Morcegos, aliás, também criaram problemas para a obra de uma ponte nova recentemente construída aqui em Dresden. Muitos não queriam que a ponte fosse construída, especialmente pelo impacto visual que ela geraria para a paisagem da cidade. O projeto e construção da ponte gerou várias polêmicas a serem decididas pela justiça. Uma das questões foram os tais morcegos da espécie Rhinolophus hipposideros. A obra não foi cancelada pela presença dos morcegos, mas foi alterada por eles: eles tiveram que colocar um determinado tipo especial de iluminação que não atrai insetos, para consequentemente atrair menos morcegos na ponte (que são predadores de insetos), e durante a noite entre abril e outubro a velocidade máxima para os carros que atravessam a ponte é de 30km/h  – para evitar colisões com os tais morcegos. E, finalmente, uma série de árvores e arbustos teve que ser plantada nas margens do rio próximos à ponte pra “redirecionar” os morcegos a atravessarem a ponte por baixo da mesma, em vez de por cima. E toda essa discussão sobre morcegos atrasou o início da obra em 6 meses. Já a questão do impacto visual para a cidade não foi limitante – e há conseqüências. A área das margens do rio Elba ao longo da cidade tinha o título de patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, título esse que foi perdido após a construção da ponte.

A questão aqui não é dizer se é certo ou errado construir essa ponte (ou qualquer um dos projetos mencionados anteriormente) nem se a cidade ficou mais feia ou mais bonita depois da construção, mas apontar que precisa realmente haver discussões nesse nível de detalhe em relação a meio ambiente quando uma obra de grande porte (ou mesmo pequeno porte) está pra ser iniciada. Os prós e contras de cada lado precisam ser balanceados antes que se construa projetos cujos impactos podem ser irreparáveis. As questões que dizem respeito ao meio ambiente precisam ser analisadas por especialistas e seus argumentos precisam ser ouvidos e valorizados pela justiça e pela sociedade.

Não é que no Brasil exemplos similares aos que eu citei não existam – certamente existem. Conheço engenheiros ambientais, biólogos e ecólogos que trabalham justamente fazendo esse tipo de análise e projetos no Brasil também. E é justamente isso que a PEC 65 – se aprovada – vai anular completamente. Não é questão de se deve ou não deve ser construída uma determinada ponte ou seja o que for – é questão de analisar TODOS os fatores e possíveis conseqüências de cada obra e o fator meio ambiente ser valorizado da maneira necessária. Pode parecer bobo e insignificante que uma determinada espécie de ave seja prejudicada por um projeto que traga outros benefícios pra sociedade, mas não é tão simples assim. Aquela espécie de ave que você acha insignificante é a mesma que se alimenta de insetos e consequentemente controla – por exemplo – as populações do Aedes aegypti, de maneira que prejudicar essas aves pode resultar em um aumento dos casos de dengue na cidade. Ou então pode ser uma espécie responsável pela polinização de uma determinada espécie de planta – que por acaso é a planta usada como ingrediente em determinados remédios. Tudo no meio ambiente é interligado, como num jogo de pega-varetas, onde é quase impossível mexer em uma vareta sem que as outras se movam também.

pegavaretasalagoasdigital

No próximo post (já estou preparando a um tempo, mas é um post longo cheio de fotos bonitas, então dá trabalho) vou falar um pouco sobre os rios e sua situação urbana na Alemanha.


(Publicado em 27 de Maio de 2016)

Relacionamentos entre brasileiros e alemães

Há algumas semanas atrás pensei que um bom tema para um post seria relacionamentos entre brasileiros e alemães. Mais especificamente mulheres brasileiras com homens alemães, que me parece ser o caso mais comum, mas não apenas.

Então comecei a perguntar para amigos e amigas brasileiros que assim como eu têm ou tiveram relacionamentos com alemães, pra comparar impressões e diferenças notadas e ver se minhas opiniões sobre o assunto são gerais ou nem tanto.

E a verdade é que depois de conversar com várias pessoas, ainda não tenho certeza do que vou escrever nesse post… mas vou tentar, vamos ver o que vai sair!

Toda a idéia do post surgiu a partir de uma conversa com outras mulheres, nem todas brasileiras, mas todas estrangeiras, em que uma delas comentou que achava interessante que a maioria das mulheres daquele grupo tinha vindo parar na Alemanha por causa de um relacionamento com um alemão. E percebemos então que isso parece ser uma coisa bem comum: mulheres estrangeiras com homens alemães, e a situação contrária – homens estrangeiros com mulheres alemãs – parece ser bem menos freqüente. E começamos a conversar sobre qual poderia ser o motivo.

Claro, de repente só parece que essa combinação é mais comum porque nós tendemos a procurar pessoas em situações similares para fazer amizade, então é mais fácil para mim, mulher estrangeira na Alemanha, fazer amizade com outra mulher estrangeira na Alemanha. É relativamente comum para as pessoas ter mais amigos do seu próprio gênero que do outro, então vc acabaria só conhecendo as pessoas nessa mesma combinação: mulher estrangeira com homem alemão.

Mas acho que tem sim, vários fatores que fazem com que essa combinação seja a mais comum. Vou separar o post em duas partes: qual a diferença entre namorar um alemão e um brasileiro, e motivos pelos quais essa combinação brasileira+alemão é provavelmente mais comum que a combinação contrária.

1 – O que é diferente, para uma brasileira, numa relação com um alemão?

A primeira coisa que todas as amigas brasileiras mencionam – a primeira antes de tudo – quando eu pergunto qual a diferença entre namorar um brasileiro ou um alemão é: os alemães são bem menos machistas. Algumas mencionaram por exemplo que se sentem bem mais livres em um relacionamento com um alemão. Os ex-namorados brasileiros sempre queriam saber onde estavam, com quem estavam, o que estavam fazendo. Os atuais namorados alemães não tentam controlar suas vidas nem quem são seus amigos nem onde vão ou o que estão fazendo em todos os momentos que não estão juntos. Lógico que não são todos os homens brasileiros que são assim (e nem todos os homens alemães que não são), mas a maioria das amigas com quem conversei tinha uma história de pelo menos um ex-namorado brasileiro exageradamente controlador. Um outro fator repetidamente lembrado é que por aqui os casais têm bem menos problemas em dividir o trabalho doméstico. Pelos exemplos que encontrei parece comum e totalmente normal que cada um faça sua metade do trabalho doméstico, sem brigas ou necessidade de pressão ou stress por isso.

Na verdade, bem no começo do meu namoro eu conheci uma brasileira que era casada há um tempo com um alemão, e a primeira coisa que ela falou ao saber que eu namorava um alemão foi “Ah, que maravilha, os homens alemães são ótimos, você vai ver: eles ajudam com os filhos que é uma beleza!”. Parece ser realmente um ponto importante que facilita essa combinação o fato de que um relacionamento com um homem alemão ser bem mais um relacionamento de igual pra igual do que é comum encontrar no Brasil.

Na minha experiência pessoal, um ponto também muito importante além dessa questão do machismo é que existe uma maior abertura e facilidade em conversar honesta e abertamente sobre qualquer coisa. Em brigas sempre foi mais fácil resolver as coisas com uma conversa honesta em que os dois lados falam abertamente o que estão sentindo.

Além de um maior comprometimento com a relação, mesmo. E isso foi um tema conversado com as amigas também: parece que para os alemães não tem esse meio termo entre ser amigo e namorar. Ou você é amigo ou você está namorando. Sem in-between. Claro que essa diferença não é necessariamente positiva, não são só os homens brasileiros que preferem demorar mais pra se fixar numa relação comprometida, muitas mulheres também preferem assim. Mas uma vez definido o namoro, parece que há – no geral – um maior comprometimento com ele.

Já em relação a começar um relacionamento com um alemão, muitos brasileiros reclamam da dificuldade que os alemães têm em flertar. Isso, aliás, foi mencionado não apenas por amigos héteros, mas também por um amigo gay. Em alguns momentos essa diferença é positiva – abordagens agressivas ou agressividade após ser rejeitado parece ser bem menos comum por aqui. Mas por outro lado, às vezes demora meeeeses até alguém que parece ter interesse em você demonstrar isso de alguma maneira. Mais de uma amiga brasileira falou que no seu relacionamento com um alemão foi ela que tomou a iniciativa que possibilitou o relacionamento – e por aqui não é nada estranho que a mulher tome a iniciativa.

2 – Porque em casais héteros a combinação mulher estrangeira + homem alemão é mais comum que a combinação contrária?

Eu pensei bastante nesse assunto e cheguei a várias conclusões. Uma questão que me parece bem possível é que em vários sentidos é mais fácil em um relacionamento internacional a mulher acabar mudando de país do que o homem. Primeiro tem o fato de que homens no geral recebem mais e têm empregos mais estáveis, além de estarem menos dispostos a abrir mão de um emprego pra tentar a vida em outro lugar. Então no balanço para muitos casais acaba sendo menos arriscado e mais seguro a mulher mudar. Fora que para muitos homens ainda é muito difícil aceitar uma situação em que ele seja sustentado pela parceira nesses meses iniciais após a mudança.

Mas uma outra coisa que eu nunca teria percebido se não tivesse mudado de país, e que acho que influencia isso também: quando você muda para um país novo, com uma língua nova, você inevitavelmente tem que dar uns passos pra trás. Você não vai encontrar imediatamente um emprego no mesmo “nível” do que você tinha antes no seu país de origem, pode ser que demore demais pra você encontrar um emprego na sua área, ou se adaptar ao local e à língua, e nesse meio tempo a sua auto-estima fica completamente no chão. Eu conversei com vários amigos que também sentiram que passaram por isso. Nos primeiros anos no país novo sem conseguir se “posicionar” (encontrar um emprego, ou uma posição na sociedade, mesmo) quando antes as coisas pareciam tão encaminhadas pra você no seu país de origem, você acaba se sentindo incapaz, incompetente, sua auto-estima cai totalmente. E a minha impressão é de que é mais fácil para as mulheres resistirem a essa fase, primeiro porque as mulheres já são na maioria socializadas a dar menos valor pra carreira – de maneira que esses passos pra trás doeriam mais aos homens – mas também porque é mais fácil um relacionamento sobreviver a um período em que a mulher está com baixa auto-estima do que a um período em que o homem está com baixa auto-estima.

Uma outra questão que parece importante nesse assunto são como certas dinâmicas de poder entre raças e gêneros se entrelaçam e se ilustram nos relacionamentos internacionais. Racismo e machismo entre as pessoas aparece claramente nos relacionamentos que parecem improváveis. Quando você pensa em como a xenofobia ou o racismo influenciam a imagem de uma pessoa de um país de terceiro mundo para uma pessoa européia, essa imagem é diferente dependendo do gênero da pessoa que sofre racismo. Para uma pessoa racista – e não tô falando do abertamente racista, mas de qualquer pessoa que foi influenciada pelos conceitos que a sociedade internaliza – um homem negro ou árabe é geralmente visto como perigoso, não-confiável, possível criminoso. Já uma mulher negra, árabe ou oriental é vista como menos independente que as européias, submissa, vítima de machismo, etc. Ou é vista como exótica e sexualizada dessa maneira. Mas não como perigosa, até porque – e aí entra o machismo de novo – mulheres são no geral vistas como “inofensivas”. Então considerando essas dinâmicas sociais de preconceitos diversos que se somam e se influenciam, acaba ficando mais fácil acontecer uma relação entre um homem europeu e uma mulher de fora do que uma relação entre uma mulher européia  e um homem de fora.

É LÓGICO que pra todos os itens mencionados nesse post – espero que nem seja necessário dizer isso – existem exceções. É lógico que existem exceções. Óbvio que tá cheio de homem alemão machista e abusivo, ou homens brasileiros bem legais. Claro que tem exemplos de casos em que o homem muda pro país da mulher e dá tudo certo, e claro que tem mulheres européias que se relacionam com homens de fora sem racismo envolvido, ou homens europeus que se relacionam com mulheres de fora sem a sexualização da mulher “exótica”. Acho meio desnecessário falar isso, mas sempre tem quem queira entender errado: esse post não é sobre você ou a sua relação com uma pessoa de fora. Assim como não é sobre mim nem sobre a minha relação com um alemão.

Mas se você tiver itens a adicionar relacionados à sua experiência, fique à vontade pra colocá-los nos comentários! =)


(Publicado em 8 de Maio de 2016)

A Xenofobia dos outros estrangeiros

Há um tempo atrás eu escrevi um post sobre xenofobia na Alemanha, onde falei um pouco sobre algumas situações onde eu ou amigos estrangeiros nos sentimos discriminados pelos alemães, ou sentiram em que havia uma diferença clara na maneira como éramos tratados pelos alemães. Você pode ler esse post aqui.

Mas um outro assunto relacionado à xenofobia vem me incomodando muito e também precisa ser tratado: a xenofobia de outros estrangeiros.

Nos grupos de facebook das comunidades internacionais na Alemanha – certamente no daqui de Dresden – volta e meia aparecem posts com relatos de pessoas que foram vítimas de racismo e xenofobia em alguma situção. No mais recente que li, um homem árabe, engenheiro que mudou com a família pra cá a trabalho, contou que num domingo à tarde sua família (ele, a esposa e dois filhos) foi verbalmente agredida e intimidada num trem por um grupo grande de torcedores bêbados do Dynamo – o time de Dresden. Assustado e indignado, o homem contou que nesse dia finalmente viu de perto o “outro lado” de Dresden, o lado racista, xenófobo e preconceituoso. A torcida do Dynamo é bem conhecida na Alemanha por ser racista, agressiva e violenta, nos jogos sempre dá briga, o ambiente é sempre meio pesado. E Dresden, berço do movimento xenófobo Pegida, é conhecida na Alemanha por ser uma das cidades menos receptivas a estrangeiros.

Mas dessa vez o que mais me chocou nesse relato foram os comentários dos outros estrangeiros do grupo. Poucos eram realmente comentários de apoio: “poxa, que horror…”, “Já passei por isso, foi péssimo”, “não quero nem imaginar como vc deve ter se sentido!”, “Se quiser sair pra conversar, podemos marcar um café.”. A maioria dos comentários tentava desesperadamente defender a Alemanha e os alemães de três principais maneiras: ou invalidando a experiência que aquela pessoa compartilhou, ou generalizando a sua própria experiência positiva, ou, pior de tudo, culpabilizando a vítima da agressão racista/xenófoba pela agressão que sofreu.

O primeiro tipo – o que invalida a experiência do outro – é aquele que lê essa história e comenta “não liga”, “ignora”, “esquece” ou “Mas isso poderia acontecer em qualquer lugar”, “idiotas existem no mundo inteiro, não é só aqui”, “sempre tem uns assim, aposto que no seu país também tem”. Tinham muuuitos comentários nessa linha. Não importa se isso acontece em outros lugares com outras pessoas também, aconteceu aqui com essa pessoa que está lá desabafando que teve que passar por isso. E COMO que alguém “esquece” ou “ignora” ou “não liga” pra uma situação dessas? Um grupo de homens bêbados querendo briga xingando e intimidando vc e suas crianças pequenas num trem, com ninguém em volta te defendendo ou te ajudando? Mas, né, poderia ter acontecido em outras cidades ou outros países também, então relaxa e aproveita a Alemanha e pare de reclamar que aqui é obviamente tudo lindo e perfeito.

Depois, vêm sempre aqueles fulanos que, quando alguém conta que passou por alguma agressão racista ou xenófoba, comenta que “eu sou assim, assim e assado e nunca me aconteceu nada, logo, não é verdade que existe racismo/xenofobia”. Amigo, você não é 100% das pessoas, só porque vc não passou por nada assim – sorte sua – não faz a experiência de outros que viveram tais situações menos válidas ou menos verdadeiras.

Lendo essas coisas a impressão é de que muitos estrangeiros gostam tanto daqui que se recusam a acreditar que possa existir qualquer tipo de ponto negativo, lado ruim ou coisas que poderiam ser melhores na Alemanha. Essa impressão é reforçada cada vez que eu vejo alguém fazer qualquer tipo de crítica – por menor que seja – à Alemanha por exemplo no grupo da comunidade brasileira daqui. SEMPRE, mas sempre sem exceção, metade das respostas é “MAS É MUITO PIOR NO BRASIL!!!” “MAS AQUI TEM ISSO ISSO E AQUILO QUE É MUITO MELHOR QUE NO BRASIL!!!”. Não é essa a questão. Não importa se a Alemanha é melhor ou pior que o Brasil. Nada disso invalida uma crítica a algo que não é legal. Eu fico me perguntando porque a pessoa acha tão importante acreditar que a Alemanha é PERFEITA SEM DEFEITOS pra poder ser feliz aqui? Eu gosto de morar aqui. Não quero voltar. Mas critico a Alemanha em vários pontos. Nem de longe diria que ela é “melhor” que o Brasil, acho que todos os países têm lados melhores e piores que os outros. A qualidade de vida é melhor aqui, mas a comida é melhor lá. Aqui vc se sente mais seguro, mas as pessoas são mais simpáticas lá. Tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Mas o terceiro tipo é de longe o mais ofensivo. A pessoa contou esse caso e um dos comentários – de uma ucraniana branca, loira de olhos azuis – dizia que basta vc ficar na sua e não chamar a atenção que nada nunca vai acontecer com você – ela diz isso por experiência já que já morou 4 anos em Berlim e 4 em Dresden e nunca aconteceu nada com ela. Nossa, será que de repente é pq vc não é negra, nem tem cara de árabe, nem oriental, mas obviamente europeia e passa despercebida aqui? “Claro que não”, responde a ilustre pessoa, “não tem nada a ver com cor de pele, pare de se vitimizar! Em todos os casos que eu presenciei algum tipo de agressão era pq a pessoa vítima da agressão estava se comportando de maneira estranha, e quando vc vai morar num país vc tem que se comportar e fazer tudo exatamente como as pessoas daquele país. Ah, e quanto a crianças, gente, um aviso, fiquem de olho nas crianças, não deixem elas correrem ou falarem alto no trem, que afinal é um lugar público e isso pode incomodar as outras pessoas. E não encare esses torcedores de futebol, eles não gostam.” e partiu daí a explicar como algumas ucranianas também foram vítimas de agressão, mas foi culpa delas mesmas por terem saídos bêbadas sozinhas de uma festa à noite. Eu ainda cortei vários trechos dos comentários dela (eram uns 5 comentários bem compridos) pra não me estressar demais transcrevendo.

Isso abre uma outra discussão importante quando a gente fala de xenofobia. Esse mito de o bom imigrante X o mau imigrante. O bom imigrante seria aquele que veio estudar, ou que veio porque a empresa realocou ele pra cá, o bem qualificado, bem educado, que já sabe a língua, que não tem uma religião diferente nem uma cara diferente. Basicamente é o imigrante que não é tão diferente. O mau imigrante seria o refugiado, o imigrante que veio porque as coisas não estavam boas no seu lugar de origem, o que não tem qualificação, não tem educação, depende de assistência governamental, demora pra aprender a língua, segue uma religião diferente, se veste diferente, resumindo: o diferente demais. Que as pessoas locais separem os imigrantes nesses dois grupos (isso as pessoas que se dizem não-xenófobas, as abertamente preconceituosas detestam todo mundo igual) é meio óbvio e esperado – embora não menos triste ou preconceituoso. Mas o que me deixa triste mesmo é ver os próprios imigrantes (os do primeiro grupo, claro), fazendo essa distinção e a partir dela sendo xenófobos com os do segundo grupo. Crentes de que por fazer parte do primeiro grupo eles estão seguros e protegidos aqui e que ninguém vai mexer com eles. E tomando as “dores” dos xenófobos locais em relação ao imigrante “diferente demais”. Só que, como deixou clara a história do rapaz engenheiro, o grupo de torcedores racistas bêbados não vai antes te perguntar se vc é refugiado ou intercambista antes de te agredir quando não tiver ninguém por perto pra te ajudar. Ninguém vai te perguntar se você é advogado ou desempregado antes de te xingar na rua. O chefe da empresa pra qual você mandou seu currículo também vai estar bem menos preocupado com a sua qualificação do que você imagina antes de descartar o currículo do fulano de nome estranho e cara esquisita (você) em favor do alemão “normal” com nome “pronunciável”. Na rua, você só vai passar despercebido se tiver a sorte de ser branco o suficiente. Então quando você reproduz o discurso xenófobo, seguro de que ele não se aplica a você, pode ter certeza que o que você está usando pra atacar os outros imigrantes é um belo dum bumerangue.

É triste demais perceber quando a comunidade internacional, em vez de se ajudar e se apoiar nesses casos, tão freqüentemente reproduz os discursos dos piores mais racistas e mais xenófobos alemães que você poderia encontrar por aqui. Eis aqui um belo exemplo: Um post no grupo da comunidade de brasileiros avisando que teria uma manifestação neo-nazi (sim, tem dessas em Dresden.) e recomendando ficar longe do local onde ocorreria a manifestação. Esse nobre comentário foi o primeiro a aparecer no post:

???

Nem sei o que comentar a respeito.

Mas pra terminar o post com um tom positivo: Eu acredito que essas pessoas não sejam a maioria, felizmente. Pelo menos dos estrangeiros que eu conheço pessoalmente, não saberia mencionar nenhum que pense assim (Bom, provavelmente eles não gostam de fazer amizade com outros estrangeiros, né…). E é assim aqui em Dresden – e acredito que na maioria das outras cidades alemãs também – tem sempre um grupo de estrangeiros e alemães que se ajudam, se apoiam no que precisar, e tal. Certamente vale a pena entrar em alguns grupos da sua cidade no facebook até achar aquele onde estão as pessoas mais prestativas e amigáveis, certamente tem um. É importante fazer amizade com pessoas locais para facilitar sua integração, mas também é muito importante pro bem estar pessoal ter um grupo de amigos que estão “na mesma situação” que você, com quem você pode desabafar quando as coisas estiverem difíceis, quando der saudades de casa, quando você estiver mega irritado com alguma característica típica daqui, quando você precisar de alguém que saiba exatamente o que você está passando…

Então fica aqui meu pequeno-longo manifesto para todos os estrangeiros na Alemanha: bora se ajudar que tá todo mundo no mesmo barco!


(Publicado em 3 de Maio de 2016)