Mês: junho 2016

Dirigindo na Alemanha 2 – Prova teórica

Hoje finalmente fiz a prova teórica para tirar a habilitação alemã – e passei!

Esse post é a parte 2/3 sobre como validar sua habilitação na Alemanha. Na parte 1 eu expliquei a parte burocrática, nessa parte vou falar sobre a prova teórica, e na parte 3, sobre a prova prática.

Retomando a história. Se você seguiu os 7 passos descritos no primeiro post, você entregou seus documentos na Führerscheinstelle e agora está esperando a carta que diz que você pode se inscrever para a prova teórica. Chegando a carta (pra mim demorou QUATRO MESES pra chegar!), os próximos passos são…

Passo 8: Ir até sua auto-escola pra marcar o teste teórico • 30€ • quase imediatamente • theoretische Prüfung
Quando eu fui na Autoescola marcar a prova, escolhi fazê-la dali a duas semanas, pra dar mais um tempinho de ter certeza que eu sabia o que tinha que saber pra prova. Mas tem vários horários pra prova e dá pra marcar – pelo menos aqui em Dresden – quase que pro dia seguinte. Eu imagino que em cidades maiores demore mais pra marcar, não sei. Daí pra auto-escola você tem que pagar 30 euros, só pra eles marcarem a prova pra você. Só isso, eles entram num sistema online qualquer, marcam o horário pra prova, e te cobram 30 euros por isso. E é um valor fixo, então em qualquer auto-escola vai ser assim.

Passo 9: Estudar pra prova • 0€ – 60€
Bom, o preço que você vai pagar pra estudar depende do material que você escolher usar. Você pode comprar o material de estudo que te oferecem nas Auto-escolas (Livro + DVD + código pra usar um portal online) por 55 euros (ou mais, pelo que eu tinha visto pra comprar o livro em outra língua que não alemão era mais caro), ou você pode comprar apps ou pagar uma inscrição em algum site, tem várias opções. Eu escolhi a opção mais barata: baixei um app de graça que é super bom e eu super recomendo, chama iTheorie. O único problema do app é que só tem a opção de estudar em alemão. Então se você escolheu fazer a prova em outra língua (no primeiro post eu expliquei quando que você escolhe a língua da prova e quais as opções), pode ser meio contra-produtivo estudar em alemão e fazer a prova em português ou inglês.

Vou dar mais detalhes de como eu estudei e como é a prova mais pra frente no post.

Passo 10: Ir buscar sua habilitação brasileira na Führerscheinstelle • 0 • assim que você receber a carta
Você vai precisar apresentar sua habilitação brasileira na hora de fazer a prova teórica, então não se esqueça de ir buscá-la quando vc receber a carta dizendo que você já pode se inscrever pra prova!

Passo 11: Ir até a Dekra no dia e horário marcado pra fazer a prova • 20,83 • resultado sai imediatamente
A prova custa 20,83 euros, você pode ou fazer uma transferência do dinheiro pra Dekra e levar o comprovante pra prova, ou trazer o dinheiro e pagar na hora. No segundo caso você tem que trazer o dinheiro EXATO, vinte euros e oitenta e três centavos. Os documentos que você precisa levar pra prova:
I –  O seu passaporte ou documento de identidade (no caso o documento de residência da Alemanha, ou documento de identidade europeu se for o caso). Quando você entrega os documentos na Führerscheinstelle eles colocam o número do documento que você tem que trazer pra prova, traga esse.
II – A sua habilitação brasileira
III – O dinheiro ou comprovante de pagamento
IV – O seu Bewerbernummer (número de inscrição), que a sua auto-escola terá te passado na hora que você marcou a prova.

Você faz a prova num iPad e o resultado sai imediatamente! Se você passar, no dia seguinte já pode ligar pra sua auto-escola pra marcar a prova prática!

Até agora você terá gasto, ao todo (incluido os passos do primeiro post e os desse post), por volta de 290€ (se você tiver pago pelo material de estudo) ou 240€ se você tiver emprestado o livro de alguém ou estudado por algum app gratuito, etc.

Mas agora vamos à parte que interessa: como é a prova, o que vc precisa saber, como são as questões, etc!

Primeiro deixa eu avisar que: a prova teórica daqui é beeeeeem mais difícil que a do Brasil, nem se compara! Então leva essa prova a sério e se prepara mesmo, que se você não passar terá que pagar as taxas de novo pra marcar outra!

É o seguinte: existe um catálogo oficial de questões da prova, a partir do qual 30 questões são escolhidas aleatoriamente. Esse catálogo tem, ao todo, 1.047 questões. Sim, você leu certo, mil e quarenta e sete perguntas. Sua prova conterá 30 dessas mil e poucas questões. A escolha é mais ou menos aleatória pq as questões são divididas em algumas categorias diferentes: direção defensiva, sinalização de tráfego, mecânica, meio ambiente, conduta no tráfego, regras burocráticas e prioridade. E aí na prova tem sempre, por exemplo, 10 perguntas sobre direção defensiva, 2 perguntas sobre meio-ambiente, etc.

Cada pergunta tem um peso diferente, variando de 2 a 5 pontos. Os pontos contam “ao contrário”, quer dizer: a regra pra passar é que você só pode errar um máximo de 10 pontos. Isso significa, por exemplo, que vc pode errar ou  uma pergunta de 5 pontos e uma de 4, ou 3 perguntas de 3 pontos, ou 5 perguntas de 2 pontos, ou 1 pergunta de 5 pontos e duas de 2 pontos, etc. Somando no máximo 10. Se passar de 10, você reprova. A grande maior parte das perguntas tem 4 e 5 pontos, então normalmente com 3 questões erradas você já reprova. (Detalhe: se você errar duas perguntas de 5 pontos, vc reprova tb, mesmo podendo errar até 10 pontos. É um exceção.)

Quanto ao formato das perguntas: a maioria é de múltipla escolha, só que é um pouco diferente. Tem normalmente 3 alternativas, e podem estar corretas uma, duas ou três alternativas! Então pra maioria das questões não rola descobrir a alternativa certa por exclusão, você realmente tem que saber pra todas as alternativas se aquela é certa ou errada!

Algumas perguntas não têm alternativas, mas a resposta é só um número, por exemplo: Se você estiver dirigindo com uma velocidade de 100km/h, qual é a sua distância de freagem (Bremsweg)?
Aí você tem que calcular com uma fórmula ({velocidade em km/h}/10 x {velocidade em km/h}/10 = {distância de freagem em m},  no caso, 100m)  e digitar só o número 100.

Algumas perguntas têm ou uma imagem ou um vídeo. As com vídeo, na prova você vai poder assistir o vídeo no máximo 5 vezes e você só pode ver a pergunta depois de assistir o vídeo. Depois que você ler a pergunta, não dá mais pra assistir o vídeo, então você tem que tomar cuidado de observar todos os detalhes do vídeo, principalmente pedestres, ciclistas, motociclistas ou carros que bem na hora que o vídeo termina entram no ponto cego do espelho do carro, tem várias questões que se vc não tiver prestando atenção no espelho você não vai saber a resposta. Os vídeos são super detalhados e bem feitos! No seu material de estudo (por exemplo esse app que eu comentei, o iTheorie) você vai ver exatamente os vídeos e imagens que podem aparecer na sua prova.

Pra terminar, vou colocar aqui uns exemplos de perguntas que podem aparecer na prova. Vou colocar duas de cada categoria, pra dar uma idéia geral de como são as perguntas. Os prints são do app iTheorie e a tradução é minha. Se você for fazer a prova em português, não confie que a minha tradução vá ser igual à da prova, que a prova é em português de Portugal e eu tb não sei os vocabulários específicos em português já que estudei em alemão e fiz a prova em inglês.

Exemplos de perguntas!

Categoria: Direção defensiva (Gefahrenlehre)

Pergunta à esquerda: Ao que você deve atentar neste momento?

Resposta: > À bicicleta
                    > Ao carro à sua frente

Essa é uma das perguntas com vídeo. Não dá pra eu postar o vídeo aqui, mas nele você veria que poucos segundos antes dessa imagem (que é como termina o vídeo) um ciclista vindo à sua direita entra no ponto cego do seu espelho direito. Também não dá pra ver na imagem, mas você está com a seta para a direita ligada, ou seja, você quer virar à direita, assim como o carro à sua frente. Então nesse momento você tem que prestar atenção ao carro à sua frente, que pode frear de repente se aparecer um pedestre ou coisa assim, e ao ciclista que está no seu ponto cego, que pode seguir em frente.

Pergunta à direita: Você quer ultrapassar. O que você tem que ter em mente?

Resposta: > Que o ciclista diretamente à minha frente pare de repente.
                    > Que o ciclista mais distante vire à esquerda

Na imagem você vê o que o ciclista diretamente à sua frente está acenando para os pedestres – então talvez ele pare para conversar com os mesmos. E pela posição do ciclista mais distante, dá pra ver que ele está virando à esquerda, como quem vai desviar de algum obstáculo. Então você tem que ter em mente, se for ultrapassar esses ciclistas, que o outro ciclista pode virar à esquerda e que o ciclista à sua frente pode frear de repente.

Váááááárias questões envolvem ciclistas, várias mesmo. Se você passar nessa prova, você definitivamente aprendeu a considerar ciclistas participantes normais do trânsito, que devem ser respeitados, e não alguém que está ocupando o espaço destinado tão somente ao seu divino e imaculável carro.

Categoria: Conduta no tráfego (Verkehrsverhalten)

iTheorie

Pergunta à esquerda: Você está dirigindo a 100km/h e tem um tempo de reação (Reaktionszeit) de 1 segundo e uma freagem normal. O quão longa é a distância de paragem (Anhalteweg) de acordo com a fórmula da regra prática?

Resposta: 130m 

Aqui é o seguinte. Tem essas fórmulas práticas (Faustformel) pra calcular distância de freagem (Bremsweg), distância de reação (Reaktionsweg) e distância de paragem (Anhalteweg). A distância de paragem (quantos metros vc precisa pra parar o carro) é a distância de freagem (quantos metros vc precisa pra frear) e a distância de reação (quantos metros você anda no tempo que vc demora pra reagir quando precisa frear (normalmente é 1 segundo). As fórmulas são:

Distância de freagem (Bremsweg) em m = {velocidade em km/h}/10 x {velocidade em km/h}/10

Distância de reação (Reaktionsweg) = 3 x {velocidade em km/h}/10 x {tempo de reação em s}

E a distância de paragem (Anhalteweg) a soma dos dois. Então nesse caso temos

Bremsweg: 100/10 . 100/10 = 100 m
Reaktionsweg: 3 . 100/10 . 1 = 30 m
Anhalteweg: 30 + 100 = 130 m

Pergunta à direita: A que distância você deve parar da “cruz de Andreas” (Andreaskreuz)  fora de cidades?

Resposta: 50m

Mais umas explicações: essa cruz de Andreas é uma placa em formato de X com pontas vermelhas, que é o que indica que a rua cruza um trilho de trem. Assim:

Zeichen_201

Essa placa indica onde você deve parar se o cruzamento estiver fechado porque um trem vai passar. Dentro de cidades você deve parar a 5m de distância dessa placa, e fora de cidades, a 50m.

Outras distâncias boas de saber que são perguntadas na prova: você só pode parar ou estacionar há 5m de distância de uma faixa de pedestres (5m antes da faixa, depois da faixa não tem distância mínima) e você só pode estacionar há 15m de distância de uma placa de ponto de ônibus.

Categoria: Prioridade (Vorfahrt/Vorrang)

A questão de quem tem ou deve dar a prioriade a quem é aqui SUPER diferente de no Brasil. Vou dar uma explicação rápida antes das perguntas. Basicamente é o seguinte: quando um cruzamento não tem nenhum sinal especificando se a prioridade é sua ou não, você deve seguir a regra “direita antes da esquerda”. Significa que carros/bicicletas/motos vindos pela rua à sua direita têm prioridade sobre você, e você tem prioridade sobre carros/bicicletas/motos vindos pela rua à sua esquerda. Quanto a carros/bicicletas/motos vindo na direção contrária à sua: se vocês estão entrando na mesma rua, tem prioridade àquele que está virando à direita e não á esquerda. Se ambos estão virando à esquerda, devem fazer a curva na frente um do outro. Ambos virando à direita ou indo em frente não se influenciam.

É importante prestar atenção no seguinte: não importa se uma rua é asfaltada e a outra é em paralelepípedo, ou se uma rua é maior e a outra é menor, isso não dá nenhuma indicação de prioridade. O que indica a prioridade são sempre as plaquinhas, ou, se não tiver plaquinhas, a regra “direta antes da esquerda”. Isso vale INCLUSIVE se não forem duas ruas se cruzando, mas uma rua chegando em outra rua! Por exemplo, você está indo em uma rua que continua em frente, e tem uma rua chegando à sua direita que não cruza, só termina na sua rua. Se tiver um carro/bicicleta/moto vindo dessa rua, como ele está à direita, ele tem prioridade.

Já quanto às placas. Tem as seguintes placas importantes sobre prioridade:

Vorfahrt gewahren   Zeichen_208      stop

Essas três placas acima dizem que você deve dar a prioridade. A primeira significa simplesmente que a prioridade é da rua que está cruzando. A segunda diz que carros/bicicletas/motos vindo na direção contrária à sua têm prioridade (por exemplo se tem algum trecho da rua em que por algum motivo tem só uma faixa pra ambas as direções, e os carros vindos de cada direção têm que se alternar pra passar por aquela faixa). E a velha e conhecida placa de pare significa que você deve dar a prioridade E que você deve, de fato, parar antes de continuar! Não vale só dar uma reduzida na velocidade, com placa de pare tem que parar mesmo, pq é um cruzamento particularmente perigoso.

Vorfahrt Straße   vorfahrt

As duas placas acima dizem que a prioridade é sua. A primeira indica que você está numa rua prioritária (então você tem prioridade nesse cruzamento e também no próximo, até aparecer uma placa “cancelando” a prioridade, ou até a rua terminar). Já a plaquinha seguinte significa que você tem prioridade no próximo cruzamento, mas essa não é uma rua prioritária, então provavelmente no cruzamento seguinte você terá que dar a prioridade.

mapinha

Essa plaquinha indica que a rua que tem prioridade vira à direita ou à esquerda. Às vezes é uma grande avenida com uma curva, por exemplo, e ruazinhas pequenas chegando, e aí tem que ficar especificado que a rua prioritária vira. A plaquinha tá sempre virada no sentido de acordo com a sua posição.

Então vamos aos dois exemplos de perguntas:

iTheorie

Pergunta à esquerda: Qual conduta é correta?

Resposta: > Eu devo dar a prioridade ao carro vermelho
                    > Eu tenho prioridade sobre o carro azul

Nesse cruzamento não tem nenhuma placa, então vale a regra “direita antes da esquerda”. Logo, o carro que está vindo pela rua à sua direita, o carro vermelho, tem prioridade sobre você e você tem prioridade sobre o carro que está vindo pela rua à sua esquerda.

Pergunta à direita: Qual conduta é correta?

Resposta: > Eu tenho que esperar

Aqui tem uma placa de rua prioritária, e embaixo uma plaquinha indicando que a rua prioritária vira à direita. Portanto, se eu estou virando à esquerda, eu estou saindo da rua prioritária, e o carro amarelo está vindo pela direita e seguindo pela rua onde estou, portanto seguindo o percurso da rua prioritária. Logo, eu tenho que esperar ele passar para poder fazer a conversão.

Os exemplos dos exercícios aqui foram só com carros, mas tem vários exercícios com bicicletas e motos, e não se esqueça que as bicicletas têm os mesmos direitos que o carro, então se tem uma bicicleta vindo à sua direita você tem que dar a prioridade.

Categoria: Sinalização de tráfego (Verkehrszeichen)

Antes dos exemplos, vou fazer uma observação mega importante aqui. Dá uma olhada nessas plaquinhas:

Uma coisa que eu acho super confusa da sinalização aqui é que as plaquinhas com o círculo vermelho significam que aquilo que a placa indica está proibido. Pra gente é confuso pq proibido tem que necessariamente ser cruzado com a diagonal vermelha. Mas aqui não. Então, acima: a bicicleta no fundo azul significa que ali é uma rua (ciclovia, ciclofaixa) exclusiva pra bicicletas, onde nem pedestres nem carros nem motos podem entrar. Já a bicicleta com o círculo vermelho significa que naquela rua bicicletas não podem entrar. A mesma coisa pra plaquinhas com carros, motos, pedestres, etc, segue sempre essa lógica.

Já as placas triangulares com a borda vermelha significam “atenção”.

Vamos aos exemplos, então.

iTheorie

Pergunta à esquerda: Como você deve se comportar em uma estrada ao ver essa sinalização?

Resposta: > Ficar mais atento, aumentar a distância de segurança
                    > Em caso de congestionamento, ligar o pisca alerta

A placa indica que nesse local é comum ter congestionamento (na estrada). Então você deve aumentar a distância de segurança, ficar atento e em caso de congestionamento, ligar o pisca-alerta.

Pergunta à direita: Como você se comporta nessa área de perigo?

Resposta: > Mudar de farol alto para farol baixo caso aviste um animal silvestre
                    > Dirigir devagar, ficar atento a animais silvestres.
                    > Não desviar de animais se o tráfego no sentido contrário for colocado em risco

A placa indica que nos próximo 3km há boas chances de animais silvestres (veados, raposas, por exemplo) cruzarem a estrada. Caso você aviste um animal, você deve baixar o farol, pois o farol alto confunde o animal e faz com que ele fique parado em vez de correr. Você deve dirigir devagar, já que há o risco de colisão com animais. E você não deve desviar de um animal na estrada, caso o desvio coloque em risco carros vindo no sentido contrário ao seu.

O interessante das perguntas sobre sinalização é que a maioria não pergunta simplesmente “o que significa essa placa”, mas são mais específicas, querendo saber como você deve se comportar ao ver aquela placa.

Categoria: Proteção ao meio-ambiente (Umweltschutz)

Uma categoria interessante da prova é a de proteção ao meio ambiente. As perguntas envolvem consumo de combustível, poluição (inclusive sonora), e, inclusive, perguntas sobre como evitar sobrecarregar o meio-ambiente em que a resposta envolve “pegar transportes públicos em vez de carros” “ir de bicicleta em vez de carro” “dar caronas”, etc.

iTheorie

Pergunta à esquerda: Quais atitutes criam poluição sonora desnecessária?

Resposta: > “brincar” com o acelerador quando o carro está desengatado
                    > dirigir com escapamento com defeito

Pergunta à direita: Como você pode economizar combustível?

Resposta: > Retirando os suportes do capô quando eles não estão sendo utilizados (suporte pra bagagem ou bicicletas que ficam no capô)
                    > Dirigindo com atencipação

Categoria: Mecânica (Technik)

iTheorie

Pergunta à esquerda: A direção do seu carro está tendendo para um dos lados durante a viagem. Qual pode ser o motivo?

Resposta: > defeito no armortecedor
                    > rodas estão em desequilíbrio
                    > suspensão está com defeito

Pergunta à direita: Qual pode ser o motivo se o seu carro com motor a diesel não está partindo?

Resposta: > Ar no sistema de combustível
                    > Filtro de combustível bloqueado

Categoria: Regras burocráticas (Betriebsvorschriften)

iTheorie

Pergunta à esquerda: Como você sabe que deve levar seu carro para a revisão?

Resposta: > Pela data na etiqueta de inspeção
                    > Pela data no documento do carro

Pergunta à direita: Após um rebaixamento, é necessário levar o carro para uma avaliação. Quando ela deve ocorrer?

Resposta: > diretamente após a modificação (no caso, o rebaixamento)

OK CHEGA! Enfim, acho que deu pra dar uma idéia do tipo de pergunta que aparece na prova. Quer dizer: se prepara bem antes de marcar a prova que não é fácil!

É isso por hora!

A parte 3 – Prova Prática – você poder ler aqui!

Obs: um leitor recomendou o seguinte site para estudar pra prova: https://www.fuehrerschein-bestehen.de/ , onde tem testes em todas as línguas da UE. Obrigada pela dica, Newton!

Obs 2: Não dirija na Alemanha depois dos 6 meses limite sem uma habilitação alemã!!! É a mesma coisa que dirigir totalmente sem ter habilitação! Esse post aqui fala das conseqüências possíveis se você for pego dirigindo com a CNH brasileira depois dos 6 meses limite.


(Publicado em 27 de Junho de 2016)

Portingalemão

Uma conseqüência inevitável de se mudar pra um país que fala outra língua é a mistura das línguas. Algumas misturas de língua têm até nome oficial, tipo o famoso Spanglish dos latinos nos EUA, o nosso portunhol ou portuñol entre sulamericanos, o Denglisch (Deustch + Englisch), etc. Mas quando vc está num país em que a língua é mais difícil que a média e vários dos estrangeiros não falam ou não aprenderam ainda a língua local, inevitavelmente acaba entrando uma outra língua na mistura, o inglês claro.

Esses dias eu olhei uma lista de coisas a fazer que eu tinha escrito rapidinho no trabalho, listando as coisas a fazer naquele dia, e notei que a lista estava uma mistura louca de alemão, inglês e português.

WhatsApp-Image-20160622

A lista em questão

O curioso é que essa mistura nem é relacionada à sua fluência em cada língua. Acaba sendo uma questão de praticidade, mesmo. Então quando, por exemplo, eu escrevo algo que é só pro meu próprio uso, a mistura é inevitável, acabam saindo coisas em português, inglês ou alemão, dependendo da língua que estava na cabeça em cada momento.

Como estrangeiro morando na Alemanha, vc querendo ou não acaba usando muito o inglês – mesmo que seu alemão já seja fluente – pq é inevitável que vc tenha vários amigos que não falam nem alemão nem português. Então você acaba mesmo usando as três línguas regularmente.

Aí tem situações em que você não mistura: por exemplo se vc está conversando em alemão com um alemão: vc fala tudo em alemão, mesmo. Mas tem situações em que você mistura por questão de conveniência: se você está por exemplo conversando com outro brasileiro e vai usar alguma palavra específica que vc teria que inventar uma tradução pra poder falar em português pq é algo específico daqui. Aí vc acaba falando aquela palavra em alemão mesmo. Ou às vezes simplesmente pq vc tá falando rápido e não quer ficar toda hora parando pra pensar qual é a palavra naquela língua que vc tá falando, quando vc sabe que a pessoa com quem vc tá falando entende a outra língua também, então vai a primeira palavra que veio na sua cabeça e pronto!

De exemplo, peguei rapidinho aqui umas frases tiradas de conversas com outros brasileiros recentemente pelo face ou whatsapp:

“Alguém por aí que poderia me informar onde fica a loja portuguesa em DD que possa achar polvilho? Haltestelle? Danke
(Haltestelle = ponto de ônibus/tram)

“Fui numa Fahrschule aqui para me registrar para a prova escrita e a mulher me orientou ir ao Führerscheinstelle primeiro.. Vou lá amanhã.”
(Fahrschule = autoescola. Führerscheinstelle = o equivalente ao Detran)

“Em meißen eles vão começar a oferecer Ausbildung ano que vem, tem 2 vagas”
(Ausbildung = tipo um curso técnico de 3 anos para alguma profissão)

“Mas aí fiquei pensando q eu tô com horários malucos no Praktikum aqui, e se não tiver ninguém em casa vai derreter.”
(Praktikum = estágio)

Ou com outros estrangeiros:

“And there’s a Ferienwohnung right in front of the restaurant which is also good.”
(Ferienwohnung: apartamento de férias, pra alugar)

“Are you thinking Eis Becher or cone ice cream?”
(Eis becher: uns sorvetes gigantões todo produzidos)

“So now, even if the contract should end, the gesetzliche Krankenkasse has to then give you an option to stay as a freiwillig versicherter member which is loads cheaper than being in a private one.”
(gesetzliche Krankenkasse: seguro de saúde público. freiwillig Versicherter: segurado voluntário) (ainda preciso fazer um post sobre seguros de saúde, dá assunto pruns 10 posts…)

E algumas situações acabam ficando até absurdas: outro dia eu estava andando na rua com meu namorado e encontrei uma amiga brasileira. Começamos a conversar, os três. Ela falando em alemão, ele em inglês e eu em português. Os três falam as três línguas e por algum motivo essa mistura funcionou bem assim. Foi bem uma questão de tentar facilitar pro outro: ela estava falando alemão pq o meu namorado é alemão. Eu estava falando em português pq ela é brasileira. Ele falando em inglês pq ele não fala português tão bem e nenhuma de nós era alemã. Resultado: portingalemão.

(ou, se vc preferir, Portalinglês, Aleminportuguês, Aleportinglês, Inglaleportuguês ou Inportalemão)

Teve também outra situação bizarra: eu estava com um grupo de pessoas de países de língua espanhola num encontro dos alunos do curso de alemão. Eu aprendi espanhol na escola, e entendo razoavelmente bem – como não é difícil para qualquer brasileiro – mas não consigo falar praticamente nada em espanhol. E eles, lógico, estavam falando entre si em espanhol. Eu entendia o que eles falavam e respondia em alemão – que eles entendiam já que eram alunos do curso de alemão. E de alguma maneira a comunicação assim acabou funcionando. Também assim se comunica meu namorado quando estamos com um grupo de brasileiros. Ele entende razoavelmente o que está sendo dito, mas não consegue responder bem em português, então responde em inglês, mesmo.

E essa mistura também acaba sendo comum pra quem tá começando a aprender alemão. Quando você está aprendendo a língua, é comum você entender mais do que consegue falar porque muitas palavras vc ou conhece mas não lembra na hora de usar, ou não conhece mas entende o significado pelo contexto. Então em um determinado momento, é comum vc entender bastante mas não conseguir falar quase nada, e acaba se comunicando com outros alemães nesse modo bilíngue: eles falando em alemão e você respondendo em inglês.

Eu acho bem interessante ver como as pessoas se arranjam pra se comunicar.

Eu já escrevi um post grande sobre a relação dos alemães com a sua língua (escrito em um momento de frustração). Esses dias também me veio na cabeça uma analogia muito boa pra essas questões de língua: quando você está tentando falar alemão num grupo de alemães, é como se você tivesse jogando uma partida de Scrabble em que todos os outros jogadores têm um set inteiro de letras pra jogar e você tem só as 8 que as regras do jogo permitem. E aí os outros te perguntam porque você não está se divertindo com o jogo, e quando você explica o quão injusto é o jogo eles te dizem “ah, mas vc está indo tão bem com essas letras que vc tem! Se você jogar mais 100 partidas você ganha mais uma letra! É só jogar bastante que vc vai juntar todas as letras, também!”

scrabble

Mas o que isso tem a ver com o portingalemão?

A questão é que os alemães vão o tempo todo fazer uma pressão louca pra vc aprender alemão perfeito o mais rápido possível. É lógico que é importante vc aprender a língua do lugar que você mora, se vc quer ter uma vida normal e participar 100% na sociedade não tem como sem saber a língua. Mas essa pressão constante e exagerada não ajuda em nada – só te deixa mais frustrado e se sentindo culpado quando vc escolhe falar com alguém em inglês em vez de alemão, ou ler alguma coisa traduzida em vez do original alemão, ou assistir um filme alemão com legenda, sei lá.

E isso eu acho inaceitável. Eu acho que a prioridade é se conseguir se comunicar o melhor possivel.

Eu falo alemão razoavelmente bem, trabalho num escritório onde não falo inglês com ninguém, só alemão, e de uma maneira ou de outra funciona. Às vezes é frustrante, às vezes eu me comunico aos trancos e barrancos, e às vezes é tudo lindo e perfeito. Mas de uma maneira ou de outra, funciona. Mas com meu namorado, que é alemão, eu falo a maior parte do tempo em inglês. E TUDO BEM que seja assim. Eu ouço muuuuuita crítica dos alemães (críticas discretas) de que eu deveria falar só em alemão com ele. Mas por quê? Os dois falam inglês fluentemente e com facilidade. Eu me viro em alemão, mas ainda é um esforço constante com vários momentos de frustração. É a analogia do jogo de Scrabble. Por que eu teria que passar por isso o tempo todo, jogar o jogo com as regras injustas constantemente com meu próprio parceiro, na minha própria casa? Na minha casa eu falo a língua que eu quiser. A única pessoa no mundo que pode me dizer que língua eu tenho que falar com meu namorado é meu namorado. Se ele dissesse que não quer mais falar inglês pq pra ele é um esforço e é frustrante, aí a gente ia ter que falar ou alemão ou português, ou os dois. Mas se os dois estão satisfeitos assim, porque as pessoas acham que têm que me dizer em que língua a gente tem que falar na nossa própria casa?? Acho isso o cúmulo. E isso é seeeeempre assim com qualquer casal internacional, as pessoas vão sempre te pressionar pra falar a língua do outro e te fazer sentir culpa por escolher a língua que for mais confortável para os dois.

Também recentemente, conversando com a minha professora de alemão, comentei que participo de um clube de leitura. Ela perguntou em que língua são os livros e eu disse que são em inglês. Ela passou daí a me falar que eu deveria ler em alemão, pq se aprende a língua muito mais rápido, blábláblá. Eu leio bastante, leio muitos livros. Às vezes eu leio em alemão também. Mas a maioria dos livros que eu leio ainda é em inglês ou português, já que em alemão eu ainda leio muito mais devagar, e não entendo 100%, e não é  a mesma coisa. Então às vezes eu leio em alemão, e às vezes, não. E TUDO BEM. Mas ela me criticou muito e falou que eu tinha que ler só em alemão! Como assim? Minha vida tem que se tornar um constante exercício, um constante treino, até eu falar alemão 100%? Eu não posso fazer nada simplesmente pelo prazer de fazer aquilo, eu tenho que fazer tudo no formato exercício-aprendizado-de-língua? Eu leio porque eu gosto de ler, e eu quero entender o que estou lendo. Não quero o tempo todo ter que ficar olhando o que significa aquela ou essa palavra, ou tirar do livro apenas uns 60% do que eu poderia ter tirado se tivesse lido numa língua em que sou mais fluente. Ler na língua que você quer aprender de fato ajuda pra caramba – aliás foi principalmente lendo que eu aprendi inglês. Mas não dá pra querer que a pessoa faça APENAS isso. Essas coisas me incomodam pra caramba.

Outra coisa que me incomoda profundamente (isso não acontece mais, mas no começo). No começo quando meu alemão era mais ou menos, freqüentemente alguns alemães falavam pra mim que só iam falar alemão comigo pq eu precisava treinar. Eu acho uma coisa super paternalista a pessoa decidir POR VOCÊ que você precisa treinar. Tudo bem, em várias situações eu queria de fato falar em alemão pra treinar. Mas em outras, eu queria me comunicar. Em outras situação eu queria, sei lá, discutir a legalização do aborto, ou a situação política do Brasil, ou sei lá que outro assunto polêmico e difícil que nem em sonho eu conseguiria discutir em alemão com o vocabulário que eu tinha. E eu acho uma atitude muito paternalista do meu interlocutor – se ele fala inglês perfeitamente bem – me obrigar a me comunicar com ele APENAS na língua nativa dele que pra mim ainda é super difícil! Por que não deixar eu escolher quando eu quero treinar a língua e quando eu quero me comunicar plenamente? Eu não sou nenhuma criança, não é você que define todas as regras da nossa relação, sabe? Não é assim que funciona.

Então tudo isso é pra falar que: tudo bem misturar as línguas. Tudo bem se você precisar falar um portingalemão ou um Denglisch com alguém porque sua fluência na língua ainda não é suficiente. E se vc quiser mudar e falar só em inglês pq naquele momento sua prioridade é comunicação, e não treino, tudo bem. Ninguém tem que te criticar por isso. É importante se esforçar pra aprender alemão, lógico, mas todo mundo tem seu tempo, todo mundo aprende no seu tempo, ninguém aprende de um dia pro outro. É importante se esforçar e procurar situações em que você possa praticar, mas se em algum momento você não quiser praticar, porque você está cansado, porque você está frustrado, pq vc não quer se sentir constantemente como uma criança de 3 anos conversando com advogados e juristas: TUDO BEM. Não deixe que outras pessoas te façam sentir que você está fazendo algo errado porque não está falando/lendo/escrevendo/ouvindo alemão CEM POR CENTO do seu tempo aqui.

(Ai, volta e meia eu vou escrever um post sobre alguma coisa que eu achava que era bobinha e acaba saindo o maior desabafo, no post!)


(Publicado em 26 de Junho de 2016)

Rios na Alemanha

Esse post é o segundo post sobre meio ambiente na Alemanha (Na verdade tem outros e terão outros, mas esse é o segundo de uma série de três). O primeiro foi sobre o meio ambiente em obras alemãs e você pode lê-lo aqui.

Na Alemanha, rios são um elemento urbano bem importante. Quase toda cidade de um tamanho razoável é cruzada por um grande e importante rio. Algumas cidades inclusive têm o nome do rio como “sobrenome”, como é o caso de Frankfurt, cujo nome “completo” é Frankfurt am Main, ou Frankfurt sobre o Meno. Main, Meno em português é o nome do rio que cruza a cidade. O fato de as grandes cidades européias terem se desenvolvido sobre rios não é coincidência, claro. Historicamente os rios têm importâncias diversas pras cidades: a força da água corrente já têm sido utilizada para a transformação de energia desde anos antes de cristo com moinhos de água.

IMG_5000

Além de energia, os rios forneciam (e fornecem) ainda a água que é utilizada para beber, para lavar e para depositar os dejetos da cidade.

Hoje, com infraestruturas mais desenvolvidas, sistemas de tratamento e transporte de água, outras fontes de energia, a presença de um grande rio na cidade não é mais tão essencial para a economia urbana. Mas certamente ainda é um fator bem importante para a qualidade de vida.

E nesse sentido, a Alemanha de fato tem bastante a oferecer. Os rios e suas margens nas cidades daqui ganham vários usos urbanos que, embora “óbvios”, são quase totalmente inexistentes em rios nas cidades brasileiras.

Os rios em si, claro, são sempre utilizáveis. Os maiores, navegáveis, todos utilizáveis para remo e outros esportes similares, e alguns também para banho.

Barcos turísticos fazendo passeios simpáticos ao longo dos rios são extremamente comuns em praticamente todas as cidades, mas o uso da navegação para fins comerciais também é bem comum em rios maiores como o Reno, que cruza a Alemanha de norte a Sul no seu lado Oeste.

Pra gente parece quase inimaginável que alguém chegue com seu próprio barquinho e simplesmente comece a remar num rio no meio da cidade. Uma coisa que eu custei a internalizar é essa possibilidade do acesso livre aos corpos de água presentes, que eles não são só um objeto intocável – na maior parte das vezes indesejável e evitável – da paisagem. Não dá pra imaginar nem em chegar perto de um rio em São Paulo: eles são ou “invisíveis”, escondidos embaixo de grandes avenidas, ou simplesmente inacessíveis fisicamente por barreiras formadas, também, por grandes avenidas marginais. Eu já escrevi em um post passado sobre o sentimento estranho e diferente de se nadar em um lago na cidade – algo totalmente comum na Alemanha. Esse acesso aos corpos de água naturais, entrar em contato com água sem ser no banho, na chuva ou na piscina é uma coisa quase impensável pra quem mora em grandes cidades brasileiras.

Isso é um ponto extremamente positivo de se morar na Alemanha, esse acesso à água “natural” te coloca num contato muito próximo com a natureza. Não tem como não se importar com o meio ambiente quando ele tem uma participação tão importante no seu dia-a-dia.

E não é só a água em si, claro. São as margens também – um fator urbano completamente essencial numa cidade alemã. Não dá pra imaginar uma cidade alemã onde as margens dos rios não sejam acessíveis para pedestres, e onde essa acessibilidade não seja desejada ou não seja requerida.

(Nas fotos acima, da esquerda pra direta e de cima pra baixo: Dresden, Colônia, Nuremberg, Dresden, FrankfurtBerlim e Dresden.)

O tratamento e o uso urbano das margens nos rios varia um tanto de cidade pra cidade, mas é na grande maioria das vezes um espaço extremamente agradável.

Em Dresden, por exemplo, as margens do ao longo de praticamente toda a cidade são extremamente largas e totalmente verdes:

IMG_2799IMG_4060IMG_7966

Dos dois lados, um caminho pavimentado serve aos pedestres e ciclistas como uma importante conexão urbana: em várias situações vale mais a pena ir pelo caminho ao longo do rio (que é bem sinuoso) que pelo caminho mais curto – simplesmente pelo prazer de caminhar ou pedalar nessa área.

Dresden

Foto aérea de Dresden, com o rio Elba cruzando a cidade, e suas margens largas bem visíveis.

As generosas margens não são por acaso, claro. São elas que acolhem o rio em períodos de cheias.

Elbas.jpg

De cima pra baixo: Elba mini (Julho 2015), Elba regular (Fevereiro 2010) e Elba Maxi (Junho 2013).

Mas mesmo com essas margens infinitas, eventualmente ocorrem cheias tão extremas que o rio avança para a cidade causando grandes problemas. Em Dresden, cheias desse tipo aconteceram em duas datas recentes: 2002 e 2013. Em 2002, a água chegou a invadir partes do centro histórico, inundando ruas, casas, etc. O porão de alguns museus no centro foram inunandos, destruindo importantes obras de artes históricas.

Desde então, várias medidas foram tomadas pela cidade para evitar novas inundações. Em momentos de cheia você vai perceber várias paredes e muros que misteriosamente apareceram do nada em lugares onde antes não havia nem parede nem muro, mas uma rua. Diferentes tipos de paredes retráteis foram desenvolvidas e instaladas em diversos locais:

IMG_3571

Sem água, sem parede

IMG_5180

Com água, com parede

Mas mesmo com esses muros, paredes e diversas outras medidas criadas depois da inundação de 2002 para evitar outra cheia desastrosa, em 2013 o rio subiu mais uma vez acima do esperado. Dessa vez, o centro foi poupado, mas em alguns pontos mais afastados da cidade a água chegou a invadir casas e deslocar pessoas temporariamente. A cidade têm continuamente desenvolvido e executado planos para evitar novos desastres. No escritório em que trabalho recentemente fizemos um projeto para sugerir alternativas para usar áreas inundáveis com os jardins loteáveis típicos daqui (Clique no link pra entender o que eu quero dizer com jardins loteáveis, tem um post sobre isso).

IMG_5193IMG_5346

Não é incomum encontrar em diversos lugares pela cidade pequenas plaquinhas colocadas em paredes em alguns edifícios aqui e ali mostrando o nível que o rio atingiu em determinada cheia – às vezes bem acima do chão!

IMG_5730

Plaquinhas em uma parede no castelo de Pillnitz, em Dresden, marcando as cheias do Elba. A plaquinha mais alta se refere à cheia de 2002.

IMG_5035

Marcações em um dos pilares da Ponte Velha, em Heidelberg, marcando as cheias do rio Neckar.

Deixar as margens desocupadas e de preferência verdes é a maneira ideal de lidar com as enchentes. Embora não seja tão comum ter tanto espaço para o rio como em Dresden, outras cidades também aproveitam as margens dos rios para grandes calçadões ou outros tipos de espaços utilizáveis mas não construídos.

IMG_6340

Frankfurt

IMG_6841

Hamburg

Verdes ou pavimentadas, as margens livres em dias quentes ou de sol tornam-se gigantes parques lineares que cruzam a cidade. O clima bem variado da Alemanha é uma parte importante do estilo de vida das pessoas, e por causa dos invernos longos e frios, assim que sai um solzinho mixuruca em Abril as pessoas já correm para qualquer pedacinho de grama disponível.

IMG_5140

Berlim

IMG_5123

Berlim

IMG_2524

Dresden

IMG_6351

Frankfurt

IMG_2594

Em Dresden, as margens do Elba também são freqüentemente usadas para a decolagem de balões de vôos turísticos!

Nesse contexto, as margens-parques dos rios alemães têm uma importância urbana enorme para as pessoas daqui.

Outros usos típicos são Biergartens:

São uma espécie de bares ao ar livre, onde você pode tomar uma cerveja e comer um salsichão. Super típicos na Alemanha toda, os instalados ao longo dos rios são os mais adorados.

Mas não são todos os rios cujas margens são livres. Em algumas cidades com rios menores, onde enchentes são um problema menos presente, os rios por vezes cruzam por entre as casas e edifícios. Mesmo assim o espaço é de uma forma ou de outra utilizado de maneira urbanisticamente positiva. Um bom exemplo de cidade onde o rio tem esse tipo de estrutura urbana é Nuremberg, mais especificamente o centro histórico de Nuremberg, cruzado pelo rio Pegnitz. Passeando pelo centro, apenas em alguns poucos trechos é possível andar ao longo do rio. Mas o rio aparece, desaparece e reaparece em momentos diversos do seu percurso pelo centro, sob pontes ou mesmo edifícios.

Esses pequenos espaços criados pelo encontro do rio com a cidade têm uma enorme qualidade urbana e dão um imenso charme pra cidade – uma das mais simpáticas cidades alemãs na minha humilde opinião.

Rios e a maneira como eles são tratados são realmente uma das melhores partes de se viver na Alemanha.

Mas como pra tudo há uma exceção, fica aqui uma foto de Wuppertal:

IMG_5851

Jesus, que quê isso!?

Pra terminar o post, uma série de outras fotos bonitas de rios na Alemanha que eu não consegui incorporar no texto mas quero colocar mesmo assim:

(Da esquerda pra direita de cima pra baixo: Bautzen, Berlim, Berlim, Dresden, Dresden, Dresden, Dresden, Görlitz, Heidelberg, Passau, Würzburg e Tharandt.)

Ficou ainda faltando falar de pontes, outro elemento urbano também mega importante, mas esse post já está quilométrico e pontes dá um outro post igualmente longo, então fica pra outro post.

O próximo post e último da série meio ambiente na Alemanha será sobre árvores nas cidades alemãs.


(Publicado em 11 de Junho de 2016)