Mês: julho 2016

O sistema de saúde alemão 1 – Seguros públicos e privados

Faz 4 anos que eu sei que um dia teria que criar coragem pra escrever esse post. Acho que esse dia chegou. A coragem é necessária porque esse post vai ser bem cabeludo.

O tema é complicado porque o sistema de saúde daqui tem umas regras muito loucas e em certos momentos, bem sem sentido. Dependendo das circunstâncias, pode parecer que o sistema é super simples, lógico e direto. Mas se você cai em certas categorias, as regras vão ficando mega complexas.

Aqui não existe uma saúde pública como no Brasil – em que vc vai no hospital público e pronto, ninguém vai te mandar uma conta. Todo mundo, pra ter assistência médica, tem que pagar um seguro de saúde. É obrigatório ter um seguro de saúde. Se você não tiver um seguro de saúde, é lógico que eles vão te atender e te tratar no hospital, mas aí você que vai ter que pagar a conta. Mas isso nem é uma alternativa uma vez que é obrigatório ter um seguro.

Tem dois tipos de seguros de saúde: os públicos e os privados. Os dois você que paga, embora de maneira diferente. E a complicação é na hora de saber qual tipo você pode ter. Não é simplesmente uma escolha sua.

Para ter um seguro de saúde público você tem que ser ou estudante da universidade ou estar contratado em alguma empresa. Ou, se você perder o emprego ou terminar a universidade e começar a procurar um emprego, aí você tem direito a algum dos programas sociais (bolsas estilo Bolsa Família, para quem não tem renda ou não recebe mais que tantos euros, etc) e aí vc também pode ter o seguro público. Basicamente são essas as situações em que você “entra” no sistema público (Krankenkasse). Só que se você nunca tiver tido um seguro público na Alemanha (ou na Europa) e não estiver numa dessas situações em que você tem o direito de entrar no sistema público, aí você não pode ter um seguro público. Então você tem que ter um seguro privado (Privatkrankenversicherung).

A outra opção é que se você ganhar mais de 50.000 euros você pode escolher ter um seguro privado sobre um seguro público. A lógica por trás dessa regra eu acho que é pra eles assegurarem que vai ter um tanto de pessoas pagando no sistema público pra poder ter capital para fazer o sistema funcionar. Como os seguros privados cobrem mais (e na situação de você poder comprovar renda e ser uma pessoa nova sem grandes doenças, o seguro privado pode ser mais barato), eles têm que ter um jeito de manter as pessoas no sistema público pra ter o capital. Acho que é isso.

Isso tudo é normalmente bem simples se você tiver nascido aqui. No começo da sua vida o seguro dos seus pais cobre você, e em determinado momento você vai poder entrar no sistema público – ou pq vc conseguiu um emprego, ou pq vc se inscreveu num dos programas de ajuda social, ou pq vc começou uma faculdade. Tem certas situações que vc pode escolher continuar no sistema privado (por exemplo: seus pais têm um seguro privado que te cobre até os 27 anos, vc começou a faculdade com 18 e como o seguro dos seus pais é bom e vc não paga nada, vc escolher continuar com ele até terminar a faculdade e conseguir seu próprio emprego – situação pela qual vc é então obrigado a mudar pro sistema público). Nesse caso você não pode mais ir pro sistema público como estudante, só depois que vc conseguir seu próprio emprego. Se vc sempre foi coberto pelo sistema público pq seus pais são cobertos por seguros públicos, aí tá sussa, vc continua pra sempre no sistema público de boas.

Os nós aparecem se você – o que é bem provável se você está lendo esse post sobre o sistema de saúde alemão, em português – não nasceu aqui mas veio pra cá em algum momento da vida.

Situações em que você chegando aqui já vai poder ter um seguro público (Krankenkasse):
– se você veio pra Alemanha porque conseguiu um emprego aqui
– se você veio pra Alemanha porque casou com um/a alemã/o (o seguro do cônjuge cobre você caso você seja desempregado)
– aaacho que se vc chegou aqui pra fazer uma faculdade (o curso inteiro, não intercâmbio). Acho que nessa situação vc tb tem direito ao sistema público, mas não tenho 100% de certeza.
– se vc tem direito a algum programa social (pouco provável sem ter trabalhado aqui, mas digamos, por exemplo, que vc seja refugiado. Aí vc conseguiu o status de refugiado e automaticamente começa a receber do sistema social até conseguir um emprego. Nesse caso vc vai ter o seguro público).
– se você é europeu e é segurado pelo sistema público do seu país (europeu) de origem

Situações em que você chegando aqui vai ter que procurar um seguro privado (Privatkrankenversicherung):
– se você veio com visto de turista tentar arranjar um emprego
– se você veio com visto de estudante para um intercâmbio, ou para estudar alemão
– se você têm passaporte europeu, mas nunca morou no país da sua cidadania e consequentemente nunca foi segurado pelo sistema público de algum país europeu (era o meu caso no início)

E aí é que a situação pode ficar difícil. Se você for estudante tá fácil, os seguros para estudantes são normalmente super em conta e cobrem tudo (e se você tiver bolsa, muitas vezes a bolsa já inclui um seguro). Se você tiver aqui com a intenção de procurar um emprego eu recomendo fortemente se inscrever num curso de alemão pra poder ter um seguro de estudante. (isso só vai funcionar no começo, pq os seguros de estudantes se você tiver aqui só estudando alemão tem uma validade de no máximo um ou dois anos). Sem ser estudante você tem que conseguir um seguro normal, e aí é que o negócio pode ficar complicado.

Quando eu cheguei, antes de ter um emprego, eu comecei a procurar um seguro privado, e o mais barato que encontrei, que não cobria um monte de coisa, o mais basicão de todos, custava 200 euros. Que é um belo de um dinheiro quando você está desempregado. Só que pra piorar as coisas eu não consegui esse seguro porque quando eu pedi o mesmo, a seguradora me falou que como eu não tinha como comprovar renda, eles não podiam me dar o seguro. MAS como é obrigatório ter um seguro, eles tinham então uma opção de um outro seguro para quem não consegue seguro por um motivo qualquer (por exemplo não poder comprovar renda). Esse outro seguro, que eu podia ter, custaria então 600 euros!!! Lógica supimpa essa: “não, vc não pode pagar então não vamos te dar o seguro de 200 euros. Mas se você quiser, pode ter o de 600!”…

Aí eu descobri que podia ter o seguro de estudante já que estava estudando alemão, e isso resolveu a história até eu começar um mestrado e depois conseguir um emprego.

Ok, resolvida as questões de como você pode ter um ou o outro tipo de seguro, a pergunta que você deve estar se fazendo agora é: mas quais são as vantagens ou diferenças entre os dois tipos?

No geral, os seguros privados cobrem mais coisas, mais exames, quarto individual no hospital, sei lá o quê. Então se for analisar a cobertura dos seguros, valeria mais a pena ter o privado. Só que os públicos são mais “justos”, digamos assim. O privado você paga de acordo com o risco que vc representa pra seguradora. Então enquanto você é jovem e saudável você paga pouco, mas à medida que você representar mais custos pra seguradora seu seguro vai ficando cada vez mais caro. O público você paga sempre a mesma coisa: uma porcentagem x do seu salário. Quando você é jovem e saudável, os dois seguros vão custar mais ou menos a mesma coisa – o privado pode ser inclusive um tanto mais barato – mas quando você for ficando mais velho o negócio muda.

E quais são os seguros de cada tipo, e como fazê-los?

Seguros públicos costumam ter K no nome: TK, AOK, IKK, Barmer GEK. Sei lá, tem vários. Eu vou ser sincera e dizer que eu não tenho idéia da diferença entre eles. Pra se inscrever num deles (se você tiver numa daquelas situações descritas anteriormente, nas quais você tem o direito de entrar no sistema público) foi a coisa mais fácil do mundo: eu liguei pra TK, falei “oi, eu fui contratada numa empresa e gostaria de ter um seguro com vcs.” Eles me perguntaram meus dados e pronto, fim. O pagamento é feito automaticamente através do meu salário (o salário vc recebe já com o valor do seguro, imposto de renda e “INSS” subtraídos), eu recebi então a carteirinha pelo correio, e fim. Nenhuma pergunta relacionado a saúde, só os dados básicos da minha pessoa.

Seguros privados também têm vários: Mawista, Allianz, Hanse Merkur, Continentale são alguns exemplos. Para se inscrever num deles é bem mais complicado (exceto se vc for estudante, aí normalmente é mais simples). Eles vão pedir toda uma avaliação médica completa pra poder saber seu atual estado de saúde e calcular seu risco e conseqüentemente o preço do seu seguro de acordo. Vão ter várias opções que cobrem coisas diferentes: quarto individual no hospital, exame sei lá qual, remédios sei lá quais, etcetcetc. As diferenças entre os seguros são bem grandes, normalmente as pessoas quando procuram um seguro privado procuram um consultor de seguros pra saber as opções e escolher a desejada.

No caso de você ter um seguro público, o pagamento de consultas e exames funciona que nem no Brasil: o médico manda a conta direto pro seu seguro e vc nem vê o preço nem nada. Se tiver alguma coisa que seguros públicos não cobrem, o médico vai te avisar antes de fazer aquele tratamento pra vc decidir se quer pagar por ele ou não.

Caso seu seguro seja privado, o médico/laboratório envia a conta pra você e você ou paga e é reembolsado pelo seguro, ou você envia a conta pra eles e eles pagam o médico diretamente. Mas de uma maneira ou de outra, a conta vem primeiro pra você. E aí tem um outro negócio meio complicado. Os médicos adicionam na conta um “fator”. Basicamente eles multiplicam o preço por um fator que pode ser 1.3, 1.8, 2.3, 2.8, 3.5. Acho que 3.5 é o máximo. NÃO ME PERGUNTE qual é a lógica por trás desses fatores misteriosos. Mas a questão é que o seu seguro vai cobrir determinado fator. Por exemplo, o seguro que eu tinha antes cobria no máximo fator 1.3. Que é o mínimo. Então eu tinha sempre que pedir pro médico escrever a conta com o fator 1.3. Porque se ele colocasse fator 2.3, aí eu teria que pagar a diferença.

Por exemplo. Se a consulta custou 100 euros e ele colocou fator 2.3, o total é 230 euros. Mas como o meu seguro paga só até o fator 1.3, que seria 130 euros, a diferença de 100 euros eu teria que pagar do próprio bolso. Então eu tinha que pedir pro médico colocar só o fator 1.3 na conta. Juro que não tenho a MENOR idéia de qual a lógica por trás desses fatores. É uma coisa meio “Ah, essa consulta custa 100 euros, mas tô a fim de cobrar 200, hoje, então bota aí fator 2.3”. (?????) Pro seguro público não tem isso (ou tem, mas como vc não vê a conta, é uma discussão entre o médico e o seguro da qual vc não participa).

Ok, por esse post já deu. No post seguinte eu vou explicar um pouco mais sobre como funciona ir no médico / fazer exame / ir no hospital, por aqui!

Uma observação: esse tópico de seguros é um que gera muuuuitas perguntas. Eu demorei 4 anos pra entender como funciona esse negócio todo.

Não me mande perguntas. 

“Ó, mas pq não, Laís, vc é tão antipática assim que nem se disponibiliza a responder uma perguntinha ou outra?”

Não é isso, a questão é que tudo o que eu sei sobre seguros está escrito nesse post. Qualquer outra pergunta que você possa pensar em me escrever, eu não vou saber responder porque eu não sou expert, nem trabalho com isso. Se você me perguntar algo que eu sei responder, é porque você não leu o post, e aí eu vou me chatear de você me perguntar dúvidas que estão respondidas no post. Então, de verdade, se esse post não resolveu suas dúvidas, ligue diretamente pra algum dos seguros e pergunte pra eles como funciona, porque eu não vou saber te responder, e eles é que são os experts, afinal. =)


(Publicado em 31 de Julho de 2016)

 

Coisas que eu aprendi na Alemanha

Semana passada completei 4 anos de Alemanha. Acho que estou ficando velha, porque embora pareça que eu me mudei pra cá faz tempo, quando eu digo “4 anos” não parece muito tempo.

Mas com certeza esses 4 anos foram bem marcantes na minha vida em vários aspectos.

Coincidentemente, encontrei num canto um papel em que eu tinha escrito, há alguns meses atrás, uma lista de coisas q eu aprendi desde que mudei pra cá. Achei que caberia muito bem um post sobre isso bem nessa data importante.

Você provavelmente está achando que eu vou escrever sobre como eu, sei lá, aprendi a ficar do lado direito da escada rolante ou dar preferência pra pedestres ou sei lá o quê que as pessoas acham que se aprende quando se mora na Europa.

Mas não é nada disso. Acho que esse post poderia ser escrito por qualquer pessoa que se mudou pra outro país em que se fala outra língua. (Quase. Alguns itens são, mesmo, relacionados à Alemanha).

Vejamos, vejamos…

1. A responder “sim” ou “não” de acordo com o que a pessoa espera ouvir como resposta

Isso, lógico, da época que eu ainda não entendia alemão muito bem. Fiquei craque em reconhecer se uma pessoa desconhecida me perguntando alguma coisa espera ouvir “sim” ou “não” como resposta. Tive várias conversas com desconhecidos em que a pessoa me perguntou algo, eu respondi o que ele esperava ouvir, e ele foi embora satisfeito e eu fiquei pra sempre sem saber o que ele tinha perguntado.

Os exemplos são bem mais bobos do que você está provavelmente imaginando. São coisas como, vc encontra seu vizinho na escada e ele te pergunta alguma coisa. Pode ter sido algo como:

“Não foi você que esqueceu a porta aberta hoje de manhã, não, foi?”
“Não, não.”
“Ah, então tá. Que não pode deixar aberta, mas tem alguém que sempre esquece.”

ou então o mesmo vizinho talvez esteja saindo com o carro e te viu indo pegar sua bicicleta, pergunte:

“Você tá de saída, né?”
“Sim, sim!”
“Ah, vc fecha a porta pra mim, então, por favor?”
“Sim, sim!”
“Obrigado!”

Juro, tive vários diálogos desse gênero que eu até hoje não sei com o que eu concordei ou o que eu neguei. Mas as pessoas pareceram satisfeitas, e eu evitei a chateação embaraçosa de explicar que não entendi o que ele estava falando, e às vezes é só isso que importa.

2. A ler expressões faciais, coisas faladas nas entrelinhas e linguagem corporal.

Todo mundo gosta de acreditar que é muito bom nisso, de saber o que o outro está pensando. Não é verdade, a maioria das pessoas é bem ruim disso. Para não cometer o mesmo erro, não vou dizer que fiquei muito boa nisso, vou apenas dizer que eu era beeeem pior em ler sutilezas de expressões faciais, linguagem corporal e coisas assim e que melhorei pra caramba essa habilidade depois que vim pra cá. Eu não tinha idéia que eu era relativamente ruim em ler essas coisas até melhorar muito essa habilidade. O motivo, óbvio, era que por um bom tempo esses eram os únicos instrumentos que eu tinha pra me comunicar. Ou melhor, pra entender a outra pessoa.

Quando você não fala bem a língua e tem que se expressar e compreender pessoas se expressando nela constantemente, é inevitável que você melhore muito sua habilidade e compreender outros aspectos da comunicação além das palavras que estão sendo ditas. Isso, lógico, se relaciona super com o item anterior, o de saber o que a pessoa espera como resposta mesmo sem ter ideia de qual foi a pergunta. O fato é que, quando vc entende as palavras, vc acaba ignorando muitos outros aspectos da comunicação pq o significado das palavras têm prioridade no seu entendimento do que está sendo dito. Quando vc perde esse aspecto, vc tem que melhorar nos outros. É que nem aquilo de cegos serem muito bons de reconhecer sons e cheiros. Quando vc perde o sentido principal, os outros ganham uma importância tremendamente maior.

De novo, não quero cometer o erro de dizer que sou muito boa nisso – já que quase todo mundo acha que é. Não sei o quão boa eu sou nisso, só sei que sou muito melhor que antes de vir pra cá.

3. Respeitar pessoas diferentes

Isso com certeza não foram os alemães que me ensinaram, vale observar. Mas desde que eu vim pra cá eu passei a ter muito mais contato com pessoas de culturas e origens muito diferentes da minha. Fiz amigos muçulmanos, hindus, budistas. Não é que eu fiquei necessariamente mais tolerante que antes – eu sempre tentei ser tolerante. Mas a convivência diária realmente é o que te mostra que as pessoas no final das contas são todas muito parecidas, e o que muda é só o contexto e o passado delas, e ninguém simplesmente nasce mau ou bom. A convivência diária também faz com que você trate fatores que antes eram coisas inimagináveis e impensáveis pra você como normais e sem importância. Por exemplo, os hijabs, aquele pano que as mulheres muçulmanas usam para cobrir os cabelo. É uma coisa que antes de vir pra cá – por mais que eu me esforçasse em não julgar – eu via como necessariamente uma imposição, uma opressão, uma coisa que certamente qualquer moça independente dona de si imediatamente desistiria de usar na primeira oportunidade. Depois de fazer amizade com uma palestina muito querida, e conviver diariamente com alguém que em muitos sentidos é parecida comigo mas vem apenas de uma cultura diferente, o fato de ela usar ou não um pano na cabeça me parece a coisa mais sem importância possível. Porque isso me incomodava tanto, antes? Se a menina quer usar um pano na cabeça, usa, ué. Ela tava morando sozinha na Alemanha, fazendo um mestrado, a família na Palestina, quase nenhum muçulmano por perto, se ela continuou usando o hijab é porque ela quer, ué. Achar que a mulher não tem capacidade de crítica e de decisão também é machismo, ora.

Enfim. Essas coisas que quando estão totalmente fora da sua realidade parecem totalmente sem sentido, mas quando estão lá na sua cara de repente viram uma coisa boba.

Pra ser justa, acho que eu teria aprendido isso se tivesse ficado no Brasil também, uma vez que a quantidade de imigrantes lá – pelo menos em São Paulo da última vez q estive lá – aumentou pra caramba nos últimos anos! (Acho isso ótimo.)

4. Quem no Brasil realmente se importa comigo – e com quem no Brasil eu realmente me importo

Essa é clássica pra quem vai morar fora, mesmo que por um tempo relativamente curto. Eu já tinha percebido quando passei um ano na Itália fazendo intercâmbio. Quando você está fora, todo e qualquer contato com seus amigos só acontece se existe um esforço por trás. Lógico que dar um like ou outro no facebook não exige esforço. Mas contato, mesmo, contar da sua vida e querer saber da vida do outro e ele se interessar em saber da sua, isso exige um esforço extra. E o fato é que as pessoas só fazem esse esforço quando é com alguém que realmente importa.

Depois de 4 anos, eu sei exatamente quem no Brasil realmente se importa comigo – com sinceridade, porque gosta de mim, não porque está simplesmente curioso de saber como é viver na Alemanha ou, pior, que está curioso de saber como está a sua vida apenas porque está torcendo loucamente pra dar tudo errado, por inveja. (tem desses, também). E eu imagino que para os meus amigos de lá também (espero) tenha ficado bem claro o quanto eu me importo de fato, com sinceridade, com eles, e o quanto eu quero saber que eles estão bem e estão felizes. Depois de um tempo fora é inevitável, vc sabe exatamente quem são de fato seus amigos.

E mesmo a quantidade de comunicação com cada amigo é diferente. Tem uns que não são tão ligados nas internets quanto eu, e que portanto eu tenho menos contato. Mas não necessariamente isso significa que eles não se interessam ou não se importam, e mesmo com esses fica claro.

Priiiincipalmente quando você volta. Quando você vai viajar rapidinho e tem pouco tempo pra ver todo mundo. Aí fica óbvio pra TODO MUNDO (pra vc e pra eles) quem realmente importa pra quem, porque:
a) você não tem tempo pra ver todo mundo, então vc acaba limitando só aos realmente muito importantes, e sempre tem alguns que vc deixa pra trás que gostariam de ter sido lembrados

b) tem outros que você sugere encontrar e vc percebe que a pessoa fez zero esforço pra te ver naquelas semanas que vc passou lá, mesmo você tendo insistido.

(Lógico que eu estou falando aqui de amigos mais próximos. Tem vários amigos que são queridos, que eu gosto de saber que estão bem e estão felizes, mas não são necessariamente próximos o suficiente para eu marcar alguma coisa quando volto pro Brasil.)

5. Manter contato intercontinental

Bem relacionado ao item anterior. Mas uma coisa que você percebe quando está longe é que o contato físico é importante e que só emails e conversas no facebook não bastam para matar a saudade de alguém. O que isso significa é que receber cartas ou pacotes pelo correio têm um significado gigante quando você está fora. E embora seja pouco freqüente eu receber coisas pelo correio do Brasil, eu tento sempre enviar alguma coisa para os amigos mais próximos (às vezes alternando que o dinheiro não nasce em árvore, né). Principalmente no Natal eu tento sempre enviar alguma coisa. Às vezes você vê algo que te lembra muito alguém e aproveita pra mandar pro correio – sem nenhum motivo especial – e a pessoa fica profundamente contente de receber um presente inesperado seu vindo direto da Alemanha. Acho que essas coisinhas super ajudam a manter o contato com as pessoas de lá.

6. O preço de morar fora

Morar fora tem um preço que a gente não tem idéia de quão alto é até ter que pagar. Lógico que não estou falando de dinheiro. Tem coisas que não são segredo, que você sabe que vão ser assim e você sabe que vão ser difíceis. Mas essa dificuldade é muito vaga na sua cabeça antes de você passar por ela pra vc ter idéia dela de fato e ter noção de se o preço vale a pena. Isso você só descobre quando já está longe.

No final do ano passado minha avó materna faleceu, e estar longe naquele momento foi bem mais difícil do que eu imaginaria que fosse ser. Eu sabia que seria difícil perder uma avó querida, sabia que quando isso acontecesse eu provavelmente não teria como pular correndo num avião para chegar a tempo do enterro. Sabia dessa coisas. Mas não tinha ideia de como elas seriam difíceis de lidar. Minha avó se importava muito comigo e isso sempre ficou muito óbvio. Quando acontecia algum acidente em que a vítima era alguém da mesma idade e gênero de algum dos netos dela, ela imediatamente ficava toda preocupada que pudesse ser o neto em questão. Caiu um avião na Alemanha – “Ai, meu Deus, a Laís não estava nesse avião, não, né? Melhor ligar pra ter certeza!”. Na última vez que eu visitei ela, ela disse que se ela morresse (ela já estava bem mal) ela viria pra Alemanha me visitar. “Mas como você vai saber onde eu moro, vó?” “Ah, espírito sempre acha!”.

Quando ela faleceu eu não estava lá para me despedir, nem dela viva nem na hora do enterro. E o pior, todas as pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu, que também estavam sofrendo com a morte dela, todas estavam longe. Eu percebi como o enterro/velório é mais que uma oportunidade pra se despedir da pessoa, mas é também uma oportunidade pra você encontrar e abraçar as pessoas que estão sofrendo com essa perda como você. Não ter tido essa oportunidade é algo que eu nunca teria imaginado que me chatearia tanto. É um dos preços a pagar por escolher morar longe.

Nessa semana nasceu minha primeira sobrinha, filha do meu irmão, e eu já estou planejando de ir visitá-los em Janeiro, mas é super decepcionante não poder ir lá no hospital logo depois do nascimento. E principalmente de saber que você não vai poder assistir a criança crescer e ter a oportunidade criar um vínculo forte com ela que você como tia gostaria de ter, de ir passear com a sobrinha uma vez por mês ou coisa do tipo, estar em todos os aniversários e momentos importantes, etc.

(Mas em minha defesa, se eu tivesse ficado no Brasil seria igual uma vez que meu irmão também mora fora)

7. A parar de achar que tudo aqui é melhor

É lógico que tem muitas coisas aqui que são bem melhores. Mas é uma ingenuidade imensa achar que TUDO aqui é MUITO melhor que no Brasil. Tem coisas melhores e coisas piores. Tudo depende do que é mais importante pra você. E a questão é que as coisas piores você só vai descobrir que são piores quando você estiver morando aqui de fato.

8. A não discutir problemas do Brasil com europeus

Outra coisa que eu parei completamente é de criticar o Brasil para europeus. Sério, se tem uma coisa que eles não precisam é mais motivo pra se acharem melhores que o resto do mundo. Eu deixo as críticas para discutir entre outras pessoas que também são de fora.

9. A ser direta, a me comunicar, a dizer o que eu quero.

Isso sim é uma coisa bem relacionada à Alemanha. Como já discuti em outros posts, os alemães são bem diretos, não fazem grandes cerimônias para responderem “sim” ou “não” de acordo com o que querem ou não querem. Isso é algo que eu incorporei e acho muito mais prático do que o nosso
“Você quer alguma coisa pra comer?”
“Não, não, tô bem, obrigada!” *morrendo de fome*
“Mas tem certeza?”
“Magina, não precisa se incomodar!” *morrendo de fome*
“Mas magina, não é incômodo nenhum, pega aqui um pedaço dessa torta que eu fiz ontem!”
“Não, magina, deixa aí pra vc comer mais tarde!” *morrendo de fome*
“Quê isso, eu não vou agüentar essa torta inteira, pega um pedaço!”
“Ah, mesmo, mas você não vai querer, depois?” *morrendo de fome*
“Não, pega, ó, vou cortar aqui um pedaço pra você!”
“Ah, tá, brigada então!”

10. A procurar amigos

Eu nunca tive nenhuma dificuldade super gigante em fazer amizades, mas também nunca fui mega sociável daquelas pessoas que conversa com qualquer um com a maior facilidade. Eu já escrevi um post sobre como fazer amizade com alemães no qual eu expliquei já na primeira linha que eu não sei como se faz amizade com alemães. Embora o post eu tenha escrito há dois anos atrás, a resposta para essa pergunta continua em aberto. Se alguém souber me avisa.

A verdade é que os alemães são bem diferentes nesse quesito, e o processo de fazer uma nova amizade aqui é uma coisa diametralmente oposta ao que a gente está acostumado no Brasil.

Nesses 4 anos o que eu percebi é que de longe o mais fácil é fazer amizade com americanos (do continente inteiro, não só dos Estados Unidos. Mas também dos Estados Unidos) ou com alemães que já moraram no continente americano. Na verdade foi bem surpreendente pra mim perceber o quão parecido a gente é com os americanos (agora falando dos dos Estados Unidos, mesmo) em vários sentidos e o quanto isso ajuda pra caramba a fazer amizade com eles. No momento meus amigos principais são ou americanos (EUA) ou sul-americanos, e uns poucos alemães americanizados (no continente, não necessariamente nos EUA).

Mas na verdade não era disso que eu queria falar, mas sim sobre como fazer amizades aqui. Ou melhor, como eu descobri como procurar amigos aqui.

Pra mim a solução apareceu só no ano passado. Existe um grupo de facebook especificamente para mulheres internacionais em Dresden, e foi lá que eu finalmente comecei a fazer umas amizades mais efetivas. Até então eu tinha alguns amigos, mas ninguém que fosse de fato muito próximo. Através desse grupo eu comecei a participar de coisas como clube de leitura, trabalho voluntário com refugiados, e outros eventinhos onde conheci pessoas muito legais e muito fáceis de conversar. Isso faz um ano. Ou seja, demorou 3 anos para eu realmente começar a fazer amizades aqui de fato, de pessoas q eu tenho certeza que mesmo que se eu voltasse pro Brasil ou elas para seus países, continuaríamos em contato.

Mas isso é completamente diferente dependendo das circunstâncias. Acho que a maioria dos brasileiros é bem mais sociável que eu e faz amizades com mais facilidade que eu. E quem vem pra cá estudar tb tem essa facilidade extra de fazer amizade com os colegas de classe. (Eu fiz um mestrado aqui mas era um grupo bem pequeno e acabou não rolando nenhuma amizade forte no grupo).

Outra coisa que ajudou PRA CARAMBA fazer amizade aqui: ir atrás de pessoas que pudessem cuidar dos meus gatos quando a gente viaja. A minha melhor amiga daqui é uma americana que eu conheci quando ela postou naquele grupo de mulheres internacionais perguntando se alguém podia cuidar do gato dela ou dos dois cachorros por um fim de semana. Aí nós montamos um grupinho de donos de bichos pra ter quem pedir ajuda pra cuidar dos bichos durante viagens, e através desse grupinho conheci mais um monte de gente legal.

 

É isso! Eis aqui uns posts relacionados:

10 costumes alemães que eu incorporei
10 costumes alemães que eu não incorporei
5 coisas do Brasil e da Alemanha que eu sinto/sentiria falta


(Publicado em 30 de Julho de 2016)

Mahlzeit! – Hora do rango!

Uma coisa bem peculiar de se trabalhar na Alemanha é esse misterioso “cumprimento” de hora do almoço. Mahlzeit!

É uma coisa que eu só ouço em ambiente de trabalho. É tipo um bom apetite, mas não exatamente.

Mahlzeit significa “hora da comida”. Vou carinhosamente traduzir para “Hora do rango!”. E o contexto em que é usado é, basicamente, se você vir alguém almoçando no escritório, vc fala “Hora do rango!”. Se você também estiver indo comer, a pessoa vai responder com “Hora do rango!”. Se você já tiver almoçado, a pessoa vai responder “obrigada!”.

Sim, é ridículo. É meio difícil de compreender, demorou um bom tempo pra eu descobrir como que era pra responder alguém que olhava pra minha marmita e dizia “Hora do rango!” todos os dias. Na primeira vez eu respondi com “oi”. Não fez sentido.

Também serve se vc tá voltando do almoço e no caminho cruza com um colega de trabalho. “Hora do rango!” você diz. “Obrigado!”, ele responde.

Parece uma coisa absurda, uma piada interna entre alguns colegas… mas não é! Aqui em qualquer escritório as pessoas trocam esse “cumprimento” na hora do almoço. Se a gente tá almoçando no escritório e alguém entra na cozinha, invariavelmente a pessoa diz “Mahlzeit!”. Hora do rango. Tá, eu sei que é hora do rango, gente. Não precisava avisar, eu já tava comendo, sabe.

Aviso que talvez isso não se aplique à Alemanha inteira. Aqui em Dresden é assim, e já ouvi pessoas falando que tem isso em Berlim, também, mas meu namorado que é de Colônia não conhecia essa Hora do Rango até vir pra cá.

Mas bom. Agora você já está avisado. Se alguém te disser “Mahlzeit!” você responde com obrigado, ou igualmente com “Mahlzeit!” se a pessoa também estiver indo comer.


(Publicado em 1˚ de Julho de 2016)