Mês: setembro 2016

Dinheiro, empréstimos e aluguéis

Hoje por acaso me deparei com um artigo muito interessante sobre o porquê de os alemães quase sempre pagarem tudo com dinheiro. Vários aspectos da cultura alemã apontados no artigo são coisas que eu já tinha notado e estranhado logo de início, e por isso achei que seria uma boa escrever um post sobre o assunto, baseado nesse artigo e nas minhas experiências pessoais por aqui.

No Brasil paga-se quase tudo com cartão. Enquanto estava lá eu raramente carregava mais que 20 reais na carteira uma vez que QUALQUER lugar aceita cartão. Os motivos são vários: é muito mais prático não precisar lembrar de tirar dinheiro, as pessoas se sentem mais seguras carregando menos dinheiro – para o caso de serem assaltadas ou furtadas – e tem ainda o conforto de não “ver” o dinheiro sendo gasto: quando você tem o dinheiro na carteira e vê ele diminuindo, é bem mais difícil gastá-lo.

Mas na Alemanha o contrário é o normal: Aqui se paga muito mais com dinheiro que com cartão. Tem que lembrar de carregar dinheiro porque muitas lojas e restaurantes nem sempre aceitam cartão de crédito. A porcentagem de pagamentos realizados em dinheiro na Alemanha chega a 82%, bem maior se comparada, por exemplo, ao valor nos Estados Unidos: 46%. Eu não sei qual é essa porcentagem no Brasil, e imagino que seja difícil comparar países desenvolvidos com países em desenvolvimento nesse quesito. Mas imagino que pelo menos em São Paulo seja um valor parecido ao dos Estados Unidos.

O artigo sugeria alguns motivos para essa preferência forte por pagamentos em dinheiro aqui:

1. Ter uma noção dos gastos
Assim como a gente (ou eu, pessoalmente) prefere pagar com cartão pra não sentir tanto o dinheiro indo embora, para os alemães o contrário é o motivo: eles preferem ter uma noção dos seus gastos para ter um controle sobre os mesmos. Faz sentido, claro. (Ainda sou mais o cartão…)

2. Anonimidade
Como eu já mencionei em outros posts por aqui, especialmente nesse aqui sobre a internet, os alemães são suuuuper noiados com privacidade. Eles evitam colocar o nome completo em sites (incluindo o perfil do face), evitam colocar fotos de si e especialmente taguear essas fotos (pra evitar que esses programas de reconhecimento de rosto que as redes sociais (por exemplo) usam gravem seus rostos), evitam serviços de email e mensagens em que as mensagens não sejam criptografadas, ou em que o serviço mantenha o histórico gravado em seu sistema mesmo depois que as mensagens são apagadas (Face, WPP, Google, quem sabe o que eles fazem com as informações?), etc etc.

Pra gente no Brasil, que é extremamente apegada às dinâmicas sociais internéticas, esses cuidados parecem uma nóia insana, quase uma afronta à socialização. Como faz amizade com alguém que não tem nem Smartphone nem Facebook? (E não são poucos os alemães que se encaixam nessa descrição!) Tem que telefonar pra pessoa? Mandar um email e torcer pra pessoa sentar hoje a noite no computador pra ler seus emails?

Mas bom, se os alemães estão em um extremo em termos de nóia com privacidade online, a gente está no outro. Talvez um meio termo fosse ideal. Seja como for, esses cuidados acabam se refletindo nos costumes dos alemães em relação ao dinheiro: vários dizem que não gostam de pagar com cartão porque não querem que todas as suas compras e seus movimentos financeiros possam ser tão facilmente rastreados. É verdade que sua fatura do cartão de crédito já é o suficiente pra dizer muito sobre você: O que vc compra, onde, os lugares que você frequenta, os seus hobbies, etcetc. Mas, por outro lado, também não sei pq alguém se interessaria em saber tais coisas sobre mim, muito menos as pessoas que teriam acesso a essas informações, organizações governamentais, e tal. Mas bom, talvez o cuidado alemão com isso seja bem mais sensato do que nos parece.

3. Alemães evitam dívidas
Esse é o ponto mais interessante levantado pelo artigo, sobre o qual eu nunca tinha pensado muito a respeito, mas que se encaixa em várias das minhas observações alemanhísticas. Mas essa aversão a dívidas é de fato uma característica típica por aqui, e que se traduz em dois resultados bem interessantes: poucos alemães possuem cartões de crédito – especialmente os que são de fato de crédito por definição e; em relação a imóveis, os alemães têm uma clara preferência por alugel a compra por financiamento.

Sobre o cartão de crédito: Aqui existem dois tipos de cartão. Na verdade, três. O primeiro é o EC Card (Eletronic Cash Card), tb conhecido pelo nome de Girocard (não sei se tem diferença). É o cartão de débito alemão e que funciona como cartão de débito na europa inteira. Esse é bem amplamente aceito em lojas e restaurantes por aqui.

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Daí temos também os cartões de créditos, que podem ser de dois tipos: ou um normal onde vc faz as suas compras e paga a fatura no final do mês (embora o mais comum seja vc ter o cartão do banco onde tem conta e a fatura ser descontada automaticamente da sua conta no final do mês) ou um cartão de crédito pré pago (que portanto por definição não é de crédito, mas tudo bem) onde vc coloca crédito antes e vai gastando, meio como um cartão de débito.

O uso do cartão de crédito no esquema faça-suas-compras-de-boas-e-pague-tudo-no-final-do-mês é um conceito que vários alemães nem entendem! Eu tive várias discussões com meu namorado em que ele me dizia que não podia fazer tal compra com o cartão de crédito antes de transferir dinheiro pra conta do cartão e eu tendo que explicar que cartões de crédito, por definição, não exigem que vc tenha o dinheiro disponível na hora da compra, mas só no final do mês (ou seja lá quando for que vence a fatura). Demorou pra ele acreditar que ele podia comprar algo com o cartão de crédito sem ter o dinheiro disponível na conta no mesmo momento (e descobrir isso não o fez nem um pouco mais compelido a gastar dinheiro que não tem). Pode parecer estranho mas isso não deve ser raro por aqui: apenas 36% dos alemães possuem um cartão de crédito (comparando com 62% nos EUA). Parece que para os alemães a utilidade do cartão de crédito é basicamente para fazer compras ou tirar dinheiro no exterior, onde não se aceita o cartão de débito alemão. Eu mesma nunca usei o meu cartão de crédito alemão por aqui (embora tenha um). É raramente aceito, e para compras online pode sempre usar o tal cartão EC. Só uso o de crédito se compro alguma coisa num site estrangeiro.

Sobre alugar em vez de comprar: Isso é uma das coisas com que eu mais me identifico nos alemães e menos nos brasileiros. No Brasil as pessoas vêem alguel como uma perda de dinheiro. Pra quê pagar um aluguel se você pode pagar a mensalidade de um financiamento em vez disso, e ainda ficar com a casa depois (dos 60 anos de idade, ou algo assim)? Pra mim sempre foi bem curioso como no Brasil todo mundo está sempre desesperado pra comprar imóvel, colegas da minha idade (quase 30) preferem morar com os pais até os 35 pra poder juntar dinheiro pra dar entrada em um apartamento do que ir morar de aluguel com o namorado/a e experimentar um pouco da vida adulta e talz. Nesse sentido eu me encaixo bem por aqui. Os alemães preferem a independência de um aluguel: morar na sua própria casa tão cedo quando possível, não se prender a um local ou cidade ou a um emprego que você não pode correr o risco de perder porque precisa continuar pagando o financiamento do apartamento que comprou (o aluguel também precisa ser pago, claro, mas pode-se sempre procurar um mais barato se não tiver rolando). E evitam ao máximo um empréstimo que possa gerar dívidas no futuro: nunca se sabe o que o futuro guarda (e os alemães são sempre bem pessimistas).

Por essas e outras que a porcentagem de pessoas que têm casa própria na Alemanha, 40%, é bem abaixo da média de outros países desenvolvidos (por volta de 80% na Itália e Espanha, 70% na Inglaterra e EUA).

Outro ponto interessante nessa história toda é que por causa desse costume alemão de pagar com dinheiro que existe a nota de 500 euros. Aparentemente essa nota só existe por pressão da Alemanha, e na França é chamada de “nota alemã”. (Eu nunca vi e nem senti cheiro de uma, mas tudo bem!)

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Luis Javier Modino Martinez – Wikipedia

Acho que é isso! Aqui estão os artigos que serviram de fonte dos dados e alguns argumentos desse post:

Why Germans pay cash for almost everything

http://www.businessinsider.com/you-have-to-understand-germanys-long-standing-fear-of-debt-2012-7?IR=T

Most Germans don’t buy their homes, they rent. Here’s why


(Publicado em 26 de Setembro de 2016)

Sternsinger – Cantores da Estrela

Esse blog já tem 3 anos e meio. Eu nunca teria imaginado, quando comecei a escrever, que teria assunto o suficiente pra continuar escrevendo por 4 anos. Mas mesmo depois de tanto tempo eu ainda frequentemente me deparo com coisas que eu nunca tinha percebido antes e que dão um ótimo post.

Recentemente, por exemplo, notei uma coisa curiosa na porta da casa dos meus sogros:

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Aqueles escritos ali em cima da porta: 20 * C + M + B + 16.

Não era exclusivo da casa deles. Achei várias outras casas na vizinhança e também em outras cidades com escritos similares:

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A maioria das casas que vi tinha apenas “20 * C + M + B + 16“, mas a dos meus sogros em especial (a porta azul acima) tinha vários: 20 * C + M + B + 12, 20 * C + M + B + 14, 20 * C + M + B + 15 e 20 * C + M + B + 16, sendo o último o que estava mais claro, os outros mais apagadinhos.

Quem escreveu esses estranhos códigos? O que eles significam? Porque alguns estão mais apagados que os outros? Como que em 4 anos de Alemanha eu nunca tinha notado esses negócios escritos em vááárias portas??

As respostas para essas perguntas não foram difíceis de descobrir, qualquer alemão saberá te dizer o que significam esses códigos. São uma benção à casa.

No dia 6 de Janeiro, o dia dos três reis magos, grupos de crianças vestidas de três reis magos (ou 4, ou 5, ou quantos reis magos (e rainhas magas) forem necessários para o grupo de crianças em questão) carregando uma estrela vão de porta em porta cantando umas músicas e oferecendo uma bênção para a casa, em troca de uns trocados para projetos de caridade das igrejas, e também uns doces – que né, doces são sempre necessários.

Assim:

Hans Kadereit – Wikipedia

Chamam-se “Sternsinger”, ou “Cantores da estrela”

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Vários grupos de Sternsinger reunidos na igreja. Hans Kadereit – Wikipedia

E os códigos? 20 * C + M + B + 16? Os códigos são a bênção em si, que as crianças escrevem com giz. Os números, vc já deve ter concluido, significa o ano, no caso 2016. CMB é uma sigla para a frase em latim “Christus mansionem benedicat“, “que Cristo abençoe essa casa”. Mas também são popularmente interpretados como os nomes dos três reis magos: Caspar, Melchior e Balthasar. Só não sei como as crianças conseguem escrever a tal bênção lá no topo da porta… suponho que algum adulto dê uma ajudinha!

A benção do ano atual você encontra em várias portas, mas em algumas poucas portas você encontra ainda, meio apagadinho, as bênçãos de anos anteriores, como na porta dos meus sogros. Algumas casas têm até uma pequena lousinha na porta, especificamente pra esse fim (como a segunda foto lá em cima, da porta branca).

É isso! Um fato curioso que pode passar facilmente despercebido se você mora em apartamento! Agora fiquei pensando que teria feito mais sentido escrever esse post no dia 6 de Janeiro… oh well, 6 de Setembro é quase 6 de Janeiro!


(Publicado em 6 de Setembro de 2016)