Mês: outubro 2016

Casando na Alemanha parte 2 – Documentos necessários

Leia a Parte 1 – Direitos e leis aqui!

Na parte 1 sobre casamentos na Alemanha eu falei sobre as leis e direitos referentes a casamentos e divórcios por aqui.

Agora vem a parte mais complicada do negócio. Como faz pra casar na Alemanha?

Primeiro eu tenho que avisar que os passos que eu vou descrever aqui são de acordo com a minha experiência! Os documentos requeridos podem ter mudado desde que eu escrevi esse post, ou podem ainda ser diferentes se você estiver em outra cidade! Use esse post apenas para referência, não confie que as informações daqui estejam 100% atualizadas e corretas! Consulte o Standesamt da cidade onde você vai se casar para saber exatamente os documentos que você vai precisar, e siga as instruções passadas por eles à risca!

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A sede do cartório em Dresden. Prédio bem bonito para realizar um casamento! Mas apenas de você tiver um máximo de 25 convidados…

A primeira coisa que você tem que fazer é telefonar para o Standesamt (cartório) da cidade onde você vai se casar. O Standesbeamter (funcionário do Standesamt) vai te explicar algumas informações básicas, e te pedir para que você envie os dados do casal (scan do passaporte, nome, data e local de nascimento, local de residência, coisas básicas) por email e responder explicando quais os documentos vocês terão que apresentar para poder conseguir a permissão para se casar. Antes de apresentar todos os documentos você já vai poder marcar a data e local (e recomendo fazê-lo o quanto antes, vide na parte 1 do post a parte sobre onde casar). Ao marcar uma data e local, eles te pedirão para preencher um formulário online com os dados dos noivos e já alguns dados extra como se haverá mudança de nome ou não, se haverão testemunhas ou não, e outras coisas assim. Sobre regras para a mudança de nome, veja parte 1 do post (você precisará preencher esse formulário, mas se ainda não tiver decidido quanto ao sobrenome, pode deixar para decidir mais tarde). Quanto às testemunhas, não é requisitado que hajam testemunhas, vocês podem casar só você e o seu noivo ou noiva sem mais ninguém. Mas caso vocês queiram, podem chamar duas testemunhas para assinar o papel com vocês – é mais uma coisa simbólica de ter seu BFF no seu contrato de casamento, e tal.

Eu demorei aproximadamente 4 meses pra juntar todos os documentos que me foram pedidos pelo Standesamt de Dresden, mas se a pressa fosse muita eu poderia ter organizado tudo em talvez um mês. Depois de entregar os documentos para o Standesamt eles vão precisar de 3 meses para verificar tudo e dar o ok. O que significa que casar em menos de 4 meses é impossível. Se você decidir com 6 meses de antecedência, já é um tanto apertado. O bom é dar uma boa antecedência para dar tempo de resolver todos os documentos direitinho sem problemas.

Ah, e uma observação necessárias: todas as informações aqui são referentes aos documentos necessários para uma pessoa solteira e sem filhos. Se você for divorciado/viúvo ou tiver filhos, os documentos necessários serão outros (ou os mesmos e alguns a mais, não sei).

Documentos necessários para a parte brasileira:

Vou listar os documentos que me foram pedidos, o preço que custou emitir cada um, além de informações sobre onde e como emiti-los:

1. Certidão de nascimento emitida a menos de 6 meses com anotação de estado civil – R$38,00 – sai na hora.

A certidão de nascimento precisa ser pedida no cartório onde você foi registrado ao nascer, ou seja, no Brasil. Mas você não precisa ir pessoalmente lá – algum familiar ou amigo pode ir pedir o documento pra você.

Ao pedir a emissão do documento no cartório, você ou seu familiar tem que pedir para eles adicionarem uma anotação de estado civil. É basicamente um campo de observações onde o cartório vai escrever “Não consta anotação de casamento”. Só isso.

Eu recomendo também que você já aproveite e tire junto com a certidão uma cópia autenticada da mesma. Isso porque você vai precisar enviar sua certidão para o consulado brasileiro daqui para emitir um outro documento necessário, e é mais prático não enviar a original para não correr o risco de perdê-la. Se você puder comparecer pessoalmente ao consulado brasileiro, aí tirar a cópia é desnecessário.

A certidão de nascimento emitida em 2016 em cartório de São Paulo mais uma cópia autenticada custou R$38,00. As duas são emitidas imediatamente.

2. Legalização da certidão de nascimento pelo consulado alemão no Brasil – 25€ – sai na hora*

Após emitir a sua certidão você precisará legalizá-la no consulado alemão no Brasil. Significa que o consulado alemão olhará a certidão e confirmará que é verdadeira. Isso não pode ser feito na Alemanha porque nenhum orgão na Alemanha tem como verificar se uma certidão brasileira é verdadeira. Então tem que ser feito no Brasil pelo consulado alemão. Mas é simples. Basta que alguém qualquer – não precisa ser você – leve a certidão até o consulado alemão mais próximo, que fará o reconhecimento da certidão ali na hora. Custa 25€, convertidos em real. No meu caso foi R$92,00.

* PORÉM ME PARECE que isso não é mais necessário. Hoje, ao entregar os documentos no Standesamt, a funcionária nos falou que agora mudou sei lá o que e não precisa mais fazer essa legalização no consulado, parece que o próprio cartório faz. Mas enfim, estou descrevendo a minha experiência e avisando de qualquer maneira que você deve consultar o Standesamt da cidade onde vai casar para saber o que precisa, então tudo bem!

3. Tradução da certidão de nascimento por tradutor certificado NA ALEMANHA – 35 a 50€ – uma semana.

Você vai precisar então da tradução da sua certidão de nascimento, feita aqui na Alemanha, por algum tradutor juramentado. O Standesamt me mandou, junto com o papel que listava os documentos necessários para o casamento, um link para um site que lista todos os tradutores juramentados para qualquer língua na Alemanha. É esse site aqui.

Você pode mandar email ou ligar para alguns tradutores perto de você para ver o melhor preço. Eu achei uma que fez a tradução por 35€, foi o melhor preço que encontrei. Pela minha pesquisa, os preços cobrados variavam entre 35 e 50 euros. Eles costumam pedir uma semana para completar a tradução, mas entregam bem rapidinho. Normalmente basta que você envie para eles um scan da certidão, e leve a original quando for buscar a tradução, para que eles confiram que o documento é o mesmo que você mandou em scan.

4. Atestado de Estado Civil, emitido pelo consulado brasileiro na Alemanha – 15€ – 3 dias para a emissão do documento.

Aqui é o seguinte: vc pode ou ir pessoalmente ao consulado levando os documentos necessários e duas testemunhas, ou enviar os documentos por correio. Se você for enviar por correio, o processo é um pouquinho mais complicado porque você vai precisar assinar o documento diante de um Notar (notário/tabelião) alemão. Então vou separar as duas possibilidades pra ficar mais claro:

a) Caso você possa comparecer pessoalmente ao consulado de sua jurisdição
Esse documento só pode ser emitido pelo consulado de sua jurisdição. Quer dizer, há três consulados brasileiros na Alemanha: Berlim, Frankfurt e Munique. Cada um atende os brasileiros residentes em determinados estados alemães. A Saxônia, por exemplo, é atendida pelo consulado de Berlim. Para saber qual consulado atende o seu estado, visite o site da embaixada brasileira.

Se você puder comparecer pessoalmente no consulado nos horários de funcionamento do mesmo, você precisará levar com você para emitir esse documento:

– Duas testemunhas brasileiras que te conhecem e atestem que você é solteiro. Não tem nenhum pré-requisito para essas testemunhas, pode ser qualquer pessoa que aceite atestar que você é solteiro. Só não pode ser seu próprio noivo ou noiva a testemunhar. E se você for pessoalmente no consulado, as testemunhas precisam ser brasileiras uma vez que o consulado brasileiro só pode verificar assinaturas de cidadãos brasileiros. As duas testemunhas precisarão levar consigo seus respectivos passaportes.
– A declaração de estado civil (modelo disponível no site do consulado) em português ou alemão, que vai ser assinada por você e pelas testemunhas perante ao tabelião no consulado.
– Sua certidão de nascimento emitida a menos de 6 meses com anotação de estado civil (a mesma que vc vai precisar apresentar para o Standesamt também).
– Sua Anmelde-Bestätigung, aquele papel que você recebe quando você se registra na prefeitura da cidade alemã onde você mora.
– Seu passaporte brasileiro válido.

A emissão do atestado mediante a apresentação desses documentos demora 3 dias e custa 15 euros. Você pode ir buscá-la pessoalmente ou pedir que seja enviada por correio – deixando já o envelope endereçado e selado para o envio do documento.

b) Caso você não possa comparecer pessoalmente ao consulado da sua jurisdição
Você pode enviar os documentos pedidos por correio para o consulado – mas certifique-se de enviar para o consulado correto! Há três consulados brasileiros na Alemanha: Berlim, Frankfurt e Munique. Cada um atende os brasileiros residentes em determinados estados alemães. A Saxônia, por exemplo, é atendida pelo consulado de Berlim. Para saber qual consulado atende o seu estado, visite o site da embaixada brasileira.

Nesse caso você vai precisar primeiro assinar a declaração de estado civil com suas duas testemunhas perante a um Notar. Notar é um advogado que faz também serviços de tabelião – como o reconhecimento de assinaturas em documentos importantes. Você procura no google Notars perto de você, liga para um ou dois para ver horários disponíveis e preço, marca uma data para ir assinar o documento, e envia o mesmo por email com todos os dados seus e das suas testemunhas. No site do consulado brasileiro só tinha modelo de declaração em português, mas por email eles me enviaram um modelo em alemão, que foi o que eu preenchi e enviei para o Notar.

No dia e horário marcado você e as suas duas testemunhas vão ao Notar portando seus documentos de identificação (passaporte, se forem estrangeiros, ou Personalausweis, se forem alemães) e assinam o papel. O Notar carimba e te entrega o original reconhecido ali na hora. As testemunhas podem ser quaisquer pessoas que te conhecem e aceitem atestar que você é solteiro. Só não pode ser o seu noivo ou noiva.

O preço cobrado pelo Notar que encontrei para esse serviço foi de 20,83€. Pode ser meio difícil conseguir marcar uma data com o Notar que funcione para ele/a, pra você, e para as duas testemunhas. Então tem que ter em mente que conseguir esse documento pode demorar umas duas, três semanas.

Você então envia por correio para o consulado:
– Essa declaração reconhecida pelo Notar, a original
– Sua certidão de nascimento emitida a menos de 6 meses com anotação de estado civil (a mesma que você vai precisar apresentar para o Standesamt também). Eu consultei o consulado antes de enviar e eles aceitaram que eu enviasse a cópia autenticada da certidão, uma vez que a original eu ia precisar para o Standesamt.
– Sua Anmelde-Bestätigung, aquele papel que você recebe quando se registra na cidade alemã onde mora. Eu consultei o consulado e eles aceitaram que eu enviasse uma cópia simples da Anmelde-Bestätigung.
– Seu passaporte brasileiro válido. Eu consultei o consulado e eles aceitaram que eu enviasse uma cópia simpes do passaporte.
– um envelope endereçado e selado, para que eles te enviem de volta o atestado.

Ao receber os documentos, o consulado leva 3 dias para emitir o atestado.

Consulte sempre o consulado antes de fazer qualquer coisa para confirmar esses dados com eles! No site tem as informações referentes à emissão desse documento, mas é sempre bom ligar ou enviar um email para ter certeza que você tem tudo o que precisa. Não confie que as informações que eu dei aqui estejam atualizadas e 100% corretas!!!

5. Comprovante de renda

O comprovante de renda é necessário porque o valor combrado pelo Standesamt para o casamento vai ser calculado a partir da sua renda.

6. Passaporte válido 

Se você tiver dois passaportes (duas cidadanias), terá que levar os dois.


Documentos necessários para a parte alemã:

1. Documento de identidade válido (Passaporte ou Personalausweis)

2. Cópia do registro de nascimento emitido pelo cartório onde ele/a foi registrado ao nascer (beglaubigte Abschrift aus dem Geburtenregister) – 10€ – sai na hora.

O seu noivo ou noiva pode ir pessoalmente até o Standesamt onde ele foi registrado para buscar o documento, ou pedi-lo por correio. Se eu não me engano esse documento não é necessário se vocês forem se casar na mesma cidade onde seu noivo ou noiva nasceu.

3. Comprovante de renda.

Só.


Uma vez juntados os documentos, vocês vão marcar um horário no Standesamt para entregá-los. O funcionário que te atender vai então recolher os documentos ticando na listinha pra ver se você trouxe tudo, e marcar uma nova data, aproximadamente um mês depois, para vocês voltarem lá.

Nesse meio tempo eles vão checar todos os documentos para ver se está tudo em ordem e preparar o pedido de Befreiung von der Beibringung des Ehefähigkeitszeugnisses (Liberação da necessidade de apresentação de um certificado de habilitação para casar). É que é assim: alguns países emitem um certificado que diz que você está habilitado a casar (por ser solteiro, viúvo, divorciado, etc). O Brasil não emite tal certificado, por isso que precisamos de toda aquela história de atestado de estado civil com duas testemunhas, etcetc. Com esses documentos todos, o Standesamt envia um pedido para a Oberlandsgericht (algo como Secretaria de Justiça Estadual) pedindo que eles te liberem de ter que apresentar esse certificado. Então quando você for no Standesamt da segunda vez, você vai assinar esse pedido e fornecer um último documento necessário pra essa papelada toda: mais um atestado de estado civil. Basicamente um papel em que você jura, perante ao tabelião do cartório, que você é, de fato, de verdade mesmo, por tudo que lhe é mais sagrado, por Deus e pela vida da sua mãe,  100% não-casado. Esse atestado eles vão fazer ali na hora na sua segunda visita, só que lógico que vai custar 20€.

Além do que você vai ter que pagar, também, por esse pedido que será enviado para a Oberlandsgericht. Vai custar 70€.

Ou seja, até aqui, só para entregar os documentos para conseguir a autorização pra casar, você já vai ter pago aproximadamente 230€. 

Perceba que você precisa meio que calcular as datas para casa passo, para os documentos não perderem a validade! A certidão de nascimento vai ser válida por 6 meses (quer dizer, ela é válida pra sempre, mas as instituições pedem uma certidão emitida há no máximo 6 meses), o Standesamt vai demorar 3 meses pra verificar os documentos e dar a autorização para a realização do casamento, e essa autorização vai ter validade de 6 meses. Ou seja, se você entregar seus documentos para o Standesamt, vc pode receber a autorização cedo demais e ter que casar mais cedo que o planejado. Se você entregar tarde demais, você pode não receber a autorização a tempo. Se você ficar esperando para entregar os documentos para o Standesamt num tempo mais seguro, a sua certidão de nascimento pode perder a validade! Ou seja… planeje-se!

A conclusão disso tudo é: casar na Alemanha é bastante complicado! Você precisa, principalmente, de tempo e bom planejamento pra conseguir resolver tudo. Por essas e outras, muitos casais optam por casar-se em outros lugares, como na Dinamarca – a opção mais próxima com menos burocracia, ou em Las Vegas – provavelmente o lugar do mundo onde é mais fácil casar. Viajar para Las Vegas certamente não é mais barato que esses 230€ que você pagou até agora, ou os 300 e tanto que você vai ter pago ao final do processo só pela parte burocrática (ainda vai vir taxa pra emissão da certidão de casamento, etcetc), mas se a pressa for um fator importante, certamente é uma alternativa razoável.

Mas enfim. Para mim é importante que o casamento ocorra aqui, na cidade em que a gente construiu e firmou a nossa relação, e pressa não é um fator. De maneira que fazer o casamento em outra lugar nunca foi uma opção. Se esse for também o seu caso, espero que esse post ajude a dar uma idéia do processo todo e do passo a passo!

E na dúvida você pode sempre ter um plano B: se der algum problema com os documentos e você não conseguir a autorização para casar em tempo mas a festa e todo o resto já estão planejados, faz-se uma cerimônia simbólica, comemora-se, e pronto. Daí quando resolver os papéis vocês casam oficialmente só vocês no cartório.

Depois do casamento em si certamente virá ainda um terceiro post de burocracias envolvendo certidões, a cerimônia civil em si, e a legalização do casamento no consulado brasileiro!


(Publicado em 19 de Outubro de 2016)

Casando na Alemanha parte 1 – Leis e Direitos

Há alguns meses atrás eu e meu namorado decidimos que chegou a hora de oficializar nossa união de quase 7 anos. A gente já mora juntos há mais de 4, e por diversos motivos decidimos que agora é o momento certo pra colocar as coisas no papel: ano que vem casamos!

Uma vez decidido isso, a pergunta que se seguiu foi, claro: como é que casa? A antecedência aqui foi necessária: casar na Alemanha – o país da burocracia – é um tanto complicado se você não for alemão. Hoje, mais de 4 meses depois de começarmos a juntar os papéis – finalmente entregamos todos os documentos no cartório para serem analisados e verificados, e daqui a uns 3 meses – se estiver tudo em ordem – receberemos o ok para casar.

Descobrir quais documentos eram necessários foi algo que eu tive que fazer meio sozinha – não achei informações suficientemente explicativas na internet por outros brasileiros que casaram aqui. Ir atrás de informações mais burocráticas, para saber o que significa ser casado na Alemanha, também foi necessário. Então resolvi deixar todas as informações que eu juntei e a minha experiência aqui explicadinho nesse post, para quem interessar, dividido em duas partes:

  1. Direitos e leis referentes a casamento e divórcio na Alemanha
  2. Documentos necessários para casar na Alemanha

Se eu me animar (nunca fui muito interessada nas tradições casamentísticas) mais perto da data escrevo um ou dois posts também sobre questões da festa e comemoração. Mas esses primeiros dois são sobre a parte burocrática.

Então começando com a parte de leis e direitos…

Antes de mais nada um aviso: eu não sou advogada nem jurista nem nenhum tipo de expert no assunto. Se você me perguntar coisas específicas relacionados ao seu caso particular e os seus direitos eu não vou saber responder. Consulte um advogado para saber detalhes. E quanto às informações compartilhadas aqui, também não as tome como verdades absolutas! Aquelas que lhe dizem respeito ou são importantes para você, confirme-as com pessoas que entendem do assunto ou em fontes confiáveis! Um blog pessoal não é uma fonte confiável para informações importantes!

1. Quem pode casar na Alemanha? 

Para casar na Alemanha os noivos precisam ser de sexos diferentes. Pois é, a Alemanha infelizmente ainda é um dos poucos países desenvolvidos que não dá a casais de mesmo sexo o direito de casamento. Apesar desse atraso nas leis (contra a opinião da maioria da população, que é a favor da igualdade nas leis pra casais hétero e homossexuais), há uma alternativa para estes casais, que é a Lebenspartnerschaft – algo similar à união civil. As diferenças entre Lebenspartnerschaft e Eheschließung (casamento) eu vou explicar mais pra frente no post.

Apenas maiores de 18 anos podem casar, embora maiores de 16 possam casar também quando os pais ou responsáveis autorizarem, um juiz autorizar, e o noivo ou noiva não for, também, menor de 18.

Outro pré-requisito (óbvio) é que você tem que ser solteiro/divorciado ou viúvo.

E finalmente, o casamento entre irmãos ou parentes lineares (mãe e filho, pai e filha, por exemplo) é, lógico, proibido.

Edição em 23 de Novembro de 2017: Em Junho deste ano a lei permitindo o casamento entre pessoas de mesmo sexo foi aprovada e desde 1o de Outubro de 2017 casais gays e lésbicas já podem se casar! Aqui um post sobre a mudança na lei.

2. Onde casar na Alemanha?

O casamento aqui, para ser válido legalmente, precisa ser realizado em uma sede do Standesamt (Cartório) da sua cidade. Se houver um casamento religioso, ele será separado do casamento civil, uma vez que igrejas e outras instituições religiosas não podem oficializar matrimônios civis. Também não é possível que o Standesbeamter (o funcionário do cartório que oficializa o casamento) vá em algum outro local para oficializar o casamento. O casamento civil pode ser feito apenas nos locais indicados pelo Standesamt. Mas são várias as opções, normalmente há algumas localidades indicadas pelo Standesamt que não são a sede do cartório, mas onde a cerimônia civil também pode ser realizada. Todos são sempre super bonitos e combinam super bem com uma cerimônia de casamento. Aqui em Dresden, por exemplo, são 11 opções de localidades onde a cerimônia civil pode ser realizada, incluindo três castelos nas redondezas e o estádio de futebol da cidade! Dependendo do local que você escolher, o preço para a reserva do local é diferente (variando entre zero (na sede do cartório) e 500 euros), assim como as datas disponíveis e a antecedência com a qual você tem que reservar. No próprio cartório você pode casar entre quarta e sábado sempre de manhã, em qualquer semana do ano exceto feriados. Outros locais têm por exemplo uma ou duas datas por mês que podem ser reservadas, ou só aos sábados durante o verão, ou só umas 4 vezes por ano… enfim, varia bastante. O importante é decidir logo por um lugar porque as datas podem ser reservadas com um máximo de 1 ano de antecedência, e os locais mais desejados são obviamente os primeiros a serem reservados. Tenha também em mente que, dependendo de quando você quiser se casar, maior a antecedência necessária para as reservas: Maio é o mês preferido.

Cada local também tem um número máximo de convidados permitido, e são poucos os lugares onde cabe muita gente. Casamentos grandes com 200, 300 convidados aqui são raríssimos – pra não dizer quase inexistentes. Os alemães costumam convidar apenas família e amigos muito próximos para essas cerimônias, pelo que eu vi.

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A sede do cartório em Dresden. Prédio bem bonito para realizar um casamento! Mas apenas de você tiver um máximo de 25 convidados…

3. Regime de bens

Ao casar na Alemanha, o regime de bens default é a Participação Final nos Aquestos. Eu achava que isso era a mesma coisa que o regime parcial de bens, mas alguém com melhor conhecimento em direito de família passou por aqui e me mandou um email esclarecendo melhor a diferença entre os dois.

Aqui o que a Viviane me escreveu:

Participação final nos aquestos
Essa é uma modalidade muito pouco utilizada, por possuir peculiaridades pouco familiarizadas pelos brasileiros, por isso é desconhecida pela maioria da população.
Neste regime os bens são considerados como comuns, isto é, de propriedade do casal, apenas ao final do casamento.
Durante o matrimônio, os bens que estiverem no nome de um dos cônjuges serão somente deste, passando a ser considerado como de ambos no momento da dissolução do casamento (divórcio ou morte de um dos esposos).
• Administração do patrimônio: cada cônjuge administrará exclusivamente seus próprios bens, independentemente se foram adquiridos ou não durante o matrimônio (exceto no caso de venda de bem imóvel)
• Bens pertencentes a um dos cônjuges antes do casamento: continuam sendo de propriedade exclusiva do cônjuge proprietário (não se comunicam)
• Dívidas de um dos cônjuges contraídas antes do matrimônio: são de responsabilidade apenas do cônjuge que as contraiu (não se comunicam)
• Bens adquiridos na constância do casamento: enquanto perdurar o casamento, cada um é dono dos próprios bens, mesmo que adquiridos durante o matrimônio, mas, ao final do casamento, serão de ambos (comunicam-se, a depender do momento de aferição)
• Dívidas contraídas durante o matrimônio: são do cônjuge que as tiver contraído (não se comunicam)
• Participação na herança dos sogros: se um ou ambos os pais do outro cônjuge falecer, a herança será só deste (não se comunica)”

A diferença da Comunhão Parcial de Bens é que nesta os bens adquiridos durante o casamento pertencem aos dois também durante o casamento. Assim como as dívidas. Na Participação Final nos Aquestos cada um continua tendo seus próprios bens, separadamente, e só em caso de dissolução do casamento é que os bens adquiridos durante o mesmo são de ambos. E as dívidas são sempre apenas daquele que as contraiu, o que convenhamos é muito justo. Obrigada pelo esclarecimento, Viviane!

Participação Final nos Aquestos é o regime padrão, mas caso o casal deseje, pode adotar outro regime de bens de sua preferência definindo um acordo pré-nupcial com um advogado.

4. Outros direitos do casamento

Segundo a lei, durante o casamento os cônjuges são obrigados a se sustentarem. Então se um dos dois estiver desempregado, por exemplo, o outro deve por obrigação custear o que for necessário: comida, aluguel, roupas, lazer, etc.

Sendo casado você pode também se beneficiar da cobertura do seguro de saúde do seu esposo ou esposa, caso você não tenha renda. Se os dois tiverem renda, os dois têm que ter seus próprios seguros de saúde separadamente.

Também há benefícios no imposto de renda para casais casados. Eu não sei exatamente como funciona, mas pelo que eu entendi até agora, para a maioria dos casais ser casado significa uma redução boa do imposto de renda. Se algum dia eu me animar para escrever um post sobre imposto de renda na Alemanha (não é muito provável), descubro melhor os detalhes e explico direitinho.

Uma coisa importante de saber é que ser casado não dá a um cônjuge o direito de mandatário sobre o outro. Quer dizer, um cônjuge não pode fazer decisões pelo outro, nem que o outro esteja incapaz de fazer suas próprias decisões! Isso significa que, se por exemplo você estiver inconsciente no hospital e alguma decisão relativa ao seu tratamento precisar ser feita, o seu cônjuge não tem automaticamente o poder de fazer essa decisão! Isso será decidido por um juiz – que, claro, na maior parte dos casos autoriza o cônjuge a fazer as decisões. Então se você quiser se certificar que o seu marido ou a sua esposa poderão fazer essas decisões por você no caso de você não poder, você tem que cuidar de fazer uma procuração dando ao cônjuge o direito de decisão nesses casos.

Também interessa saber sobre direitos de herança. Caso um cônjuge venha a falecer, o outro não é automaticamente herdeiro de tudo, mesmo que não hajam filhos. Pela lei, o cônjuge herda 50% da diferença de bens (que nem no caso de separação, como eu expliquei ali em cima no exemplo da Angelina e do Brad), + 15%. Então se você quiser que seu cônjuge seja herdeiro de todos os seus bens no caso do seu falecimento, também tem que cuidar de ter um testamento.

Por fim, vale mencionar um artigo da constituição alemã, que se aplica de maneira importante às leis e regras relacionadas ao casamento e divórcio: O Artigo 3, parágrafo 2 diz que homens e mulheres têm direitos iguais. (“Männer und Frauen sind gleichberechtigt.”). Isso significa que as leis relacionadas à partilha de bens, herança, separação, pensão, cuidado dos filhos e das casas e mudança de sobrenome são iguais para ambos. Claro que isso é um tanto óbvio num país desenvolvido no século XXI, mas essas coisas são surpreendentemente recentes. Até 1977, a lei alemã definia que a esposa era a responsável pela manutenção da casa! E até 1991 não era permitido que os noivos mantivessem seus nomes de nascimento ao casar – um dos dois tinha necessariamente que mudar de nome!

5. Sobrenome

Outro ponto importante que interessa a todos que casam é o sobrenome.

Na Alemanha as pessoas podem manter seu sobrenome ao casar, trocá-lo para o sobrenome do marido ou esposa, ou combinar os dois com um hífen. Então, por exemplo: Se o Brad Pitt e a Angelina Jolie fossem alemães, eles poderiam manter os seus nomes de nascimento, o Brad Pitt poderia trocar seu nome para Brad Jolie, ou combiná-lo com um hífen, Brad Jolie-Pitt ou Brad Pitt-Jolie. Ou então a Angelina poderia trocar para Angelina Pitt, Angelia Jolie-Pitt ou Angelina Pitt-Jolie. Não tem a opção de os dois mudarem de nome para um nome combinado. Ou um muda, ou o outro. Após um eventual divórcio, aquele que mudou de nome pode voltar ao seu nome original ou manter o nome da ex-exposa ou do ex-marido.

Quanto às crianças, se um dos noivos adotar o sobrenome do outro, todas as crianças terão automaticamente aquele sobrenome. Se um dos dois hifenou o sobrenome, as crianças terão automaticamente o nome comum. E se os dois mantiveram seus nomes de nascimento, o casal pode escolher um dos dois sobrenomes para dar às crianças, mas é obrigatório que seja o mesmo sobrenome para todas as crianças do casal. Crianças não podem receber nomes-hifenados, e só podem receber um sobrenome. No nosso exemplo do Brad e Angelina, todas as várias crianças do casal se chamariam ou Jolie ou Pitt. Jolie-Pitt pras crianças não ia rolar aqui. Aqui nesse post eu falei mais sobre sobrenomes.

Porém, na verdade, nada disso importa. Embora as leis quanto a sobrenomes sejam assim bem restritas na Alemanha, se um dos noivos for de outro país o casal pode também mudar de sobrenome de acordo com as regras do outro país. Sendo um dos noivos brasileiros, então, o sobrenome tb pode seguir as regras brasileiras, que são super flexíveis. Angelina e Brad, se a Angelina fosse brasileira e o Brad alemão, poderiam então se chamar Brad Jolie Pitt, Angelina Jolie Pitt, Brad Pitt Jolie, Angelina Pitt Jolie, as crianças Pitt Jolie ou Jolie Pitt ou qualquer combinação que você consiga imaginar com os seus vários sobrenomes.

Mas uma coisa que, sim, importa, é sobre quando mudar de nome. A mudança de nome pode ocorrer em qualquer momento do casamento. Quer dizer, digamos assim que você e o seu namorado ou namorada casem e mantenham seus respectivos nomes, e daí daqui a 5 anos resolvam que seria legal ter o mesmo nome. No problem, pode mudar. O que não pode é desmudar. Se um dos dois mudar de nome, vai ficar o nome novo até um eventual divórcio. Só no caso do divórcio é que pode desmudar.

Outra coisa interessante também é que se você mudar de nome, o nome adotado passa a ser tão seu quanto seu nome de nascimento. Então você não apenas pode mantê-lo depois do divórcio, mas também pode inclusive passá-lo para seu novo marido ou esposa. Então no exemplo do Brad. Supondo que o Brad tivesse mudado de nome na ocasião do seu primeiro casamento para Brad Aniston. Ao se divorciar, ele resolve manter o Aniston. Ao casar novamente, não apenas ele pode continuar se chamando Brad Aniston, como também a Angelina poderia mudar e passar a chamar-se Angelina Aniston. Seria uma situação bem curiosa! E aí ao se divorciar de repente a Angelina manteria o nome e continuaria a chamar-se Angelina Aniston, e aí viesse a se casar novamente, digamos com o George Clooney. O George Clooney poderia mudar então seu nome pra George Aniston!! E assim, aos poucos, todos os atores de Hollywood se chamariam Aniston! Parece provável!

6. Direitos dos filhos

Um dos principais motivos pelos quais casais alemães decidem casar-se são crianças. Algumas leis referentes aos direitos dos pais não casados em relação ao filhos são surpreendentemente estranhas por aqui. Se um casal não-casado tem um filho, a custódia é automaticamente da mãe. O que significa que, para ter certeza que o pai terá os mesmos direitos que a mãe sobre o filho no caso de uma separação ou no caso de falecimento da mãe, o pai precisa adotar a própria criança. Isso provavelmente porque a lei procura assegurar que homens não tenham direitos a filhos que possam ter sido gerados a partir de estupros, e casais juntados não são reconhecidos como casais oficias, aqui. Então ao decidir ter filhos, muitos casais resolvem se casar oficialmente, para assegurar que ambas as partes terão os mesmos direitos sobre os filhos.

Outra lei curiosa e estranha é que para casais não casados, se a mãe de uma criança for estrangeira, o filho não é automaticamente alemão mesmo o pai o sendo. Para explicar isso primeiro tenho que esclarecer que a nacionalidade alemã não é relacionada a geografia mas a sucessão: para ser alemão vc tem que ser filho de pai e/ou mãe alemães, não basta ter nascido aqui. E no caso da mãe ser estrangeira e o pai alemão, a paternidade precisa primeiro ser comprovada com um teste para que o filho tenha direito à nacionalidade alemã – não basta o pai aceitar a paternidade. Isso porém não é necessário se o casal for casado oficialmente, caso em que os filhos do casal são automaticamente alemães.

7. Visto e nacionalidade alemã através de casamento

Casar-se com um cidadão ou cidadã alemão não te dá automaticamente o direito de virar alemão. Para se nacionalizar alemão você precisa estar casado com o referido alemão há três anos e morando na Alemanha há dois. A partir de então você pode solicitar a nacionalidade, mas outros requisitos terão de ser preenchidos: você precisará ter um nível de alemão de pelo menos B1, conhecer as leis e a constituição alemã (o básico, não de cor, óbvio), e passar em uma prova de integração que verifica o seu conhecimento da cultura e leis alemães. Segundo a lei alemã, para naturalizar-se alemão você tem que abrir mão da sua nacionalidade original. Mas há exceções e por sorte o Brasil é uma delas. O motivo é que mesmo que você renuncie à sua nacionalidade brasileira, você poderia no dia seguinte voltar no consulado e pedir ela de volta. Tendo nascido no Brasil você nunca perde o direito de ser Brasileiro. Por isso não precisamos perder nossa nacionalidade ao naturalizarmos-nos alemães. Ufa!

Mas independentemente de cidadanias e passaportes, ser casado com um alemão ou alemã te dá o direito de ter o visto de residência na Alemanha, inicialmente por 3 anos, e em seguida permanente. A única diferença entre a nacionalidade e o visto de residência permanente é que sem ser alemão você ainda não poderá votar aqui.

Quanto ao seu esposo ou esposa alemão morar no Brasil ou virar brasileiro as leis são similares: ele pode ter um visto de residência no Brasil sendo casado com você e após um ano de residência lá ele pode pedir a nacionalização no país. Não sei se a Alemanha exige que ele abra mão da cidadania alemã ao obter a brasileira, mas para o Brasil isso não é problema.

8. Divórcio e anulação

Ninguém casa planejando se divorciar, claro, mas é importante saber quais são as leis e direitos relativos ao divórcio se você planeja se casar, já que ninguém pode prever o futuro.

Uma coisa bem estranha e negativa em relação ao divórcio por aqui é que você precisa estar separado há 1 ano para poder se divorciar. E isso caso as duas partes estejam de acordo. Ruim mesmo é se uma das partes não quiser o divórcio, caso no qual a parte que deseja o divórcio deve esperar 3 anos de separação para conseguir oficializá-lo! Isso pode ser uma super dor de cabeça, especialmente se uma das partes não for alemã e desejar voltar ao seu país de origem – já que resolver isso de longe certamente é ainda mais complicado. Então é bom saber que caso um divórcio venha a ser necessário, ele não será simples de conseguir!

Há exceções, porém. Se o motivo pelo qual o divórcio for desejado forem coisas sérias como estupro, violência doméstica, ou outras situações similares, o divórcio pode ser conseguido sem que o tempo de separação seja necessário.

Motivos para o divórcio são simplesmente a impossibilidade de manter o casamento – independente do porquê. Aqui não se faz distinção entre quem teve a “culpa” do divórcio, ou coisas assim, que em alguns países são usados para definir direitos de partilha e de pensão. A partilha “default” eu já expliquei no item 3, mas também vale observar que essa partilha não é realizada quando o casamento durou menos de 3 anos. Nesse caso, cada um continua com o seu dinheiro e bens como antes sem divisão.

No caso de uma das partes não ter renda, ou ter renda muito mais baixa que a outra, existe também o direito de pensão. Mas a prioridade são as crianças, de maneira que se aquele que paga a pensão vier a ter filhos com outra pessoa, aí sustentar essa criança é prioridade sobre sustentar o ex-cônjuge.

Uma anulação de um casamento só é possível caso uma das partes já fosse casada antes, ou fosse menor de idade. Ou, ainda, se o casamento foi um acordo comercial em que uma das partes pagou à outra para casar-se para, por exemplo, conseguir um visto de residência alemão.


Para saber mais detalhes sobre casamentos e divórcios, você pode ler a brochura do Ministério da Justiça e Proteção ao Consumidor (Bundesministerium der Justiz und für Verbraucherschutz) sobre os direitos do casamento (em alemão), aqui, que foi a fonte para as informações compartilhadas nesse post.

Para terminar, um aviso: eu não sou advogada nem jurista nem nenhum tipo de expert no assunto. Se você me perguntar coisas específicas relacionados ao seu caso particular e aos seus direitos eu não vou saber responder. Consulte um advogado para saber detalhes. E quanto às informações compartilhadas aqui, também não as tome como verdades absolutas! Aquelas que lhe dizem respeito ou são importantes para você, confirme-as com pessoas que entendem do assunto ou em fontes confiáveis! Um blog pessoal não é uma fonte confiável para informações importantes!

Clique aqui para ler a parte 2: documentos necessários!


(Publicado em 18 de Outubro de 2016)

Reuniões de trabalho

Reuniões de trabalho são um ótimo resumo de algumas características típicas alemãs. E se você ainda não está muito a par das particularidades das relações pessoais e profissionais na Alemanha, algumas dicas vêm bem a calhar para não passar uma má impressão.

A primeira coisa que você precisa ter em mente é: como cumprimentar corretamente as pessoas. Se você chega em uma sala de reunião e algumas pessoas já estão sentadas na mesa esperando os outros chegarem para começar, cumprimente todos com um aperto de mão. Mesmo que tenham várias pessoas, cumprimente um por um com um aperto de mão. Cuidado para não esquecer ninguém (já me aconteceu duas vezes de esquecer alguém e perceber assim que sentei e ter a impressão de que a pessoa ficou um tanto ofendida!). Se você ainda não conhece a pessoa que está cumprimentando, diga seu sobrenome ao apertar a mão da pessoa, mas não espere de maneira alguma que a pessoa lembre seu nome 5 minutos depois: os alemães ao se cumprimentar trocam nome mas não prestam a menor atenção no que foi dito, e perguntam de novo depois quando for necessário saber. Se as outras pessoas da reunião são seus colegas de trabalho que você vê todo dia obviamente não precisa cumprimentar com aperto de mão.

E, aliás, não chegue atrasado. Nem 2 minutos atrasado. Chegue no horário. Quando a gente conversa sobre a pontualidade das pessoas – dos brasileiros, alemães, ingleses, ou seja quem for – a gente normalmente não observa que a pontualidade é diferente para diferentes ocasiões. No Brasil é perfeitamente normal chegar meia ou uma hora atrasado prum encontro com amigos, mas no trabalho tenta-se manter uma pontualidade respeitável. Com os alemães não é diferente: a importância de ser pontual varia com a situação. E reuniões de trabalhos são casos extremos! Nessa ocasião da reunião há duas semanas atrás, eu e meu colega chegamos uns 5 minutos atrasados (foi culpa dele!). Nesses cinco minutos, o pessoal da empresa onde era a reunião já tinha ligado pro meu chefe perguntando se a gente vinha ou não vinha, o meu chefe (que não estava no escritório) já tinha ligado pro escritório pra saber onde a gente tava e ligado de volta pra reunião pra dizer que estávamos a caminho… Tá, meu chefe também achou isso um exagero, mas é bom ter em mente que isso pode ocorrer com os mínimos atrasos!

Convém saber, caso você tenha que fazer alguma apresentação na reunião, que os alemães nunca fazem cara de aprovação durante uma apresentação. Ontem percebi isso com muita clareza, enquanto meu chefe apresentava o nosso projeto numa reunião, todos assistindo faziam a maior cara de desaprovação. Achei que eles estavam detestando, mas depois fizeram comentários positivos e já estavam quase nos contratando para o projeto (outros arquitetos tinham apresentado outros projetos no mesmo dia e eles tinham que decidir por um, mas não assim imediatamente). Isso me deixou um tanto mais tranquila em relação a uma reunião em que eu tinha ido duas semanas antes e apresentado um projeto e achado que as caras de desaprovação era pelo meu alemão bizarro com erros e consequente incapacidade de apresentar o projeto como eu gostaria… (bom, pode ser que fosse, mas agora pelo menos eu posso fingir que não era, rsrsrs). Eu acho que isso tem muito a ver com uma característica alemã, que é um pessimismo generalizado, rsrsrs. Ainda vou escrever um post sobre isso.

Traje também pode ser uma questão interessante pra discutir. Como no Brasil, o traje esperado de um profissional varia bastante de acordo com a profissão. Advogados, claro, estão sempre de terno, muito bem vestidos e penteados. Arquitetos estão sempre bem de boas vestidos a la fim de semana. Em reuniões isso também é relativamente flexível dependendo da sua profissão – mas lógico, tenha a boa noção de não ir de, sei lá, camiseta de banda e jeans rasgado no joelho. A não ser, claro, que você seja de uma banda e esteja indo em uma reunião fechar um contrato para a produção do seu novo álbum. Resumindo, vista-se como as pessoas da sua profissão normalmente se vestem e pronto, os alemães são relativamente sussas em relação a roupas.

Sobre o andamento da reunião em si, algumas dicas são óbvias mas sempre necessárias. Olhe sempre nos olhos das pessoas, os alemães adoram olhar nos olhos alemães adoram olhar nos olhos uns dos outros. Interromper quem está falando, durante a reunião, é bem mal-educado e algo que nunca vi acontecer nas reuniões de que participei. Por outro lado, se você quiser falar alguma coisa tem que ser bem incisivo, se você não falar nada logo esquecem que você está presente!

reuniao-trabalho

E sempre lembre de usas a forma de tratamento Sie (Senhor/Senhora) em relações profissionais! Isso é bem importante, especialmente se são pessoas que você não conhece fica bem chato se você usar Du por engano.

E pra terminar, sendo na Alemanha não podia faltar uma burocraciazinha básica: quase com certeza depois da reunião um protocolo da mesma precisará ser escrito e enviado para as pessoas que estavam presentes assinarem, explicitando os pontos discutidos e decisões encontradas durante a reunião.

É isso!


(Publicado em 15 de Outubro de 2016)

IKEA, parte 2

Um dos primeiros posts desse blog foi sobre a loja de móveis sueca chamada IKEA. Como expliquei naquele post, essa é a loja mais barata para comprar móveis ou coisas pra casa que tem por aqui, e todo mundo conhece.

Uma particularidade dessa loja, que é bem diferente do que a gente está acostumado no quesito compra de móveis no Brasil, é que você mesmo que monta seus móveis. Eles vêm desmontados em caixas surpreendentemente compactas, com todas as peças e manual de montagem. Pra qualquer móvel é assim, você não compra nada montado.

No sábado passado fizemos algumas mudanças no nosso apartamento, jogamos alguns móveis velhos mais toscos fora e compramos alguns novos. Passamos o sábado no IKEA e montando os móveis novos e desmontando os velhos em casa. A gente escolheu aquele sábado meio por caso, desde que voltamos de férias no meio de agosto não tivemos um único fim de semana sem nenhuma visita em casa, então deixamos para esse primeiro fim de semana de outubro – que além de tudo era um fim de semana de três dias por causa do feriado de 3 de outubro (reunificação alemã). Mas coincidentemente muitas outras pessoas também estavam comprando móveis e fazendo mudanças nesse fim de semana. Isso porque em outubro começa o ano letivo das universidades alemãs, então no começo de outubro muitos estudantes se mudam para as cidades onde vão começar a universidade, ou se mudam de um apartamento para repúblicas novas, etc. E compram vários móveis. Além do que todos certamente também acharam o fim de semana de três dias uma data conveniente para mudanças.

Outra coisa importante de saber sobre comprar móveis ou mudar de casa é que por aqui raramente contrata-se uma empresa para fazer a mudança. A solução mais comum é alugar uma van, chamar uns amigos, e fazer a mudança com os próprios braços.

Fizemos isso: Alugamos uma van da empresa CarlundCarla (que aluga vans por períodos curtos (uma manhã, uma tarde ou uma noite)) e fomos até o IKEA buscar nossos móveis novos. Você pode comprar online e ter os móveis entregues em casa, mas o normal é ir comprar na loja. Compramos a cama, um gaveteiro, umas estantes e alguns outros pequenos objetos que estávamos precisando. Também aproveitamos a van para ir buscar um colchão que tínhamos comprado, que foi o único objeto que não veio do IKEA, hehehe. Embora também vendam colchões lá.

Ao descarregar a van, colocamos as caixas todas no hall do lado do nosso apartamento:

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(tem uma cama aí!)

E logo começamos a montar os móveis…

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Colaboração felina não é essencial, mas recomendada!

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Aprovação felina é necessária!

Uma coisa que pode ser necessária, caso você já tenha em mente quais móveis quer comprar, é olhar se eles estão disponíveis na loja que você pretende visitar, e onde encontrá-los na mesma. Essas informações ficam disponíveis no site do Ikea, onde você pode ver quantas unidades daquele móvel têm disponíveis na loja perto da sua casa, e em que estante estão as caixas.

As lojas são organizadas da seguinte maneira: você entra pelo andar de cima, onde estão montados cômodos de exemplo para você ver os móveis montados e experimentá-los. Daí no andar debaixo está o depósito, onde vc encontra primeiro os objetos e depois os móveis. Como os móveis ficam em caixas, lógico, para encontrá-los nas estantes o jeito mais fácil é olhar na internet o número da estante em que está o móvel que você procura, ou usar um dos computadores disponíveis na loja com esse fim. Alguns móveis maiores, como era o caso da nossa cama, ficam guardados no armazém que não tem acesso para o público, de maneira que você tem que pedir para um vendedor, que faz o pedido por um computador e o móvel é trazido para a área pública da loja depois que você paga no caixa.

Certamente não são os melhores móveis do mundo, mas é extremamente prático e os preços são realmente imbatíveis… Casas de pessoas jovens na Alemanha são quase sempre praticamente um catálogo do IKEA!


Publicado em 5 de Outubro de 2016)

Hospitais alemães

Não faz nem dois meses que eu escrevi três posts sobre o sistema de saúde alemão, ao final dos quais eu disse que não podia falar muito sobre hospitais uma vez que nunca tinha ficado em um por aqui. Não imaginaria que em dois meses teria esse desprazer…

Eis que no domingo de manhã me deu uma dor repentina muito louca e fora do normal, que, permanecendo contínua e intensa por mais de 20 minutos, resolvemos que era melhor ir para um pronto-socorro ver o que era.

Chegamos no pronto-socorro do Diakonissenkrankenhaus, um hospital mantido pela igreja protestante, perto de casa. O pronto-socorro foi o pronto-socorro mais vazio que eu já vi, era domingo de manhã e tinham duas outras pessoas lá esperando ser atendidas. Há vantagens em se morar em cidades pequenas…

Depois de vários exames e ultrassons diversos, não conseguiram descobrir exatamente o que era, mas o que eles suspeitavam que fosse exigia uma cirurgia de emergência. A médica ligou para a cirurgiã, que marcou a cirurgia para dali a uma hora, e logo me mandaram para um quarto do hospital com um enorme questionário para responder. Dali a pouco já estavam me levando para a sala de operação e dando a anestesia…

Eu fiz uma vez uma cirurgia no Brasil, para uma hérnia de umbigo, quando eu tinha 8 anos. Eu não lembro muitos detalhes então fica difícil comparar. Mas o que chamou minha atenção positivamente no hospital alemão foi que eles me explicaram direitinho porque queriam fazer a cirurgia mesmo sem ter certeza se era necessária, e como a cirurgia seria feita, além dos riscos mais e menos prováveis, como seria o pós-operatório, e tudo. Mas foi sorte eu falar alemão, porque a médica não falava inglês… certamente se meu alemão não fosse o suficiente a situação toda teria sido bem mais assustadora e bizarra!

Outra coisa que eu não imaginaria que teria sido assim é que assim que a médica decidiu que a melhor alternativa era a cirurgia, ela me explicou tudo e me pediu para decidir e assinar o papel ali na hora – sem que eu antes pudesse pedir a opinião do meu namorado que estava esperando na sala de espera. Acho que se eu tivesse pedido para antes falar com ele eles teriam deixado, mas depois fiquei pensando que foi bem razoável que eles insistissem que a decisão fosse minha sem influências. Depois quando ela foi comigo procurá-lo para falar que eu ia passar para a cirurgia, ela mesma deu a notícia de maneira bem definitiva. Por outro lado eu fiquei com medo que por nós ainda não sermos casados, eles não deixassem ele ficar comigo depois da cirurgia ou coisa assim. Mas isso não foi problema, a única coisa que eles perguntaram foi o nome dele.

A cirurgia durou pouco menos de uma hora, e quando eu comecei a acordar da anestesia, ainda na sala de operação, experienciei a sensação mais estranha da minha vida: as pessoas à minha volta estavam falando só alemão, claro, e por causa disso eu comecei a pensar em alemão também. E não conseguia mudar a língua na cabeça para inglês ou português! Meu cérebro estava mais acordado que meu corpo, que eu quase não conseguia mexer, e eu estava sentindo uma necessidade muito forte de dizer que eu estava lá e acordada mas morrendo de sono. Estava preocupada de falar isso pro meu namorado quando chegasse no quarto, e fiquei pensando, “bom, pelo menos meu namorado fala alemão, então ele vai entender se eu falar com ele em alemão”, mas achando muito esquisito não conseguir mudar a língua. Quando cheguei no quarto, consegui falar – com mto esforço – que estava cansada (em alemão) e ele respondeu em inglês, e a língua no cérebro imediatamente mudou pra inglês e voltou tudo ao normal. Foi uma experiência bem inesperada, você fica achando que nessas situações vc só vai conseguir falar na própria língua… nem acreditei que consegui fazer tudo isso em alemão sem nenhum grande problema. Achei engraçado que a primeira frase que eu ouvi ao acordar da anestexia foi a anestesista dizendo “ela já está acordando.”. Rsrsrs, ainda bem que elas estavam prestando atenção!

O quarto em que fiquei tinha três leitos, mas deu sorte de os outros dois não estarem ocupados. Uma coisa que eu achei bem diferente (não sei se só nesse hospital é assim ou se é meio regra em hospitais alemães) é que não tinha horário pra visita, meu namorado podia ir e vir no horário que quisesse e ficar quanto tempo quisesse. Só dormir que ele não podia, lá, porque não tinha onde. Mas não tinha um horário que ele tivesse que ir embora, e isso eu achei muito conveniente.

Normalmente o seguro público cobre apenas um quarto compartilhado entre dois ou três pacientes, e você pode pagar extra para ficar num quarto privativo. Os seguros privados, dependendo de qual você tiver, às vezes cobrem um quarto privativo só pra você. Como foi só uma noite e deu a sorte de eu estar sozinha, não tenho do que reclamar. Certamente se fosse mais tempo e tivessem outras pessoas no quarto teria sido um tanto desconfortável dividir… mas enfim!

No dia seguinte de manhã tive alta – e foi outra coisa um tanto diferente. Basicamente depois da médica fazer os exames de manhã cedo para ver se estava tudo bem, uma enfermeira trouxe uma carta de alta (Entlassungsbrief) num envelope – que era basicamente uma carta para a minha médica normal (não a médica do hospital, mas a médica que me acompanha regularmente) dizendo o que tinha acontecido, como tinha sido a operação, com fotos da operação e tudo mais. Quando meu namorado chegou para me buscar, não precisamos dar satisfações a ninguém, foi só se trocar, pegar as coisas e ir embora. Achei curioso, porque eu poderia ter ido embora da mesma maneira também antes de me entregarem a tal carta. A minha impressão – em comparação com hospitais que eu visitei no Brasil para ver alguém que estava internado ou coisa assim – é que era tudo mais aberto, meu namorado podia ir e vir sem dar satisfações a ninguém, e eu tb pude sair sem dar satisfações a ninguém. Foi tudo meio na confiança de que eu seguiria as recomendações deles. Curioso.

De resto não vi grandes diferenças no hospital alemão para os hospitais brasileiros que visitei. Claro que não visitei muitos hospitais em lugares remotos do Brasil, que certamente são bem diferentes dos grandes hospitais de São Paulo. E também não tenho um conhecimento muito expert pra poder dizer se os instrumentos pareciam mais modernos e de última geração em comparação ao que se usa no Brasil ou não. Não achei nada particularmente impressionante nesse sentido, mas como falei, não tenho muita experiência no assunto. Quanto a remédios, depois da cirurgia e durante a noite eles injetaram algo para a dor, suponho que morfina, mas no dia seguinte e para o resto da semana, a médica recomendeu apenas ibuprofeno.

Mas um inconveniente é que a médica do hospital recomendou que eu tire uma semana de repouso mas não me deu o papel de licença médica do trabalho (Krankschreibung). Para pegar esse papel, terei que ir essa semana na minha médica normal com a tal Entlassungsbrief para que ela me dê a Krankschreibung que eu preciso entregar para meu chefe. Um tanto inconveniente já que não é exatamente repousante ter que sair de casa pra ir ao médico só pra buscar um papel… mas enfim!

Em tempo: Deu tudo certo a cirurgia, não era o que eles tinham suspeitado mas outra coisa que também precisava de cirurgia: um cisto que tinha se rompido e no processo machucado uns tecidos que estavam sangrando internamente! A médica e a enfermeira me disseram muitas vezes que ainda bem que eu fiquei no hospital (porque depois que eu cheguei a dor melhorou muito) e não fui pra casa, se não poderia ter sido bem pior! Mas deu tudo certo… e mais uma experiência de Alemanha pra coleção! O chato é que com essa confusão acabei perdendo as celebrações do dia da reunificação alemã, que esse ano foram aqui em Dresden… e eu estava planejando um post sobre o assunto… vai ficar pro ano que vem!


(Publicado em 04 de Outubro de 2016)