Mês: maio 2017

Abrindo e fechando portas

As vezes são as pequenas coisas e pequenos costumes bobos que são os mais difíceis de mudar. Você pode passar anos num local onde todo mundo faz determinada coisa do jeito A, tentar fazer as coisas do jeito A, mas acabar sem querer fazendo do jeito B toda vez.

Uma coisa desse tipo, pra mim, é abrir e fechar portas. Eu sei, eu sei, “Ué, tem jeitos diferentes de abrir e fechar portas?”, você está se perguntando.

Mais ou menos.

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Uma diferença a respeito das portas, aqui, é que quando vc fecha a porta, ela tranca sozinha. A fechadura funciona de um jeito que você só conseque abrir por dentro. Por fora precisa sempre de chave. Nem todas as portas de entrada são assim, mas a grande maioria é.

O que significa que você só usa a chave pra trancar a porta quando você está saindo e deixando a casa vazia. Se tiver alguém dentro, você só fecha desse jeito. E você nunca tranca a porta por dentro, nunca nunca. Até porque o objetivo desse sistema é segurança: você poder sair correndo de casa no caso de uma emergência ou incêndio, não precisar ficar procurando chave pra poder abrir a porta e correr pra fora. Faz todo sentido.

Mas isso resulta num costume diferente em relação a abrir e fechar portas que é: quem fecha ou abre a porta quando duas ou mais pessoas entram juntas num local.
Veja só: quando o normal é trancar a porta por dentro depois de entrar num local, ou trancar por fora com chave ao sair, normalmente a pessoa que abre a porta é a mesma que fecha. Porque se ela abriu a porta, ela está com a chave na mão. Então o normal, no Brasil (e a gente nem percebe que é assim) é a pessoa que está com a chave abrir a porta, sair, esperar fora enquanto as outras pessoas saem, e então trancar a porta depois de todo mundo. A pessoa que abriu a porta é a pessoa que fecha a porta, essa é a regra.
Só que aqui, quando você está saindo de um local, você nem precisa pegar a chave. E quando vc está entrando, você só precisa da chave na hora de abrir a porta. Logo, o normal é que quem for o último a passar pela porta é que fecha a mesma. Porque que a primeira pessoa que passou pela porta ficaria esperando pra fechar a mesma, se pra fechar é só puxar?

Isso parece uma bobeirinha, mas é um costume estranhamente enraizado nos pés. Quase sempre quando eu passo por uma porta por último eu deixo ela aberta subconscientemente achando que a pessoa que abriu é que vai fechar! E os alemães – não sabendo do por quê disso – sempre acham muito estranho quando eu faço isso. O meu namorado desde o começo brinca que eu nasci num metrô. Demorou pra eu enteder o que ele queria dizer… mas é porque no metrô as portas fecham automaticamente… rsrsrs

E embora eu saiba, conscientemente, que se for a última a passar pela porta devo fechá-la, várias vezes eu, distraída, esqueço. Essa semana mesmo isso ocorreu com colegas do escritório quando saímos pra almoçar. Eu passei e deixei a porta aberta – distraidamente – e minha colega ficou confusa achando que estávamos esperando mais alguém e por isso que eu tinha deixado a porta aberta!

Na hora fatídica de passar pela porta eu sempre me pego pensando “opa! quem que fecha a porta, mesmo? a pessoa que abriu ou a pessoa que saiu por último?”. Eu acho incrível como a gente fica tão profundamente acostumado com uma coisinha tão pequena e boba!

Mas embora eu ainda faça isso “errado” aqui, certamente quando for ao Brasil de novo vou fazer errado lá também…

É isso, então lembre-se sempre de fechar as portas pelas quais você for o último a passar pros alemães não te acharem estranho!

Nesse post aqui eu falei sobre chaves e sistemas de fechaduras usados na Alemanha. Tem uns bem high-tech.


(Publicado em 12 de Maio de 2017)

Evacuações e bombas

Ontem uma área de Hannover, onde moram aproximadamente 50.000 pessoas, foi completamente evacuada. O motivo: encontraram três bombas da segunda guerra mundial durante excavações de construção civil.

O interessante disso, na verdade, é que é algo que acontece com relativa freqüência. Mesmo. Volta e meia você vê notícias de alguma área (normalmente não tão grande quanto a área de hoje em Hannover) que tem que ser temporariamente evacuada por causa de alguma bomba antiga que ressurgiu em algum canteiro de obras.

Estima-se que 10% das bombas derrubadas pelos aliados na Alemanha durante a segunda guerra mundial não tenham explodido. Mais de 1.800 toneladas POR ANO em bombas e munição não explodida são descobertas na Alemanha. E não é só na Alemanha que isso ocorre, claro. Em outros países fortemente bombardeados durante a guerra também são encontradas bombas antigas volta e meia.

Quando uma bomba é encontrada, a área ao redor é evacuada ou imediatamente ou alguns dias depois. As pessoas têm que sair de suas casas por algumas horas até os ténicos em bombas irem lá e neutralizarem a bomba em questão. Nesse caso de ontem de Hannover – olha que curioso – eles planejaram e prepararam a evacuação por duas semanas! Quer dizer, a bomba foi encontrada e ficou lá duas semanas esperando o planejamento da evacuação (marcada, propositalmente, para um domingo). Como essas bombas da segunda guerra estão espalhadas pelo país há 70 anos, algumas (de determinados tipos) não representam um risco imediato. É mais no momento de remoção da mesma que ela pode explodir. Elas têm que ser neutralizadas e removidas com todo o cuidado, e durante esse processo que a área ao redor é evacuada. A evacuação é sempre mais complicada do que a gente imagina, porque tem pessoas com dificuldades motoras como idosos e deficientes a serem considerados, além de possíveis hospitais ou clínicas presentes na área de evacuação, de onde pacientes internados também têm que ser movidos, claro. Então ter um tempinho pra planejar convém!

E não é frescura. É raro que essas bombas de fato explodam, mas em Janeiro de 2014, por exemplo, uma bomba explodiu em uma obra em Euskirchen ao ser atingida por uma escavadeira. Um pedreiro morreu e dois ficaram gravemente feridos. Felizmente, quase sempre as bombas são identificadas com antecedência e removidas com os cuidados necessários. Desde o ano 2000, 11 técnicos de neutralização de bombas morreram na Alemanha durante o trabalho de neutralização. Três desses morreram numa única explosão de uma bomba que estavam tentando neutralizar em Göttigen, em 2010.

Um tipo de bomba particularmente perigoso dessa época são as bombas “químicas”, ou sei lá que nome bonito elas tinham. Essas bombas foram projetadas com o propósito específico de que explodissem dias depois de serem derrubadas num determinado local. Funcionavam da seguinte maneira: As bombas eram mantidas com o nariz pra cima, mas quando as bombas eram derrubadas dos aviões, elas caíam com o nariz pra baixo, claro. Quando o nariz virava para baixo, um dispositivo no “rabo” da bomba entrava em funcionamento e quebrava uma cápsula de vidro contendo acetona corrosiva. Ao atingir o chão, com o nariz pra baixo, a acetona escorria e começava a corroer, aos poucos, o corpo da bomba. Esse processo demorava horas ou até dias, e quando a última camada que protegia o explosivo fosse corroída, a bomba finalmente explodia, inesperadamente, dias após o bombardeamento. Se apesar da minha incapacidade de explicar o funcionamento de bombas pela minha falta de vocabulário bombístico você entendeu o processo, veja só o problema: várias dessas bombas atingiram o chão em locais onde o solo era muito mole, de maneira que elas infiltraram o solo e viraram de cabeça pra cima (já que elas caem de cabeça pra baixo) dentro da terra. Então a acetona não corroeu as camadas de proteção do explosivo. Mas, em 70 anos, essas camadas vão sendo corroídas ou vão se desintegrando com o tempo e a qualquer momento essas bombas podem explodir, desavisadas. Fiz um desenhinho pra ilustrar:

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Uma cidade particularmente afetada é Oranienburg, onde muitas dessas bombas ainda continuam escondidas debaixo da terra. Entre 1996 e 2007, o governo do estado de Brandenburgo gastou 45 milhões de euros para localizar e neutralizar essas bombas em Oranienburg, mais que em qualquer outra cidade alemã.

Mas voltando ao caso de ontem em Hannover, felizmente, as três bombas foram neutralizadas e removidas com sucesso, e no final do dia as pessoas já puderam voltar para suas casas.

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Bomba encontrada em Koblenz em 2011. Foto de Holger Weinandt – Wikipedia, CC BY-SA 3.0

Aqui tem um artigo muito completo e explicativo do Smithsonian sobre as bombas não explodidas da segunda guerra mundial. Foi desse artigo que eu tirei os dados do post que não linkam para outros artigos.

Então, se você vier à Alemanha, lembre-se de tomar cuidado com bombas de 70 anos de idade!


(Publicado em 8 de Maio de 2017)

Tradutores juramentados

Esse post não é sobre algum fato curioso ou engraçado ou interessante. É tão somente um compartilhamento de uma informação útil pra quem está aqui.

Sobre traduções juramentadas. Mudando de país, volta e meia você vai precisar de alguma tradução juramentada de algum documento seu. Talvez seja do seu diploma da faculdade quando você for se inscrever num mestrado, ou ainda da sua certidão de nascimento quando você for casar, ou ainda da sua carteira de motorista, ou seja o que for. Se você mudar prum país de língua diferente é certo de que cedo ou tarde você vai precisar de uma tradução juramentada. E provavelmente vai ser algo que você vai precisar pro dia seguinte, mais ou menos.

Aí você vai correndo num grupo do facebook de brasileiros ou estrangeiros na sua cidade perguntar “Socoorrooo preciso de uma tradução juramentada urgente, quem faz isso??? alguém conhece??? aaahhhh!” E mal sabia você que existe uma solução extremamente simples para o seu problema:

http://www.justiz-uebersetzer.de/

Esse site é o site oficial da Alemanha para tradutores juramentados. Significa que TODOS os tradutores juramentados do país, para qualquer língua, estão registrados aqui nesse site, e você pode procurar por localização e língua. Ou seja, basta entrar lá, botar o nome da cidade em que você mora e a língua a partir da qual você quer a tradução e pronto. Uma listinha extensiva de todos os tradutores que podem te ajudar. Manda um email (ou telefona, se for urgente) pra meia dúzia, quem responder mais rápido com o melhor preço você escolhe. Fim de todos os seus problemas com traduções juramentadas.

E lá ainda aparecem quais tradutores são também intérpretes (tradução simultânea). É algo que você pode precisar, por exemplo, se for casar aqui e não falar alemão. Aí é obrigatório a presença de um intérprete (Dolmetscher, em alemão).

Aliás, já que estamos falando desse assunto, eis uma outra dica importante: não adianta trazer os documentos já traduzidos do Brasil… Qual é a ideia da tradução juramentada? Alguém que passou em um exame federal ou estadual de tradução tem portanto a autorização federal ou estadual para traduzir documentos entre determinados idiomas. Aí quando uma instituição daquele país precisa de um documento numa língua traduzido para a língua do país, é o tradutor em que aquela instituição confia que tem que fazer a tradução. O que isso significa? Um tradutor que é juramentado no Brasil é autorizado a fazer traduções oficiais no Brasil. As instituições brasileiras vão confiar naquele tradutor pq ele tem a autorização das autoridades brasileiras para traduzir determinado idioma. As instituições alemãs não sabem quem é esse fulano, que exames de língua ele passou ou não passou, e qual a capacidade dele de traduzir o negócio e jurar que a tradução é verdadeira. Então para uma instituição alemá só um tradutor juramentado na Alemanha é “confiável”. (E vice-versa) Logo: não adianta traduzir os documentos com tradutores juramentados no Brasil. É aqui que eles têm que ser traduzidos.

Ok, então fica a dica sobre traduções.

Ah, sim, e antes que venham me perguntar preços de tradução mesmo sabendo que eu não sou tradutora e mesmo eu tendo acabado de colocar um link com contatos de centenas de tradutores que vão ficar muito contentes de te dizer quanto cobram por seus trabalhos:
Eu precisei de traduções juramentadas 2 vezes por enquanto:
Uma vez foi para a minha certidão de nascimento, uma página, foi 35€.
Outra vez foi para meu diploma e histórico escolar, eram umas 14 páginas, foi 200€. Normalmente você pode mandar os documentos escaneados por email, mesmo, e aí na hora de buscar a tradução você leva o original pro tradutor ou tradutora checar.


(Publicado em 05 de Maio de 2017)

Doação de órgãos na Alemanha

Um item que está presente na carteira de muitos alemães é esse cartãozinho aqui:

É um cartão para informar se você é doador (ou não-doador) de órgãos. O cartão é padrão, “emitido” pela BZgA, Bundeszentrale für gesundheitliche Aufklärung, ou Central federal de educação/esclarecimentos em saúde. É um instituto pertencente ao Ministério da Saúde alemão, responsável por educar a população em questões relacionadas à saúde. Eles fazem campanhas sobre AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, prevenção de doenças diversas, etc. E esse cartãozinho relativo à doação de órgãos.

Esse cartão normalmente ou o seu seguro de saúde te envia junto com informações sobre a doação de órgãos, ou você pega no consultório do seu médico, ou então você pode até pedir online no site da BZgA, onde vc também pode ler as informações a respeito: como funciona a doação de órgãos, quais órgãos podem ser doados, quais doenças podem ser curadas com transplantes, etc…

O interessante nesse cartãozinho é que você não marca simplesmente se você aceita ou não ser doador de órgãos, mas você pode inclusive especificar quais órgãos você aceita ou não aceita doar. Isso pode ser particularmente útil se alguém, por exemplo por motivos religiosos, não aceita doar digamos o coração, mas o resto tudo bem. Se não tivesse essa especificação, a pessoa colocaria, simplesmente, que não é doadora. Quando na verdade a maioria dos órgãos ela não se incomodaria de doar em caso de morte.

Traduzindo o verso do cartão, para mostrar direitinho as opções:

“No caso de, após o meu falecimento, a possibilidade de doação de órgãos ou tecidos entre em questão, eu declaro que:
(  ) SIM, eu autorizo, após a confirmação médica da minha morte, a remoção de órgãos e tecidos.
(  ) SIM, eu autorizo o mesmo, com a Exceção dos seguintes órgãos ou tecidos: __________
(  ) SIM, eu autorizo o mesmo, mas Apenas para os seguintes órgãos ou tecidos: _________
(  ) NÃO, eu não autorizo a remoção de órgãos ou tecidos.
(  ) Quanto à remoção de órgãos ou tecidos, a seguinte pessoa deve ser consultada: ______”

Também é importante saber que o que você marca no cartão não é registrado em nenhum lugar. Então você pode, a qualquer momento, mudar de idéia. Basta pedir um cartão novo – ou mesmo imprimir direto do site da BZgA, e preencher com a sua nova decisão.

Eu peguei esse cartãozinho esses dias na médica e preenchi dizendo que aceito doar todos os órgãos exceto a córnea. Porque me dá uma aflição profunda, ugh, só de pensar em remoção de córnea, ugh argh. Mas aí assim que eu preenchi o cartão pensei que transplante de córnea pode evitar que alguém fique cego, e pensei em como me sentiria se precisasse muito de um transplante de córnea e não conseguisse porque todos os potenciais doadores ficaram com afliçãozinha ao imaginar o transplante de córnea e escolheram não autorizar a remoção da córnea. Fiquei com vergonha da minha decisão boba e decidi ir buscar outro cartãozinho na médica e preencher como doadora sem restrições.

Mas enfim, a decisão sobre seu próprio corpo tem que ser só sua, então vai lá, lê as informações e preencha seu cartãozinho com convicção. O que pesou para a minha decisão foi perceber que ainda que eu sinta uma certa aflição ou aversão à idéia de remoção de órgãos do meu corpo após minha morte, eu certamente gostaria de conseguir um órgão para transplante se vier a precisar de um algum dia, e gostaria que as pessoas próximas a mim possam conseguir órgãos para transplante se vierem a precisar deles. Então nada mais justo e coerente que aceitar doar os meus no caso da minha morte.

Aqui nesse link tem um PDF da brochura da BZgA com informações básicas sobre o transplante e doação de órgãos em alemão e em inglês. Uma coisa que eles falam repetidamente nessa brochura é que, qualquer que seja a sua decisão, informe seus parentes próximos. Porque se você vier a falecer em uma situação em que determinados órgãos possam ser removidos e transplantados e eles não encontrarem o cartãozinho com a sua decisão, são os seus familiares que vão decidir. Então é bom que eles saibam qual a sua vontade. Mas a diferença grande do Brasil (pelo que eu pesquisei) é que aqui a sua vontade – registrada nesse cartãozinho ou como for – será prioridade sobre a vontade dos seus familiares. No Brasil mesmo que você tenha lá na sua carta de motorista escrito que você aceita ser doador, se sua família não autorizar a remoção dos órgãos, eles não serão removidos. Então busque lá seu cartãozinho e faça a sua vontade!


(Publicado em 2 de Maio de 2017)