Mês: agosto 2017

Pequenas denúncias

Esse post de título um tanto enigmático me deu na telha de escrever na semana passada, ao comprar uma água. E é sobre pequenas coisas, pequenos detalhes, que te denunciam como estrangeiro na Alemanha. Não coisas grandes como erros gramaticais ou pronúncia da língua. Coisinhas pequenas, não necessariamente erradas, discretas, porém que nenhum alemão jamais faria ou expressaria dessa maneira.

Quem já viu o filme Bastardos Inglórios vai lembrar bem da cena em que o espião americano infiltrado entre os nazistas é descoberto ao pedir duas cervejas num bar, mostrando o dedo indicador e o do meio. Os alemães contam nos dedos começando com o dedão, então “dois”, na linguagem dedística alemã, seria levantar o dedão e o indicador. Se você, como a pessoa normal que é, levantar o dedo indicador e o do meio para indicar dois: ! Estrangeiro!

Então aqui vão outras coisinhas que poderiam resultar na sua execução imediata se você fosse um espião estrangeiro infiltrado entre os nazistas em 1940.

1. Volume de bebida
A história da água foi que eu pedi ontem uma garrafa de água no subway, e quando a pessoa do caixa me perguntou qual tamanho, eu distraidamente respondi “A pequena, de 500”. 500 mL, claro. Na Brasil a gente fala de tamanho das bebidas em mL. 300, 500, 700. Só a partir de 1L qua a gente passa pra litros. Mas aqui  na Alemanha é tudo sempre em Litros. 0,3, 0,5, 0,7. A resposta certa no caso da água teria sido “null komma fünf“, “zero vírgula cinco” (ou só “komma fünf“). Todo mundo entende se você fala em mL, claro, mas nenhum alemão jamais responderia àquela pergunta com “fünfhundert“. Jamé.

2. Emails
Duas pequenezas em emails eu descobri outro dia que eram diferentes. São pequenezas tão discretas que eu nunca teria notado. Mas provavelmente os alemães que receberam emails escritos por mim notaram. Quando você escreve um email (ou carta) em português, é algo assim:

“Caro Sr. Fulano de Tal,

Como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente,
Eu Mesmo da Silva”

Se a gente seguisse a mesma regra que os alemães, essa mesma carta seria assim:

Caro Sr. Fulano de Tal,

como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente
Eu Mesmo da Silva

Sacou a diferença? São duas. A mais importante e mais denunciativa é a primeira: aqui você sempre começa o email com letra minúscula (depois do “Caro fulano”, que aliás em alemão seria “Sehr geehrte(r) xyz). O motivo faz sentido: A frase começou com “Caro fulano, xxx”, não tem porquê colocar maiúscula depois da vírgula. Mas por algum motivo misterioso em português e em inglês se faz assim em emails e cartas. A segunda diferença não é tão determinante. Entre o “Atenciosamente” (em alemão você escreveria “Mit Freundlichen Grüßen“) e o seu nome, os alemães não costumam colocar vírgula. Mas não é uma regra tão definitiva: às vezes eles também colocam uma vírgula.

3. Futebol
Duas grandes pequenas diferenças existem entre nós e os alemães ao falar de futebol. A primeira é a contagem do tempo. No Brasil a gente conta em duas vezes de quarenta e cinco minutos. Então se alguém chega e te pergunta “E o jogo? Tá onde?”, você responderia algo como “30 minutos do segundo tempo”. Na Alemanha, a resposta seria “75 minutos”. O jogo é contado em 90 minutos, não duas vezes de 45. Então se você fala em algum minuto do 0 ao 45, você com certeza está se referindo ao primeiro tempo. A expressão “aos quarenta e cinco do segundo tempo” não faria sentido aqui.
Outra diferença (embora essa seja mais algo que denunciaria um alemão no Brasil que o contrário) é a contagem dos gols. No Brasil a gente sempre coloca quem tem mais gols primeiro. Por exemplo: “O jogo ficou sete a um pra Alemanha”. Na Alemanha você fala os gols do time da casa primeiro. “O jogo ficou um a sete.” é certamente algo que você nunca disse em português.

Talvez agora você esteja prestes a escrever um comentário perguntando a mesma coisa que eu perguntei pro marido alemão quando conversamos sobre esse assunto: como faz quando não tem time da casa? E se for, digamos, Marrocos x Japão jogando no Uruguai? A resposta foi: ¯\_(ツ)_/¯. Bom, tem sempre uma regra pra qual time é o time da casa mesmo nesses campeonatos internacionais, no sentido de qual time tem que trocar de roupa se os uniformes forem da mesma cor, né. Mas sei lá se tem toda essa preocupação em ser específico. Acho que colocar o número maior na frente e dizer quem ganhou (ou está ganhando) faz mais sentido e os alemães podiam pensar em adotar essa regra simples, ficadica.

4. Casaco
Dois compartamentos referentes a casacos te denunciariam imediatamente como estrangeiro (de país onde não faz frio) na Alemanha.

A primeira é andar por aí no frio com o casaco aberto. Algo que não faz nenhum sentido lógico: o casaco serve pra isolar seu corpo do frio, pra ele não perder calor. Não funciona se o casaco estiver aberto. Mas no Brasil, como quase não faz frio, a gente praticamente nem têm casacos que isolam, então efetivamente tanto faz se o casaco está aberto ou fechado. Daí a gente chega bobo no país frio durante o inverno e demora uns tempos pra descobrir que casaco de inverno só funciona quando fecha o zíper.

A outra coisa sobre casacos é que, como os interiores dos edifícios são aquecidos, as pessoas tiram o casaco ao entrar em qualquer lugar. É meio que a reação direta e automática a entrar num local: tirar o casaco. Só que no Brasil a gente usa o casaco o dia inteiro, dentro de casa e do escritório e do restaurante e de todos os lugares, já que costuma estar a mesma temperatura dentro e fora. Então a gente não tem esse costume de imediatamente tirar o casaco ao entrar num local, e às vezes fica lá distraído de boas no seu casaco. Os alemães acham isso meeeeega estranho, a ponto de chamar a atenção que alguém esteja usando casaco sem estar lá fora.

5. Meio Pãozinho
Digamos que eu te dê um pãozinho, um pãozinho normal, pão francês, e te peça pra cortar ao meio e me dar metade e comer a outra metade. Em que eixo do pãozinho você vai cortá-lo? Provavelmente você vai cortá-lo assim:

paozinho

Dê o pãozinho a um alemão e peça para ele cortá-lo ao meio para comer só metade e em 100% dos casos o pãozinho será cortado neste eixo:

paozinho

No Brasil, a gente só corta o pãozinho no lado maior quando a gente vai fazer um sanduíche, e comer as duas metades ao mesmo tempo, fechadas. Se for pra comer só metade e dar a outra metade pra outra pessoa ou devolver pro saquinho de pão, o pãozinho será cortado no eixo menor. Aqui, se um alemão concordar em dividir um pãozinho com você e você cortar o mesmo no lado menor pode ter certeza que o alemão vai te olhar como se você tivesse feito a coisa mais estranha e inesperada que ele já presenciou em sua vida!

Aliás já que estamos falando de pãozinho, uma dica pra você não cometer um erro que eu cometo regularmente, inclusive hoje mesmo na hora do almoço: Se você disser para um alemão te trazer uns pãezinhos da padaria, lembre-se de especificar que você quer pãezinhos brancos, aqui conhecidos como “Kleinbrötchen” (entre outros nomes possíveis). Se você quiser o pãozinho da imagem acima, tem que ser específico. Se você disser simplesmente “traz um pãozinho”, vai vir qualquer coisa menos pão branco. Se forem vários vai ser uma variação de pães diversos em que uns 10% a 20% serão pãezinhos brancos. Então se você quiser só pãezinhos brancos, seja específico. Se você for passar a noite na casa de alguém e a pessoa combinar um horário pra tomar café na manhã seguinte (sim, eles vão combinar um horário específico pra se “encontrar” pro café da manhã) e a pessoa te perguntar se você tem alguma preferência pro café, quantos pãezinhos você come, e tal: lembre-se de especificar que você só come pãezinhos brancos (se for o caso), se não é capaz de não ter um único pãozinho francês na seleção de 20 pãezinhos que seu anfitrião colocar na mesa do café no dia seguinte.

É isso! Daria pra escrever sobre mil outras coisinhas, mas deu pra dar uma ideia…


(Publicado em 22 de Agosto de 2017)

Sobre coisas proibidas

Acho surpreendente que, mesmo depois de 5 anos morando aqui, volta e meia eu ainda descubro coisas que não sabia.

Hoje foi um desses dias. Eu percebi muito cedo que as pessoas aqui não se xingam no trânsito. Na verdade, eu nunca presenciei alguém xingando outra pessoa, na Alemanha. Curiosa, já até perguntei pro marido alemão o que as pessoas falam umas pra outras em brigas no trânsito ou outras brigas. A resposta, depois de alguns minutos pensando, foi alguma coisa qualquer über-educada que eu não imagino jamais alguém dizendo durante uma briga no trânsito. E não é por falta de oportunidades, não, que stress é uma coisa que eu nunca vi faltar num alemão.

Eis que hoje descubro, finalmente, o motivo. Na Alemanha é proibido por lei xingar outras pessoas, mostrar o dedo do meio ou outros gestos ou palavras obcenas ou ofensivas. O negócio é sério, pode dar multas altíssimas e até um ano de prisão! Ok, realmente ser preso é pouco provável, mas ser multado pode realmente ocorrer. E para algumas ofensas – como mostrar o dedo do meio – a multa é bem salgada: 4.000 euros!! OU SEJA, bora aprender a manter a calma no trânsito antes de vir pra Alemanha! (no trânsito e no geral, mas brigas de trânsito é a situação mais comum de ocorrer)

Tem até – claro, Alemanha, claro – uma listinha básica dos preços da multa para diferentes ofensas. Vou copiar aqui e fazer uma tradução livre porque algumas são bem engraçadas. Em azul a tradução, em verde alguns comentários meus:

Beschreibung Descrição Strafe Multa
Die Zunge herausstrecken
Mostrar a língua
150 €
“Du Mädchen!” (zu einem Polizisten)
“Menininha!” (para um policial)
200 €
“Bekloppter”
“Louco”
250 €
“Dumme Kuh”
“Vaca burra”
300 €
“Leck mich doch!”
“Me lambe!” 
300 €
“Du blödes Schwein”
“Seu porco estúpido”
475 €
“Hast du blödes Weib nichts Besseres zu tun?!”
“Você não tem nada melhor pra fazer, sua fêmea estúpida?”
500 €
“Was willst du, du Vogel?!”
“Qual é a sua, seu pássaro?!”
Ok, essa é estranha, mas aparentemente chamar alguém de pássaro é dizer que ele não tem nada na cabeça. ¯\_(ツ)_/¯ 
500 €
“Asozialer”
“Asocial”
Pra esse fazer sentido você tem que saber um pouquinho de história: asocial era como os nazistas denominavam determinados grupos de pessoas (desempregados, deficientes, prostitutas, entre outros) que, segundo eles, não adicionavam nada à sociedade e portanto tinham que ser eliminados. 
550 €
“Dir hat wohl die Sonne das Gehirn verbrannt!”
“O sol queimou seu cérebro!”
600 €
Einen Polizisten duzen
Tratar um policial por “Du” (a forma informal de “você”) em vez de “Sie” (senhor/a)
Espero que eles façam uma exceçãozinha aqui pra estrangeiros, que eu volta e meia trato alguém por du que deveria tratar por Sie sem querer!
600 €
“Du Holzkopf!”
“Seu cabeça de pau!”
750 €
Einen Vogel zeigen
Mostrar um pássaro
Ok, esse não tem como não traduzir literalmente e a tradução literal não faz o menor sentido, mas, basicamente, “Einen Vogel zeigen” é o gesto que os alemães fazem que significa “você não tem nada na cabeça?” ou “você é burro?”. O gesto é dar uns toquinhos na própria cabeça com o dedo indicador, meio como se faz para checar se algo é oco.
750 €
“Bei dir piept’s wohl!”
Esse também é relacionado com essa coisa do pássaro. Não dá pra traduzir muito bem, mas é basicamente uma forma indireta de dizer que alguém é um pássaro – e, consequentemente, não tem nada da cabeça.
750 €
Scheibenwischer-Geste
Gesto de limpador de parabrisa seria a tradução literal, mas basicamente é mais um gesto típico dos alemães: balançar a mão aberta na frente do rosto. Significa, também, que a pessoa é burra. 
1000 €
Stinkefinger zeigen
Mostrar o dedo do meio
4000 €
Deixa esse dedinho aí bem guardadinho que meudeusquatromileuros!
“Du Wichser”
“Seu punheteiro”
1000 €
“Idiot”
“Idiota”
1500 €
“Am liebsten würde ich jetzt Arschloch zu dir sagen!”
“Eu bem que gostaria de te chamar de imbecil!”
Ahá, não adianta tentar ser sagaz e dizer que você não vai dizer o que você queria dizer mas já está dizendo, que também conta!
1600 €
“Schlampe”
“Vadia”
1900 €
“Fieses Miststück”
“Cadela nojenta”
2500 €
“Alte Sau”
“Porco velho”
2500 €

É, aparentemente não é por acaso que eu nem conhecia a maioria desses xingamentos! Essa lista é uma referência, só, mas as multas são decidida caso a caso. Ou seja, um xingamento que não esteja na lista também pode resultar em multa.

Essa lei é válida também para xingamentos na internet, claro. Tanto em e-mails quanto mensagens ou o que for. Aliás, esses são muito mais fáceis de dar em algo porque estão registradinhos bonitinhos. Xingar alguém na rua, se não tiver nenhuma testemunha, no fim vai ser a palavra de um contra a do outro. Então ainda tem uma boa chance de não dar em nada, dependendo da situação.

Mas na dúvida, melhor ser educado. Aliás, né, com ou sem multa é sempre melhor ser educado e não xingar as pessoas e talz.

Por sorte eu nunca desavisadamente quebrei essa lei por aqui, porque eu jamais imaginaria que mostrar o dedo do meio pra alguém pudesse dar uma multa tão absurdamente alta! E quando comentei com o marido que tinha descoberto isso, hoje, a resposta foi um “uuuhhh, isso não pode, não!!!” num tom sério com os olhos arregalados como se eu tivesse comentado que acabei de descobrir que não pode sair por aí com uma suástica no braço.

ALIÁS. Já que estamos falando de coisas que são proibidas, por que não:

Símbolos nazistas são super mega proibidos na Alemanha. Não é só a suástica, mas fazer aquele gesto da saudação nazista é expressamente proibido, assim como dizer coisas como “Heil Hitler” ou “Sieg Heil” ou outros cumprimentos nazistas. Isso é uma proibição levada beeeem a sério, você pode de fato ser preso. Esses dias andou rolando por aí no facebook a notícia de um turista americano que foi agredido com um soco por algum passante depois de repetir diversas vezes o gesto da saudação nazista. O fulano estava bêbado, e agora está sendo processado pela polícia por infrigir a lei que bane os símbolos nazistas. Também recentemente dois turistas chineses foram levados para uma delegacia ao serem flagrados tirando fotos na frente do Reichstag (o edifício do parlamento alemão) fazendo o gesto de saudação nazista. Os dois receberam uma multa de 500€ cada, e ainda terão que responder a processo pela violação da lei. Certamente não tinham a menor ideia de que era proibido e acharam engraçado tirar fotos fazendo gestos nazistas na frente do Reichstag… péssima ideia!


(Publicado em 15 de Agosto de 2017)

TeilAuto – Carros compartilhados

A relação dos alemães com seus carros é um tema interessante. Eles também amam seus carros e gostam muito de dirigir, mas em comparação com as pessoas no Brasil, são bem menos dependentes do carro. Por um lado, a boa qualidade das calçadas, a vasta presença de ciclovias e a qualidade e oferta de transporte público facilitam as viagens a pé, de bicicleta, ou de ônibus e trem. E por outro lado, ou talvez até mais importante (até porque às vezes causa e consequência são intermutáveis), os alemães são acostumados a levar uma vida muito mais ativa que o comum no Brasil. Praticam esportes com maior frequência, aproveitam qualquer oportunidade para atividades ao ar livre, e tentam manter-se ativos em todas as idades.

E se você mora num centro urbano, a necessidade de carro é realmente mínima. Embora cada vez mais seja difícil encontrar alguém no meu círculo de conhecidos que não tenha carro (isso não porque o número está aumentando, mas pela idade, mesmo. Eu tenho cada vez menos conhecidos que são estudantes, hoje a maioria tem família, casa e emprego fixos, e tal), muitos usam com pouquíssima frequência e só para ocasiões não cotidianas – como uma viagem de fim de semana, um passeio para algum lugar mais longe, etc. Às vezes, quando queremos fazer alguma coisa que exige um carro (por exemplo ir no IKEA ou na loja de materiais de construção comprar algo que é grande demais pra carregar no tram, ou ir no supermercado comprar um estoque de 6 meses de pedrinha de gato), ficamos nos perguntando se não deveríamos ter um. Mas no final a conclusão é sempre a mesma: pra essa necessidade que aparece uma vez a cada dois, três meses realmente não vale a pena o custo.

Aí, há uns dois meses atrás, nos tocamos de uma opção alternativa que sempre esteve disponível mas que por algum motivo nunca nos chamou a atenção: os esquemas de carros compartilhados.

É um esquema diferente de aluguel de carro que é bem comum pela europa: basicamente a empresa locatora espalha carros pela cidade todas, na rua, mesmo, e você, se afiliando à empresa, pode alugar qualquer dos carros disponíveis em qualquer lugar e qualquer momento. É meio que nem esses esquemas de aluguel de bicicletas, que já tem em São Paulo e algumas outras cidades brasileiras, com algumas estações espalhadas pela cidade. A diferença entre esse sistema de carros compartilhados e um aluguel de carro normal é, principalmente, que você pode alugar por períodos curtos de tempo: meia hora, uma hora, duas. E você se cadastra uma vez só e pode pegar qualquer carro em qualquer momento sem precisar a cada aluguel assinar um novo formulário, buscar a chave em uma das sedes e no horário de funcionamento da locadora, etc. Então para situações em que você precisa de um carro rapidinho, para ir comprar não sei o que não sei aonde, para que não faria sentido alugar um carro, essa alternativa vem a calhar.

E como funciona? Vou explicar o esquema da TeilAuto, a empresa que tem aqui em Dresden e em que nos cadastramos. Para se cadastrar você paga 25 euros + um caução de 80. Tem três alternativas de planos de acordo com a frequência que você for usar os carros. Se você vai precisar deles com muita frequência, vale a pena algum dos planos em que você paga um valor mensal e cada aluguel sai mais barato. Se você vai usar pouco, vale mais a pena o plano em que você não paga nada por mês mas o valor de cada aluguel sai um pouco mais caro. Uma comparação básica que eles mostram no site: Para um passeio de 2 horas e meia e 15km com um carro pequeno, no plano básico (sem valor mensal) custa 9,84€, no plano regular (que você paga 9€ por mês) custa 8,20€ e no plano de usuário frequente (25€ ao mês) sai 6,56€. Para uma viagenzinha de um fim de semana, 250km com um carro médio, a diferença no preço já é bem considerável: 120,52€ para a tarifa básica, 100,43€ para a tarifa regular e 80,34€ para a tarifa de usuário frequente. O site ainda tem uma calculadora para você verificar qual tarifa vale mais a pena pra você de acordo com as viagens que você planeja fazer.

Uma vez cadastrado online, você vai em uma das lojas físicas levar sua carteira de motorista, pagar o caução e assinar o contrato. De lá você sai com o cartão de chip que serve para retirar e devolver os carros. Os carros estão espalhados realmente pela cidade inteira. Ou melhor, pelo país inteiro, em quase todas as cidades de porte médio a grande. O mapa dos carros disponíveis em Dresden, só para dar uma noção:

Teilauto.jpg

O número nos símbolos é, claro, a quantidade de carros disponíveis naquela estação. O que eu estou chamando de estações são, na verdade, vagas diversas espalhadas pela cidade exclusivas para aqueles carros.

Eis aqui um exemplo:

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A desvantagem do TeilAuto, em relação a algumas outras empresas de carros compartilhados, é que você tem que devolver o carro na mesma estação onde o retirou. Então não dá pra usar o carro em trechos só de ida. Por exemplo, digamos que você foi em algum lugar a noite e saiu as 3 da manhã e não quer ficar esperando o transporte público que vai demorar 1 hora pra chegar. Se você não precisasse devolver o carro na mesma estação de onde o retirou, daria para pegar um carro só para voltar tarde da noite (se você não consumiu álcool, claro) e deixar ele em algum lugar perto de casa. Mas como vc tem que devolver na mesma estação, ou você se planeja antes pra já ir com o carro – lembrando que você vai ter que pagar pelas horas que deixou o carro estacionado entre a ida e a volta – ou não funciona.

Algumas empresas tem um sistema diferente em que você pode deixar o carro em qualquer vaga gratuita de rua num raio de x km do centro da cidade. Bem mais prático, mas só funciona em cidades onde tenha uma oferta suficiente de vagas gratuitas na rua. E também faz mais sentido para cidades maiores. Aqui em Dresden não tem outras empresas além da TeilAuto, mas em algumas outras cidades há outras opções de empresas com esse sistema, como a Drive Now.

Seja como for, os carros compartilhados podem ser úteis em diversas situações. Desde que nos inscrevemos, utilizamos duas vezes: na semana passada, por exemplo, pegamos o carro pequeno da foto acima para ir comprar umas plantas e vasos na loja de materiais de construção. Foi bem prático e saiu uns 8 euros para alugar por 2 horas e andar +- 15km. Ainda não sei exatamente quanto saiu porque a conta chega no final do mês. Mas o aluguel do carro em si foi 5 euros, e aí em cima disso ainda vem adicionado o preço por km da gasolina.

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Ah é, esse é um outro ponto vantajoso desses carros compartilhados em relação a locadoras de carros comuns: você não precisa reabastecer. O preço do combustível utilizado é calculado baseado em quantos km você percorreu. Você só precisa reabastecer antes de devolver o carro se o tanque estiver com menos de 1/4 do combustível. Nesse caso você pode parar em qualquer posto de gasolina de determinadas redes, e com um cartão que fica guardado dentro no porta-luvas e um código que você recebe no celular quando retira o carro você reabastece sem ter que pagar do próprio bolso.

A retirada e devolução do carro também é toda automatizada: você usa seu cartão de membro, com chip, num leitor que fica num cantinho do vidro da frente para destrancar o carro. A chave fica guardada no porta-luvas, e para devolver o carro você usa de novo o cartão para trancar o carro com a chave dentro. A chave tem um chaveiro com chip que tem que ser encaixado num cantinho específico do porta-luvas, e só quando a chave está encaixada lá que você consegue trancar o carro com o cartão. E se você esquecer o cartão, também dá pra trancar ou destrancar o carro pelo app.

O app, aliás, é meio ruinzinho. Sei lá, ás vezes não funciona direito. Mas dá pro gasto. Pelo app ou pela internet você pode reservar um carro para um dia e horário específico, ver os carros disponíveis e todas as informações sobre suas reservas e carros alugados. Tem diferentes tipos e tamanhos de carros: dos minis, como o das fotos acima, a carros maiores e até vãs para transporte ou mini vans para 10 passageiros, etc. Tem todo tipo de opção.

E finalmente, outro ponto importante: O motorista do carro não precisa necessariamente ser a pessoa que está registrada. Desde que a pessoa registrada esteja presente no carro, qualquer um com uma carteira de motorista válida pode dirigir. Isso no plano básico. Nos planos regular e de usuário frequente você pode registrar até quatro motoristas, que podem então retirar carros no mesmo contrato de membro, sem pagar mais ao mês. Só a taxa de registro de 25 euros é paga por motorista separadamente.

Pra quem não tem carro e não vê sentido em ter para usar pouco, a opção dos carros compartilhados é uma boa alternativa pra ter um carro disponível nas poucas situações em que eles são realmente necessários. Por enquanto ainda estamos testando, para ver se a tarifa que escolhemos e o sistema no geral faz sentido pra gente, mas nas ocasiões que usamos foi super prático e funcionou muito bem!


Leia aqui os posts sobre como validar sua CNH brasileira na Alemanha!

Parte 1: Como validar a CNH

Parte 2: A prova teórica

Parte 3: A prova prática

Post Bônus: O que pode acontecer se você dirigir aqui sem ter uma habilitação alemã válida, não faça isso!


(Publicado em 11 de Agosto de 2017)