Pequena regrinha em reuniões

Recentemente descobri, meio por acaso, uma regra social não muito discutida mas frequentemente adotada. Eu estava lendo um livro sobre linguística que aborda diversos aspectos da linguagem, etc, e um exemplo que o autor mencionou sobre normas linguísticas de boas maneiras era não usar pronomes para se referir em terceira pessoa a alguém que está presente.

Quando li isso nem entendi direito o que ele estava querendo dizer. Como assim, não pode se referir a uma pessoa que está presente na conversa por “ele” ou “ela”? Tive que ir pesquisar. Embora o autor seja britânico e estivesse se referindo a uma regra britânica, quando entendi do que ele estava falando realmente ficou claro que tem uma diferença. E aí pensando sobre o assunto me toquei que de fato me parecia que aqui essa regra também é válida. Perguntei para alemães de plantão que confirmaram que em situações formais, realmente isso existe.

Mas péra, do que eu estou falando, afinal?

Imagina a seguinte situação. Você está numa reunião de trabalho, com algumas pessoas, digamos um grupinho de 4 pessoas. Digamos, você, o Sr. Einsenmann, a Sra. Müller e a Profa. Seidel. A Sra. Müller expões alguma ideia, da qual o Sr. Einsenmann discorda e você percebe que ele discordou porque não entendeu exatamente a idéia. Você quer explicar melhor o que a Sra. Müller quis dizer, pra isso você precisa se referir à Sra. Müller em terceira pessoa: “O que ela quis dizer foi…”, “a idéia dela, na verdade…”. Aí é que usar um pronome, como eu fiz nos dois exemplos (ela e dela) é que é mal-educado. A opção educada e mais formal de se referir à Sra. Müller seria “O que a Sra. Müller quis dizer foi…” ou “a idéia da Sra. Müller, na verdade…”

Quer dizer, não chega a ser mal-educado, mas é mais informal e menos atencioso. Com certeza soa bem mais polido se referir à pessoa pelo nome, nessas situações. E como aqui na Alemanha títulos também são muito importantes, você também pode se referir à pessoa pelo seu título. Por exemplo, se a idéia fosse não da Sra. Müller mas da Professora Seidel, você poderia dizer “O que a professora quis dizer foi…”

Essa é uma daquelas coisas que você nunca perceberia conscientemente mas talvez depois de um tempo comece a adotar sem se tocar. E acho que também é uma daquelas regras que ninguém discute mas todo mundo inconscientemente adota em quase qualquer língua. Eu teria que prestar atenção em situações formais no Brasil, mas não é difícil imaginar que isso também seja automaticamente adotado. Mas como no Brasil as pessoas costumam ser bem mais informais, esses detalhes não são nunca tão importantes.

Em todo o caso, fica a dica: preste atenção de tratar as pessoas presentes pelo nome e passe uma boa impressão entre os alemães!


(Publicado em 11 de Novembro de 2017)

1 comentário

  1. Olá!
    No dia que comentaram isso comigo, achei que isso fizesse parte da gramática alemã. Na época, me disseram que falar “ela” teria tom pejorativo e que ninguém merece ser tratado dessa forma, mas para mim isso não surtia diferença nenhuma. Agora tudo me faz sentido…
    Bom saber que isso é mais regra de etiqueta do que erro gramatical.
    Ótimo post!

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