Como a Alemanha mudou meu paladar

Uma das coisas mais difíceis de acostumar, para quem se muda de um país para outro, é a comida. Vale para quaquer pessoa mudando de qualquer país para qualquer outro, a comida é sempre uma questão difícil. Comida brasileira é de longe do que eu mais sinto falta aqui (exceto, claro, pessoas queridas que estão no Brasil). E os posts possivelmente mais comuns nos grupos de facebook de estrangeiros ou brasileiros aqui são pessoas perguntando onde encontram esse ou aquele ingrediente específico, ou como substituí-lo.

Aqui em Dresden não tem um único restaurante brasileiro, e eu não super sei cozinhar. Já tentei várias vezes fazer feijão mas não consigo temperar direito e não tenho paciência de esperar cozinhar totalmente, de maneira que o gosto nunca fica igual. Fica um feijão muito improvisado. Desisti.

O que significa que eu quase nunca como comida “normal”. Realmente muito raro eu comer assim um básico arroz e feijão com gosto de arroz e feijão. Outro dia viajando numa cidade encontrei um restaurante brasileiro e juro, quando chegou a comida e eu dei a primeira garfada quase comecei a chorar de saudade (“quase” aqui é só disfarce, saíram lágrimas de verdade). Outro dia ofereci um pote de doce-de-leite que estava sobrando aqui em casa (eu trouxe, ou alguém trouxe pra mim, sei lá, e eu não queria comer) num grupo de brasileiros daqui e em 5 segundos umas 20 pessoas responderam desesperadas que queriam muito aquele doce-de-leite.

Mas enfim. Tudo isso foi só introdução. A questão principal é: eu raramente tenho acesso a comida brasileira de fato, o que me obrigou a adaptar meus hábitos alimentares. Como qualquer imigrante tem que fazer, claro. Inevitavelmente mudar de país faz com que seus hábitos alimentares mudem até certo ponto. Certamente quem vai morar nos EUA acaba comendo mais fast food, quem vai morar no Japão acaba comendo muitos frutos do mar, etc.

Então esse post é sobre como o Alemanha mudou meus hábitos alimentares, e eventualmente inclusive minhas preferências alimentares.

Refrigerantes

A primeira coisa (que eu mencionei no post anterior, e que foi o ponto de partida pra escrever esse post): refrigerante. No Brasil eu era absolutamente viciada em Coca-cola. Tomava muito mesmo, coca no almoço, coca na janta. E eu não era nenhuma exceção, tem gente que toma menos, mas no geral muitas pessoas no Brasil tomam muito refrigerante, e coca-cola está sempre presente em festas, jantares e almoços com muitas pessoas, restaurantes, etc. Ir comer em algum lugar e não ter coca-cola como opção para beber é quase inimaginável.

Nos meus primeiros dois anos na Alemanha eu trouxe esse costume pra cá, e foi bem difícil. Escrevi um post inteiro sobre o quanto os alemães não tem menor idéia de como servir coca-cola. Aqui, se você pede uma coca num restaurante, ela vem sem gelo, quente, sem gás, e muito provavelmente nem é coca-cola de verdade mas alguma marca alternativa. Se você for convidado para almoçar ou jantar na casa de alguém, você pode ter certeza absoluta que não vai ter coca-cola na geladeira da pessoa. Refrigerantes no geral são coisas que os alemães bebem com pouquíssima frequência. Logo parei de pedir coca em restaurantes, porque era sempre nojenta, e passei a tomar só em casa. Depois de uma viagem ao Brasil em que uma amiga querida me apresentou a bebida mais simples e mais maravilhosa da terra – água com gás com gelo e limão – foi um pulinho pra abandonar a coca de vez. Passei a tomar água com gás com gelo e limão em casa, o que supriu a necessidade por uma bebida gelada e gasosa e eu te garanto: se você fica um mês sem beber refrigerante quando você voltar vai te parecer doce demais. A Alemanha curou de fato meu vício em coca de uma vez por todas. Acho que faz tipo um ano que eu não tomo uma coca, e a última vez deve ter sido assim pq não tinha outra opção e eu estava com muita sede, e me arrependi depois do primeiro gole. De todas as mudanças no paladar pelas quais a Alemanha foi responsável, passar de absolutamente viciada em coca para achar coca meio nojento foi realmente a mais radical.

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Açúcar

Na verdade a minha tolerância a coisas com muito açúcar no geral mudou. No Brasil coloca-se muito açucar nas coisas, nos doces, no café, onde der. Quando queremos evitar açúcar no Brasil, a alternativa é adoçante artificial, mas nunca simplesmente nada. Aqui isso é bem diferente. Por exemplo café. Colocar açúcar no café é raríssimo aqui. Só se for um espresso. Mas aqui não se toma tanto café espresso, mas café com leite. Sem açucar. Quando eu ainda tomava café com açucar e me ofereciam café em casas alheias e eu pedia açúcar, as pessoas tinham que ir procurar o potinho de açúcar no canto mais esquecido do armário da cozinha de onde ele sai uma vez por ano. Parei de tomar café com açúcar na mesma época que abandonei a coca-cola. E doces muito doces eu hoje não agüento nem olhar. Cocada, que era um doce que eu adorava quando morava no Brasil, por exemplo. Só de pensar em morder uma cocada já dá enjôo por ser tão doce. Quando faço bolos aqui com receitas brasileiras, coloco menos da metade do açúcar da receita e mesmo assim os alemães convidados a experimentarem dizem que é super doce. Ah, e adoçante artificial é algo que nem existe aqui. Eu nem tinha percebido isso (porque sempre detestei adoçante) até virem me visitar parentes que só tomam café com adoçante, e reclamarem de nunca ter adoçante em lugar nenhum. Realmente não tem mesmo.

Batata ou arroz

O alimento básico de cada cultura pode ter diferentes caras, gostos e cheiros, mas tem algo em comum: carboidratos. Qualquer cultura tem basicamente um item da culinária presente em quase todas as refeições, e que é a fonte principal de carboidratos e conseqüentemente energia e talz. No Brasil é o arroz e feijão, também comum em outros países latino-americanos. Na Itália é a massa. Em muitos países asiáticos também é arroz. Em vários países africanos é a mandioca. E na Alemanha, assim como outros países norte europeus, esse alimento básico sempre presente é a batata. Batata em diferentes formas e consistências: batata cozida, purê, batata assada, etc. Eu ainda prefiro arroz, mas acabo comendo pouco arroz por aqui. Como mais quando vou em restaurante vietnamita (que é a comida oriental mais presente por aqui) ou indiano.

Bom, na verdade essa mudança de hábito não é uma mudança de paladar, eu ainda prefiro arroz a batata. Arroz é bem mais gostoso. Mas uma coisa que você certamente nunca vai encontrar aqui é um prato com arroz E batata. É arroz OU batata. Pra gente batata é um legume, né, você poderia colocar batata junto com uma salada, talvez. Na Alemanha se chamar batata de legume eles te olham estranho.

Óleo

Uma diferença grande é a quantidade de óleo usada nas comidas por aqui. Aqui se usa beeeem menos óleo para cozinhar que no Brasil. E quando usa, usa-se preferencialmente azeite a outros óleos. Isso é uma coisa que eu notei também da última vez que fui pro Brasil, como certas comidas que você compra vem muito oleosas. Por exemplo salame e presunto. Sei lá, você tira o salame da embalagem ele vem todo gosmento e oleoso. Aqui ele vem sequinho. Isso me dá a impressão de que várias coisas meio “básicas” (básicas no sentido de alimentos que você compra assim no supermercado, como salame e presunto) são de pior qualidade no Brasil. Não sei se pior qualidade é a melhor maneira de descrever, mas a minha impressão, comparando um presunto que sai da embalagem sequinho com um que sai da embalagem todo oleoso e gosmento, é que o primeiro é mais saudável que o outro. Será que estou viajando?

Enfim, só sei que eu acostumei a usar bem menos óleo para cozinhar aqui.

Temperos prontos

Aqueles cubinhos ou potinhos de tempero pronto para carne, arroz, ou o que for, são super incomuns aqui. Eu usava sempre pra cozinhar no Brasil. No começo eu comprava aqui também (tinha que procurar meia hora no supermercado até achar os cubinhos escondidos num canto esquecido) e usava para cozinhar, mas aos poucos fui acostumando a cozinhar como meu marido e temperar as coisas com sal, pimenta do reino e cebola. Sei lá, talvez isso seja meio básico, e acho que várias pessoas lendo no Brasil logo dirão que também não usam tempero pronto nunca. Acho que quem gosta de cozinhar não usa mesmo. Mas eu usava e desaprendi aqui.

Pão

Pão é um assunto de extrema importância para um alemão. Alemães adoram pão. Na verdade, se você perguntar para qualquer alemão morando fora da Alemanha do que ele mais sente falta, pode ter certeza que a primeira resposta sem hesitação será “PÃO!”.

Aqui tem muitos tipos diferentes de pão, e eles comem no café da manhã sempre uma seleção variada desses. Esse post aqui explica melhor.

Pão branco é o menos querido entre a maioria dos alemães. Eu ainda não troco um pãozinho francês com crosta bem crocante por nada no mundo, mas os pães alternativos alemães – pretos, com sementes as mais diversas e todo tipo de coisas que você poderia imaginar colocar num pão antes de assá-lo – eu aprendi a gostar. Eu realmente não gostava no começo, só comia pão que não fosse branco se fosse realmente a única opção, e ainda fazia cara feia. Hoje gosto da variedade e como pães diferentes também. (Mas se a opção for entre um pãozinho francês e um outro pãozinho qualquer, vou inevitavelmente escolher o pãozinho francês que ainda não tem igual).

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Comidas diferentes em diferentes épocas do ano

Uma coisa interessante daqui é que, como as estações do ano são bem marcadas e bem diferente, as verduras, legumes e frutas disponíveis variam bastante entre as épocas do ano. Por exemplo, em Abril e Maio come-se muito aspargo. Em Outubro e Novembro, receitas com abóbora são muito comuns, assim como doces com ameixas. O verão, de Junho a Agosto, é época das frutas vermelhas, que aparecem em todos os bolos e doces. Essas variações são tão comuns que quando chega determinada época do ano as pessoas já começam a ficar com vontade de aspargos, ou de abóbora, ou do que for comum daquele período. E isso é uma coisa que morando aqui você logo acostuma e incorpora, até porque comprar framboesas em dezembro (por exemplo), até dá, mas pelo triplo do preço que custa no verão. E você só encontra em supermercados mais “gourmet” em embalagens com pequenas quantidades. Quando encontra.

 

Não sei, com essa lista ficou parecendo que os alemães comem muito melhor que a gente e são muito mais saudáveis. Isso em parte é verdade, mas só em parte. Eu não acho que a comida normal deles seja mais saudável, tipo o prato do almoço diário de um alemão médio. Um PF na Alemanha seria provavelmente: batata cozida, repolho cozido e alguma carne de porco, possivelmente um schnitzel (que é alguma carne à milanesa). Não acho isso mais saudável que arroz, feijão, bife e salada. Talvez igual? Não sei. Com certeza acho repolho e batata cozida bem menos gostoso que arroz, feijão e salada. De vez em quando até vai, mas como prato básico de comer todo dia? Yuk. Pra falar a verdade as comidas típicas alemãs – as bem normais – eu não tenho nem vontade de olhar. Saudades de um quilo, ou de um PF basicão.

À esquerda: Yuk! À direita: Yum! Tá, a foto da direita tá toscona, pq eu tirei rapidão com o celular, mas essa é a comida que proporcionou lágrimas de saudades.

Mas no que diz respeito a açúcar aí sim dá pra dizer que os costumes por aqui são mesmo mais saudáveis. A gente consome realmente muito açúcar no Brasil, e é vício. Quando você começa a reduzir o consumo, logo você vai perdendo a vontade de coisas muito doces. Mas dar esse primeiro passo de reduzir o consumo é muito difícil quando todo mundo em volta tá comendo um maravilhoso pudim de leite com uma coca-cola bem gelada. Então acho que acaba virando um vício coletivo.

E da última vez que estive no Brasil eu tive, mesmo, a impressão de que a comida industrializada era mesmo de pior qualidade.

Pra finalizar, acho que vale a pena comentar também que a adaptação em termos de comida varia muuuuito de imigrante pra imigrante. Se você cozinha muito em casa, e é só você em casa que cozinha, a adaptação é bem menor porque você continua cozinhando da mesma maneira de antes – você descobre onde encontrar os ingredientes mais raro, ou acha alguns substitutos suficientemente similares e pronto. Principalmente se as outras pessoas pra quem você cozinha têm os mesmos hábitos alimentares que o seu (por exemplo se você mudou com a família brasileira pra cá, em contraste com alguém que montou uma família binacional aqui). Se por outro lado você não cozinha nada mas come de tudo, aí inevitavelmente você se adapta à comida 100%.

Pra mim não foi nem um nem outro, mas um meio termo. Eu sempre fui bem fresca pra comer, tem um monte de coisa que eu não gosto, e normalmente quando eu encontro algo que gosto eu repito aquilo infinitamente. Em todos os restaurantes que eu vou regularmente (tem um italiano, um indiano, um tailandês e uma padaria) inevitavelmente assim que eu chego lá a pessoa que vem me atender já chega me dizendo meu próprio pedido. Que é sempre o mesmo. E eles já decoraram. Sério, a padaria do lado de casa (em que eu paro todo dia de manhã pra comprar dois pãozinhos com gotas de chocolate que é meu café da manhã dos dias de semana), assim que eu entro a pessoa que está atendendo já coloca dois Schokobrötchen na sacolinha de papel sem nem perguntar. E isso porque tem umas 5 pessoas diferentes que trabalham lá. Mas voltando: eu sou fresca pra comer mas não cozinho muito. Cozinho às vezes. Meu marido cozinha com mais freqüência, mas come de tudo. Então algumas coisas que eu não comia antes porque não estava acostumada e achava que não gostava, passei a comer. Mas várias outras coisas que seriam comuns se só meu marido cozinhasse e eu comesse qualquer coisa não aparecem nunca na nossa geladeira. Então fomos adaptando nossos costumes culinários um ao outro de maneira que as nossas comidas típicas em casa acabam sendo uma mistura de Brasil e Alemanha.


(Publicado em 30 de Novembro de 2017)

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