Mês: janeiro 2018

Tradições daqui, tradições de lá

Um efeito curioso de morar em outro país é adotar tradições que você até então não conhecia e passar a segui-las como se fossem suas.

Curiosamente é uma coisa que acontece mais com quem nunca deu muita atenção para tradições do seu próprio país. Quem sempre deu muito valor para as tradições de sua própria cultura têm mais dificuldade em esquecer algumas e adotar outras.

Não estou dizendo de maneira alguma que abrir mão de características da sua cultura e adotar as da cultura do novo país é o certo, de jeito nenhum. Não tenho dúvidas de que os imigrantes mais felizes são aqueles que encontram um bom meio-termo: adotam algumas das tradições locais enquanto mantém outras do país de origem.

No Brasil eu nunca dei muita atenção para tradições. Claro que tem várias que são tão generalizadas que só uma pessoa muito chata e do-contra se recusaria a seguir, como digamos comemorar o Natal e o Ano Novo. Outras são tão fortemente ligadas a algum significado específico que não seguir acaba sendo uma forma de protesto pessoal contra aquela norma social (por exemplo a mulher adotar o sobrenome do marido ao casar). Mas a maioria das tradições que não se encaixam nem no primeiro nem no segundo caso eu nunca dei muita atenção e sempre achei meio bobinho (como, digamos, usar branco no reveillon). Mas na verdade são essas que são as mais interessantes. Usar branco no reveillon é bobinho, mas justamente por ser tão difundida apesar de bobinha é que ela é uma tradição bonitinha. Esses dias mesmo eu comentei com as colegas do trabalho que no Brasil as pessoas usam branco pro ano novo – meio com vergonha, por ser uma coisa boba – e eles acharam super legal.

Então resolvi escrever um post sobre algumas tradições brasileiras que não existem na Alemanha e algumas tradições alemãs que não existem no Brasil.

Tradições do Brasil que não existem na Alemanha

Usar branco no ano novo
Ok, já comentei na introdução mas pronto: na Alemanha pode usar qualquer cor no ano novo. Aliás nem daria mto pra restringir porque é inverno então se você sair pra ver fogos você vai estar usando o seu um casaco de inverno.

Aliança de compromisso
Bom, isso no Brasil é mais pra adolescente namorando, acho… mas aqui muita gente não usa aliança nem depois que casa, quem dirá antes. E acho que se você sugerisse para sua namorada ou namorado alemão usar aliança de compromisso lhe seria tão estranho quanto definir que roupas ela/e pode ou não pode usar.

Furar a orelha de nenê menina
Melhor você nem comentar com os alemães que isso é comum no Brasil, eles vão achar o maior absurdo!

Dar flor (ou qualquer outra coisa) pras mulheres no dia da mulher
Uma tradição recente que pega mal com muita mulher, mas felizmente não existe por aqui. Dê flores no aniversário, isso é comum e apreciado.

Ovo de páscoa de chocolate
Ok, isso eu acho errado, mas eis que na Alemanha não tem ovo de páscoa de chocolate! “Ovo de páscoa” (Ostereier) aqui é um ovo normal com a casca pintada… ganha-se normalmente um coelho de chocolate, mas pequeno e insignificante perto dos nossos gigantes maravilhosos (e muito caros) ovos de chocolate.
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Dar presente de dia das mães/pais/namorados/crianças/etc…
Até existe dia das mães, dia dos namorados, e tal, mas ninguém troca presente. No máximo um buquê de flores pra mãe pq mãe é um caso a parte. Mas fora isso não conheço ninguém aqui para quem esses “dias dos…” tenha qualquer importância. No início do namoro com meu alemão eu fiquei meio chateada que ele não queria trocar presente de dia dos namorados, mas irc, ainda bem! Agora que desacostumei dessas coisas não tenho a menor vontade de trocar presente nesses dias bobos. Difícil é lembrar de ligar pros pais nos dias das mães e dos pais porque como ninguém fala disso aqui fica muito fácil esquecer!

Festa Junina
Não que eu fosse uma super entusiasta de arraiais, mas dá uma saudadinha de festa junina, às vezes! Eis uma tradição que só envolve coisa legal: comida, danças e músicas engraçadas, decorações e roupas propositalmente bregas, fogueira, balão, joguinhos divertidos. Maior saudade de festa junina! Na verdade a comunidade brasileira daqui organiza todo ano uma festa junina em Dresden, mas eu nunca fui. Esse ano vou sem falta.
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Soltar fogos de artifício no Natal
Causaria um enorme estranhamento para qualquer alemão passando Natal no Brasil, os fogos de artifício à meia noite. É uma coisa meio recente no Brasil, também, não tinha isso quando eu era criança, mas foi ficando mais comum.

Tradições da Alemanha que não existem no Brasil

Comemorar os adventos
Uma das minhas preferidas tradições alemãs: comemorar os 4 domingos de advento antes do Natal. Aqui um post só sobre isso pra quem não sabe do que eu estou falando. Claro, não é assim nooossa, que comemoração. Mas sei lá, arrumar a mesa do café da manhã com decorações natalinas e velas de advento: gosto.
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Nikolaus
Outra tradição supimpa também da época de Natal: Dia de São Nicolau (6 de Dezembro). As crianças têm que limpar suas botas e deixar na frente da porta de casa para o São Nicolau passar e deixar uns presentinhos (chocolates, basicamente).
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Nome de família
Como no Brasil, aqui é comum que a mulher adote o sobrenome do marido ao casar, e que os filhos recebam o sobrenome do pai. Essa tradição patriarcal eu já não gostava no Brasil, mas aqui é sinceramente bem pior. É muuuuito muuuuito raro os noivos manterem seus nomes de nascimento ao casar, muito mesmo. Quase sempre se adota um para ser o sobrenome da família, e lógico que 99% das vezes é o do homem. Além disso, a diferença do Brasil é que aqui existe isso de nome de família. Mesmo que você mantenha seu nome de nascimento ao casar, se o casal tiver filhos um dos sobrenomes vai ter que ser escolhido para ser o sobrenome de família. Todos os filhos terão que receber esse mesmo sobrenome. E aqui só pode ter um sobrenome, então também não tem isso de ter um sobrenome da mãe e um do pai, as crianças recebem realmente só o sobrenome do pai. E as mulheres que mudam de nome não adicionam o nome do marido mas trocam o sobrenome pro do marido, já que não dá pra ter dois. Uma outra alternativa é adicionar o nome do outro só que com hífen, por exemplo Fulana Oliveira-Silva. Silva sendo o do marido e Oliveira o de nascimento. Mas os filhos pegam só o sobrenome de família, o Silva. Não o hifenado. E mesmo essa alternativa é pouquííííssimo utilizada, a grande maioria esmagadora dos casais fica com um nome só que na grande maioria esmagadora das vezes é o do marido. Quando eu falava pras pessoas daqui que ia casar, quase todos perguntavam se eu ia mudar de nome e ficavam muuuuito surpresas quando eu dizia que ambos íamos manter nossos nomes de nascimento sem mudar nada. É uma coisa quase inconcebível para os alemães. Esse assunto me deixa com muita raiva. Eis aqui, aqui e aqui diversos posts que eu já escrevi sobre esse tema.

Cortar um tronco ao casar
Uma tradição bobinha que eu certamente não segui no meu casamento, mas que é bastante comum por aqui: Após casar-se o casal corta, juntos, um tronco de árvore com uma serra de dois “lados”. Assim:tron o

Pra simbolizar o vencimento de dificuldade a dois etcetc.

Árvore de Maio
Uma tradição fofa comum em algumas partes da Alemanha é a árvore de Maio. Na noite do dia 30 de Abril pro dia 1˚ de Maio, moços colocam na janela de suas amadas uma bétula decorada com fitas coloridas. Assim:

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Spring

Fizemos uma aquarela de uma árvore de Maio para o nosso convite de casamento! 🙂

Escrevi um post sobre as árvores de maio aqui. É uma tradição bem simpática!

Zuckertüte
E pra terminar, a melhor tradição alemã de todas! Os cones de doces que as crianças ganham quando entram na primeira série! No fim de semana antes do primeiro dia de aula do ano letivo, há uma cerimônia nas escolas para dar boas-vindas aos novos alunos: os que estão ingressando na primeira série. Nessa cerimônia bem importante, com os pais e até avós das crianças, cada criança ganha um cone enorme cheio de doces e presentinhos (como digamos lápis coloridos, réguas, algumas coisas relacionadas à escola e outras não).

Eis uma tradição que podia existir em todos os lugares!


(Publicado em 13 de Janeiro de 2018)

Desmontando o Natal

Dia 6 de Janeiro é uma data importante na comemoração natalina. Religiosamente é a data (conhecida como a 12a noite após o Natal) que os 3 reis magos chegaram para visitar Jesus e também o dia em que Jesus foi batizado.

Muito que bem. Por essas e outras o dia 6 tem certo significado na cultura ocidental e é comemorado em alguns países de diferentes maneiras. Aqui na Alemanha, por exemplo, é o dia em que os Sternsinger aparecem na sua porta. São três crianças vestidas de reis magos (eram pra ser três, mas às vezes são 4, 5, 6…) cantando musiquinhas em troca de uns trocados e doces. Leia o post linkado acima para saber mais sobre os Sternsinger.

Mas o dia 6 também é marcado por outra coisa importante: é o dia de desmontar as decorações de Natal. Quem andou lendo outros posts recentes do blog talvez tenha visto o post sobre árvores de Natal. Naquele post eu falei sobre as árvores de Natal serem árvores de verdade aqui, que as pessoas frequentemente escolhem e cortam elas mesmas num viveiro de árvores de Natal.

O que eu não falei nesse post – e é um pequeno detalhe que nem passou pela minha cabeça até ser confrontada com o problema – foi: o que fazer com a árvore de Natal depois do Natal? Tem que jogar fora, claro. Duas semanas depois do natal as árvores já estão secando e perdendo as agulhas (as folhinhas). Mas onde jogar fora a árvore de Natal?

Não é uma questão tão simples quanto possa parecer. São 30 milhões de árvores de Natal descartadas no início de cada ano na Alemanha! (30 milhões dá 1 árvore pra cada 2.7 habitantes do país!) Várias dessas grandes demais para o lixo orgânico doméstico.

Há algumas opções de como descartar a sua árvore de Natal:

Você pode cortá-la em vários pedaços para colocar no lixo orgânico da sua casa, mas dá um certo trabalho, principalmente se sua árvore for maior. Algumas cidades recolhem árvores de Natal até certo tamanho (normalmente as pequenas) se você deixá-la ao lado do lixo orgânico nos dias de coleta do mesmo. E na maioria das cidades tem pontos de coleta espalhados pela cidade, para onde você pode levar sua árvore até certa data (normalmente no meio de Janeiro).

Esses pontos de coleta podem ser caçambas, containers, ou simplesmente uma área livre (por exemplo algum canto de algum parque) com uma plaquinha de ponto de coleta. Claro que tem um mapa com todos os pontos no site da prefeitura para você encontrar aquele mais próximo da sua casa. Esse é o mapa de Dresden com os pontos de coleta de árvore de Natal desse ano:

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São vários. Ontem levamos a nossa árvore de Natal para o ponto mais próximo de casa, menos de 200m de distância. Carregar não é um grande problema – as árvores são bem leves, ainda mais quando já estão secas. Mas o problema é que secas basta qualquer balançadinha pra já forrar o chão com as agulhas. Então você tem que enrolar a árvore em algum lençol para não ir deixando um rastro de folhinhas pelo caminho.

Muita gente já se desfaz da árvore logo depois do Natal, mas a maioria das árvores é jogada fora no dia 6 ou no fim de semana mais próximo. Então ontem a pilha de árvores no ponto de coleta estava bem notável:

Uma outra alternativa para se desfazer da sua árvore é fazer uma fogueira numa noite fria. Esse tipo de árvore queima bem e ainda solta um cheiro agradável ao queimar, então acaba sendo um eventinho – se você tem um quintal grande e uma “tijela de fogueira”. Sei lá se tem um nome pra isso em português, mas é tipo uma grande tijela de metal para fazer fogueira no quintal, assim:

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Mas e o que a prefeitura faz com as árvores de Natal recolhidas? Bom, tem algumas opções. Grande parte vai pra compostagem junto com outros lixos orgânicos e vira adubo. Outra parte é queimada e usada para gerar bioenergia.

Mas uma alternativa interessante e inusitada é: algumas árvores viram comida de elefante! Eis que pinheiros de Natal são uma iguaria fina e super gourmet para elefantes. Então depois do Natal os elefantes dos zoológicos pelo país têm seu próprio banquete com árvore de natal no cardápio! Mas as árvores que viram comida de elefante são as que não foram compradas e são descartadas diretamente pelo fornecedor. As que a prefeitura coleta das casas das pessoas vêm muitas vezes com resto de parafina de vela ou com algum lixo qualquer dos enfeites que estavam na árvore, e que obviamente não são muito deliciosos para os elefantes.

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“Nossa, que delícia!” SEAN GALLUP/GETTY IMAGES

E assim termina o Natal!


(Publicado em 8 de Janeiro de 2018)