Mês: agosto 2018

O (ou a falta de) senso de humor alemão

Sempre que algum colega faz aniversário, no escritório, o chefe dá de presente um buquê de flores para o aniversariante. Já comentei em outro post que, aqui, os aniversários redondos (20, 30, 40, 50…) são especialmente importantes. Hoje foi o aniversário de 40 anos de um colega meu, e por isso o buquê de flores dele foi particularmente especial: veio com diferentes tipos de massa como enfeite! Massa, macarrão, mesmo. Curioso. Eu queria tirar uma foto mas acabei esquecendo. Eram basicamente diferentes tipos de macarrão, embalados num plástico transparente (pq a idéia, é, de fato, fazer o macarrão eventualmente) de tal maneira que pareciam, no buquê, flores curiosas.

Todos acharam bem inusitado. Ele foi logo colocar o buquê num vaso com água, para não secar, e eu não resisti fazer uma piadinha: “Só não deixe na água muito tempo se não fica mole demais!”. Estava me referindo ao macarrão lógico. Ele não entendeu. Tive que explicar.

Há duas semanas atrás fui a Paris encontrar uma amiga que estava viajando lá. Ela estava com um grupo de outros brasileiros. Fizemos um picnic. Compramos, no supermercado, muitos queijos. O supermercado tinha um funcionário que era especificamente um recomendador de queijos. Brincamos que ele era “queijoliê”. Durante o picnic, combinamos que não era para conversar sobre trabalho. O assunto ficou voltando repetidamente como piada, cada vez que alguém comentava qualquer coisa que poderia ser minimamente relacionada à profissão de alguém presente, a pessoa em questão logo comentava que não podia responder porque não era pra falar de trabalho. Ao conversarmos sobre os vários queijos que estávamos comendo, eu comentei “Ainda bem que nenhum de nós é queijoliê”. Foi uma piadinha bobinha puxando os assuntos daquele dia – o queijoliê e o não falar sobre trabalho. Todos riram, felizes. Eu percebi que era a primeira vez que todos riam, felizes, de alguma piadinha boba que eu fiz EM ANOS. (É possível que o vinho tenha ajudado)

Mas esse comentários bobos fazendo referência a outras partes da conversa é algo que nunca teria gerado risos num grupo de alemães. O senso de humor alemão (ou a falta dele) é uma característica conhecida e frequentemente apontada em piadas e comentários a respeito da cultura alemã. É verdade que o humor alemão é diferente do que a gente conhece.

Uma diferença grande está muito á língua alemã. Em comparação ao português, a língua alemã tem bem menos variações na entonação. A gente sempre ouve (de vários estrangeiros, não só alemães) que o português brasileiro é uma língua muito “cantada”. Em português é fácil, alterando só a entonação das palavras, denotar maior informalidade, maior formalidade, carinho, sarcasmo, impaciência, e vários outros significados subentendidos. Você pode falar uma frase cujo significado é quase exatamente o oposto do que as palavras usadas indicam, e só pela entonação deixar o significado real claro. Digamos, um exemplo bem simples: “Nossa, você canta bem, né?”. Dá pra falar essa frase com uma entonação honesta e uma sarcástica. Ou então meio sem entonação, pra demontrar que você não está nem um pouco interessado nas habilidades de canto da pessoa em questão, um significado de indiferença. Outras pequenas indicações físicas reforçam um significado ou outro. Se você fala isso olhando diretamente pra pessoa, é ou a frase honesta ou a sarcástica. Olhando pra outro lado é a frase indiferente. Expressões faciais também colaboram. E assim vai. Na nossa cultura e na nossa língua, o significado de uma frase vai muito além do significado real das palavras usadas, dependendo de todo um conjunto de expressões faciais, comportamento, entonação e contexto pra ser entendido.

Não é que em alemão não tenha isso também. Tem. Só que esses outros fatores são bem menos importantes pra compreensão do significado. Eles contribuem, mas o principal mesmo são as palavras usadas. Muitos alemães entre brasileiros se confundem na comunicação achando que coisas que foram ditas tinham significado literal, quando não tinham. Um caso típico é você comentar com um alemão “ah, então passa lá em casa qualquer hora” e aí ele te liga no fim de semana perguntando se pode ir na sua casa às 16h.

São várias as vezes que eu faço comentários sarcásticos, deixando bem claro pelo meu tom de voz que é sarcasmo, e vejo que os interlocutores alemães estão me olhando com cara de quem não sabe se eu tô falando sério ou não. Em situações em que seria bem óbvio, num grupo de brasileiros, que eu não estava falando sério.

Além disso, uma outra característica da língua que dificulta certas piadas, é que ela é muito precisa e dá menos margem para ambigüidades em comparação com outras línguas. E eu suspeito que seja isso responsável por impossibilitar o senso de humor como o que a gente conhece, que é uma aparente incapacidade de relacionar comentários com temas anteriores da conversa. Como o caso do queijoliê. Ou o macarrão nas flores. Porque colocar as flores na água mto tempo faria elas ficarem moles? Pq não era óbvio que eu estava fazendo uma piadinha me referindo ao macarrão? Suponho que seja essa ausência de ambigüidade da língua alemã é que faça com que eles sejam menos “treinados” pra identificar outros tipos de ambigüidade. Será? Não sei. Só sei que são vááários os exemplos de piadinhas desse tipo que eu faço e me vejo tendo que explicar pra pessoa o que eu quis dizer.

Quando eu estava pra casar, ano passado, o tema casamento era um assunto recorrente nas conversas de almoço entre as colegas do trabalho. Numa ocasião estávamos falando do meu vestido, que eu tinha escolhido que seria vermelho, e não branco. Eu tinha acabado de buscar o vestido, pronto, da costureira, daí o assunto. Poucos minutos depois, o assunto mudou para a apresentação do coral de uma colega. O nome do coral tem qualquer coisa a ver com frutas vermelhas, e por isso as meninas (é um coral feminino) tinham que todas ir com roupas vermelhas, rosas ou roxas para a aprensentação, e minha colega estava comentando que não tinha nenhuma roupa vermelha, rosa ou roxa (ela usa mais roupas de cores azuladas). Eu comentei, brincando “Bom, eu tenho um vestido vermelho novinho se você quiser emprestado…” me referindo, é claro, ao meu vestido de casamento, que eu tinha acabado de buscar, que era vermelho, e sobre o qual tínhamos conversado poucos minutos depois. Ela não entendeu. Eu tive que explicar.

Também numa conversa de almoço do trabalho, estávamos conversando sobre o fato de que a máquina de café estava na assistência técnica. A máquina de café do escritório faz cafés maravilhosos, eu (e outros colegas também) estava bem transtornada com a ausência da máquina de café. Minha colega comentou que a outra colega que tinha levado a máquina pra assistência técnica, a Ana, disse que provavelmente ficaria pronta e voltaria no dia seguinte. Algumas frases depois, comentando sobre alguma outra coisa da tal Ana, a mesma colega com quem eu estava conversando sobre a máquina de café falou que a Ana parecia estar com um início de gripe e se pá ia acabar tendo que ficar o resto da semana em casa. Eu comentei, com um tom dramático exagerado “Ó Não!! A Ana não pode ficar em casa o resto da semana!!!” me referindo, na verdade, ao fato de que se a Ana não viesse ela também não traria de volta a máquina de café. Quer dizer, a gente tinha conversado sobre a máquina de café SEGUNDOS antes, sério. Nope, não rolou uma compreensão direta, tive que explicar que eu estava brincando que não era a Ana que faria falta, mas a máquina de café.

As piadas dos alemães são como a comunicação alemã: diretas, sem sutilezas, sem risco de serem mal compreendidas.

E pra pessoas de outras culturas – especialmente pra nós, que fazemos graça de tudo, que floodamos a internet com memes de qualquer situação segundos depois dela ter ocorrido – pode bem parecer que os alemães não têm senso de humor. Mas talvez o pior resultado disso seja que se você estava acostumado a fazer as pessoas rirem com o que você fala no Brasil, aqui você perca essa habilidade…


(Publicado em 28 de Agosto de 2018)

Hino Nacional Alemão

Durante a Copa, uma coisa que não saía da minha cabeça era o hino nacional. Adoro o hino nacional, acho ele bonito na melodia, na letra, sempre emociona ouvir.

Estando na Alemanha durante importantes eventos esportivos mundiais outra coisa que fica na sua cabeça, claro, é o hino da Alemanha. Bom, esse ano nem tanto já que só o ouvimos três vezes, néam. Mas embora a melodia do hino alemão já me seja muito bem conhecida, uma coisa que eu não aprendi ainda é a letra.

Isso porque aqui pega um pouco mal sair cantando o hino alemão. No estádio (a maioria) dos jogadores e alguns torcedores cantam, mas se vc for assistir o jogo em algum biergarten ou bar, vai logo ver que poucas pessoas cantarão o hino. Por causa do passado nazista ultra-nacionalista, os símbolos nacionalistas como hino e bandeira acabaram ficando com uma conotação ruim. Por aqui se você vir alguém com bandeira da Alemanha na janela – fora da época de copa do mundo ou eurocopa – certeza que não é uma pessoa bacaninha. Grandes chances de ser um neonazi.

Assim sendo, a maioria das pessoas prefere não cantar o hino e você vai logo perceber, num Biergarten ou bar assistindo a um jogo, o tipo de pessoa que canta o hino junto: normalmente um grupo de homens mal-encarados com a maior cara de briguentos.

E por esse motivo eu não ouvi a letra do hino alemão suficientes vezes para aprender por osmose. Só se for uma coisa ativa, mesmo. Já pedi pro meu marido me ensinar, ele se recusou. Outro dia eu estava com o hino alemão na cabeça e comecei a distraidamente cantarolar baixinho a melodia e ele me deu bronca, rsrsrs. Por sorte o hino brasileiro não tem para nós essa mesma conotação ultra-nacionalista (exceto quando tocado em manifestações bizarronas pedindo intervenção militar), então eu tentei ensinar a letra do hino nacional pro meu marido. Até agora ele já aprendeu: “Ouviram das piranhas às margens plácidas, de um povo herói o tambor brilhante.” Como vocês podem ver, lhe falta algum vocabulário, mas tá indo.

Mas voltando ao hino alemão. Essa introdução toda era só pra explicar pq eu resolvi escrever um post sobre o hino nacional alemão e tal. Só não saia cantando por aí quando estiver na Alemanha, pega mal.

A melodia do Hino Alemão foi composto pelo famoso compositor Joseph Haydn, e a letra foi escrita por August Heinrich Hoffmann von Fallersleben em 1841, e chamada Deutschlandslied (canção da Alemanha).

Fallersleben e Haydn são esses dois ilustres senhores, aqui, nesta ordem.

Talvez você já tenha ouvido falar que a letra original continha 3 estrofes, das quais atualmente apenas a terceira foi mantida e constitui a letra oficial do hino alemão. As duas primeiras estrofes já não são mais cantadas desde o fim da guerra, e desde 1990 passou a ser oficial que apenas a terceira estrofe da Deutschlandslied constitui o hino nacional alemão.

O motivo pelo qual as duas primeiras estrofes foram descartadas é que elas não correspondem mais à sociedade alemã atual. Em primeiro lugar, a primeira estrofe conhecidamente começa com as frases “Alemanha, Alemanha sobre tudo”, o que não cai bem cantar depois da história toda do nazismo e talz. Em seguida, a letra menciona referências geográficas que não estão mais na Alemanha. A letra diz:

“Von der Maas bis an die Memel,
Von der Etsch bis an den Belt,”

Do Maas ao Memel, do Etsch ao Belt. Esses são rios que antes da guerra marcavam os pontos do Leste, Oeste, Norte e Sul do mapa alemão de então. Hoje, porém, o Memel está pra lá da Polônia (na pontinha do que antes foi a Prússia), o Etsch está na Áustria, o Belt na Dinamarca, o Maas na França. Mesmo na época em que o hino foi composto usar esses rios como limites da Alemanha já era meio duvidoso, já que apenas dois estavam de fato dentro das fronteiras alemãs. Os outros dois fizeram parte do mapa alemão em diferentes momentos depois da composição da música, mas atualmente nenhum dos rios toca em nenhum momento o solo alemão. Não faz nenhum sentido cantar isso no hino, portanto.

Finalmente, a segunda estrofe também foi abandonada por ser bizarramente machista, basicamente colocando mulheres alemãs no mesmo nível de bens culturais da alemanha que a música e o vinho alemães… nada a ver e com certeza não condiz com a sociedade alemã contemporânea, que é bem mais igualitária.

Assim sendo, restou apenas uma estrofe como sendo o hino nacional oficial. É ela:

“Einigkeit und Recht und Freiheit
Für das deutsche Vaterland!
Danach lasst uns alle streben
Brüderlich mit Herz und Hand!
Einigkeit und Recht und Freiheit
Sind des Glückes Unterpfand;
Blüh’ im Glanze dieses Glückes,
Blühe, deutsches Vaterland!”

União, justiça e liberdade
para a pátria alemã!
Por esses ideais lutemos,
fraternalmente com o coração e as mãos!
União, justiça e liberdade,
São o fundamento para a felicidade
Floresça no irradiar desta felicidade,
Floresça, pátria Alemã.

Meio bobinho, mas simpático, e bem melhor que as coisas bizarras das duas estrofes descartadas. Mas ainda sou mais a resplandecente imagem do cruzeiro no impávido colosso, o verde louro da flâmula, os bosques com mais vidas e os risonhos e lindos campos com mais flores…


(Publicado em 06 de Agosto de 2018)

Ciclovias de longa distância

Há duas semanas atrás fizemos uma atividade nova para a gente (ou melhor, pra mim), mas bem comum entre os alemães: Um tour de longa distância de bicicleta! Pedalamos 60km, de um local na Böhmische Schweiz (o lado tcheco da Sächsische Schweiz) até em casa, em Dresden. A pedalada demorou 5 horas (contando três paradas de aproximadamente 20 min) e foi uma das coisas mais legais que eu já fiz por aqui: o caminho ao longo do vale do rio Elba é super cênico e o sentimento de missão cumprida ao chegar em casa depois de 60km na bike é ótimo.

O mais legal é que pela Alemanha há diversas ciclovias de longa distância, de maneira que se você for dessas pessoas ativas que gosta de pedalar por horas a fio, não vai precisar se arriscar pedalando do lado de carros há 120km/h. (Fora que nenhuma auto-estrada é assim nossa, que lugar bonito!)

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A ciclovia em que pedalamos, que cruza a Sächsische Schweiz, chama-se Elberadweg. Como diz o nome, é uma ciclova ao longo do rio Elba, mas o mais impressionante: ao longo de TODA a sua extensão!! Um total de 1260km de ciclovia, muitas vezes dupla (duas ciclovias, uma em cada margem do rio), começando na nascente do rio Elba, na República Tcheca, passando por Praga, pelas paisagens maravilhosas da Sächsische Schweiz, por Dresden, Meißen, Dessau, Magdeburg, Hamburgo e terminando na foz do Elba no Mar do Norte, quase na Dinamarca! Perto desse total, nosso tour de míseros 60km ficou até sem graça!

mapa Elberadweg

Mas ter uma ciclovia dessas na porta de casa é realmente um privilégio pra quem gosta de pedalar. Mesmo percorrendo um pequeno trecho você já vai cruzar pequenos e bucólicos vilarejos, campos, florestas, passar por castelos, maravilhosas montanhas (vistas do vale do rio, claro) e grandes cidades. É um caminho extremamente cênico.

E bastante conveniente é ser uma ciclovia ao longo de um rio, o que significa que ela é relativamente plana a maior parte do percurso. Principalmente se você escolhe descer o rio (ou seja, em direção a Hamburgo), não haverá longas e difíceis subidas.

E porque na Alemanha não poderia ser diferente, é claro que tem um site do Elberadweg com mil informações super detalhadas do percurso todo incluindo mapa interativo, pontos de interesse ao longo do percurso como biker-friendly hotéis, pensões, restaurantes e cafés, além de pontos turísticos, etcetcetc. Dá pra planejar todo o seu passeio, tirar um mês de férias e percorrer a ciclovia completa, parando nos diversos pontos interessantes pelo caminho!

Para terminar, ficam algumas fotos da região do nosso passeio!


Leia também os outros posts com o tema bikes!

Pedalando na Alemanha 1 – Onde e para quem
Pedalando na Alemanha 2 – Quando pedalar e onde estacionar
Pedalando na Alemanha 3 – Com chuva e carga
Bikes para alugar
Bicicletas e polícia


(Publicado em 04 de Agosto de 2018)

Trümmerfrauen – As mulheres que reconstruíram a Alemanha

Recentemente eu precisei para um projeto procurar algumas fotos antigas de uma rua aqui de Dresden. A dica de uma colega foi dar uma olhada no catálogo da Deutsche Fotothek – o departamento de fotografias históricas da Biblioteca Estadual da Saxônia, a SLUB (Sächsische Landesbibliothek – Staats- und Universitätsbibliothek), onde eu então me perdi por horas a fio. A Fotothek disponibiliza online as fotos do seu catálogo, um imenso banco de fotografias antigas – a maioria aqui da região, mas outras de outros locais também. Dá pra ficar horas lá assistindo a história de Dresden se desenrolar desde o advento da fotografia até anos recentes. Claro que as fotos mais impressionantes são as da época da guerra e especialmente do pós-guerra. Como expliquei no post sobre Dresden, a cidade foi destruída quase por completo em 13 de Fevereiro de 1945, um dos últimos bombardeios de grande escala da segunda guerra. Mais impressionante que as fotos da cidade destruída (que já são tão famosas e amplamente divulgadas) são porém as fotos dos anos seguintes, quando os sobreviventes limparam os destroços e reconstruiram partes da cidade.

A história da Enttrümmerung (remoção de destroços) e Wiederaufbau (reconstrução) de Dresden (e outras cidades alemãs) é particularmente interessante porque esse foi um trabalho realizado majoritariamente por mulheres. Os homens sobreviventes, que não eram muito velhos ou doentes para serem soldados, permaneceram algum tempo detidos pelas forças aliadas após o final da guerra.

Desta história criou-se o termo “Trümmerfrauen“, literalmente traduzido para “mulheres dos destroços”, para se referir ás mulheres sobreviventes que juntas removeram os destroços de suas cidades destruídas e reconstruíram as mesmas.

Em Dresden há inclusive um monumento à Trümmerfrau (Trümmerfrau – singular, Trümmerfrauen – plural), uma escultura bem na frente do edifício da prefeitura.

A iniciativa de recordar e comemorar o esforço dessas mulheres é bem digna. Foi um trabalho que não apenas exigiu muito esforço físico e muitas horas de trabalho árduo ao longo de vários meses, mas especialmente que necessitou uma tremenda resiliência e e força de vontade de ver sua cidade completamente destruída e ainda assim encontrar energia mental para se levantar todos os dias e ir empilhar tijolos.

Infelizmente essa memória é muitas vezes resignificada por grupos neo-nazis ou ultra-nacionalistas que usam esse e outros monumentos que glorificam os esforços de reconstrução do país como motivo para enaltecer e exaltar os alemães etcetc, convenientemente esquecendo de mencionar que a cidade precisou ser reconstruída porque foi destruída pela guerra que os maridos daquelas mulheres inventaram de começar, e que a sociedade como um todo leva a culpa pelas atrocidades cometidas durante a guerra, tenha sido por participação ativa ou passiva. Vítimas da guerra eram os sobreviventes de certa maneira, mas ainda sempre culpados pela mesma, e pelo assassinato em massa de judeus e outros grupos. Se não pela direta participação então pela silenciosa aquiescência aos horrores do holocausto.

Mas mesmo mantendo em vista o contexto, ainda é possível admirar os esforços da reconstrução, então voltando às fotos. Li as regras e consultei a Fotothek a respeito do uso das fotos da Fotothek e por sorte é permitido publicar as imagens na resolução disponibilizada gratuitamente online desde que seja para uso pessoal – no caso de websites, contam como uso pessoal aqueles que não visam lucro, não têm propagandas, etc.  E lá na Fotothek há inúmeras fotos desses trabalhos de remoção dos destroços e reconstrução e é um tanto engraçado ver que as mulheres que nas fotos aparecem são mesmo iguaizinhas à escultura! Nos tempos de austeridade pós guerra não era muita a variedade de vestimentas, de maneira que todas estão exatamente como a mulher símbolo esculpida: um avental para proteger as poucas roupas que sobraram, um pano na cabeça para segurar o cabelo e proteger a cabeça do sol, e uma machete, pá ou outra ferramenta similar na mão.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Rössing, Roger & Rössing, Renate. 1953.  http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88897352

(Clicando na foto você verá a página da mesmoa na Deutsche Fotothek, com todas as informações sobre a foto e link para download. Antes de sair compartilhando por aí, leia as regras de uso! Compartilhar em redes sociais, por exemplo, não é permitido.)

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham em montanha de destroços na frente da fábrica de cigarros Yenidze.

O que mais me impressiona nessas fotos é ver as mulheres rindo e sorrindo, como se cantassem e conversassem enquanto reorganizam sua cidade em ruínas. Me emociona ver a resiliência do ser humano simbolizada nessas imagens. Certamente todas as mulheres dessas fotos perderam um ou vários familiares na guerra, muitas certamente perderam suas casas e todos os seus pertences. Mas lá estão elas trabalhando juntas na reconstrução, ainda capazes de sorrir!

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301521

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SLUB/Deutsche Fotothek,  Höhne, Erich & Pohl, Erich. 1946. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/70600276

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301520

As pedras e tijolos retirados dos destroços que podiam ser reutilizados para a reconstrução eram meticulosamente organizados, empilhados e marcados.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, GERMIN. 1948. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71555864

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1954. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/90041153

Mas também é importante notar que a história das Trümmerfrauen é a partir de certo ponto um tanto exagerada. Se você procurar Trümmerfrauen no google, vai encontrar diversos artigos explicando que a idéia de que todas as mulheres sobreviventes se uniram para reconstruir suas cidades é um mito. Como explicam alguns pesquisadores e historiadores, embora a maioria dos trabalhadores no esforço de remoção de destroços e limpezas fossem de fato mulheres (e isso se vê com clareza nas fotos históricas), foi na verdade uma porcentagem pequena das mulheres sobreviventes que se dedicou a esse trabalho. A maioria da população ainda via esse tipo de trabalho manual e físico como algo indigno. Principalmente na Alemanha Ocidental a imagem da Trümmerfrau é uma distorção da verdade – uma vez que nas regiões do país então controladas pelos Estados Unidos, França e Inglaterra a imagem tradicional do papel das mulheres na sociedade tornava a realização de trabalho manual por mulheres ainda mais indesejado pela sociedade. Foi mais na Alemanha Oriental, então controlada pela União Soviética, em que as mulheres trabalhando na reconstrução das cidades eram em número mais significativo, pois fazia parte dos ideais soviéticos representar as mulheres também como trabalhadoras. Muitas faziam aquele trabalho não por ideais bonitos de esforços generalizados para a reconstrução do país, mas porque era o único trabalho disponível, ainda que pagasse quase nada.

Toda história tem muitos lados e um contexto muito mais complexo que o que pode ser mostrado em uma dúzia de fotos, é claro. Mas independente disso, não deixa de ser admirável o papel importante que as mulheres tiveram na recuperação do país no pós-guerra, e especialmente o quanto isso mostra a resiliência humana. No fundo é essa a principal mensagem passada pelo monumento à Trümmerfrau: a de sobrevivência.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham retirando destroços na frente das ruínas do edifício da prefeitura de Dresden, onde hoje localiza-se o monumento à Trümmerfrau.

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Alguns artigos sobre o assunto, onde pesquisei o tema para escrever esse post:

http://www.spiegel.de/spiegelgeschichte/mythos-truemmerfrauen-nachkriegs-elend-in-deutschland-a-1190734.html

https://www.dw.com/en/dismantling-the-german-myth-of-trümmerfrauen/a-18083725

https://www.welt.de/geschichte/article174070519/Was-die-echten-Truemmerfrauen-geleistet-haben.html

O site da Deutsche Fotothek:

http://www.deutschefotothek.de


(Publicado em 03 de Agosto de 2018)