Mês: maio 2019

Eleições na Alemanha

No domingo ocorreram aqui as eleições para o parlamento europeu.

Eu já escrevi alguns posts diversos sobre eleições por aqui, mas sempre é um assunto bom já que as coisas mudam e tem tantas complexidades que sempre tem tópicos relacionados a serem discutidos. E essa foi a primeira vez que eu votei aqui sendo alemã.

E aqui em Dresden, no domingo foram eleições não só do parlamento europeu, mas também da (equivalente à) câmara municipal, e do conselho distrital, que é uma coisa nova aqui em Dresden. Então achei que valia a pena fazer um post com o overview de tudo o que se vota por aqui.

MAS acontece que é diferente em cada cidade e estado. Depende de como cada estado ou cidade organiza as suas subdivisões, e mesmo o tempo de cargo difere de um estado ou cidade para outro/a. Então esse post é especificamente sobre o que se vota se você é um cidadão alemão residente em Dresden. Algumas dessas eleições você vota no resto da Alemanha também, e outras podem ser um pouco diferentes se você mora em outro lugar da Alemanha.

Aqui são 6 eleições diferentes.

Uma observação antes de começar o falatório: após terminar esse post eu percebi que algumas partes dele são bem detalhadas e podem ser complicadas se você não se interessa pelos pormenores de como funciona a eleição. Esses trechos eu deixei em azul escuro, aí qualquer coisa se você achar que tá chato, pula pro próximo parágrafo em preto e pronto! 😉

Primeiro, algumas informações gerais do funcionamento da votação:

Como no Brasil, as eleições aqui acontecem sempre aos domingos. Os locais de votação ficam abertos das 8:00 às 18:00. Não é obrigatório votar, só vota quem quiser. A votação ocorre em cédulas de papel, que são normalmente uns negócios gigantescos. Por exemplo, a das eleições do parlamento europeu era assim:

stimmzettel_parteien_europawahl_2019

A largura é de um A4.

E o negócio todo funciona da seguinte maneira: Você não precisa se inscrever em lugar nenhum, escolher lugar de votação, nada disso. Você está automaticamente inscrito como eleitor na cidade em que tiver sua residência registrada. O local de votação também é definido automaticamente, o mais próximo possível do seu endereço.

Uns dois meses antes das eleições, você recebe uma carta da prefeitura da sua cidade te avisando das eleições que vão ocorrer. A carta tem essa cara aqui:

Aparecem as informações sobre o que você vai votar, quando é a votação, o endereço do seu local de votação, a seção eleitoral, e o seu número nela. No verso, vem um formulário que você preenche e envia de volta caso queira votar por correio. Como eu já expliquei num post só sobre isso, aqui na Alemanha é possível enviar o seu voto por correio, caso você não vá estar na sua cidade no dia da eleição. Aliás, o motivo não importa, você pode votar por correio mesmo que vá estar em casa no dia, só pq você tem preguiça de levantar do sofá num domingo.

Mas se você quiser votar normal lá no dia, ao receber essa carta você não precisa fazer nada além de guardá-la cuidadosamente e esperar o dia das eleições.

Quando chegar o dia, é dessa carta que você precisa pra ir lá votar. Como no Brasil, a votação ocorre em escolas. Você vai lá no endereço da sua carta, acha a sala da sua seção eleitoral e espera a sua vez. Normalmente é bem tranquilo, mas dessa vez esperamos 1 hora na fila! Não sei pq estava demorando tanto no domingo, mas a taxa de participação dessa vez foi um tanto mais alta que nos últimos anos, talvez por isso.

Chegando a sua vez, você passa numa primeira mesa onde eles olham a sua carta, fazem um xizinho no seu nome numa lista e te dão as cédulas. Importante uma observação: você não necessariamente pode votar em todas as eleições que estão ocorrendo ao mesmo tempo. Por exemplo: se se está votando para o parlamento europeu e para o parlamento estadual do estado em que você mora, e você for um cidadão europeu mas não alemão, você vai poder votar apenas no parlamento europeu. Na sua carta aparece isso, e também nessa lista na primeira mesa, em qual caso você receberia apenas uma das cédulas em questão, a para o parlamento europeu.

Então você pega as suas cédulas e espera uma das cabines de votação ficar livre. Você senta lá, abre suas cédulas, vota direitinho com um x no local desejado, fecha sua cédula, e vai para a segunda mesa, onde você entrega sua carta, eles conferem de novo e ficam com a mesma, e abrem a urna pra você depositar sua cédula. Uma urna pra cada cédula (quando é mais de uma, elas são codificadas por cor, pra não confundir).

Nem sempre é só um xizinho a ser feito, às vezes são mais. Depende de como funciona cada eleição: às vezes você vota prum partido, às vezes você vota diretamente em alguém, mas pode votar em até 3 pessoas, as vezes você vota prum partido e pruma pessoa separadamente… tem várias variações que eu vou explicar direitinho logo menos.

Na carta diz também que você tem que levar seu documento de identidade, mas acho que eles só olham se algo estiver estranho com a sua carta, sei lá. Normalmente nem precisa mostrar.

Então vamos falar das eleições diferentes uma a uma.

Vou ordenar de cima pra baixo, ou seja, das mais gerais para as mais locais. Pra cada uma vou colocar, como primeira informação, a duração do cargo, a data da eleição mais recente (ou da próxima, se for mais perto que a mais recente) e quantos votos/para o quê.

1 – Europawahlen – Eleições para o Parlamento Europeu
A cada 5 anos | 2019 | 1 voto, para um partido

O parlamento europeu fica em Strasburgo, na França, e é constituido por 751 assentos, distribuídos por país proporcionalmente à população do mesmo. A Alemanha, sendo o país mais populoso da UE, tem direito a 96 assentos, seguido em quantidade da França (74), Reino Unido (73), Itália (73) e Espanha (52). Os países com a menor representação são Malta (6), Luxemburgo (6), Chipre (6), Estônia (6) e Letônia (8). A proporção de assentos por população não é linear. Os países com populações maiores tem menos representantes por pessoa do que países com populações menores. Pegando os dois extremos pra comparar: A Alemanha (com 82 mi de habitantes) tem 1 representante pra cada 838.799 pessoas. Malta (com 400 e pouco mil habitantes) tem 1 representante pra cada 70.227 pessoas. Esse ajuste é necessário porque se fosse uma proporção linear, seriam 200 parlamentares alemães pra um parlamentar maltês. 

Nas eleições vota-se para um partido, de uma lista de partidos registrados no seu país (ou no país que você reside, se você for um cidadão europeu morando em outro país europeu que não o seu de origem). Então cada país tem partidos diferentes, e os assentos no parlamento são ocupados proporcionalmente de acordo com a proporção de votos em cada país para cada partido. Ou seja, no parlamento europeu há dezeeenas e dezenas de partidos diferentes. Eles criam grupos e alianças de acordo com afinidades políticas, e claro, há sempre partidos equivalentes nos diferentes países. Todo país tem um partido de centra-direita, um de centro-esquerda, um partido verde, um partido liberal, etcetc. E esses se juntam no parlamento europeu.

Também interessante é falar sobre a porcentagem de participação na eleição. Aqui na Alemanha (e na maioria dos países europeus), o voto é facultativo, então a porcentagem de eleitores que participam em cada eleição é sempre um interessante tema para discussão e observação. Esse ano, a participação aumentou bastante tanto aqui na Alemanha quanto em outros países europeus. 50,94% dos eleitores europeus compareceram às urnas, em comparação com 40,62% nas últimas eleições (2014). Na Alemanha, a porcentagem esse ano foi de 61% (em comparação com 48,10% em 2014). Os países com a maior taxa de participação nas eleições européias em 2019 foram: Bélgica (88%), Luxemburgo (84%), Malta (73%), Dinamarca (66%), Espanha (64%) e Alemanha (61%). (Mas vale aqui a observação de que na Bélgica e em Luxemburgo a votação é obrigatória, daí a alta taxa de participação.) Os países da Europa Oriental costumam apresentar taxas bem baixas de participação das eleições do parlamento europeu. Esse ano, os países com a menor taxa de participação foram: Eslováquia (23%), Eslovênia (28%), República Tcheca (29%), Croácia (30%) e Bulgária (31%).

Sobre os resultados das eleições de 2019, no geral viu-se pela Europa tendências similares: os partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda perderam eleitores, e quem saiu ganhando foram os partidos verdes e partidos populistas de direita. Na Alemanha, o partido verde foi o partido mais votado, indicando que a preocupação com o meio ambiente é uma prioridade entre os eleitores hoje.

2 – Bundestagswahlen – Eleições para o Parlamento Alemão
A cada 4 anos | 2017 | 2 votos, um para um partido, um para um representante local

Sobre o parlamento alemão eu falei bastante nesse post aqui, mas é um post de 2013 que já está bem desatualizado, especialmente a parte sobre os partidos. Nas últimas eleições, em 2017, eu queria ter escrito um post novo sobre o assunto mas estava viajando na ocasião e escrever sobre as eleições três semanas depois da mesma não tem mais graça. Só em 2021, agora.

Mas os básicos a gente fala aqui. O parlamento alemão tem 598 assentos atualmente, mas esse número varia um pouco em cada eleição. Na cédula, você dá dois votos: um para uma pessoa específica representante do seu círculo eleitoral. São 229 círculos eleitorais, então nesse primeiro voto são escolhidos 229 parlamentares,  o mais votado de cada região. O seu segundo voto vai para um partido. A proporção dos segundos votos é o que define a proporção de parlamentares de cada partido no parlamento, incluindo aqueles que foram eleitos diretamente. Então para exemplificar de maneira simples, vamos imaginar que o Parlamento tem 100 assentos, 50 são para os representantes dos círculos eleitorais e há 4 partidos com candidatos. Se o resultado das eleições foram:

Partido A: 42% dos segundos votos e 23 parlamentares eleitos diretamente
Partido B: 35% dos segundos votos e 14 parlamentares eleitos diretamente.
Partido C: 22% dos segundos votos e 12 parlamentares eleitos diretamente.
Partido D: 1% dos votos e 1 parlamentar eleito diretamente.

Para entrar no parlamento, seu partido tem que ter obtido 5% ou mais dos votos. Então os 100 assentos serão divididos entre os Partidos A, B e C. MAS todos os parlamentares eleitos diretamente entram, então o parlamentar do partido D que foi eleito diretamente entra também. Então os 99 assentos restantes são divididos entre os partidos A, B e C. Pela proporção dos votos, o Partido A recebe 42 assentos, o Partido B, 35 e o Partido C, 22. Dos 42 assentos do Partido A, 23 serão preenchidos pelos parlamentares eleitos diretamente, e os outros 19 assentos serão preenchidos por parlamentares escolhidos pelo partido (cada partido publica antes da eleição uma lista de pessoas que preencherão os assentos que o partido conseguir). O Partido B preenche 14 dos seus 35 assentos com parlamentares eleitos diretamente, e os outros 21 com os da lista. E o Partido B tem 12 parlamentares eleitos diretamente e 10 escolhidos pela lista. E o Partido D ganha um assento não pelo 1% dos votos, mas pelo parlamentar eleito diretamente. Se nenhum tivesse sido eleito diretamente, eles não entrariam no parlamento. E se você está acompanhando a linha de raciocínio, você talvez esteja agora se perguntando: Mas como faz se a quantidade de parlamentares de um partido eleitos diretamente exceder a quantidade de assentos que o partido tem direito pela proporção? Pois é, por isso que o número de assentos no parlamento varia a cada eleição. Pq se um partido ganhar mais assentos por eleição direita a que ele teria direito pela proporção, os outros partidos têm que ganhar mais assentos também para corrigir a diferença e respeitar a proporção.

Complicado? Um pouco.

E aí pra governar você precisa de uma maioria. Então partido com maior quantidade de votos, nesse caso o A, tem que formar uma aliança com um ou mais partidos de maneira a conseguir mais de 50% do parlamento do seu lado. Se o partido A e o Partido C têm linhas similares, eles poderiam formar uma aliança e assim controlar 64% do parlamento. Aí o chanceler é escolhido pelo Partido A, e os ministros serão políticos dos Partidos A e C. A princípio, se o Partido A não conseguir formar aliança nem com o B nem com o C, esses podem também formar uma aliança entre si e assim obter uma maioria de 57%. Aí o governo será formado pelos partidos B e C embora o A tenha tido mais votos. Mas isso é raro, normalmente o partido com mais votos consegue formar uma aliança pra obter maioria.

3 –  Landtagswahlen – Eleições para o Parlamento estadual (Saxônia)
A cada 5 anos | 2019 | 2 votos, um para um partido, um para um representante local

Funciona exatamente da mesma maneira que o parlamento federal. O governador é então escolhido pelo parlamento, sendo (normalmente) do partido com a maior quantidade de votos.

4 – Oberbürgermeisterwahlen – Eleições para prefeito (de Dresden)
A cada 7 anos | 2022 | 1 voto direto, dois turnos

O único cargo executivo individual eleito diretamente aqui é o de prefeito (Não sei se é assim em todas as cidades, pode ser que não). Os outros (governador, chanceller) são eleitos pelos parlamentares daquele âmbito.

Como o normal nesse tipo de eleição (onde é eleito uma pessoa só), como o primeiro turno não costuma dar maioria total para um candidato, há um segundo turno. Mas funciona diferente de como conhecemos no Brasil. Basicamente, no segundo turno podem entrar os candidatos que quiserem, não só os dois com a maior quantidade de votos. E aí no segundo turno é eleito aquele com a maior quantidade de votos, mesmo que não seja mais de 50%. Na última eleição para prefeito, em 2015, eu escrevi um post explicando direitinho como funciona o segundo turno.

5 – Kommunalwahlen – Stadtratswahlen – Eleições para o conselho municipal (de Dresden)
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos para um, dois ou três representantes do seu bairro

Aqui tem uma diferença importante de se apontar. Como a gente aprende já na escola, o poder nas democracias é dividido em três, legislativo, executivo e judiciário, sendo executivo aquele exercido por presidentes, governadores e prefeitos, e o legislativo exercido pelos parlamentos, congressos, e câmaras.

Então se falamos de um conselho municipal, um grupo de pessoas eleitas para representar os interesses dos cidadão de um determinado município, no Brasil estamos falando do poder legislativo, a câmara dos vereadores.

Mas aqui o conselho municipal é na verdade poder executivo. Os representantes eleitos para o conselho municipal decidem, juntamente com o prefeito, as diversas medidas e ações específicas que serão tomadas na cidade: infraestrutura, verde, habitação, etc. O cargo de membro do conselho municipal não é uma ocupação de período integral: o conselho se reúne apenas uma vez a cada três semanas. Então as pessoas eleitas para esse cargo continuam nos seus respectivos empregos.

Esse conselho é eleito a cada 5 anos. Os candidatos de cada partido são específicos da sua zona eleitoral, então eu só posso votar nos candidatos que são do meu bairro. Cada partido tem uma lista de vários candidatos pra cada bairro, que são ou não eleitos de acordo não apenas com a quantidade total de votos diretos mas também de acordo com a proporção dos votos pra cada partido. Como nos parlamentos, a quantidade de assentos pra cada partido é definida de acordo com a proporção de votos totais para candidatos daquele partido, e o candidatos específicos são então escolhidos obedecendo a quantidade de votos, mas também a quantidade de assentos e a quantidade de pessoas por zona eleitoral. Complicado? Bastante. Vale a pena explicar com detalhes e exemplos? Acho que não, confia em mim que tem um sentido lógico no negócio e pronto.

Mas o mais interessante de tudo é: cada pessoa tem três votos. Três? Três. Então na cédula, cada candidato aparece com 3 circulinhos do lado onde vc pode fazer o seu xizinho. Vc pode fazer um total de 3 xizes, que podem ser todos para o mesmo candidato, ou então um pra cada candidato de sua preferência. Assim você pode, inclusive, dividir seu voto entre três partidos de sua preferência. Ou dar todos pra candidatos do mesmo partido. Ou dar dois pra um candidato e um pra outro. Como você quiser.

Eis aqui uma amostra da cédula de uma das zonas eleitorais para a eleição do conselho de Dresden:

SRW

6 – Kommunalwahlen – Stadtbezirksbeiratswahlen – Eleições para o conselho distrital (do bairro)
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos, para um, dois ou três representantes

Juntamente com o conselho municipal, vota-se aqui em Dresden para o conselho distrital, quer dizer, um conselho do seu bairro. É mais ou menos a mesma coisa do conselho municipal, um conselho que faz decisões executivas para o bairro, em conjunto com a prefeitura. Como na eleição do conselho municipal, você tem três votos que você pode distribuir entre um, dois ou três candidatos. Uma pessoa pode ser candidata e ser eleita para ambos os conselhos, inclusive, já que como eu mencionei, essa não é uma ocupação de período integral, mas algo que as pessoas eleitas fazem ao mesmo tempo que continuam seus respectivos outros empregos e ocupações.

7 – Integrations- und Ausländerbeiratswahl – Eleições para o conselho municipal de cidadãos estrangeiros
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos, para um, dois ou três representantes

O sétimo cargo preenchido por eleição por aqui é o conselho municipal de cidadãos estrangeiros. Nessas eleições só votam pessoas residentes em Dresden que não sejam cidadãos alemães. Esse conselho é a oportunidade para o estrangeiros que aqui moram também terem alguma representação no poder. Podem se candidatar cidadãos estrangeiros ou alemães naturalizados, e os eleitos se reúnem regularmente com o prefeito para discutir assuntos que dizem respeito à comunidade estrangeira de Dresden.

Então morando em Dresden você vota em 6 eleições – se for alemão – ou em uma, se não for.


UFA! Acabou! Próximas eleições são em Setembro (aqui na Saxônia) pro parlamento estadual e pra esse conselho municipal de estrangeiros. É isso!


(Publicado em 29 de Maio de 2019)

Impressões sobre o Brasil

Há alguns dias atrás voltei de uma curta viagem a São Paulo, a terceira desde que mudei pra Alemanha, mas a primeira desde 2015. Fazia 4 anos desde minha última visita!

Eu achei que fosse parecer tudo muito estranho, sei lá, diferente ao mesmo tempo que familiar. Mas não, tava tudo igual. Na verdade o mais estranho dessa viagem foi chegar e tá tudo bem normal e me sentir tão normal quanto se eu tivesse ficado fora um fim de semana. E aí voltar pra cá alguns dias depois e ter exatamente o mesmo feeling. Foi como se a gente não tivesse viajado continentes mas só ido visitar a mãe noutra cidade rapidinho!

Mas claro, houveram algumas coisinhas que eu notei. A maioria das coisas que eu achei que fosse estranhar depois de tanto tempo fora eu não estranhei nenhum pouco, foram totalmente normais. Mas uma em especial eu estranhei demais, algo que eu, enquanto morava no Brasil, nunca tinha notado. Nem quando mudei pra cá tinha percebido a diferença. Só agora voltando depois de vários anos que eu notei. Que coisa é essa?

1 . BARULHO, VOLUME, ALTO, SOCORRO

Todo o resto das coisas diferentes eu achei adaptável, pelo menos assim só por duas semanas. Mas isso me incomodou DE-MAIS. Tudo. É. MUITO. Barulhento. A cidade é barulhenta, tem muito carro, muito ônibus, motos extremamente barulhentas em grandes quantidades, tudo muito denso, os prédios muito altos em grandes quantidades só contribuem pra reverberação infinita dos barulhos, nas casas os materiais mais comuns refletem em vez de absorver os sons (pisos frios, janelas de alumínio…), e nenhum lugar tem nenhum tipo de isolamento acústico. E como tudo é muito barulhento, as pessoas ficam menos sensíveis ao volume e coisas que nem precisavam ser barulhentas acabam sendo. Como restaurantes, vários dos quais tem música de “fundo” tão alta que você tem que levantar a voz pra conversar com seu amigo. E aí o restaurante é grande e como brasileiros têm muitos amigos e famílias grandes, vão todos em grandes grupos no restaurante, e todos tem que levantar a voz, e aí fica maior barulho e aí todo mundo tem que falar ainda mais alto e aí fica mais barulho e aí as pessoas têm que falar ainda mais alto e etc etc espiral infinita de volume cada vez maior e sensibilidade para barulho cada vez menor.

Nesses poucos dias que estivemos lá, fomos num show com amigos e tivemos que sair mais cedo por causa do som em volume exagerado. Mas era exagerado MESMO. Era num volume absolutamente intolerável, de doer os ouvidos. E antes mesmo de começar o show (tinha um DJ colocando algumas músicas pra ir animando a platéria) o volume já estava exageradamente alto a ponto de ser completamente impossível conversar. Completamente impossível. Isso antes do show começar… não deu pra ficar. Que decepção.

Tudo bem que eu sempre fui particularmente sensível a barulhos muito altos (se quiser me ver desejar a morte lenta e dolorida de alguém, basta passar de moto com o escapamento alterado por perto), mas até passar um tempo num país e cidade onde as casas e apartamentos são super bem isolados acusticamente, as pessoas no geral fazem menos barulho e o trânsito é bem mais tranquilo, nunca tinha percebido o quão exagerado é o volume de São Paulo. Sério, foi uma coisa que me incomodou demais nesses últimos dias. A única coisa que me incomodou, na verdade. Outras coisas eu tinha esquecido ou achei curioso lembrar que era assim ou assado, mas essa foi a única que me incomodou profundamente.

Mas já que esse não é um post de um tema só, vou continuar e comentar as outras coisas que eu notei diferentes (que eu obviamente já sabia ser diferentes, mas que foi interessante perceber com clareza de novo):

2 . Pessoas muito simpáticas, muito fáceis de conversar, tudo fácil

MEUDEUS como os brasileiros são simpáticos! Que alívio passar alguns dias numa cidade onde as pessoas sorriem ao conversar com você SEM MOTIVO ESPECÍFICO! Apenas pq estão sendo tão simplesmente simpáticas e só isso! E as pessoas desconhecidas não fazem um tremendo esforço sobrehumano pra fingir que todas as outras pessoas na rua são absolutamente invisíveis! Elas pedem desculpas se esbarram em você! Elas falam com você quando necessário! Elas sorriem quando querem ser educadas! Elas riem pra ser simpáticas, só pq faz bem! Dava vontade de abraçar todo mundo!

Não estou dizendo que os alemães são maus. Mas é que na Alemanha, as pessoas só são simpáticas com você (talvez) quando elas te conhecem. Não assim, na rua, só porque sim. Entre desconhecidos, os alemães tentam sempre não ver ninguém. A diferença já notamos logo no ônibus do aeroporto pra casa (ao voltar pra Alemanha, digo). Nossas malas estavam no espaço do ônibus para malas, bicicletas ou carrinhos de bebê. Ao fazer uma curva mais brusca, as nossas e a mala de uma outra senhora escorregaram rápido em direção à porta do ônibus. Nós teríamos ficado de pé na frente das malas para evitar que isso ocorresse, já que elas têm rodinhas, mas assim que colocamos as malas lá um outro fulano – um com mala pequena de carregar no ombro – colocou a sua lá também e postou-se de pé na frente de todas as outras malas. Quando as mesmas escorregaram na curva, dito fulano pula para longe das mesmas deixando-as escorregar descontroladamente e cair-se umas por cima das outras. Uma mãozinha estendida teria evitado que as malas escorregassem. Até aí até tudo bem. Nós levantamos para colocar as malas de volta no lugar (desta vez, claro, deitadas), mas o fulano tinha se postado do lado da sua mala não espaçosa de maneira a ocupar todo o espaço dedicado a malas. A gente colocou uma no cantinho que ele deixou sobrando, meu marido pediu licença, ele ignorou, e ficaram as duas outras malas (a nossa e a da outra senhora) no meio do corredor. Porque o fulano queria ficar lá de pé no lugar dedicado as malas para não ficar longe da sua MALINHA DE OMBRO que tinha que ficar no chão. Ah, não…… após colocar nossas malas de volta no local – depois da pessoa mega simpática finalmente descer do ônibus – eu e meu marido comentamos um pro outro: “ah, que alívio voltar pra Saxônia, não?”…

Mas sério. De verdade. Eu sei que você vai dizer “Ai, magina, aqui no Brasil tem muita gente mal educada!” ou então talvez “Ah, quando eu estive na Alemanha achei todo mundo muito simpático.”, mas acredita no que alguém que mora aqui há sete anos tá dizendo: os brasileiros são MUITO simpáticos e amigáveis. MUITO. Existe amor em SP e como!

3 . Amigos tranquilos, soltos, relax

Não apenas as pessoas no geral são mais simpáticas, mas inclusive os amigos são mais soltos. O que quero dizer com isso é que, entre alemães demora demais pra uma amizade chegar num nível tal que as duas pessoas se sintam plenamente confortáveis uma com a outra pra falar sobre assuntos mais difíceis ou íntimos. Eu tenho duas amigas alemãs que eu gosto muito e com quem me dou muito bem, mas mesmo com elas ainda tem uma certa pequena barreira ainda existente, em que nem eu nem elas nos sentimos 100% no pleno conforto de uma amizade próxima. Com os amigos do Brasil – lógico que eles são amigos de mais tempo, mas mesmo assim – rola uma tranquilidade maior na relação, um comforto muito grande. Aliás eu sinto essa tranquilidade e abertura mesmo com amigos brasileiros que eu fiz aqui, quer dizer, que são mais recentes. Sei lá, tem um nível de tranquilidade entre as pessoas que aqui na Alemanha parece que só se atinge depois de décadas de amizade, sei lá.

4 . Trânsito muito lento, mesmo quando não tem mto trânsito

Quando a gente reclama de trânsito em São Paulo, ou outras grandes cidades brasileiras, normalmente a gente pensa que a causa desse problema é ou a quantidade de carros ou a quantidade de faixas disponíveis para carros. Como boa urbanista que sou, meu argumento teria sido quantidade de carros e insuficiência do transporte público. Tá certo, claro. Mas é mais que isso. Tem um outro fator que eu desconhecia, que eu só percebi agora após reaprender a dirigir na Alemanha, ter um pouco de experiência no tráfego urbano alemão (como pedestre, ciclista e motorista) e voltar para o Brasil.

Esse fator é a organização do tráfego.  A impressão que eu tive nessa curta viagem a São Paulo é que os carros têm que parar com muita freqüência, mesmo quando a rua está vazia, e as paradas são muito longas. Você estará pensando “Pô, isso não precisa ir pra Alemanha pra perceber, eu sou motorista no Brasil e sempre reclamei dos muitos semáforos e que ficam muito tempo no vermelho.”. Tanto não sou a primeira pessoa a achar isso que umas pessoas lá a uns anos atrás resolveram desenhar uma cidade inteira pensando no bom fluxo ininterrupto de carros.

Então o que estou dizendo é que o modelo de Brasília é a solução pro trânsito das metrópoles brasileiras ou mundiais? Não mesmo. Nem de longe.

O que eu percebi e não sabia antes foi só a comparação de como funcionam as coisas aqui. Em primeiro lugar: muitas ruas não tem semáforo pq a regra de quem tem preferência é sempre MUITO clara. Se você já leu meu post sobre a prova teórica para habilitação alemã, você já tem uma idéia: tem várias regras diferentes e específicas e placas específicas diversas definindo quem tem a preferência em cada caso. Foi o fator que eu mais senti dificuldade em me acostumar ao tirar a carta de motorista aqui, porque no Brasil é uma coisa bem mais instintiva. Às vezes tem placa de pare, mas muitas outras vezes a regra é mais vaga e as pessoas se entendem ao chegar no cruzamento. Dá certo também, mas não quando é uma rua com mais movimento. Aí tem semáforo. Aqui é sempre bem precisa, a regra. Então tem menos semáforo.

Em segundo lugar: quase sempre (exceto em avenidas grandes) você pode fazer a conversão à esquerda num cruzamento daqui, raramente você precisa dar a volta no quarteirão virando à direita três vezes pra conseguir entrar à esquerda.

E finalmente, quando tem semáforo, são normalmente só duas fases, e não  três. O que quero dizer é: num cruzamento com semáforo na Alemanha, tem a fase em que está vermelho pra rua Norte-Sul (por exemplo) e verde pra rua Leste-Oeste, e aí a fase em que está vermelho pra rua Leste-Oeste e verde pra Norte-Sul. No Brasil em cruzamentos maiores têm ainda a terceira fase: vermelho pras duas ruas e verde pros pedestres.

Você está pensando: mas nossa, super centrado no motorista esse sistema, péssimo pro pedestre, você não consegue atravessar é nunca!

Pois é, aí que está a GRANDE diferença. Por lei, e isso é igual na Alemanha e no Brasil, na conversão a preferência é do pedestre. Isso significa que, ao virar à esquerda ou à direita para entrar numa rua, você tem que parar se tiverem pedestres atravessando (ou ciclistas à sua direita que sigam em frente). Se essa regra é levada a sério, como é aqui, você não precisa da terceira fase do semáforo, nem precisa sempre de semáforo pros pedestres conseguirem atravessar com segurança, pq quando está vermelho pra rua que você está atravessando, os carros entrando da rua em que está verde vão necessariamente esperar você atravessar antes de fazer a conversão.

A diferença de respeitar regras que são mais difíceis de multar (multar violação do semáforo é fácil, é só colocar um radar. Mas multar o não respeito à preferência do pedestre na conversão, ou o não respeito às regras de preferência gerais, precisa necessariamente de um fiscal de pé na esquina assistindo o trânsito) é uma coisa tão profundamente cultural que eu fico meio desenperançosa que dê pra mudar no curto prazo, no Brasil. Interessante que é o nosso próprio desrespeito como motorista às regras de trânsito que faz com que a gente fique parado no trânsito mais tempo….

Então não vejo que simplesmente adotar o sistema alemão de tráfego resolveria os problemas do trânsito paulistano. Teria que ter uma mudança muito mais profunda da cultura de respeito às regras… sei lá… acho que investir em muito metrô é uma solução mais realista (e bom, essencial AINDA QUE o sistema alemão pudesse ser adotado no Brasil).

5 . MUITO plástico

Uma coisa muito positiva dos alemães é que eles realmente não são fãs de plástico. Qualquer coisa de plástico é vista como tosca e se dá sempre preferência a outros materiais como madeira, metal, louça, vidro ou o que for dependendo do objeto em questão.

Mas uma reclamação recorrente por aqui é a quantidade de plástico em embalagens de supermercado. Em muitos supermercados, as frutas e verduras já vêm pré-embaladas em plástico, algo que mais e mais alemães criticam. Não é incomum por aqui a embalagem ser critério de decisão na compra de um produto – muita gente prefere comprar a marca que vem menos embalada.

Embora isso também venha mudando no Brasil, a diferença ainda é gritante. Sacos plásticos ainda são muito comuns, mesmo em situações em que qualquer sacola é completamente desnecessária. Tipo, sei lá, comprar frutas ou verduras no supermercado e colocar as frutas/verduras escolhidas numa sacolinha transparente que depois vai dentro da sacola das compras no caixa. Tá, se você estiver comprando trinta limões, tudo bem colocá-los numa sacola ali na hora de escolher pq não é muito fácil carregar trinta limões na mão, assim. Mas se for um ou dois limões, que vão no carrinho, e depois vão na sacola quando passarem no caixa, pq uma sacola extra? Na feira, a mesma coisa, vc compra um abacaxi, sei lá, e você tem lá sua sacola retornável, e mesmo assim te dão o abacaxi numa sacola plástica pra vc colocar dentro da sacola retornável. como se as frutas e verduras diferentes não pudessem se encostar, sei lá? E na hora de passar no caixa, no supermercado, é um exagero de sacolas, como se cada produto ligeiramente diferente precisasse de uma sacola pra si porque ai de todos nós se a banana encostar no Iogurte. ?? Sei lá, é um exagero grande de plástico, um uso completamente desnecessário…

Mas, como eu falei, isso vem mudando bastante também no Brasil. Da última vez que eu fui pra lá, em 2015, isso me incomodou também, e era bem pior que agora. Dessa vez, se eu não quisesse sacola plástica, eu conseguia que não me dessem nenhuma sacola. Da outra vez eu lembro de precisar tirar as coisas de sacolas que eu não queria e devolver as mesmas pq antes que eu pudesse dizer que não precisava de sacola para levar A UMA CAIXINHA DE ASPIRINA que eu tinha comprado na farmácia, a mesma já tinha sido colocada dentro de uma sacola plástica altamente desnecessária. Dessa vez senti que em vários lugares as pessoas perguntavam se eu queria sacola, antes de ir colocando as compras na mesma.

 

Enfim, acho que esses foram os pontos principais! Eu gostei muito de voltar pro Brasil – a longa ausência já estava ecoando. Pena que foram poucos dias e acabou não dando pra rever todo mundo que eu gostaria de ter revisto. Mas fez bem, voltar. E o marido desatou a falar um português que impressionou todos!


(Publicado em 12 de Maio de 2019)