Autor: Lais

Lidando com os desafios do trabalho em alemão

Por uma variedade de fatores ocorreu que nos últimos meses várias pessoas andaram me perguntando a mesma coisa, tanto amigos quanto pessoas que me encontraram via blog:

Como faz pra lidar com os desafios da língua no trabalho?

A situação é quase idêntica pra todo mundo – e como foi pra mim tb: vergonha de cometer erros ao falar ou ao escrever, fobia de resolver as coisas por telefone, medo de ter que participar ou liderar reuniões em alemão sozinho, frustração com a lentidão na melhoria da fluência depois de certo ponto, etc.

E todos os que perguntam têm a esperança de que eu tenha uma fórmula secreta pra sobreviver e enfrentar esses desafios. Eu também procurei essa fórmula sem sucesso. Mas não há fórmula secreta. A única coisa que vai resolver ou te levar pra frente é lidar com o medo. E o melhor conselho que eu tenho pra te dar pra vencer o medo e conseguir enfrentar os desafios é o seguinte:

Finja que não tem medo.

Você já ouviu aquela frase “Fake it till you make it”? Algo como: finja até conseguir. Parece vago e impraticável, mas é o mais próximo de uma fórmula secreta pra ter sucesso no seu trabalho e enfrentar os desafios da língua alemã que eu conheço. E eu vou explicar porque funciona:

O medo que você sente quando toca o seu telefone no escritório, por exemplo, e você sabe que vai ter que ter uma conversa profissional em alemão sem ver a cara da pessoa. Quando você sente esse medo, a impressão que você tem é que a única solução é aprender alemão tão perfeitamente que vc tenha certeza que vai entender 100% do que for dito e conseguir dizer 100% do que quiser dizer sem cometer nenhum erro.

Se seu alemão já tem um nível intermediário/avançado, você sabe bem o tempo que demorou pra chegar naquele ponto, e talvez já tenha percebido que, se no começo você aprendeu muitas coisas com muita rapidez e sentiu o nível de fluência subir em poucos meses, depois de um certo ponto parece que o avanço segue bem mais lentamente. É bem mais difícil aprender uma segunda palavra pra dizer uma mesma coisa que você já consegue dizer com a primeira palavra aprendida. De maneira que por bastante tempo você sente que já consegue dizer o que quer dizer, mas sempre com um vocabulário insuficiente, meio infantil. O avanço a partir desse ponto ocorre em passos mais sutis, menos perceptíveis.

E a consequência é: o topo da montanha da fluência começa a parecer inatingível. E se você diz pra si mesmo que só vai conseguir (por exemplo) fazer um telefonema profissional em alemão com tranquilidade e sem stress quando chegar no topo da montanha da fluência… a conta não fecha.

Perceber que sentir 100% de tranquilidade com a língua é uma façanha muuuuuuito mais difícil do que você tinha imaginado quando começou a aprender te leva a começar a duvidar se vai algum dia ficar fácil lidar com os desafios do trabalho que são consequência da língua, ou se vai ser um eterno sofrimento

Então a fórmula secreta que você está procurando na verdade é perceber que o caminho pra perder o medo da língua não é aprender a língua tão bem quanto alguém que nasceu e foi criado com ela, mas outro: o caminho pra perder o medo é a experiência.

O único jeito que eu encontrei pra perder o medo é fazer aquilo várias vezes até não ser mais novidade. Mesmo que dê errado várias vezes pelo caminho. Mesmo que algumas das experiências eu queira deletar da minha mente e esquecer pra sempre. Mesmo que algumas das experiências tenham me mandado chorando pra casa naquele dia. É só depois que você fez algo muitas vezes que aquilo pára de te provocar medo.

E o único jeito de fazer algo várias quando você está morrendo de medo é: fingir que não está com medo.

Mas como? Não dá pra mudar o medo que você sente, o que significa fingir que não sente?

É basicamente aceitar passar pela experiência. É não escolher a saída fácil. Por exemplo: seu chefe perguntou se você pode ir na reunião sozinho e apresentar o projeto sozinho porque ele não tem tempo pra ir junto. Você nunca apresentou um projeto sozinho, está morrendo de medo, acha que seu alemão é insuficiente e a última coisa que você quer fazer é se colocar na situação embaraçosa que provavelmente vai resultar se você tentar fazer o negócio sozinho.

Você pode:
a) responder “afe, melhor não, não tô seguro, não, vamos marcar proutro dia, melhor, não vou conseguir fazer sozinho”
b) responder “ok, eu vou.”

Fingir que não tem medo é a alternativa b. Você tá morrendo de medo, a última coisa que você quer é aceitar esse desafio. Mas o único jeito de perder o medo é aceitando o desafio. A gente tende a querer que a confiança venha antes da experiência, mas funciona ao contrário. A confiança só vem depois da experiência.

Esse caminho é sofrido e demorado? É. Bastante. Mas é o único caminho que eu conheço. Exceto se você souber um jeito de voltar no tempo e convencer seus pais a te colocarem num curso de alemão aos 3 anos de idade, ou coisa assim. Aí talvez você consiga aprender alemão até esse nível de perfeição que você gostaria de atingir antes de enfrentar esses desafios.

(Não tô dizendo que é 100% impossível chegar num nível de fluência quase perfeito. Mas é um caminho muuuuito mais longo do que parece quando você começa a aprender. Então em vez de ver isso como a única meta satisfatória, é melhor focar em passos mais atingíveis e deixar esse objetivo como algo mais vago pro futuro. Perder o medo e criar confiança apesar do seu alemão imperfeito também vai te ajudar a melhorá-lo.)

Claro que em algumas situações, pode fazer sentido reconhecer, mesmo, que você não vai conseguir vencer aquele desafio e que aceitá-lo vai certamente ter um resultado ruim, e assim escolher a alternativa a. Mas tente escolher essa saída realmente apenas quando você tem certeza absoluta que não tem como aceitar o desafio. Do tipo escolha suas batalhas, essas coisas. Escolha bem os desafios que você não vai aceitar. Deixe só para os casos em que realmente não tem outro jeito.

Até porque coragem e confiança em si são características que as outras pessoas notam muito claramente e respeitam.

A maneira como eu me sinto em relação à língua e a minha confiança na minha capacidade profissional mudou muito nos últimos 2 anos, mais ou menos, e eu fico me perguntando bastante o quê, exatamente, mudou. Claro que eu aprendi coisas nesse meio tempo mas ainda tem uma montanha de coisas que eu não sei, em termos profissionais. A mesma coisa com a língua, eu melhorei em alguns aspectos, mas ainda tem um enorme potencial de melhora à frente. O que vai de fato mudando é uma bola de neve de três fatores: coragem de enfrentar desafios > aprender coisas > ganhar mais segurança > coragem de enfrentar mais desafios > aprender ainda mais coisas > ganhar ainda mais segurança, e assim por diante, de pouco a pouco mas continuamente. E quanto mais segurança você mostra pras outras pessoas, menos importa os erros que você comete. Se a pessoa vê que cometer erros na língua não te faz se sentir envergonhado, não tira sua confiança naquilo que você está falando, ela sente ainda mais certeza de que você sabe do que está falando e o que está fazendo. Não se incomodar com aquilo que você não consegue fazer dá mais certeza pra todo mundo de que você faz bem todo o resto.

Então… não deixe essa língua ingrata te derrubar!

Sobre o tema Fake it till you make it, tem uma Ted Talk brilhante de Amy Cuddy sobre o assunto, “How your body language affects your life”, recomendo fortemente:

(Publicado em 26 de Agosto de 2020)

O Corona-Warn-App está disponível

A partir de hoje o app de rastreamento do Corona, do governo alemão, está disponível.

O App foi desenvolvido pelo Robert-Koch-Institut, o instituto governamental responsável pelo controle e prevenção de doenças, no momento o principal agente no combate ao vírus na Alemanha, que coleta e divulga dados relacionados ao mesmo e dá diretrizes para as decisões do governo.

Extensivamente discutido na mídia e pelo governo durante seu desenvolvimento, o Corona-Warn-App demorou um pouco pra sair porque, como é de se esperar na Alemanha, os programadores e responsáveis pelo app foram extremamente criteriosos no quesito proteção de dados. Os alemães são suuuuper noiados com compartilhamento de dados, as leis referentes a proteção e compartilhamento de dados aqui são certamente as mais rígidas no mundo. Inclusive estou querendo escrever um post só sobre isso faz um tempo. Mas enfim: o app tinha que responder a requisitos muito rigorosos em termos de dados porque se não certamente nenhum alemão se convenceria a baixar o mesmo.

Assim sendo, tudo o que acontece no app é anônimo e voluntário. Através do app, o seu telefone troca códigos anônimos com outros telefones que tenham estado próximos o suficiente do seu, via Bluetooth. Se você for testado positivo para Covid19, vc pode (aqui, novamente, é tudo voluntário) avisar o app e o app manda um aviso para os telefones que tiverem estados próximos do seu do risco de contaminação. O aviso não é igual para todo mundo, porem diferenciado entre alto risco ou baixo risco de contaminação. Quer dizer, se você esteve pouco tempo em contato com a pessoa testada positivo, o app te avisará de baixo risco de contaminação. Se você sentou do lado da pessoa no trem por uma hora, por exemplo, o app te avisa de alto risco de contaminação. Ao mesmo tempo, ele dá recomendações de como proceder ao receber o aviso de risco. Fazer um teste, avisar o seu médico, etc, de acordo com o risco. Novamente, seguir ou não seguir as recomendações também é voluntário.

Como é tudo anonimizado, é impossível rastrear de que celular veio o aviso – quer dizer, se você receber um aviso vai ser impossível pra você ou qualquer outra pessoa descobrir quem que esteve próximo de você que foi testado positivo (impossível pelo app, óbvio que se foi seu colega de trabalho você provavelmente vai ficar sabendo, mas por outros meios). Também não dá pra ninguém, nem as autoridades, saberem quem recebeu avisos. Se vc receber um aviso, só vc fica sabendo.

Além disso, os dados do app são descentralizados. Isso significa que não há nem mesmo uma central que colete todas as informações anônimas do app, o governo não tem nem como saber quantas pessoas foram avisadas pelo app, por exemplo. Foi uma escolha especificamente pra deixar o app ainda mais seguro, segurança em termos de coleta de dados foi a prioridade absoluta no desenvolvimento do app.

Outro fator importante é a transparência. Além de discutir abertamente todos os passos durante o desenvolvimento do app, aceitar e incorporar comentários e sugestões de experts que tenham se aventurado a olhar e analisar a programação do mesmo (disponível por completo para o público geral), o processo de otimização, melhora e gestão do app também será feito de maneira 100% transparente, acessível para qualquer um que deseje se informar. Todas as informações sobre o app estão disponíveis no site oficial do mesmo, e tem até uma Hotline para quem quiser sanar suas dúvidas sobre o app perguntando diretamente por telefone, em alemão ou em inglês!

Eu não sou expert em TI pra poder checar a programação do app por conta própria, mas a transparência e o esforço com que isso está sendo feito e divulgado é realmente impressionante. Tomara que dê certo.

E aí que vem a dificuldade: pra dar certo, suficientes pessoas têm que ter o app instalado. Não adianta você ter avisado o app que foi testado positivo se as pessoas que estiveram perto de você não têm o app e portanto não tem como receber o aviso. Também não adianta pra vc se alguém que, por exemplo, sentou do seu lado no ônibus por meia hora avisar o app que foi testado positivo no dia seguinte, se você não instalou o app pra receber o aviso. Então o desafio pro governo, agora, vai ser convencer uma boa parte da população a instalar o app.

A idéia não é que o app sozinho resolva o problema de identificar quem tem risco de ter contraído o vírus, os departamentos estaduais de saúde (Gesundheitsämter) vão continuar fazendo o trabalho de telefonar individualmente pras pessoas que tiveram direto contato com alguém que foi testado positivo, como têm feito até agora. A idéia do app é ser um instrumento extra pra facilitar e agilizar o rastreamento do vírus.

Eu já baixei e vou conversar com quem conheço para baixarem também. No momento, a situação do vírus na Alemanha está sob controle e o número de infecções está baixo, mas o problema não morreu e o vírus não desapareceu. Eventualmente virá a segunda onda, e qualquer coisa que ajude a diminuir o número de infecções e assim proteger não só as pessoas individualmente, como a situação do país como um todo, vale a pena experimentar.

Lá no site oficial do Corona-Warn-App (que eu linkei toda vez que falei o nome do app, mas por via das dúvidas vou escrever por extenso também: corona-warn-app.de) tem, em inglês e alemão, a resposta para várias perguntas, explicação de como funciona o app em mais detalhes, o número da hotline pra dúvidas, e até material pra divulgação, como esses folhetos aqui:

Quem sabe com o tempo eles não disponibilizem as mesmas informações também em outras línguas.

Se for baixar o app, baixe apenas das app stores oficiais da Apple e o do Google, usando por exemplo os links disponíveis no site oficial do app.

Eu escrevi esse post rapidão durante o almoço porque queria publicar assim que possível, pra divulgar o app. Mas vou adicionando aos poucos outras informações mais detalhadas sobre o mesmo, já que o site oficial não está disponível em português.


Adicionado no dia 19 de Junho: Agora que o app já está no ar há alguns dias e eu já li mais sobre o assunto, vou aproveitar para começar aqui no fim do post um FAQ sobre o app. Vou linkar a fonte das respostas. Se você tiver outras perguntas que você não conseguiu sanar nas fontes oficiais pela barreira da língua, fique à vontade pra perguntar nos comentários que eu vejo se descubro! Mas antes de me escrever tente, por favor, primeiro descobrir a resposta no site oficial do app: corona-warn-app.de.

(Se alguém me escrever um comentário muito louco com teorias de conspirações doidonas e perguntas que deixam claro que a pessoa nem leu o post onde está comentado, que esta pessoa não se iluda de que eu vá liberar o comentário, vou deletar, mesmo.)

FAQ:

Como funciona avisar o app de teste positivo? Tem alguma forma de verificação, ou pode qualquer um simplesmente colocar no app que foi testado positivo sem provas?

Ao receber o resultado positivo de um teste para COVID19, vc pode pedir para o laboratório/médico te providenciar uma senha. Ao avisar o app do teste positivo, ele te pede a senha, que é como o app confirma o resultado positivo. Então não dá pra alguém que não foi, de fato, testado positivo, mentir pro app que foi.

Eu tenho que checar o app regularmente pra ver se tem notificação? O app é atualizado automaticamente?

O app é atualizado uma vez por dia. Se nessa atualização seu risco mudar pra alto pq alguém com quem vc teve contato foi testado positivo, vc recebe uma notificação automática. Você não precisa checar o app.
Isso significa que se alguém que testou positivo avisou o app disso hj a tarde, e o seu app atualizou hoje de manhã, o seu status só vai mudar no dia seguinte, na próxima atualização do app. Eles decidiram fazer dessa maneira – em vez de uma atualização automática, pra assegurar a anonimidade da pessoa testada positivo.

O app funciona automaticamente? Eu preciso deixar ele ligado? Eu preciso lembrar de reativá-lo?

Você não precisa fazer nada com o app depois de baixar a ativar. Uma vez ativado, ele ficara funcionando de fundo constantemente, mas gastando pouquíssima bateria. Vc não precisa lembrar de ligar o app, abrir o app, olhar o app, fazer nada com o app, ele fica lá quietinho no seu canto e te dá um aviso se necessário.

O que acontece se eu receber um aviso de que tive contato com alguém testado positivo?

Se vc receber o aviso de alto risco, o app te dá orientações de telefonar para o seu médico ou para o Gesundsheitsamt. Você poderá fazer um teste, pago pelo seu seguro de saúde, mesmo que não esteja apresentando sintomas.

E se eu receber um aviso, ignorá-lo e não seguir as orientações, o que acontece?

Nada. Quer dizer, legalmente, nada. Na sua consciência eu não sei se vai acontecer alguma coisa, mas legalmente você não tem obrigação de seguir as orientações e você é absolutamente a única pessoa que sabe que recebeu o aviso. Ninguém mais recebe um aviso de que vc recebeu um aviso pelo app. Nem o governo, nem seu médico, nem a polícia, nem ninguém. Só você. Seguir as orientações do app é, portanto, 100% voluntário. (não seguir é possível, mas, né, só lembre-se que se pá vc pegou o vírus e está por aí transmitindo pra pessoas que vão morrer dele, né, se vc vai conseguir dormir a noite sabendo disso, blz.)

(por enquanto, todas as respostas do FAQ têm como fonte o episódio 12 do Podcast da Bundesregierung: Corona aktuell – Der Podcast der Bundesregierung, Folge 12: Corona-Warn-App: “Das Entscheidende ist das Vertrauen unserer Bürgerinnen und Bürger”)


Se você quiser ler outras informações sobre o app, de outras fontes que não o próprio site oficial, eis aqui alguns links para artigos de jornais alemães sobre o assunto (em alemão, mas você pode sempre jogar no google translate se não rolar ler em alemão).

https://www.zeit.de/politik/deutschland/2020-06/corona-app-vorstellung-infektionsschutz-bundesregierung-robert-koch-insti

https://www.zeit.de/video/2020-06/6164451110001/corona-app-warn-app-ab-sofort-verfuegbar

https://www.zeit.de/digital/mobil/2020-06/coronavirus-corona-warn-app-bundesregierung

https://www.tagesschau.de/inland/corona-warn-app-vorstellung-braun-101.html

(Publicado em 16 de Junho de 2020)

Black Lives Matter

Diante dos recentes acontecimentos nos Estados Unidos, casos de extrema brutalidade policial contra homens e mulheres negros que culminaram em enormes protestos por todo o país, eu gostaria de não ignorar esse assunto nesse blog. Embora os EUA estejam um tanto longe da Alemanha, casos de brutalidade policial contra pessoas não brancas não são exclusividade dos EUA.

O caso possivelmente mais emblemático de como esse problema se traduz na Alemanha foi o assassinato de Oury Jalloh em 2005. Oury Jalloh era nacional de Serra Leoa e estava na Alemanha há alguns anos quando foi parado pela polícia em Dessau, que investigava possíveis suspeitos de um caso de estupro, e por não ter documentos válidos foi levado sob custódia. Preso em uma cela no porão do departamento de polícia, Jalloh foi queimado vivo naquela noite. A princípio, sua morte foi tratada como suicídio, mas certos aspectos da história levaram a uma investigação posterior: um dos policiais desligou o sistema de alarme de incêndio quando este disparou, só foram checar o porão quando já era tarde demais e os bombeiros descobriram o corpo de Jalloh na cama da cela com os braços e pernas esticados, o que indica que suas mãos e pés estivessem amarrados à cama. O caso até hoje não está resolvido e nenhum policial foi preso.

Entretanto, o tema racismo – especificamente o preconceito contra pessoas de pele negra – ainda é visto na Alemanha como um problema estrangeiro, uma coisa que acontece lá nos EUA, talvez em alguns outros lugares, mas não aqui. É curioso o quanto essa discussão ainda está completamente fora do radar de um alemão médio. O termo racismo aqui denota mais xenofobia, preconceito contra pessoas de outros lugares, refugiados e imigrantes, pela sua origem e não pela sua cor de pele. Lógico que são temas interligados, mas a distinção é também importante porque o que parece ser impensável para um alemão regular é que outro alemão, nascido aqui, com um nome alemão, mesma educação cultural, moral ou religiosa que qualquer outro alemão ainda assim venha a sofrer preconceito ou tratamento desigual na sociedade alemã hoje simplesmente porque sua pele é negra. A existência desse problema, desse preconceito especificamente focado na cor da pele de uma pessoa, passa facilmente despercebido num país em que a grande maioria da população é branca, e a maioria dos alemães negros ainda têm vários outros aspectos da sua identidade que levariam as pessoas em volta a concluir que os motivos do preconceito são outros (origem da família, nome de origem estrangeira, talvez uma religião diferente, etc) e não pura e simplesmente a cor da sua pele. Não que isso justificasse um tratamento desigual, claro que não. Mas para uma pessoa daqui que se considere aberta e não preconceituosa, ainda é muito mais fácil justificar (e se identificar com) uma diferença de tratamento de alguém que tem uma religião ou cultura diferentes (nas sobrelinhas a pessoa entende valores morais diferentes) do que alguém que fosse absolutamente idêntico a si exceto pelo tom de pele.

Mas bom, não quero falar muito sobre o que é ou não é racismo na Alemanha uma vez que eu, sendo uma pessoa branca, não sou vítima desse preconceito. Se você é uma pessoa negra vivendo na Alemanha e gostaria de compartilhar situações de racismo sofridas por aqui, fique à vontade para escrever nos comentários ou mesmo mandar por e-mail pelo formulário de contato – se receber alguns relatos posso fazer um post sobre isso para dar a palavra a quem sabe do que está falando.

A ideia desse post portanto não é discutir um preconceito do qual eu não sou vítima, mas divulgar algumas organizações que trabalham contra ele, além de alguns livros sobre o assunto voltados à realidade alemã. O objetivo disso é dar um caminho para pessoas brancas de língua portuguesa morando na Alemanha que queiram começar a agir contra o racismo no seu entorno. Você pode aprender sobre o que essas organizações estão fazendo, doar para as mesmas, ler os livros recomendados para se inteirar melhor sobre o assunto, etc. Ou, claro, também para pessoas negras de língua portuguesa que estejam procurando organizações que os apoiem (por exemplo se você sofreu ou está sofrendo discriminação de cor na Alemanha e quer saber como proceder, algumas dessas organizações podem ajudar com orientações).

Se você conhece outras organizações ou livros interessantes que caberiam bem aqui, me escreve nos comentários que eu adiciono à lista. O único critério é que sejam organizações ou livros voltados especificamente para o tema racismo na Alemanha.

Algumas organizações que trabalham lutando contra o racismo ou defendendo pessoas de descendência africana na Alemanha:

Initiative Schwarze Menschen in Deutschland Bund e.V. – a iniciativa tem como objetivo prover um espaço de encontro e troca para pessoas negras na Alemanha, assim como lutar contra o racismo, providenciar apoio a negros na Alemanha e organizar projetos contra o racismo na sociedade.

Each One Teach One (EOTO) e.V. – Um projeto de empoderamento e educação em Berlim, pelo interesse de negros e africanos na Alemanha e na Europa.

Initiative in Gedenken an Oury Jalloh e.V. – Uma organização que foi formada para pressionar por justiça no caso de Oury Jalloh, que mencionei no início do post.

JOLIBA – Interkulturelles Netzwerk in Berlin e.V. – um projeto para apoiar jovens negros na Alemanha

Reach Out / ARIBA e.V. – Uma organização para orientar e apoiar vítimas de violência racista, de ultradireita ou antisemita em Berlim.

Exit Deutschland – não é diretamente ligado a racismo, mas é uma organização com um trabalho super importante que acho que cabe bem aqui: ela é voltada para ajudar pessoas que queiram sair da cena neo-nazista e deixar pra trás esse passado extremista e violento.

Alguns livros sobre o assunto racismo na Alemanha:

Was weiße Menschen nicht über Rassismus hören wollen (Aber wissen sollten) – Alice Hasters

Deutschland Schwarz Weiß – Noah Sow

Deutsch sein und schwarz dazu: Erinnerungen eines Afro-Deutschen – Theodor Michel

Alguns artigos sobre o tema:

Artigos diversos sobre pessoas de origem africana na Alemanha, no site da Bundeszentrale für politische Bildung

Afrodeutsche stehen in Berlin immer unter Verdacht – um pequeno artigo sobre o racismo do dia-a-dia sofrido por um alemão negro de 15 anos de idade.

“Ich wünsche mir ein Bindestrich-Deutschland” – um artigo sobre Aminata Touré, Vize-Landstagpräsidentin (vice-presidente do parlamento estadual) de Schleswig Holstein, uma mulher negra de 26 anos de idade.

“Weiße Deutsche machen zu, sobald das Wort Rassismus fällt” – Uma entrevista com Priscilla Layne, uma professora universitária de germanística, americana e negra, e Céline Barry, alemã negra que trabalha para a EOTO e.V. treinando pessoas contra discriminação.

É isso! Novamente, o pedido: Se você conhecer outras organizações ou livros interessantes que caibam bem nessa lista, me escreve nos comentários que eu adiciono (mas não artigos pq se eu for adicionar todos os artigos ja escritos vai ficar uma lista interminável). E se você é uma pessoa negra vivendo na Alemanha e gostaria de compartilhar situações de racismo sofridas por aqui, fique à vontade para escrever nos comentários ou mandar seu relato por e-mail pelo formulário de contato – se receber alguns relatos, compartilho os mesmos num post sobre o assunto (não esquece de avisar se quer que seu nome apareça no post ou não!).

(Publicado em 09 de Junho de 2020)

Licença m/p-aternidade na Alemanha

Eu prefiro escrever no blog assuntos sobre os quais eu tenho um conhecimento mais direto, em primeira pessoa. Mas como o relógio biológico tá meio com defeito por aqui, resolvi escrever um post sobre licença maternidade e paternidade na Alemanha mesmo não tendo utilizado esse direito, e nem esteja lá com muito planos de vir a utilizá-lo.

Mas, para você que quer experimentar a montanha russa da m/paternidade, mora na Alemanha e quer saber como fica a situação na firma, eis aqui tudo (ou algumas coisas) o que você precisa saber.

Primeiro, separando as coisas direitinho para dar nomes aos bois. Quando a gente fala de licença maternidade ou paternidade na Alemanha, estamos falando de três coisas diferentes e separadas: Mutterschutz, Elternzeit e Elterngeld. Vou explicar as três coisas em detalhes, mas eis aqui um pré resumo: Mutterschutz é uma licença de algumas semanas antes e algumas semanas depois do nascimento, válida apenas para a mãe, que tem a intenção de proteger a mulher e a criança que está para ou acabou de nascer. Elternzeit é a licença m/p-aternidade que você pode tirar se quiser, para passar mais tempo com a criança pequena, ou para cuidar do nenê antes de conseguir uma vaga numa creche. Quando você tira Elternzeit você não recebe o seu salário, mas recebe no lugar o Elterngeld, que vai ser uma porcentagem do seu salário antes de sair de licença.

Mutterschutz (“Proteção materna”)

Mutterschutz é uma licença que vale apenas para a mãe. Na verdade, na definição oficial, é uma proibição de trabalho. Você fica proibida de trabalhar por algumas semanas antes e depois do nascimento. Acho estranho colocar dessa maneira, mas enfim.

O Mutterschutz começa 6 semanas antes da data prevista para o nascimento e dura mais 8 semanas após nascida a criança. Se a criança nascer antes da data, o tempo total de 14 semanas continua valendo. Ou seja, se a criança nascer com 2 semanas de antecedência, aí o Mutterschutz vale por mais 10 semanas após o nascimento. Se a criança nascer depois da data prevista, o Mutterschutz continua valendo por 8 semanas após o nascimento, em qual caso o tempo total seria de mais de 14 semanas.

Porém se a criança nascer de fato prematura (não sei quando é considerado prematuro, mas suponho que seja ainda antes das tais 6 semanas), aí o Mutterschutz dura 12 semanas após o nascimento. O Mutterschutz tem duração maior (12 semanas após o nascimento, além das semanas antes do mesmo) se forem gêmeos (ou mais) ou se a criança tiver alguma deficiência.

A tal proibição de trabalho significa que seu chefe não pode exigir que você trabalhe nesse período. Você pode, se quiser, trabalhar até o nascimento, mas a licença de 8 semanas após o nascimento é obrigatória, você realmente não pode trabalhar nesse tempo mesmo que queira.

Durante o Mutterschutz você recebe o seu salário normalmente. E durante toda a gravidez você não pode ser demitida.

Elternzeit (Licença m/p-aternidade)

Licença paternidade ou maternidade aqui é chamado de Elternzeit. A licença vale igual para pai ou mãe, e pode ter uma duração total de até 3 anos. É isso mesmo que você leu, 3 anos é a duração da licença maternidade ou paternidade. Há várias variações nisso:

Os 3 anos valem para ambos os pais, cada um pode tirar 3 anos. E, inclusive, você não precisa tirar todos os 3 anos de uma vez. Você pode voltar a trabalhar depois de um tempo e depois tirar o resto mais tarde. Você tem até o 8º aniversário do seu filho para tirar o tempo total de 3 anos. Pelo menos 12 meses têm que ser tirados antes do 3º aniversário, mas até 24 meses de licença podem ser tirados entre o terceiro e o oitavo aniversários da criança.

E a licença também é válida exatamente da mesma maneira para as seguintes situações
– para pais adotivos
– para avós, quando o pai OU a mãe da criança for menor de idade
– para outros parentes diretos (irmão ou irmã da criança, tio ou tia da criança, avós ou até bisavós) se os pais da criança morrerem ou tiverem alguma doença muito séria.

Mas acalme-se, acalme-se, não é tudo tão fácil assim. O que vai influenciar a sua decisão de quanto tempo tirar de licença vai ser mais do que simplesmente a sua vontade de ficar em casa criando seu filho. Tem a questão renda. O Elternzeit não é exatamente uma licença, é mais um sábatico. Quer dizer, enquanto você tiver de licença m/p-aternidade, você não pode ser despedido, você têm direito de voltar ao seu cargo quando terminar a licença MAS você não recebe salário durante a mesma.

Não, isso não significa que você fica totalmente sem renda pelo período da licença, é aí que entra o…

Elterngeld (hmmmm… “bolsa m/p-aternidade”? Sei lá como poderíamos chamar isso em português)

Eu vou tentar explicar alguns básicos sobre o Elterngeld, mas a verdade é que o negócio é bem complexo com várias exceções.

Pois bem, o Elterngeld é pago pelo seguro social, e não pelo seu empregador, e será pago por no máximo 12 meses. Pare receber Elterngeld você tem que ter um emprego fixo, porque o valor é uma porcentagem do seu salário líquido, algo normalmente por volta de 65%. Eu digo normalmente porque tem um mínimo e um máximo. Se seu salário é mto baixo, você recebe uma porcentagem maior, e seu salário for muito alto, a porcentagem vai ser menor. O mínimo que você pode receber é 300€ e o máximo 1.800€.

Então, exemplificando: se vc recebe, após descontos, 1.500€ por mês, o Elterngeld que você receberá será de 920,84€ (também líquido), que é 61,39% do seu salário. Essa porcentagem é a que vale pra maior parte das pessoas.
Se você recebe 2.900€ por mês, ou qualquer coisa acima disso, o Elterngeld será de 1.800€, que é o teto.
Se você recebe 380€ por mês, ou qualquer coisa abaixo disso, o Elterngeld será de 300€ ao mês.

O Elterngeld mínimo de 300€ vale também para caso você não tenha emprego ou não tenha um contrato fixo de trabalho (se você for freelancer, autônomo, etc).

Uma alternativa ao Elterngeld é o ElterngeldPlus, que é a opção caso você queira voltar a trabalhar em meio período durante o Elternzeit. Funciona assim: Se você voltar a trabalhar antes de terminarem os 12 meses de Elterngeld, vc pode receber ElterngeldPlus, que é a metade do valor do Elterngeld, pelo dobro do tempo restante.

Vai ficar mais claro com um exemplo: Digamos que você tire 6 meses de licença completa e receba portanto 6 meses de Elterngeld. Voltando a trabalhar em meio período depois dos 6 meses, vc pode continuar recebendo ElterngeldPlus por mais 12 meses.

Exemplo mais concreto. Se vc recebia, antes da licença, 1.000€, durante a licença vc recebe, de Elterngeld, 650€. Se depois de 6 meses vc voltar a trabalhar meio período (até 30h), vc receberá seu salário (que vai ser provavelmente proporcial às horas de trabalho, portanto 750€) + o ElterngeldPlus que nesse caso vai ser 325€, por mais 12 meses. Somando uma renda total de 1.075€.

Isso significa que o total máximo de dinheiro que vc pode receber do seguro social durante a licença vai ser o mesmo, independente de quanto tempo de Elterngeld e quanto tempo de ElterngeldPlus.

Claro que tudo fica duplamente complicado quando você considera que são dois os responsáveis pela criança que podem tirar Elternzeit e receber Elterngeld. Os 12 meses de Elterngeld valem por criança, não por responsável. Significa que ou um dos dois tira os 12 meses, ou os dois dividem os 12 meses entre si. Então se os dois resolverem tirar Elternzeit e receber Elterngeld durante esse tempo, só receberão dinheiro pelos primeiros 6 meses.

MAS aí entra mais um bônus, o chamado Partnerschaftsbonus (Bônus de parceria). Se ambos, pai e mãe (ou os dois pais, ou as duas mães), tirarem pelo menos 2 meses de licença cada recebendo Elterngeld, eles terão direito a 2 meses extra de Elterngeld (14 no total) ou 4 meses extra de ElterngeldPlus. É um extra para incentivar o pai a tirar licença também.

Se pareceu complicado até aqui, não se preocupe, é ainda mais complexo que isso. Existem diversas outras variáveis possíveis que podem resultar em acréscimo no valor do Elterngeld, como por exemplo: se você for mãe ou pai solo (o termo em alemão é “Alleinerzieher“), se você tiver tido gêmeos ou mais ou se você já tiver uma criança em casa e se essa criança tiver menos de 3 anos.

Você também tem direito ao Elterngeld se você for pai/mãe adotivo, se você como avô/avó/tia/tio/irmão for o principal responsável pela criança porque os pais da mesma morreram ou estão incapacitados, e mesmo se você não for alemão mas for residente aqui (mas não vale para todas as situações de visto, estudantes estrangeiros, por exemplo, não têm direito ao Elterngeld).

Considerando todas as variáveis possíveis, é bem complicado saber, exatamente, quanto você pode receber de Elterngeld, ou como melhor decidir a combinação de tempo de licença / tempo de trabalho pra cada um dos pais da criança que resulte na variável mais rentável de Elterngeld + salários e que proporcione um maior tempo para você criar o seu filho. As combinações possíveis são inúmeras.

Caramba, que complicado! E como eu vou fazer para saber exatamente quanto eu posso receber e se eu posso receber, e qual a melhor combinação de licença e trabalho que eu e meu cônjuge podemos escolher pra otimizar o tempo e a renda familiar?

Muita atenção nessa parte, por favor. A resposta pra essa pergunta NÃO É “Vou escrever um e-mail/comentário pra pessoa que escreve esse blog contando todos os detalhes da minha vida e pedindo pra ela me dizer o que eu devo fazer.”

A resposta para essa pergunta é: a pessoa interessada deve entrar em contato com a Elterngeldstelle mais próxima do seu local de residência e tirar com eles todas as suas dúvidas. Elterngeldstelle é o departamento governamental responsável pelo Elterngeld. É lá que você vai entrar com o pedido de recebimento do Elterngeld e é lá que estão as pessoas capazes de responder todas as suas dúvidas. Você pode descobrir qual a Elterngeldstelle entrando nesse site aqui, escolhendo “Elterngeld” como tema e colocando o cep da sua residência alemã. Além disso, pra um pré-calculo básico do Elterngeld você pode usar esse site aqui.

Se você me mandar um e-mail/comentário contando detalhes da sua vida e perguntando se você tem direito ao Elterngeld e quanto você pode receber, a minha resposta será uma cópia exata do parágrafo anterior. (Se você mandar perguntar genéricas em relação a como funciona a licença e a bolsa, eu tento responder na medida da minha capacidade.)

Mas e como eu faço pra resolver essas dúvidas lá se eu não falo nada de alemão?” Tenta em inglês ou leva junto um amigo que fala alemão pra te ajudar.

Mas resumindo o Elterngeld, o que tudo isso significa é: ambos os responsáveis pela criança podem tirar até 3 anos de licença, mas efetivamente só 12 meses de um dos dois (que podem ser dividido entre os dois) é que são remunerados.

Kindergeld (vamos chamar de bolsa família, vai.)

Pera, mas não eram só 3 temas?

Bom, sim. Mutterschutz, Elternzeit e Elterngeld são os três temas que envolvem a licença m/p-aternidade. Mas vale a pena mencionar ainda o Kindergeld, que também interessa a quem está esperando um filho.

Kindergeld é uma bolsa que o governo paga por criança para pagar os custos básicos da mesma. Quem recebe o dinheiro é a pessoa responsável pela criança (se o pai e a mãe forem responsáveis, decidem entre si quem recebe o pagamento, se a criança estiver na custódia de só um dos dois, esse que recebe, e se o responsável for o avô, avó, tio, tia, irmão, pai adotivo, ou quem for, essa pessoa é quem recebe o dinheiro).

O Kindergeld não varia de acordo com a ocupação ou o salário dos pais, todas as famílias recebem o mesmo valor. A única coisa que varia é se houverem mais crianças na família. O valor pago pela primeira e segunda crianças é de 204€ por mês (pra cada criança), pela terceira criança é 210€ ao mês, e pela quarta ou outras crianças posteriores, 235€ ao mês.

O valor é pago mensalmente do momento do nascimento da criança até o mês em que completar 18 anos de idade. Pode ser extendido até a “criança” completar 21 anos se a mesma estiver desempregada após ter terminado um curso técnico ou superior, ou ainda até completar 25 anos se estiver matriculada em um curso técnico ou superior. Após os 25 anos de idade, pais de filhos com deficiências que os impossibilitem de ter uma vida independente podem continuar recebendo o Kindergeld.

Assim como o Elterngeld, o Kindergeld não é um negócio que você recebe automaticamente assim que tiver um filho. Você tem que fazer um requerimento do mesmo na Bundesagentur für Arbeit. Isso pode ser feito nesse site, onde há também o telefone de contato para resolver quaisquer dúvidas.

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Entendido? Resumindo…

Se vc estiver esperando um filho, como mãe vc tem direito a 14 semanas de licença (Mutterschutz) recebendo 100% do seu salário. Pais e mães têm direito a até 3 anos de licença (Elternzeit) que porém é remunerado apenas durante 12 meses pra um dos dois responsáveis (Elterngeld). Além disso, um dos responsáveis receberá pouco mais de 200€ mensais por criança (Kindergeld) pelo menos até que a mesma complete 18 anos, possivelmente, até os 25 anos.

Esses direitos valem para alemães que morem na Alemanha, cidadãos europeus que morem na Alemanha, ou estrangeiros que morem na Alemanha com visto de trabalho.

Acho que vale ainda uma breve discussão de como esses direitos são normalmente utilizados e o quão equalitários eles de fato são.

Exceto pelas 14 semanas que a mãe da criança pode tirar de licença para proteger a ela e ao recém nascido no tempo imediatamente antes e após o nascimento, o resto dos direitos são iguais pra pais e mães o que nos levaria a crer que pronto, desigualdade de gênero no quesito licença paternal está resolvida. Claro que não é tão simples. Na prática, dois fatores pesam na decisão de quem vai tirar a licença e quem vai continuar trabalhando, que é o salário e a expectativa social. Socialmente ainda é esperado que a mãe tire um ano de licença e o pai tire um ou dois meses pra complementar ou pra ajudar no início. E na prática, pela maneira como funciona o cálculo do valor pago pelo seguro social durante a licença, é mais rentável que aquele que tem o salário menor fique de licença. E, na Alemanha como no resto do mundo, quem tem o salário menor na grande maioria dos casos?

A diferença na média de salários entre homens e mulheres na Alemanha é, com dados de 2018, de 21%. Isso é considerando o salário médio por hora de trabalho. Sobre isso soma-se ainda o fato de que os homens trabalham majoritariamente em tempo integral, enquanto que quase metade das mulheres empregadas na Alemanha trabalham meio período. Entre os homens empregados, apenas 11,2% trabalham meio-período, enquanto entre as mulheres essa porcentagem é 47,9%. Os dois fatores combinados resultam no fato de que a renda das mães costuma ser bem menor que a renda dos pais.

E isso tudo tem como consequência que, embora os direitos para ambos sejam os mesmos, a solução economicamente mais rentável pra maioria dos casais independente da vontade pessoal é a mãe tirar a maior parte da licença, normalmente mais que um ano porque demora pra conseguir vaga na creche, e o pai tirar uns dois meses, pra poder somar mais 2 de Elterngeld pelo Partnerschafsbonus.

E isso gera o eterno ciclo vicioso da desigualdade: as mulheres tiram longas licenças pq recebem menos, os empregadores preferem contratar homens pq o risco deles saírem do trabalho por um ano ou mais é menor, assim sendo eles recebem os melhores salários e tem os empregos mais estáveis, que tem como consequência o fato de que não vale a pena pra eles tirarem licença, que resulta em salários menores e empregos menos estáveis pras mães, etc etc infinitamente.

Pra terminar, vou repetir o que já falei lá em cima caso você tenha ficado com preguiça de ler o post inteiro e tenha pulado direto pro final pra escrever um comentário me perguntando sobre algo que eu escrevi mas você ficou com preguiça de ler:

Se você tiver dúvidas sobre o seu caso específico – se vc tem direito a Elterngeld, quanto você vai receber, como você pode otimizar a sua renda combinando Elterngeld e trabalho em meio período – você deve entrar em contato com a Elterngeldstelle mais próxima do seu local de residência e tirar com eles todas as suas dúvidas. Elterngeldstelle é o departamento governamental responsável pelo Elterngeld. É lá que você vai entrar com o pedido de recebimento do Elterngeld e é lá que estão as pessoas capazes de responder todas as suas dúvidas. Você pode descobrir qual a Elterngeldstelle entrando nesse site aqui, escolhendo “Elterngeld” como tema e colocando o cep da sua residência alemã. Além disso, para um pré-calculo básico do Elterngeld você pode usar esse site aqui.

Se, em vez de entrar em contato com a Elterngeldstelle, você entrar em contato comigo pra resolver suas dúvidas, eu vou te responder com uma cópia exata do parágrafo acima. Se você fizer perguntas genéricas a respeito do assunto eu tento responder. Mas se você quiser resolver suas dúvidas do seu caso pessoal, é com a Elterngeldstelle que você tem que conversar.

Você pode ler essas e outras informações direto na fonte, que é o site do Bundesministerium für Familie (Ministério da Família) que, de quebra, ainda tem boa parte das informações nas outras línguas da UE, inclusive português (de Portugal): https://familienportal.de/familienportal/meta/languages/prestacoes-familiares

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(Publicado em 19 de Fevereiro de 2020)

Onde ler mais sobre o assunto?
No site do Bundesministerium für Familie, em alemão.
No mesmo site, resumo das informações em português europeu.
No site Finanztip, em alemão, que explica e dá dicas em diversos temas relacionados a finanças, seguro, financiamento, créditos, direitos do trabalhador, etc.
No site Elternzeit.de, que tem bastante informação sobre o assunto (não é um site governamental mas de uma empresa particular, não é o lugar para encontrar as informações definitivas, nem para entrar em contato com dúvidas!).

Números de identificação

No ano passado eu escrevi um post sobre o documento de identidade alemão, onde comentei que o número do mesmo não importa muito por aqui – ele é um número para identificar aquele documento, e não para identificar você. E eu disse, então, que precisava escrever um post só sobre números de identificação aqui.

Aí esses dias uma amiga recém chegada na Alemanha me perguntou várias coisas dos números de identificação aqui e eu percebi que um post sobre isso seria, mesmo, útil. 

Identifikationsnummer: 00 000 000 000

Na Alemanha tem um número de identificação que identifica a sua pessoa e não muda jamais. Ele chama se Identifikationsnummer, ou ID-Nr. ou, ainda Steuer-ID. Esse número tem 11 dígitos, e vc o recebe ao nascer na Alemanha ou ao se mudar pra Alemanha, valendo pro resto da sua vida. Então se você é recém-chegado por aqui, logo que você for se inscrever na prefeitura como residente daquele município vc será registrado como tal e receberá, alguns dias depois, o seu Identifikationsnummer numa carta com essa cara:

muster_steuer-id

Esse número é muito importante, então guarde essa carta bem guardada. Você vai precisar informar esse número por exemplo para o seu empregador, quando entrar num emprego novo, para o Finanzamt quando declarar seu IR, ou em alguns casos para abrir uma conta no banco, ou coisas assim.

A amiga mencionada no início do post começou a me perguntar sobre os números pq, semanas depois de chegar na Alemanha ela ainda não tinha recebido seu Identifikationsnummer. Seu marido, porém, que chegou e se registrou na prefeitura ao mesmo tempo que ela, já tinha recebido o dele várias semanas antes. Fiquei uns minutos me pergutando porque ela não teria recebido o dela quando me toquei: ela, na verdade, já tinha um! Ela fez um intercâmbio na Alemanha há 10 anos, então ela certamente recebeu um ID-Nr. na época.

Claro que depois de 10 anos ela não tinha mais ideia de onde encontrar a bendita carta com o número, então fomos descobrir como descobrir seu Id-Nr se ele já existe mas você o desconhece. Não foi difícil. Se você tiver perdido o seu número, pode pedir que o Bundeszentralamt für Steuer te envie o mesmo novamente. Isso você pode fazer preenchendo o formulário online aqui: https://www.bzst.de/DE/Privatpersonen/SteuerlicheIdentifikationsnummer/Mitteilung_IdNr/mitteilung_IdNr_node.html
Só que demora até 6 semanas pra eles te mandarem o número de novo. Então se você está precisando do seu número e não quer esperar 6 semanas, outro jeito de encontrá-lo é procurando em documentos onde ele pode aparecer. Se você já fez uma declaração de imposto de renda aqui, o número aparecerá nos papéis da mesma. Se você tem ou teve um emprego aqui, o Steuer-ID aparece nos olerites. E possivelmente em outros papéis ou documentos que não me vêm em mente agora.

Embora vc receba seu Id-Nr. uma vez pra vida, há situações misteriosas, como foi comigo: eu recebi dois, quando cheguei à Alemanha! Não tenho ideia pq. Recebi um depois de me registrar na prefeitura, e algumas semanas depois veio uma segunda carta com um segundo número. Eventualmente esclareci qual número valia e me certifiquei de que o outro estava, digamos, “cancelado”, mas nunca descobri porque motivo misterioso me enviaram dois números diferentes.

Uma observação: pelo que li agora, o Id-Nr existe desde 2007. Então se vc morou na Alemanha antes de 2007 e não morou aqui entre 2007 e hj, vc não tem um Identifikationsnummer.

Então resumindo:
Identifikationsnummer = Id-Nr = Steuer ID: é o seu número de identificação pessoal, vale pra vida inteira e vc recebe automaticamente ao nascer ou se mudar pra Alemanha.

Próximo número importante:

Steuernummer 000/000/00000

Pera. Tem um Steuer-Identifikationsnummer e um Steuernummer e são números diferentes?
Pois sim. Não confunda. Um não tem Identifikation ou ID no nome, o outro tem.
O formato do Steuernummer difere de estado pra estado, mas você reconhece ele pq normalmente tem barras separando grupos de dígitos. Aqui na Saxônia eles seguem o formato 000/000/00000. Em outros estados pode ser que seja 00/000/00000 ou 00000/00000 ou mesmo 00 000 00000.

Enfim. Esse é o seu número como pessoa pagadora de impostos. E ele não é vitalício. Você recebe outro número se se mudar de estado, ou se se casar.

Isso porque aqui casais declaram o IR juntos, é uma declaração só. Então ao casar, o casal recebe um Steuernummer novo, que vale para as duas pessoas.

Diferentemente do Identifikationsnummer, o Steuernummer você não recebe automaticamente ao se mudar pra Alemanha. Vc só terá um Steuernummer se você já tiver feito uma declaração de imposto de renda na Alemanha, ou se tiver se registrado no Finanzamt como Selbständiger (trabalhador autônomo).

O Steuernummer é algo que você só precisa, basicamente, pra fazer a sua declaração de imposto de renda aqui. Então se você estiver fazendo sua primeira declaração e não tiver ainda um Steuernummer, envie a declaração sem o número e o Finanzamt local vai te atribuir um número e você vai sabê-lo quando receber a “resposta” da sua declaração. O mesmo se você casar, ao fazer a sua primeira declaração como casal vc receberá o número novo que vale para os dois.

Um trabalhador autônomo precisa do número, porém, para emitir notas, e por isso precisa se registrar como tal no Finanzamt.

Nenhum documento seu (identidade, carta de motorista, etc) mostrará nenhum desses dois números. Os números que aparecem nos documentos daqui são apenas números daqueles documentos específico. Então, por exemplo, o número da carteira de identidade identifica aquele documento, e não você. Como é com passaportes em qualquer país. Se você renova, o número muda.

É isso! Espero ter que isso resolva uma ou outra dúvida cabeluda por aí!

(Publicado em 17 de Janeiro de 2020)

Algumas das minhas palavras preferidas

Esse não é assim o blog mais visitado da história da internet, mas eu sei que tem alguns poucos leitores regulares. Pra esses: perdoem o sumiço! Não despareci, nem morri, só que às vezes falta o tempo de sentar calmamente para criar um post, mesmo que o assunto não falte.

Mas antes que a barra de rolagem do blog enferruje, eis aqui um post novo!

Eu escrevo poucos posts que sejam mais especificamente sobre aspectos da língua alemã, porque afinal de contas esse é um blog sobre como são as coisas na Alemanha, e não um blog para aprender alemão.

Mas volta e meia abro uma exceção. Tipo quando dá vontade.

E aí deu vontade de escrever sobre algumas das minhas palavras alemãs preferidas.

Posts na temática língua escritos no passado incluem um sobre interjeições alemãs, um outro sobre dialetos alemães. E faz um tempo que eu às vezes uso ou ouço uma palavra em alemão e penso “haha, adoro essa palavra, qualquer hora preciso escrever um post sobre ela”. Fora que, como qualquer pessoa que já aprendeu qualquer língua a um certo nível de fluência sabe, tem certas palavras que não tem tradução exata em outras línguas, e aí quando vc está usando a língua A, sente falta da palavra B, e vice-versa. Então essa aqui é uma lista de algumas palavras alemãs que eu sinto falta quando converso em português (tirando as específicas da profissão que vc nunca mais lembra na própria língua se trabalha em outra!). Provavelmente amanhã eu vou lembrar várias outras palavras que eu não coloquei aqui, mas aí se for um caso escrevo uma continuação um dia desses.

Em negrito, a sílaba tônica:

Supi
Essa fofa palavra nada mais é que o diminutivo da palavra super, que significa – pasmem! – super. A diferença é que em alemão a palavra super é freqüentemente usada sozinha. Em português, “super” é um prefixo com valor de advérbio, e nunca vem sozinha, mas sempre acompanhada do adjetivo que é intensificado pelo prefixo super (lógico que eu dei um rápida pesquisada antes dessa breve aula de gramática, rsrs). Em português vc diria: ‘isso é superlegal’, ‘supergostoso esse sorvete’, ‘supermercado’, ‘supermãe’, etc. Em alemão, super é usado como adjetivo, sozinha, tipo:
“- Tem sorvete na geladeira, viu?”
 – Super!!”

E aí de vez em quando usam o diminutivo supi.
“Já entreguei aquele papel, viu?”
Supi, brigado!”
Se você usar supi em vez de super, vc tira um pouco a intensidade do super. Tipo “legal” e “legalzinho”. Super é mais uma resposta tipo “Oba!” ou “Supimpa!” enquanto que supi é mais um “ok, legal.” “blza, valeu.” 

Tschüsi
Seguindo a linha das palavras diminuidas colocado um i no final, Tschüsi é a versão diminutiva de Tschüss que é a versão alemã de tchau. Tschüsi é basicamente “tchauzinho”. Se eu falo “Supi” ou “Tschüsi“, meu marido comenta que eu já tô bem saxônica, então ele (que é do Oeste) relaciona esses diminutivos com essa região da Alemanha. Mas não acho que sejam exclusivos daqui. 

Übelst
übel
significa enjoado, doente ou mal. 
Nimm es mir nicht übel” é uma expressão útil que traduz bem diretamente pra “não me leve a mal”. Übelkeit significa enjôo. 
Sabendo isso, você vai ficar com muitos pontos de interrogação na cabeça quando ouvir frases como:
Das ist aber übelst geil!
Sie ist ja übelst schön!

Eis que em linguagem coloquial, übelst (bem frequente na linguagem de pessoas mais jovens) é simplesmente um advérbio de intensidade. Que poderia ser traduzido, por exemplo, para super.
Então os dois exemplos acima traduzem para 
“Mas isso é superlegal!”
“Ela é mesmo muuito bonita!”
Segundo meu marido, Übelst tb é regional, então talvez em outras partes da Alemanha vc não vá ouvir. Aqui na Saxônia eu ouço direto.

Dingsbums
“O coiso”, ou ainda “o coiso coisado”, ou mesmo “o treco” ou “troço” (Ding significa coisa). Dingsbums é a minha palavra preferida nessa língua dos demônios pq vc pode usá-la em qualquer situação em que você não lembre (ou não saiba) o substantivo que está querendo usar, e se o contexto ajudar o seu interloculor possivelmente vai prestativamente providenciar a palavra faltante. Obviamente é uma palavra coloquial. Mas altamente útil.

Convenientemente, você pode usar Dingsbums até para se referir a pessoas cujo nome você não lembra. (Bastante útil num país com pessoas com sobrenomes como Lautenschläger, Schwerdtfeger ou Hutschenreuther).  Então por exemplo, digamos que você está no trabalho e seu chefe pergunta:
Haben Sie schon den Erläuterungstext fertig?
(Você já terminou o texto explicativo?)
Ja, ist fertig und abgeschickt.
(Sim, já terminei e enviei)
An wem? An Frau Müller?
(Pra quem? Para a senhora Müller?)
An Frau Müller und an Herrn… äh… Herrn… Dingsbums.
(Para a Sra. Müller e para o… er… pro coiso.)
Sie meinen den Herrn Kunibert Willibald Pfützenreuther-Adelwandsteiner?
(Você quer dizer o Sr. Kunibert Willibald Pfützenreuther-Adelwandsteiner?
Genau. Herrn Pfü… ähh, ja, der.
(Isso, pro Sr. Pfü… er… é, esse aí.)

(Só evite fazer isso na frente da pessoa cujo nome você esqueceu, acho que dispensa o aviso.)

Pipapo
Outra maravilha da língua alemã coloquial, o Pipapo (se pronuncia Pipapô) significa, basicamente, “etcetc” ou “os coisos todos”. 
Por exemplo:
Ich habe schon Fahrkarten besorgt und das ganze Pipapo für die Reise erledigt
(Já comprei as passagens e resolvi os coisos todos da viagem)

Mitbringsel
Mitbringsel é uma coisinha que você traz pra alguém, um presentinho, uma lembrancinha, um souvenir de uma viagem. O que eu gosto da palavra não é o significado, mas como ela é montada. Mitbringen é um verbo que significa “trazer com vc”. 
Kannst du morgen das Buch mitbringen, worüber du gesprochen hast?
(Você pode trazer amanhã com vc aquele livro que vc falou?) 
Sel é um sufixo diminutivo. Então Das Mitbringsel é literalmente “o coisinho de trazer consigo”.   

Bummsinchen
Muitos alemães não conhecem essa palavra, mas ela existe. Bummsinchen é aquele coisitcho de plástico ou de borracha que você cola na parede onde a maçaneta da porta bate quando aberta, pra não danificar a pintura/revestimento/parede. Batedor? Deve ter um nome específico pra isso em português que eu não sei assim como os alemães não sabem Bummsinchen. É uma palavra que mais quem é arquiteto ou da área que vai saber. Mas chama assim. E está na minha lista pq é uma palavra que soa ridícula e que todo mundo acha engraçada. Se você perguntar pra um alemão como que chama esse coisinho (vc pode aproveitar aqui para usar a palavra que vc acabou de aprender lá em cima, Dingsbums) de colar na parede pra maçaneta não bater na parede, e ele não souber, ele certamente vai achar bem engraçado quando vc ensinar pra ele que esse Dingsbums chama Bummsinchen. (Um nome mais neutro seria Türstopper, literalmente “Parador de porta”).

A origem da palavra Bummsinchen também é ótima. Bumm é o barulho que a porta faz quando bate na parede. Então Bummsinchen é o “negocinho de fazer bum”.

FALA se Alemão não é uma língua supimpa?? Eu diria que alemão é super!

Spelunke
Quer adivinhar o que significa Spelunke? De todas as palavras que eu conheço em português e ousaria tentar usar numa frase em alemão na esperança de que o meu interlocutor alemão entendesse do que eu estou falando, ESPELUNCA jamais estaria nessa lista. Mas eis que a tradução de espelunca é… Spelunke. 
A primeira (e pra ser sincera, a única) vez que eu ouvi a palavra Spelunke ser usada em alemão eu quase comecei a rir pq jamais imaginar que logo espelunca seria igual nas duas línguas.

Bom, pra ser precisa, há uma leve diferença. Quando eu digo espelunca em português normalmente eu tô me referindo a uma casa caindo aos pedaços. Spelunke é mais um bar toscão num porão muquifo frequentado por fulanos mal-encarados cheirando a álcool e cigarro. Ou uma casa de jogo. Esses dois significados são, na verdade, tb parte dos significados oficiais de “espelunca”, como acabei de descobrir aqui. 

Stehrümchen
Minha segunda palavra preferida em alemão (a primeira é a próxima), Stehrümchen é um substantivo usado para se referir a bobeiras inúteis que não servem pra nada e só ficam de bobeira ocupando espaço na estante. Tipo o presente de Natal do amigo secreto da firma. Aquela miniatura da Torre Eiffel que sua tia te trouxe de Paris. O cachorro  de plástico com a cabeça que fica balançando que você põe no carro. Uma bola de vidro que você chacoalha pra fazer “nevar” dentro. Um enfeitinho inútil que só ocupa espaço. 

O legal da palavra é a construção da mesma. Rumstehen significa “Stand around” (não tô achando uma boa tradução em português), ficar de bobeira. Chen é um sufixo diminutivo (A essa altura você deve estar se perguntando quantos sufixos diminutivos existem em alemão! Chen, Sel, I. Mas acho que é só, mesmo.). Então Stehrümchen traduz para “coisinha que só fica de bobeira”. O legal do alemão é que dá pra juntar as coisas e criar esses substantivos com significados óbvios.

Feierabend
E pra terminar essa lista, minha palavra alemã preferida de todas as palavras não só alemãs porém de qualquer língua. A melhor palavra já inventada. Feierabend.
Se você sabe um pouco de alemão, talvez saiba que Feier significa festa, e que Abend significa noite (não noite tipo a hora que vc dorme, mas noite tipo as horas entre o fim da tarde e a hora de ir dormir. Em português não tem uma palavra específica pra esse horário, mas é o Evening do inglês.). Assim sendo, se você ouvir a palavra Feierabend sem saber o que ela significa, vai entender “noite de festa”. O que vai gerar certa confusão na sua cabeça quando no fim do expediente na sua primeira semana trabalhando na Alemanha, seu chefe desligar o computador e comentar com você:
Jetzt machen wir Feierabend, oder?
(Agora a gente faz uma noite de festa, né?)
E vc vai ficar:
meme
“Q? Meu chefe tá me convidando pruma festa? Sugerindo algo indecente? Q q tá rolando?”
Calma, muita calma nessa hora. Não presuma assédio. 
Na verdade, seu chefe está apenas sugerindo que você pare de trabalhar e vá pra casa que já tá tarde. 
Feierabend significa, simplesmente, noite após o expediente. Qualquer noite de um dia em que vc trabalhou é uma Feierabend. Feierabend é mais que uma palavra, é um conceito. A “festa” no caso é festejar que terminou o expediente. A noite vc festeja o término do expediente, vc joga os documentos pro alto e vai pra casa aproveitar a vida! 
O brilhante dessa palavra, é que não é uma palavra utilizada em nenhum contexto especial. Ela é uma palavra totalmente normal, utilizada pra se referir a toda e qualquer noite pós-expediente. Você poderia, teoricamente, todo dia se despedir dos seus colegas e chefe no trabalho dizendo
Also, ich mach jetzt Feierabend, bis morgen!
e ninguém acharia estranho!

Essa palavra define a atitude dos alemães em relação ao trabalho. Eles são eficientes, precisos, produtivos, trabalhadores. Mas só no horário do expediente. Deu 17h: Tschüsi!

E por isso que Feierabend é minha palavra alemã preferida. Porque todo dia é dia de festejar o fim do expediente! XD

Pra terminar, uns memes com Feierabend:


(Publicado em 23 de Outubro de 2019)

7 coisas que demoraram 7 anos

Ontem completei 7 anos na Alemanha, e nada melhor que uma data desse tipo pra filosofar sobre o que passou e o que aconteceu.

Esse ano tem sido muito significativo na parte Alemanha da minha história pessoal, e 7 é um número que sempre soa importante. Quebrar espelho dá 7 anos de azar, a semana tem 7 dias, as maravilhas do Mundo eram 7, o Brad Pitt passou 7 anos no Tibet…

O processo de adaptação não é uma coisa que dura uma quantidade finita de anos, é um processo contínuo e possivelmente infinito. Há sempre coisas que vão mudando em você de acordo com as circunstâncias da sua vida e mesmo depois de muitos anos num lugar diferente há ainda coisas que você faz como fazia antes, ou que você foi mudando tão gradualmente que só depois de uma década percebeu de repente que não é mais do jeito que você lembrava. Então, pensando nas coisas que mudaram e nos anos de Alemanha, pensei em escrever sobre 7 coisas que demoraram 7 anos pra acontecer.

1. Vencer a fobia de conversas telefônicas
Eu nunca fui fã de resolver as coisas por telefone já antes de vir pra Alemanha. No curto tempo que trabalhei no Brasil depois de me formar, antes de mudar pra cá, eu já sentia um certo frio na barriga quando meu chefe pedia para resolver algo por telefone. E era raro, nos escritórios em que trabalhei no Brasil eu nunca tive meu próprio ramal de telefone e só precisava atender telefone quando por acaso do destino era a única pessoa presente no escritório no momento.

Daí comecei a trabalhar aqui e essa dificuldade, que era antes um problema pequeno, virou realmente um bicho de sete-cabeças (outra coisa com o número 7!). Pra somar à aversão que eu já tinha de telefone, veio: o fato de que os alemães preferem resolver as coisas por telefone; o fato de que nos escritórios o normal é cada um ter seu próprio ramal e resolver as coisas independentemente e não via chefe; e, claro, a maior pedra no caminho de qualquer imigrante na Alemanha: a língua level Extra Hard. Entender o que alguém está falando por telefone é sempre mais difícil do que entender a pessoa quando você está olhando ela falar. E qualquer coisa não compreendida tem muito potencial de gerar uma situação constrangedora.

E com isso, receber telefonemas ou precisar resolver coisas pelo telefone no trabalho virou um pesadelo, quando eu ouvia o telefone tocar já dava náusea. Quando eu tinha que entrar em contato com alguém, quase sempre dava pra deixar o telefone quietinho na base e resolver por email, mas quando ele tocava não tinha como fugir de atender.

Mas com a constante repetição da experiência, o medo foi bem gradualmente desaparecendo, até que percebi, há pouco tempo atrás, que ele não existia mais. Se preciso resolver algo que é mais simples e rápido de resolver com um rápido telefonema, nem penso duas vezes. E não sinto mais nenhum frio na barriga quando toca o telefone.

Aliás, uma dica de algo que ajudou a lidar com conversas telefônicas é: sempre que eu estou no telefone com alguém eu escrevo as palavras chave do que a pessoa está falando. Isso ajuda pra caramba pra lembrar a conversa em detalhes, porque com línguas estrangeiras é sempre o caso que o seu vocabulário passivo (as palavras que vc entende) é muito maior que o seu vocabulário ativo (as palavras que você usa). Então às vezes você está falando com alguém e entendendo 100% do que a pessoa está te dizendo, mas dois minutos depois, se você precisa repetir o que a pessoa falou vc não consegue porque muitas das palavras que vc compreendeu sem nenhum problema te faltam na hora de formar suas próprias frases. E aí se o negócio é resolver um problema, às vezes é essencial você lembrar mais detalhadamente as palavras que a pessoa usou depois que você desliga o telefone. Então eu vou escrevendo tudo, mesmo que eu esteja entendendo sem o menor problema. E eu percebi que eu faço isso totalmente automaticamente.

2. Me sentir segura o suficiente para ir sozinha em reuniões externas de trabalho
Também gradualmente com a experiência isso foi mudando. Eu me lembro da minha primeira reunião externa de trabalho nesse emprego, eu estava com meu chefe e um colega senior, eu nem precisava falar nada na reunião, meu chefe só estava me levando justamente pra eu acostumar com reuniões, e mesmo assim eu estava super nervosa. Embora eu já tivesse aprendido alemão até o nível C1 na época, eu entendia beeeeeem menos do que hoje, e ficava super perdida em reuniões ou conversas com mais de uma ou duas pessoas. Quanto mais experiência eu fui adquirindo, mais eu compreendia do que estava sendo dito, claro. E por sorte meu chefe me designava tarefas com uma graduação bem precisa de responsabilidades. Primeiro eu fui em reuniões em que algum outro colega era o principal responsável pelo projeto, com o colega em questão e o chefe, só pra assistir; depois eu fui em reuniões onde eu era a principal responsável pelo projeto depois do chefe, mas em que ele explicava o que tinha que ser explicado e respondia a maior parte das perguntas e eu só dava apoio aqui e ali em coisas q eu sabia melhor pq eu que tinha desenhado; depois fui em reuniões em que eu era a principal responsável, e em que eu explicava as coisas e meu chefe só ajudava adicionando algo aqui e ali e respondendo as perguntas mais difíceis; depois fui em reuniões em que eu tive que apresentar um projeto para um grupo grande de pessoas, com meu chefe junto só pra vir socorrer se o alemão abandonasse meu cérebro; daí comecei a ir sozinha em reuniões de trabalho menores com poucas coisas a resolver; comecei a ir sozinha em reuniões de obra; até culminar no desafio mais difícil até agora em termos de reuniões, no mês passado: ir sozinha numa reunião para dar uma apresentação de 20 minutos de um projeto para um grupo de umas 25 pessoas de vários departamentos da prefeitura.

E embora eu tenha ficado tensa pra essa apresentação, não foi nada além da tensão normal que eu teria sentido se fosse apresentar o negócio na minha própria língua.

3. Entender as coisas sem prestar atenção, entender o que está sendo dito em segundo plano
Isso parece que foi de um dia pra outro. Até pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que entendia praticamente tudo o que me fosse dito numa conversa direta com alguém, mas que eu não conseguia entender o que estava sendo dito numa conversa de fundos, no rádio enquanto eu trabalho, ou em qualquer situação similar em que eu não estou me comunicando diretamente com a pessoa que está falando.

Outro dia eu peguei um trem e atrás de mim duas pessoas conversaram a viagem inteira sobre os mais diversos temas. Eram amigos de escola que por acaso se encontraram no trem muitos anos depois e estavam conversando sobre tudo o que tinha acontecido no meio tempo. Eu passei parte da viagem lendo, outra parte fazendo sei lá o quê no computador, outra parte fazendo coisas no celular, mas o tempo inteiro eu fui involuntariamente acompanhando a conversa atrás de mim e trocando olhares com meu marido em reação a determinadas coisas que estavam sendo ditas. E aí que eu percebi que eu estava entendendo coisas de fundo sem prestar atenção, de repente. Não sei desde quando, foi daquelas coias tipo background conversation mode on *plin!*.

Também percebi essa mudança em outros aspectos: até há pouco tempo atrás, se alguém aleatório me falasse alguma coisa na rua inesperadamente, eu só entendia se pedisse pra pessoa repetir, pq na primeira vez eu não estava preparada pra prestar atenção. Notei que ultimamente eu tenho entendido de cara. O que pode ser inconveniente, também, não é mal não entender quando um desconhecido fala algo desagradável pra vc desnecessariamente.

4. Não me incomodar tanto com certas diferenças culturais
Outra coisa que mudou em um período curto de tempo durante o último ano foi o nível de incômodo que sinto com certas diferenças culturais. As pessoas aqui – especialmente aqui em Dresden – podem ser bastante grossas com desconhecidos, em situações totalmente desnecessárias. Qualquer “problema” que aconteça, por menor que seja, as pessoas envolvidas tendem a imediatamente assumir uma posição defensiva de “isso com certeza não foi minha culpa e portanto só pode ter sido culpa sua”. Mesmo quando é completamente desnecessário definir de quem foi a “culpa” pelo “problema” gerado por qualquer leve desentendimento de fácil e rápida solução. E se a pessoa tem bom motivo pra acreditar que está certa e o outro está errado, minha nossa senhora, a atitude de superioridade moral que a pessoa assume é pra deixar até Deus certo de que o erro foi dele.

Isso é uma coisa que pode gerar tanto, mas TANTO stress desnecessário que você fica se perguntando pra quê.

E lidar com isso, se você é de uma cultura diferente pode ser um exercício constante durante anos. Mesmo alemães de outras regiões da Alemanha sentem essa dificuldade por aqui.

Nossa, como eu me estressei com essas coisas nos últimos 7 anos.

E foi interessante perceber como eu passei pelas fases mais diversas pra lidar com isso. Mas, nos meses mais recentes, percebi que parece que essas coisas estão me incomodando bem menos. Que nessas situações eu dou de ombros e poucos minutos depois já esqueci do ocorrido. Bem diferente de antes, quando eu passava o resto do dia remoendo o acontecido, com raiva, ou até chorando pela grosseria com que me trataram tão desnecessariamente. Hoje é mais: whatever, quer se estressar com pouco, fique à vontade, eu tô de boas.

Tomara que continue assim, que não me incomodar tanto com essas coisas é um peso gigante que sai das costas!

5. Me sentir capaz de me integrar num grupo de alemães
Tem vários fatores que influenciam isso. Quem morando aqui nunca sentiu dificuldade de se integrar num grupo de alemães com certeza é exceção. Diferente de no Brasil, onde as pessoas (normalmente) se esforçam para fazer alguém recém chegado no grupo se sentir à vontade, além de mostrar uma clara curiosidade com a pessoa fazendo logo todo tipo de perguntas, na Alemanha as pessoas geralmente não fazem esse esforço. Elas esperam que o esforço de se integrar num grupo já existente seja todo da pessoa nova. Se você estiver tímido ou inseguro, é raro alguém mostrar interesse em você.

Escrevi alguns posts sobre isso, nos meus primeiros anos aqui. Foi motivo de muita frustração no início. Eu já não sou uma pessoa extrovertida, aí ser 100% responsável por me incluir em grupos alheios ou quase forçar as pessoas a me aceitarem como parte do grupo (seja lá que grupo for esse) era uma coisa totalmente estranha para mim.

Mas de uma maneira ou de outra, isso foi mudando aos poucos, talvez eu tenha começado a entender melhor como as pessoas são, o que elas esperam de você, o que elas não esperam de você… algumas diferenças culturais às vezes são tão sutis que não dá nem pra descrever, só sentir. E parece que essas são as que mais influenciam sua habilidade de fazer amigos num lugar novo.

6. Me sentir tão capaz profissionalmente quanto os colegas alemães
Outra coisa que demorou muito mais tempo do que eu imaginava. Eu já escrevi alguns posts sobre o exercício da profissão de arquiteto na Alemanha, onde eu comentei que tem grandes diferenças não só em como determinadas coisas são construídas, mas também como funciona o processo de projeto, licitação, construção no sentido formal e burocrático. Tem tanta coisa nova e diferente que a experiência fora da Alemanha é quase negligenciável. Eu sinto que meus primeiros anos no escritório foram quase uma nova formação, como se eu tivesse que aprender quase tudo do zero, novo, diferente e em alemão. E só depois de um bom tempo é que eu comecei a me sentir capaz de fazer as coisas sem grandes inseguranças de se estava certo ou errado ou o que poderia acontecer se estivesse errado, etc. Principalmente de um ano pra cá mais ou menos (depois de quase 3 anos de experiência no escritório) é que eu me sinto profissionalmente segura e no mesmo nível de capacidade profissional que os colegas alemães de mesma idade.

Ainda há coisas que eu sinto que falta um certo conhecimento, mas há outras coisas que eu faço no trabalho tão bem que no meio tempo acabei virando a pessoa no escritório pra quem os colegas perguntam como faz isso ou como é certo aquilo. E, curiosamente, as coisas que eu faço melhor são bem aquelas das quais eu realmente não tinha a menor ideia antes de trabalhar aqui.

Foi um caminho bem espinhoso, mas é das coisas mais difíceis que você sente mais orgulho no final.

7. A Laís que eu conhecia antes de mudar pra cá reaparecer
A principal consequência de todas essas mudanças (especialmente da última, da confiança na própria capacidade profissional) é que, de repente, pela primeira vez desde que eu cheguei na Alemanha, parece que a Laís que eu conhecia antes reapareceu. (Laís sou eu, tá).

Depois que eu mudei pra cá, e até há pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que a Laís versão Alemanha era uma Laís completamente diferente da Laís que eu conhecia antes de 2012. A Laís no Brasil era uma pessoa confiante, eloqüente, engraçada, segura de si, corajosa. A Laís versão Alemanha 2012-2018 era uma Laís medrosa, insegura, menos capaz, pouco eloqüente, tímida. Tive sérias crises de identidade imaginando o que as pessoas daqui, especialmente colegas de trabalho, deviam achar de mim dado que eu não conseguia demonstrar nenhuma das características que eu considerava que tinha e que eram tão importantes pra minha auto-identificação (principalmente a parte da eloqüência).

E isso foi mudando gradualmente, claro, mas foi bem de um dia pra outro – outro dia – que eu percebi que a Laís tinha voltado, que de repente eu me sentia aqui exatamente como eu me sentia no Brasil, em termos de identidade e personalidade. Perceber isso foi um dos melhores sentimentos que eu já tive!


Antes de terminar esse post, é bom lembrar que a experiência de cada um é diferente. Essas adaptações que pra mim demoraram 7 ou quase 7 anos, pra algumas pessoas podem ter demorado só 7 meses e outras pessoas talvez mesmo depois de 17 anos ainda não sintam que essas coisas mudaram. O tempo que o processo de adaptação leva pra cada um e pra cada aspecto da vida que exige adaptação num país e cultura novos depende de inúmeros fatores: as circunstâncias em que você está, o círculo social à sua volta no país novo, as minúcias culturais da região específica onde você está, o apoio que você tem à sua disposição, e, claro, sua própria personalidade e aquilo que é mais ou menos importante pra você.

Mas uma coisa é certa: o processo de adaptação não é, nunca, fácil. E como eu falei no começo, é constante e infinito. Mas dá um grande alívio ver as enormes pedras que ficaram para trás!


(Publicado em 22 de Julho de 2019)

Dirigir na Alemanha com CNH Brasileira DEPOIS de 6 meses

Eu recebi uma pergunta num comentário sobre dirigir na Alemanha com a CNH brasileira depois dos 6 meses limite, e, como já várias outras vezes me perguntaram isso, ou eu ouvi de pessoas dizerem com a maior naturalidade que dirigem regularmente com CNH brasileira por aqui, resolvi escrever um post SÓ sobre esse assunto, pra informar das possíveis conseqüências e recomendar fortemente que você não faça isso jamais.

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Como eu já expliquei no post sobre como trocar sua CNH brasileira pela Führerschein alemã, sendo residente na Alemanha, você pode dirigir com a sua carta brasileira por 6 meses. Esse período pode ser estendido por mais 6 meses, mas SÓ se você puder provar que vai ficar só 1 ano na Alemanha. Portanto são mais exceções. Mesmo que seja o caso: você tem que pedir a extensão e obter a extensão antes de sair por aí dirigindo.

Caso contrário, ou se você está aqui por um período maior ou indefinidamente, passados os 6 meses, a sua CNH brasileira não é mais válida na Alemanha. 

Já ouvi o argumento “awawa, mas a minha CNH ainda é válida, não é que eu estou dirigindo totalmente sem carta, não deve ser tão ruim assim.”

É.

Dirigir com a CNH brasileira depois de passados os 6 meses da sua chegada aqui, é, legalmente, exatamente a mesma coisa que estar dirigindo sem nunca ter tirado carta, com carta suspensa, ou com o direito de dirigir revogado. Dirigir com carta de fora do país depois de 6 meses é categorizado como dirigir sem habilitação, que é um delito cujas consqüências são independentes do motivo (ou seja, independente de vc ter carta válida em outro país).

E quais são essas conseqüências, afinal? Multa, claro. Mas também, dependendo da situação, você pode pegar até um ano de prisão. A multa é definida caso a caso de acordo com a sua renda, e uma coisa é certa: não vai sair barato. Li do exemplo de um jogador de futebol que foi multado em mais de 500.000€, quinhentos mil euros, por ter sido pego dirigindo sem carta. Lógico que pra pessoas comuns como você e eu, cujas contas bancárias têm uma quantidade limitada de zeros, a multa não vai ser de quinhentos mil euros. Mas ela vai ser definida de acordo com o que vc pode pagar, e certamente também de acordo com o que você preferiria não ter que pagar.

E a prisão? Se você só for parado pela polícia para fiscalização aleatória e não tiver carta, quase com certeza a única conseqüência vai ser a multa. Mas digamos que aconteça um acidente. Qualquer acidente, nem precisa ser algo sério, pode ser algo pequeno. E é nessas situações em que você pode acabar sendo preso por uma coisa boba, por estar dirigindo sem carta. E mesmo que você nem tenha causado o acidente, se você estiver dirigindo sem carta você vai ser parcialmente responsável. Além de quê, o fato de você não ter habilitação válida vai ser motivo suficiente pro seguro do carro se recusar a cobrir qualquer custo que você ou os outros envolvidos venham a ter por causa do acidente.

E além de todas essas coisas, se o carro não for seu, o dono do carro também pode ser parcialmente responsabilizado por deixar alguém sem habilitação válida dirigir o carro.

Ou seja: dirigir com a CNH brasileira depois dos 6 meses é dirigir carro sem seguro, pq o seguro não vai se responsabilizar por nada que acontecer, arriscar levar uma multa altíssima se for pego numa fiscalização de rotina, arriscar ser preso se se envolver em algum acidente qualquer que pode nem ter sido sua culpa, e ainda trazer problemas também para o dono do carro .

Não. Vale. A. Pena.

Já me perguntaram também se rola validar a CNH brasileira em Portugal, onde é muito mais fácil, e aí como Portugal é parte da UE, vc poderia a princípio ficar pra sempre dirigindo na Alemanha com a habilitação portuguesa, sem precisar passar por todo o processo custoso e demorado que é tirar a habilitação alemã.

De fato, se você tiver uma habilitação da UE você não precisa trocar pela alemã enquanto ela estiver válida. Apenas quando ela perder a validade, e você tiver que renová-la, você vai trocá-la pela alemã, mas sem ter que fazer nenhuma prova nem nada.

PORÉM, não, você não pode ir pra Portugal só pra trocar sua habilitação lá e aí voltar pra cá e ficar dirigindo aqui com a habilitação portuguesa, por dois motivos:

Em primeiro lugar, se você, enquanto residente na Alemanha (e quando eu digo residente na Alemanha não me refiro ao status do seu visto, mas ao fato de você ser registrado numa prefeitura na Alemanha como residente local), não pode ir fazer sua habilitação em outro país. Se você tiver feito sua habilitação em outro país enquanto residente na Alemanha, a validade dessa habilitação pode ser cancelada. Provavelmente enquanto a habilitação do outro país, Portugal ou o que for – estiver válida, ninguém vai questionar ou verificar se você estava morando aqui quando fez a habilitação lá. Mas aí quando ela perder a validade e você tiver que trocar pela alemã, você vai ter, sim, que provar que morava em Portugal quando tirou a habilitação lá. E aí como não era o caso, vc não vai conseguir trocá-la pela alemã (e de repente ainda vai ter problema por ter dirigido todo esse tempo com uma habilitação que vc não poderia ter feito).

O outro motivo pelo qual você não pode fazer isso, é que na verdade nem dá pq pra trocar a sua CNH brasileira pela portuguesa em Portugal, você também vai ter que provar lá que reside em Portugal. Você não pode trocar a habilitação sem ter residência lá. Então não rola.

Isso é tudo assim pq os países querem evitar justamente isso: turismo de habilitação, onde as pessoas vão prum país x onde é facinho tirar carta, tiram a carta numa viagem rapidão, e usam a mesma indefinidamente num outro país onde as regras são muito mais rígidas.

Já me perguntaram também de vários outros possíveis, digamos, atalhos, para ter a habilitação alemã com mais facilidade ou usar a brasileira por mais tempo. Por exemplo, se dá pra você sair rapidão da UE e voltar, carimbar o passaporte de novo, e aí “zerar” os 6 meses? Entre outras coisas similares.

Eu muito sinceramente duvido que qualquer dessas ideias mirabolantes funcione. Sair da Alemanha e voltar não adianta nada pq o que conta é você ser residente da Alemanha ou não. Se você tem seu Wohnsitz aqui, ou seja, está registrado aqui, é os 6 meses desde seu registro que importam. Se você for viajar e voltar, isso não vai mudar nada.

Você pode sempre ligar na Führerscheinstelle (ou mandar um e-mail) e perguntar diretamente se isso que você pensou vale, ou não. Não precisa dizer que já está fazendo isso, claro, mas você pode, por exemplo, perguntar coisas como:

“Eu vi que posso dirigir 6 meses com a minha carta brasileira. Mas esses 6 meses são contados a partir do quê? Da data no passaporte? Da data do visto? Ou da data da Anmeldung? São datas diferentes, por isso estou na dúvida.”

Aí dependendo da resposta você continua, por exemplo, se a pessoa respondeu que o que importa é a data do carimbo no passaporte, você poderia perguntar:

Mas eu fui viajar no mês passado pro Brasil, então tem dois carimbos no meu passaporte desse ano. Qual data vale?

Ou então você quer saber o que acontece se você dirigir depois dos 6 meses. Você não vai ligar lá e dizer que já está aqui a um ano e continua dirigindo com a carta de fora, mas você pode ligar, fazer várias perguntas sobre a validade da sua carta e como tirar a alemã, e no meio delas perguntar o que acontece se você dirigir sem a habilitação alemã depois dos 6 meses. Ou, se você está com medo de ligar direto pras autoridades, por assim dizer, perguntando o que acontece se você fizer algo ilegal, você pode também ligar pruma auto-escola e perguntar informações sobre transferir sua habilitação brasileira pra cá. Eles vão te informar tudo, e você ainda pode se sentir na liberdade de perguntar na cara de pau que que acontece se você não respeitar a lei.

O que eu recomendo é:

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Comece o quanto antes o processo de trocar a habilitação pela alemã, ESPECIALMENTE se você não precisar ainda. Porque eventualmente você provavelmente vai acabar precisando, e aí se começar o processo só quando precisar, a demora pode resultar em, digamos, você não poder aceitar uma oferta de emprego qualquer que exige que você dirija. Ou coisa do gênero.

Faça as coisas direitinho porque você é estrangeiro aqui e se der merda pra vc as conseqüências podem ser bem piores do que você gostaria (tipo, e se vc tiver mesmo problema sério com a polícia por dirigir sem carta e aí por isso ainda correr o risco de ser deportado? Ou de não conseguir estender seu visto pq tem passagem na polícia? Ou de não conseguir tirar a nacionalidade alemã num futuro distante, se você tem essa expectativa, por ter passagem na polícia? Vale a pena?)

Se você resolver dirigir mesmo não tendo uma habilitação válida aqui, certifique-se de que você sabe exatamente o que está fazendo e os riscos que está correndo. Não se engane dizendo para si mesmo que se a polícia te parar você explica a situação e eles vão te dar um desconto. Sério, o risco que você está correndo não vale a pena.

Leia aqui os posts sobre o processo de validação da CNH na Alemanha:

Dirigindo na Alemanha: validando a CNH

Dirigindo na Alemanha: a prova teórica

Dirigindo na Alemanha: a prova prática


Achou que esse post é só pra fazer terrorismo e as informações dele não são verdade?

Busque as informações na fonte!

Lei alemã sobre dirigir sem habilitação – StVG §21, pode ser lida aqui (site http://www.gesetzte-im-internet.de, do Ministério Federal de Justiça, que disponibiliza todas as leis alemãs online)

Um artigo sobre o assunto de dirigir sem habilitação do site Bußgeldkatalog.de, gerido pela empresa VRF Verlag für Rechtsjornalismus GmbH, que mantém diferentes sites sobre direito e finanças.

Um artigo sobre dirigir com carta estrangeira depois dos 6 meses limite, do IWW (Institut für Wissen und Wirtschaft)

Um artigo sobre o assunto no site Anwalt.de escrito por uma advogada especializada em leis de trânsito, que diz claramente que dirigir com carta estrangeira depois dos 6 meses é o mesmo que dirigir sem carta.

O mesmo num outro site de advocacia.


(Publicado em 20 de Junho de 2019)

Comprando bilhetes de trem (IC/ICE) – Parte 2: Entendendo seu bilhete e viajando com ele

Esse post é a segunda parte do post sobre como comprar bilhetes de trem da Deutsche Bahn. Se você comprou seu bilhete seguindo os passos descritos no primeiro post, você deve ter agora recebido seu bilhete por e-mail e está nesse momento olhando para ele sem entender patavina (assumindo que você está lendo esse post pq quer comprar um bilhete de trem mas não fala alemão).

2. Entendendo seu bilhete

Pois bem, essa é a cara do seu bilhete:

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Eu falei no outro post que você pode ou imprimir o bilhete ou mostrá-lo no celular, mas ATENÇÃO! Para mostrar o bilhete no celular, você precisa baixar o App da DB (DB Navigator) e carregar o bilhete lá! Não é pra mostrar esse PDF no celular (talvez funcione, também, mas eles falam que é pra baixar no app, então melhor não arriscar). Então ou você imprime esse PDF que recebeu por email, ou você carrega o bilhete no app DB Navigator usando para isso o Auftragsnummer  que aparece no bilhete, no assunto do e-mail e, inclusive, é o nome do PDF com o bilhete. É uma sequência de 6 dígitos, números 3/ou letras.

Note que, se você comprou uma passagem para duas pessoas, ou mais, o bilhete é um só. Ali aparece que o bilhete é válido para 2 adultos, um com um cartão de desconto BahnCard 25. (Erw: 2, mit 1 BC25)

As informações importantes desse bilhete, pra você, aparecem nesse quadro:

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A primeira parte (Ihre Reiseverbindung und Reservierung Hinfahrt am…) é o bilhete de ida.

Aparece a estação onde você vai pegar o trem, no caso Dresden-Neustadt, a estação de desntino, no caso Eisenach. A data, o horário de saída e horário de chegada, a plataforma de saída e plataforma de chegada, o número do trem (nesse caso é o ICE 1552), e os detalhes da reserva do assento. Ali diz que são 2 assentos (2 Sitzplätze), no Vagão 21 (Wg. 21), assentos 32 e 34, um na janela (Fenster) e um no corredor (Gang), no vagão aberto (com vagão aberto eu quero dizer sem compartimentos, com os assentos dispostos como num ônibus, por exemplo. Não sei se tem um nome específico em português pra isso. Em alemão é Großraum), Vagão para não-fumantes (Nichtraucher), Vagão com uso de celular permitido (Handy, no post anterior eu expliquei que tem vagões onde não é permitido falar no telefone durante a viagem), e número da reserva. Note que, apesar de estar especificado que o vagão é para não-fumantes, na verdade não há vagão para fumantes, é proibido fumar em qualquer lugar do trem. Eles escrevem em todos só pra deixar claro, mas não há um vagão onde seja permitido fumar.

Na segunda parte (Ihre Reiseverbindung und Reservierung Rückfahrt am…), os detalhes da viagem de volta.

Nesse caso são dois trens, um de Eisenach até Leipzig e um de Leipzig até Dresden Neustadt. Ou seja, você tem que trocar de trem em Leipzig HBF. O primeiro trem chega na plataforma 11 às 21:10 e o segundo trem sai da plataforma 15 às 21:30. Então você tem 20 minutos pra descer do trem, andar até a outra plataforma e pegar o segundo trem.

Ok, bilhete compreendido, como funciona a viagem?

3. A viagem

Você vai chegar na estação, de preferência com alguma antecedência, e a primeira coisa a fazer é, claro, descobrir de qual plataforma sai o seu trem. Embora esteja escrito no seu bilhete, é bom checar no painel grandão do saguão pra ter certeza que não mudou.

Na plataforma, os painéis menores também indicam o próximo trem a sair de lá. Por exemplo, esse painel da foto mostra que o próximo trem chega às 14:51 (Ankunft: chegada), é o trem de número RB 17221 (portanto um trem regional), e está vindo de Zwickau. Normalmente o painel mostra para o onde o trem vai, e não de onde ele vem. Mas esse trem provavelmente ia terminar aí, então o painel só motrava as informações do trem em si, e não da partida, mais pra quem estivesse por exemplo esperando alguém que chegue nesse trem.

Ao procurar seu trem em quaisquer painéis, lembre-se de que a estação que aparece na sua passagem, que é o seu destino, possivelmente não é a estação final do trem. E essa não aparece no seu bilhete. Então procure sempre pelo número do trem e o horário. De acordo com a passagem exemplo que eu coloquei lá em cima, é o ICE 1552 das 18:16 que você vai procurar no painel, e não um trem pra Eisenach. Esse ICE 1552 vai pra Frankfurt (Main), e o nome da cidade que é o seu destino (nesse caso-exemplo, Eisenach), não vai aparecer em lugar nenhum, exceto talveeeez no visorzinho digital do lado da porta de cada vagão do trem.

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O painel acima, da plataforma 3, mostra que o próximo trem, o IC 2448, sai às 19:10 para Hannover Hbf, passando em Leipzig Hbf e Magdeburg Hbf (não aparecem todas as cidades onde ele pára, só as principais). Ali pequenininho do lado tb mostra em que áreas da plataforma estão os vagões da segunda classe, os da primeira classe, e o vagão onde dá pra colocar bicicletas.

Tenha em mente também que, se você  chegar na plataforma muito cedo, é bem provável que o painel da plataforma esteja mostrando ainda algum trem anterior. Fique de olho no painel para saber também se é mesmo o seu trem que está chegando, e não algum outro que vem antes, e também para ficar a par de quaisquer avisos referentes ao seu trem – como atrasos, mudança de plataforma, troca na ordem dos vagões, etc. Na foto acima, aparecem na parte debaixo do painel os próximos dois trens que chegarão naquela plataforma: o IC 2047 vindo de Colônia, e o IC 2079 vindo de Berlim. Se aparece “von …”, significa que o trem está vindo daquela cidade, e não indo pra ela. Então ele provavelmente termina nessa estação e não segue para nenhuma outra, e o trem aparece no painel apenas para informar quem esteja por exemplo esperando alguém que vai chegar naquele trem.

Inconvenientemente para turistas, eventuais avisos nos painéis aparecerão somente em alemão, e serão anunciados no alto-falante da plataforma, também quase sempre só em alemão. Então se você notar algo estranho – algum aviso no painel que você não entende, alguma coisa anunciada no alto-falante a que as outras pessoas esperando na plataforma pareceram ter alguma reação (tipo todo mundo parado na plataforma começou a se mover proutro lugar), o jeito é perguntar para alguém ali.

Se você tiver reservado assento, você vai estar se perguntando como fazer pra encontrar seu vagão e seu assento. É claro que nos vagões estará escrito o número, mas se o trem vem, para 2 minutos pra todo mundo subir e descer, e continua, você vai querer saber mais ou menos onde vai parar seu vagão antes do trem chegar na plataforma. Pra isso servem uns painéis impressos com o mapa dos trens espalhados pela plataforma. Eles têm essa cara aqui:

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Lá você procura pelo seu trem e horário, digamos o ICE 1552 das 18:10. ali no mapinha do trem você procura o número do seu vagão, digamos 27 (os ICs têm vagões numerados 1, 2, 3…, enquanto nos ICEs a numeração começa no número 21). Achando o vagão, você vê em que área da plataforma ele vai parar, são as letrinhas que aparecem na última linha desse painel da foto, A, B, C, D, E ou F. Nesse caso, o vagão 27 estará na região D. Aí você se dirige pra área da plataforma que tenha uma plaquinha com aquela letra, elas têm essa cara:

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Chegando o trem, você vai olhando os números dos vagões que forem passando por você pra ir acompanhando. Ideal é sempre entrar direto no vagão onde está seu assento, pq ficar percorrendo os corredores do trem com um monte de mala na hora que tá todo mundo entrando, procurando seus lugares, guardando malas, dando espaço para outros sentarem, etc, é a maior inconveniência. Especialmente se o trem estiver super cheio e tiver um monte de gente de pé nos corredores, aí se você entrar num vagão distante do seu, se pá vc nem consegue mais chegar no seu assento. Mas, claro, se seu vagão parou do outro lado da plataforma e o trem é quilométrico e sai dali a 2 minutos, melhor entrar logo no meio e ir por dentro até chegar no seu.

MAS CUIDADO! Nem sempre dá pra acessar todos os outros vagões do trem por dentro! Isso porque alguns trens são divididos. São basicamente dois trens presos um no outro, e aí em alguma estação no meio do caminho eles são divididos em dois trens separados e vai cada um prum lado diferente. Então se você entrar no lado errado do trem, vc pode não conseguir chegar no seu vagão por dentro do trem (além de poder acabar indo pra outra cidade pq estava na parte do trem que ia pra outro lugar… ops!). Por isso o ideal é sempre ver no mapinha onde vai estar o seu vagão e entrar direto nele.

No painel da foto abaixo, o trem que está pra chegar é um desses com dois pedaços, e o mapa do trem aparece já no painel eletrônico (nem sempre aparece).

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Nesse exemplo, o trem ICE 1652 das 08:16 para Wiesbaden HBF têm duas metades, a primeira com os vagões 31 a 38, nas áreas A a C da plataforma, e a segunda metade têm os vagões 21 a 28, nas áreas C a F da estação. Então se seu vagão for o 24 e vc entrar no trem no vagão 32, vc não vai conseguir chegar no seu vagão por dentro do trem.

E se você não tiver reservado assento, tome cuidado em trens que se dividem de entrar na metade certa (aí o melhor é perguntar prum funcionário do trem na hora de entrar no mesmo, se vc não tiver certeza de qual metade é a sua).

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“Leipzig IC” by ArtVandelay13 – Own work – Wikipedia

Os números dos vagões estarão escritos nos visores ao lado das portas dos vagões, onde também vai estar escrito o número do trem, pra você checar de novo e não entrar no errado. Como cada vagão tem duas portas, uma em cada extremo do vagão, está escrito também a numeração do assento que é mais próxima daquela porta. Então, por exemplo: Numa porta estará escrito: 1-60 e na outra porta: 61-120. Quer dizer que os assentos 1-60 daquele vagão estão na primeira metade, e os assentos 61-120 na segunda metade. Se seu assento for o 34, digamos, o ideal é entrar na porta que estiver indicando 1-60, que a distância até o seu assento é mais curta. E quanto menos você tiver que atravessar corredores tropeçando nas pessoas e batendo sua mala pelos lados, melhor.

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Nesse IC da foto acima, o vagão na nossa frente é o vagão número 5. O 1 gigante ali em cima indica a classe, não o número do vagão. Então vagão 5 é da primeira classe. Entrando por essa porta você está mais perto dos assentos 10-50 do andar debaixo e 100-140 do andar de cima. O símbolo com o “Psst” que aparece aí indica que é um vagão “silencioso”  (onde não é permitido falar no celular durante a viagem, ou conversar alto, ou fazer barulhos desnecessários).

Entrando no trem, a numeração dos assentos está marcada ou sobre os assentos, ou, nos trens mais novos, na lateral encosto do assento do corredor:

Você vê o número do assento e a indicação de se o assento é na janela ou no corredor. Então nessa foto do exemplo o assento 33 é o da janela, e o 32 é o do corredor. No visorzinho aparece a informação da reserva do assento. Se o assento está reservado, aparecerá as estações entre as quais ele está reservado. Por exemplo, se você está indo de Hannover a Nuremberg num trem que começa em Hamburgo e vai até Munique, e vc reservou assento, aquele assento estará reservado apenas entre Hannover e Nuremberg. Então até o trem chegar em Hannover, vai aparecer no visorzinho “Hannover HBF – Nürnberg HBF” Então se uma outra pessoa entrar no trem em Hamburgo para descer em Hannover, ela pode tranquilamente sentar naquele assento sabendo que ele está reservado apenas a partir de Hannover.

O aviso do visorzinho vai desaparecer 15 minutos depois do trem sair da estação marcada como início da reserva. Então no nosso exemplo, 15 minutos depois do trem partir de Hannover HBF, o aviso da reserva desaparece do visor. Isso porque seu assento fica reservado por 15 minutos, depois desse tempo ou vc está sentado lá, ou o assento fica liberado pra quem quiser sentar lá. Outro motivo pra vc não entrar num vagão muito distante do seu, no trem.

Talvez você se pergunte, olhando a foto acima: Mas e esse “ggf. freigeben“, significa o quê? Alguns assentos terão esse aviso no visor porque eles ficam separados para reservas de última hora, ou outras situações como para pessoas com problemas de mobilidade. ggf. freigeben significa que a princípio vc pode sentar lá, mas pode ser que de repente apareça alguém com uma reserva praquele assento, ou com o direito de sentar lá por um motivo qualquer. Ou seja, sente lá só se todo o resto estiver ocupado.

Às vezes os visores por algum motivo qq não estão funcionando. Aí pode bem ser que você esteja lá sentandinho de boas num assento sem reserva marcada, e aí aparece alguém com reserva praquele assento. Paciência, quem reservou tem direito ao assento, independente do visor estar ou não funcionando.

Também pode ser que você tenha reservado um assento e ao chegar lá tenha alguém sentado lá – que ou não sabia que tava marcado no visor a reserva pq nunca viajou de trem, ou pq o visor tava desligado por um motivo qq na hora que a pessoa sentou, ou pq a pessoa sentou lá na esperaça de que você não aparecesse, ou não tivesse coragem de pedir pra ela ceder o lugar. Nesses casos eu não faço a menor cerimônia, aviso sem hesitar que o assento está reservado (aliás, acontece frequentemente). Se por algum motivo a pessoa se recusar a sair do seu assento (nunca me aconteceu, mas já presenciei ocorrer com alguém), procure logo o fiscal de bilhetes pra resolver o assunto. MAS Antes de chegar chegando falando que a pessoa está no seu assento, certifique-se de que ela está, mesmo, no seu assento! E que você não está no vagão errado sem querer, ou olhou errado a numeração.

Finalmente, pode ainda ocorrer de o assento não estar reservado mas estar ocupado por um objeto inanimado que não sente dor nas costas nem cansaço nos joelhos, digamos uma mochila. Uma situação recorrente em meios de transporte alemães, independente da quantidade de pessoas de pé no corredor ao lado do assento ocupado pela mal-educada mochila. Não espere que um alemão vá tirar sua mochila do lugar ao seu lado ao ver uma pessoa se aproximando e sendo aquele o único assento vazio, não vai ocorrer. Você vai ter que pedir. Peça, sem cerimônia. Mochila não precisa sentar. (claro, apesar da tremenda falta de educação de deixar uma mochila ocupando um assento num trem cheio, pergunte educadamente se o assento está livre que de repente a mochila é de alguém que só foi até o banheiro e já volta… Regras sociais locais: claro que vc pode levantar e ir ao banheiro ou buscar um cafezinho sem perder seu lugar.)

O seu bilhete será verificado pelo fiscal que passa depois de cada estação olhando os bilhetes. Se o fiscal for o mesmo que já passou por ali antes, ele passa dizendo “Zugestiegene Fahrgäste, Fahrscheine bitte”, ou “Passageiros que entraram agora, a passagem, por favor.” O que significa que se você já mostrou sua passagem pra ele antes, você pode ficar quietinho de boas sem mostrar de novo. Se eles decoram todo mundo de quem eles já olharam a passagem? Tenho minhas dúvidas. Mas se você confidentemente continuar fazendo o que estava fazendo sem dar atenção pro fiscal passando, ele quase provavelmente vai se convencer de que já viu sua passagem. Se você for uma pessoa que passa despercebido por aqui. Se você for alguém diferente da aparência típica alemã, certamente o fiscal vai perceber que não te viu antes. Se mudar o fiscal no meio do caminho, aí sim ele vai pedir pra ver todas as passagens de novo.

Se você baixou o app e colocou o ticket nele, você pode mostrar o “Handy-Ticket” no celular em vez de levar o bilhete impresso. E se você tiver também reservado assento, você pode fazer um check-in via app e aí não precisa mostrar bilhete nenhum pra fiscal nenhum. Esse sistema de check-in é uma coisa nova, o fiscal recebe na maquininha dele o aviso de que o passageiro do assento xyz já fez o check-in (e está portanto com o bilhete em ordem e sentado no assento que reservou) e não precisa verificar o bilhete do mesmo.

Durante a viagem, fique atento caso a sua estação não seja a estação final do trem. Em estações menores, o trem pára apenas por dois, três minutos, então você já tem que estar preparado para descer do trem na hora que ele chegar na estação. Atrasos de alguns minutos não são incomuns. Infelizmente, nos últimos temposa atrasos de muitos minutos também não tem sido incomuns. Se o trem estiver atrasado e você estiver correndo o risco de perder sua conexão, normalmente o condutor vai avisar no alto falante a situação de todas as conexões – se vai dar pra pegar, qual a plataforma, ou qual alternativa tem caso a conexão vá ser perdida pelo atraso. Normalmente eles fazem esses anúncios em inglês também. Se você ainda estiver em dúvida, pergunte para o fiscal de passagens que ele te dá as informações direitinho.

Se você vai pegar um segundo trem ao descer do primeiro, preste atenção que às vezes o tempo para a troca é BEM curto, por exemplo 4 minutos. Nesses casos a plataforma do segundo trem costuma ser a mesma, ou a que fica logo a frente da em que você vai descer. Mas esteja preparado para sair rápido e andar/correr para a plataforma do seu segundo trem, especialmente se o primeiro chegar atrasado.

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Ok, acho que é isso o que dá pra falar sobre os ICEs e ICs.

Nos próximos dias posto ainda a parte 3 deste longo post sobre comprar passagens de trem, falando de como funcionam as passagens para os trens regionais!


(Publicado em 18 de Junho de 2019)

Comprando bilhetes de trem (IC/ICE) – Parte 1: Passo a passo no site da Deutsche Bahn

Já faz um tempo eu escrevi um post bem completo sobre como funcionam os trens por aqui – os tipos de trem, como encontrar seu trem na estação, como encontrar seu vagão no trem, entre outras coisas. O post é de 2015, mas as informações ainda estão em dia, só tem uns trens mais modernos entre os que aparecem na foto, mas fora isso o resto funciona da mesma maneira.

Mas uma grande pergunta para uma pessoa que está viajando ou morando na Alemanha sem falar alemão pode ser: com comprar uma passagem de trem. Na verdade, alguns detalhes sobre comprar passagens e pegar trens até pra alguns alemães são misteriosas – tem gente que é tão acostumado a viajar de carro que praticamente nunca na vida pegou um ICE, embora em várias situações seja muito mais prático, e em algumas inclusive mais barato.

Curiosamente, eu comecei esse post uns dias atrás, escrevi esses dois parágrafos e deixei guardado. Aí ontem uma colega do trabalho me pede pra ajudar ela a comprar um bilhete de trem pelo celular porque ela nunca comprou e não tinha ideia como fazia! (sim, alemã).

Então pronto, faz mesmo sentido escrever esse post.

Bom, há 4 alternativas para você comprar seu bilhete de trem: Ou você baixa o App da Deutsche Bahn (DB Navigator) e compra pelo app, ou você compra pela internet normal, ou você compra numa das maquininhas de bilhetes disponíveis nas estações de trem, ou você compra no guichê na estação (mas só as estações maiores têm guichês de venda de bilhetes). Comprar no guichê é, contraditoriamente, a pior opção. Se você não ler esse post e tentar escolher a melhor forma de comprar seu bilhete, você provavelmente chegará à conclusão de que o mais fácil é ir no guichê, onde um funcionário treinado não apenas te venderá o bilhete correto, como também saberá te informar qual opção de bilhete faz mais sentido para a sua viagem.

Nope.

Na minha experiência com compra de bilhete em guichês, o atendente vai te vender o bilhete que você pedir mas não vai fazer o menor esforço de te informar se houver alguma opção melhor ou mais barata. Em uma ou outra ocasião eu perguntei e a resposta foi “não sei, isso você que tem que saber”. Hein?? Eu?? Achei que o funcionário da DB fosse ele não eu. Desde então eu me esforcei pra entender como funcionam as variações de bilhetes e ser capaz, assim, de descobrir por conta própria qual a melhor opção. Como você pode imaginar, eu nunca mais tentei ou tentarei comprar um bilhete no guichê. Mas essas experiências ruins foram de épocas passadas em que as pessoas nem tinham smartphones com internets sempre disponíveis. De lá pra cá passaram vários anos e se pá nesse meio tempo a Deutsche Bahn se esforçou em treinar melhor seus atendentes e agora o pessoal do guichê é super prestativo e te dá todas as dicas. Você pode testar, se quiser.

Oooooou você pode ler esse post até o final e ficar craque em comprar bilhetes de trem na Alemanha por conta própria.

As outras três opções – pelo app, pela maquininha na estação ou pelo site – são parecidas, é mais o layout da tela que muda. Eu vou explicar como comprar um bilhete pelo site, e depois comentar algumas particularidades do app ou da maquininha.

Entra lá em bahn.de e a gente vai seguindo junto.

Primeiro é bom você ter uma noção dos diferentes tipos de trem que existem. Eu falei sobre isso com mais detalhes no post sobre trens, mas resumindo: Tem os trens Regionais (Regionalbahn, RB ou Regionalbahn Express, RE), que conectam cidades e vilas numa mesma região. Vilas e vilarejos menores são conectados apenas com o sistema de trens regionais. Tem os trens entre cidades (Intercity, IC), que são mais rápidos, param em menos locais e fazem trechos mais longos. E tem os trens expressos (Intercity Express, ICE), que fazem as conexões mais rápidas, parando em menos estações, e com os trens mais modernos. Essas quatro abreviações são as mais importantes pra você saber o que você está comprando: RB, RE, IC ou ICE. Há ainda outros tipos também, mas esses são os básicos e mais comuns.

Pra começar a sua procura, você tem que ter uma idéia de qual desses trens você vai provavelmente precisar. Se sua viagem for algo curto, de uma cidade para uma outra vizinha, do mesmo estado, é um trem Regional, RB ou RE. Se for uma viagem mais longa, entre cidades grandes, é um IC ou ICE. (Você pode, claro, ir de Berlin a Stuttgart pegando só trens regionais se quiser, mas vai demorar a vida e nem vai necessariamente sair muito mais barato). Então dependendo de qual das duas opções for, a maneira de buscar o bilhete vai ser diferente. Como quero escrever um post bem completo, vou separar em pedaços. Essa primeira parte vai ser sobre o passo a passo para comprar um bilhete para os trens IC ou ICE. Na segunda parte vou explicar como funciona seu bilhete, o que está escrito nele, como encontrar seu assento, e como é a viagem. E na terceira parte, como funcionam os bilhetes para os trens regionais. Entõa bora:

Comprando um bilhete para os trens rápidos de longa distância IC ou ICE.
1 . Passo a passo da compra

Entrando no site da Deutsche Bahn, já logo lá na página inicial estão os campos de busca de passagens. Você pode usar esses campos para buscar passagens se vc tiver um horário específico quando você quer pegar o trem. Se você for um pouco mais flexível em termos de horário, uma boa alternativa é procurar a passagem usando o Sparpreis-Finder, a segunda aba preta ali logo em cima dos campos de busca, que é um sistema de busca que te mostra todas as passagens do dia escolhido, organizadas da mais barata à mais cara. É uma maneira boa de comparar os preços de acordo com o horário e ajustar o horário da sua viagem de acordo com o que for mais em conta.

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Pelo Sparpreis Finder ou pelo sistema de busca normal, as informações que você tem que colocar são basicamente as mesmas: estação de origem, estação de destino, data, horário. Se você clicar ali na flechinha ao lado das estações, abre o resto da página com o resto das informações: data e horário do retorno, número de passageiros e descontos de cada passageiro (se for criança é mais barato, ou se tiver um cartão de desconto – Bahncard – é lá que vc indica). Se você for comprar só uma passagem de ida, é só deletar o campo da passagem de volta clicando no simbolozinho do lixinho ali na direita (aparece na imagem a seguir). A página de busca no Sparpreis-Finder é assim:

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Em vez de colocar um horário específico, você coloca uma faixa de horário (pode ser o dia inteiro) que ele mostra todos as conexões praquela faixa de horário, pra você comparar.

Algo que você vai notar ao digitar uma cidade na estação é que: as cidades médias e maiores costumam ter mais de uma estação de trem. Digamos que você está indo de Colônia a Berlin. Ao digitar qualquer uma dessas duas cidades, o site te mostra várias opções de estações naquela cidade:

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Quase sempre tem uma estação chamada “Nome da Cidade HBF”. HBF é abreviação de Hauptbahnhof, que significa estação central (bom, na verdade significa “estação principal”, mas em português não se diz estação principal mas estação central). Ou seja, a estação principal, e maior, daquela cidade é a HBF. Mas se você sabe exatamente onde você vai, você pode procurar pela estação específica que fica mais próxima da sua casa/hotel/destino final. Não precisa nem ser uma estação de trem, na verdade. Até os pontos de ônibus aparecem, se você procurar pelo nome. O site vai te mostrar a conexão completa até chegar naquele ponto, ou seja: o trem ICE de uma cidade pra outra + o trem/tram/ônibus municipal que te leva até aquela estação ou ponto específico que você quer. É bem prático pq nooooormalmente o preço não muda. A passagem de ônibus ou tram ou o que for vai estar inclusa no preço do trem. Então é sempre ideal colocar as estações específicas que fazem mais sentido pra você. Se você colocar só a conexão de estação central pra estação central e aí quiser pegar um ônibus na cidade pra chegar no seu destino final, você vai ter que pagar o preço do ônibus extra e separado.

NEM SEMPRE a passagem do transporte municipal estará inclusa sem mudar o preço do trem, então vale a pena dar uma comparada.

Pois bem, vamos supor que estamos viajando da estação central de Colônia (Köln HBF) para a estação Friedrichstraße em Berlin, e você vai no dia 03 de Setembro e volta no dia 10 de Setembro. A página que o Sparpreis-Finder vai te mostrar é a seguinte:

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Você vê na coluna da esquerda um resumo das informações que você deu, daí de um lado as opções de passagens de ida, organizadas da mais barata pra mais cara, e do outro lado, as opções de passagens de volta. Você vê também o horário de saída e de chegada, a duração da viagem, a quantidade de trocas de trem, e o tipo de trem. Clicando ali na lupinha, o site te mostra bonitinho os detalhes da viagem: onde são as trocas, quanto tempo de espera entre os dois trens e qual o tipo de trem pra cada trecho. Digamos que a melhor opção na nossa opinião é ida às 12:48, custa 19,90€, a viagem dura 4:29 e vc troca de trem uma vez. Para a volta vamos escolher um horário similar, 12:37. Mesmo preço, duração de 4:32, uma troca. O preço que o site me mostra aqui é o preço total para todos os passageiros que você colocou nos campos de busca. Você talvez tenha notado – se prestou atenção na coluna da esquerda – que eu coloquei um adulto e duas crianças. Então os preços mostrados são para o adulto e as duas crianças, juntos. No caso dessa passagem as crianças tão indo de graça. Sinceramente não sei como funciona com preços de passagens pra crianças, se é sempre de graça, se depende da conexão, não tenho filhos portanto nunca precisei saber e portanto não sei. Rolando a página até o final aparece lá no cantinho direito um botão vermelho que diz “Zur Buchung“, que é o que vc vai clicar para reservar a passagem escolhida.

Mas nós vamos antes dar uma olhada em como escolher a passagem pelos campos de busca normais, quer dizer, sem ser pelo Sparpreis-Finder. Digitando lá as informações de busca, o site te mostra a seguinte página:

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Eu coloquei 12:00 como horário, então o site me mostra três opções de trem, as três primeiras a partir do meio dia. A primeira opção é aquela lá que nós escolhemos no Sparpreis-Finder. Aqui você vê dois preços diferentes, o “Sparangebote“, que é a oferta econômica, e o Flexpreis, que é o preço flexível, bem mais caro. O Sparpreis-Finder é especificamente para comparar os preços da oferta econômica, por isso ele não te mostra o preço mais caro, o Flexpreis. Quando for a hora de escolher os preços, mais pra frente, eu explico a diferença. Por enquanto vamos escolher a conexão. Se eu clicar na flechinha onde diz “Details einblenden”, ele me mostra os detalhes daquela conexão:

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Essa conexão começa com um ICE que sai de Colônia às 12:48, chega em Berlin HBF às 17:06. De lá eu tenho que andar até a estação do S-Bahn (trens metropolitanos), e pegar o S 3  na direção Erkner, que sai às 17:15 e chega em Berlin Friedrichstraße às 17:17.

Ok, parece razoável, vou escolher essa. Eu clico em Rückfahrt do lado da conexão escolhida, pra escolher em seguida a conexão da volta:

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Novamente, como eu coloquei meio dia como horário, ele me mostra as primeiras conexões a partir do meio dia, em ordem de horário. Vou escolher a primeira que é aquela que tínhamos visto no Sparpreis-Finder. Note que aqui o site está me mostrando como preço 39,80€ e não os 19,90€ que apareciam no Sparpreisfinder. Isso porque esse preço já é o das duas passagens juntas: de ida e de volta. A passagem de ida custava 19,90€, e escolhendo essa passagem de volta o preço total vai ser 39,80€. Ou seja, ela custa 19,90€ também. E mesma coisa: o preço mostrado é o total para todos os passageiros. Aqui eu coloquei um só.

Aí a página seguinte me mostra as opções de tarifa para aquela viagem:

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Estão aparecendo, para essa conexão, 4 opções diferentes de tarifa:

A Super Sparpreis é a mais barata, sai um total de 39,80€. Essa tarifa não te dá direito de cancelamento da passagem, você fica fixo nessa conexão específica, e não tem um City-Ticket incluso (já explico).

A Sparpreis é um pouquinho mais cara e te dá algumas vantagens: você pode cancelar a passagem pagando uma taxa (normalmente é 10€), e vem com o City-Ticket. Se sua passagem tem City-Ticket incluso, significa que você pode pegar ônibus e trams municipais à vontade pra chegar no seu destino final, no dia da viagem. Então, por exemplo. Se eu chegar em Berlin HBF e quiser ir pra algum outro canto qualquer de Berlin, não preciso me preocupar de comprar uma passagem de metrô que o bilhete de trem vai servir. Você está se perguntando: uai, mas pra que serve se vc já pode comprar a passagem especificamente pro ponto final que vc quer ir e o preço normalmente é o mesmo? Bom, talvez você não saiba ainda exatamente pra onde vc vai querer ir (digamos se vc ainda não reservou o hotel), ou então você vai querer ir mais tarde pro destino final, e não logo ao chegar na estação central… aí o City-Ticket resolve.

Nesse caso eu acho que não faz sentido comprar o Sparpreis. Mas se vc acha que tem boas chances de precisar cancelar o trem, for uma conexão bem mais cara que essa (19,90€ é o mais barato possível para um ICE se você não tiver cartão de desconto), ou coisa assim, aí talvez valha a pena. E às vezes a diferença de preço entre o Super Sparpreis e o Sparpreis é bem pequena. Fica a seu critério.

A tarifa seguinte é o Flexpreis. Ela é bem mais cara que as tarifas econômicas pq o bilhete não fica fixo a um trem específico. Você pode pegar qualquer trem naquela conexão durante o dia da viagem. Então se, por exemplo, você compra um bilhete pras 16h mas aí sua reunião atrasou e vc precisou sair às 17, vc pega o trem seguinte sem precisar trocar o bilhete. É bem prático para viagens a trabalho, viagens curtas (bate-e-volta) e situações onde você não consiga saber exatamente qual horário você vai poder ir. Nesse caso a diferença entre o Sparpreis e o Flexpreis é gigante pq o Sparpreis pra esse trem está realmente muito barato. Mas normalmente a diferença não é tããão grande assim, esse é um caso extremo.

E finalmente, o site te mostra também uma opção de viagem na primeira classe. Eu escolhi a segunda classe ao procurar as passagens, por isso ele me mostra as várias tarifas de segunda classe e só uma opção de primeira, que é mais uma dica assim caso de repente nem tenha considerado ir de primeira classe pq achei que fosse ser uma diferença de preço mto maior, sei lá. Nesse caso ele te mostra o Super Sparpreis na primeira classe, a passagem sai por 71,80€ e você tem assentos com mais espaço e reserva de assento inclusa. Se você colocar primeira classe no campo de busca, ele vai te mostrar aqui as diferentes tarifas na primeira classe, incluindo o Flexpreis, etc.

Bom, escolhida a tarifa você clica em Weiter.

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Na próxima página o site tenta te vender os cartões de desconto. Que são, a propósito, ótimos! Se você viaja de vez em quando de trem, o BahnCard 25 pode valer super a pena, te dá 25% de desconto em todas as viagens em ICEs e ICs. A gente tem o 25 faz uns anos já, achamos super prático. Se você viaja bastantão, tem inclusive o de 50% de desconto. E se você for funcionário da DB, ganha um BahnCard 100! Ou seja, pode viajar à vontade! Que sonho!

Mas imagino que se vc está aqui lendo esse post é pq vc está só viajando pela Alemanha rapidão, então não vale a pena comprar cartão de desconto nenhum. Rola a página até o final e clica em Weiter.

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A página seguinte é a página de login. Você pode fazer login na sua conta se tiver uma, criar uma conta se não tiver nenhuma, ou fazer a sua reserva sem conta. Ter a conta facilita pra vc ver lá seus bilhetes comprados bonitinho, é mais rápido pq seus dados já estão salvos, etc. Mas se você está só viajando pela Alemanha rapidão, não tem pq perder tempo fazendo uma conta, vai lá em “Ohne Anmeldung buchen” e clica no botão cinza “Weiter“.

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Agora é a hora de escolher se você quer reservar assento. Bom, primeiro você escolhe lá se quer um bilhete digital ou por correio. Não sei pq motivo misterioso alguma pessoa escolheria pagar 4,90€ pra enviarem o bilhete pra vc por correio se dá pra usar o bilhete digital. Escolhe o bilhete digital. Você pode imprimi-lo ou mostrá-lo no celular.

Aí ali embaixo aparece a opção clicável “Reservierung 1 Sitzplatz – 9 EUR“. Aqui na Alemanha os bilhetes de trem não estão ligados a um assento no trem. Isso significa que, se o trem tiver mto cheio: sim, você pode acabar tendo que viajar de pé.

Não é incomum que isso ocorra, por isso eu SEMPRE reservo. Só não reservo assento quando estou viajando sozinha num horário incomum (digamos saindo às 5 da manhã ou às 14h de uma terça-feira, ou coisa assim). E mesmo nessas ocasiões eu fico de olho nas informações e reservo assento correndo de última hora se achar que tô correndo o risco de ficar de pé. Dá pra reservar assento separado da compra do bilhete (ou seja, comprar só a reserva, sem o bilhete, se vc já tiver o bilhete). Se você comprar a passagem mais perto da data da viagem (não como nesse exemplo, 3 meses antes), o site tb te mostra, na hora de escolher a conexão, se é esperado que o trem esteja cheio ou não. Se você não quiser reservar assento logo de cara, você pode deixar pra checar poucos dias antes da viagem o que o site te diz e reservar assento se estiver dizendo que o trem vai estar bem cheio. Outra maneira de checar isso é procurando no site o trem que você vai viajar, pedindo pra reservar o assento, e aí checar se ainda tem bastante assento não-reservado, ou se já está quase tudo reservado. Mas pra evitar todo esse stress, eu quase sempre reservo logo de cara, é o mais confortável. Custa 4,50€ por viagem (na nossa viagem-exemplo o preço é 9€ pq é ida e volta, então 4,50€ pela ida e 4,50€ para a volta.

Reservar assentos só é possível em trens de longa distância como os ICs e ICEs. Nos Regionais e S-Bahns não tem assento marcado, então se a sua viagem contiver uma combinação de trens (como a nossa, que tem um ICE até Berlin HBF e de lá a Berlin Friedrichstraße um S-Bahn), e vc escolher reservar assento, só vai reservar pro ICE.

Se você ticar o quadradinho de reservar assento, ele vai te perguntar que tipo de assento você quer. Eu normalmente ignoro isso e clico direito em Weiter pq vc pode na página seguinte escolher o assento específico no mapa do trem. Mas pra explicar as opções que ele te dá:

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Abteilart:
beliebig significa indiferente. Großraum significa vagão aberto (sem compartimentos), Großraum mit Tisch significa um assento numa mesinha no vagão aberto, e Abteil significa compartimento (aquelas salinhas com 6 assentos como nos trens pra Hogwarts). Eu acho compartimentos super desconfortáveis pq vc fica lá apertado com 5 desconhecidos. Mas na verdade a maior parte dos trens praticamente não têm compartimentos. Os ICEs têm só um ou dois compartimentos aqui e ali que são marcados como áreas para famílias, que é pras pessoas que estão viajando com crianças barulhentas reservarem aqueles lá e deixarem os outros passageiros livres de gritos e choros infantis.

Platzlage:
beliebig, indiferente. Fenster, janela. Gang, corredor.

Bereich:
Aqui é assim: os trens tem alguns vagões que são Handybereich (“área de celular”), e vagões que são Ruhebereich (área de silêncio). Quer dizer, vagões onde vc pode fazer barulho como ficar a viagem inteira conversando no celular, e vagões onde é pra vc ficar quieto no seu canto. Se você estiver viajando com crianças, escolha Handybereich! Se você estiver no Ruhebereich, não fale no celular durante a viagem! E Handybereich ou Ruhebereich, se você for assistir filme no Netflix, ouvir música no celular, ou seja o que for, use fone de ouvido que mesmo no Handybereich seria bem mal-educado ouvir sem fone.

Mas, como eu disse, eu sempre ignoro essas escolhas e sigo pra próxima página:

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Lá ele te mostra os assentos escolhidos pra cada trem e te dá a opção, se vc clicar em “Sitzplatz auswählen”, de escolher o assento específico que te mais apetecer, no mapa do trem:

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Aí você fica a vontade de pensar no que é melhor pra vc: um assento numa mesinha? Bom, bastante espaço pro seu laptop ou o que for, mas meio desconfortável pq vc senta de frente pra outra pessoa e fica batendo perna com ela. Assento próximo da entrada do vagão? Pode ser prático se o trem estiver mto cheio, pra vc chegar logo no seu assento. Assento do lado da estante de mala? Muito prático se você estiver com malas grandes pq a estante que fica em cima dos assentos é minúscula nos ICEs. Enfim, vários critérios. Vc pode também escolher um assento que fique perto da área pra bicicletas, se vc estiver levando uma bicicleta, ou no vagão vizinho ao vagão restaurante, se vc quiser mto ir no vagão restaurante durante a viagem, sei lá. Várias opções.

Escolhidos os assentos, a próxima página é a página de pagamento:

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Caso você tenha escolhido reservar sem login, você tem que primeiro colocar seus dados ali em cima. Depois, escolher o modo de pagamento. São as seguintes opções:

SEPA-Lastschrift é débito automático da sua conta, só funciona se você tiver uma conta no site, tiver autorizado a DB a debitar automaticamente da sua conta, e tiver, claro, uma conta num banco alemão.

Sofort é um sistema para débito automático que vc autoriza na hora via um site terceiro que conecta com seu banco. Para usar esse método de pagamento você precisa ter uma conta num banco alemão.

Se você está só viajando por aqui, provavelmente vai escolher uma das duas opções seguintes: cartão de crédito ou Paypal.

Escolhido o método de pagamento e inseridos os dados do mesmo, você clica em Weiter e é levado para a página final para conferir todos os dados da viagem e clicar confirmar. Essa página eu não vou mostrar pq eu teria que colocar os dados do cartão e não quero correr o risco de comprar uma viagem de Colônia pra Berlin sem querer, rsrsrs.

É isso, comprado o bilhete você vai receber o mesmo por email!

Amanhã eu posto a parte 2: entendendo seu bilhete e a viajando com ele!


(Publicado em 15 de Junho de 2019)