Autor: Lais

Naturalização Alemã 2 – Documentos necessários

Falar sobre o processo de naturalização (Einbürgerung) inclui uma tonelada de assuntos: quais os requisitos, quais os documentos necessários, como funciona o processo, como é a prova, quanto tempo demora, etcetc. Portanto dividirei esse post em 4 partes, com os seguintes temas:

Parte 1 – Leis e Requisitos, incluindo onde encontrar as informações necessárias.

Parte 2 – Documentos necessários listados e explicados

Parte 3 – O Einbürgerungstest, teste de naturalização

Parte 4 – O Processo, passo a passo

Antes de começar vale lembrar que esses posts são escritos a partir da minha experiência pessoal. O que significa que podem haver diferenças no processo, documentos necessários e outros detalhes em casos diferentes. Por exemplo, se você estiver pedindo a naturalização por estar casado com um alemão há 3 anos ou mais, haverão outros documentos necessários que eu não precisei apresentar porque meu processo era outro – tempo de residência legal na Alemanha. O tempo de duração ou detalhes menores dos documentos requisitados também podem mudar de cidade para cidade. Eu fiz o processo de naturalização em 2018. Se você está lendo esse post em 2020 ou 2022, ou seja lá que ano for, pode ser que muitas coisas tenham mudado de cá pra lá. Então use esse post apenas pra ter uma noção do processo, e não como verdade final absoluta!


Parte 2 – Documentos necessários

Bom, de novo por via das dúvidas: Use esse post apenas como referência, pra ter uma noção.

Os documentos que VOCÊ vai precisar apresentar vão depender do SEU caso. Se você tem filhos, for divorciado, estiver dando entrada no processo por estar casado com um alemão, entre outras mil variáveis, você vai ter uma lista diferente de documentos a apresentar.

Você tem que ir até a Einbürgerungsbehörde, que é basicamente um departamento do Bürgerbüro da sua cidade. Procure “Einbürgerung” no site oficial da sua cidade para encontrar detalhes do local, telefone de contato e horários de atendimento. É lá, na sua primeira visita para saber se você se qualifica para a nacionalidade alemã, que eles te darão uma lista completa dos documentos que você tem que apresentar pro seu caso, inclusive os formulários a serem preenchidos e assinados.

Os documentos que eu precisei apresentar estão listados a seguir. Primeiro vem os formulários a preecher e assinar, e depois os documentos em si. Em azul estão os documentos que com certeza você também vai precisar, seja lá qual for seu caso, e em laranja os documentos que variam de caso a caso, ou que eu não sei se variam de caso a caso.

La no final da lista tem também um resumo dos valores que terão que ser pagos pelo processo.

  1. Antrag auf Einbürgerung (“Requerimento de naturalização”)
    Esse é o formulário principal do negócio todo. Eles vão te dar o formulário na sua primeira visita ao Bürgerbüro, nele você vai preencher seus dados pessoais, inclusive renda, dados do cônjuge, caso seja casado (mesmo que o pedido de naturalização não seja pelo casamento), inclusive renda, dados pessoais da sua mãe e do seu pai, e dos seus filhos se tiver. Um ponto interessante é que você tem que colocar todos os lugares em que você morou (cidades) desde seu nascimento até agora. Você também terá que colocar os locais onde estudou (ensino fundamental, médio, etc. Não precisa escrever o nome da escola, só as datas em que você fez o ensino fundamental, ensino médio, etc, e em que país. Daí as informações da sua formação profissional (graduação, pós graduação, etc). E informações sobre todos os locais onde você trabalhou (inclusive endereço). Você também terá que informar se houverem (ou tenham havido) processos na justiça contra você. Eu não sei detalhes de como funciona aqui se tiver alguma coisa, que tipo de coisa, sei lá. Se tiver dúvidas a esse respeito pergunte ou no Bürgerbüro ou para um advogado, não para mim. O formulário é um tanto complicado se seu alemão não for muito bom. A princípio todo mundo precisa ter pelo menos o certificado do B1 para pedir a naturalização, mas acho que mesmo com B1 os formulários todos podem ser bem complicados, então é bom, se seu alemão não for avançado, ter um alemão amigo pra te ajudar a entender todos os papéis.

  2. Erklärung zum Einbürgerungsantrag (“Esclarecimento a respeito do requerimento de naturalização”)
    Esse papel é basicamente uma lista com alguns esclarecimentos a respeito do seu pedido, que você tem que assinar declarando que leu e está ciente. Os esclarecimentos são os seguintes: De que o processo de naturalização custa 255,00€, e que o valor tem que ser pago mesmo que o requerimento seja negado, ou seja, que seu pedido de cidadania não seja aceito (na verdade no caso do requerimento ser negado o valor cobrado vai ser um pouco mais baixo); de que você está disposto a abrir mão da sua nacionalidade atual (no caso da nacionalidade brasileira não será necessário, mas você tem que assinar essa declaração mesmo assim); de que você é obrigado a declarar quaiquer sentenças criminais contra você, assim como “ofensas contra a ordem” (ok, deve ter um termo legal em português pra isso que eu desconheço, mas é basicamente coisas como multas, por exemplo) dos últimos três anos. Que se houverem quaisquer mudanças nos dados informados no processo durante o mesmo, você é obrigado a informar (por exemplo se seu endereço mudou, se você perdeu o emprego, se você levou uma multa, etc. Coisas que você preencheu no formulário e que mudaram depois que você entregou os papéis, mas antes do seu pedido de naturalização ser aceito). E que se quaisquer das informações que você deu forem falsas, você vai sofrer consequências judiciais e perder a cidadania alemã.

  3. Unterrichtung über die Erhebung, Speicherung, Veränderung und Nutzung personenbezogener Daten im Einbürgerungsverfahren (“Informações sobre a coleta, armazenamento e uso de dados pessoais no processo de naturalização”)
    Aqui são dadas informações referentes a como o departamento de naturalização (Einbürgerungsbehörde) vai usar e armazenar os dados pessoais que você fornecer durante o processo. Por exemplo, eles dizem que se outras autoridades requisitarem do departamento de naturalização o compartilhamento dos seus dados para analisar algum processo referente a você (por exemplo se você no futuro perder o emprego e se registrar para receber o seguro desemprego), você será informado e poderá decidir se permite o compartilhamento dos seus dados, ou não (mas não permitir pode significar, claro, que o outro requerimento – o seguro desemprego, no nosso exemplo – não vá ser processado).
    Esse documento, portanto, é mais pra você do que pra eles, é pra vc saber que eles estão tomando todos os cuidados com seus dados pessoais que são determinados por lei. Aqui isso é um assunto super sério.

  4.  Bekenntnis zur freiheitlichen demokratischen Grundordnung des Grundgesetzes für die Bundesrepublik Deutschland und Loyalitätserklärung (“Reconhecimento da  ordem básica democrática e livre da Constituição Alemã e Declaração de Lealdade”)
    Esse é um documento importante onde você declara que reconhece e aceita os valores da constituição alemã e se declara leais a ele. Nesse papel você declara (com um x e sua assinatura) que você nunca participou de nenhum grupo extremista cujas atividades e crenças se contraponham à ordem livre democrática, que sejam contra a constituição alemã ou que ameacem a liberdade e democracia. Basicamente eles querem saber se você é terrorista, neonazi, ou de algum grupo extremista, violento e perigoso. Se for o caso, não vai rolar virar alemão. Se você mentir a respeito,perderá a cidadania alemã quando isso for descoberto. Há ainda a possibilidade de você já ter feito parte de um grupo extremista no passado, mas ter deixado o grupo e mudado seus ideias e passado a respeitar a democracia, etcetc. Nesse caso, tem uma opção para ticar também. Aí você tem que declarar quando foi que você fazia parte daquele grupo, que realmente não tem mais ligação com aquele grupo, que você agora aceita a ordem democrática, etc. Se você ticar esse quadrado, claro que não vai bastar assinar esse documento para que eles fiquem satisfeitos de que você é agora uma pessoa legal que defende a democracia. Vai rolar uma investigação pra saber se você realmente não tem mais ligação com esses grupos. Vide o documento seguinte.

  5. Unterrichtung über die Mitwirkung des Landesamtes für Verfassungsschutz (“Informações sobre cooperação com o Departamento Estadual de Proteção à Constituição”)
    Nesse documento eles te informam que, se você tiver tido ligações com grupos extremistas no passado (ou seja, se você ticou o quadradinho referente, no documento anterior), eles vão informar o Departamento Estadual de Proteção à Constituição, que é quem vai então investigar se você realmente não tem mais ligação com aqueles grupos. Lembre-se que, se você mentir e disser que nunca teve nenhuma ligação com grupos extremistas, pensando que “ah, foi no passado, deixa pra lá, eles não precisam saber o que rolou”, você vai perder a sua cidadania alemã quando isso for descoberto, e ter que responder na justiça pela mentira. Então mesmo que aquela sua breve participação num grupo neonazi do orkut quando vc era um adolescente revoltado há 20 anos atrás te pareça pouco importante e desnecessária de mencionar, não finja que não existiu, que vai dar uma merda bem maior depois. (Estou torcendo pras pessoas lendo esse blog não terem nem nunca terem tido nenhuma ligação com tais grupos, pq né, ninguém merece. Mas vai saber…)

Ok, até aqui foram listados basicamente os formulários e papéis que eles te dão e você tem que ler, entender, preencher e assinar. Vamos agora aos documentos em si:

  1. Certidão de Nascimento com apostila de Haia ou reconhecimento no consulado alemão, traduzida.
    Diferente de outras situações, a certidão de nascimento para o processo de naturalização não precisará ter sido emitida há pouco tempo. Mas talvez você precise tirar uma nova de qualquer maneira para ter a apostila de Haia. Ok, explicando: a sua certidão brasileira precisa de alguma coisa que confirme às autoridades alemãs que é real. Até uns dois anos atrás, essa confirmação era feita no consulado alemão no Brasil, você tinha que levar a certidão lá e eles reconheciam como verdadeira e colocavam lá algum carimbo ou selo que é então reconhecido pelas autoridades alemãs. Se você tiver já uma certidão de nascimento reconhecida desta forma (porque você tirou há alguns anos, por exemplo, para o seu casamento na Alemanha), você pode usar essa. Se não, a forma atual de reconhecimento de certidões é a apostila de haia. É basicamente um selo que os países da convenção de Haia aceitam para reconhecer documentos entre si. Eu não sei exatamente como faz para ter a apostila de haia na sua certidão de nascimento, suponho que você tenha que emitir uma certidão nova no cartório onde está registrado seu nascimento e obter então a apostila de haia em um cartório autorizado. Mas estou chutando, você tem que ligar no cartório onde está registrado seu nascimento e perguntar lá. Seja como for, certidão reconhecida de uma maneira ou de outra, você ainda vai ter que tê-la traduzida, obviamente por um tradutor juramentado NA ALEMANHA. Não adianta traduzir no Brasil que os tradutores juramentados no Brasil estão juramentados às autoridades brasileiras, e não alemãs. A tradução juramentada tem que ser portanto feita aqui. Nesse site estão registrados todos os tradutores juramentados na Alemanha para todas as línguas, dá pra você procurar pelo tradutor de português mais próximo de você.

  2. Certidão de Casamento (com apostila de Haia ou reconhecimento no consulado, caso não seja uma certidão alemã)
    Se você for casado, sua certidão de casamento também será necessária. Caso seja casado no Brasil (ou em outro país que não seja na UE), a certidão vai ter que passar pelo mesmo processo de reconhecimento com apostila de haia e tradução juramentada.

  3. Contrato de emprego
    Se você for contratado em algum lugar, terá que levar o seu contrato de emprego. Se você não for empregado aqui, normalmente a outra forma de provar renda vai ser se você for casado/a e seu cônjuge tiver renda suficiente pra te sustentar, em qual caso você vai ter que levar o contrato dele/a e as informações referentes à renda dele/a. Isso também será necessário se você tiver um emprego com renda insuficiente.
     
  4. Olerite dos últimos 3 meses
    O olerite (Verdienstbescheinigung) dos últimos 3 meses serão necessários, como no caso acima, se você não trabalha provavelmente vão pedir os do/a cônjuge.

  5. Elektronische Lohnsteuerbescheinigung (“Declaração de imposto de renda”)
    Esse é um papel que você recebe do seu empregador no final do ano, onde está o cálculo final do imposto de renda pago pela sua renda daquele emprego (pago direto na fonte). Chama elektronische Lohnsteuerbescheinigung, mas é um papel, hehe! Mesma coisa que os documentos acima, se não for o seu vai ser o da pessoa que te sustenta. 

  6. Declaração do seu seguro de saúde de que você é membro
    Uma carta atual do seu seguro de saúde que diz “Fulano é mesmo segurado por nós, desde tal dia”. No meu seguro de saúde dá pra tirar isso direto pela internet ou pelo app, eles emitem uma cartinha em PDF na hora. Se no seu não tiver essa opção, nada que não seja facilmente resolvível ligando lá e pedindo pra eles te mandarem uma declaração dessas por correio.

  7. Declaração do seu plano de previdência de que você é membro
    Bom, na verdade você tem que apresentar alguma prova de que tem um plano de previdência. Se você tiver um emprego fixo, você automaticamente é membro do plano de previdência público. Aí é só ligar lá e pedir pra eles te mandarem uma declaração de que você está inscrito lá. Se não não sei se você vai precisar ter um plano privado.

  8. Passaporte válido e Aufenthaltstitel, se for o caso (se vc for cidadão europeu, por exemplo, não precisa)
    Nada que exija explicações suponho.

  9. “Currículo” dissertativo
    O funcionário que te atender quando você for na Einbürgerungsbehörde vai te explicar como ele quer isso. Eles me pediram basicamente uma carta de umas 2/3 páginas escrita à mão contando informações básicas da minha história: onde eu nasci, quem são meus pais/irmãos e o que eles fazem da vida, qual(is) é(são) a minha nacionalidade(s), porque eu tenho essa(s) nacionalidade(s), onde e o que eu estudei, onde eu trabalhei. Basicamente as informações básicas pessoais e profissionais da sua pessoa, escritas de maneira dissertativa (e não em itens).

  10. Contrato de aluguel 
    O contrato tem que mostrar o preço do aluguel, o tamanho da casa ou apartamento, e as assinaturas. Se você mora em casa própria serão pedido, claro, os respectivos documentos e comprovantes.

  11. Certificado de aprovação no Einbürgerungstest
    Para tirar a cidadania alemã você vai ter que passar no exame de cidadania, o qual está explicado em detalhes no terceiro post dessa série. Seis semanas após o teste você recebe o certificado do mesmo, que tem que então ser apresentado para o pedido de naturalização.

  12. Certificado do B1 (ou nível mais alto)
    O certificado do exame de alemão. B1 é o mínimo necessário, e eu não sei se nesse caso tem que ser especificamente o exame da Volkshochschule. No caso de ser um certificado avançado, pode ser de qualquer escola, ou pelo menos foi o que me foi dito. O meu era o Goethe-Zertifikat

  13. Diploma de ensino superior
    Na verdade tem um item na lista que é “Diplomas dos seguintes cursos e qualificações:” e aí a pessoa que está te atendendo escreve lá quais diplomas que ela quer de você, de acordo com o que você tem. Então se você for formado na universidade eles vão pedir o diploma universitário, se você tiver uma pós graduação eles vão pedir o diploma da mesma, se não tiver nem um nem outro talvez eles peçam o diploma de ensino médio, não sei. Vai de caso a caso. Eu tive que levar o diploma do mestrado.

É isso, esses foram todos os documentos que eu tive que apresentar. Quando você for na Einbürgerungsbehörde pela primeira vez, eles vão te dar uma lista bem comprida de documentos, e ticar os que se aplicam ao seu caso. Outros documentos que aparecem na lista que eu recebi, e que não estavam ticados para mim mas que talvez estejam pra você, são:  certidão de nascimento do cônjuge, certidão de nascimento dos pais, certidão de nascimento dos filhos, certidão de casamento dos pais, certidão de óbito do cônjuge, certidão de divórcio, comprovante de recebimento ou pagamento de pensão alimentícia, prova de nacionalidade do cônjuge, comprovante de matrícula de curso superior, entre outros muitos vários documentos que eu não tenho paciência de descobrir agora o nome em português… Como eu falei, para cada caso vai ser exigida uma papelada diferente, mas acho que já deu pra dar uma idéia mais ou menos do tipo de documento que vai ser necessário, e daqueles que definitivamente serão pedidos.

Depois que o seu pedido for processado, quando ele estiver prestes a ser aceito, eles talvez peçam alguns documentos atualizados – porque passaram alguns meses e algumas coisas podem ter mudado nesse meio tempo. Para mim, os documentos pedidos pra finalizar o processo foram os seguintes:

  1. Olerite dos 3 meses mais recentes
  2. Lohnsteuerbescheinigung do último ano (porque tinha virado o ano no meio tempo)
  3. Declaração do plano de saúde
  4. Comprovante de pagamento do aluguel do último mês

E aí, no último momento, no dia que você for receber o certificado de naturalização, você vai precisar levar ainda mais uns documentos… são esses:

  1. O seu passaporte e Aufenthaltstitel
  2. Comprovante de pagamento da taxa do processo de naturalização

Além dos documentos necessários para pedir o passaporte e a identidade alemãs (que você faz logo após receber o certificado de naturalização), que são os seguintes:

  1. Certidão de nascimento com reconhecimento no consulado ou apostila de Haia e tradução juramentada
  2. Certidão de casamento 
  3. Foto biométrica 
  4. Taxa para a emissão dos documentos
    (Passaporte: 60€ se você tiver 25 anos ou mais, 37,50€ se você tiver até 24 anos de idade.
    Carteira de identidade: 28,80€ se você tiver 25 anos ou mais, 22,80€ se você tiver até 24 anos de idade. Preços de 2019.)

“SÓ” isso!

Pra resumir os valores que terão que ser pagos, se o requerimento for aceito
255,00€ (processo) + 25,00 € (Einbürgerungstest) + 60,00 € (passaporte) + 28,80 € (documento de identidade) = 368,80 € (mínimo). Nisso soma-se ainda taxas para a emissão de eventuais documentos necessários, como a certidão de nascimento com legalização ou apostila de haia e tradução juramentada que quando eu fiz custou R$38,00 (certidão) + R$25,00 (legalização) + 35 € (tradução) = R$63,00 e 35,00 €.

Você pode ainda escolher fazer só um dos documentos (passaporte ou identidade), se você não quiser pagar todo o dinheiro de uma vez. Mas eventualmente você vai precisar do outro documento também, então melhor fazer os dois logo de uma vez.

Se o requerimento de naturalização for negado, a taxa do processo a ser paga vai ser um pouco menor que os 255,00€, (se não me engano 190€, mas não estou encontrando a informação agora), e, claro, você não vai pagar para emitir o passaporte e a identidade alemães, já que você não será alemão. Mas você ainda terá pago também pela emissão de quaisquer documentos que foram necessários para o processo (a certidão de nascimento com apostila de haia, a foto biométrica, etc). A taxa pelo processo também é menor se for um menor de 18 anos que está se naturalizando junto com os pais, ou com um dos pais.  E se você mudar de ideia no meio do caminho e pedir para cancelar o processo por algum motivo qualquer, você vai ter que pagar algo entre 60€ e 190€ de acordo com o andamento do processo.

Ufa!

O próximo post é a Parte 3: O Einbürgerungstest (Teste de Naturalização), como funciona e exemplos de perguntas e respostas! 

Leia também a Parte 1: Leis e Requisitos e a Parte 4: O Processo!


(Publicado em 22 de Fevereiro de 2019)

Naturalização Alemã 1 – Leis e Requisitos

Depois de quase 7 anos morando na Alemanha, fui naturalizada alemã! Estou super contente, e, claro, escrevi um post super detalhado sobre o processo todo… Que será postado em partes ao longo dos próximos dias. Lá vamos nós!:


Falar sobre o processo de naturalização inclui uma tonelada de assuntos: quais os requisitos, quais os documentos necessários, como funciona o processo, como é a prova, quanto tempo demora, etcetc. Portanto dividirei esse post em 4 partes, com os seguintes temas:

Parte 1 – Leis e Requisitos, incluindo onde encontrar as informações necessárias.

Parte 2 – Documentos necessários listados e explicados

Parte 3 – O Einbürgerungstest, teste de nacionalização

Parte 4 – O Processo, passo a passo

Antes de começar vale lembrar que esses posts são escritos a partir da minha experiência pessoal. O que significa que podem haver diferenças no processo, documentos necessários e outros detalhes em casos diferentes. Por exemplo, se você estiver pedindo a naturalização por estar casado com um alemão há 3 anos ou mais, haverão outros documentos necessários que eu não precisei apresentar porque meu processo era outro (tempo de residência legal na Alemanha). O tempo de duração ou detalhes menores dos documentos requisitados também podem mudar de cidade para cidade. Eu fiz o processo de naturalização em 2018/2019. Se você está lendo esse post em 2020 ou 2022, ou seja lá que ano for, pode ser que muitas coisas tenham mudado de cá pra lá. Então use esse post apenas pra ter uma noção do processo, e não como verdade final absoluta!


Parte 1 – Leis e Requisitos

Bom, talvez primeiro seja bom dar nomes aos bois. Tirar a cidadania alemã, tirar a nacionalidade alemã, se naturalizar alemão, são todos sinônimos. No post eu vou usar o termo naturalizacão, em vez do mais popular “tirar cidadania”, pq é o termo legal. Mas é tudo a mesma coisa, se você chegou aqui procurando informações sobre a cidadania alemã, fique tranquilo, é disso mesmo que estamos falando.

Já ter o visto de residência permanente é outra coisa, é um visto que te dá o direito de morar pra sempre na Alemanha, mas não te torna cidadão alemão. Então ainda há determinados direitos que um cidadão alemão tem que não são concedidos a residentes permanentes, como o direito de votar nas eleições alemãs. Ok. Esclarecido isso, vamos ao que interessa:

Das diferentes situações que te dão a possibilidade de se naturalizar alemão, vou deixar de fora as que não entram no âmbito desse blog, que são o direito à cidadania alemã por um dos pais ser alemão e a naturalização de pessoas com status de refugiado. Como esse blog é voltado para brasileiros morando na Alemanha, esses dois casos não se aplicam.

As outras duas situações em que um estrangeiro pode se naturalizar alemão são

1 – Através de casamento com um cidadão alemão

A naturalização só é possível se o interessado estiver morando legalmente na Alemanha há pelo menos 3 anos e casado há pelo menos 2 anos.

2 – Através de tempo de residência legal na Alemanha

O interessado tem que estar morando legalmente (e continuamente) na Alemanha há pelo menos 8 anos. A naturalização pode ser pedida já depois de 7 anos de residência se o interessado tiver completado um curso de integração, ou depois de 6 anos de residência se o interessado apresentar certificado de conhecimento da língua alemã em nível avançado (B2 em diante).

Esse detalhe da diminuição do tempo de residência mínima necessária no caso da apresentação de um certificado de alemão avançado eu descobri por acaso poucos meses antes de completar os 6 anos de residência, e foi o que me possibilitou de iniciar o processo 2 anos antes do que eu imaginava que seria possível.

Há ainda diversos outros requisitos que o interessado na naturalização alemã deve cumprir para poder dar entrada no processo. São esses:

  • O interessado deve estar comprometido com a ordem democrática alemã
  • O interessado deve ter visto de residência permanente na Alemanha (Niederlassungserlaubnis) (em alguns casos o visto de residência limitada (Aufenthaltserlaubnis) também é aceita, não sei que casos são esses). Caso o interessado seja cidadão europeu, nenhum visto é necessário.
  • O interessado deve ter certificado de conhecimento da língua alemã no nível B1 (mínimo)
  • O interessado deve ter sido aprovado na prova de naturalização (Einbürgerungstest) (Você fica isento de fazer a prova em algumas situações – como se tiver feito o colegial aqui, ou se tiver estudado política ou história numa universidade alemã).
  • O interessado deve estar disposto a abrir mão da sua nacionalidade atual (veja nota a seguir)
  • O interessado deve ter renda suficiente para sustentar a si e aos seus dependentes sem a utilização de fundos do seguro social público.
  • O interessado não pode ter sido em qualquer momento condenado por algum crime.

Ou resumindo de maneira mais simples: você tem que ser residente na Alemanha, poder se sustentar, ter passado na prova do B1 e no Einbürgerungstest, e não ter passagem na polícia.

O item sobre abrir mão da nacionalidade atual: para sorte nossa, há algumas exceções em que você não precisa abrir mão da sua nacionalidade, e a brasileira é um desses casos exceções. Pra ser totalmente honesta, eu ainda não entendi totalmente porquê, mas é algo relacionado às leis brasileiras, algo do tipo um país estrangeiro não pode te obrigar a abrir mão da sua nacionalidade brasileira ou coisa assim. Você terá que dizer que está disposto a abrir mão da nacionalidade brasileira, mas não vai precisar, no final. Outras nacionalidades européias também podem ser mantidas em conjunto com a alemã, e uma informação que eu não encontrei em lugar nenhum mas que era o meu caso e talvez de outros brasileiros também: se você for duplo-cidadão, brasileiro e de algum país europeu, e quiser se naturalizar na Alemanha, sim: você poderá ficar com 3 nacionalidades.

Os alemães olham dupla-nacionalidade com uma certa suspeita, então talvez eles tentem te convencer de que não é boa ideia ter mais de uma, quem dirá três, nacionalidades. Bom, convencer é um certo exagero, mas nas duas vezes que eu fui no Bürgeramt SG Staatsangehörigkeitsangelegenheiten (o departamento da prefeitura responsável pelas questões de nacionalidade) para ver se eu já podia pedir, os documentos que precisava, etc, as duas pessoas com quem falei me disseram “bom, vc vai poder ficar com as três mas é importante saber que isso não significa apenas 3x mais direitos, como também 3x mais obrigações e bláblá”.

Eu pensei seriamente em abrir mão da nacionalidade portuguesa, mas aí você fica pensando: vai saber o que acontece no futuro? No momento eu não tenho planos de ir morar definitivamente em Portugal, mas vai que daqui a 20 anos depois de guerras inesperadas acaba que Portugal é tipo o último lugar seguro do mundo? (ou o último ao que eu tenho acesso). Sei lá, melhor continar cidadã portuguesa, também. Fora que Portugal é bonitinho, os portugueses são engraçados e eu gosto muito de pastéis de belém.

Abrir mão da nacionalidade brasileira seria uma decisão muito mais complicada, claro. Minha família ainda está lá, é lá que eu nasci e cresci, lá eu sempre tenho um lugar a que pertenço. No momento não quero voltar a morar lá, mas certamente não quero fechar essa porta pra sempre.

Mas então pra quê a nacionalidade alemã? – você talvez esteja se perguntando. Muitos estrangeiros que moram aqui acham que tirar a cidadania alemã é totalmente desnecessário, se você já tem visto de residência permanente ou se já é cidadão europeu (e portanto tem a segurança de que poderá ficar aqui indefinidamente). É uma escolha válida. Mas pra mim nunca houve nem uma dúvida de que se o plano é morar num país pra sempre, eu quero ser nacional desse país e ter assim todos os direitos e também a segurança de que, não importa o que aconteça, eu vou continuar podendo morar lá. Pra mim essa segurança é essencial – quem sabe o que o futuro guarda? E os direitos que alguém que é cidadão europeu ou residente permanente não têm por não serem cidadãos alemães são poucos mas essenciais: só o direito de votar nas eleições para o parlamento alemão. Eu acho essencial ter o direito de escolher quem faz as leis do país, se eu moro aqui há vários anos, pretendo continuar morando aqui indefinidamente, e portanto sou diretamente influenciada pelas decisões tomadas no Bundestag.

Apesar disso tudo, é importante você saber que: ao se naturalizar cidadão de outro país, pelas leis brasileiras você está sujeito a perder sua nacionalidade brasileira. A princípio, segundo a constituição do Brasil, ao adquirir voluntariamente uma outra cidadania, o cidadão brasileiro perderia a cidadania brasileira. O porém é que para isso acontecer, o Ministério da Justiça teria que instaurar um processo de perda da cidadania contra você, e isso parece que só aconteceu em uma ocasião: quando uma mulher brasileira naturalizada nos estados unidos cometeu um crime lá e voltou ao Brasil. Ao ser presa, o Ministério da Justiça então decidiu tirar a cidadania brasileira para poder deportá-la para os Estados Unidos, onde o crime (homicídio) havia sido cometido, e onde ela era cidadã por naturalização. Ou seja, foi um caso bem a parte. E mesmo assim, há exceções: se você adquiriu a outra cidadania por um direito herdado, isso não te fará sujeito à perda da nacionalidade brasileira. Ou, se você se naturalizou no outro país porque você lá mora e as condições pra sua permanência lá e exercício dos seus direitos civis lá exigem que você vire cidadão. Segundo uma advogada brasileira-alemã falando para a Deutsche Welle, a Alemanha entraria nesses casos exceções. Eu achei a explicação meio duvidosa porque não vejo em que sentido é diferente morar na Alemanha sem ser cidadão a morar em qualquer outro país sem ser cidadão, sempre há alguns direitos que são reservados apenas aos nacionais daquele país. Aqui está o artigo da Deutsche Welle em questão, onde isso foi discutido.

Eu acho que de uma maneira ou de outra, é importante não tomar a decisão de se naturalizar alemão levianamente – simplesmente porque você quer ter o passaporte europeu como se fosse simplesmente ir lá pedir a emissão de um documento. Pense bem nas conseqüências possíveis de tornar-se alemão ou de não tornar-se alemão na possibilidade das leis mudarem num país ou no outro. Se no futuro as leis brasileiras ou alemãs mudarem de tal maneira que você terá que abrir mão da sua nacionalidade brasileira para manter a alemã, isso é algo que você está disposto a fazer? Pense bem no que você gostaria para a sua vida no futuro, e qual decisão é a que te dá mais segurança de que o futuro que você planeja será possível.

Bom, mas depois dessa discussão toda, se você está interessado em se naturalizar alemão e acredita que se qualifica, você talvez esteja se perguntando onde obter informações confiáves, atuais e verificáveis a respeito.

Pois bem. A primeira coisa é procurar “Einbürgerung” no site oficial da sua cidade. Os pedidos de naturalização são processados pelas prefeituras, então é lá que você tem que ir atrás das informações.

O site da prefeitura de Dresden tem uma seção de serviços com a sub-seção Einbürgerung que você pode acessar aqui. Certamente as cidades maiores todas ofereção informações suficientes nos seus sites oficiais. Cidades menores talvez não tenham sites muito completos. Nesse caso o melhor a se fazer é ligar lá e pedir informações.

Você pode também, para saber melhor o que dizem as leis referentes à naturalização na Alemanha (até porque elas podem ter mudado desde que eu escrevi esse post), ler as mesmas. A lei de nacionalidade (StAG Staatsangehörigkeitsgesetz) é onde estão todos os detalhes mais oficiais e atuais possíveis sobre como se obtém a nacionalidade Alemã, seja por nascimento, herança ou naturalização. Os parágrafos referentes à naturalização, que são os que provavelmente te interessam, são os parágrafos §8 ao §12. Não se intimide com a idéia de ler uma lei em alemão, não é nenhum bicho de sete-cabeças. Mas se for, um resumo bem confiável e preciso pode ser lido em português no site da embaixada alemã no Brasil.

Porque eu acabei lendo mais sobre o assunto, vou aproveitar para falar um pouquinho mais sobre a cidadania alemã. Uma coisa que a gente no Brasil não tem muita noção é de que ter a cidadania de um país automaticamente por ter nascido lá não é regra geral no mundo inteiro, muito pelo contrário. Isso é uma coisa mais comum no continente americano. Na maioria dos países em outros continentes, a cidadania é herdada, ou seja, você só é cidadão daquele país automaticamente ao nascer se um dos seus pais for cidadão daquele país. Essas duas maneiras de cidadania por nascimento têm um nome oficial: jus soli e jus sanguini.

Jus soli é o direito à cidadania de um país por ter nascido dentro do território do mesmo. Jus sanguini é o direito à cidadania por herança, ou seja, porque um dos pais tem aquela cidadania. Essa diferença entre os continentes não é por acaso, claro: O continente americano como sabemos é povoado majoritariamente por descendentes de grupos étnicos de outras origens. Nada mais natural que essa história tenha levado ao desenvolvimento da idéia de que quem lá nasceu tem direito de permanecer lá simplesmente por lá ter nascido.

Claro que em cada país há diversas nuances nas leis referentes à nacionalidade. Na Alemanha o que vale é o Jus sanguini, ou seja, só é automaticamente alemão quem nasce de pai ou mãe alemão. Se a criança tem pai alemão e mãe estrangeira, e os dois não forem casados, a cidadania alemã só é adquirida pela criança após comprovação de paternidade através de exame de DNA. Se a mãe for alemã, ou se o pai for alemão e casado com a mãe estrangeira, a criança é alemã automaticamente.

Para crianças nascidas na Alemanha de pais estrangeiros recebem cidadania alemã automaticamente apenas se um dos pais é residente permanente da Alemanha e mora aqui há pelo menos 8 anos. Ou seja, basicamente um filho de pais estranheigos nascido na Alemanha é automaticamente alemão se um dos pais se qualifica para a naturalização alemã. Nessas condições, aos completar 23 anos de idade essa “criança” terá que reafirmar sua cidadania alemã provando sua conexão com a Alemanha de uma das seguintes maneiras: se ela tiver morado na Alemanha por pelo menos 8 dos seus primeiros 21 anos de vida; se ela tiver freqüentado a escola na Alemanha por pelo menos 6 anos; se ela terminou a escola na Alemanha; Se ela completou um curso técnico (Ausbildung) na Alemanha. Se a pessoa não preencher nenhum desses resquisitos (o que é bem raro), perderá a nacionalidade alemã automaticamente aos 23 anos de idade.

Isso resume basicamente as diversas circunstâncias através da qual alguém tem a cidadania alemã.

É isso!

O próximo post, Parte 2 – Documentos Necessários, lista todos os documentos que eu precisei apresentar para o meu caso, e alguns dos documentos que pode ser que sejam pedidos em outros casos.

O post seguinte, Parte 3 – Einbürgerungstest, explica como é o teste de naturalização, incluindo alguns exemplos de perguntas e respostas para cada tema abordado.

E o post final, Parte 4 – O Processo, conta direitinho o passo-a-passo do processo de naturalização!


(Publicado em 21 de Fevereiro de 2019)

Sobre Apertos de Mão

Uma característica importante da cultura alemã são os apertos de mão. Isso, na verdade, é diferente entre áreas diferentes da Alemanha. Aqui no Leste o aperto de mão é suuuuuper importante. No Oeste nem tudo, é uma diferença que meu marido, que é do oeste, comenta bastante.

Então eu vou falar sobre a importância dos apertos de mão aqui, na Alemanha Oriental. Talvez isso se aplique á área em que você está, talvez não. O melhor é observar.

Por exemplo, uma reunião de trabalho é uma situação típica onde os apertos de mão são bem importantes. Quando você chega numa sala e há algumas pessoas já sentadas esperando a reunião começar, o costume é você dar uma volta na mesa cumprimentando todo mundo ali presente com um aperto de mão. E uma bobeira é que se aperta a mão sempre das mulheres primeiro, e depois dos homens… não é totalmente essencial seguir essa regra (especialmente se você for mulher), mas considerado educado. Ao apertar a mão, se você não conhece a pessoa ainda, você fala seu nome (sobrenome, claro). Se você já conhece a pessoa, o ideal seria você falar o nome da pessoa, pra mostrar que você lembra quem ele é, e tal. Mas não é essencial. Então, por exemplo, você, de sobrenome Silva, chega pra cumprimentar alguém de nome Müller. Se você ainda não conhece a pessoa, você aperta a mão da pessoa dizendo “Silva” pra ele saber que seu nome é Silva. Ninguém memoriza o nome já de cara nessa ocasião, mas whatever, o importante é falar seu nome. Se você já conhece a pessoa, vc aperta a mão dela dizendo “Herr Müller/Frau Müller”. Tem uma diferença de entonação importante aí, entre falar o seu nome e o nome da outra pessoa. Fica difícil explicar escrevendo. Mas é meio instintivo.

Importantíssimo, é que, se você está meio doente, meio tossindo, com o nariz escorrendo, ou qualquer outro sintoma que as outras pessoas vão perceber que você está meio resfriado, NÃO APERTE A MÃO DE NINGUÉM, SUPER MAL-EDUCADO apertar a mão da pessoa se você estiver doente!!! Aí quando a pessoa vier pra você com a mão pra apertar você fala algo como “ah, melhor não, eu tô meio resfriado!” Ich bin ein bisschen erkältet.

Uma alternativa, se você chega e não quer necessariamente apertar a mão de 20 pessoas sentadas na mesa, ou se você chega com a reunião já começada (não faça isso!), vc pode cumprimentar todo mundo de uma vez só dando duas, três batidinhas na mesa com o punho fechado, meio como se você tivesse batendo numa porta. E falando um oi geral. Isso você também pode usar se você tiver saindo da reunião antes da mesma terminar, por exemplo. É uma maneira rápida de cumprimentar todo mundo de uma vez só.

Claro que estamos falando de pessoas que você não encontra todos os dias, de uma reunião de trabalho num lugar que não seja o seu escritório com seus próprios colegas. Se forem os colegas de trabalho que você encontra todo dia, não precisa, claro, apertar a mão de todo mundo todo dia. Aí um bom dia basta.

O aperto de mão é meio que o único contato físico aceitável entre pessoas não próximas. Então, por exemplo, no aniversário de algum colega no escritório, se não for algum colega muito próximo de quem você é meio amigo, o comum seria cumprimentar o colega pelo aniversário com um aperto de mão.

Já vi apertos de mão até em situações SUPER estranhas, tipo: quando minha avó faleceu, eu comentei isso com o chefe do escritório onde eu estava trabalhando temporariamente na época, e ele me deu seus pêsames com um aperto de mão… ?? Achei estranho e, sinceramente, acho que mesmo aqui essa foi uma reação estranha. Mas ok.

O último ponto importante a se discutir sobre apertos de mão é o aperto em si. Aperto é a palavra mais adequada mesmo: é pra APERTAR a mão, com toda força, esmagar os ossos alheios. Os alemães dão apertos de mão SUPER firmes. Às vezes machuca a mão do outro, mesmo. Apertos de mão no Brasil (e em várias outras culturas) costumam ser só uma chacoalhada de mãos moles. Isso é uma coisa bem cultural, mesmo. Aqui, os apertos são bem firmes, e se você só deixar a mão mole, pega mal, dá a impressão pra outra pessoa de que você não é  uma pessoa com muita segurança. Treine um aperto de mão firme, é essencial.

E finalmente, um pequeno parágrafos sobre outros tipos de cumprimento. Beijinho como cumprimento é algo que absolutamente NÃO EXISTE aqui. Não dê beijinho pra cumprimentar jamais. Em qualquer situação vai gerar estranhamento. Se for alguém próximo, um amigo, um familiar, cumprimenta-se com um abraço mais ou menos apertado de acordo com a proximidade da pessoa. Se for um amigo que você encontra todo dia, só um oi basta, sem aceno, sem mão, sem abraço, e, importante, sem beijinho.

Então resumindo:
Pessoas não-próximas que você não encontra todo dia e que é educado cumprimentar (ambiente de trabalho, reuniões, etc): Aperto de mão firme e direto, com nome. Em outras partes da Alemanha, onde os apertos de mão forem menos comuns, aí só um bom dia sem toque basta.
Pessoas próximas que você não encontra todo dia: abraço mais ou menos apertados de acordo com a sua proximidade da pessoa.
Pessoas próximas ou não próximas que você encontra todo dia (colegas de trabalho, colega da faculdade, vizinho, etc): Só um oi, bom dia, talvez um aceno. Sem toque.

Se você ficar em dúvida, a melhor dica (e também a mais intuitiva, claro), é: deixa a outra pessoa decidir o cumprimento ou observe as outras pessoas para seguir o exemplo.


(Publicado em 11 de Fevereiro de 2019)

Quem paga o jantar

Regras sociais na hora de pagar a conta em jantares ou outros eventos sociais podem variar muito de uma cultura pra outra. E desconhecê-las nessas situações pode resultar em grandes constrangimentos e mal-entendidos.

Mas não tema! As regras alemãs nesse quesito são bem precisas (ok, tem nuances também) e eu vou descrevê-las logo a seguir.

A primeira coisa que você precisa saber – e a mais importante – é o significado subentendido do verbo “convidar” em alemão (einladen) , ou sua tradução em qualquer língua quando expressada por um alemão. Se um alemão diz que está te convidando, isso significa que ele vai pagar pra você. Se a pessoa usar o verbo einladen significa especificamente que ela vai pagar pra você.

Da mesma maneira, você tem que tomar cuidado ao formular sua pergunta se quiser convidar alguém para alguma coisa. Se você usar o verbo einladen, “convidar”, a pessoa esperará que você pague a conta. Uns exemplos de diálogos:

Komm, lassen wir uns ein Eis essen gehen. Ich lade dich ein!

(“Bora tomar um sorvete? Eu te convido!”)

“Eu te convido” = “eu pago”, a pessoa está especificamente se dispondo a te pagar um sorvete.

Gehen wir zusammen mittagessen? Es gibt einen Italiener dort am Albertplatz, die Pasta schmeckt super!

“Vamos almoçar junto? Tem um restaurante italiano ali na Praça, a massa deles é ótima!”

A pessoa está te convidando pra ir comer junto, mas cada um paga o seu.

Também é comum que o tal “convite” seja especificado só na hora de pagar. Se na hora de pedir a conta o seu amigo disser qualquer coisa com o verbo einladen, ele está se dispondo a pagar a conta. Frases comuns:

Darf ich dich einladen? 

“Você me deixa pagar pra você?” (tradução literal: “Posso te convidar?”)

Heute lade ich dich ein!

“Hoje eu pago!”  (tradução literal: “Hoje eu te convido!”)

Muito importante também é saber o que é educado ou mal-educado responder nessas situações. Se um alemão se ofereceu para pagar pra você, não sinta a menor necessidade de dizer não por educação. “Não por educação” é um conceito inexistente aqui. Na verdade, normalmente uma recusa significa que a pessoa se ofendeu com a oferta de alguma maneira., quase só ocorre quando a oferta foi inconveniente ou indecorosa até. Por exemplo se um homem se oferece para pagar a janta ou almoço com uma colega de trabalho, ela pode interpretar a oferta como uma paquera e se ofender e recusar. Ou então duas pessoas conhecidas, mas não muito próximas, vão almoçar juntas pra discutir alguma coisa e uma delas se oferece para pagar a conta: a outra recusaria se quisesse deixar claro que não é só porque eles foram almoçar juntos que agora viraram amigos, e quiser manter uma clara distância na relação entre as duas pessoas.

E como se aceita ou se recusa a oferta, então? Alguns exemplos:

– Heute lade ich dich ein!

– Och, danke schön, das ist ja sehr nett!

(“Hoje deixa que eu pago!”

“Ah, muito obrigada, que legal da sua parte!”)

– Darf ich dich einladen?

– Ach, gerne, danke schön!

(“Você me deixa pagar pra você?”

“Uai, com prazer, muito obrigada!”)

– Ich lade dich ein.

– Nein, nein, auf keinen Fall.

(“Eu pago.”

“Não, não, de jeito nenhum.”)

Como falei, como a recusa quase só aparece numa situação em que a pessoa se ofenda com a oferta, a resposta negativa seria direta, prosaica, sem sorriso.

Alternativamente, a recusa pode ocorrer também numa situação em que a pessoa não se sentiu ofendida, mas desconfortável. Por exemplo numa situação de trabalho. Você poderia recusar a oferta se sentisse a necessidade de manter uma distância profissional da pessoa que ofereceu, mesmo que a oferta não tenha sido inadequada. Nesse caso a resposta seria direta, mas um tanto mais delicada, por exemplo:

– Ich lade Sie ein.

– Nein, nein, das müssen Sie nicht.

(“Eu pago.”

“Não, não, não precisa.”)

Da mesma maneira que a oferta de pagar pra você deve ser levada ao “pé da letra” por assim dizer, uma recusa também tem que ser interpretada como real e ser aceita. Quer dizer, se a pessoa disse que não quer que você pague pra ela, ela tem um motivo pra não aceitar e você tem que respeitar isso. Seria mal-educado insistir.

Há várias situações possíveis, claro. Às vezes, se uma pessoa sentir que tem por algum motivo alguma obrigação de pagar a conta, ela talvez faça isso antes que você possa aceitar ou recusar. O caso típico é uma pessoa mais velha, por exemplo alguém da sua família como um tio, o seu chefe em alguma situação de trabalho, coisas assim.

Na semana passada, por exemplo, fui com uma colega do trabalho e dois arquitetos de outro escritório com quem estamos fazendo um projeto em conjunto apresentar o mesmo na prefeitura, e antes da apresentação tomamos um café. Estávamos eu, minha colega, o chefe do outro escritório e uma moça que trabalha com ele. As três bem mais jovens que o chefe, que, além disso, era o único chefe presente. Ele pagou a conta sem pensar duas vezes.

Nessas situações é importante agradecer, claro. Depois da conta ter sido paga e quando estão se levantando todos para sairem do restaurante, um “Danke schön” ou “Danke für die Einladung” é essencial.

Também é importante não assumir que alguém vai pagar pra você, mesmo sendo numa dessas situações onde esse seria o esperado. Então na hora de pedir a conta, tenha a carteira em mãos, pra deixar claro que você pretende pagar sua parte.

Uma situação que pode ser problemática é alguém sente que deve sempre pagar a conta mesmo estando no mesmo “nível de hierarquia” que a outra pessoa. Porque a outra pessoa pode entender que não está sendo vista de igual pra igual. Por exemplo. Temos um amigo que ganha muito bem, além de ser gente boa e generoso, e por isso sempre que vamos jantar juntos – seja aqui na cidade em que moramos ou lá na cidade que ele mora – ele sai pagando a conta sem perguntar. Isso é uma coisa que me incomoda pra caramba, porque eu sinto como se ele estivesse desrespeitando a gente, como se ele achasse que pagar um jantar fosse fora da nossa capacidade financeira. Melhor seria se ele perguntasse antes, se nos desse a oportunidade de dizer “Não, hoje é minha vez”. Ele se dispor a pagar todas as vezes, pq sabe que ganha muito mais que os outros envolvidos, até tudo bem. Mas ir pagando sempre, sem perguntar, é desrespeitoso, uma vez que ele tem nossa idade, é um amigo de igual pra igual, não é pai, chefe ou tio.

No geral, as regras culturais de quem paga a conta não são muito diferentes do que estamos acostumados no Brasil, é mais o fator da comunicação direta que tem que ser levado em conta.

Aproveita também para ler sobre restaurantes na Alemanha!


(Publicado em 10 de Fevereiro de 2019)

Levando multa na Alemanha

Esses dias recebi algo inédito (pra mim) nesses 6 anos e meio de Alemanha… uma multa! Ops!

Por sorte foi uma multa bem pequena, 15 euros e nenhum ponto. Mas é uma ótima oportunidade pra falar um pouco sobre como funcionam as multas por aqui, os preços e o sistema de pontuação.

Primeiro, então, a multa em si. Como no Brasil, algumas semanas após ser pego no radar você recebe uma carta pelo correio com as informações da infração: local, carro, infração cometida, e a foto. Uma diferença das multas no Brasil, é que a foto que aparece na multa daqui é especificamente para fins de identificação do motorista. O carro em si nem aparece na foto, só aparece o rosto do motorista, para o dono de carro – que é quem recebe a multa – saber quem foi o responsável pela infração e redirecionar a multa. No verso da folha há o formulário a ser preenchido neste caso.

Uma diferença aqui é que você só precisa especificar quem cometeu a infração se a mesma der pontos. Nem todas as infrações de trânsito aqui dão pontos, só as mais sérias. Algumas dão pontos só quando cometidas pela segunda vez num determinado período de tempo. Mas as mais simples, como exceder a velocidade limite em menos de 10 km/h, não dão pontos mesmo que cometidas muitas vezes.

Foi o meu caso: eu não vi uma placa que reduzia a velocidade máxima permitida em uma rua para 30 km/h num trecho próximo a uma escola. Passei pelo radar a 41 km/h. Como há uma tolerância de 3km/h para cobrir eventuais imprecisões do velocímetro ou do radar, fica registrado que eu estava a 38 km/h, portanto menos de 10km/h acima da velocidade permitida. Assim, a multa foi de 15€ e sem pontos.

Pagando essa multa em menos de 1 semana, fica dispensada a necessidade de especificar quem era o motorista no momento da infração.

Ok, mas o que provavelmente mais interessa saber é o preço das multas, e como funciona o sistema de pontuação.

Começando pelo sistema de pontuação. Como você já percebeu pela primeira parte do post, nem todas as infrações computam pontos na carteira. As mais simples normalmente não dão pontos. As que dão, dão entre 1 e 3 pontos.

Mas antes que você diga “nossa, que beleza, muito mais justo, demora bem mais pra vc chegar no limite dos pontos, awawa indústria de multas no Brasil awawawa”, lembre-se que a escala de pontos é de acordo com o limite. No Brasil, o limite de pontos é 20. Aqui é 8. Então a escala acaba sendo a mesma: 3 infrações gravíssimas = perda do direito de dirigir. Também diferente do Brasil é que as infrações graves, mesmo que não somem o limite de pontos, já resultam automaticamente numa suspensão temporária de habilitação. Quer dizer, se você cometer uma infração que dê dois ou três pontos, você vai ficar proibido de dirigir por um a três meses (dependendo da infração), mesmo que ainda não tivesse nenhum ponto na carteira antes.

Além disso, a soma de pontos tem diferentes consequências, antes do limite de 8 que resulta na perda da habilitação. São essas:

1 a 3 pontos: Ficam registrados, mas ainda não há nenhuma conseqüência.
4 a 5 pontos: O motorista recebe uma advertência com a recomendação para comparecer a um seminário de direção que resultará no cancelamento de alguns pontos.
6 a 7 pontos: Advertência e recomendação para comparecer ao seminário. O cancelamento de pontos não é mais possível.
8 pontos: perda da habilitação. Iniciar o processo de recuperação da habilitação só é possível após de 6 meses.

Também diferente do Brasil, o tempo em que os pontos permanecem na habilitação são bem maiores. No Brasil, após 12 meses da data da infração, os pontos resultantes da mesma expiram, independente da infração. Na Alemanha, depende: para infrações que computam 1 ponto, o prazo é de 2 anos e meio. Para infrações que resultam 2 pontos, o prazo é de 5 anos. E para infrações que dão 3 pontos, os pontos permanecem registrados por 10 anos.

Agora vejamos uma seleção de algumas infrações e a multa, pontuação e conseqüências resultantes, pra dar uma idéia. Já aviso que assuta, fiquei aqui um tempo olhando o catálogo e agora estou com medo de dirigir.

Velocidade

As de velocidade são as menos preocupantes, o que talvez seja de se esperar no país da BMW, Porsche, Mercedes, Audi, e das Autobahn sem limite de velocidade.
Uma observação: as consequências para excesso de velocidade são diferentes se você estiver dentro ou fora de uma cidade/vilarejo

A tabela para infrações dentro de cidades:

ExcessoMultaSuspensãoPontos
até 10 km/h15 €
11 a 15 km/h25 €
16 a 20 km/h35 €
21 a 25 km/h80 €1
26 a 30 km/h100 €1 mês (na segunda vez)1
31 a 40 km/h160 €1 mês2
41 a 50 km/h200 €2 meses2
51 a 60 km/h280 €2 meses2
61 a 70 km/h480 €3 meses2
mais de 70 km/h680 €3 meses2

A tabela para infrações fora de cidades:

ExcessoMultaSuspensãoPontos
até 10 km/h10 €
11 a 15 km/h20 €
16 a 20 km/h30 €
21 a 25 km/h70 €1
26 a 30 km/h80 €1 mês (na segunda vez)1
31 a 40 km/h120 €1 mês (na segunda vez)1
41 a 50 km/h160 €1 mês2
51 a 60 km/h240 €1 mês2
61 a 70 km/h440 €2 meses2
mais de 70 km/h600 €2 meses2

Passar no Vermelho

Brasil, passar no vermelho é uma infração gravíssima e dá 7 pontos na carteira. Mas a multa é apenas R$190 e alguns quebrados. Se você acha isso muito, veja só os preçosdas multas de sinal vermelho aqui – que variam de acordo com vários critérios:

Passar no vermelho…ValorPontosSuspensão
…menos de um segundo depois
do sinal fechar
90 €1 
+ Colocando alguém em risco200 €21 Mês
+ Danos materiais240 €21 Mês
…mais de um segundo depois
do sinal fechar
200 €21 Mês*
+ Colocando alguém em risco320 €21 Mês*
+ Danos materiais360 €21 Mês*
…virar à direita na flecha verde
sem parar**
70 €1 
+ Colocando alguém em risco100 €1 
+ Danos materiais120 €1 
+ atrapalhando a passagem de
ciclistas, pedestres, ou
carros na direção liberada
100 €1 

*Pode decorrer em perda da habilitação ou prisão dependendo do caso
**Aqui tem alguns semáforos onde tem uma placa com uma flecha verde apontando para a direita. Significa que os carros na faixa da direita podem fazer a conversão à direita com o semáforo fechado. Mas é obrigatório parar antes e, óbvio, dar preferência para quem está vindo na rua para a qual o semnáforo está aberto. Se você está atrás de outros carros que não querem virar à direita, mesmo numa situação em que você poderia virar antes de abrir o semáforo, você tem que esperar. Quer dizer, você não é obrigado a fazer a conversão se você está na faixa da direita com uma flecha verde, você pode esperar o semáforo abrir e ir em frente normalmente.

Então basicamente a multa é diferenciada entre se você passou no vermelho logo depois do farol fechar, ou se você passou no vermelhão bem óbvio. E a situação mais simples, passar assim rapidão depois que deu o vermelho, sem acontecer nada, sem ninguém por perto, já dá uma multa de 90 € e um ponto na carta.

Além disso as multas (não só as de vermelho, várias outras também) tem esses extras se tem alguém por perto que foi colocado em risco pela sua infração

Distância

Uma outra multa comum por aqui é relacionada à distância de segurança entre você e o carro da frente. Quer dizer, se você colar o carro no da frente, fazendo pressão pro motorista ir mais rápido ou dar espaço pra você ultrapassar, a multa pode sair caríssima. O preço muda de acordo com a distâcia e a velocidade. A distância de segurança tem que ser em metros mais do que 5/10 da velocidade em km/h. Assim: Se a velocidade é de 100 km/h, a distância tem que ser de pelo menos 50m (100*5/10 = 500/10 = 50 m).  Eis aqui a tabela das multas:

Violação da distância de segurançaMultaPontosSuspensão
… a menos de 80 km/h25 €  
+ Colocando alguém em risco30 €  
+ Danos materiais35 €  
… Entre 80 e 99 km/h   
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor
no velocímetro
75 €1 
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
100 €1 
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
160 €1 
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
240 €1 
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
320 €1 
… Entre 100 e 129 km/h   
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor 
no velocímetro
75 €1 
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
100 €1 
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
160 €21 Mês
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
240 €22 Meses
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
320 €23 Meses
… A mais de 130 km/h   
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor 
no velocímetro
100 €1 
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
180 €1 
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
240 €21 Mês
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
320 €22 Meses
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
400 €23 Meses

Dirigir alcoolizado

Sem dúvida uma das piores infrações que você pode cometer aqui é dirigir alcoolizado. A multa também varia de acordo com a situação. O limite é uma concentração de 0,05‰ no sangue, exceto para motoristas com carteira provisória (a definitiva tira-se depois de um ano), para quem a proibição é completa – quer dizer, qualquer concentração de álcool no sangue já é uma infração. Então vamos à tabela:

Concentração de álcool
no sangue
MultaPontoSuspensão
Com carteira provisória,
menos de 0,05‰
250 €1
Para todos os motoristas,
mais de 0,05‰
500 €21 Mês
… quando for uma segunda
ofensa relacionada a álcool
1.000 €23 Meses
… quando for a terceira ofensa1.500 €23 Meses
Concentração maior que 1,1‰Multa a decidir,
possivelmente
resultando em
prisão
3a decidir
Concentração menor que 1,1‰
mas com visíveis déficits
de atenção 
Multa a decidir, 
possivelmente 
resultando em 
prisão
3a decidir

Portanto as conseqüências são bem pesadas em qualquer situação. Nos casos mais graves, a serem decididas pela justiça caso a caso.

Bom, não vou colocar todas as tabelas de todas as possíveis infrações aqui porque seria uma coisa infinita. Mas tem vários sites onde você pode ver as conseqüências para cada infração possível, por exemplo http://www.bußgeldkatalog.de, que foi a fonte que eu usei pros dados aqui compartilhados, e que é atualizada sempre que há alguma mudança nas leis.
Mas para terminar, só mais alguns exemplinhos básicos sem especificar as diferenciações:

Estacionar em calçada ou ciclovia: 20 a 35 €
Mexer no celular na direção: 100 a 200 €, 1 a 2 pontos, 1 mês de suspensão
Não parar na placa de Pare: 25 a 100 €
Não parar antes atrás da linha (no farol vermelho): 10 €
Não parar na faixa de pedestre quando há alguém querendo atravessar:
80 €, 1 ponto
Fazer conversão sem dar preferência para pedestres atravessando:
70 a 85 €, 1 ponto
Virar sem dar seta: 10 €

Ok, acho que já deu pra dar uma idéia, e esse post já está gigante!

Eis aqui outros posts no tema direção e carteira de habilitação alemã:

Sobre trocar sua CNH brasileira pela alemã
Sobre a prova teórica
Sobre a prova prática
Sobre estacionar em cidades alemãs
Sobre as regras relacionadas a atravessar a rua, quando tem faixa, quando tem semáforo, etc.
Um dos primeiros posts do blog, sobre as Autobahns.

(Publicado em 29 de Novembro de 2018)

 

O (ou a falta de) senso de humor alemão

Sempre que algum colega faz aniversário, no escritório, o chefe dá de presente um buquê de flores para o aniversariante. Já comentei em outro post que, aqui, os aniversários redondos (20, 30, 40, 50…) são especialmente importantes. Hoje foi o aniversário de 40 anos de um colega meu, e por isso o buquê de flores dele foi particularmente especial: veio com diferentes tipos de massa como enfeite! Massa, macarrão, mesmo. Curioso. Eu queria tirar uma foto mas acabei esquecendo. Eram basicamente diferentes tipos de macarrão, embalados num plástico transparente (pq a idéia, é, de fato, fazer o macarrão eventualmente) de tal maneira que pareciam, no buquê, flores curiosas.

Todos acharam bem inusitado. Ele foi logo colocar o buquê num vaso com água, para não secar, e eu não resisti fazer uma piadinha: “Só não deixe na água muito tempo se não fica mole demais!”. Estava me referindo ao macarrão lógico. Ele não entendeu. Tive que explicar.

Há duas semanas atrás fui a Paris encontrar uma amiga que estava viajando lá. Ela estava com um grupo de outros brasileiros. Fizemos um picnic. Compramos, no supermercado, muitos queijos. O supermercado tinha um funcionário que era especificamente um recomendador de queijos. Brincamos que ele era “queijoliê”. Durante o picnic, combinamos que não era para conversar sobre trabalho. O assunto ficou voltando repetidamente como piada, cada vez que alguém comentava qualquer coisa que poderia ser minimamente relacionada à profissão de alguém presente, a pessoa em questão logo comentava que não podia responder porque não era pra falar de trabalho. Ao conversarmos sobre os vários queijos que estávamos comendo, eu comentei “Ainda bem que nenhum de nós é queijoliê”. Foi uma piadinha bobinha puxando os assuntos daquele dia – o queijoliê e o não falar sobre trabalho. Todos riram, felizes. Eu percebi que era a primeira vez que todos riam, felizes, de alguma piadinha boba que eu fiz EM ANOS. (É possível que o vinho tenha ajudado)

Mas esse comentários bobos fazendo referência a outras partes da conversa é algo que nunca teria gerado risos num grupo de alemães. O senso de humor alemão (ou a falta dele) é uma característica conhecida e frequentemente apontada em piadas e comentários a respeito da cultura alemã. É verdade que o humor alemão é diferente do que a gente conhece.

Uma diferença grande está muito á língua alemã. Em comparação ao português, a língua alemã tem bem menos variações na entonação. A gente sempre ouve (de vários estrangeiros, não só alemães) que o português brasileiro é uma língua muito “cantada”. Em português é fácil, alterando só a entonação das palavras, denotar maior informalidade, maior formalidade, carinho, sarcasmo, impaciência, e vários outros significados subentendidos. Você pode falar uma frase cujo significado é quase exatamente o oposto do que as palavras usadas indicam, e só pela entonação deixar o significado real claro. Digamos, um exemplo bem simples: “Nossa, você canta bem, né?”. Dá pra falar essa frase com uma entonação honesta e uma sarcástica. Ou então meio sem entonação, pra demontrar que você não está nem um pouco interessado nas habilidades de canto da pessoa em questão, um significado de indiferença. Outras pequenas indicações físicas reforçam um significado ou outro. Se você fala isso olhando diretamente pra pessoa, é ou a frase honesta ou a sarcástica. Olhando pra outro lado é a frase indiferente. Expressões faciais também colaboram. E assim vai. Na nossa cultura e na nossa língua, o significado de uma frase vai muito além do significado real das palavras usadas, dependendo de todo um conjunto de expressões faciais, comportamento, entonação e contexto pra ser entendido.

Não é que em alemão não tenha isso também. Tem. Só que esses outros fatores são bem menos importantes pra compreensão do significado. Eles contribuem, mas o principal mesmo são as palavras usadas. Muitos alemães entre brasileiros se confundem na comunicação achando que coisas que foram ditas tinham significado literal, quando não tinham. Um caso típico é você comentar com um alemão “ah, então passa lá em casa qualquer hora” e aí ele te liga no fim de semana perguntando se pode ir na sua casa às 16h.

São várias as vezes que eu faço comentários sarcásticos, deixando bem claro pelo meu tom de voz que é sarcasmo, e vejo que os interlocutores alemães estão me olhando com cara de quem não sabe se eu tô falando sério ou não. Em situações em que seria bem óbvio, num grupo de brasileiros, que eu não estava falando sério.

Além disso, uma outra característica da língua que dificulta certas piadas, é que ela é muito precisa e dá menos margem para ambigüidades em comparação com outras línguas. E eu suspeito que seja isso responsável por impossibilitar o senso de humor como o que a gente conhece, que é uma aparente incapacidade de relacionar comentários com temas anteriores da conversa. Como o caso do queijoliê. Ou o macarrão nas flores. Porque colocar as flores na água mto tempo faria elas ficarem moles? Pq não era óbvio que eu estava fazendo uma piadinha me referindo ao macarrão? Suponho que seja essa ausência de ambigüidade da língua alemã é que faça com que eles sejam menos “treinados” pra identificar outros tipos de ambigüidade. Será? Não sei. Só sei que são vááários os exemplos de piadinhas desse tipo que eu faço e me vejo tendo que explicar pra pessoa o que eu quis dizer.

Quando eu estava pra casar, ano passado, o tema casamento era um assunto recorrente nas conversas de almoço entre as colegas do trabalho. Numa ocasião estávamos falando do meu vestido, que eu tinha escolhido que seria vermelho, e não branco. Eu tinha acabado de buscar o vestido, pronto, da costureira, daí o assunto. Poucos minutos depois, o assunto mudou para a apresentação do coral de uma colega. O nome do coral tem qualquer coisa a ver com frutas vermelhas, e por isso as meninas (é um coral feminino) tinham que todas ir com roupas vermelhas, rosas ou roxas para a aprensentação, e minha colega estava comentando que não tinha nenhuma roupa vermelha, rosa ou roxa (ela usa mais roupas de cores azuladas). Eu comentei, brincando “Bom, eu tenho um vestido vermelho novinho se você quiser emprestado…” me referindo, é claro, ao meu vestido de casamento, que eu tinha acabado de buscar, que era vermelho, e sobre o qual tínhamos conversado poucos minutos depois. Ela não entendeu. Eu tive que explicar.

Também numa conversa de almoço do trabalho, estávamos conversando sobre o fato de que a máquina de café estava na assistência técnica. A máquina de café do escritório faz cafés maravilhosos, eu (e outros colegas também) estava bem transtornada com a ausência da máquina de café. Minha colega comentou que a outra colega que tinha levado a máquina pra assistência técnica, a Ana, disse que provavelmente ficaria pronta e voltaria no dia seguinte. Algumas frases depois, comentando sobre alguma outra coisa da tal Ana, a mesma colega com quem eu estava conversando sobre a máquina de café falou que a Ana parecia estar com um início de gripe e se pá ia acabar tendo que ficar o resto da semana em casa. Eu comentei, com um tom dramático exagerado “Ó Não!! A Ana não pode ficar em casa o resto da semana!!!” me referindo, na verdade, ao fato de que se a Ana não viesse ela também não traria de volta a máquina de café. Quer dizer, a gente tinha conversado sobre a máquina de café SEGUNDOS antes, sério. Nope, não rolou uma compreensão direta, tive que explicar que eu estava brincando que não era a Ana que faria falta, mas a máquina de café.

As piadas dos alemães são como a comunicação alemã: diretas, sem sutilezas, sem risco de serem mal compreendidas.

E pra pessoas de outras culturas – especialmente pra nós, que fazemos graça de tudo, que floodamos a internet com memes de qualquer situação segundos depois dela ter ocorrido – pode bem parecer que os alemães não têm senso de humor. Mas talvez o pior resultado disso seja que se você estava acostumado a fazer as pessoas rirem com o que você fala no Brasil, aqui você perca essa habilidade…


(Publicado em 28 de Agosto de 2018)

Hino Nacional Alemão

Durante a Copa, uma coisa que não saía da minha cabeça era o hino nacional. Adoro o hino nacional, acho ele bonito na melodia, na letra, sempre emociona ouvir.

Estando na Alemanha durante importantes eventos esportivos mundiais outra coisa que fica na sua cabeça, claro, é o hino da Alemanha. Bom, esse ano nem tanto já que só o ouvimos três vezes, néam. Mas embora a melodia do hino alemão já me seja muito bem conhecida, uma coisa que eu não aprendi ainda é a letra.

Isso porque aqui pega um pouco mal sair cantando o hino alemão. No estádio (a maioria) dos jogadores e alguns torcedores cantam, mas se vc for assistir o jogo em algum biergarten ou bar, vai logo ver que poucas pessoas cantarão o hino. Por causa do passado nazista ultra-nacionalista, os símbolos nacionalistas como hino e bandeira acabaram ficando com uma conotação ruim. Por aqui se você vir alguém com bandeira da Alemanha na janela – fora da época de copa do mundo ou eurocopa – certeza que não é uma pessoa bacaninha. Grandes chances de ser um neonazi.

Assim sendo, a maioria das pessoas prefere não cantar o hino e você vai logo perceber, num Biergarten ou bar assistindo a um jogo, o tipo de pessoa que canta o hino junto: normalmente um grupo de homens mal-encarados com a maior cara de briguentos.

E por esse motivo eu não ouvi a letra do hino alemão suficientes vezes para aprender por osmose. Só se for uma coisa ativa, mesmo. Já pedi pro meu marido me ensinar, ele se recusou. Outro dia eu estava com o hino alemão na cabeça e comecei a distraidamente cantarolar baixinho a melodia e ele me deu bronca, rsrsrs. Por sorte o hino brasileiro não tem para nós essa mesma conotação ultra-nacionalista (exceto quando tocado em manifestações bizarronas pedindo intervenção militar), então eu tentei ensinar a letra do hino nacional pro meu marido. Até agora ele já aprendeu: “Ouviram das piranhas às margens plácidas, de um povo herói o tambor brilhante.” Como vocês podem ver, lhe falta algum vocabulário, mas tá indo.

Mas voltando ao hino alemão. Essa introdução toda era só pra explicar pq eu resolvi escrever um post sobre o hino nacional alemão e tal. Só não saia cantando por aí quando estiver na Alemanha, pega mal.

A melodia do Hino Alemão foi composto pelo famoso compositor Joseph Haydn, e a letra foi escrita por August Heinrich Hoffmann von Fallersleben em 1841, e chamada Deutschlandslied (canção da Alemanha).

Fallersleben e Haydn são esses dois ilustres senhores, aqui, nesta ordem.

Talvez você já tenha ouvido falar que a letra original continha 3 estrofes, das quais atualmente apenas a terceira foi mantida e constitui a letra oficial do hino alemão. As duas primeiras estrofes já não são mais cantadas desde o fim da guerra, e desde 1990 passou a ser oficial que apenas a terceira estrofe da Deutschlandslied constitui o hino nacional alemão.

O motivo pelo qual as duas primeiras estrofes foram descartadas é que elas não correspondem mais à sociedade alemã atual. Em primeiro lugar, a primeira estrofe conhecidamente começa com as frases “Alemanha, Alemanha sobre tudo”, o que não cai bem cantar depois da história toda do nazismo e talz. Em seguida, a letra menciona referências geográficas que não estão mais na Alemanha. A letra diz:

“Von der Maas bis an die Memel,
Von der Etsch bis an den Belt,”

Do Maas ao Memel, do Etsch ao Belt. Esses são rios que antes da guerra marcavam os pontos do Leste, Oeste, Norte e Sul do mapa alemão de então. Hoje, porém, o Memel está pra lá da Polônia (na pontinha do que antes foi a Prússia), o Etsch está na Áustria, o Belt na Dinamarca, o Maas na França. Mesmo na época em que o hino foi composto usar esses rios como limites da Alemanha já era meio duvidoso, já que apenas dois estavam de fato dentro das fronteiras alemãs. Os outros dois fizeram parte do mapa alemão em diferentes momentos depois da composição da música, mas atualmente nenhum dos rios toca em nenhum momento o solo alemão. Não faz nenhum sentido cantar isso no hino, portanto.

Finalmente, a segunda estrofe também foi abandonada por ser bizarramente machista, basicamente colocando mulheres alemãs no mesmo nível de bens culturais da alemanha que a música e o vinho alemães… nada a ver e com certeza não condiz com a sociedade alemã contemporânea, que é bem mais igualitária.

Assim sendo, restou apenas uma estrofe como sendo o hino nacional oficial. É ela:

“Einigkeit und Recht und Freiheit
Für das deutsche Vaterland!
Danach lasst uns alle streben
Brüderlich mit Herz und Hand!
Einigkeit und Recht und Freiheit
Sind des Glückes Unterpfand;
Blüh’ im Glanze dieses Glückes,
Blühe, deutsches Vaterland!”

União, justiça e liberdade
para a pátria alemã!
Por esses ideais lutemos,
fraternalmente com o coração e as mãos!
União, justiça e liberdade,
São o fundamento para a felicidade
Floresça no irradiar desta felicidade,
Floresça, pátria Alemã.

Meio bobinho, mas simpático, e bem melhor que as coisas bizarras das duas estrofes descartadas. Mas ainda sou mais a resplandecente imagem do cruzeiro no impávido colosso, o verde louro da flâmula, os bosques com mais vidas e os risonhos e lindos campos com mais flores…


(Publicado em 06 de Agosto de 2018)