Datas importantes

9 de Novembro

Era pra eu escrever esse post ontem, que foi 9 de novembro, mas enfim. Serve.

9 de Novembro é uma data importante na Alemanha, com diversos acontecimentos históricos. O mais recente e talvez mais lembrado é o dia da queda do muro de Berlim, 9 de Novembro de 1989. Um acontecimento importante o suficiente para fazer do dia 9 de Novembro um feriado. Não fosse por outras memórias ligadas a essa data, especialmente àquela de 9 de Novembro de 1938, que ficou conhecido como a Noite dos Cristais.

Nessa noite de 1938, sinagogas, lojas e residências de proprietários judeus foram atacadas, destruídas, queimadas e arruinadas por multidões enfurecidas instigadas ao ódio anti-semita pelo partido nazista. Membros do NSDAP (o partido nazista) e do SA (Sturmabteilung, a milícia militar nazista), que organizaram e iniciaram os ataques a pedido de Hitler, vestiram-se à paisana para dar a impressão para a população que os ataques foram uma manifestação espontânea da população alemã contra os judeus, que foram multados em 1 bilhão de marcos pelo governo nazista, além de obrigados a limpar e reorganizar a bagunça resultante e a pagar dos próprios bolsos o prejuízo que tiveram em suas lojas, casas e sinagogas.

Loja de proprietário judeu destruídas após a noite dos cristais. Bundesarchiv, Bild 146-1970-083-42

Sinagoga destruída após a Noite dos Cristais.

Para relembrar a história, na noite de 9 de novembro há vigílias e manifestações nas sinagogas das cidades alemãs. Além, claro, de vários carros de polícia em volta das sinagogas, por via das dúvidas.

Manifestação pela tolerância na frente da sinagoga de Dresden em 9 de Novembro de 2015.

Manifestação pela tolerância na frente da sinagoga de Dresden em 9 de Novembro de 2015.

Muitos carros de polícia em volta da sinagoga.

Muitos carros de polícia em volta da sinagoga.

E, como falei lá no começo, foi nessa mesma noite, 51 anos depois, que o muro de Berlim foi derrubado 32 anos após sua construção.

É um tremendo desafio escrever aqui um texto sucinto, correto e apropriado sobre um evento tão importante e que marcou o fim de uma era. Mas vou tentar.

A parte talvez mais curiosa da história da queda do muro é que foi tudo meio sem querer. Com o desgaste do regime, o controle dos cidadãos na Alemanha Oriental e outros países da europa oriental estava ficando gradualmente menos rígido. Em 19 de Agosto de 1989, a Hungria desativou as defesas na borda com a Áustria. Isso significa que embora a borda física ainda existisse (grades com arame farpado, ou barreiras similares), não haviam mais soldados vigiando a borda, de maneira que a fuga para o oeste via Hungria-Aústria foi extremamente facilitada. Multidões de cidadãos da Alemanha Oriental começaram a viajar para a Hungria para fugir para o Oeste – não muito diferente das multidões de refugiados do oriente médio que hoje fazem o caminho contrário para subir à Alemanha via Hungria. Os então leste-alemães seguiam para a Alemanha Ocidental onde eram dados a condição de refugiados e autorizados a permanecer.

O governo alemão então proibiu viagens à Hungria, só para assistir o percurso de fuga se deslocar para a República Tcheca, país para o qual os então leste-alemães podiam viajar livremente devido a acordos entre os dois governos. A movimentação de refugiados era tão grande que o governo leste-alemão acabou decidindo permitir a saída (definitiva) de cidadãos diretamente pela Alemanha, e um pouco mais tarde no mesmo dia (9 de novembro) permitir também viagens de ida e volta para a Alemanha Ocidental (ou seja, os cidadãos leste-alemães poderiam ir para a Alemanha Ocidental sem precisar fugir do país para nunca mais voltar). O chefe do partido em Berlim Oriental e porta-voz para a mídia, Günter Schabowski, ficou responsável por comunicar as mudanças nas regras, mas ele não tinha estado presente nas discussões e não estava ciente de todos os detalhes envolvidos. Ele recebeu uma nota pouco antes da conferência de imprensa em que comunicaria as mudanças, mas não foi informado de que as regras passariam a valer no dia seguinte, para que desse tempo de informar os guardas da fronteira a respeito das novas regras. Na conferência, Schabowski leu em voz alta a nota que tinha recebido, e ao ser perguntado quando passariam a valer as novas regras respondeu que, pelo que a nota dizia, presumia que as regras passavam a valer imediatamente.

A notícia rapidamente se espalhou pelos dois lados da Alemanha e leste-alemães começaram a se reunir nos check-points do muro de Berlim exigindo que os portões fossem abertos, enquanto berlinenses do outro lado se juntavam nas saídas com flores e champagne para recebê-los. Na confusão das informações, os guardas da borda não sabiam o que fazer e ninguém do governo queria ser o responsável por dar a ordem de atirar em quem atravessasse sem autorização, de maneira que eles acabaram por abrir os portões e massas de pessoas fluiram para Berlim Ocidental de encontro aos berlinenses do outro lado em uma grande e emocionante comemoração.

Com a grande multidão de pessoas de ambos os lados, logo os do lado Oeste subiram no muro para ajudar os do leste a escalar e pular para o outro lado, seguido pelas iniciativas de destruição do muro com marretas e o que tivesse disponível.

Eis um momento emocionante da história do mundo que eu gostaria de ter testemunhado em pessoa. Nem dá pra imaginar o que essas pessoas devem ter sentido ao poderem se reencontrar depois de mais de 50 anos divididos.

Fotógrafa: Sue Ream

Lear 21 via English Wikipedia.

Dois 9 de Novembros, um em 1938 e outro em 1989, que marcaram o início e o fim de tempos sombrios da história alemã, que esperamos que não se repitam. Infelizmente, há ainda aqueles que desejam tanto a perseguição e intolerância aos não-alemães quanto a separação com muros e fechamento das fronteiras. Em contextos um pouco diferentes, é claro, mas movidos pelo mesmo radicalismo, ódio e medo que no passado. Felizmente não são a maioria.

Se você quiser saber o que visitar em Berlim para saber mais sobre a história da cidade e da Alemanha durante o século XX, dá uma lida no post de dicas de viagem sobre Berlim!


(Publicado em 10 de Novembro de 2015)

Männertag – O dia dos homens

Hoje é feriado na Alemanha. A primeira quinta feira 40 dias após da Páscoa é, na religião cristã, o dia da Ascenção, em que Jesus ascendeu ao céu. O Feriado é por causa dessa comemoração, chamada em alemão Christhimmelfahrt. Mas no mesmo dia é também o não oficial Dia dos Homens, ou Männertag em alemão, ou ainda também chamado Dia dos Pais, Vatertag.

A tradição do Männertag já vem de longa data, e, como talvez possa-se imaginar pelo nome “Dia dos Homens”, não é uma data de comemorações fofinhas.

Basicamente a tradição é juntar um grupo de amigos – só homens, claro – e fazer uma caminhada puxando um carrinho de mão cheio de garrafas de cerveja ou vinho dentro. O qual, claro, eles bebem o dia inteiro para ficar tão bêbados quanto humanamente possível. Tanto que os acidentes de tráfego relacionados a alcoolismo aumentam em 3 vezes nesse dia. Que beleza de comemoração!

Steffen Gebhart at en.wikipedia

Em certas partes da Alemanha, o dia é comemorado com mais afinco, como é o caso daqui, Dresden, onde muitos jovens (rapazes) aproveitam o dia para se embebedar loucamente.

Quanto ao fato de ser também o dia dos pais, isso na verdade não importa muito por aqui. Esses dias como dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, que no Brasil são híper comemorados, por aqui não têm muito valor, não. Sabe-se que é o dia das mães, ou dia dos pais, mas raramente as mães ou pais ganham presentes ou almoços com a família. Aliás, nem mesmo o dia dos namorados (aqui também comemorado no dia 14 de fevereiro) recebe muita atenção por aqui.

Mas a tradição do Dia dos Homens tem um background. Provavelmente teve início em procissões do dia da Ascenção (segundo o Wikipedia), celebrado desde o século XVIII. Os homens sentavam-se em carrinhos de mão e eram levados para a praça do vilarejo, onde o prefeito dava um presente (um grande presunto) ao homem com o maior número de filhos. O que, convenhamos, é uma tradição bem mais divertida. Mas aos poucos a parte religiosa foi se perdendo e a tradição foi sendo simplificada a um grupo de homens passeando com cerveja e presunto. Tudo bem.


(Publicado em 14 de Maio de 2015)
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Carnaval de Colônia

Um pouco atrasado, mas finalmente sentei para escrever um post sobre o carnaval de Colônia.

Embora para nós carnaval pareça algo propriamente brasileiro, a origem do carnaval remonta à Mesopotâmia e aparece e reaparece em diversas culturas e lugares. O carnaval no modelo mais similar ao que é celebrado hoje teve início na Idade Média como os dias em que a plebe tem a liberdade de rir da nobreza e da igreja. É a grande festa que precede a quaresma, esse modelo portanto é diretamente ligado à religião católica. Em Colônia, uma cidade fundada pelos romanos, o primeiro registro relacionado ao carnaval data de 1341, no que seria algo análogo ao diário oficial da cidade, onde teria sido escrito que o conselho municipal não poderia gastar mais verba com o Carnaval. Apesar de o carnaval alemão não ter se originado em Colônia, mas em algum lugar da Bavária, parece que o primeiro desfile de carnaval do mundo aconteceu em Colônia em 1823 (segundo o Wikipedia sem fontes confiáveis).

Seja verdade ou não, é fato que o carnaval de Colônia é super tradicional e muito famoso, além de ser a principal festa de carnaval da Alemanha. Pra quem é de Colônia, a época do carnaval e as festividades são eventos extremamente importantes.

A temporada de carnaval começa oficialmente em Novembro. Isso mesmo, novembro, mais especificamente em 11/11 às 11:11. Terminando, claro, na terça-feira anterior à quarta-feira de cinzas. Ou seja, aproximadamente 4 meses de carnaval. E por isso, em Colônia, o carnaval é considerado a quinta temporada. Tipo: primavera, verão, outono, inverno, carnaval.

Mas então quer dizer que os Coloni….colonienses? Colonistas? Colonianos? Ou seja lá como chamam-se as pessoas nascidas em Colônia, quer dizer que eles pulam carnaval por 4 meses??

Bom, não, claro. Ninguém é tão festivo assim. E tem o natal no meio, que tem sua importância própria e tal. O que acontece são alguns eventos e festividades relacionados ao carnaval.

Em novembro, o carnaval começa com a apresentação do triunvirato. Não sei se essa é a tradução correta, a palavra em alemão é Dreigestirn. São três homens representando um o príncipe, um o fazendeiro e um a virgem, que são digamos o símbolo do carnaval. A idéia é que nessa época do ano todo mundo é igual, e esses três representam as diversas camadas da sociedade, algo desse gênero. Cada ano são três pessoas diferentes fazendo esses papéis, e eles são apresentados nesse dia de novembro, juntamente com músicos famosos que tocam músicas de carnaval, enfim, uma festa de rua.

„Dreigestirn 72“ by Press picture taken from [1]. Lizenziert

„Dreigestirn 72“ by Press picture

Essa data de novembro existe por um motivo similar aos dias de carnaval antes da quaresma. Originalmente haveria também um período de 40 dias de jejum antes do Natal, e antes desse período, os dias de carnaval.

Assim sendo, a temporada do Carnaval tem uma pausa em dezembro – para o período de adventos e o Natal – e é retomada em Janeiro, quando acontecem algumas celebrações um tanto diferentes, chamado Karnevalssitzung, ou Stunksitzung. É mais ou menos como um show. A platéia (que vem ao evento fantasiada) fica sentada em mesas, bebendo cerveja e comendo petiscos, enquanto assiste a uma apresentação que inclui música, danças, cenas de comédia que fazem graça de políticos e da igreja, além de outros temas, etc.

Eis aqui um trecho de um Stunksitzung em Colônia, com uma apresentação de dança:

Esses eventos acontecem ao longo de janeiro e fevereiro, até o início dos dias realmente importantes do Carnaval, na semana que precede a quaresma.

O início oficial dessas festividades é na quinta-feira anterior à quarta-feira de cinzas. É quando começa oficialmente o feriado de carnaval na cidade de Colônia, e arredores. As crianças (que vão à escola fantasiadas nesse dia, assim como os professores) são dispensadas da escola às 11:11, e todo mundo vai pra rua onde se inicia o carnaval de rua que acontece até a terça-feira seguinte.

Essa quinta-feira chama-se Weiberfastnacht, que pode ser traduzido como o carnaval das mulheres, ou algo do gênero. Esse dia, portanto, é o das mulheres. E para simbolizar isso, nesse dia as mulheres podem cortar com uma tesoura as gravatas de homens que estiverem usando gravatas nesse dia. A origem desse dia das mulheres teriam sido festividades realizadas por freiras em conventos.

Entre sexta-feira e domingo, o carnaval de rua acontece por todos os bairros da cidade e das cidades vizinhas. Esses blocos de rua não são muito diferentes dos brasileiros, mas um detalhe importante: passam trios elétricos com pessoas jogando balas e doces para as crianças! A regra é que você tem que gritar “Kamelle!” (uma palavra antiga que significa doces, e não camelos), e eles jogaram os doces pra você. Para as mulheres têm também flores, você tem que gritar “Strüßche!” (uma gíria local para flores), e eles jogam as flores.

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Criança vestida de onça sentada nos ombros de adulto e balinhas voando pelo ar

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Um dos trios elétricos que passam com a música e os doces

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Homem em trio elétrico jogando balas e doces

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Outro homem fantasiado em trio elétrico jogando balinhas

Rosenmontag, a segunda-feira de carnaval, é o dia mais importante do carnaval de Colônia, que junta mais de 1 milhão de pessoas nas ruas (o que é um número razoável considerando-se que a cidade de Colônia tem 1 milhão de habitantes).

Nesse dia, participam dos desfiles os grupos vencedores dos desfiles de bairro do domingo (há competições de fantasias e música).

Os desfiles continuam na terça feira e à meia noite da terça para quarta é quando se queima o Nubbel, um boneco – meio como um espantalho – que representa todos os pecados cometidos no carnaval. Ele é queimado para levar a culpa, meio que uma maneira de “terceirizar” a culpa dos tais pecados. É com essa cerimônia que termina oficialmente o carnaval alemão.

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Homem fantasiado de bolhas de sabão.

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Um pessoal fantasiado de peças de lego

E a quarta-feira de cinzas é então o início da quaresma.

Resumidamente, é esse o carnaval de Colônia, do qual por circunstâncias diversas eu ainda não tive a oportunidade de participar. Quem sabe ano que vem!

Para terminar, ficam algumas outras curiosidades avulsas sobre o carnaval de Colônia:

Kölle Alaaf é a saudação usada durante o carnaval em Colônia. Há polêmicas sobre o significado.

330 toneladas de balas, 700.000 barras de chocolates e 220.000 caixas de bombons são jogadas durante os desfiles em Colônia.

Ao todo, as pessoas gastam com fantasias, comidas e coisas diversas relacionadas à comemoração, um total de 460 milhões de euros.

Colônia recebe uma média de 1.5 milhões de turistas (alemães ou estrangeiros) durante o carnaval.

Como no Brasil, tem essa idéia de que durante o Carnaval o beijo é livre. Só que aqui isso vale não para desconhecidos em geral, mas para a polícia e para o prefeito! Quer dizer, é liberado beijar policiais e o prefeito! Ainda preciso fazer umas fotos disso…

E aqui vai uma propaganda do carnaval, que mostra algumas imagens dos desfiles e das fantasias:


(Publicado em 21 de março de 2015)

 

Pegida parte 2: Uma resposta de Dresden

Antes de ler esse post, leia a primeira parte aqui para entender do que se trata.

Ah, a Alemanha. Às vezes tem que se admirar. Se por um lado volta e meia aparecem manifestações racistas, xenófobas e neo-nazis, as respostas que você vê pela cidade são simplesmente tocantes. No post anterior eu comentei, em uma das fotos, o grande cartaz no Zwinger – o museu mais importante de Dresden, que dizia “A coleção de arte estadual de Dresden – 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação.”, em uma clara resposta à xenofobia do Pegida. Algumas outras discretas manifestações pela cidade deixam claro a posição da maioria – por exemplo uma loja que vende roupas fair-trade importadas de países de terceiro-mundo com um cartaz dizendo algo como “Nós também defendemos uma Dresden colorida e multicultural” entre outros detalhes assim por aí. Essa descrição, “Dresden colorida”, está sendo frequentemente usada por quem se manifesta contra a xenofobia, se referindo às diferentes cores e etnias de uma cidade multi-cultural.

No último 13 de fevereiro, durante a bagunça das manifestações nazistas e anti-nazistas, o cartaz gigante no teatro municipal com uma citação de Erich Kästner, “De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram.”, em um claro apoio aos bloqueios à marcha dos neo-nazis.

Se por um lado essas manifestações racistas, xenófobas e anti-democráticas da extrema-direita são chocantes, assustadoras e deprimentes, por outro as respostas criativas e bem-humoradas do resto da sociedade são tocantes e emocionantes.

Uma dessas respostas aconteceu ontem, 26.01, em Dresden. Um evento organizado por artistas de Dresden sob o nome “Offen und Bunt – Dresden für alle” (Aberta e colorida – Dresden para todos), reuniu diversos artistas e pessoas famosas da Alemanha – tanto alemães quanto imigrantes – em um enorme show aberto no centro histórico da cidade, pela tolerância e por um “mundo aberto” (Weltoffenheit é o termo em alemão, não tem uma tradução precisa, mas significaria um mundo sem fronteiras, sem muros).

Entre as performances – músicas com o tema tolerância, e algumas especificamente a respeito do Pegida – algumas pessoas famosas ou nem tanto davam declarações contra a xenofobia e pelo multi-culturalismo. Uma das falas mais tocantes foi de uma refugiada da Síria convidada, que disse, em seu breve discurso, uma frase que sintetiza bastante a questão: Eu acho legal que eles [o Pegida] perguntem porque nós [refugiados] estamos aqui. Mas eles estão perguntando para as pessoas erradas. Eles estão perguntando para a gente, porque estamos aqui, mas deveriam perguntar para o seu governo [o governo alemão], porque estamos aqui. E o seu governo deveria responder honestamente. Que estamos aqui porque eles vendem armas para governos ditatoriais de outros países. [a Alemanha é o sexto país que mais exporta armamentos]” (tradução livre de memória).

Outras declarações desse gênero, criticando o Pegida, criticando a xenofobia, e elogiando uma cidade multi-cultural e aberta completaram a noite.

E não foi um evento pequeno. Além da Neumarkt (a praça na frente igreja símbolo da cidade) lotada de pessoas (os organizadores estimaram 25.000), holofotes coloridos iluminavam o skyline da cidade em diferentes cores vibrantes, criando um cenário impressionante, e, pelo seu significado – a cidade colorida, multicultural –, profundamente comovente.

Veja aqui uma foto panorâmica de 360˚ da Neumarkt lotada de pessoas.

Algumas fotos oficiais da imprensa:

© DPA

© DPA

Michael Schmidt

Michael Schmidt

Algumas fotos minhas do skyline colorido da cidade:

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(Publicado em 27 de Janeiro de 2015)

Pegida: o movimento islamofóbico da Alemanha

Estou enrolando há um tempo para escrever esse post porque o assunto é chato. Mas como percebi que algumas pessoas têm visitado o blog procurando informações sobre as recentes manifestações islamofóbicas em Dresden – conhecidas pelo nome de Pegida – está na hora de escrever sobre o assunto.

“Pegida” é abreviação de Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes, ou “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”. Segundo os organizadores, a Pegida não é islamofóbica nem xenófoba, e a intenção é só se manifestar contra o radicalismo islâmico. Mas não é tão simples assim, infelizmente. Aqui, devido à história alemã, ninguém que não seja xenófobo e de extrema-direita se auto-denomina “patriota” ou “nacionalista”. A idéia de nacionalismo aqui ainda está diretamente ligada ao passado nazista do país. E além disso, islamofobia é uma coisa séria por aqui. Há uma grande quantidade de imigrantes de países árabes, e a integração desses (e dos outros imigrantes tb, mas principalmente dos muçulmanos) por aqui é muito difícil, pela cultura e religião diferentes e o preconceito dos europeus com muçulmanos. Então uma manifestação patriota contra a “islamização do ocidente”, aqui, é muito mais que uma manifestação contra religiosos radicais, mas uma manifestação efetivamente xenófoba. Direcionada principalmente aos imigrantes e refugiados muçulmanos, mas é óbvio que ódio não tem um limite claro de onde termina. De maneira que o Pegida junta dezenas de neonazis, xenófobos, racistas, e todo tipo de ódio.

Fundado em Dresden em Outubro de 2014, o Pegida começou a fazer manifestações semanais, toda segunda feira, e aos poucos foi juntando MUITA gente. A penúltima manifestação deles, dia 12 de Janeiro, juntou 25.000 pessoas. E claro, não ficou só em Dresden, o movimento foi se expandindo para outras cidades, também. Só que nas outras cidades, as manifestações contrárias ao Pegida foram bem maiores.

O mapa mostra o número máximo de pessoas que compareceram a uma manifestação do Pegida (em laranja) ou contra o Pegida (em azul) pela Alemanha. Dresden, onde foi fundado o movimento, é também a única cidade em que ele tem alguma força.

O mapa mostra o número máximo de pessoas que compareceram a uma manifestação do Pegida (em laranja) ou contra o Pegida (em azul) pela Alemanha. Dresden, onde foi fundado o movimento, é também a única cidade em que ele tem alguma força.

Como a maioria dos alemães é bem consciente da história e do perigo da extrema-direita, sempre que acontece alguma manifestação de alguma maneira ligada aos neo-nazistas, junta muita gente para bloqueá-los, como é o que acontece em 13 de fevereiro em Dresden.

Na segunda feira dia 05.01, vários monumentos e edifícios importantes ao redor da Alemanha, como a Catedral de Colônia, desligaram sua iluminação externa para mostrar que não apoiavam o Pegida.

No sábado dia 10.01, uma manifestação em Dresden pela tolerância e respeito, juntou mais de 35.000 pessoas. Em uma atitude que eu achei muito correta, o reitor da Universidade Técnica de Dresden convidou, por email, todos os alunos e professores da universidade para participarem da manifestação e mostrar para o mundo que o Pegida não representa Dresden.

Até a chanceler Angela Merkel, em seu discurso de ano novo, se manifestou conta o preconceito religioso e o racismo, e declarou seu apoio à tolerância.

Para complicar a história toda, um refugiado da Eritreia, um rapaz negro de 20 anos de idade, Khaled Idris Bahray, foi assassinado a facadas na frente do seu prédio, na noite de 12 pra 13 de Janeiro, logo após uma manifestação do Pegida. O contexto do assassinato indicou o provável motivo racista. Os colegas de apartamento, também refugiados da Eritreia, relataram hostilidade dos outros moradores do prédio, inclusive a pixação de uma suástica na porta de seu apartamento 3 dias antes do assassinato, seguida dos dizeres “nós vamos pegar vocês todos.” E porque a história já não era ruim o suficiente, a polícia saxônica, ao encontrar o corpo ensangüentado do rapaz, não classificou a morte como assassinato, declarando que “não havia sinais de crime”. A polícia saxônica é conhecida por declarações e ações polêmicas e problemáticas.

Enquanto um político do partido verde entrou com um processo contra a polícia pela demora em considerar a morte como assassinato, perdendo a oportunidade de colher provas nas primeiras 30h após a morte, grupos de apoio a refugiados e imigrantes organizaram uma demonstração no sábado 17.01 em memória a Khaled e pela segurança e proteção à refugiados, que juntou tanto imigrantes quanto alemães.

Porém na semana seguinte, a polícia prendeu um suspeito pelo assassinato, um colega de apartamento de Khaled, também da Eritreia. O racismo da polícia e as polêmicas envolvendo investigações relacionadas a refugiados resulta, ainda, em muito ceticismo em relação às investigações da morte de Khaled. Para muitos, os verdadeiros fatos por trás do assassinato ainda continuam sendo uma incógnita. (O vídeo abaixo, filmado em uma manifestação de neo-nazistas em Dresden, em fevereiro de 2011, mostra um grupo de neo-nazis atacando um edifício onde moram refugiados, com pedras e xingamentos racistas. No fim da rua, dois carros de polícia parados assistem a agressão sem fazer nada a respeito).

Mas independente da polêmica sobre o assassinato de Khaled, as manifestações do Pegida e contra o Pegida continuam acontecendo.

Para segunda-feira 19.01, A organização Dresden Nazifrei havia organizado uma enorme manifestação anti-Pegida com várias frentes. Mas no domingo à noite, o Pegida cancelou sua manifestação para o dia seguinte, e a polícia de Dresden subsequentemente proibiu qualquer concentração de pessoas ao ar livre para o dia 19.01, uma medida inédita na democracia alemã. O motivo divulgado foi que um dos organizadores do Pegida teria recebido ameaças de um grupo extremista islâmico, que a polícia considerou reais e perigosas o suficiente para proibir manifestações naquele dia. Mas nada foi esclarecido ou provado a respeito para o público. No dia seguinte, um dos principais líderes fundadores do Pegida, Lutz Bachmann, se afastou do movimento após a publicação em um jornal de Dresden de uma foto sua com um bigode e corte de cabelo remetendo a Adolf Hitler. Além da foto, postada na sua página do facebook algumas semanas antes do início da Pegida, prints de um grupo fechado do facebook com declarações racistas e xenófobas de Bachmann também foram divulgados. O grupo foi deletado poucos momentos após a divulgação.

Na semana seguinte, o Pegida reagendou sua manifestação para domingo (hoje, 25.01) ao invés de segunda. Ao invés de marchar, o movimento realizou uma manifestação estacionária na Theaterplatz que juntou, segundo a polícia, aproximadamente 17.000 pessoas. Atrás do bloqueio policial, a manifestação contrária juntou 5.000 pessoas. As diversas organizações e pessoas se unindo contra o Pegida em Dresden e ao redor da Alemanha têm se manifestado mais recentmente com símbolos relacionados a limpeza: vassouras, escovas de privada, batas laranja e amarelas usadas pelos garis daqui, entre outros objetos com a idéia de limpar a cidade do racismo, da xenofobia e do nazismo.

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Manifestantes usando batas laranja e amarelas que os garis usam e carregando vassouras e espanadores para limpar a cidade da xenofobia e do racismo.

Manifestação do Pegida de 25 de Janeiro. A grande concentração de bandeiras alemãs deixa clara a intenção nacionalista e de extrema-direita do Pegida. Ao fundo, na fachada do museu Zwinger, uma clara declaração anti-xenofobia: "A coleção de arte estadual de Dresden - 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação."

Manifestação do Pegida de 25 de Janeiro. A grande concentração de bandeiras alemãs deixa clara a intenção nacionalista e de extrema-direita do Pegida. Ao fundo, na fachada do museu Zwinger, uma clara declaração anti-xenofobia: “A coleção de arte estadual de Dresden – 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação.”

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Ao fundo, a manifestação do Pegida. Na frente, atrás do bloqueio policial, parte da manifestação anti-Pegida.

E essa é a história do Pegida até esse momento. Como essas manifestações vão se desenrolar – se perderão a força ou crescerão – veremos nas próximas semanas ou meses, e especialmente a influência que o Pegida terá sobre as manifestações anuais neo-nazistas que ocorrem em Dresden em 13 de Fevereiro. A ironia disso tudo é que a cidade em que o Pegida – o movimento contra a islamização e tal – foi fundado e tem alguma força, Dresden, tem uma população de muçulmanos de aproximadamente 0,1%. Que ameaça!

Edição: Leia aqui uma continuação desse post!


(Publicado em 25 de Janeiro de 2015)

Com o que presentear alemães

Hoje, véspera de Natal, fiquei aqui pensando sobre o que poderia escrever. Ano passado já fiz vários longos e detalhados posts sobre os costumes natalinos alemães. Falei sobre as decorações de Natal, sobre as comidas típicas da época de Natal, sobre outros detalhes referentes à celebração do Natal, sobre os mercados de Natal e sobre os adventos e calendários de adventos. Basicamente não sobrou nada para escrever esse ano. Mas aí, inspirada pelos termos de busca que levaram, esse mês, ao meu blog, pensei em escrever um post sobre presentes para alemães. Parece que ultimamente muita gente tem entrado aqui ao procurar no google coisas como “o que dar de presente para alemães” e termos similares.

Então pronto, aí vai. Se você tiver um amigo alemão no Brasil, ou estiver na Alemanha e for passar o Natal com a família de algum amigo, quais presentes são acertos seguros na Alemanha?

Claro que isso é difícil de dizer e, como qualquer outro grupo, os alemães têm gostos variados e individuais. Mas em algumas coisas, os alemães são quase unânimes. Por exemplo, viajar. Todo o alemão que eu conheço bem, mal ou só de longe ama viajar. E não é assim, viajar pra praia. Eles viajam pra tuuuudo quanto é lugar. Basicamente não existem alemães que nunca saíram da Europa. Perguntando para um alemão escolhido aleatoriamente na rua, ele provavelmente já terá viajado pra Tailândia, ou para Singapura, ou de repente para a Uganda. E em qualquer lugar do mundo em que você esteja, por mais remoto que seja, você pode ter certeza que encontrará um grupo de alemães de variadas idades com seus mochilões, calças que viram shorts e casacos de chuva. Então qualquer presente relacionado a viagens é um acerto quase 100% seguro (mas não dê calças que viram shorts ou casacos de chuva, isso todos eles já têm). Guias de viagem para algum lugar que você acha que o seu amigo queira ir, ou bobeiras úteis em viagens, coisas assim. Em várias livrarias vende um mapa múndi que você raspa os países que já visitou (que nem raspadinha) que eu duvido que algum alemão não fosse gostar de ganhar.

Chama Scratch map

Outra coisa que 99,99% dos alemães gostam são esportes ao ar livre do tipo caminhada, trilha, acampar, tal. Coisas relacionadas a esse tipo de atividade também são certos acertos. Nas livrarias daqui normalmente as seções de livros de viagem têm uma parte só de guias de trilhas e percursos de caminhadas ou viagens de bicicleta, etc. Duvido que seu alemão não goste de um presente desses, independente da idade.

Um presente genérico que é sempre uma opção válida são vinhos. Os alemães apreciam bons vinhos ou outras bebidas alcoólicas especiais. Trazer uma cachaça do Brasil, por exemplo, pode ser uma boa idéia.

Talvez coisas relacionadas ao Natal sejam uma opção boa como presente de Natal, digamos enfeites, velas de advento ou calendários de advento (mas esses dois últimos têm que ser dados no começo de Dezembro, não no Natal!). Mas provavelmente qualquer coisa que você encontre à venda em um mercado de Natal alemão pode dar um bom presente.

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Flores são uma alternativa típica de presente, mas não presente de Natal. Seria bem estranho ganhar flores de Natal. Mas, de aniversário com um vinho, por exemplo, ou coisa assim, pode ser legal.

Alguma coisa típica do Brasil é certamente uma boa opção também. Talvez um livro, uma comida típica, uma bebida típica, ou qualquer coisa assim, os alemães adoram alguma coisinha “exótica”…

Se você estiver no Brasil e quiser presentear um alemão visitante, talvez uma boa opção seja algo que ele lembre ou sinta falta de seu país. A primeira coisa que os alemães costumam mencionar se você perguntar do que eles mais sentem falta da Alemanha, é pão. Aqui tem mil tipos de pães diferentes, a maioria pretos, que realmente não são comuns no Brasil. Esse certamente seria um presente que eles apreciariam receber se estiverem passando um tempo fora da Alemanha, e você pode procurar alguma receita de algum pão diferentão e fazer você mesmo!

Bom, é isso que eu consigo pensar para presentear um alemão regular. O post certamente veio meio tarde para ajudar as pessoas que andaram visitando o blog a procura de dicas durante Dezembro, mas bom, taí pro ano que vem! Feliz Natal! =)


(Publicado em 24 de Dezembro de 2014)

As manifestações de 13 de Fevereiro em Dresden

Na noite de 13/14 de Fevereiro de 1945, Dresden foi palco de um dos piores bombardeios da II Guerra Mundial.  Foi uma das ações mais controversas da guerra por parte dos aliados. O centro histórico ficou completamente destruído e aproximadamente 25.000 pessoas morreram. Por ter ocorrido no final da guerra, discute-se até hoje se o bombardeamento foi “justificável”, ou se foi um crime de guerra. Aceita-se amplamente que a ação foi desnecessária, pois a guerra já estava praticamente ganha, e que teria sido realizada principalmente como vingança pelo bombardeamento da cidade de Coventry, na Inglaterra.

Dresden após o bombardeio em 1945. -Bundesarchiv

Por esse motivo, a data acabou tendo uma importância simbólica para grupos neo-nazistas. Todos os anos, em 13 de Fevereiro, Dresden é palco de enormes manifestações. Neo-nazistas e a extrema direita realizam neste dia uma marcha pela cidade que constitui a maior concentração de neo-nazistas, vindos de todas as partes da Alemanha e da Europa. Só que a aversão ao nazismo aqui também é muito grande, então no mesmo dia, uma outra dezena de manifestações não-nazistas acontecem também, inclusive a organizada pelo Dresden-Nazifrei, que tem como objetivo simplesmente bloquear a marcha nazista e não deixá-los passar. Essa manifestação junta muita gente, muito mais que os nazistas. Os números variam de ano a ano e de fonte a fonte, então vale fazer uma rápida retrospectiva.

A primeira manifestação oficial dos nazistas foi em 1999, com aproximadamente 150 participantes. Oficial entre aspas. A manifestação em si foi oficial, mas ser nazista, fazer apologia ao nazismo, mostrar suásticas ou fazer aquele gesto nazista são crimes na Alemanha. Então a manifestação tem uma desculpa qualquer, “lembrar o dia do bombardeamento”, e são organizadas por grupos neo-nazistas.

Nos anos seguintes a manifestação foi crescendo e em 2009 atingiu o pico de 7.000 neonazistas. À medida que cresceu o número de neo-nazistas, cresceu também a reação e as manifestação anti-facismo no mesmo dia. Em 2009, dois grupos anti-facistas que se manifestavam na cidade tentaram se unir para bloquear os nazistas, sem sucesso devido à ação da polícia. O problema é que como a manifestação neo-nazista é autorizada, pq é uma “marcha silenciosa para lembrar o dia do bombardeamento”, a polícia tem que abrir espaço para eles passarem.

Após o fracasso em impedir a marcha nazista de 2009, os diversos grupos anti-facistas se uniram e criaram a organização Dresden-Nazifrei, com o único intuito de se organizar para bloquear a marcha nazista dos anos seguintes. Mais do que isso, Dresden-Nazifrei desde o início foi totalmente aberto e público quanto à intenção de bloquear a marcha nazista, ainda que isso fosse a princípio ilegal.

Em 2010, poucos dias antes da manifestação, a polícia tentou de diversas maneiras parar o grupo de manifestantes anti-nazistas, o que fez com que mais e mais pessoas se mobilizassem e aderissem à manifestação. Ao mesmo tempo, o prefeitura da cidade sofria pressão para mostrar alguma reação às manifestações nazistas, o que levou à mobilização para uma manifestação em forma de uma corrente humana em volta do centro histórico para lembrar o bombardeio e proteger a cidade da violência e do extremismo. O grupo Dresden-nazifrei conseguiu mobilizar mais de 12.000 pessoas vindas de várias partes da Alemanha, Áustria e Suiça para realizar bloqueios em massa e não deixar os nazistas passarem. Após diversos confrontos com a polícia, a manifestação nazista foi cancelada à tarde devido aos bloqueios em massa. Pela primeira vez os nazistas foram barrados de marchar pela cidade pela mobilização das pessoas. No mesmo dia, a mobilização da prefeitura para “abraçar” a cidade juntou entre 170.000 e 270.000 pessoas.

Em 2011, antes das manifestações uma corte local decidiu em favor das manifestações neonazistas que a polícia não fez o suficiente para assegurar que eles pudessem marchar. Além disso, Dresden-Nazifrei tentou organizar uma manifestação que seria um tour pela cidade parando em alguns pontos estratégicos onde historiadores explicariam parte da história da segunda guerra mundial (“aqui morou o fulano de tal, que assinou a ordem para assinar tantos mil judeus em câmaras de gás”, “aqui tinha uma biblioteca grande com importantes obras que foi incendiada pelos nazistas”, “aqui era uma indústria têxtil onde nazistas utilizavam trabalhos forçados para confeccionar uniformes para os soldados”, coisas desse tipo), como uma contrapartida à marcha nazista “para relembrar o bombardeamento”, no sentido de relembrar não só o bombardeamento, mas também os fatos que levaram ao mesmo. Porém, essa demonstração, denominada “Täterspurenmahngang” (marcha sobre os traços dos responsáveis, algo assim), não foi autorizada pela prefeitura, que como já deve ter dado pra perceber, é super de direita.

Novamente, as tentativas de opressão só levaram à mobilização de mais gente, e no dia da manifestação mais de 20.000 pessoas se uniram para bloquear a marcha nazista, apesar da forte repressão policial com cães, spray de pimenta, helicópteros, mangueiras jorrando água a 0˚C sobre os manifestantes (lembrando que fevereiro é invernão aqui) e outras táticas. A polícia atacou manifestantes totalmente pacíficos que sentavam na rua fazendo os bloqueios. A marcha nazista reuniu nesse ano 2000 pessoas, mas não obteve sucesso. O plano era vários grupos marcharem pela cidade para se encontrarem num único ponto, mas devido aos bloqueios apenas por volta de 50 pessoas conseguiram chegar ao ponto de encontro.

Apesar da repressão policial, os bloqueios anti-facistas tiveram apoio da mídia e da população. Historiadores e sobrevivente de Auschwitz criticaram fortemente a justiça saxônica, especialmente pela proibição da manifestação Täterspurenmahngang, aquele tour para relembrar as ações nazistas na cidade durante a guerra. No ano seguinte, a manifestação foi liberada e juntou 3000 pessoas. No dia 13 de fevereiro, por volta de 1600 e 2000 nazistas compareceram para a marcha, e 6000 pessoas vieram bloquear, enquanto 13.000 pessoas participaram daquele “abraço” na cidade. Dessa vez a polícia não atacou manifestantes, e tentaram apenas dispersá-los. Devido aos bloqueios, a marcha nazista foi reduzida a um passeio em volta do quarteirão da estação central.

Em 2012. -zeit.de

Na semana seguinte, Dresden-Nazifrei organizou uma manifestação para comemorar a vitória dos bloqueios, juntando 10.000 pessoas.

Em 2013, apenas aproximadamente 500 nazistas compareceram para a manifestação, mas nem conseguiram sair da estação central, enquanto milhares de manifestantes anti-nazistas jogavam bolas de neve sobre a barricada policial.

Mas a manifestação neo-nazista em Dresden ainda não é história. Nesse ano eles mudaram um pouco a tática e pegaram a população de surpresa. Como de costume, as manifestações eram esperadas para o dia 13 de fevereiro. A prefeitura, ainda super conservadora e estranhamente apoiadora do direito democrático de nazistas de manifestarem contra a democracia, recusou-se a passar informações precisas sobre os planos dos mesmos. Houve uma tentativa de organizar uma manifestação (nazista) estacionária na frente da Frauenkirche, o ponto turístico mais importante de Dresden, mas a justiça não autorizou. No dia 12 de fevereiro, alguns nazistas se agruparam na Theaterplatz (outro ponto turístico importante) , e a polícia bloqueou toda a área em volta. Os grupos organizadores dos bloqueios logo começaram a avisar pelo facebook e twitter que os nazistas estavam se organizando para realizar a marcha naquela noite, e várias pessoas foram para o centro tentar bloquear. Mas como foi inesperado, a quantidade de gente para bloquear não foi suficiente, conseguimos apenas atrapalhar um pouco o processo. Os nazistas, por volta de 300 a 350, realizaram uma marcha com tochas (creepy!) até a estação central. Os bloqueios não foram possíveis, mas a quantidade de pessoas presentes foi o suficiente para acompanhar a marcha com vaias e gritos de todos os tipos. Corremos de um lado para o outro pela cidade tentando descobrir a tática da polícia antes que eles bloqueassem nossa passagem. No ponto final da manifestação, a estação central, os nazistas se reuniram para assistir a um vídeo projetado a respeito dos bombardeios, sob incessantes vaias dos manifestantes anti-facistas atrás das barricadas policiais. Entre os gritos organizados destes ouvia-se “Nazis Raus!” (fora nazistas), “Haut ab!” (caiam fora), “Nazis, verpisst euch, Keiner vermisst euch!” (Nazistas, caiam fora, ninguém sente falta de vocês), “Alerta, alerta, antifascita!” (dispensa traduções, e é pra ser espanhol, só que eles pronuciam “antifaxista” que nem alemão.) e outros.

No dia seguinte (hoje!), as outras manifestações (Täterspurenmahngang” e a corrente humana) ocorreram sem problemas e não ouve grandes concentrações de nazistas (exceto por grupos pequenos de 20 pessoas aqui e ali).

A corrente humana (não sei que ano). -http://rt.com/

Embora a quantidade de nazistas na marcha do dia 12 tenha sido bem reduzida (350, comparando com os 7.000 de 2009), eles conseguiram novamente marchar pela cidade, o que certamente vai ser visto como positivo para eles e pode resultar num aumento no número no ano que vem. Infelizmente, neo-nazistas em Dresden ainda não são passado.

Abaixo, alguns vídeos das manifestações. O primeiro, parte da marcha de 12 de fevereiro de 2014, com vaias dos manifestantes anti-facistas:

Em 2013:

Em 2012:

Em 2011:

Em 2010:

Uma coisa que eu achei interessante, participando das manifestações esse ano, é que apesar da confusão, pessoas correndo de um lado para outro tentando bloquear nazista, muuuuuuuuuuuita polícia, nazistas marchando, em volta as lojas e restaurantes continuavam abertos normalmente! Então você estava lá, apostando corrida com a polícia, correndo de um lado para outro, mas aí se cansasse e desse uma fominha era só parar e entrar no primeiro restaurante ao lado.

Outra coisa que foi interessante notar é como as cidades aqui são mais democráticas. Porque praticamente não existem muros e portões, as ruas não são grandes canaletas penetráveis apenas pelas ruas transversais. O que significa, basicamente, é que é muito mais difícil para a polícia bloquear uma manifestação, porque você pode vir de qualquer lado e ir para qualquer lado.  Quer dizer, em qualquer ponto da cidade que você está, sempre tem muito mais opções de “saídas”, você como pedestre, nunca fica preso numa rua. Isso não vale para qualquer cidade, claro, nem mesmo para qualquer parte da cidade. Nos bairros mais antigos, onde as ruas são estreitas e os edifícios fecham as quadras, não é assim. Mas no geral as cidades são muito mais abertas, penetráveis, e democráticas.

Eu não participei das manifestações em 2010 e 2011, que foram menos calmas, mas pelo menos pela minha experiência desse ano deu para ver que o pessoal estava bem tranquilo. Correndo de um lado para outro tentando bloquear os nazistas antes da polícia bloquear a passagem, sim, mas sempre pacíficos, não vi nada que desse para colocar na capa de jornais ou revistas sensacionalistas (COFCOFCOFCOFCOFFOLHAVEJAESTADOCOFCOFCOFCOF). Tinha muita polícia, e os policias estavam calmos e tranquilos, sem se exaltar, e eles sempre filmam tudo.

A manifestação Täterspurenmahngang, com as paradas nos locais estratégicos e informações sobre a segunda guerra por historiadores também é muito interessante, e uma boa idéia de contraste à marcha neo-nazista. Vai gente de todo o tipo, com todo o tipo de manifestação (digo, se manifestando com bandeiras, por exemplo), é basicamente como se todo mundo se unisse contra o nazismo, é bem legal.

Aglomeração no início da Täterspurenmahngang.

Até o Grumpy Cat acha racismo bem tosco.

Até o Grumpy Cat acha racismo bem tosco.

"Dresden stellt sich Quer". Meio difícil de traduzir, mas Quer significa transversal, e nesse sentido significa algo como se colocar no caminho, no sentido de bloquear.  O outro lado da bexiga diz "Wi(e)der setzen. Nazis blockieren". Wieder setzen significa "sentar de novo" (no caminho, para bloquear) e "widersetzen" significa se opor. Um jogo sagaz de palavras.

“Dresden stellt sich Quer”. Meio difícil de traduzir, mas Quer significa transversal, e nesse sentido significa algo como se colocar no caminho, no sentido de bloquear.
O outro lado da bexiga diz “Wi(e)der setzen. Nazis blockieren”. Wieder setzen significa “sentar de novo” (no caminho, para bloquear) e “widersetzen” significa se opor. Um jogo sagaz de palavras.

E nessa data, pela cidade, você vê ainda várias demonstrações de apoio aos bloqueios e às manifestações anti-nazistas, como esse cartaz no teatro de Dresden:

Minha tradução livre: "De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram." Erich Kästner

Minha tradução livre: “De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram.” Erich Kästner

Os números divulgados de manifestantes de cada lado em cada ano são suuuper variáveis dependendo da fonte. As duas principais fontes de onde eu tirei as informações para esse post.

http://www.dissentmagazine.org/online_articles/dresden-nazi-free-the-new-politics-of-german-civil-disobedience

http://en.wikipedia.org/wiki/Neo-Nazi_marches_in_Dresden

Aí tem descrições bem mais completas, em inglês, e que vale a pena ler se você se interessou pelo assunto.


(Publicado em 14 de Fevereiro de 2014)

 

Ano Novo na Alemanha!

Na Alemanha, a passagem de ano chama-se Silvester. Os costumes para o ano novo não são tão diferentes do Brasil, mas algumas coisas são típicas.

Tem, claro, os fogos de artifício e o champagne, mas aqui ninguém usa branco nem cor nenhuma especial. Comidas comuns para o dia 31 são peixe (um tipo específico de peixe), ou raclette.

Klaus-Dieter Keller – Wikipedia

A foto acima explica bem o que é raclette. É meio difícil de descrever, mas tem essa “chapa” no meio, e cada um tem sua mini-panelinha. Aí na mesa tem diferentes queijos, legumes, frios, e coisas do tipo, e você coloca o que quiser na sua panelinha e esquenta na chapa no centro.

Muito muito comum – todo mundo na Alemanha conhece – é assistir na TV um curta chamado Dinner for one. Não sei o que tem de especial nesse filme, mas todo dia 31 de Dezembro passa na TV e todo mundo assiste. Meio que nem os Esqueceram de mins 1, 2, 3 que passa todo Natal… Mas esse é bem curtinho, tem só 10 minutos, e já soma 50 anos de idade. É o filme abaixo:

Finalmente, no ano novo na Alemanha deseja-se “Guten Rutsch!”. Rutsch significa “escorregão”, mas originalmente era sinônimo de “viagem”, e queria dizer algo como “boa jornada ao ano novo”!

É isso! Fica curtinho, mesmo, o último post do ano! Einen guten Rutsch ins neue Jahr! 

Edição posterior: Vale a pena mencionar algumas coisas dos fogos de artificio daqui, também. Uma coisa que é bem diferente do Brasil é que aqui todo mundo solta seus próprios fogos de artifício. Todo mundo mesmo. Então à meia noite é bem impressionante, porque ao invés de ver um foco de fogos aqui e ali, tem fogos de artifício em absolutamente todo o lugar. Então vc fica rodeado por fogos de artifício, perto e longe de vc, em qualquer lugar que vc esteja na cidade. É impressionante. Mas por outro lado, meio perigoso, também. 

Outra coisinha que eu esqueci: Guten Rutsch é o que se fala antes da passagem do ano. Quando dá meia noite, ou no dia 1˚, diz-se “Frohes neues Jahr”, literalmente feliz ano novo. 

Ruben Wisniewski - Wikipedia

Ruben Wisniewski – Wikipedia

Frohes neues jahr


(Publicado em 31 de Dezembro de 2013)

 

Natal na Alemanha 3: Outras coisas

Depois das decorações e comidas, só faltou abordar algumas informações mais gerais sobre o Natal na Alemanha.

Nos diferentes países onde se comemora o Natal, há diferenças sobre o momento em que a maior comemoração acontece e momento de troca de presentes, e tal. Aqui na Alemanha, pela minha experiência – não sei dizer se vale para todas as famílias ou não – as pessoas trocam presentes no dia 24 a noite. A meia noite do dia 24/25 não têm tanto significado aqui como no Brasil, ninguém fica esperando a meia noite para dar feliz natal. Dia 24 já é dia de dar feliz natal. Fogos de artifício não são comuns, mas esse ano eu ouvi alguns ao longe, à meia noite. Mas não é normal, não.

Claro que essas coisas não necessariamente valem para todas as famílias, são a minha experiência pessoal por aqui. Talvez em outras famílias as crianças abram os presentes só no dia 25, não sei. Tem papai-noel aqui também, mas acho que não é tããão importante contar história de papai-noel pras crianças, e nem tem aqueles papais-noéis de shopping. Um alemão me disse – embora eu não tenha confirmado a história – que em algumas regiões da Alemanha, ao invés do papai-noel, é o menino Jesus que entrega presentes. Se já era estranho receber presentes de um senhor de roupas vermelhas que viaja em um trenó voador levado por renas, recebê-los de um nenê recém-nascido é igualmente curioso… Papai-noel em alemão, a propósito, é Weihnachstmann, ou homem do Natal.

Ah, estou aqui lendo o artigo da wikipedia sobre Natal e parece que as maiores diferenças estão entre as regiões protestantes e as regiões católicas da Alemanha. Em termos de religião, a Alemanha tem 3 principais vertentes (preciso fazer um post sobre isso), 30% é católico, 29% protestante e 34% não seguem nenhuma religião. Então as diferenças de comemorações natalinas estão entre as regiões católicas e as regiões protestantes. (papai noel parece que é mais comum entre os protestantes, comemorar principalmente o dia 24 também, enquanto os católicos comemoram principalmente o dia 25… mas enfim, detalhes eu desconheço. Na dúvida, imagine que as minhas informações valem para os protestantes já que a família com quem eu passo o Natal é protestante).

Os alemães também fazem amigo-secreto de vez em quando, mas é beeeeeem menos comum que no Brasil, onde todo grupo de amigo faz amigo-secreto todo ano. Aqui eu nunca vi, mas perguntei e me disseram que existe. Chama-se Wichteln, em alemão. Mas as variantes amigo-da-onça, amigo secreto ladrão, etc, acho que não existe, não.

E para finalizar, uma particularidade curiosa é que dia 26 de Dezembro também é Natal, aqui. Não sei exatamente o porquê, mas dia 26 é também feriado, ninguém trabalha, e é dia de fazer coisas com a família assim como nos dias 25 e 24.

Fröhliche Weihnachten!

O Christmas tree


(Publicado em 26 de Dezembro de 2013)

 

 

Natal na Alemanha 2: Comida

Antes de falar das comidas típicas natalinas na Alemanha, preciso comentar que essa é nada mais nada menos que 0 50˚ post desse blog! Quando comecei, nem sabia que ia ter assunto pra tanto post, mas cá estamos!

Mas vamos para o que interessa: começando com algumas coisas regionais, em Dresden come-se com freqüência, no Natal, um bolo/pão doce meio parecido com panetone chamado Stollen. Vêm, às vezes, em belas latas com imagens bonitas de Dresden.

Eu nunca fui muito fã das frutas cristalizadas, mas as latas são super chiques. E tem outros tipos de Stollen além dos tradicionais, como o Mohnstollen, que é mais parecido com um rocambole.

Bem comum para a época do Natal, na Alemanha, são também cookies. Vários tipos diferentes de cookies, um mais gostoso que o outro.

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E também típicos são os bolinhos de gengibre, que podem não apenas ser comidos normalmente como bolinhos, mas podem também ser usados para a construção de maravilhosas casas de bolo de gengibre, decoradas com doces, açúcar e chocolate. Um sonho de consumo para qualquer criança.

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E é bem mais fácil de fazer do que parece. Mas na dúvida, dá para comprar uns kits com tudo semi-pronto e só montar. (Boring!)

Quanto à ceia de Natal, certamente tem variações de família para família. Enquanto vários comem o peru de sempre, outros têm suas próprias tradições específicas para a ceia. Mas pode ter certeza que uma ceia de natal numa casa alemã terá uma mesa híper bonita e decorada!

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Nesse caso, a tradição de ceia natalina era fondue de carne. Também nada mal!

No geral pode-se dizer que Natal na Alemanha é bem Natal de filme, mesmo.

Na próxima e última parte do post sobre Natal, algumas informações mais gerais e finais!

Feliz Natal!


(Publicado em 25 de Dezembro de 2013)