Datas importantes

Sternsinger – Cantores da Estrela

Esse blog já tem 3 anos e meio. Eu nunca teria imaginado, quando comecei a escrever, que teria assunto o suficiente pra continuar escrevendo por 4 anos. Mas mesmo depois de tanto tempo eu ainda frequentemente me deparo com coisas que eu nunca tinha percebido antes e que dão um ótimo post.

Recentemente, por exemplo, notei uma coisa curiosa na porta da casa dos meus sogros:

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Aqueles escritos ali em cima da porta: 20 * C + M + B + 16.

Não era exclusivo da casa deles. Achei várias outras casas na vizinhança e também em outras cidades com escritos similares:

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A maioria das casas que vi tinha apenas “20 * C + M + B + 16“, mas a dos meus sogros em especial (a porta azul acima) tinha vários: 20 * C + M + B + 12, 20 * C + M + B + 14, 20 * C + M + B + 15 e 20 * C + M + B + 16, sendo o último o que estava mais claro, os outros mais apagadinhos.

Quem escreveu esses estranhos códigos? O que eles significam? Porque alguns estão mais apagados que os outros? Como que em 4 anos de Alemanha eu nunca tinha notado esses negócios escritos em vááárias portas??

As respostas para essas perguntas não foram difíceis de descobrir, qualquer alemão saberá te dizer o que significam esses códigos. São uma benção à casa.

No dia 6 de Janeiro, o dia dos três reis magos, grupos de crianças vestidas de três reis magos (ou 4, ou 5, ou quantos reis magos (e rainhas magas) forem necessários para o grupo de crianças em questão) carregando uma estrela vão de porta em porta cantando umas músicas e oferecendo uma bênção para a casa, em troca de uns trocados para projetos de caridade das igrejas, e também uns doces – que né, doces são sempre necessários.

Assim:

Hans Kadereit – Wikipedia

Chamam-se “Sternsinger”, ou “Cantores da estrela”

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Vários grupos de Sternsinger reunidos na igreja. Hans Kadereit – Wikipedia

E os códigos? 20 * C + M + B + 16? Os códigos são a bênção em si, que as crianças escrevem com giz. Os números, vc já deve ter concluido, significa o ano, no caso 2016. CMB é uma sigla para a frase em latim “Christus mansionem benedicat“, “que Cristo abençoe essa casa”. Mas também são popularmente interpretados como os nomes dos três reis magos: Caspar, Melchior e Balthasar. Só não sei como as crianças conseguem escrever a tal bênção lá no topo da porta… suponho que algum adulto dê uma ajudinha!

A benção do ano atual você encontra em várias portas, mas em algumas poucas portas você encontra ainda, meio apagadinho, as bênçãos de anos anteriores, como na porta dos meus sogros. Algumas casas têm até uma pequena lousinha na porta, especificamente pra esse fim (como a segunda foto lá em cima, da porta branca).

É isso! Um fato curioso que pode passar facilmente despercebido se você mora em apartamento! Agora fiquei pensando que teria feito mais sentido escrever esse post no dia 6 de Janeiro… oh well, 6 de Setembro é quase 6 de Janeiro!


(Publicado em 6 de Setembro de 2016)

Um detalhe sobre o Carnaval

No ano passado eu escrevi um post sobre o famoso Carnaval de Colônia, o maior e mais tradicional da Alemanha.

Aqui em Dresden não se comemora muito o carnaval, mas uma coisinha ou outra acontece. A principal comemoração são as crianças que fazem, nas escolas. Aqui não é feriado no carnaval (só em Colônia) então nesses dias, especialmente hoje, terça-feira, as crianças vão fantasiadas pra escola.

Mas é bem comum comer sonho (Pfannkuchen ou Berliner, fiz um post só sobre esse doce aqui) nessa época do ano, particularmente nesses dias de carnaval. Sexta, segunda e hoje tinha uma enorme caixa de sonhos na cozinha do escritório pra todo mundo. Sexta e segunda as caixas ficaram lá abertas para quem quisesse pegar um sonho. Hoje, porém tinham duas caixas enormes de sonhos, fechadas, e pouco antes do almoço a gente se juntou na cozinha para tomar um copo de champagne (pra comemorar o carnaval?) e comer os sonhos. E aí que eu descobri uma outra “tradição” dessa época. Na caixa tinha um único sonho “falso”. Em vez de ser recheado com geléia ou creme, como os outros, ele estava recheado com mostarda!! Aparentemente isso é uma brincadeira típica do Carnaval, de todo mundo comer os sonhos juntos e aí um deles ser “falso” e essa pessoa tem que fazer a limpeza depois. Sorte que eu não peguei o sonho com mostarda, não ia ter entendido nada de porque tinha mostarda no sonho, lol.

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Mas não se preocupe, pelo menos no nosso caso a pessoa que pegou o sonho com mostarda pôde substitui-lo por um gostoso com geléia.

Ok, esse post ficou meio curto, mas é porque de fato não tem muito o que falar sobre carnaval quando se mora em Dresden.


(Publicado em 9 de Fevereiro de 2016)

 

Estrelas de Herrnhut

Antes de mais nada, Feliz Natal!

Continuando séries de posts de Natal… resolvi escrever um post sobre a estrela de Herrnhut. Eu já mencionei essa estrela no primeiro post sobre Natal na Alemanha, sobre decorações natalinas por aqui. Mas falei bem pouco sobre ela, e um símbolo tão importante por aqui precisa de um post só pra si.

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Bom, na verdade ela é um símbolo importante só na Saxônia. Em outras regiões da Alemanha, são poucas as estrelas de Herrnhut que você vai ver por aí. Mas na Saxônia quase todo mundo tem uma em casa, e locais como igrejas, museus, etc, sempre tem umas gigantes penduradas na frente, também.

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A história das estrelas de Herrnhut têm sua origem na cidade de Niesky (na Saxônia, quase na divisa com a Polônia) em uma escola da Igreja dos Irmãos Morávios, uma denominação protestante. Nessa escola, um professor de matemática inventou essa estrela para usar de exercício de geometria para os seus alunos, que tinham que calcular o volume da estrela. A igreja acabou adotando a estrela como símbolo do Advento e um dos alunos começou a montar estrelas e vender as instruções para a montagem em um livro. Alguns anos depois seu filho fundou a fábrica das estrelas na cidade de Herrnhut, também na Saxônia. A fábrica até hoje existe e é a única fabricante oficial das estrelas de Hernnhut. Todas as que tem para vender vêm dessa fábrica.

A estrela original da história tinha 110 pontas (tem uma foto aqui!), mas as que são confeccionadas para venda têm, normalmente, 26 pontas.

Dá para comprar a estrela em vários tamanhos e cores diferentes, para pendurar dentro de casa (de papel) ou fora (de plástico). De papel parece que é uma coisa toscona, mas as de papel são bem bonitas e bem feitinhas, também. Normalmente vêm em branco, amarelo ou vermelho, ou ainda em duas cores alternadas (algumas pontas de uma cor, outras pontas de outra cor, alternando), ou duas cores sendo o centro da estrela de uma cor e a pontinha de outra.

Estrelas no menor tamanho disponível, aprox. 10 cm de diâmetro.

Estrelas no menor tamanho disponível, aprox. 10 cm de diâmetro.

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Esse ano eu comprei duas estrelas do tamanho maior para pendurar dentro de casa, de presente de Natal para meu irmão e minha mãe. É tranquilíssimo de comprar pra levar ou enviar por correio porque elas vêm desmontadas numa caixinha.

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Estrela sendo montada

Estrela sendo montada

Estrelas prontas! No caso eu mandei uma vermelha e uma amarela, mas eles aproveitaram para misturar as cores e ficar com duas coloridas.

Estrelas prontas! No caso eu mandei uma vermelha e uma amarela, mas eles aproveitaram para misturar as cores e ficar com duas coloridas.

Só as pequenas já vem montadas, mas também numa caixinha. Os preços em qualquer lugar que você vá são sempre os mesmos, variando entre 20 e 30 euros para as estrelas para pendurar dentro de acordo com o tamanho (sem cabo e lâmpada, que custam outros 10 euros extra), e entre 40 e 50 euros para as de pendurar fora. As bem pequenas acho que custam uns 12 euros, mais ou menos. Você encontra elas para vender nos mercados de Natal, em algumas lojas nas cidades da Saxônia, ou pela internet em sites como o Amazon. Em alemão chama Herrnhuter Stern.

Nós ainda não temos uma, mas ano que vem certamente vou comprar uma para pendurar em casa!


(Publicado em 25 de Dezembro de 2015)

 

9 de Novembro

Era pra eu escrever esse post ontem, que foi 9 de novembro, mas enfim. Serve.

9 de Novembro é uma data importante na Alemanha, com diversos acontecimentos históricos. O mais recente e talvez mais lembrado é o dia da queda do muro de Berlim, 9 de Novembro de 1989. Um acontecimento importante o suficiente para fazer do dia 9 de Novembro um feriado. Não fosse por outras memórias ligadas a essa data, especialmente àquela de 9 de Novembro de 1938, que ficou conhecido como a Noite dos Cristais.

Nessa noite de 1938, sinagogas, lojas e residências de proprietários judeus foram atacadas, destruídas, queimadas e arruinadas por multidões enfurecidas instigadas ao ódio anti-semita pelo partido nazista. Membros do NSDAP (o partido nazista) e do SA (Sturmabteilung, a milícia militar nazista), que organizaram e iniciaram os ataques a pedido de Hitler, vestiram-se à paisana para dar a impressão para a população que os ataques foram uma manifestação espontânea da população alemã contra os judeus, que foram multados em 1 bilhão de marcos pelo governo nazista, além de obrigados a limpar e reorganizar a bagunça resultante e a pagar dos próprios bolsos o prejuízo que tiveram em suas lojas, casas e sinagogas.

Loja de proprietário judeu destruídas após a noite dos cristais. Bundesarchiv, Bild 146-1970-083-42

Sinagoga destruída após a Noite dos Cristais.

Para relembrar a história, na noite de 9 de novembro há vigílias e manifestações nas sinagogas das cidades alemãs. Além, claro, de vários carros de polícia em volta das sinagogas, por via das dúvidas.

Manifestação pela tolerância na frente da sinagoga de Dresden em 9 de Novembro de 2015.

Manifestação pela tolerância na frente da sinagoga de Dresden em 9 de Novembro de 2015.

Muitos carros de polícia em volta da sinagoga.

Muitos carros de polícia em volta da sinagoga.

E, como falei lá no começo, foi nessa mesma noite, 51 anos depois, que o muro de Berlim foi derrubado 32 anos após sua construção.

É um tremendo desafio escrever aqui um texto sucinto, correto e apropriado sobre um evento tão importante e que marcou o fim de uma era. Mas vou tentar.

A parte talvez mais curiosa da história da queda do muro é que foi tudo meio sem querer. Com o desgaste do regime, o controle dos cidadãos na Alemanha Oriental e outros países da europa oriental estava ficando gradualmente menos rígido. Em 19 de Agosto de 1989, a Hungria desativou as defesas na borda com a Áustria. Isso significa que embora a borda física ainda existisse (grades com arame farpado, ou barreiras similares), não haviam mais soldados vigiando a borda, de maneira que a fuga para o oeste via Hungria-Aústria foi extremamente facilitada. Multidões de cidadãos da Alemanha Oriental começaram a viajar para a Hungria para fugir para o Oeste – não muito diferente das multidões de refugiados do oriente médio que hoje fazem o caminho contrário para subir à Alemanha via Hungria. Os então leste-alemães seguiam para a Alemanha Ocidental onde eram dados a condição de refugiados e autorizados a permanecer.

O governo alemão então proibiu viagens à Hungria, só para assistir o percurso de fuga se deslocar para a República Tcheca, país para o qual os então leste-alemães podiam viajar livremente devido a acordos entre os dois governos. A movimentação de refugiados era tão grande que o governo leste-alemão acabou decidindo permitir a saída (definitiva) de cidadãos diretamente pela Alemanha, e um pouco mais tarde no mesmo dia (9 de novembro) permitir também viagens de ida e volta para a Alemanha Ocidental (ou seja, os cidadãos leste-alemães poderiam ir para a Alemanha Ocidental sem precisar fugir do país para nunca mais voltar). O chefe do partido em Berlim Oriental e porta-voz para a mídia, Günter Schabowski, ficou responsável por comunicar as mudanças nas regras, mas ele não tinha estado presente nas discussões e não estava ciente de todos os detalhes envolvidos. Ele recebeu uma nota pouco antes da conferência de imprensa em que comunicaria as mudanças, mas não foi informado de que as regras passariam a valer no dia seguinte, para que desse tempo de informar os guardas da fronteira a respeito das novas regras. Na conferência, Schabowski leu em voz alta a nota que tinha recebido, e ao ser perguntado quando passariam a valer as novas regras respondeu que, pelo que a nota dizia, presumia que as regras passavam a valer imediatamente.

A notícia rapidamente se espalhou pelos dois lados da Alemanha e leste-alemães começaram a se reunir nos check-points do muro de Berlim exigindo que os portões fossem abertos, enquanto berlinenses do outro lado se juntavam nas saídas com flores e champagne para recebê-los. Na confusão das informações, os guardas da borda não sabiam o que fazer e ninguém do governo queria ser o responsável por dar a ordem de atirar em quem atravessasse sem autorização, de maneira que eles acabaram por abrir os portões e massas de pessoas fluiram para Berlim Ocidental de encontro aos berlinenses do outro lado em uma grande e emocionante comemoração.

Com a grande multidão de pessoas de ambos os lados, logo os do lado Oeste subiram no muro para ajudar os do leste a escalar e pular para o outro lado, seguido pelas iniciativas de destruição do muro com marretas e o que tivesse disponível.

Eis um momento emocionante da história do mundo que eu gostaria de ter testemunhado em pessoa. Nem dá pra imaginar o que essas pessoas devem ter sentido ao poderem se reencontrar depois de mais de 50 anos divididos.

Fotógrafa: Sue Ream

Lear 21 via English Wikipedia.

Dois 9 de Novembros, um em 1938 e outro em 1989, que marcaram o início e o fim de tempos sombrios da história alemã, que esperamos que não se repitam. Infelizmente, há ainda aqueles que desejam tanto a perseguição e intolerância aos não-alemães quanto a separação com muros e fechamento das fronteiras. Em contextos um pouco diferentes, é claro, mas movidos pelo mesmo radicalismo, ódio e medo que no passado. Felizmente não são a maioria.

Se você quiser saber o que visitar em Berlim para saber mais sobre a história da cidade e da Alemanha durante o século XX, dá uma lida no post de dicas de viagem sobre Berlim!


(Publicado em 10 de Novembro de 2015)

Männertag – O dia dos homens

Hoje é feriado na Alemanha. A primeira quinta feira 40 dias após da Páscoa é, na religião cristã, o dia da Ascenção, em que Jesus ascendeu ao céu. O Feriado é por causa dessa comemoração, chamada em alemão Christhimmelfahrt. Mas no mesmo dia é também o não oficial Dia dos Homens, ou Männertag em alemão, ou ainda também chamado Dia dos Pais, Vatertag.

A tradição do Männertag já vem de longa data, e, como talvez possa-se imaginar pelo nome “Dia dos Homens”, não é uma data de comemorações fofinhas.

Basicamente a tradição é juntar um grupo de amigos – só homens, claro – e fazer uma caminhada puxando um carrinho de mão cheio de garrafas de cerveja ou vinho dentro. O qual, claro, eles bebem o dia inteiro para ficar tão bêbados quanto humanamente possível. Tanto que os acidentes de tráfego relacionados a alcoolismo aumentam em 3 vezes nesse dia. Que beleza de comemoração!

Steffen Gebhart at en.wikipedia

Em certas partes da Alemanha, o dia é comemorado com mais afinco, como é o caso daqui, Dresden, onde muitos jovens (rapazes) aproveitam o dia para se embebedar loucamente.

Quanto ao fato de ser também o dia dos pais, isso na verdade não importa muito por aqui. Esses dias como dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, que no Brasil são híper comemorados, por aqui não têm muito valor, não. Sabe-se que é o dia das mães, ou dia dos pais, mas raramente as mães ou pais ganham presentes ou almoços com a família. Aliás, nem mesmo o dia dos namorados (aqui também comemorado no dia 14 de fevereiro) recebe muita atenção por aqui.

Mas a tradição do Dia dos Homens tem um background. Provavelmente teve início em procissões do dia da Ascenção (segundo o Wikipedia), celebrado desde o século XVIII. Os homens sentavam-se em carrinhos de mão e eram levados para a praça do vilarejo, onde o prefeito dava um presente (um grande presunto) ao homem com o maior número de filhos. O que, convenhamos, é uma tradição bem mais divertida. Mas aos poucos a parte religiosa foi se perdendo e a tradição foi sendo simplificada a um grupo de homens passeando com cerveja e presunto. Tudo bem.


(Publicado em 14 de Maio de 2015)
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Carnaval de Colônia

Um pouco atrasado, mas finalmente sentei para escrever um post sobre o carnaval de Colônia.

Embora para nós carnaval pareça algo propriamente brasileiro, a origem do carnaval remonta à Mesopotâmia e aparece e reaparece em diversas culturas e lugares. O carnaval no modelo mais similar ao que é celebrado hoje teve início na Idade Média como os dias em que a plebe tem a liberdade de rir da nobreza e da igreja. É a grande festa que precede a quaresma, esse modelo portanto é diretamente ligado à religião católica. Em Colônia, uma cidade fundada pelos romanos, o primeiro registro relacionado ao carnaval data de 1341, no que seria algo análogo ao diário oficial da cidade, onde teria sido escrito que o conselho municipal não poderia gastar mais verba com o Carnaval. Apesar de o carnaval alemão não ter se originado em Colônia, mas em algum lugar da Bavária, parece que o primeiro desfile de carnaval do mundo aconteceu em Colônia em 1823 (segundo o Wikipedia sem fontes confiáveis).

Seja verdade ou não, é fato que o carnaval de Colônia é super tradicional e muito famoso, além de ser a principal festa de carnaval da Alemanha. Pra quem é de Colônia, a época do carnaval e as festividades são eventos extremamente importantes.

A temporada de carnaval começa oficialmente em Novembro. Isso mesmo, novembro, mais especificamente em 11/11 às 11:11. Terminando, claro, na terça-feira anterior à quarta-feira de cinzas. Ou seja, aproximadamente 4 meses de carnaval. E por isso, em Colônia, o carnaval é considerado a quinta temporada. Tipo: primavera, verão, outono, inverno, carnaval.

Mas então quer dizer que os Coloni….colonienses? Colonistas? Colonianos? Ou seja lá como chamam-se as pessoas nascidas em Colônia, quer dizer que eles pulam carnaval por 4 meses??

Bom, não, claro. Ninguém é tão festivo assim. E tem o natal no meio, que tem sua importância própria e tal. O que acontece são alguns eventos e festividades relacionados ao carnaval.

Em novembro, o carnaval começa com a apresentação do triunvirato. Não sei se essa é a tradução correta, a palavra em alemão é Dreigestirn. São três homens representando um o príncipe, um o fazendeiro e um a virgem, que são digamos o símbolo do carnaval. A idéia é que nessa época do ano todo mundo é igual, e esses três representam as diversas camadas da sociedade, algo desse gênero. Cada ano são três pessoas diferentes fazendo esses papéis, e eles são apresentados nesse dia de novembro, juntamente com músicos famosos que tocam músicas de carnaval, enfim, uma festa de rua.

„Dreigestirn 72“ by Press picture taken from [1]. Lizenziert

„Dreigestirn 72“ by Press picture

Essa data de novembro existe por um motivo similar aos dias de carnaval antes da quaresma. Originalmente haveria também um período de 40 dias de jejum antes do Natal, e antes desse período, os dias de carnaval.

Assim sendo, a temporada do Carnaval tem uma pausa em dezembro – para o período de adventos e o Natal – e é retomada em Janeiro, quando acontecem algumas celebrações um tanto diferentes, chamado Karnevalssitzung, ou Stunksitzung. É mais ou menos como um show. A platéia (que vem ao evento fantasiada) fica sentada em mesas, bebendo cerveja e comendo petiscos, enquanto assiste a uma apresentação que inclui música, danças, cenas de comédia que fazem graça de políticos e da igreja, além de outros temas, etc.

Eis aqui um trecho de um Stunksitzung em Colônia, com uma apresentação de dança:

Esses eventos acontecem ao longo de janeiro e fevereiro, até o início dos dias realmente importantes do Carnaval, na semana que precede a quaresma.

O início oficial dessas festividades é na quinta-feira anterior à quarta-feira de cinzas. É quando começa oficialmente o feriado de carnaval na cidade de Colônia, e arredores. As crianças (que vão à escola fantasiadas nesse dia, assim como os professores) são dispensadas da escola às 11:11, e todo mundo vai pra rua onde se inicia o carnaval de rua que acontece até a terça-feira seguinte.

Essa quinta-feira chama-se Weiberfastnacht, que pode ser traduzido como o carnaval das mulheres, ou algo do gênero. Esse dia, portanto, é o das mulheres. E para simbolizar isso, nesse dia as mulheres podem cortar com uma tesoura as gravatas de homens que estiverem usando gravatas nesse dia. A origem desse dia das mulheres teriam sido festividades realizadas por freiras em conventos.

Entre sexta-feira e domingo, o carnaval de rua acontece por todos os bairros da cidade e das cidades vizinhas. Esses blocos de rua não são muito diferentes dos brasileiros, mas um detalhe importante: passam trios elétricos com pessoas jogando balas e doces para as crianças! A regra é que você tem que gritar “Kamelle!” (uma palavra antiga que significa doces, e não camelos), e eles jogaram os doces pra você. Para as mulheres têm também flores, você tem que gritar “Strüßche!” (uma gíria local para flores), e eles jogam as flores.

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Criança vestida de onça sentada nos ombros de adulto e balinhas voando pelo ar

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Um dos trios elétricos que passam com a música e os doces

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Homem em trio elétrico jogando balas e doces

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Outro homem fantasiado em trio elétrico jogando balinhas

Rosenmontag, a segunda-feira de carnaval, é o dia mais importante do carnaval de Colônia, que junta mais de 1 milhão de pessoas nas ruas (o que é um número razoável considerando-se que a cidade de Colônia tem 1 milhão de habitantes).

Nesse dia, participam dos desfiles os grupos vencedores dos desfiles de bairro do domingo (há competições de fantasias e música).

Os desfiles continuam na terça feira e à meia noite da terça para quarta é quando se queima o Nubbel, um boneco – meio como um espantalho – que representa todos os pecados cometidos no carnaval. Ele é queimado para levar a culpa, meio que uma maneira de “terceirizar” a culpa dos tais pecados. É com essa cerimônia que termina oficialmente o carnaval alemão.

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Homem fantasiado de bolhas de sabão.

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Um pessoal fantasiado de peças de lego

E a quarta-feira de cinzas é então o início da quaresma.

Resumidamente, é esse o carnaval de Colônia, do qual por circunstâncias diversas eu ainda não tive a oportunidade de participar. Quem sabe ano que vem!

Para terminar, ficam algumas outras curiosidades avulsas sobre o carnaval de Colônia:

Kölle Alaaf é a saudação usada durante o carnaval em Colônia. Há polêmicas sobre o significado.

330 toneladas de balas, 700.000 barras de chocolates e 220.000 caixas de bombons são jogadas durante os desfiles em Colônia.

Ao todo, as pessoas gastam com fantasias, comidas e coisas diversas relacionadas à comemoração, um total de 460 milhões de euros.

Colônia recebe uma média de 1.5 milhões de turistas (alemães ou estrangeiros) durante o carnaval.

Como no Brasil, tem essa idéia de que durante o Carnaval o beijo é livre. Só que aqui isso vale não para desconhecidos em geral, mas para a polícia e para o prefeito! Quer dizer, é liberado beijar policiais e o prefeito! Ainda preciso fazer umas fotos disso…

E aqui vai uma propaganda do carnaval, que mostra algumas imagens dos desfiles e das fantasias:


(Publicado em 21 de março de 2015)

 

Pegida parte 2: Uma resposta de Dresden

Antes de ler esse post, leia a primeira parte aqui para entender do que se trata.

Ah, a Alemanha. Às vezes tem que se admirar. Se por um lado volta e meia aparecem manifestações racistas, xenófobas e neo-nazis, as respostas que você vê pela cidade são simplesmente tocantes. No post anterior eu comentei, em uma das fotos, o grande cartaz no Zwinger – o museu mais importante de Dresden, que dizia “A coleção de arte estadual de Dresden – 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação.”, em uma clara resposta à xenofobia do Pegida. Algumas outras discretas manifestações pela cidade deixam claro a posição da maioria – por exemplo uma loja que vende roupas fair-trade importadas de países de terceiro-mundo com um cartaz dizendo algo como “Nós também defendemos uma Dresden colorida e multicultural” entre outros detalhes assim por aí. Essa descrição, “Dresden colorida”, está sendo frequentemente usada por quem se manifesta contra a xenofobia, se referindo às diferentes cores e etnias de uma cidade multi-cultural.

No último 13 de fevereiro, durante a bagunça das manifestações nazistas e anti-nazistas, o cartaz gigante no teatro municipal com uma citação de Erich Kästner, “De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram.”, em um claro apoio aos bloqueios à marcha dos neo-nazis.

Se por um lado essas manifestações racistas, xenófobas e anti-democráticas da extrema-direita são chocantes, assustadoras e deprimentes, por outro as respostas criativas e bem-humoradas do resto da sociedade são tocantes e emocionantes.

Uma dessas respostas aconteceu ontem, 26.01, em Dresden. Um evento organizado por artistas de Dresden sob o nome “Offen und Bunt – Dresden für alle” (Aberta e colorida – Dresden para todos), reuniu diversos artistas e pessoas famosas da Alemanha – tanto alemães quanto imigrantes – em um enorme show aberto no centro histórico da cidade, pela tolerância e por um “mundo aberto” (Weltoffenheit é o termo em alemão, não tem uma tradução precisa, mas significaria um mundo sem fronteiras, sem muros).

Entre as performances – músicas com o tema tolerância, e algumas especificamente a respeito do Pegida – algumas pessoas famosas ou nem tanto davam declarações contra a xenofobia e pelo multi-culturalismo. Uma das falas mais tocantes foi de uma refugiada da Síria convidada, que disse, em seu breve discurso, uma frase que sintetiza bastante a questão: Eu acho legal que eles [o Pegida] perguntem porque nós [refugiados] estamos aqui. Mas eles estão perguntando para as pessoas erradas. Eles estão perguntando para a gente, porque estamos aqui, mas deveriam perguntar para o seu governo [o governo alemão], porque estamos aqui. E o seu governo deveria responder honestamente. Que estamos aqui porque eles vendem armas para governos ditatoriais de outros países. [a Alemanha é o sexto país que mais exporta armamentos]” (tradução livre de memória).

Outras declarações desse gênero, criticando o Pegida, criticando a xenofobia, e elogiando uma cidade multi-cultural e aberta completaram a noite.

E não foi um evento pequeno. Além da Neumarkt (a praça na frente igreja símbolo da cidade) lotada de pessoas (os organizadores estimaram 25.000), holofotes coloridos iluminavam o skyline da cidade em diferentes cores vibrantes, criando um cenário impressionante, e, pelo seu significado – a cidade colorida, multicultural –, profundamente comovente.

Veja aqui uma foto panorâmica de 360˚ da Neumarkt lotada de pessoas.

Algumas fotos oficiais da imprensa:

© DPA

© DPA

Michael Schmidt

Michael Schmidt

Algumas fotos minhas do skyline colorido da cidade:

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(Publicado em 27 de Janeiro de 2015)