Pessoas

Sobre mudar de nome ao casar

Os posts estão atrasados, eu sei! Fim de ano é sempre corrido não importa se você estuda, trabalha, cuida da casa e dos filhos, ou seja lá qual for a ocupação que você escolheu para passar o tempo entre refeições.

Mas hoje tive uma conversa sobre nomes engraçados com minha colega no trabalho, e fiquei com vontade de escrever (mais) um post sobre nomes. Eu escrevi já um post sobre como funcionam nomes e sobrenomes na Alemanha, e também um outro sobre nomes não alemães na Alemanha, e também no post sobre casar aqui eu falei sobre como funcionam as regras de mudança de nome.

Esse é sobre mudança de nome também, mas não sobre regras.

Eis que na conversa com a minha colega sobre nomes engraçados, ela contou que a filha dela casou e mudou de nome, para um nome bem constrangedor. Não vou mencionar o sobrenome em especial para não ofender ninguém com o mesmo sobrenome, mas basicamente é um sobrenome com um significado bem peculiar.

Isso que me inspirou a escrever esse post. Como eu já expliquei provavelmente nos três posts que eu linkei lá em cima, ninguém é obrigado a mudar de nome ao casar aqui, claro, e você pode ou trocar seu sobrenome pelo do/a marido/esposa, ou adicionar o dele/a extra ao seu com um hífen. A Joana, por exemplo, suponhamos que o nome de nascimento dela era Joana Belo. Aí casando com o (digamos) Lúcio Peixoto, ela poderia mudar o nome dela pra Joana Belo-Peixoto, ou Joana Peixoto-Belo, ou ainda Joana Peixoto, ou deixar o Joana Belo.

Eu vou me casar no ano que vem e nunca nem de longe passou pela cabeça cogitar mudar de nome. Eu entendo que ainda hoje algumas pessoas escolham mudar de nome ao casar, ainda tem uma certa romantização da família toda ter o mesmo nome, em círculos mais conservadores ainda é um tanto inesperado que a noiva mantenha seu nome de nascimento, e, claro, em muitos casos a pessoa nem gosta de seu nome de nascimento e aproveita a oportunidade para se livrar dele para sempre. Tudo bem. Eu gosto muito do meu sobrenome, acho ele bem bonito, ele é parte da minha identidade, nunca pensei em mudar.

Mas o que me surpreende é o quanto isso – a mulher manter o nome de nascimento depois de casar – ainda é totalmente estranho para os alemães! Você imaginaria que aqui as pessoas são menos conservadoras, menos ligadas a essas tradições. Mas to-das as mulheres com quem eu falei sobre o assunto – to-das – responderam com “Não vai mudar? Mas nossa, por quê?” como se não mudar de nome signficasse que eu não amo meu noivo o suficiente ou pretendo me divorciar, ou coisa assim. Fico até com uma pontinha de dúvida se as pessoas não ficam achando que se eu não vou mudar de nome é porque eu quero casar só pra tirar o visto de permanência aqui (o qual eu nem preciso ter) ou coisa assim.

É curioso como todas as mulheres alemãs da minha geração que eu conheço aqui e que são casadas mudaram o sobrenome pro do marido. As únicas mulheres que eu conheço aqui de idades próximas à minha que mantiveram o nome ao casar são brasileiras!

E a única alemã que eu conheço que tem seu nome de nascimento é a minha sogra, que mudou de nome ao casar (era obrigatório na época) e assim que a lei mudou e passou a permitir manter o nome de nascimento (no começo dos anos 90) ela foi correndo mudar o nome de volta para o nome original! O casal continua junto até hoje, a desmudança do nome nada tinha a ver com o marido ou com a relação, é uma questão de identidade, mesmo. Acho essa história o máximo!

Isso tudo é estranho também porque aqui, diferente do Brasil, sobrenomes são muito importantes. Em ambientes profissionais quase sempre você será tratado pelo seu sobrenome, só entre colegas da mesma empresa com quem você convive diariamente é que você usa o primeiro nome. Numa reunião, por exemplo, com pessoas de outras empresas, você jamais vai usar o primeiro nome.

Então num contexto desse onde você realmente acostuma a se identificar pelo seu sobrenome, e em 2016 num país onde as pessoas acham muito sinceramente que machismo é coisa do passado ou de outros lugares do mundo, me é muito estranho que as mulheres aceitem mudar de nome tão tranquilamente, sem questionar, e que ainda lhes pareça tão estranho que alguém escolha manter o nome original. Porque Pelo Amor De Deus. Se você tá deliberadamente mudando seu nome pra algo engraçado ou constrangedor, é porque tem alguma coisa errada aí.

Mesmo no cartório, quando fomos entregar os documentos para tirar a “autorização” para casar, senti uma ligeira pressão da funcionária no sentido de mudar de nome. Ela disse que não precisa, e informou direitinho as regras, mas repetiu muitas vezes que eu posso mudar de ideia e mesmo depois de casada mudar meu nome pro do meu marido, a qualquer momento eu poderia fazer isso, viu, pode ficar à vontade, se você quiser mudar a gente muda, você pode estar com 70 anos de idade que tudo bem, quiser mudar o nome pro do marido vem aí que a gente muda! Se eu ainda tivesse expressado alguma dúvida a respeito quando ela perguntou da primeira vez… mas nós fomos bem claros desde o início que não haveria mudança de nome e mesmo assim houve uma insistência muito grande em me assegurar que eu poderia mudar de ideia…

Eu quero só ver as pessoas depois que eu casar me tratando pelo sobrenome do meu marido. Vão ouvir um “ESSE NÃO É MEU NOME!” bem grosso…


(Publicado em 9 de Dezembro de 2016)

Se reunindo pra ver fotos de viagem

Hoje eu acordei com a seguinte mensagem no meu whatsapp, de uma amiga brasileira daqui:

Gente. Já aconteceu isso com vcs? Fui convidada por uma conhecida pra ir pra casa dela pra fazer uma festinha pra ela apresentar um PPT de como foram as férias dela. Tava sério, muito bege. Tava pensando que cilada eu vim parar! Já tava durando 1,5h e ainda não tinha acabado qdo fui embora!

S.I.M. Já aconteceu. MUITAS vezes.

Esse é um programa típico entre alemães que eu jamais compreenderei: convidar os migos em casa pra assistir o fulano mostrar as cinqueta e sete mil, novecentas e trinta e nove fotos da viagem de 5 semanas que ele fez nas Montanhas Tarvagatai na Mongólia.

Não é que eu não queira ver as fotos das montanhas Tarvagatai na Mongólia. Eu até quero. Eu acho bem bonitas as montanhas Tarvagatai na Mongólia. Mas eu gostaria de ver as fotos das montanhas Tarvagatai na Mongólia assim, de boa, na minha casa, no face, no meu ritmo, onde eu vou pulando as fotos que eu achei chatas, olho com mais cuidado uma ou outra aqui e ali, posso girar o olho pra selfie boba do fulano com o almoço mongolês dele, não necessariamente ficar meia hora olhando a foto embaçada bem de longe de algo que talvez possa ter sido um leopardo das neves, pular as fotos dele abraçando o guia mongolês que levou ele no tour das montanhas Tarvagatai na Mongólia, etc.

Mas assim, num powerpoint preparado com a pessoa me contando pra cada foto mil coisas que certamente são muito interessantes pra quem esteve lá mas totalmente x pra quem não esteve… “Aqui nesse pedaço de grama aqui tá vendo que tem uma manchinha meio escura? O guia falou pra gente que era uma pegada de lobo aqui!! Parece que os lobos aparecem aqui a noite às vezes, eu acho que talvez tenha ouvido um lobo a noite quando eu tava dormindo e sonhando com lobos, e…”

Não, gente!! Não!!

E isso quando eles preparam! Tem vezes que é tipo “ah, então, eu trouxe aqui as fotos da minha viagem pra te mostrar, eu não fiz uma seleção, ainda, mas….”

nãããããoooooooooo….. e lá se vão mais 3 horas da minha vida assistindo foto de viagem alheia!! Não mereço!!!

Quando a pessoa te convida pra ir na casa dela ver isso, beleza, vc ainda pode inventar uma desculpa, sair de finininho depois de meia hora… mas não é incomum que a pessoa chegue na sua casa convidada prum jantar entre amigos qualquer, trazendo o HD com as malditas fotos da viagem….

E aí quando finalmente terminam as fotos, o amigo fala “bom, essas foram as fotos dos primeiros três dias. Agora deixa eu entrar aqui na outra pasta com as fotos dos 3 dias seguintes…”

Nessas eu já tive que assistir até slideshow COM SLIDE DE VERDADE de fotos de uma viagem que a pessoa tinha feito em MIL NOVECENTOS E OITENTA E TRÊS. POR QUÊ? POR QUÊ?

Eu não agüento nem olhar as fotos das minhas próprias viagens desse jeito! Já tive várias briguinhas com o namorado que faz toda uma seleção de fotos da viagem e aí vai nos encontros de família e quer ficar mostrando uma por umaaaaaaaaaa nãããããooooooooo……

Sério, todo ano (pq isso acontece mto comigo no final do ano, quando encontramos a família e alguns amigos pro Natal) eu sofro com isso e tudo o que eu queria era levar algum migo brasileiro comigo pra ter com quem trocar uns olhares discretos e me sentir compreendida… porque os alemães, além de gostar de mostrar as fotos da viagem, também gostam de assistir as fotos das viagens alheias em slideshows de 2 horas… então no final não dá nem pra você comentar com o outro amigo que tb estava lá vendo as fotos “meu deus, o que foi isso!!!??”!

Então fique avisado. Se você vier pra cá. E fizer amigos alemães. Quando eles te convidarem pra ir na casa deles ver as fotos da viagem… é pra ir na casa deles ver um slideshow de três horas e meia com todas as doze mil oitocentas e quarenta e duas fotos que ele tirou na viagem de 5 semanas pras montanhas Tarvagatai na Mongólia. Boa sorte.


(Publicado em 6 de Novembro de 2016)

Dinheiro, empréstimos e aluguéis

Hoje por acaso me deparei com um artigo muito interessante sobre o porquê de os alemães quase sempre pagarem tudo com dinheiro. Vários aspectos da cultura alemã apontados no artigo são coisas que eu já tinha notado e estranhado logo de início, e por isso achei que seria uma boa escrever um post sobre o assunto, baseado nesse artigo e nas minhas experiências pessoais por aqui.

No Brasil paga-se quase tudo com cartão. Enquanto estava lá eu raramente carregava mais que 20 reais na carteira uma vez que QUALQUER lugar aceita cartão. Os motivos são vários: é muito mais prático não precisar lembrar de tirar dinheiro, as pessoas se sentem mais seguras carregando menos dinheiro – para o caso de serem assaltadas ou furtadas – e tem ainda o conforto de não “ver” o dinheiro sendo gasto: quando você tem o dinheiro na carteira e vê ele diminuindo, é bem mais difícil gastá-lo.

Mas na Alemanha o contrário é o normal: Aqui se paga muito mais com dinheiro que com cartão. Tem que lembrar de carregar dinheiro porque muitas lojas e restaurantes nem sempre aceitam cartão de crédito. A porcentagem de pagamentos realizados em dinheiro na Alemanha chega a 82%, bem maior se comparada, por exemplo, ao valor nos Estados Unidos: 46%. Eu não sei qual é essa porcentagem no Brasil, e imagino que seja difícil comparar países desenvolvidos com países em desenvolvimento nesse quesito. Mas imagino que pelo menos em São Paulo seja um valor parecido ao dos Estados Unidos.

O artigo sugeria alguns motivos para essa preferência forte por pagamentos em dinheiro aqui:

1. Ter uma noção dos gastos
Assim como a gente (ou eu, pessoalmente) prefere pagar com cartão pra não sentir tanto o dinheiro indo embora, para os alemães o contrário é o motivo: eles preferem ter uma noção dos seus gastos para ter um controle sobre os mesmos. Faz sentido, claro. (Ainda sou mais o cartão…)

2. Anonimidade
Como eu já mencionei em outros posts por aqui, especialmente nesse aqui sobre a internet, os alemães são suuuuper noiados com privacidade. Eles evitam colocar o nome completo em sites (incluindo o perfil do face), evitam colocar fotos de si e especialmente taguear essas fotos (pra evitar que esses programas de reconhecimento de rosto que as redes sociais (por exemplo) usam gravem seus rostos), evitam serviços de email e mensagens em que as mensagens não sejam criptografadas, ou em que o serviço mantenha o histórico gravado em seu sistema mesmo depois que as mensagens são apagadas (Face, WPP, Google, quem sabe o que eles fazem com as informações?), etc etc.

Pra gente no Brasil, que é extremamente apegada às dinâmicas sociais internéticas, esses cuidados parecem uma nóia insana, quase uma afronta à socialização. Como faz amizade com alguém que não tem nem Smartphone nem Facebook? (E não são poucos os alemães que se encaixam nessa descrição!) Tem que telefonar pra pessoa? Mandar um email e torcer pra pessoa sentar hoje a noite no computador pra ler seus emails?

Mas bom, se os alemães estão em um extremo em termos de nóia com privacidade online, a gente está no outro. Talvez um meio termo fosse ideal. Seja como for, esses cuidados acabam se refletindo nos costumes dos alemães em relação ao dinheiro: vários dizem que não gostam de pagar com cartão porque não querem que todas as suas compras e seus movimentos financeiros possam ser tão facilmente rastreados. É verdade que sua fatura do cartão de crédito já é o suficiente pra dizer muito sobre você: O que vc compra, onde, os lugares que você frequenta, os seus hobbies, etcetc. Mas, por outro lado, também não sei pq alguém se interessaria em saber tais coisas sobre mim, muito menos as pessoas que teriam acesso a essas informações, organizações governamentais, e tal. Mas bom, talvez o cuidado alemão com isso seja bem mais sensato do que nos parece.

3. Alemães evitam dívidas
Esse é o ponto mais interessante levantado pelo artigo, sobre o qual eu nunca tinha pensado muito a respeito, mas que se encaixa em várias das minhas observações alemanhísticas. Mas essa aversão a dívidas é de fato uma característica típica por aqui, e que se traduz em dois resultados bem interessantes: poucos alemães possuem cartões de crédito – especialmente os que são de fato de crédito por definição e; em relação a imóveis, os alemães têm uma clara preferência por alugel a compra por financiamento.

Sobre o cartão de crédito: Aqui existem dois tipos de cartão. Na verdade, três. O primeiro é o EC Card (Eletronic Cash Card), tb conhecido pelo nome de Girocard (não sei se tem diferença). É o cartão de débito alemão e que funciona como cartão de débito na europa inteira. Esse é bem amplamente aceito em lojas e restaurantes por aqui.

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Daí temos também os cartões de créditos, que podem ser de dois tipos: ou um normal onde vc faz as suas compras e paga a fatura no final do mês (embora o mais comum seja vc ter o cartão do banco onde tem conta e a fatura ser descontada automaticamente da sua conta no final do mês) ou um cartão de crédito pré pago (que portanto por definição não é de crédito, mas tudo bem) onde vc coloca crédito antes e vai gastando, meio como um cartão de débito.

O uso do cartão de crédito no esquema faça-suas-compras-de-boas-e-pague-tudo-no-final-do-mês é um conceito que vários alemães nem entendem! Eu tive várias discussões com meu namorado em que ele me dizia que não podia fazer tal compra com o cartão de crédito antes de transferir dinheiro pra conta do cartão e eu tendo que explicar que cartões de crédito, por definição, não exigem que vc tenha o dinheiro disponível na hora da compra, mas só no final do mês (ou seja lá quando for que vence a fatura). Demorou pra ele acreditar que ele podia comprar algo com o cartão de crédito sem ter o dinheiro disponível na conta no mesmo momento (e descobrir isso não o fez nem um pouco mais compelido a gastar dinheiro que não tem). Pode parecer estranho mas isso não deve ser raro por aqui: apenas 36% dos alemães possuem um cartão de crédito (comparando com 62% nos EUA). Parece que para os alemães a utilidade do cartão de crédito é basicamente para fazer compras ou tirar dinheiro no exterior, onde não se aceita o cartão de débito alemão. Eu mesma nunca usei o meu cartão de crédito alemão por aqui (embora tenha um). É raramente aceito, e para compras online pode sempre usar o tal cartão EC. Só uso o de crédito se compro alguma coisa num site estrangeiro.

Sobre alugar em vez de comprar: Isso é uma das coisas com que eu mais me identifico nos alemães e menos nos brasileiros. No Brasil as pessoas vêem alguel como uma perda de dinheiro. Pra quê pagar um aluguel se você pode pagar a mensalidade de um financiamento em vez disso, e ainda ficar com a casa depois (dos 60 anos de idade, ou algo assim)? Pra mim sempre foi bem curioso como no Brasil todo mundo está sempre desesperado pra comprar imóvel, colegas da minha idade (quase 30) preferem morar com os pais até os 35 pra poder juntar dinheiro pra dar entrada em um apartamento do que ir morar de aluguel com o namorado/a e experimentar um pouco da vida adulta e talz. Nesse sentido eu me encaixo bem por aqui. Os alemães preferem a independência de um aluguel: morar na sua própria casa tão cedo quando possível, não se prender a um local ou cidade ou a um emprego que você não pode correr o risco de perder porque precisa continuar pagando o financiamento do apartamento que comprou (o aluguel também precisa ser pago, claro, mas pode-se sempre procurar um mais barato se não tiver rolando). E evitam ao máximo um empréstimo que possa gerar dívidas no futuro: nunca se sabe o que o futuro guarda (e os alemães são sempre bem pessimistas).

Por essas e outras que a porcentagem de pessoas que têm casa própria na Alemanha, 40%, é bem abaixo da média de outros países desenvolvidos (por volta de 80% na Itália e Espanha, 70% na Inglaterra e EUA).

Outro ponto interessante nessa história toda é que por causa desse costume alemão de pagar com dinheiro que existe a nota de 500 euros. Aparentemente essa nota só existe por pressão da Alemanha, e na França é chamada de “nota alemã”. (Eu nunca vi e nem senti cheiro de uma, mas tudo bem!)

nota_500_euros

Luis Javier Modino Martinez – Wikipedia

Acho que é isso! Aqui estão os artigos que serviram de fonte dos dados e alguns argumentos desse post:

Why Germans pay cash for almost everything

http://www.businessinsider.com/you-have-to-understand-germanys-long-standing-fear-of-debt-2012-7?IR=T

Most Germans don’t buy their homes, they rent. Here’s why


(Publicado em 26 de Setembro de 2016)

Coisas que eu aprendi na Alemanha

Semana passada completei 4 anos de Alemanha. Acho que estou ficando velha, porque embora pareça que eu me mudei pra cá faz tempo, quando eu digo “4 anos” não parece muito tempo.

Mas com certeza esses 4 anos foram bem marcantes na minha vida em vários aspectos.

Coincidentemente, encontrei num canto um papel em que eu tinha escrito, há alguns meses atrás, uma lista de coisas q eu aprendi desde que mudei pra cá. Achei que caberia muito bem um post sobre isso bem nessa data importante.

Você provavelmente está achando que eu vou escrever sobre como eu, sei lá, aprendi a ficar do lado direito da escada rolante ou dar preferência pra pedestres ou sei lá o quê que as pessoas acham que se aprende quando se mora na Europa.

Mas não é nada disso. Acho que esse post poderia ser escrito por qualquer pessoa que se mudou pra outro país em que se fala outra língua. (Quase. Alguns itens são, mesmo, relacionados à Alemanha).

Vejamos, vejamos…

1. A responder “sim” ou “não” de acordo com o que a pessoa espera ouvir como resposta

Isso, lógico, da época que eu ainda não entendia alemão muito bem. Fiquei craque em reconhecer se uma pessoa desconhecida me perguntando alguma coisa espera ouvir “sim” ou “não” como resposta. Tive várias conversas com desconhecidos em que a pessoa me perguntou algo, eu respondi o que ele esperava ouvir, e ele foi embora satisfeito e eu fiquei pra sempre sem saber o que ele tinha perguntado.

Os exemplos são bem mais bobos do que você está provavelmente imaginando. São coisas como, vc encontra seu vizinho na escada e ele te pergunta alguma coisa. Pode ter sido algo como:

“Não foi você que esqueceu a porta aberta hoje de manhã, não, foi?”
“Não, não.”
“Ah, então tá. Que não pode deixar aberta, mas tem alguém que sempre esquece.”

ou então o mesmo vizinho talvez esteja saindo com o carro e te viu indo pegar sua bicicleta, pergunte:

“Você tá de saída, né?”
“Sim, sim!”
“Ah, vc fecha a porta pra mim, então, por favor?”
“Sim, sim!”
“Obrigado!”

Juro, tive vários diálogos desse gênero que eu até hoje não sei com o que eu concordei ou o que eu neguei. Mas as pessoas pareceram satisfeitas, e eu evitei a chateação embaraçosa de explicar que não entendi o que ele estava falando, e às vezes é só isso que importa.

2. A ler expressões faciais, coisas faladas nas entrelinhas e linguagem corporal.

Todo mundo gosta de acreditar que é muito bom nisso, de saber o que o outro está pensando. Não é verdade, a maioria das pessoas é bem ruim disso. Para não cometer o mesmo erro, não vou dizer que fiquei muito boa nisso, vou apenas dizer que eu era beeeem pior em ler sutilezas de expressões faciais, linguagem corporal e coisas assim e que melhorei pra caramba essa habilidade depois que vim pra cá. Eu não tinha idéia que eu era relativamente ruim em ler essas coisas até melhorar muito essa habilidade. O motivo, óbvio, era que por um bom tempo esses eram os únicos instrumentos que eu tinha pra me comunicar. Ou melhor, pra entender a outra pessoa.

Quando você não fala bem a língua e tem que se expressar e compreender pessoas se expressando nela constantemente, é inevitável que você melhore muito sua habilidade e compreender outros aspectos da comunicação além das palavras que estão sendo ditas. Isso, lógico, se relaciona super com o item anterior, o de saber o que a pessoa espera como resposta mesmo sem ter ideia de qual foi a pergunta. O fato é que, quando vc entende as palavras, vc acaba ignorando muitos outros aspectos da comunicação pq o significado das palavras têm prioridade no seu entendimento do que está sendo dito. Quando vc perde esse aspecto, vc tem que melhorar nos outros. É que nem aquilo de cegos serem muito bons de reconhecer sons e cheiros. Quando vc perde o sentido principal, os outros ganham uma importância tremendamente maior.

De novo, não quero cometer o erro de dizer que sou muito boa nisso – já que quase todo mundo acha que é. Não sei o quão boa eu sou nisso, só sei que sou muito melhor que antes de vir pra cá.

3. Respeitar pessoas diferentes

Isso com certeza não foram os alemães que me ensinaram, vale observar. Mas desde que eu vim pra cá eu passei a ter muito mais contato com pessoas de culturas e origens muito diferentes da minha. Fiz amigos muçulmanos, hindus, budistas. Não é que eu fiquei necessariamente mais tolerante que antes – eu sempre tentei ser tolerante. Mas a convivência diária realmente é o que te mostra que as pessoas no final das contas são todas muito parecidas, e o que muda é só o contexto e o passado delas, e ninguém simplesmente nasce mau ou bom. A convivência diária também faz com que você trate fatores que antes eram coisas inimagináveis e impensáveis pra você como normais e sem importância. Por exemplo, os hijabs, aquele pano que as mulheres muçulmanas usam para cobrir os cabelo. É uma coisa que antes de vir pra cá – por mais que eu me esforçasse em não julgar – eu via como necessariamente uma imposição, uma opressão, uma coisa que certamente qualquer moça independente dona de si imediatamente desistiria de usar na primeira oportunidade. Depois de fazer amizade com uma palestina muito querida, e conviver diariamente com alguém que em muitos sentidos é parecida comigo mas vem apenas de uma cultura diferente, o fato de ela usar ou não um pano na cabeça me parece a coisa mais sem importância possível. Porque isso me incomodava tanto, antes? Se a menina quer usar um pano na cabeça, usa, ué. Ela tava morando sozinha na Alemanha, fazendo um mestrado, a família na Palestina, quase nenhum muçulmano por perto, se ela continuou usando o hijab é porque ela quer, ué. Achar que a mulher não tem capacidade de crítica e de decisão também é machismo, ora.

Enfim. Essas coisas que quando estão totalmente fora da sua realidade parecem totalmente sem sentido, mas quando estão lá na sua cara de repente viram uma coisa boba.

Pra ser justa, acho que eu teria aprendido isso se tivesse ficado no Brasil também, uma vez que a quantidade de imigrantes lá – pelo menos em São Paulo da última vez q estive lá – aumentou pra caramba nos últimos anos! (Acho isso ótimo.)

4. Quem no Brasil realmente se importa comigo – e com quem no Brasil eu realmente me importo

Essa é clássica pra quem vai morar fora, mesmo que por um tempo relativamente curto. Eu já tinha percebido quando passei um ano na Itália fazendo intercâmbio. Quando você está fora, todo e qualquer contato com seus amigos só acontece se existe um esforço por trás. Lógico que dar um like ou outro no facebook não exige esforço. Mas contato, mesmo, contar da sua vida e querer saber da vida do outro e ele se interessar em saber da sua, isso exige um esforço extra. E o fato é que as pessoas só fazem esse esforço quando é com alguém que realmente importa.

Depois de 4 anos, eu sei exatamente quem no Brasil realmente se importa comigo – com sinceridade, porque gosta de mim, não porque está simplesmente curioso de saber como é viver na Alemanha ou, pior, que está curioso de saber como está a sua vida apenas porque está torcendo loucamente pra dar tudo errado, por inveja. (tem desses, também). E eu imagino que para os meus amigos de lá também (espero) tenha ficado bem claro o quanto eu me importo de fato, com sinceridade, com eles, e o quanto eu quero saber que eles estão bem e estão felizes. Depois de um tempo fora é inevitável, vc sabe exatamente quem são de fato seus amigos.

E mesmo a quantidade de comunicação com cada amigo é diferente. Tem uns que não são tão ligados nas internets quanto eu, e que portanto eu tenho menos contato. Mas não necessariamente isso significa que eles não se interessam ou não se importam, e mesmo com esses fica claro.

Priiiincipalmente quando você volta. Quando você vai viajar rapidinho e tem pouco tempo pra ver todo mundo. Aí fica óbvio pra TODO MUNDO (pra vc e pra eles) quem realmente importa pra quem, porque:
a) você não tem tempo pra ver todo mundo, então vc acaba limitando só aos realmente muito importantes, e sempre tem alguns que vc deixa pra trás que gostariam de ter sido lembrados

b) tem outros que você sugere encontrar e vc percebe que a pessoa fez zero esforço pra te ver naquelas semanas que vc passou lá, mesmo você tendo insistido.

(Lógico que eu estou falando aqui de amigos mais próximos. Tem vários amigos que são queridos, que eu gosto de saber que estão bem e estão felizes, mas não são necessariamente próximos o suficiente para eu marcar alguma coisa quando volto pro Brasil.)

5. Manter contato intercontinental

Bem relacionado ao item anterior. Mas uma coisa que você percebe quando está longe é que o contato físico é importante e que só emails e conversas no facebook não bastam para matar a saudade de alguém. O que isso significa é que receber cartas ou pacotes pelo correio têm um significado gigante quando você está fora. E embora seja pouco freqüente eu receber coisas pelo correio do Brasil, eu tento sempre enviar alguma coisa para os amigos mais próximos (às vezes alternando que o dinheiro não nasce em árvore, né). Principalmente no Natal eu tento sempre enviar alguma coisa. Às vezes você vê algo que te lembra muito alguém e aproveita pra mandar pro correio – sem nenhum motivo especial – e a pessoa fica profundamente contente de receber um presente inesperado seu vindo direto da Alemanha. Acho que essas coisinhas super ajudam a manter o contato com as pessoas de lá.

6. O preço de morar fora

Morar fora tem um preço que a gente não tem idéia de quão alto é até ter que pagar. Lógico que não estou falando de dinheiro. Tem coisas que não são segredo, que você sabe que vão ser assim e você sabe que vão ser difíceis. Mas essa dificuldade é muito vaga na sua cabeça antes de você passar por ela pra vc ter idéia dela de fato e ter noção de se o preço vale a pena. Isso você só descobre quando já está longe.

No final do ano passado minha avó materna faleceu, e estar longe naquele momento foi bem mais difícil do que eu imaginaria que fosse ser. Eu sabia que seria difícil perder uma avó querida, sabia que quando isso acontecesse eu provavelmente não teria como pular correndo num avião para chegar a tempo do enterro. Sabia dessa coisas. Mas não tinha ideia de como elas seriam difíceis de lidar. Minha avó se importava muito comigo e isso sempre ficou muito óbvio. Quando acontecia algum acidente em que a vítima era alguém da mesma idade e gênero de algum dos netos dela, ela imediatamente ficava toda preocupada que pudesse ser o neto em questão. Caiu um avião na Alemanha – “Ai, meu Deus, a Laís não estava nesse avião, não, né? Melhor ligar pra ter certeza!”. Na última vez que eu visitei ela, ela disse que se ela morresse (ela já estava bem mal) ela viria pra Alemanha me visitar. “Mas como você vai saber onde eu moro, vó?” “Ah, espírito sempre acha!”.

Quando ela faleceu eu não estava lá para me despedir, nem dela viva nem na hora do enterro. E o pior, todas as pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu, que também estavam sofrendo com a morte dela, todas estavam longe. Eu percebi como o enterro/velório é mais que uma oportunidade pra se despedir da pessoa, mas é também uma oportunidade pra você encontrar e abraçar as pessoas que estão sofrendo com essa perda como você. Não ter tido essa oportunidade é algo que eu nunca teria imaginado que me chatearia tanto. É um dos preços a pagar por escolher morar longe.

Nessa semana nasceu minha primeira sobrinha, filha do meu irmão, e eu já estou planejando de ir visitá-los em Janeiro, mas é super decepcionante não poder ir lá no hospital logo depois do nascimento. E principalmente de saber que você não vai poder assistir a criança crescer e ter a oportunidade criar um vínculo forte com ela que você como tia gostaria de ter, de ir passear com a sobrinha uma vez por mês ou coisa do tipo, estar em todos os aniversários e momentos importantes, etc.

(Mas em minha defesa, se eu tivesse ficado no Brasil seria igual uma vez que meu irmão também mora fora)

7. A parar de achar que tudo aqui é melhor

É lógico que tem muitas coisas aqui que são bem melhores. Mas é uma ingenuidade imensa achar que TUDO aqui é MUITO melhor que no Brasil. Tem coisas melhores e coisas piores. Tudo depende do que é mais importante pra você. E a questão é que as coisas piores você só vai descobrir que são piores quando você estiver morando aqui de fato.

8. A não discutir problemas do Brasil com europeus

Outra coisa que eu parei completamente é de criticar o Brasil para europeus. Sério, se tem uma coisa que eles não precisam é mais motivo pra se acharem melhores que o resto do mundo. Eu deixo as críticas para discutir entre outras pessoas que também são de fora.

9. A ser direta, a me comunicar, a dizer o que eu quero.

Isso sim é uma coisa bem relacionada à Alemanha. Como já discuti em outros posts, os alemães são bem diretos, não fazem grandes cerimônias para responderem “sim” ou “não” de acordo com o que querem ou não querem. Isso é algo que eu incorporei e acho muito mais prático do que o nosso
“Você quer alguma coisa pra comer?”
“Não, não, tô bem, obrigada!” *morrendo de fome*
“Mas tem certeza?”
“Magina, não precisa se incomodar!” *morrendo de fome*
“Mas magina, não é incômodo nenhum, pega aqui um pedaço dessa torta que eu fiz ontem!”
“Não, magina, deixa aí pra vc comer mais tarde!” *morrendo de fome*
“Quê isso, eu não vou agüentar essa torta inteira, pega um pedaço!”
“Ah, mesmo, mas você não vai querer, depois?” *morrendo de fome*
“Não, pega, ó, vou cortar aqui um pedaço pra você!”
“Ah, tá, brigada então!”

10. A procurar amigos

Eu nunca tive nenhuma dificuldade super gigante em fazer amizades, mas também nunca fui mega sociável daquelas pessoas que conversa com qualquer um com a maior facilidade. Eu já escrevi um post sobre como fazer amizade com alemães no qual eu expliquei já na primeira linha que eu não sei como se faz amizade com alemães. Embora o post eu tenha escrito há dois anos atrás, a resposta para essa pergunta continua em aberto. Se alguém souber me avisa.

A verdade é que os alemães são bem diferentes nesse quesito, e o processo de fazer uma nova amizade aqui é uma coisa diametralmente oposta ao que a gente está acostumado no Brasil.

Nesses 4 anos o que eu percebi é que de longe o mais fácil é fazer amizade com americanos (do continente inteiro, não só dos Estados Unidos. Mas também dos Estados Unidos) ou com alemães que já moraram no continente americano. Na verdade foi bem surpreendente pra mim perceber o quão parecido a gente é com os americanos (agora falando dos dos Estados Unidos, mesmo) em vários sentidos e o quanto isso ajuda pra caramba a fazer amizade com eles. No momento meus amigos principais são ou americanos (EUA) ou sul-americanos, e uns poucos alemães americanizados (no continente, não necessariamente nos EUA).

Mas na verdade não era disso que eu queria falar, mas sim sobre como fazer amizades aqui. Ou melhor, como eu descobri como procurar amigos aqui.

Pra mim a solução apareceu só no ano passado. Existe um grupo de facebook especificamente para mulheres internacionais em Dresden, e foi lá que eu finalmente comecei a fazer umas amizades mais efetivas. Até então eu tinha alguns amigos, mas ninguém que fosse de fato muito próximo. Através desse grupo eu comecei a participar de coisas como clube de leitura, trabalho voluntário com refugiados, e outros eventinhos onde conheci pessoas muito legais e muito fáceis de conversar. Isso faz um ano. Ou seja, demorou 3 anos para eu realmente começar a fazer amizades aqui de fato, de pessoas q eu tenho certeza que mesmo que se eu voltasse pro Brasil ou elas para seus países, continuaríamos em contato.

Mas isso é completamente diferente dependendo das circunstâncias. Acho que a maioria dos brasileiros é bem mais sociável que eu e faz amizades com mais facilidade que eu. E quem vem pra cá estudar tb tem essa facilidade extra de fazer amizade com os colegas de classe. (Eu fiz um mestrado aqui mas era um grupo bem pequeno e acabou não rolando nenhuma amizade forte no grupo).

Outra coisa que ajudou PRA CARAMBA fazer amizade aqui: ir atrás de pessoas que pudessem cuidar dos meus gatos quando a gente viaja. A minha melhor amiga daqui é uma americana que eu conheci quando ela postou naquele grupo de mulheres internacionais perguntando se alguém podia cuidar do gato dela ou dos dois cachorros por um fim de semana. Aí nós montamos um grupinho de donos de bichos pra ter quem pedir ajuda pra cuidar dos bichos durante viagens, e através desse grupinho conheci mais um monte de gente legal.

 

É isso! Eis aqui uns posts relacionados:

10 costumes alemães que eu incorporei
10 costumes alemães que eu não incorporei
5 coisas do Brasil e da Alemanha que eu sinto/sentiria falta


(Publicado em 30 de Julho de 2016)

Relacionamentos entre brasileiros e alemães

Há algumas semanas atrás pensei que um bom tema para um post seria relacionamentos entre brasileiros e alemães. Mais especificamente mulheres brasileiras com homens alemães, que me parece ser o caso mais comum, mas não apenas.

Então comecei a perguntar para amigos e amigas brasileiros que assim como eu têm ou tiveram relacionamentos com alemães, pra comparar impressões e diferenças notadas e ver se minhas opiniões sobre o assunto são gerais ou nem tanto.

E a verdade é que depois de conversar com várias pessoas, ainda não tenho certeza do que vou escrever nesse post… mas vou tentar, vamos ver o que vai sair!

Toda a idéia do post surgiu a partir de uma conversa com outras mulheres, nem todas brasileiras, mas todas estrangeiras, em que uma delas comentou que achava interessante que a maioria das mulheres daquele grupo tinha vindo parar na Alemanha por causa de um relacionamento com um alemão. E percebemos então que isso parece ser uma coisa bem comum: mulheres estrangeiras com homens alemães, e a situação contrária – homens estrangeiros com mulheres alemãs – parece ser bem menos freqüente. E começamos a conversar sobre qual poderia ser o motivo.

Claro, de repente só parece que essa combinação é mais comum porque nós tendemos a procurar pessoas em situações similares para fazer amizade, então é mais fácil para mim, mulher estrangeira na Alemanha, fazer amizade com outra mulher estrangeira na Alemanha. É relativamente comum para as pessoas ter mais amigos do seu próprio gênero que do outro, então vc acabaria só conhecendo as pessoas nessa mesma combinação: mulher estrangeira com homem alemão.

Mas acho que tem sim, vários fatores que fazem com que essa combinação seja a mais comum. Vou separar o post em duas partes: qual a diferença entre namorar um alemão e um brasileiro, e motivos pelos quais essa combinação brasileira+alemão é provavelmente mais comum que a combinação contrária.

1 – O que é diferente, para uma brasileira, numa relação com um alemão?

A primeira coisa que todas as amigas brasileiras mencionam – a primeira antes de tudo – quando eu pergunto qual a diferença entre namorar um brasileiro ou um alemão é: os alemães são bem menos machistas. Algumas mencionaram por exemplo que se sentem bem mais livres em um relacionamento com um alemão. Os ex-namorados brasileiros sempre queriam saber onde estavam, com quem estavam, o que estavam fazendo. Os atuais namorados alemães não tentam controlar suas vidas nem quem são seus amigos nem onde vão ou o que estão fazendo em todos os momentos que não estão juntos. Lógico que não são todos os homens brasileiros que são assim (e nem todos os homens alemães que não são), mas a maioria das amigas com quem conversei tinha uma história de pelo menos um ex-namorado brasileiro exageradamente controlador. Um outro fator repetidamente lembrado é que por aqui os casais têm bem menos problemas em dividir o trabalho doméstico. Pelos exemplos que encontrei parece comum e totalmente normal que cada um faça sua metade do trabalho doméstico, sem brigas ou necessidade de pressão ou stress por isso.

Na verdade, bem no começo do meu namoro eu conheci uma brasileira que era casada há um tempo com um alemão, e a primeira coisa que ela falou ao saber que eu namorava um alemão foi “Ah, que maravilha, os homens alemães são ótimos, você vai ver: eles ajudam com os filhos que é uma beleza!”. Parece ser realmente um ponto importante que facilita essa combinação o fato de que um relacionamento com um homem alemão ser bem mais um relacionamento de igual pra igual do que é comum encontrar no Brasil.

Na minha experiência pessoal, um ponto também muito importante além dessa questão do machismo é que existe uma maior abertura e facilidade em conversar honesta e abertamente sobre qualquer coisa. Em brigas sempre foi mais fácil resolver as coisas com uma conversa honesta em que os dois lados falam abertamente o que estão sentindo.

Além de um maior comprometimento com a relação, mesmo. E isso foi um tema conversado com as amigas também: parece que para os alemães não tem esse meio termo entre ser amigo e namorar. Ou você é amigo ou você está namorando. Sem in-between. Claro que essa diferença não é necessariamente positiva, não são só os homens brasileiros que preferem demorar mais pra se fixar numa relação comprometida, muitas mulheres também preferem assim. Mas uma vez definido o namoro, parece que há – no geral – um maior comprometimento com ele.

Já em relação a começar um relacionamento com um alemão, muitos brasileiros reclamam da dificuldade que os alemães têm em flertar. Isso, aliás, foi mencionado não apenas por amigos héteros, mas também por um amigo gay. Em alguns momentos essa diferença é positiva – abordagens agressivas ou agressividade após ser rejeitado parece ser bem menos comum por aqui. Mas por outro lado, às vezes demora meeeeses até alguém que parece ter interesse em você demonstrar isso de alguma maneira. Mais de uma amiga brasileira falou que no seu relacionamento com um alemão foi ela que tomou a iniciativa que possibilitou o relacionamento – e por aqui não é nada estranho que a mulher tome a iniciativa.

2 – Porque em casais héteros a combinação mulher estrangeira + homem alemão é mais comum que a combinação contrária?

Eu pensei bastante nesse assunto e cheguei a várias conclusões. Uma questão que me parece bem possível é que em vários sentidos é mais fácil em um relacionamento internacional a mulher acabar mudando de país do que o homem. Primeiro tem o fato de que homens no geral recebem mais e têm empregos mais estáveis, além de estarem menos dispostos a abrir mão de um emprego pra tentar a vida em outro lugar. Então no balanço para muitos casais acaba sendo menos arriscado e mais seguro a mulher mudar. Fora que para muitos homens ainda é muito difícil aceitar uma situação em que ele seja sustentado pela parceira nesses meses iniciais após a mudança.

Mas uma outra coisa que eu nunca teria percebido se não tivesse mudado de país, e que acho que influencia isso também: quando você muda para um país novo, com uma língua nova, você inevitavelmente tem que dar uns passos pra trás. Você não vai encontrar imediatamente um emprego no mesmo “nível” do que você tinha antes no seu país de origem, pode ser que demore demais pra você encontrar um emprego na sua área, ou se adaptar ao local e à língua, e nesse meio tempo a sua auto-estima fica completamente no chão. Eu conversei com vários amigos que também sentiram que passaram por isso. Nos primeiros anos no país novo sem conseguir se “posicionar” (encontrar um emprego, ou uma posição na sociedade, mesmo) quando antes as coisas pareciam tão encaminhadas pra você no seu país de origem, você acaba se sentindo incapaz, incompetente, sua auto-estima cai totalmente. E a minha impressão é de que é mais fácil para as mulheres resistirem a essa fase, primeiro porque as mulheres já são na maioria socializadas a dar menos valor pra carreira – de maneira que esses passos pra trás doeriam mais aos homens – mas também porque é mais fácil um relacionamento sobreviver a um período em que a mulher está com baixa auto-estima do que a um período em que o homem está com baixa auto-estima.

Uma outra questão que parece importante nesse assunto são como certas dinâmicas de poder entre raças e gêneros se entrelaçam e se ilustram nos relacionamentos internacionais. Racismo e machismo entre as pessoas aparece claramente nos relacionamentos que parecem improváveis. Quando você pensa em como a xenofobia ou o racismo influenciam a imagem de uma pessoa de um país de terceiro mundo para uma pessoa européia, essa imagem é diferente dependendo do gênero da pessoa que sofre racismo. Para uma pessoa racista – e não tô falando do abertamente racista, mas de qualquer pessoa que foi influenciada pelos conceitos que a sociedade internaliza – um homem negro ou árabe é geralmente visto como perigoso, não-confiável, possível criminoso. Já uma mulher negra, árabe ou oriental é vista como menos independente que as européias, submissa, vítima de machismo, etc. Ou é vista como exótica e sexualizada dessa maneira. Mas não como perigosa, até porque – e aí entra o machismo de novo – mulheres são no geral vistas como “inofensivas”. Então considerando essas dinâmicas sociais de preconceitos diversos que se somam e se influenciam, acaba ficando mais fácil acontecer uma relação entre um homem europeu e uma mulher de fora do que uma relação entre uma mulher européia  e um homem de fora.

É LÓGICO que pra todos os itens mencionados nesse post – espero que nem seja necessário dizer isso – existem exceções. É lógico que existem exceções. Óbvio que tá cheio de homem alemão machista e abusivo, ou homens brasileiros bem legais. Claro que tem exemplos de casos em que o homem muda pro país da mulher e dá tudo certo, e claro que tem mulheres européias que se relacionam com homens de fora sem racismo envolvido, ou homens europeus que se relacionam com mulheres de fora sem a sexualização da mulher “exótica”. Acho meio desnecessário falar isso, mas sempre tem quem queira entender errado: esse post não é sobre você ou a sua relação com uma pessoa de fora. Assim como não é sobre mim nem sobre a minha relação com um alemão.

Mas se você tiver itens a adicionar relacionados à sua experiência, fique à vontade pra colocá-los nos comentários! =)


(Publicado em 8 de Maio de 2016)

A Xenofobia dos outros estrangeiros

Há um tempo atrás eu escrevi um post sobre xenofobia na Alemanha, onde falei um pouco sobre algumas situações onde eu ou amigos estrangeiros nos sentimos discriminados pelos alemães, ou sentiram em que havia uma diferença clara na maneira como éramos tratados pelos alemães. Você pode ler esse post aqui.

Mas um outro assunto relacionado à xenofobia vem me incomodando muito e também precisa ser tratado: a xenofobia de outros estrangeiros.

Nos grupos de facebook das comunidades internacionais na Alemanha – certamente no daqui de Dresden – volta e meia aparecem posts com relatos de pessoas que foram vítimas de racismo e xenofobia em alguma situção. No mais recente que li, um homem árabe, engenheiro que mudou com a família pra cá a trabalho, contou que num domingo à tarde sua família (ele, a esposa e dois filhos) foi verbalmente agredida e intimidada num trem por um grupo grande de torcedores bêbados do Dynamo – o time de Dresden. Assustado e indignado, o homem contou que nesse dia finalmente viu de perto o “outro lado” de Dresden, o lado racista, xenófobo e preconceituoso. A torcida do Dynamo é bem conhecida na Alemanha por ser racista, agressiva e violenta, nos jogos sempre dá briga, o ambiente é sempre meio pesado. E Dresden, berço do movimento xenófobo Pegida, é conhecida na Alemanha por ser uma das cidades menos receptivas a estrangeiros.

Mas dessa vez o que mais me chocou nesse relato foram os comentários dos outros estrangeiros do grupo. Poucos eram realmente comentários de apoio: “poxa, que horror…”, “Já passei por isso, foi péssimo”, “não quero nem imaginar como vc deve ter se sentido!”, “Se quiser sair pra conversar, podemos marcar um café.”. A maioria dos comentários tentava desesperadamente defender a Alemanha e os alemães de três principais maneiras: ou invalidando a experiência que aquela pessoa compartilhou, ou generalizando a sua própria experiência positiva, ou, pior de tudo, culpabilizando a vítima da agressão racista/xenófoba pela agressão que sofreu.

O primeiro tipo – o que invalida a experiência do outro – é aquele que lê essa história e comenta “não liga”, “ignora”, “esquece” ou “Mas isso poderia acontecer em qualquer lugar”, “idiotas existem no mundo inteiro, não é só aqui”, “sempre tem uns assim, aposto que no seu país também tem”. Tinham muuuitos comentários nessa linha. Não importa se isso acontece em outros lugares com outras pessoas também, aconteceu aqui com essa pessoa que está lá desabafando que teve que passar por isso. E COMO que alguém “esquece” ou “ignora” ou “não liga” pra uma situação dessas? Um grupo de homens bêbados querendo briga xingando e intimidando vc e suas crianças pequenas num trem, com ninguém em volta te defendendo ou te ajudando? Mas, né, poderia ter acontecido em outras cidades ou outros países também, então relaxa e aproveita a Alemanha e pare de reclamar que aqui é obviamente tudo lindo e perfeito.

Depois, vêm sempre aqueles fulanos que, quando alguém conta que passou por alguma agressão racista ou xenófoba, comenta que “eu sou assim, assim e assado e nunca me aconteceu nada, logo, não é verdade que existe racismo/xenofobia”. Amigo, você não é 100% das pessoas, só porque vc não passou por nada assim – sorte sua – não faz a experiência de outros que viveram tais situações menos válidas ou menos verdadeiras.

Lendo essas coisas a impressão é de que muitos estrangeiros gostam tanto daqui que se recusam a acreditar que possa existir qualquer tipo de ponto negativo, lado ruim ou coisas que poderiam ser melhores na Alemanha. Essa impressão é reforçada cada vez que eu vejo alguém fazer qualquer tipo de crítica – por menor que seja – à Alemanha por exemplo no grupo da comunidade brasileira daqui. SEMPRE, mas sempre sem exceção, metade das respostas é “MAS É MUITO PIOR NO BRASIL!!!” “MAS AQUI TEM ISSO ISSO E AQUILO QUE É MUITO MELHOR QUE NO BRASIL!!!”. Não é essa a questão. Não importa se a Alemanha é melhor ou pior que o Brasil. Nada disso invalida uma crítica a algo que não é legal. Eu fico me perguntando porque a pessoa acha tão importante acreditar que a Alemanha é PERFEITA SEM DEFEITOS pra poder ser feliz aqui? Eu gosto de morar aqui. Não quero voltar. Mas critico a Alemanha em vários pontos. Nem de longe diria que ela é “melhor” que o Brasil, acho que todos os países têm lados melhores e piores que os outros. A qualidade de vida é melhor aqui, mas a comida é melhor lá. Aqui vc se sente mais seguro, mas as pessoas são mais simpáticas lá. Tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Mas o terceiro tipo é de longe o mais ofensivo. A pessoa contou esse caso e um dos comentários – de uma ucraniana branca, loira de olhos azuis – dizia que basta vc ficar na sua e não chamar a atenção que nada nunca vai acontecer com você – ela diz isso por experiência já que já morou 4 anos em Berlim e 4 em Dresden e nunca aconteceu nada com ela. Nossa, será que de repente é pq vc não é negra, nem tem cara de árabe, nem oriental, mas obviamente europeia e passa despercebida aqui? “Claro que não”, responde a ilustre pessoa, “não tem nada a ver com cor de pele, pare de se vitimizar! Em todos os casos que eu presenciei algum tipo de agressão era pq a pessoa vítima da agressão estava se comportando de maneira estranha, e quando vc vai morar num país vc tem que se comportar e fazer tudo exatamente como as pessoas daquele país. Ah, e quanto a crianças, gente, um aviso, fiquem de olho nas crianças, não deixem elas correrem ou falarem alto no trem, que afinal é um lugar público e isso pode incomodar as outras pessoas. E não encare esses torcedores de futebol, eles não gostam.” e partiu daí a explicar como algumas ucranianas também foram vítimas de agressão, mas foi culpa delas mesmas por terem saídos bêbadas sozinhas de uma festa à noite. Eu ainda cortei vários trechos dos comentários dela (eram uns 5 comentários bem compridos) pra não me estressar demais transcrevendo.

Isso abre uma outra discussão importante quando a gente fala de xenofobia. Esse mito de o bom imigrante X o mau imigrante. O bom imigrante seria aquele que veio estudar, ou que veio porque a empresa realocou ele pra cá, o bem qualificado, bem educado, que já sabe a língua, que não tem uma religião diferente nem uma cara diferente. Basicamente é o imigrante que não é tão diferente. O mau imigrante seria o refugiado, o imigrante que veio porque as coisas não estavam boas no seu lugar de origem, o que não tem qualificação, não tem educação, depende de assistência governamental, demora pra aprender a língua, segue uma religião diferente, se veste diferente, resumindo: o diferente demais. Que as pessoas locais separem os imigrantes nesses dois grupos (isso as pessoas que se dizem não-xenófobas, as abertamente preconceituosas detestam todo mundo igual) é meio óbvio e esperado – embora não menos triste ou preconceituoso. Mas o que me deixa triste mesmo é ver os próprios imigrantes (os do primeiro grupo, claro), fazendo essa distinção e a partir dela sendo xenófobos com os do segundo grupo. Crentes de que por fazer parte do primeiro grupo eles estão seguros e protegidos aqui e que ninguém vai mexer com eles. E tomando as “dores” dos xenófobos locais em relação ao imigrante “diferente demais”. Só que, como deixou clara a história do rapaz engenheiro, o grupo de torcedores racistas bêbados não vai antes te perguntar se vc é refugiado ou intercambista antes de te agredir quando não tiver ninguém por perto pra te ajudar. Ninguém vai te perguntar se você é advogado ou desempregado antes de te xingar na rua. O chefe da empresa pra qual você mandou seu currículo também vai estar bem menos preocupado com a sua qualificação do que você imagina antes de descartar o currículo do fulano de nome estranho e cara esquisita (você) em favor do alemão “normal” com nome “pronunciável”. Na rua, você só vai passar despercebido se tiver a sorte de ser branco o suficiente. Então quando você reproduz o discurso xenófobo, seguro de que ele não se aplica a você, pode ter certeza que o que você está usando pra atacar os outros imigrantes é um belo dum bumerangue.

É triste demais perceber quando a comunidade internacional, em vez de se ajudar e se apoiar nesses casos, tão freqüentemente reproduz os discursos dos piores mais racistas e mais xenófobos alemães que você poderia encontrar por aqui. Eis aqui um belo exemplo: Um post no grupo da comunidade de brasileiros avisando que teria uma manifestação neo-nazi (sim, tem dessas em Dresden.) e recomendando ficar longe do local onde ocorreria a manifestação. Esse nobre comentário foi o primeiro a aparecer no post:

???

Nem sei o que comentar a respeito.

Mas pra terminar o post com um tom positivo: Eu acredito que essas pessoas não sejam a maioria, felizmente. Pelo menos dos estrangeiros que eu conheço pessoalmente, não saberia mencionar nenhum que pense assim (Bom, provavelmente eles não gostam de fazer amizade com outros estrangeiros, né…). E é assim aqui em Dresden – e acredito que na maioria das outras cidades alemãs também – tem sempre um grupo de estrangeiros e alemães que se ajudam, se apoiam no que precisar, e tal. Certamente vale a pena entrar em alguns grupos da sua cidade no facebook até achar aquele onde estão as pessoas mais prestativas e amigáveis, certamente tem um. É importante fazer amizade com pessoas locais para facilitar sua integração, mas também é muito importante pro bem estar pessoal ter um grupo de amigos que estão “na mesma situação” que você, com quem você pode desabafar quando as coisas estiverem difíceis, quando der saudades de casa, quando você estiver mega irritado com alguma característica típica daqui, quando você precisar de alguém que saiba exatamente o que você está passando…

Então fica aqui meu pequeno-longo manifesto para todos os estrangeiros na Alemanha: bora se ajudar que tá todo mundo no mesmo barco!


(Publicado em 3 de Maio de 2016)

Pressa, impaciência e pontualidade

Ontem eu fui numa reunião em que algumas coisas aconteceram que eu achei muito emblemáticas de certas características típicas dos alemães: pressa, impaciência, pontualidade. Ou, resumindo: nóia.

A reunião era na prefeitura de uma cidadezinha (vilarejo é a palavra mais apropriada) pra apresentar o projeto da pracinha da cidade que fizemos. Na verdade a ocasião em si era o encontro, sei lá, mensal ou semanal do conselho da cidade, aberto aos cidadãos para discutir as questões diversas que dizem respeito ao local: projetos, verbas, eventos, etc.

A reunião estava marcada para as 19:00, e nós chegamos às 18:05. Isso porque da última vez que tivemos uma reunião em outra cidade, nos atrasamos 15min porque tinha nevado muito na noite anterior. Então dessa vez o chefe resolveu sair com 1:30 de antecedência, embora só precisássemos de meia hora pra chegar lá. Só que quando chegamos, a prefeitura estava fechada, e ninguém lá dentro ou por perto pra abrir a porta pra gente. Então demos uma volta, olhamos o vilarejo, voltamos, ficamos conversando na porta da prefeitura, até que, às 18:50, começaram a chegar as pessoas que participariam da reunião. Entramos na sala onde a reunião ia acontecer e começamos a ligar o computador ao beamer, essas preparações básicas pré-apresentação. Só que o laptop que levamos não estava conectando ao beamer imediatamente. Mas assim. Não conectou imediatamente. Mas o computador estava reconhecendo o Beamer e eu precisava de tipo 10 minutos pra descobrir que botão precisava apertar pra conectar o negócio direito. Não era nada impossível de resolver, eu só precisava sentar no computador 10 minutos pra olhar com calma e descobrir o que estava faltando fazer pra conexão funcionar.

SÓ QUE:

Tenta fazer isso com uns 6 alemães atrás de você super noiados em começar a reunião pontualmente às sete e comentando coisas como “Não, aperta esse botão!” “Aperta aquele” “Tem que reiniciar o computador!” “Não, tem que reiniciar o beamer!” “Ai meu deus, será que não vai funcionar?” “Traz o outro laptop lá, fulano!!” “Não, pera, tenta com o meu, aqui!” “Mas o seu não tem o programa que a gente precisa!” “O fulano trouxe o dele também, ele instalou o programa, pega lá!”. Gente, que stress… eu só precisava de 5 minutos de silêncio e tranquilidade pra descobrir o negócio…

E isso tudo porque a reunião precisava a todo custo começar EXATAMENTE às 19:00. Às 19:00 estavam as pessoas do conselho sentadas na mesa e perguntando pra gente – que estava obviamente ainda tentando resolver o negócio – se podiam começar.

Às 19:01, após colocar o cabo em outro computador e o mesmo conectar-se ao beamer, a reunião começou. Com o presidente do conselho tocando um SININHO oficial de início da reunião do conselho, um sino, mesmo, de verdade. Uma coisa que se você fosse cego ficaria em dúvida se era a reunião do conselho da cidade que estava começando, ou o Papai Noel chegando no seu trenó para entregar os presentes de Natal.

Lembrando que essa situação toda não era uma reunião de uma prefeitura de uma grande cidade, num enorme auditório, com centenas de pessoas assistindo. Era uma prefeitura de um vilarejo, tinha ao todo umas 20 pessoas na sala onde a reunião ia acontecer, incluindo os 4 arquitetos do projeto…

Esse tipo de situação é bem típica. Os alemães são pontuais e extremamente paranóicos quando as coisas não estão andando como planejado e eles acham que estão DOIS MINUTOS E DEZESSETE SEGUNDOS ATRASADOS, MEUDEUSQUEVERGONHA! Nóia com pontualidade vai ser bem visível se vc fizer um curso de qualquer coisa aqui. Não apenas os professores começam a aula exatamente no horário marcado, mas eles fazem questão de terminar a aula EXATAMENTE no minuto marcado pra aula terminar. Semana passada mesmo minha professora de alemão se desculpou por terminar a aula TRÊS MINUTOS antes do horário. TRÊS MINUTOS. Era pra terminar às 20:45, e ela terminou às 20:42. “Bom, é isso, tá um pouco mais cedo, mas acho que tudo bem eu terminar agora, né?”. Gente… E era a mesma coisa na faculdade. Os professores chegavam, preparavam lá no powerpoint no computador, e ficavam de pé olhando pro relógio no computador esperando ele marcar exatamente o horário de início da aula, pra só então começar a falar. Mesmo que já tivesse todo mundo na sala sentado esperando. E se terminasse 2 minutos mais cedo, eles pediam desculpas… como se a gente fosse estar super noiado pensando “Não, mas e os meus últimos 2 minutos de aula, gente! Eu paguei por 3h de aula, não 2h58!!!!”

E a pressa característica também se traduz em outras atitudes um tanto irritantes. Como por exemplo quando você está andando na rua com um alemão. Uma coisa que os alemães super gostam de fazer é sair pra dar uma volta. Assim, uma volta sem nenhum objetivo específico, só pra andar um pouco, tomar um ar fresco, e tal. Até aí, legal. Só que eles não saem pra andar calmamente apreciando a paisagem. Eles andam como se tivessem atrasados pra chegar em algum lugar… mesmo que não tenha nenhum destino específico nem nenhuma pressão de horário. Já tô num relacionamento de 6 anos e até hoje eu ainda tenho que puxar meu namorado quando a gente tá andando na rua, porque além de CORRER, ele tem pernas tipo gigantes, então se deixar em 30 segundos ele já está 5 passos à frente e nem se toca…

E a impaciência vai ficar óbvia se você precisar pagar qualquer coisa e tiver que procurar dinheiro na carteira. Recomendo estar sempre com o dinheiro preparado e contado, que os alemães vão te fuzilar com olhar de laser se você ficar contando moedinha por moedinha com eles ali esperando você pagar.

Os alemães certamente têm vários outros hábitos que são bem legais e exemplares. Mas às vezes tudo o que eu queria era poder chacoalhar a Alemanha inteira gritando “MEEEEU, RELAAAAXAAAA!”…


(Publicado em 21 de Abril de 2016)