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Algumas das minhas palavras preferidas

Esse não é assim o blog mais visitado da história da internet, mas eu sei que tem alguns poucos leitores regulares. Pra esses: perdoem o sumiço! Não despareci, nem morri, só que às vezes falta o tempo de sentar calmamente para criar um post, mesmo que o assunto não falte.

Mas antes que a barra de rolagem do blog enferruje, eis aqui um post novo!

Eu escrevo poucos posts que sejam mais especificamente sobre aspectos da língua alemã, porque afinal de contas esse é um blog sobre como são as coisas na Alemanha, e não um blog para aprender alemão.

Mas volta e meia abro uma exceção. Tipo quando dá vontade.

E aí deu vontade de escrever sobre algumas das minhas palavras alemãs preferidas.

Posts na temática língua escritos no passado incluem um sobre interjeições alemãs, um outro sobre dialetos alemães. E faz um tempo que eu às vezes uso ou ouço uma palavra em alemão e penso “haha, adoro essa palavra, qualquer hora preciso escrever um post sobre ela”. Fora que, como qualquer pessoa que já aprendeu qualquer língua a um certo nível de fluência sabe, tem certas palavras que não tem tradução exata em outras línguas, e aí quando vc está usando a língua A, sente falta da palavra B, e vice-versa. Então essa aqui é uma lista de algumas palavras alemãs que eu sinto falta quando converso em português (tirando as específicas da profissão que vc nunca mais lembra na própria língua se trabalha em outra!). Provavelmente amanhã eu vou lembrar várias outras palavras que eu não coloquei aqui, mas aí se for um caso escrevo uma continuação um dia desses.

Em negrito, a sílaba tônica:

Supi
Essa fofa palavra nada mais é que o diminutivo da palavra super, que significa – pasmem! – super. A diferença é que em alemão a palavra super é freqüentemente usada sozinha. Em português, “super” é um prefixo com valor de advérbio, e nunca vem sozinha, mas sempre acompanhada do adjetivo que é intensificado pelo prefixo super (lógico que eu dei um rápida pesquisada antes dessa breve aula de gramática, rsrs). Em português vc diria: ‘isso é superlegal’, ‘supergostoso esse sorvete’, ‘supermercado’, ‘supermãe’, etc. Em alemão, super é usado como adjetivo, sozinha, tipo:
“- Tem sorvete na geladeira, viu?”
 – Super!!”

E aí de vez em quando usam o diminutivo supi.
“Já entreguei aquele papel, viu?”
Supi, brigado!”
Se você usar supi em vez de super, vc tira um pouco a intensidade do super. Tipo “legal” e “legalzinho”. Super é mais uma resposta tipo “Oba!” ou “Supimpa!” enquanto que supi é mais um “ok, legal.” “blza, valeu.” 

Tschüsi
Seguindo a linha das palavras diminuidas colocado um i no final, Tschüsi é a versão diminutiva de Tschüss que é a versão alemã de tchau. Tschüsi é basicamente “tchauzinho”. Se eu falo “Supi” ou “Tschüsi“, meu marido comenta que eu já tô bem saxônica, então ele (que é do Oeste) relaciona esses diminutivos com essa região da Alemanha. Mas não acho que sejam exclusivos daqui. 

Übelst
übel
significa enjoado, doente ou mal. 
Nimm es mir nicht übel” é uma expressão útil que traduz bem diretamente pra “não me leve a mal”. Übelkeit significa enjôo. 
Sabendo isso, você vai ficar com muitos pontos de interrogação na cabeça quando ouvir frases como:
Das ist aber übelst geil!
Sie ist ja übelst schön!

Eis que em linguagem coloquial, übelst (bem frequente na linguagem de pessoas mais jovens) é simplesmente um advérbio de intensidade. Que poderia ser traduzido, por exemplo, para super.
Então os dois exemplos acima traduzem para 
“Mas isso é superlegal!”
“Ela é mesmo muuito bonita!”
Segundo meu marido, Übelst tb é regional, então talvez em outras partes da Alemanha vc não vá ouvir. Aqui na Saxônia eu ouço direto.

Dingsbums
“O coiso”, ou ainda “o coiso coisado”, ou mesmo “o treco” ou “troço” (Ding significa coisa). Dingsbums é a minha palavra preferida nessa língua dos demônios pq vc pode usá-la em qualquer situação em que você não lembre (ou não saiba) o substantivo que está querendo usar, e se o contexto ajudar o seu interloculor possivelmente vai prestativamente providenciar a palavra faltante. Obviamente é uma palavra coloquial. Mas altamente útil.

Convenientemente, você pode usar Dingsbums até para se referir a pessoas cujo nome você não lembra. (Bastante útil num país com pessoas com sobrenomes como Lautenschläger, Schwerdtfeger ou Hutschenreuther).  Então por exemplo, digamos que você está no trabalho e seu chefe pergunta:
Haben Sie schon den Erläuterungstext fertig?
(Você já terminou o texto explicativo?)
Ja, ist fertig und abgeschickt.
(Sim, já terminei e enviei)
An wem? An Frau Müller?
(Pra quem? Para a senhora Müller?)
An Frau Müller und an Herrn… äh… Herrn… Dingsbums.
(Para a Sra. Müller e para o… er… pro coiso.)
Sie meinen den Herrn Kunibert Willibald Pfützenreuther-Adelwandsteiner?
(Você quer dizer o Sr. Kunibert Willibald Pfützenreuther-Adelwandsteiner?
Genau. Herrn Pfü… ähh, ja, der.
(Isso, pro Sr. Pfü… er… é, esse aí.)

(Só evite fazer isso na frente da pessoa cujo nome você esqueceu, acho que dispensa o aviso.)

Pipapo
Outra maravilha da língua alemã coloquial, o Pipapo (se pronuncia Pipapô) significa, basicamente, “etcetc” ou “os coisos todos”. 
Por exemplo:
Ich habe schon Fahrkarten besorgt und das ganze Pipapo für die Reise erledigt
(Já comprei as passagens e resolvi os coisos todos da viagem)

Mitbringsel
Mitbringsel é uma coisinha que você traz pra alguém, um presentinho, uma lembrancinha, um souvenir de uma viagem. O que eu gosto da palavra não é o significado, mas como ela é montada. Mitbringen é um verbo que significa “trazer com vc”. 
Kannst du morgen das Buch mitbringen, worüber du gesprochen hast?
(Você pode trazer amanhã com vc aquele livro que vc falou?) 
Sel é um sufixo diminutivo. Então Das Mitbringsel é literalmente “o coisinho de trazer consigo”.   

Bummsinchen
Muitos alemães não conhecem essa palavra, mas ela existe. Bummsinchen é aquele coisitcho de plástico ou de borracha que você cola na parede onde a maçaneta da porta bate quando aberta, pra não danificar a pintura/revestimento/parede. Batedor? Deve ter um nome específico pra isso em português que eu não sei assim como os alemães não sabem Bummsinchen. É uma palavra que mais quem é arquiteto ou da área que vai saber. Mas chama assim. E está na minha lista pq é uma palavra que soa ridícula e que todo mundo acha engraçada. Se você perguntar pra um alemão como que chama esse coisinho (vc pode aproveitar aqui para usar a palavra que vc acabou de aprender lá em cima, Dingsbums) de colar na parede pra maçaneta não bater na parede, e ele não souber, ele certamente vai achar bem engraçado quando vc ensinar pra ele que esse Dingsbums chama Bummsinchen. (Um nome mais neutro seria Türstopper, literalmente “Parador de porta”).

A origem da palavra Bummsinchen também é ótima. Bumm é o barulho que a porta faz quando bate na parede. Então Bummsinchen é o “negocinho de fazer bum”.

FALA se Alemão não é uma língua supimpa?? Eu diria que alemão é super!

Spelunke
Quer adivinhar o que significa Spelunke? De todas as palavras que eu conheço em português e ousaria tentar usar numa frase em alemão na esperança de que o meu interlocutor alemão entendesse do que eu estou falando, ESPELUNCA jamais estaria nessa lista. Mas eis que a tradução de espelunca é… Spelunke. 
A primeira (e pra ser sincera, a única) vez que eu ouvi a palavra Spelunke ser usada em alemão eu quase comecei a rir pq jamais imaginar que logo espelunca seria igual nas duas línguas.

Bom, pra ser precisa, há uma leve diferença. Quando eu digo espelunca em português normalmente eu tô me referindo a uma casa caindo aos pedaços. Spelunke é mais um bar toscão num porão muquifo frequentado por fulanos mal-encarados cheirando a álcool e cigarro. Ou uma casa de jogo. Esses dois significados são, na verdade, tb parte dos significados oficiais de “espelunca”, como acabei de descobrir aqui. 

Stehrümchen
Minha segunda palavra preferida em alemão (a primeira é a próxima), Stehrümchen é um substantivo usado para se referir a bobeiras inúteis que não servem pra nada e só ficam de bobeira ocupando espaço na estante. Tipo o presente de Natal do amigo secreto da firma. Aquela miniatura da Torre Eiffel que sua tia te trouxe de Paris. O cachorro  de plástico com a cabeça que fica balançando que você põe no carro. Uma bola de vidro que você chacoalha pra fazer “nevar” dentro. Um enfeitinho inútil que só ocupa espaço. 

O legal da palavra é a construção da mesma. Rumstehen significa “Stand around” (não tô achando uma boa tradução em português), ficar de bobeira. Chen é um sufixo diminutivo (A essa altura você deve estar se perguntando quantos sufixos diminutivos existem em alemão! Chen, Sel, I. Mas acho que é só, mesmo.). Então Stehrümchen traduz para “coisinha que só fica de bobeira”. O legal do alemão é que dá pra juntar as coisas e criar esses substantivos com significados óbvios.

Feierabend
E pra terminar essa lista, minha palavra alemã preferida de todas as palavras não só alemãs porém de qualquer língua. A melhor palavra já inventada. Feierabend.
Se você sabe um pouco de alemão, talvez saiba que Feier significa festa, e que Abend significa noite (não noite tipo a hora que vc dorme, mas noite tipo as horas entre o fim da tarde e a hora de ir dormir. Em português não tem uma palavra específica pra esse horário, mas é o Evening do inglês.). Assim sendo, se você ouvir a palavra Feierabend sem saber o que ela significa, vai entender “noite de festa”. O que vai gerar certa confusão na sua cabeça quando no fim do expediente na sua primeira semana trabalhando na Alemanha, seu chefe desligar o computador e comentar com você:
Jetzt machen wir Feierabend, oder?
(Agora a gente faz uma noite de festa, né?)
E vc vai ficar:
meme
“Q? Meu chefe tá me convidando pruma festa? Sugerindo algo indecente? Q q tá rolando?”
Calma, muita calma nessa hora. Não presuma assédio. 
Na verdade, seu chefe está apenas sugerindo que você pare de trabalhar e vá pra casa que já tá tarde. 
Feierabend significa, simplesmente, noite após o expediente. Qualquer noite de um dia em que vc trabalhou é uma Feierabend. Feierabend é mais que uma palavra, é um conceito. A “festa” no caso é festejar que terminou o expediente. A noite vc festeja o término do expediente, vc joga os documentos pro alto e vai pra casa aproveitar a vida! 
O brilhante dessa palavra, é que não é uma palavra utilizada em nenhum contexto especial. Ela é uma palavra totalmente normal, utilizada pra se referir a toda e qualquer noite pós-expediente. Você poderia, teoricamente, todo dia se despedir dos seus colegas e chefe no trabalho dizendo
Also, ich mach jetzt Feierabend, bis morgen!
e ninguém acharia estranho!

Essa palavra define a atitude dos alemães em relação ao trabalho. Eles são eficientes, precisos, produtivos, trabalhadores. Mas só no horário do expediente. Deu 17h: Tschüsi!

E por isso que Feierabend é minha palavra alemã preferida. Porque todo dia é dia de festejar o fim do expediente! XD

Pra terminar, uns memes com Feierabend:


(Publicado em 23 de Outubro de 2019)

Eleições na Alemanha

No domingo ocorreram aqui as eleições para o parlamento europeu.

Eu já escrevi alguns posts diversos sobre eleições por aqui, mas sempre é um assunto bom já que as coisas mudam e tem tantas complexidades que sempre tem tópicos relacionados a serem discutidos. E essa foi a primeira vez que eu votei aqui sendo alemã.

E aqui em Dresden, no domingo foram eleições não só do parlamento europeu, mas também da (equivalente à) câmara municipal, e do conselho distrital, que é uma coisa nova aqui em Dresden. Então achei que valia a pena fazer um post com o overview de tudo o que se vota por aqui.

MAS acontece que é diferente em cada cidade e estado. Depende de como cada estado ou cidade organiza as suas subdivisões, e mesmo o tempo de cargo difere de um estado ou cidade para outro/a. Então esse post é especificamente sobre o que se vota se você é um cidadão alemão residente em Dresden. Algumas dessas eleições você vota no resto da Alemanha também, e outras podem ser um pouco diferentes se você mora em outro lugar da Alemanha.

Aqui são 6 eleições diferentes.

Uma observação antes de começar o falatório: após terminar esse post eu percebi que algumas partes dele são bem detalhadas e podem ser complicadas se você não se interessa pelos pormenores de como funciona a eleição. Esses trechos eu deixei em azul escuro, aí qualquer coisa se você achar que tá chato, pula pro próximo parágrafo em preto e pronto! 😉

Primeiro, algumas informações gerais do funcionamento da votação:

Como no Brasil, as eleições aqui acontecem sempre aos domingos. Os locais de votação ficam abertos das 8:00 às 18:00. Não é obrigatório votar, só vota quem quiser. A votação ocorre em cédulas de papel, que são normalmente uns negócios gigantescos. Por exemplo, a das eleições do parlamento europeu era assim:

stimmzettel_parteien_europawahl_2019

A largura é de um A4.

E o negócio todo funciona da seguinte maneira: Você não precisa se inscrever em lugar nenhum, escolher lugar de votação, nada disso. Você está automaticamente inscrito como eleitor na cidade em que tiver sua residência registrada. O local de votação também é definido automaticamente, o mais próximo possível do seu endereço.

Uns dois meses antes das eleições, você recebe uma carta da prefeitura da sua cidade te avisando das eleições que vão ocorrer. A carta tem essa cara aqui:

Aparecem as informações sobre o que você vai votar, quando é a votação, o endereço do seu local de votação, a seção eleitoral, e o seu número nela. No verso, vem um formulário que você preenche e envia de volta caso queira votar por correio. Como eu já expliquei num post só sobre isso, aqui na Alemanha é possível enviar o seu voto por correio, caso você não vá estar na sua cidade no dia da eleição. Aliás, o motivo não importa, você pode votar por correio mesmo que vá estar em casa no dia, só pq você tem preguiça de levantar do sofá num domingo.

Mas se você quiser votar normal lá no dia, ao receber essa carta você não precisa fazer nada além de guardá-la cuidadosamente e esperar o dia das eleições.

Quando chegar o dia, é dessa carta que você precisa pra ir lá votar. Como no Brasil, a votação ocorre em escolas. Você vai lá no endereço da sua carta, acha a sala da sua seção eleitoral e espera a sua vez. Normalmente é bem tranquilo, mas dessa vez esperamos 1 hora na fila! Não sei pq estava demorando tanto no domingo, mas a taxa de participação dessa vez foi um tanto mais alta que nos últimos anos, talvez por isso.

Chegando a sua vez, você passa numa primeira mesa onde eles olham a sua carta, fazem um xizinho no seu nome numa lista e te dão as cédulas. Importante uma observação: você não necessariamente pode votar em todas as eleições que estão ocorrendo ao mesmo tempo. Por exemplo: se se está votando para o parlamento europeu e para o parlamento estadual do estado em que você mora, e você for um cidadão europeu mas não alemão, você vai poder votar apenas no parlamento europeu. Na sua carta aparece isso, e também nessa lista na primeira mesa, em qual caso você receberia apenas uma das cédulas em questão, a para o parlamento europeu.

Então você pega as suas cédulas e espera uma das cabines de votação ficar livre. Você senta lá, abre suas cédulas, vota direitinho com um x no local desejado, fecha sua cédula, e vai para a segunda mesa, onde você entrega sua carta, eles conferem de novo e ficam com a mesma, e abrem a urna pra você depositar sua cédula. Uma urna pra cada cédula (quando é mais de uma, elas são codificadas por cor, pra não confundir).

Nem sempre é só um xizinho a ser feito, às vezes são mais. Depende de como funciona cada eleição: às vezes você vota prum partido, às vezes você vota diretamente em alguém, mas pode votar em até 3 pessoas, as vezes você vota prum partido e pruma pessoa separadamente… tem várias variações que eu vou explicar direitinho logo menos.

Na carta diz também que você tem que levar seu documento de identidade, mas acho que eles só olham se algo estiver estranho com a sua carta, sei lá. Normalmente nem precisa mostrar.

Então vamos falar das eleições diferentes uma a uma.

Vou ordenar de cima pra baixo, ou seja, das mais gerais para as mais locais. Pra cada uma vou colocar, como primeira informação, a duração do cargo, a data da eleição mais recente (ou da próxima, se for mais perto que a mais recente) e quantos votos/para o quê.

1 – Europawahlen – Eleições para o Parlamento Europeu
A cada 5 anos | 2019 | 1 voto, para um partido

O parlamento europeu fica em Strasburgo, na França, e é constituido por 751 assentos, distribuídos por país proporcionalmente à população do mesmo. A Alemanha, sendo o país mais populoso da UE, tem direito a 96 assentos, seguido em quantidade da França (74), Reino Unido (73), Itália (73) e Espanha (52). Os países com a menor representação são Malta (6), Luxemburgo (6), Chipre (6), Estônia (6) e Letônia (8). A proporção de assentos por população não é linear. Os países com populações maiores tem menos representantes por pessoa do que países com populações menores. Pegando os dois extremos pra comparar: A Alemanha (com 82 mi de habitantes) tem 1 representante pra cada 838.799 pessoas. Malta (com 400 e pouco mil habitantes) tem 1 representante pra cada 70.227 pessoas. Esse ajuste é necessário porque se fosse uma proporção linear, seriam 200 parlamentares alemães pra um parlamentar maltês. 

Nas eleições vota-se para um partido, de uma lista de partidos registrados no seu país (ou no país que você reside, se você for um cidadão europeu morando em outro país europeu que não o seu de origem). Então cada país tem partidos diferentes, e os assentos no parlamento são ocupados proporcionalmente de acordo com a proporção de votos em cada país para cada partido. Ou seja, no parlamento europeu há dezeeenas e dezenas de partidos diferentes. Eles criam grupos e alianças de acordo com afinidades políticas, e claro, há sempre partidos equivalentes nos diferentes países. Todo país tem um partido de centra-direita, um de centro-esquerda, um partido verde, um partido liberal, etcetc. E esses se juntam no parlamento europeu.

Também interessante é falar sobre a porcentagem de participação na eleição. Aqui na Alemanha (e na maioria dos países europeus), o voto é facultativo, então a porcentagem de eleitores que participam em cada eleição é sempre um interessante tema para discussão e observação. Esse ano, a participação aumentou bastante tanto aqui na Alemanha quanto em outros países europeus. 50,94% dos eleitores europeus compareceram às urnas, em comparação com 40,62% nas últimas eleições (2014). Na Alemanha, a porcentagem esse ano foi de 61% (em comparação com 48,10% em 2014). Os países com a maior taxa de participação nas eleições européias em 2019 foram: Bélgica (88%), Luxemburgo (84%), Malta (73%), Dinamarca (66%), Espanha (64%) e Alemanha (61%). (Mas vale aqui a observação de que na Bélgica e em Luxemburgo a votação é obrigatória, daí a alta taxa de participação.) Os países da Europa Oriental costumam apresentar taxas bem baixas de participação das eleições do parlamento europeu. Esse ano, os países com a menor taxa de participação foram: Eslováquia (23%), Eslovênia (28%), República Tcheca (29%), Croácia (30%) e Bulgária (31%).

Sobre os resultados das eleições de 2019, no geral viu-se pela Europa tendências similares: os partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda perderam eleitores, e quem saiu ganhando foram os partidos verdes e partidos populistas de direita. Na Alemanha, o partido verde foi o partido mais votado, indicando que a preocupação com o meio ambiente é uma prioridade entre os eleitores hoje.

2 – Bundestagswahlen – Eleições para o Parlamento Alemão
A cada 4 anos | 2017 | 2 votos, um para um partido, um para um representante local

Sobre o parlamento alemão eu falei bastante nesse post aqui, mas é um post de 2013 que já está bem desatualizado, especialmente a parte sobre os partidos. Nas últimas eleições, em 2017, eu queria ter escrito um post novo sobre o assunto mas estava viajando na ocasião e escrever sobre as eleições três semanas depois da mesma não tem mais graça. Só em 2021, agora.

Mas os básicos a gente fala aqui. O parlamento alemão tem 598 assentos atualmente, mas esse número varia um pouco em cada eleição. Na cédula, você dá dois votos: um para uma pessoa específica representante do seu círculo eleitoral. São 229 círculos eleitorais, então nesse primeiro voto são escolhidos 229 parlamentares,  o mais votado de cada região. O seu segundo voto vai para um partido. A proporção dos segundos votos é o que define a proporção de parlamentares de cada partido no parlamento, incluindo aqueles que foram eleitos diretamente. Então para exemplificar de maneira simples, vamos imaginar que o Parlamento tem 100 assentos, 50 são para os representantes dos círculos eleitorais e há 4 partidos com candidatos. Se o resultado das eleições foram:

Partido A: 42% dos segundos votos e 23 parlamentares eleitos diretamente
Partido B: 35% dos segundos votos e 14 parlamentares eleitos diretamente.
Partido C: 22% dos segundos votos e 12 parlamentares eleitos diretamente.
Partido D: 1% dos votos e 1 parlamentar eleito diretamente.

Para entrar no parlamento, seu partido tem que ter obtido 5% ou mais dos votos. Então os 100 assentos serão divididos entre os Partidos A, B e C. MAS todos os parlamentares eleitos diretamente entram, então o parlamentar do partido D que foi eleito diretamente entra também. Então os 99 assentos restantes são divididos entre os partidos A, B e C. Pela proporção dos votos, o Partido A recebe 42 assentos, o Partido B, 35 e o Partido C, 22. Dos 42 assentos do Partido A, 23 serão preenchidos pelos parlamentares eleitos diretamente, e os outros 19 assentos serão preenchidos por parlamentares escolhidos pelo partido (cada partido publica antes da eleição uma lista de pessoas que preencherão os assentos que o partido conseguir). O Partido B preenche 14 dos seus 35 assentos com parlamentares eleitos diretamente, e os outros 21 com os da lista. E o Partido B tem 12 parlamentares eleitos diretamente e 10 escolhidos pela lista. E o Partido D ganha um assento não pelo 1% dos votos, mas pelo parlamentar eleito diretamente. Se nenhum tivesse sido eleito diretamente, eles não entrariam no parlamento. E se você está acompanhando a linha de raciocínio, você talvez esteja agora se perguntando: Mas como faz se a quantidade de parlamentares de um partido eleitos diretamente exceder a quantidade de assentos que o partido tem direito pela proporção? Pois é, por isso que o número de assentos no parlamento varia a cada eleição. Pq se um partido ganhar mais assentos por eleição direita a que ele teria direito pela proporção, os outros partidos têm que ganhar mais assentos também para corrigir a diferença e respeitar a proporção.

Complicado? Um pouco.

E aí pra governar você precisa de uma maioria. Então partido com maior quantidade de votos, nesse caso o A, tem que formar uma aliança com um ou mais partidos de maneira a conseguir mais de 50% do parlamento do seu lado. Se o partido A e o Partido C têm linhas similares, eles poderiam formar uma aliança e assim controlar 64% do parlamento. Aí o chanceler é escolhido pelo Partido A, e os ministros serão políticos dos Partidos A e C. A princípio, se o Partido A não conseguir formar aliança nem com o B nem com o C, esses podem também formar uma aliança entre si e assim obter uma maioria de 57%. Aí o governo será formado pelos partidos B e C embora o A tenha tido mais votos. Mas isso é raro, normalmente o partido com mais votos consegue formar uma aliança pra obter maioria.

3 –  Landtagswahlen – Eleições para o Parlamento estadual (Saxônia)
A cada 5 anos | 2019 | 2 votos, um para um partido, um para um representante local

Funciona exatamente da mesma maneira que o parlamento federal. O governador é então escolhido pelo parlamento, sendo (normalmente) do partido com a maior quantidade de votos.

4 – Oberbürgermeisterwahlen – Eleições para prefeito (de Dresden)
A cada 7 anos | 2022 | 1 voto direto, dois turnos

O único cargo executivo individual eleito diretamente aqui é o de prefeito (Não sei se é assim em todas as cidades, pode ser que não). Os outros (governador, chanceller) são eleitos pelos parlamentares daquele âmbito.

Como o normal nesse tipo de eleição (onde é eleito uma pessoa só), como o primeiro turno não costuma dar maioria total para um candidato, há um segundo turno. Mas funciona diferente de como conhecemos no Brasil. Basicamente, no segundo turno podem entrar os candidatos que quiserem, não só os dois com a maior quantidade de votos. E aí no segundo turno é eleito aquele com a maior quantidade de votos, mesmo que não seja mais de 50%. Na última eleição para prefeito, em 2015, eu escrevi um post explicando direitinho como funciona o segundo turno.

5 – Kommunalwahlen – Stadtratswahlen – Eleições para o conselho municipal (de Dresden)
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos para um, dois ou três representantes do seu bairro

Aqui tem uma diferença importante de se apontar. Como a gente aprende já na escola, o poder nas democracias é dividido em três, legislativo, executivo e judiciário, sendo executivo aquele exercido por presidentes, governadores e prefeitos, e o legislativo exercido pelos parlamentos, congressos, e câmaras.

Então se falamos de um conselho municipal, um grupo de pessoas eleitas para representar os interesses dos cidadão de um determinado município, no Brasil estamos falando do poder legislativo, a câmara dos vereadores.

Mas aqui o conselho municipal é na verdade poder executivo. Os representantes eleitos para o conselho municipal decidem, juntamente com o prefeito, as diversas medidas e ações específicas que serão tomadas na cidade: infraestrutura, verde, habitação, etc. O cargo de membro do conselho municipal não é uma ocupação de período integral: o conselho se reúne apenas uma vez a cada três semanas. Então as pessoas eleitas para esse cargo continuam nos seus respectivos empregos.

Esse conselho é eleito a cada 5 anos. Os candidatos de cada partido são específicos da sua zona eleitoral, então eu só posso votar nos candidatos que são do meu bairro. Cada partido tem uma lista de vários candidatos pra cada bairro, que são ou não eleitos de acordo não apenas com a quantidade total de votos diretos mas também de acordo com a proporção dos votos pra cada partido. Como nos parlamentos, a quantidade de assentos pra cada partido é definida de acordo com a proporção de votos totais para candidatos daquele partido, e o candidatos específicos são então escolhidos obedecendo a quantidade de votos, mas também a quantidade de assentos e a quantidade de pessoas por zona eleitoral. Complicado? Bastante. Vale a pena explicar com detalhes e exemplos? Acho que não, confia em mim que tem um sentido lógico no negócio e pronto.

Mas o mais interessante de tudo é: cada pessoa tem três votos. Três? Três. Então na cédula, cada candidato aparece com 3 circulinhos do lado onde vc pode fazer o seu xizinho. Vc pode fazer um total de 3 xizes, que podem ser todos para o mesmo candidato, ou então um pra cada candidato de sua preferência. Assim você pode, inclusive, dividir seu voto entre três partidos de sua preferência. Ou dar todos pra candidatos do mesmo partido. Ou dar dois pra um candidato e um pra outro. Como você quiser.

Eis aqui uma amostra da cédula de uma das zonas eleitorais para a eleição do conselho de Dresden:

SRW

6 – Kommunalwahlen – Stadtbezirksbeiratswahlen – Eleições para o conselho distrital (do bairro)
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos, para um, dois ou três representantes

Juntamente com o conselho municipal, vota-se aqui em Dresden para o conselho distrital, quer dizer, um conselho do seu bairro. É mais ou menos a mesma coisa do conselho municipal, um conselho que faz decisões executivas para o bairro, em conjunto com a prefeitura. Como na eleição do conselho municipal, você tem três votos que você pode distribuir entre um, dois ou três candidatos. Uma pessoa pode ser candidata e ser eleita para ambos os conselhos, inclusive, já que como eu mencionei, essa não é uma ocupação de período integral, mas algo que as pessoas eleitas fazem ao mesmo tempo que continuam seus respectivos outros empregos e ocupações.

7 – Integrations- und Ausländerbeiratswahl – Eleições para o conselho municipal de cidadãos estrangeiros
A cada 5 anos | 2019 | 3 votos, para um, dois ou três representantes

O sétimo cargo preenchido por eleição por aqui é o conselho municipal de cidadãos estrangeiros. Nessas eleições só votam pessoas residentes em Dresden que não sejam cidadãos alemães. Esse conselho é a oportunidade para o estrangeiros que aqui moram também terem alguma representação no poder. Podem se candidatar cidadãos estrangeiros ou alemães naturalizados, e os eleitos se reúnem regularmente com o prefeito para discutir assuntos que dizem respeito à comunidade estrangeira de Dresden.

Então morando em Dresden você vota em 6 eleições – se for alemão – ou em uma, se não for.


UFA! Acabou! Próximas eleições são em Setembro (aqui na Saxônia) pro parlamento estadual e pra esse conselho municipal de estrangeiros. É isso!


(Publicado em 29 de Maio de 2019)

O Meio-Ambiente em obras alemãs

Recentemente uma comissão do senado, no Brasil, pré-aprovou uma lei que basicamente torna o licenciamento ambiental para obras descenessário. Isso poucos dias depois do aniversário de 6 meses do desastre de Mariana, o maior desastre ambiental da história do país, resultado da negligência e descaso de grandes empresas com o meio ambiente.

Nesse triste contexto, achei que valia a pena fazer alguns posts sobre o assunto meio ambiente, e como a Alemanha lida com isso. Planejei três posts: um sobre como se lida com o impacto ambiental em obras aqui, o segundo sobre rios e o terceiro sobre árvores na cidade. São três assuntos com que, como arquiteta paisagista, eu lido diariamente, então acho que dá pra falar alguma coisa a respeito.

Esse primeiro post, então, é sobre como o meio-ambiente influencia o andamento de obras na Alemanha. Nele, vou contar quatro histórias. Eu tive a ideia desse post durante essa semana quando meu namorado – também arquiteto – me mandou umas fotos de um falcão. A história é essa:

Estava o humilde arquiteto tranquilamente em seu escritório projetando uns projetos quando recebeu uma ligação de uma pessoa do departamento de meio ambiente da prefeitura. O telefonema era a respeito de uma família de falcões da espécie Falco tinnunculus, uma espécie de falcão relativamente comum na Europa. Eis que a família de falcões em questão está alojada no telhado do prédio em que o dito arquiteto está pra começar uma obra de reforma do último andar e do térreo. Segundo a pessoa da prefeitura, a espécie é protegida (não ameaçada de extinção, somente protegida por ser uma ave silvestre) e portanto enquanto a família de falcões permanecer alojada no telhado a obra não pode ser continuada porque é contra a lei fazer qualquer coisa que atrapalhe o casal de falcão em seu trabalho de gerar e criar novos falcõezinhos. Para complementar o aviso, a prefeitura ainda enviou por email umas fotos do casal em questão:

Turmfalke +

Falco tinnunculus – fêmea

Turmfalke >

Falco tinnunculus – macho

A reação do arquiteto? Encaminhar imediatamente o email pra namorada (no caso eu) com o comentário “olha só o que encontraram no nosso prédio! É aquele falcão que estávamos procurando pra fotografar!! Vou levar a câmera lá amanhã e ver se consigo vê-los!”. (adoramos bichos e já faz um tempo que estamos passeando por parques quando o tempo está bom para “caçar” (com câmeras fotográficas) as diferentes espécies de aves locais)

Mas falando sério: a fauna silvestre é de fato bem protegida por aqui, e a simples presença de um ninho de alguma ave silvestre ou algum outro animal é o suficiente pra parar temporariamente uma obra ou impedir uma árvore de ser cortada. Por isso que com árvores, por exemplo, os responsáveis pelos projetos que envolvem algum corte de árvore têm que sempre calcular pra tirar as árvores durante o inverno, que se chegar na primavera sem cortar, a chance de algum bichinho se apropriar dos galhos e buracos no tronco pra se reproduzir e proteger os filhotes é bem alta. E aí não pode mais nem encostar na árvore. A proibição em relação à obra nesse prédio por causa dos falcões não é apenas uma norma que você recebe uma multinha boba se desobedecer, mas é considerado de fato um crime!

Como o departamento de meio ambiente da prefeitura sabe tão bem onde moram todas as famílias de falcões da cidade já é uma outra questão que eu não saberia responder. Imagino que os falcões em questão não tenham suficiente conhecimento das leis alemãs pra saber que poderiam chamar a polícia, então suponho que a prefeitura monitore bem de perto as populações de fauna silvestre na cidade.

Histórias de como a fauna pode influenciar obras diversas são várias. Em um outro projeto que o meu namorado conduziu recentemente, uma reforma de uma escola primária, o departamento de meio ambiente da cidade também esteve presente checando a presença de aves locais. Eles observaram as aves voando nas redondezas e se elas tinham habitats nos telhados da escola, se existiam vestígios de determinadas espécies (ossos, dejetos, etc) e até usaram um instrumento não sei qual para escutar sons de morcegos (se eles estiverem presentes). Nesse caso a presença das aves não inviabilizou ou atrasou a obra – uma vez que elas não estavam em período reprodutivo, que é o fator limitante – mas fez com que fosse necessário instalar, em algumas das paredes externas, caixas de reproduções adequadas para determinadas espécies de pássaros.

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Recentemente no escritório em que trabalho fizemos um projeto de análise de impacto ambiental de uma obra de turbinas eólicas. O vilarejo ao lado do qual as 24 turbinas seriam implantadas nos contratou para verificar se todos os requisitos em relação a meio ambiente tinham sido respeitados. Obviamente a empresa responsável pelo projeto também tem que fazer essa análise, mas não é incomum que grandes empresas tentem dar uma disfarçada aqui e ali pra passar um projeto lucrativo. E só porque a empresa é de turbinas eólicas, não significa que eles estejam tão super preocupados com o meio ambiente quanto dão a entender pros seus clientes. Verificamos vários fatores, não apenas ambientais, mas também sociais. Os principais argumentos que levantamos que podem realmente atrasar, parar, ou pelo menos forçar a empresa a alterar o projeto foram dois: o primeiro é que parte da área onde seriam construídas as turbinas está dentro de um raio de tantos metros de um castelo protegido como monumento histórico. De acordo com a lei, dentro desse raio não podem ser realizadas obras de determinado porte, de maneira que o projeto em questão não poderia avançar para dentro desse raio. O outro argumento importante era que a área em questão era uma conexão importante para populações de morcegos da região, além de algumas aves. Como esses animais podem ferir e prejudicar esses animais, o projeto talvez tenha que ser alterado ou movido para outro local.

Morcegos, aliás, também criaram problemas para a obra de uma ponte nova recentemente construída aqui em Dresden. Muitos não queriam que a ponte fosse construída, especialmente pelo impacto visual que ela geraria para a paisagem da cidade. O projeto e construção da ponte gerou várias polêmicas a serem decididas pela justiça. Uma das questões foram os tais morcegos da espécie Rhinolophus hipposideros. A obra não foi cancelada pela presença dos morcegos, mas foi alterada por eles: eles tiveram que colocar um determinado tipo especial de iluminação que não atrai insetos, para consequentemente atrair menos morcegos na ponte (que são predadores de insetos), e durante a noite entre abril e outubro a velocidade máxima para os carros que atravessam a ponte é de 30km/h  – para evitar colisões com os tais morcegos. E, finalmente, uma série de árvores e arbustos teve que ser plantada nas margens do rio próximos à ponte pra “redirecionar” os morcegos a atravessarem a ponte por baixo da mesma, em vez de por cima. E toda essa discussão sobre morcegos atrasou o início da obra em 6 meses. Já a questão do impacto visual para a cidade não foi limitante – e há conseqüências. A área das margens do rio Elba ao longo da cidade tinha o título de patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, título esse que foi perdido após a construção da ponte.

A questão aqui não é dizer se é certo ou errado construir essa ponte (ou qualquer um dos projetos mencionados anteriormente) nem se a cidade ficou mais feia ou mais bonita depois da construção, mas apontar que precisa realmente haver discussões nesse nível de detalhe em relação a meio ambiente quando uma obra de grande porte (ou mesmo pequeno porte) está pra ser iniciada. Os prós e contras de cada lado precisam ser balanceados antes que se construa projetos cujos impactos podem ser irreparáveis. As questões que dizem respeito ao meio ambiente precisam ser analisadas por especialistas e seus argumentos precisam ser ouvidos e valorizados pela justiça e pela sociedade.

Não é que no Brasil exemplos similares aos que eu citei não existam – certamente existem. Conheço engenheiros ambientais, biólogos e ecólogos que trabalham justamente fazendo esse tipo de análise e projetos no Brasil também. E é justamente isso que a PEC 65 – se aprovada – vai anular completamente. Não é questão de se deve ou não deve ser construída uma determinada ponte ou seja o que for – é questão de analisar TODOS os fatores e possíveis conseqüências de cada obra e o fator meio ambiente ser valorizado da maneira necessária. Pode parecer bobo e insignificante que uma determinada espécie de ave seja prejudicada por um projeto que traga outros benefícios pra sociedade, mas não é tão simples assim. Aquela espécie de ave que você acha insignificante é a mesma que se alimenta de insetos e consequentemente controla – por exemplo – as populações do Aedes aegypti, de maneira que prejudicar essas aves pode resultar em um aumento dos casos de dengue na cidade. Ou então pode ser uma espécie responsável pela polinização de uma determinada espécie de planta – que por acaso é a planta usada como ingrediente em determinados remédios. Tudo no meio ambiente é interligado, como num jogo de pega-varetas, onde é quase impossível mexer em uma vareta sem que as outras se movam também.

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No próximo post (já estou preparando a um tempo, mas é um post longo cheio de fotos bonitas, então dá trabalho) vou falar um pouco sobre os rios e sua situação urbana na Alemanha.


(Publicado em 27 de Maio de 2016)

A Xenofobia dos outros estrangeiros

Há um tempo atrás eu escrevi um post sobre xenofobia na Alemanha, onde falei um pouco sobre algumas situações onde eu ou amigos estrangeiros nos sentimos discriminados pelos alemães, ou sentiram em que havia uma diferença clara na maneira como éramos tratados pelos alemães. Você pode ler esse post aqui.

Mas um outro assunto relacionado à xenofobia vem me incomodando muito e também precisa ser tratado: a xenofobia de outros estrangeiros.

Nos grupos de facebook das comunidades internacionais na Alemanha – certamente no daqui de Dresden – volta e meia aparecem posts com relatos de pessoas que foram vítimas de racismo e xenofobia em alguma situção. No mais recente que li, um homem árabe, engenheiro que mudou com a família pra cá a trabalho, contou que num domingo à tarde sua família (ele, a esposa e dois filhos) foi verbalmente agredida e intimidada num trem por um grupo grande de torcedores bêbados do Dynamo – o time de Dresden. Assustado e indignado, o homem contou que nesse dia finalmente viu de perto o “outro lado” de Dresden, o lado racista, xenófobo e preconceituoso. A torcida do Dynamo é bem conhecida na Alemanha por ser racista, agressiva e violenta, nos jogos sempre dá briga, o ambiente é sempre meio pesado. E Dresden, berço do movimento xenófobo Pegida, é conhecida na Alemanha por ser uma das cidades menos receptivas a estrangeiros.

Mas dessa vez o que mais me chocou nesse relato foram os comentários dos outros estrangeiros do grupo. Poucos eram realmente comentários de apoio: “poxa, que horror…”, “Já passei por isso, foi péssimo”, “não quero nem imaginar como vc deve ter se sentido!”, “Se quiser sair pra conversar, podemos marcar um café.”. A maioria dos comentários tentava desesperadamente defender a Alemanha e os alemães de três principais maneiras: ou invalidando a experiência que aquela pessoa compartilhou, ou generalizando a sua própria experiência positiva, ou, pior de tudo, culpabilizando a vítima da agressão racista/xenófoba pela agressão que sofreu.

O primeiro tipo – o que invalida a experiência do outro – é aquele que lê essa história e comenta “não liga”, “ignora”, “esquece” ou “Mas isso poderia acontecer em qualquer lugar”, “idiotas existem no mundo inteiro, não é só aqui”, “sempre tem uns assim, aposto que no seu país também tem”. Tinham muuuitos comentários nessa linha. Não importa se isso acontece em outros lugares com outras pessoas também, aconteceu aqui com essa pessoa que está lá desabafando que teve que passar por isso. E COMO que alguém “esquece” ou “ignora” ou “não liga” pra uma situação dessas? Um grupo de homens bêbados querendo briga xingando e intimidando vc e suas crianças pequenas num trem, com ninguém em volta te defendendo ou te ajudando? Mas, né, poderia ter acontecido em outras cidades ou outros países também, então relaxa e aproveita a Alemanha e pare de reclamar que aqui é obviamente tudo lindo e perfeito.

Depois, vêm sempre aqueles fulanos que, quando alguém conta que passou por alguma agressão racista ou xenófoba, comenta que “eu sou assim, assim e assado e nunca me aconteceu nada, logo, não é verdade que existe racismo/xenofobia”. Amigo, você não é 100% das pessoas, só porque vc não passou por nada assim – sorte sua – não faz a experiência de outros que viveram tais situações menos válidas ou menos verdadeiras.

Lendo essas coisas a impressão é de que muitos estrangeiros gostam tanto daqui que se recusam a acreditar que possa existir qualquer tipo de ponto negativo, lado ruim ou coisas que poderiam ser melhores na Alemanha. Essa impressão é reforçada cada vez que eu vejo alguém fazer qualquer tipo de crítica – por menor que seja – à Alemanha por exemplo no grupo da comunidade brasileira daqui. SEMPRE, mas sempre sem exceção, metade das respostas é “MAS É MUITO PIOR NO BRASIL!!!” “MAS AQUI TEM ISSO ISSO E AQUILO QUE É MUITO MELHOR QUE NO BRASIL!!!”. Não é essa a questão. Não importa se a Alemanha é melhor ou pior que o Brasil. Nada disso invalida uma crítica a algo que não é legal. Eu fico me perguntando porque a pessoa acha tão importante acreditar que a Alemanha é PERFEITA SEM DEFEITOS pra poder ser feliz aqui? Eu gosto de morar aqui. Não quero voltar. Mas critico a Alemanha em vários pontos. Nem de longe diria que ela é “melhor” que o Brasil, acho que todos os países têm lados melhores e piores que os outros. A qualidade de vida é melhor aqui, mas a comida é melhor lá. Aqui vc se sente mais seguro, mas as pessoas são mais simpáticas lá. Tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Mas o terceiro tipo é de longe o mais ofensivo. A pessoa contou esse caso e um dos comentários – de uma ucraniana branca, loira de olhos azuis – dizia que basta vc ficar na sua e não chamar a atenção que nada nunca vai acontecer com você – ela diz isso por experiência já que já morou 4 anos em Berlim e 4 em Dresden e nunca aconteceu nada com ela. Nossa, será que de repente é pq vc não é negra, nem tem cara de árabe, nem oriental, mas obviamente europeia e passa despercebida aqui? “Claro que não”, responde a ilustre pessoa, “não tem nada a ver com cor de pele, pare de se vitimizar! Em todos os casos que eu presenciei algum tipo de agressão era pq a pessoa vítima da agressão estava se comportando de maneira estranha, e quando vc vai morar num país vc tem que se comportar e fazer tudo exatamente como as pessoas daquele país. Ah, e quanto a crianças, gente, um aviso, fiquem de olho nas crianças, não deixem elas correrem ou falarem alto no trem, que afinal é um lugar público e isso pode incomodar as outras pessoas. E não encare esses torcedores de futebol, eles não gostam.” e partiu daí a explicar como algumas ucranianas também foram vítimas de agressão, mas foi culpa delas mesmas por terem saídos bêbadas sozinhas de uma festa à noite. Eu ainda cortei vários trechos dos comentários dela (eram uns 5 comentários bem compridos) pra não me estressar demais transcrevendo.

Isso abre uma outra discussão importante quando a gente fala de xenofobia. Esse mito de o bom imigrante X o mau imigrante. O bom imigrante seria aquele que veio estudar, ou que veio porque a empresa realocou ele pra cá, o bem qualificado, bem educado, que já sabe a língua, que não tem uma religião diferente nem uma cara diferente. Basicamente é o imigrante que não é tão diferente. O mau imigrante seria o refugiado, o imigrante que veio porque as coisas não estavam boas no seu lugar de origem, o que não tem qualificação, não tem educação, depende de assistência governamental, demora pra aprender a língua, segue uma religião diferente, se veste diferente, resumindo: o diferente demais. Que as pessoas locais separem os imigrantes nesses dois grupos (isso as pessoas que se dizem não-xenófobas, as abertamente preconceituosas detestam todo mundo igual) é meio óbvio e esperado – embora não menos triste ou preconceituoso. Mas o que me deixa triste mesmo é ver os próprios imigrantes (os do primeiro grupo, claro), fazendo essa distinção e a partir dela sendo xenófobos com os do segundo grupo. Crentes de que por fazer parte do primeiro grupo eles estão seguros e protegidos aqui e que ninguém vai mexer com eles. E tomando as “dores” dos xenófobos locais em relação ao imigrante “diferente demais”. Só que, como deixou clara a história do rapaz engenheiro, o grupo de torcedores racistas bêbados não vai antes te perguntar se vc é refugiado ou intercambista antes de te agredir quando não tiver ninguém por perto pra te ajudar. Ninguém vai te perguntar se você é advogado ou desempregado antes de te xingar na rua. O chefe da empresa pra qual você mandou seu currículo também vai estar bem menos preocupado com a sua qualificação do que você imagina antes de descartar o currículo do fulano de nome estranho e cara esquisita (você) em favor do alemão “normal” com nome “pronunciável”. Na rua, você só vai passar despercebido se tiver a sorte de ser branco o suficiente. Então quando você reproduz o discurso xenófobo, seguro de que ele não se aplica a você, pode ter certeza que o que você está usando pra atacar os outros imigrantes é um belo dum bumerangue.

É triste demais perceber quando a comunidade internacional, em vez de se ajudar e se apoiar nesses casos, tão freqüentemente reproduz os discursos dos piores mais racistas e mais xenófobos alemães que você poderia encontrar por aqui. Eis aqui um belo exemplo: Um post no grupo da comunidade de brasileiros avisando que teria uma manifestação neo-nazi (sim, tem dessas em Dresden.) e recomendando ficar longe do local onde ocorreria a manifestação. Esse nobre comentário foi o primeiro a aparecer no post:

???

Nem sei o que comentar a respeito.

Mas pra terminar o post com um tom positivo: Eu acredito que essas pessoas não sejam a maioria, felizmente. Pelo menos dos estrangeiros que eu conheço pessoalmente, não saberia mencionar nenhum que pense assim (Bom, provavelmente eles não gostam de fazer amizade com outros estrangeiros, né…). E é assim aqui em Dresden – e acredito que na maioria das outras cidades alemãs também – tem sempre um grupo de estrangeiros e alemães que se ajudam, se apoiam no que precisar, e tal. Certamente vale a pena entrar em alguns grupos da sua cidade no facebook até achar aquele onde estão as pessoas mais prestativas e amigáveis, certamente tem um. É importante fazer amizade com pessoas locais para facilitar sua integração, mas também é muito importante pro bem estar pessoal ter um grupo de amigos que estão “na mesma situação” que você, com quem você pode desabafar quando as coisas estiverem difíceis, quando der saudades de casa, quando você estiver mega irritado com alguma característica típica daqui, quando você precisar de alguém que saiba exatamente o que você está passando…

Então fica aqui meu pequeno-longo manifesto para todos os estrangeiros na Alemanha: bora se ajudar que tá todo mundo no mesmo barco!


(Publicado em 3 de Maio de 2016)

O tempo louco de Abril

Os alemães têm um ditado que diz: “April, April, der macht was er will.” Abril, Abril, ele faz o que quer. E eles vão sempre te dizer que em Abril, no que diz respeito ao clima, qualquer coisa pode acontecer.

Mas eu nunca tinha sentido tão claramente a verdade desse ditado até esse ano!

No comecinho de abril a temperatura subiu até quase 20°C, saiu o maior sol, deu pra andar até de camiseta e fazer churrasco no parque, parecia que a primavera ia finalmente engrenar de vez. Todo mundo guardou os apetrechos de inverno no fundo do armário certos de que não íamos precisar dessa chateação de luva e gorro até Novembro. Mas ao longo do mês a temperatura foi caindo, o tempo foi ficando pior, até que chegou a um extremo de frio fora de época no fim de semana passado (23, 24 de Abril), com a máxima em 8°C, e a mínima 0°C, com umas mudanças extremas no clima várias vezes durante o dia.

Pra dar uma ideia: ontem, no domingo, acordamos às 10:00. Estava chovendo. Quando meu namorado desceu para comprar pão às 11:00, estava sol. Quando ele voltou e sentamos para tomar café, começou a chover granizo. Meu namorado ia visitar um amigo às 13:00, então às 12:30 ele olhou o tempo para decidir se ia de bicicleta ou se pegava o tram. Estava sol. Ele foi de bicicleta. Lá pelas 14:30 pensei: “Puxa, acho que vou descer até o café na esquina e comer um bolo”. Estava nevando. Pensei: “Meh, deixa”. Tirei uma soneca. Acordei meia hora depois. Estava sol. Pensei: “Bolo”. Desci. Estava tudo seco lá fora. Comi o bolo e tomei um café, e quando saí do café às 16:00 estava sol de novo, mas o chão estava molhado. Voltei pra casa. Começou a garoar. Meu namorado voltou pra casa lá pelas 18:00. Estava sol. Resolvemos ir no cinema, o filme começava às 19:30. Ainda estava sol. Deixamos as bicicletas na rua na frente do cinema. Quando voltamos não estava chovendo, mas as bicicletas estavam beeem molhadas.

Hoje não foi diferente. Só até a hora do almoço já tinha nevado duas vezes (bem rapidinho) com o maior sol nas pausas. E um frio insano pra essa época do ano, de manhã estava 0˚C!

Frio em abril ninguém agüenta mais… em novembro e dezembro é legal, chegou o inverno, natal, neve, oba…. mas em abril… quando as árvores já estão verdes de novo, já está tudo florido, vc já guardou as luvas e gorros e o casaco de inverno, já tirou a bicicleta da garagem… em abril as pessoas querem saber é de sol! Mas eis que os alemães estão certos: Abril faz o que quer!


(Publicado em 25 de… Abril! de 2016)

Pressa, impaciência e pontualidade

Ontem eu fui numa reunião em que algumas coisas aconteceram que eu achei muito emblemáticas de certas características típicas dos alemães: pressa, impaciência, pontualidade. Ou, resumindo: nóia.

A reunião era na prefeitura de uma cidadezinha (vilarejo é a palavra mais apropriada) pra apresentar o projeto da pracinha da cidade que fizemos. Na verdade a ocasião em si era o encontro, sei lá, mensal ou semanal do conselho da cidade, aberto aos cidadãos para discutir as questões diversas que dizem respeito ao local: projetos, verbas, eventos, etc.

A reunião estava marcada para as 19:00, e nós chegamos às 18:05. Isso porque da última vez que tivemos uma reunião em outra cidade, nos atrasamos 15min porque tinha nevado muito na noite anterior. Então dessa vez o chefe resolveu sair com 1:30 de antecedência, embora só precisássemos de meia hora pra chegar lá. Só que quando chegamos, a prefeitura estava fechada, e ninguém lá dentro ou por perto pra abrir a porta pra gente. Então demos uma volta, olhamos o vilarejo, voltamos, ficamos conversando na porta da prefeitura, até que, às 18:50, começaram a chegar as pessoas que participariam da reunião. Entramos na sala onde a reunião ia acontecer e começamos a ligar o computador ao beamer, essas preparações básicas pré-apresentação. Só que o laptop que levamos não estava conectando ao beamer imediatamente. Mas assim. Não conectou imediatamente. Mas o computador estava reconhecendo o Beamer e eu precisava de tipo 10 minutos pra descobrir que botão precisava apertar pra conectar o negócio direito. Não era nada impossível de resolver, eu só precisava sentar no computador 10 minutos pra olhar com calma e descobrir o que estava faltando fazer pra conexão funcionar.

SÓ QUE:

Tenta fazer isso com uns 6 alemães atrás de você super noiados em começar a reunião pontualmente às sete e comentando coisas como “Não, aperta esse botão!” “Aperta aquele” “Tem que reiniciar o computador!” “Não, tem que reiniciar o beamer!” “Ai meu deus, será que não vai funcionar?” “Traz o outro laptop lá, fulano!!” “Não, pera, tenta com o meu, aqui!” “Mas o seu não tem o programa que a gente precisa!” “O fulano trouxe o dele também, ele instalou o programa, pega lá!”. Gente, que stress… eu só precisava de 5 minutos de silêncio e tranquilidade pra descobrir o negócio…

E isso tudo porque a reunião precisava a todo custo começar EXATAMENTE às 19:00. Às 19:00 estavam as pessoas do conselho sentadas na mesa e perguntando pra gente – que estava obviamente ainda tentando resolver o negócio – se podiam começar.

Às 19:01, após colocar o cabo em outro computador e o mesmo conectar-se ao beamer, a reunião começou. Com o presidente do conselho tocando um SININHO oficial de início da reunião do conselho, um sino, mesmo, de verdade. Uma coisa que se você fosse cego ficaria em dúvida se era a reunião do conselho da cidade que estava começando, ou o Papai Noel chegando no seu trenó para entregar os presentes de Natal.

Lembrando que essa situação toda não era uma reunião de uma prefeitura de uma grande cidade, num enorme auditório, com centenas de pessoas assistindo. Era uma prefeitura de um vilarejo, tinha ao todo umas 20 pessoas na sala onde a reunião ia acontecer, incluindo os 4 arquitetos do projeto…

Esse tipo de situação é bem típica. Os alemães são pontuais e extremamente paranóicos quando as coisas não estão andando como planejado e eles acham que estão DOIS MINUTOS E DEZESSETE SEGUNDOS ATRASADOS, MEUDEUSQUEVERGONHA! Nóia com pontualidade vai ser bem visível se vc fizer um curso de qualquer coisa aqui. Não apenas os professores começam a aula exatamente no horário marcado, mas eles fazem questão de terminar a aula EXATAMENTE no minuto marcado pra aula terminar. Semana passada mesmo minha professora de alemão se desculpou por terminar a aula TRÊS MINUTOS antes do horário. TRÊS MINUTOS. Era pra terminar às 20:45, e ela terminou às 20:42. “Bom, é isso, tá um pouco mais cedo, mas acho que tudo bem eu terminar agora, né?”. Gente… E era a mesma coisa na faculdade. Os professores chegavam, preparavam lá no powerpoint no computador, e ficavam de pé olhando pro relógio no computador esperando ele marcar exatamente o horário de início da aula, pra só então começar a falar. Mesmo que já tivesse todo mundo na sala sentado esperando. E se terminasse 2 minutos mais cedo, eles pediam desculpas… como se a gente fosse estar super noiado pensando “Não, mas e os meus últimos 2 minutos de aula, gente! Eu paguei por 3h de aula, não 2h58!!!!”

E a pressa característica também se traduz em outras atitudes um tanto irritantes. Como por exemplo quando você está andando na rua com um alemão. Uma coisa que os alemães super gostam de fazer é sair pra dar uma volta. Assim, uma volta sem nenhum objetivo específico, só pra andar um pouco, tomar um ar fresco, e tal. Até aí, legal. Só que eles não saem pra andar calmamente apreciando a paisagem. Eles andam como se tivessem atrasados pra chegar em algum lugar… mesmo que não tenha nenhum destino específico nem nenhuma pressão de horário. Já tô num relacionamento de 6 anos e até hoje eu ainda tenho que puxar meu namorado quando a gente tá andando na rua, porque além de CORRER, ele tem pernas tipo gigantes, então se deixar em 30 segundos ele já está 5 passos à frente e nem se toca…

E a impaciência vai ficar óbvia se você precisar pagar qualquer coisa e tiver que procurar dinheiro na carteira. Recomendo estar sempre com o dinheiro preparado e contado, que os alemães vão te fuzilar com olhar de laser se você ficar contando moedinha por moedinha com eles ali esperando você pagar.

Os alemães certamente têm vários outros hábitos que são bem legais e exemplares. Mas às vezes tudo o que eu queria era poder chacoalhar a Alemanha inteira gritando “MEEEEU, RELAAAAXAAAA!”…


(Publicado em 21 de Abril de 2016)

Finderlohn – Recompensa por um achado

Hoje eu descobri uma coisa muito curiosa sobre a Alemanha, algo que eu jamais teria imaginado. Eis que aqui a recompensa caso vc encontre algo de valor que alguém perdeu é algo “regulamentado”.

Vou começar a história do início: Na segunda feira a carteira do meu namorado foi furtada (sim, essas coisas acontecem aqui também). Lá se foram documentos, cartões, dinheiro, etcetc. Ele foi à polícia fazer o BO, cancelou os cartões, e dois dias depois recebeu uma mensagem no facebook de alguém que encontrou a carteira com os documentos próximo ao local onde foi roubada. Lógico que a boa alma que encontrou a carteira e se deu ao trabalho de procurar meu namorado no facebook não pediu nenhuma recompensa para devolver a carteira, mas a situação lembrou uma outra experiência do meu namorado com objetos achados: ele contou que uma vez seu pai encontrou numa floresta um cofre aberto. No cofre tinham alguns documentos, então ele levou o cofre e entregou para a polícia. Na delegacia, o policial que colheu as informações da situação perguntou ao meu sogro se ele queria pedir uma recompensa pelo achado.

E aí que veio o grande ponto de interrogação.

Como assim o policial perguntou se ele queria uma recompensa?

Fomos pesquisar e descobrimos que por lei você pode pedir uma recompensa sobre objetos achados, variando de acordo com o valor do objeto: Se o objeto tiver valor de até 500 euros, você pode pedir até 5%. Se for mais que 500 euros, vc pode pedir 5% dos 500 euros e 3% sobre o valor excedente. E se você encontrar um animal de estimação, vc pode pedir até 3% do “valor” do animal (sei lá como eles calculam o valor de um bicho, mas enfim).

Mas como assim? Como assim tem uma lei que oficializa pedir uma recompensa pra devolver algo que alguém encontrou por aí? Pra mim parece totalmente bizarro porque parece que a lei aprova e encoraja a atitude de ajudar o próximo apenas se você vai receber algo em retorno. Parece algo estranho pra se colocar em lei. Mas pensando melhor, chegamos à conclusão de que provavelmente a idéia é mesmo regulamentar algo que existe. Talvez pra encorajar alguém que encontra algo de muito valor a devolver, ou então para limitar o valor que alguém pode pedir para devolver algo encontrado.

Independente de recompensas, achado é roubado, sim: pela lei se você encontra algo que não te pertence você tem a obrigação de entregar para a polícia (isso é igual no Brasil, claro). E se a polícia te perguntar se vc encontrou algo e vc disser que não, e depois mudar de idéia e resolver devolver, você perde o direito à recompensa.

Fiquei ainda mais surpresa quando fui pesquisar um pouco mais a fundo para ver como isso funciona no Brasil. Eis que a lei brasileira também regulamenta recompensas por objetos encontrados! Só que pelo que eu li, é mais algo pensado para coisas de realmente muito valor, porque ela pode ser decidida de acordo com o esforço da pessoa que encontrou para encontrar o objeto, a probabilidade de que o dono conseguisse encontrar novamente o objeto por conta própria, e a situação econômica de ambos. Acho que a grande diferença que me surpreendeu (bom, eu não sabia da lei no Brasil ser assim, também fiquei surpresa de descobrir que é similar) é o policial perguntar para a pessoa que encontrou o objeto perdido se ela quer exigir uma recompensa, quer dizer, a coisa toda ser tão oficial e tão regulamentada que não é que vc pode ligar pra pessoa, dizer que achou o objeto perdido e pedir uma recompensa, mas o policial pra quem vc entregou o objeto vai te perguntar e anotar no papel oficial que você quer ou não quer a recompensa.

Que coisa!

Pra concluir, eis…
aqui as fontes das informações sobre o Finderlohn (recompensa pelo achado),

aqui a fonte sobre a lei no Brasil,

E aqui um post passado sobre o que os alemães fazem quando encontram objetos perdidos.


(Publicado em 13 de Abril de 2016)