abraço

Sobre Apertos de Mão

Uma característica importante da cultura alemã são os apertos de mão. Isso, na verdade, é diferente entre áreas diferentes da Alemanha. Aqui no Leste o aperto de mão é suuuuuper importante. No Oeste nem tudo, é uma diferença que meu marido, que é do oeste, comenta bastante.

Então eu vou falar sobre a importância dos apertos de mão aqui, na Alemanha Oriental. Talvez isso se aplique á área em que você está, talvez não. O melhor é observar.

Por exemplo, uma reunião de trabalho é uma situação típica onde os apertos de mão são bem importantes. Quando você chega numa sala e há algumas pessoas já sentadas esperando a reunião começar, o costume é você dar uma volta na mesa cumprimentando todo mundo ali presente com um aperto de mão. E uma bobeira é que se aperta a mão sempre das mulheres primeiro, e depois dos homens… não é totalmente essencial seguir essa regra (especialmente se você for mulher), mas considerado educado. Ao apertar a mão, se você não conhece a pessoa ainda, você fala seu nome (sobrenome, claro). Se você já conhece a pessoa, o ideal seria você falar o nome da pessoa, pra mostrar que você lembra quem ele é, e tal. Mas não é essencial. Então, por exemplo, você, de sobrenome Silva, chega pra cumprimentar alguém de nome Müller. Se você ainda não conhece a pessoa, você aperta a mão da pessoa dizendo “Silva” pra ele saber que seu nome é Silva. Ninguém memoriza o nome já de cara nessa ocasião, mas whatever, o importante é falar seu nome. Se você já conhece a pessoa, vc aperta a mão dela dizendo “Herr Müller/Frau Müller”. Tem uma diferença de entonação importante aí, entre falar o seu nome e o nome da outra pessoa. Fica difícil explicar escrevendo. Mas é meio instintivo.

Importantíssimo, é que, se você está meio doente, meio tossindo, com o nariz escorrendo, ou qualquer outro sintoma que as outras pessoas vão perceber que você está meio resfriado, NÃO APERTE A MÃO DE NINGUÉM, SUPER MAL-EDUCADO apertar a mão da pessoa se você estiver doente!!! Aí quando a pessoa vier pra você com a mão pra apertar você fala algo como “ah, melhor não, eu tô meio resfriado!” Ich bin ein bisschen erkältet.

Uma alternativa, se você chega e não quer necessariamente apertar a mão de 20 pessoas sentadas na mesa, ou se você chega com a reunião já começada (não faça isso!), vc pode cumprimentar todo mundo de uma vez só dando duas, três batidinhas na mesa com o punho fechado, meio como se você tivesse batendo numa porta. E falando um oi geral. Isso você também pode usar se você tiver saindo da reunião antes da mesma terminar, por exemplo. É uma maneira rápida de cumprimentar todo mundo de uma vez só.

Claro que estamos falando de pessoas que você não encontra todos os dias, de uma reunião de trabalho num lugar que não seja o seu escritório com seus próprios colegas. Se forem os colegas de trabalho que você encontra todo dia, não precisa, claro, apertar a mão de todo mundo todo dia. Aí um bom dia basta.

O aperto de mão é meio que o único contato físico aceitável entre pessoas não próximas. Então, por exemplo, no aniversário de algum colega no escritório, se não for algum colega muito próximo de quem você é meio amigo, o comum seria cumprimentar o colega pelo aniversário com um aperto de mão.

Já vi apertos de mão até em situações SUPER estranhas, tipo: quando minha avó faleceu, eu comentei isso com o chefe do escritório onde eu estava trabalhando temporariamente na época, e ele me deu seus pêsames com um aperto de mão… ?? Achei estranho e, sinceramente, acho que mesmo aqui essa foi uma reação estranha. Mas ok.

O último ponto importante a se discutir sobre apertos de mão é o aperto em si. Aperto é a palavra mais adequada mesmo: é pra APERTAR a mão, com toda força, esmagar os ossos alheios. Os alemães dão apertos de mão SUPER firmes. Às vezes machuca a mão do outro, mesmo. Apertos de mão no Brasil (e em várias outras culturas) costumam ser só uma chacoalhada de mãos moles. Isso é uma coisa bem cultural, mesmo. Aqui, os apertos são bem firmes, e se você só deixar a mão mole, pega mal, dá a impressão pra outra pessoa de que você não é  uma pessoa com muita segurança. Treine um aperto de mão firme, é essencial.

E finalmente, um pequeno parágrafos sobre outros tipos de cumprimento. Beijinho como cumprimento é algo que absolutamente NÃO EXISTE aqui. Não dê beijinho pra cumprimentar jamais. Em qualquer situação vai gerar estranhamento. Se for alguém próximo, um amigo, um familiar, cumprimenta-se com um abraço mais ou menos apertado de acordo com a proximidade da pessoa. Se for um amigo que você encontra todo dia, só um oi basta, sem aceno, sem mão, sem abraço, e, importante, sem beijinho.

Então resumindo:
Pessoas não-próximas que você não encontra todo dia e que é educado cumprimentar (ambiente de trabalho, reuniões, etc): Aperto de mão firme e direto, com nome. Em outras partes da Alemanha, onde os apertos de mão forem menos comuns, aí só um bom dia sem toque basta.
Pessoas próximas que você não encontra todo dia: abraço mais ou menos apertados de acordo com a sua proximidade da pessoa.
Pessoas próximas ou não próximas que você encontra todo dia (colegas de trabalho, colega da faculdade, vizinho, etc): Só um oi, bom dia, talvez um aceno. Sem toque.

Se você ficar em dúvida, a melhor dica (e também a mais intuitiva, claro), é: deixa a outra pessoa decidir o cumprimento ou observe as outras pessoas para seguir o exemplo.


(Publicado em 11 de Fevereiro de 2019)

Manda um abraço!

Os alemães levam tudo a sério. Já discuti aqui como se um alemão te oferece alguma coisa você pode aceitar tranquilamente porque não é só por educação. E se vc disser não, eles não vão insistir. Assim como se você oferecer algo, tenha em mente que eles vão se sentir na liberdade de aceitar. Sarcasmo não é uma figura de linguagem comumente empregada por alemães nem em piadas nem em conversas, e se usado em discussões será um tanto ofensivo para os eles.

E uma das coisas que eles levam muito a sério são cumprimentos remotos. Sabe quando vc fala pra alguém “ah, manda um abraço para o fulano!”? Eles mandam. Mesmo.

Essa diferença você percebe bem rápido ao conhecer alemães, quando começa a receber cumprimentos remotos dos familiares ou amigos de amigos que te conhecem. Uma coisa bem comum, por exemplo, é, após um telefonema do meu namorado com alguém da sua família, ele vir me dizer que o tio/tia/pai/mãe/primo/irmã/avó me mandou um abraço. Tá, com telefonemas não é tão estranho, porque você está ali do lado quando a pessoa te manda o abraço, então está fácil para o “entregador” do abraço remoto lembrar de te avisar que a outra pessoa pensou em você. Mas eles levam a sério mesmo. Ontem encontrei uma amiga para um café, é bem no final, quando estávamos nos despedindo, ela falou: “ah, já estava esquecendo! O Andreas [namorado dela, também meu amigo] te mandou um abraço! Ah, e fala pro seu namorado que eu mandei um abraço pra ele também!”. E ela falou de um jeito tão sério que deixou bem claro que era realmente importante, para ela, lembrar de me dizer que o Andreas lembrou de me mandar um abraço.

Claro que eu não lembrei de repassar o abraço para o meu namorado como ela pediu, porque para mim lembrar de mandar um abraço para alguém da família do seu amigo é algo que vc faz não para que esse familiar saiba que vc lembrou dele, mas para que o seu amigo saiba que vc lembrou das pessoas que lhe são importantes. Pra gente, no Brasil (me corrijam se discordarem), o importante do cumprimento remoto é mostrar para o seu interlocutor que você lembra dos nomes das pessoas importantes para ele, das pessoas com quem ele vive, e tal. Certo que em algumas situações vc lembra sim de repassar o abraço – digamos por exemplo se você encontrar alguém que você não vê há um tempo e a pessoa manda um abraço pro seu marido. Aí a noite você encontra seu marido e comenta “ah, eu encontrei o fulano, hoje, imagina!” “Puxa, sério? Que legal, como ele tá?” “Tá ótimo, te mandou um abraço!”. Mas para pessoas que você encontra regularmente, jamais lhe ocorreria de lembrar de comentar que a pessoa mandou um abraço. E os alemães fazem questão não apenas de repassar os tais abraços, como de lembrar de mandá-los em basicamente todas as situações.

E depois que você percebe isso, uma dúvida cruel segue: será que eles te acham super antipático se você não mandar um abraço? Ou se você não repassar o abraço enviado por outro, corre o risco de fazer com que este seja falsamente acusado de antipático por ter esquecido de mandar um abraço, quando na verdade foi você que esqueceu de repassar?

Não tenho certeza da resposta. Na dúvida, o mais seguro é sempre lembrar de mandar e repassar abraços (eu ainda não me acostumei).

E, aliás, uma observação. Na verdade em alemão não é abraço que se manda, mas um cumprimento, mesmo. Em alemão se diz, por exemplo, “Grüß den Andreas von mir!”, ou “Cumprimente o Andreas por mim!”. Claro, eles não mandariam abraços, é íntimo demais, né? E cumprimentos remotos eles mandam realmente pra todo mundo, lembro de receber cumprimentos remotos de familiares do meu namorado antes mesmo de conhecê-los pessoalmente…


(Publicado em 21 de Novembro de 2014)