água

Pequenas denúncias

Esse post de título um tanto enigmático me deu na telha de escrever na semana passada, ao comprar uma água. E é sobre pequenas coisas, pequenos detalhes, que te denunciam como estrangeiro na Alemanha. Não coisas grandes como erros gramaticais ou pronúncia da língua. Coisinhas pequenas, não necessariamente erradas, discretas, porém que nenhum alemão jamais faria ou expressaria dessa maneira.

Quem já viu o filme Bastardos Inglórios vai lembrar bem da cena em que o espião americano infiltrado entre os nazistas é descoberto ao pedir duas cervejas num bar, mostrando o dedo indicador e o do meio. Os alemães contam nos dedos começando com o dedão, então “dois”, na linguagem dedística alemã, seria levantar o dedão e o indicador. Se você, como a pessoa normal que é, levantar o dedo indicador e o do meio para indicar dois: ! Estrangeiro!

Então aqui vão outras coisinhas que poderiam resultar na sua execução imediata se você fosse um espião estrangeiro infiltrado entre os nazistas em 1940.

1. Volume de bebida
A história da água foi que eu pedi ontem uma garrafa de água no subway, e quando a pessoa do caixa me perguntou qual tamanho, eu distraidamente respondi “A pequena, de 500”. 500 mL, claro. Na Brasil a gente fala de tamanho das bebidas em mL. 300, 500, 700. Só a partir de 1L qua a gente passa pra litros. Mas aqui  na Alemanha é tudo sempre em Litros. 0,3, 0,5, 0,7. A resposta certa no caso da água teria sido “null komma fünf“, “zero vírgula cinco” (ou só “komma fünf“). Todo mundo entende se você fala em mL, claro, mas nenhum alemão jamais responderia àquela pergunta com “fünfhundert“. Jamé.

2. Emails
Duas pequenezas em emails eu descobri outro dia que eram diferentes. São pequenezas tão discretas que eu nunca teria notado. Mas provavelmente os alemães que receberam emails escritos por mim notaram. Quando você escreve um email (ou carta) em português, é algo assim:

“Caro Sr. Fulano de Tal,

Como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente,
Eu Mesmo da Silva”

Se a gente seguisse a mesma regra que os alemães, essa mesma carta seria assim:

Caro Sr. Fulano de Tal,

como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente
Eu Mesmo da Silva

Sacou a diferença? São duas. A mais importante e mais denunciativa é a primeira: aqui você sempre começa o email com letra minúscula (depois do “Caro fulano”, que aliás em alemão seria “Sehr geehrte(r) xyz). O motivo faz sentido: A frase começou com “Caro fulano, xxx”, não tem porquê colocar maiúscula depois da vírgula. Mas por algum motivo misterioso em português e em inglês se faz assim em emails e cartas. A segunda diferença não é tão determinante. Entre o “Atenciosamente” (em alemão você escreveria “Mit Freundlichen Grüßen“) e o seu nome, os alemães não costumam colocar vírgula. Mas não é uma regra tão definitiva: às vezes eles também colocam uma vírgula.

3. Futebol
Duas grandes pequenas diferenças existem entre nós e os alemães ao falar de futebol. A primeira é a contagem do tempo. No Brasil a gente conta em duas vezes de quarenta e cinco minutos. Então se alguém chega e te pergunta “E o jogo? Tá onde?”, você responderia algo como “30 minutos do segundo tempo”. Na Alemanha, a resposta seria “75 minutos”. O jogo é contado em 90 minutos, não duas vezes de 45. Então se você fala em algum minuto do 0 ao 45, você com certeza está se referindo ao primeiro tempo. A expressão “aos quarenta e cinco do segundo tempo” não faria sentido aqui.
Outra diferença (embora essa seja mais algo que denunciaria um alemão no Brasil que o contrário) é a contagem dos gols. No Brasil a gente sempre coloca quem tem mais gols primeiro. Por exemplo: “O jogo ficou sete a um pra Alemanha”. Na Alemanha você fala os gols do time da casa primeiro. “O jogo ficou um a sete.” é certamente algo que você nunca disse em português.

Talvez agora você esteja prestes a escrever um comentário perguntando a mesma coisa que eu perguntei pro marido alemão quando conversamos sobre esse assunto: como faz quando não tem time da casa? E se for, digamos, Marrocos x Japão jogando no Uruguai? A resposta foi: ¯\_(ツ)_/¯. Bom, tem sempre uma regra pra qual time é o time da casa mesmo nesses campeonatos internacionais, no sentido de qual time tem que trocar de roupa se os uniformes forem da mesma cor, né. Mas sei lá se tem toda essa preocupação em ser específico. Acho que colocar o número maior na frente e dizer quem ganhou (ou está ganhando) faz mais sentido e os alemães podiam pensar em adotar essa regra simples, ficadica.

4. Casaco
Dois compartamentos referentes a casacos te denunciariam imediatamente como estrangeiro (de país onde não faz frio) na Alemanha.

A primeira é andar por aí no frio com o casaco aberto. Algo que não faz nenhum sentido lógico: o casaco serve pra isolar seu corpo do frio, pra ele não perder calor. Não funciona se o casaco estiver aberto. Mas no Brasil, como quase não faz frio, a gente praticamente nem têm casacos que isolam, então efetivamente tanto faz se o casaco está aberto ou fechado. Daí a gente chega bobo no país frio durante o inverno e demora uns tempos pra descobrir que casaco de inverno só funciona quando fecha o zíper.

A outra coisa sobre casacos é que, como os interiores dos edifícios são aquecidos, as pessoas tiram o casaco ao entrar em qualquer lugar. É meio que a reação direta e automática a entrar num local: tirar o casaco. Só que no Brasil a gente usa o casaco o dia inteiro, dentro de casa e do escritório e do restaurante e de todos os lugares, já que costuma estar a mesma temperatura dentro e fora. Então a gente não tem esse costume de imediatamente tirar o casaco ao entrar num local, e às vezes fica lá distraído de boas no seu casaco. Os alemães acham isso meeeeega estranho, a ponto de chamar a atenção que alguém esteja usando casaco sem estar lá fora.

5. Meio Pãozinho
Digamos que eu te dê um pãozinho, um pãozinho normal, pão francês, e te peça pra cortar ao meio e me dar metade e comer a outra metade. Em que eixo do pãozinho você vai cortá-lo? Provavelmente você vai cortá-lo assim:

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Dê o pãozinho a um alemão e peça para ele cortá-lo ao meio para comer só metade e em 100% dos casos o pãozinho será cortado neste eixo:

paozinho

No Brasil, a gente só corta o pãozinho no lado maior quando a gente vai fazer um sanduíche, e comer as duas metades ao mesmo tempo, fechadas. Se for pra comer só metade e dar a outra metade pra outra pessoa ou devolver pro saquinho de pão, o pãozinho será cortado no eixo menor. Aqui, se um alemão concordar em dividir um pãozinho com você e você cortar o mesmo no lado menor pode ter certeza que o alemão vai te olhar como se você tivesse feito a coisa mais estranha e inesperada que ele já presenciou em sua vida!

Aliás já que estamos falando de pãozinho, uma dica pra você não cometer um erro que eu cometo regularmente, inclusive hoje mesmo na hora do almoço: Se você disser para um alemão te trazer uns pãezinhos da padaria, lembre-se de especificar que você quer pãezinhos brancos, aqui conhecidos como “Kleinbrötchen” (entre outros nomes possíveis). Se você quiser o pãozinho da imagem acima, tem que ser específico. Se você disser simplesmente “traz um pãozinho”, vai vir qualquer coisa menos pão branco. Se forem vários vai ser uma variação de pães diversos em que uns 10% a 20% serão pãezinhos brancos. Então se você quiser só pãezinhos brancos, seja específico. Se você for passar a noite na casa de alguém e a pessoa combinar um horário pra tomar café na manhã seguinte (sim, eles vão combinar um horário específico pra se “encontrar” pro café da manhã) e a pessoa te perguntar se você tem alguma preferência pro café, quantos pãezinhos você come, e tal: lembre-se de especificar que você só come pãezinhos brancos (se for o caso), se não é capaz de não ter um único pãozinho francês na seleção de 20 pãezinhos que seu anfitrião colocar na mesa do café no dia seguinte.

É isso! Daria pra escrever sobre mil outras coisinhas, mas deu pra dar uma ideia…


(Publicado em 22 de Agosto de 2017)

Rios na Alemanha

Esse post é o segundo post sobre meio ambiente na Alemanha (Na verdade tem outros e terão outros, mas esse é o segundo de uma série de três). O primeiro foi sobre o meio ambiente em obras alemãs e você pode lê-lo aqui.

Na Alemanha, rios são um elemento urbano bem importante. Quase toda cidade de um tamanho razoável é cruzada por um grande e importante rio. Algumas cidades inclusive têm o nome do rio como “sobrenome”, como é o caso de Frankfurt, cujo nome “completo” é Frankfurt am Main, ou Frankfurt sobre o Meno. Main, Meno em português é o nome do rio que cruza a cidade. O fato de as grandes cidades européias terem se desenvolvido sobre rios não é coincidência, claro. Historicamente os rios têm importâncias diversas pras cidades: a força da água corrente já têm sido utilizada para a transformação de energia desde anos antes de cristo com moinhos de água.

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Além de energia, os rios forneciam (e fornecem) ainda a água que é utilizada para beber, para lavar e para depositar os dejetos da cidade.

Hoje, com infraestruturas mais desenvolvidas, sistemas de tratamento e transporte de água, outras fontes de energia, a presença de um grande rio na cidade não é mais tão essencial para a economia urbana. Mas certamente ainda é um fator bem importante para a qualidade de vida.

E nesse sentido, a Alemanha de fato tem bastante a oferecer. Os rios e suas margens nas cidades daqui ganham vários usos urbanos que, embora “óbvios”, são quase totalmente inexistentes em rios nas cidades brasileiras.

Os rios em si, claro, são sempre utilizáveis. Os maiores, navegáveis, todos utilizáveis para remo e outros esportes similares, e alguns também para banho.

Barcos turísticos fazendo passeios simpáticos ao longo dos rios são extremamente comuns em praticamente todas as cidades, mas o uso da navegação para fins comerciais também é bem comum em rios maiores como o Reno, que cruza a Alemanha de norte a Sul no seu lado Oeste.

Pra gente parece quase inimaginável que alguém chegue com seu próprio barquinho e simplesmente comece a remar num rio no meio da cidade. Uma coisa que eu custei a internalizar é essa possibilidade do acesso livre aos corpos de água presentes, que eles não são só um objeto intocável – na maior parte das vezes indesejável e evitável – da paisagem. Não dá pra imaginar nem em chegar perto de um rio em São Paulo: eles são ou “invisíveis”, escondidos embaixo de grandes avenidas, ou simplesmente inacessíveis fisicamente por barreiras formadas, também, por grandes avenidas marginais. Eu já escrevi em um post passado sobre o sentimento estranho e diferente de se nadar em um lago na cidade – algo totalmente comum na Alemanha. Esse acesso aos corpos de água naturais, entrar em contato com água sem ser no banho, na chuva ou na piscina é uma coisa quase impensável pra quem mora em grandes cidades brasileiras.

Isso é um ponto extremamente positivo de se morar na Alemanha, esse acesso à água “natural” te coloca num contato muito próximo com a natureza. Não tem como não se importar com o meio ambiente quando ele tem uma participação tão importante no seu dia-a-dia.

E não é só a água em si, claro. São as margens também – um fator urbano completamente essencial numa cidade alemã. Não dá pra imaginar uma cidade alemã onde as margens dos rios não sejam acessíveis para pedestres, e onde essa acessibilidade não seja desejada ou não seja requerida.

(Nas fotos acima, da esquerda pra direta e de cima pra baixo: Dresden, Colônia, Nuremberg, Dresden, FrankfurtBerlim e Dresden.)

O tratamento e o uso urbano das margens nos rios varia um tanto de cidade pra cidade, mas é na grande maioria das vezes um espaço extremamente agradável.

Em Dresden, por exemplo, as margens do ao longo de praticamente toda a cidade são extremamente largas e totalmente verdes:

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Dos dois lados, um caminho pavimentado serve aos pedestres e ciclistas como uma importante conexão urbana: em várias situações vale mais a pena ir pelo caminho ao longo do rio (que é bem sinuoso) que pelo caminho mais curto – simplesmente pelo prazer de caminhar ou pedalar nessa área.

Dresden

Foto aérea de Dresden, com o rio Elba cruzando a cidade, e suas margens largas bem visíveis.

As generosas margens não são por acaso, claro. São elas que acolhem o rio em períodos de cheias.

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De cima pra baixo: Elba mini (Julho 2015), Elba regular (Fevereiro 2010) e Elba Maxi (Junho 2013).

Mas mesmo com essas margens infinitas, eventualmente ocorrem cheias tão extremas que o rio avança para a cidade causando grandes problemas. Em Dresden, cheias desse tipo aconteceram em duas datas recentes: 2002 e 2013. Em 2002, a água chegou a invadir partes do centro histórico, inundando ruas, casas, etc. O porão de alguns museus no centro foram inunandos, destruindo importantes obras de artes históricas.

Desde então, várias medidas foram tomadas pela cidade para evitar novas inundações. Em momentos de cheia você vai perceber várias paredes e muros que misteriosamente apareceram do nada em lugares onde antes não havia nem parede nem muro, mas uma rua. Diferentes tipos de paredes retráteis foram desenvolvidas e instaladas em diversos locais:

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Sem água, sem parede

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Com água, com parede

Mas mesmo com esses muros, paredes e diversas outras medidas criadas depois da inundação de 2002 para evitar outra cheia desastrosa, em 2013 o rio subiu mais uma vez acima do esperado. Dessa vez, o centro foi poupado, mas em alguns pontos mais afastados da cidade a água chegou a invadir casas e deslocar pessoas temporariamente. A cidade têm continuamente desenvolvido e executado planos para evitar novos desastres. No escritório em que trabalho recentemente fizemos um projeto para sugerir alternativas para usar áreas inundáveis com os jardins loteáveis típicos daqui (Clique no link pra entender o que eu quero dizer com jardins loteáveis, tem um post sobre isso).

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Não é incomum encontrar em diversos lugares pela cidade pequenas plaquinhas colocadas em paredes em alguns edifícios aqui e ali mostrando o nível que o rio atingiu em determinada cheia – às vezes bem acima do chão!

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Plaquinhas em uma parede no castelo de Pillnitz, em Dresden, marcando as cheias do Elba. A plaquinha mais alta se refere à cheia de 2002.

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Marcações em um dos pilares da Ponte Velha, em Heidelberg, marcando as cheias do rio Neckar.

Deixar as margens desocupadas e de preferência verdes é a maneira ideal de lidar com as enchentes. Embora não seja tão comum ter tanto espaço para o rio como em Dresden, outras cidades também aproveitam as margens dos rios para grandes calçadões ou outros tipos de espaços utilizáveis mas não construídos.

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Frankfurt

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Hamburg

Verdes ou pavimentadas, as margens livres em dias quentes ou de sol tornam-se gigantes parques lineares que cruzam a cidade. O clima bem variado da Alemanha é uma parte importante do estilo de vida das pessoas, e por causa dos invernos longos e frios, assim que sai um solzinho mixuruca em Abril as pessoas já correm para qualquer pedacinho de grama disponível.

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Berlim

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Berlim

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Dresden

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Frankfurt

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Em Dresden, as margens do Elba também são freqüentemente usadas para a decolagem de balões de vôos turísticos!

Nesse contexto, as margens-parques dos rios alemães têm uma importância urbana enorme para as pessoas daqui.

Outros usos típicos são Biergartens:

São uma espécie de bares ao ar livre, onde você pode tomar uma cerveja e comer um salsichão. Super típicos na Alemanha toda, os instalados ao longo dos rios são os mais adorados.

Mas não são todos os rios cujas margens são livres. Em algumas cidades com rios menores, onde enchentes são um problema menos presente, os rios por vezes cruzam por entre as casas e edifícios. Mesmo assim o espaço é de uma forma ou de outra utilizado de maneira urbanisticamente positiva. Um bom exemplo de cidade onde o rio tem esse tipo de estrutura urbana é Nuremberg, mais especificamente o centro histórico de Nuremberg, cruzado pelo rio Pegnitz. Passeando pelo centro, apenas em alguns poucos trechos é possível andar ao longo do rio. Mas o rio aparece, desaparece e reaparece em momentos diversos do seu percurso pelo centro, sob pontes ou mesmo edifícios.

Esses pequenos espaços criados pelo encontro do rio com a cidade têm uma enorme qualidade urbana e dão um imenso charme pra cidade – uma das mais simpáticas cidades alemãs na minha humilde opinião.

Rios e a maneira como eles são tratados são realmente uma das melhores partes de se viver na Alemanha.

Mas como pra tudo há uma exceção, fica aqui uma foto de Wuppertal:

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Jesus, que quê isso!?

Pra terminar o post, uma série de outras fotos bonitas de rios na Alemanha que eu não consegui incorporar no texto mas quero colocar mesmo assim:

(Da esquerda pra direita de cima pra baixo: Bautzen, Berlim, Berlim, Dresden, Dresden, Dresden, Dresden, Görlitz, Heidelberg, Passau, Würzburg e Tharandt.)

Ficou ainda faltando falar de pontes, outro elemento urbano também mega importante, mas esse post já está quilométrico e pontes dá um outro post igualmente longo, então fica pra outro post.

O próximo post e último da série meio ambiente na Alemanha será sobre árvores nas cidades alemãs.


(Publicado em 11 de Junho de 2016)

Plaquinhas coloridas pelas ruas

Se você mora ou já esteve na Alemanha, talvez tenha se deparado com uma plaquinha estranha na rua e se perguntado o que seria. Uma dessas aqui:

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Talvez você nunca nem tenha parado pra prestar atenção. Mas agora que você leu esse post, vai perceber que elas estão realmente por todo lado. Normalmente você vai vê-las nas paredes dos prédios ao longo das ruas. Mas, se não tiverem prédios, ou se o recuo frontal for muito grande, você vai vê-las também fincadas na grama ou em um lugar qualquer, assim:

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E o que é, afinal? Essas plaquinhas servem para indicar os poços de visita na rua em questão. Aquelas tampas que ficam na rua e dão acesso a infraestruturas diversas como encanamentos e outras coisas que ficam enterradas e podem precisar de manutenção. Eu tive que ir pesquisar esse nome “poço de visita”, eu chamaria de bueiro, mas bueiro é só o buraco pra onde vai a água da chuva, né. Então, poço de visita.

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Todas as aberturas nas ruas que dão acesso a serviços subterrâneos estão indicadas por plaquinhas desse tipo em alguma parede nas proximidades. E por quê? É que durante o inverno, em períodos com muita neve, as tampas podem ficar totalmente escondidas pela neve. Imagina os bombeiros chegando para apagar um incêndio e tendo que primeiro tirar a neve de toda a rua pra descobrir onde que está a tampa do hidrante?

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Daí as plaquinhas.

Vamos pegar uma de exemplo para ver como elas indicam a posição da tampa.

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Ok, essa está com uns adesivos em cima, mas dá pra ver. As laranjas indicam tampas que dão acesso à tubulação de aquecimento. São dois tubos, um por onde vem água quente, para o aquecimento dos edifícios (não sei exatamente como funciona) e outro por onde sai água fria. Acho que os acessos na rua devem ser para manutenção, ou talvez para registros onde pode-se desligar a água se necessário. Seja como for, a plaquinha indica a posição da tampa a partir do local onde está afixada. O número embaixo indica a distância perpendicular à rua a partir da plaquinha na qual está a tampa (no caso, 5m). O número à direita (0,3) indica que a tampa está a 30cm de distância da plaquinha, na direção da rua à direita da plaquinha.

As letras e números em cima (ES 25 no caso dessa plaquinha) indicam detalhes do tubo em questão, que tipo de tubo que é, tamanho, etc.

Já a cor da plaquinha indica o tipo de “serviço” (e está escrito em cima, também). A laranja então é para esses encanamentos para aquecimento; a azul, para água potável; a branca com as bordas vermelhas é para hidrante; a amarela para gás; a verde para encanamento de esgoto e; a branca, para a fiação elétrica. As indicações na primeira linha mudam um pouco, mas os números embaixo indicam sempre a distância da plaquinha até a tampa.

Engraçado é como essas plaquinhas passam totalmente batido até alguém apontar uma para você (como estou fazendo agora), e a partir de então você vai notá-las todas o tempo todo para sempre.


(Publicado em 4 de Junho de 2015)

 

Água

Tem muita coisa que dá pra falar sobre água e os hábitos relacionados à água em diferentes países. Eu gostaria de falar mais sobre infraestrutura de água, só que esse é o tópico mais difícil já que envolve conhecimentos bem específicos. Mas eu consegui juntar algumas informações, tanto do uso da água no cotidiano quanto informações mais gerais sobre infraestrutura que acho que dá pra compilar num post.

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Começando com o uso no cotidiano, então.

Recentemente recebi uma pergunta aqui no blog, que é uma questão que assombra os brasileiros em relação aos europeus. Os alemães…. eles… tomam banho todo dia? *tan dan daaan!*

Embora seja comum ouvir dizer que os europeus não tomam banho todo dia, pela minha experiência pessoal os alemães tomam banho todo dia, sim. Minha experiência pessoal significa alemães na casa de quem eu já dormi, ou que já dormiram na minha casa, ou com quem já viajei junto, etc. Mas se minha experiência é representativa ou não eu já não sei. Eu tenho minhas dúvidas, porque recentemente descobrimos que o nosso apartamento, onde moram duas pessoas e um gato, gasta 40% da água do edifício em que moramos (que contém outros 5 apartamentos com um morador em cada, e alguns outros gatos). Conversando com vizinhos para ver onde que estávamos gastando demais e poderíamos reduzir, chegamos à conclusão que o único lugar que poderíamos estar gastando mais que a média era no chuveiro…

Não que isso signifique que eles não tomam banho. Mas por lá é bem comum adotar a prática bem econômica de banho: desligar o chuveiro para passar sabonete e shampoo, e religar para tirar. E ser rápido. Coisas que não fazíamos e estamos tentando adotar já que nosso consumo estava muito alto…

Água aqui é bem cara, e os alemães são bem cuidadosos no seu uso. Pode ter certeza que você jamais verá um alemão limpando o chão do quintal ou lavando o carro com mangueira (aliás, nunca nem vi uma mangueira aqui). Nem mesmo o chão da cozinha e do banheiro eles limpam jogando um monte de água – nem tem ralo geral para o banheiro ou na cozinha. Limpa-se com pano úmido, mesmo.

Aqui paga-se pela água consumida, pela água de esgoto e pela água da chuva que cair sobre o seu terreno e for redirecionada para o sistema público de coleta de esgoto, também. Isso é calculado de acordo com o seu terreno: áreas permeáveis de jardim não são calculadas, áreas com pisos semi-permeáveis são calculadas com uma porcentagem, e áreas cobertas são calculadas em 100%. Se você tiver um sistema de reutilização de água da chuva, tem um desconto proporcional.

Uma coisa muito positiva em relação à água é que por aqui é totalmente normal tomar água da torneira. Você se acostuma tanto que até esquece que em outros lugares é necessário comprar água para beber… Exceto pelo fato de que aqui o default é beber água com gás! Mas mesmo para isso há solução: é super normal nas cozinhas alemãs ter um “gaseificador” de água. Uma maquininha, meio como uma máquina de café, que coloca gás na água. Aí bebe-se sempre água da torneira.

Isso de beber água com gás é realmente o normal. É bem comum que em máquinas de bebidas só seja oferecido água com gás e não sem. Em restaurantes ou lanchonetes, se você pedir uma água e não especificar que quer sem gás, invariavelmente você vai receber água com gás. Se você especificar que quer sem gás (stilles Wasser ou ohne Kohlensäure), talvez eles se lembrem de trazer água sem gás. A solução mais segura é pedir água da torneira, mesmo: Leitungswasser.

Mas ainda mais estranho que isso é uma das opções (embora, admito, não a mais comum) de água para comprar: água em tetrapack. Sim. Água. Em embalagem tetrapack. Por que alguém teve essa brilhante idéia eu não sei.

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(Publicado em 1˚ de Maio de 2015)

Contas de consumo

Esse post talvez seja menos interessante para os curiosos regulares de cultura alemã, mas mais para aqueles que planejam vir morar na Alemanha e querem saber detalhes dos custos de vida.

Contas de consumo. Antes de falarmos das contas em específico, vale a pena discutir um pouco os típicos consumos de uma casa alemã. A primeira coisa bem óbvia é, claro, o aquecimento. Aqui na maioria das casas e prédios têm aquecimento a gás. O mais comum é um aquecimento central para o edifício inteiro, e, claro, em cada cômodo do seu apartamento você tem um aquecedor que você pode ligar, desligar, aumentar ou diminuir de acordo com o necessário. A conta a pagar é calculada do seu consumo particular. Algumas casas e apartamentos ainda têm aquecimento com carvão, mas não é muito comum.

Então o gás você usa para o aquecimento da casa, e para aquecer a água também. Lembrando que aqui tem água quente não só no chuveiro, mas também em todas as pias. Mas uma coisa que praticamente nunca é a gás são fogões. Fogão elétrico é muuuuito mais comum, e em vários – talvez a maioria – dos apartamentos nem tem ligação de gás para o fogão, de maneira que não é opção.

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A única outra coisa que gera gastos diferentes da casa média brasileira é a máquina de lavar louça, também extremamente comum por aqui. A princípio, lavar a louça na máquina gasta menos água que lavar a mão, mas vai também um pouco de energia no aquecimento da água (Aqui isso não faz muita diferença já que é comum usar água quente na torneira também). O que me lembra de mais uma diferença: aqui as máquinas de lavar roupa todas têm escolha de temperatura. É normal lavar roupas com água quente, especialmente para roupas de baixo e toalhas e panos de chão.

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Mas vamos para o que importa. Quanto você vai pagar por tudo isso? Caro. Caro pra xuxu. Eletricidade e água, na Alemanha, são caríssimos, mais que o dobro do preço no Brasil. Água em específico aqui é uma das mais caras do mundo. Vai aprendendo a racionar que a conta vai doer no bolso. Tem seus pontos positivos: esbanjos absurdos de água – como lavar a calçada ou o quintal com mangueira – é uma coisa que você jamais vai testemunhar por aqui.

E as contas de consumo funcionam de maneira um pouco diferente, por aqui. Ao invés de pagar mensalmente de acordo com o consumo, para todas as contas é calculado um valor fixo de acordo com o que é esperado que você gaste, e anualmente calcula-se a diferença do que foi gasto e o que foi pago.

Então por exemplo agora, Julho de 2014, acabamos de receber a conta para a diferença dos consumos e gastos de 2013 inclusos no condomínio. O condomínio por aqui costuma incluir a água, o aquecimento (gás) e eventuais pequenos gastos do edifício como limpeza semanal, manutenção do elevador se tiver, etc. Esses gastos são pequenos em comparação com as contas de consumo, já que os edifícios residenciais aqui não empregam porteiros, faxineiras, jardineiros ou manobristas (limpeza e eventuais serviços são contratados a parte por empresas terceirizadas). Então a maior parte do valor do condomínio são mesmo as contas de água e gás. O preço é calculado de acordo com o ano anterior, então, quando você se muda para um apartamento novo, o preço que você vai pagar vai ser aquele que o locatário anterior estava pagando. Se antes morava uma pessoa sozinha e agora você se mudou com mais outras duas pessoas para o apartamento, espere uma conta gorda no ano seguinte e um belo dum reajuste.

O que acontece, portanto, é que ao final do ano (ou melhor, lá pela metade do ano seguinte), eles fazem o cálculo do que foi gasto e do que foi pago, te cobram (ou devolvem) a diferença, e reajustam o valor do condomínio de acordo com os gastos do ano anterior para tentar equalizar a conta para o ano que vem.

Só que o consumo varia bastante de ano a ano devido ao aquecimento. Tem ano que o inverno é rigoroso e portanto o gasto com aquecimento é muito maior que em outros anos com invernos mais brandos.

Portanto, após invernos muito frios, pode ir contanto com uma conta salgada a chegar lá pelo meio do ano.

Com a conta de eletricidade é quase a mesma coisa, com a diferença de que é você que contrata a empresa fornecedora de energia por conta própria – tem várias opções, inclusive empresas que fornecem energia oriunda exclusivamente de fontes renováveis – e o valor a pagar será calculado de acordo com o tamanho da residência e o número de moradores.

Pesquisando sobre o assunto de preço de contas de consumo, encontrei esse interessante site que compara custo de vida em dois países de sua escolha:

http://www.numbeo.com/cost-of-living/compare_countries_result.jsp?country1=Germany&country2=Brazil

Dá para escolher duas cidades específicas também. Com a comparação desse site, dá para ver que uma das diferenças mais gritantes de custo de vida está mesmo nas contas de consumo, que na Alemanha são aproximadamente 3 vezes mais caras que no Brasil… Bom, pelo menos a água daqui é super bem tratada e é perfeitamente confiável para beber direto da torneira…


(Publicado em 29 de Julho de 2014)