alemanha oriental

Nö?

Quando se aprende uma língua nova, demora um pouco pra conseguir começar a perceber e reconhecer sotaques diferentes dentro da mesma língua. E o alemão tem uma particularidade nesse sentido. Existe uma pronúncia específica do alemão que é a correta. Esse alemão padrão se chama “Hochdeutsch“, ou “Alto alemão”. É esse alemão que se ensina em cursos de alemão e na escola, que se fala na televisão, etc. Qualquer sotaque diferente, aqui chamado de dialeto, é considerado uma variação local não-oficial da língua. Isso inclui gírias e palavras locais como também a pronúncia típica do alemão naquela região. Cada região tem o seu dialeto local.

No começo você percebe que tem uma dificuldade maior pra entender algumas pessoas enquanto outras você entende com mais facilidade, mas não consegue apontar precisamente as diferenças em como cada pessoa fala o alemão.

Aqui na Saxônia é falado o alemão saxão, ou Sächsisch. Eu trabalho com pessoas daqui que falam com um sotaque local BEM carregado, e tem vezes que eu não entendo patavina do que a pessoa tá falando. Mas as poucos o ouvido vai ficando treinado a perceber as sutilezas (ou obviedades) nas diferenças de pronúncia.

O dialeto saxão, para o ouvido dos alemães não-saxões, soa bem engraçado e um tanto ridículo. Deve ser principalmente por causa das vogais:

O → Ö – talvez o som mais notavelmente diferente e que faz o sotaque soar engraçado é que na maioria das palavras com o, eles pronunciam ö, que é uma mistura entre o e e. Fica como se em português em vez de a vc falasse ã em todas as palavras que são com a.

A  O – E o a, em vez de eles falarem um som aberto, eles falam ele bem fechado, soa como o.

EI → ÊI – O ditongo ei em alemão se pronuncia ai, com a, mesmo. Mas no dialeto saxão eles falam ei fechado, com som de ê.

Então basicamente em Sächsisch as vogais são pronunciadas fechadas onde em Hochdeutsch elas são abertas. Eu tenho a impressão de que deve soar para os alemães meio que nem aquelas venusianas daquele episódio do Chapolin Colorado em que ele vai pra Vênus, saca? Esse aqui:

Outras diferenças:

CH → SCH – Aquele som típico do alemão, que não existe em português, o ch em palavras como ich (eu). É tipo um som de x só que com a língua presa. Mas na saxônia eles falam ch como x, mesmo (ou o equivalente alemão sch).

T  D, P  B – Alguns sons, tipo T, e P, são as vezes em Sächsisch falados mais fortes, tipo D ou B. Por exemplo: Tag (dia) às vezes é pronunciado Dag.

Nicht  Ni – Ao falar nicht (não), os saxões muitas vezes não pronunciam o cht, falando apenas “ni”.

Um exemplo do Sächsisch escrito com fonemas alemães nesse quadrinho:

Flix.jpeg

Flix (www.der-flix.de) – Das war mal was

Essa tirinha é de um livro de quadrinhos onde o autor, Flix, conta a impressão que ele e seus amigos tinham da Alemanha Oriental antes da queda do muro. Na historinha acima, a dele, ele conta como ele tinha ouvido falar que na Alemanha Oriental era proibido ter tanques de guerra de brinquedo. Então ele imagina vários esquemas para contrabandear um tanque de guerra de brinquedo da Alemanha Ocidental para a Alemanha Oriental – por exemplo escondendo o tanque dentro de um ursinho. O guarda da Alemanha Oriental olha o carro e comenta, com seu sotaque forte saxônico: “Podem passar! Posso ver claramente que vocês não estão trazendo nenhum tanque de guerra de brinquedo!” ou algo assim: “Bõdem bossar! Bõsso ver gloromente gue võcês não esdão drozendo nenhum donque de guerra de bringuedo!” (a fala do guarda em alemão normal seria: “Sie können passieren! Sie haben ja offensichtlich keine Spielzeugpanzer dabei!!”)

Mas depois desse post inteiro que certamente está bem chato pra quem não fala alemão, a grande questão é: Que que é o Nö? do título, afinal?

Nö? é uma palavra-interjeição saxônica muuuuuuuito utilizada por aqui. Eles brincam que Nö? quer dizer Sim, mas na verdade você pode imaginar o Nö? como sendo um “Né?”, é basicamente isso. E eles usam pra responder perguntas ou até só pra dizer “aham”.

Eis alguns exemplos de diálogos onde o Nö? pode ser utilizado:

“Eu queria dois pãezinhos, por favor?”
“Nö?”

“Bonito o dia hoje, não?
“Nö?”

“Nossa, tá quente aqui, vou abrir a janela.”
“Nö?”

“Posso pegar essa caneta?”
“Nö?”

“Vou te mandar os dados por email, então.”
“Nö?”

Ou seja. É basicamente um é-ok-aham-tá-sim-pois não-fique à vontade.

O engraçado é que eles usam esse Nö? com tanta frenqüência que às vezes vc ouve alguém daqui falando no telefone e a conversa inteira que você está ouvindo é só uma sucessão de Nö?s. Talvez a pessoa do outro lado da linha também esteja falando só Nö?s e a conversa é um código secreto que só as pessoas da Saxônia compreendem!

Eis um vídeo bem bobo que eu achei no Youtube sobre o dialeto saxão:

No vídeo, uma moça aborda alguns rapazes em Colônia, falando no dialeto saxão, convidando-os pra ir tomar um café ou uma cerveja, e todos recusam. Depois ela tenta de novo falando em Hochdeutsch e todos aceitam. Achei meio preconceituoso e não creio que seja de fato tão extremo assim, mas realmente pelo que parece na Alemanha o dialeto saxão é mesmo um tanto desprezado. Isso pode ter também um pouco (ou muito) de fundo no fato de a Alemanha Oriental e os alemães orientais serem vistos como um tanto atrasados pelos ocidentais depois da reunificação. Certamente também por isso o sotaque do leste acabou ganhando essa conotação negativa. Segundo meu namorado, que é da região de Colônia mas mora em Dresden há mais de dez anos, na verdade qualquer dialeto soa meio ridículo e dá a impressão de que a pessoa não é muito educada, e tal (educada no sentido de ter ido pra escola, mesmo).

E para concluir, aqui nesse artigo do Bild tem um mapa da Alemanha com áudios dos dialetos típicos de algumas regiões.


(Publicado em 22 de Março de 2016)

9 de Novembro

Era pra eu escrever esse post ontem, que foi 9 de novembro, mas enfim. Serve.

9 de Novembro é uma data importante na Alemanha, com diversos acontecimentos históricos. O mais recente e talvez mais lembrado é o dia da queda do muro de Berlim, 9 de Novembro de 1989. Um acontecimento importante o suficiente para fazer do dia 9 de Novembro um feriado. Não fosse por outras memórias ligadas a essa data, especialmente àquela de 9 de Novembro de 1938, que ficou conhecido como a Noite dos Cristais.

Nessa noite de 1938, sinagogas, lojas e residências de proprietários judeus foram atacadas, destruídas, queimadas e arruinadas por multidões enfurecidas instigadas ao ódio anti-semita pelo partido nazista. Membros do NSDAP (o partido nazista) e do SA (Sturmabteilung, a milícia militar nazista), que organizaram e iniciaram os ataques a pedido de Hitler, vestiram-se à paisana para dar a impressão para a população que os ataques foram uma manifestação espontânea da população alemã contra os judeus, que foram multados em 1 bilhão de marcos pelo governo nazista, além de obrigados a limpar e reorganizar a bagunça resultante e a pagar dos próprios bolsos o prejuízo que tiveram em suas lojas, casas e sinagogas.

Loja de proprietário judeu destruídas após a noite dos cristais. Bundesarchiv, Bild 146-1970-083-42

Sinagoga destruída após a Noite dos Cristais.

Para relembrar a história, na noite de 9 de novembro há vigílias e manifestações nas sinagogas das cidades alemãs. Além, claro, de vários carros de polícia em volta das sinagogas, por via das dúvidas.

Manifestação pela tolerância na frente da sinagoga de Dresden em 9 de Novembro de 2015.

Manifestação pela tolerância na frente da sinagoga de Dresden em 9 de Novembro de 2015.

Muitos carros de polícia em volta da sinagoga.

Muitos carros de polícia em volta da sinagoga.

E, como falei lá no começo, foi nessa mesma noite, 51 anos depois, que o muro de Berlim foi derrubado 32 anos após sua construção.

É um tremendo desafio escrever aqui um texto sucinto, correto e apropriado sobre um evento tão importante e que marcou o fim de uma era. Mas vou tentar.

A parte talvez mais curiosa da história da queda do muro é que foi tudo meio sem querer. Com o desgaste do regime, o controle dos cidadãos na Alemanha Oriental e outros países da europa oriental estava ficando gradualmente menos rígido. Em 19 de Agosto de 1989, a Hungria desativou as defesas na borda com a Áustria. Isso significa que embora a borda física ainda existisse (grades com arame farpado, ou barreiras similares), não haviam mais soldados vigiando a borda, de maneira que a fuga para o oeste via Hungria-Aústria foi extremamente facilitada. Multidões de cidadãos da Alemanha Oriental começaram a viajar para a Hungria para fugir para o Oeste – não muito diferente das multidões de refugiados do oriente médio que hoje fazem o caminho contrário para subir à Alemanha via Hungria. Os então leste-alemães seguiam para a Alemanha Ocidental onde eram dados a condição de refugiados e autorizados a permanecer.

O governo alemão então proibiu viagens à Hungria, só para assistir o percurso de fuga se deslocar para a República Tcheca, país para o qual os então leste-alemães podiam viajar livremente devido a acordos entre os dois governos. A movimentação de refugiados era tão grande que o governo leste-alemão acabou decidindo permitir a saída (definitiva) de cidadãos diretamente pela Alemanha, e um pouco mais tarde no mesmo dia (9 de novembro) permitir também viagens de ida e volta para a Alemanha Ocidental (ou seja, os cidadãos leste-alemães poderiam ir para a Alemanha Ocidental sem precisar fugir do país para nunca mais voltar). O chefe do partido em Berlim Oriental e porta-voz para a mídia, Günter Schabowski, ficou responsável por comunicar as mudanças nas regras, mas ele não tinha estado presente nas discussões e não estava ciente de todos os detalhes envolvidos. Ele recebeu uma nota pouco antes da conferência de imprensa em que comunicaria as mudanças, mas não foi informado de que as regras passariam a valer no dia seguinte, para que desse tempo de informar os guardas da fronteira a respeito das novas regras. Na conferência, Schabowski leu em voz alta a nota que tinha recebido, e ao ser perguntado quando passariam a valer as novas regras respondeu que, pelo que a nota dizia, presumia que as regras passavam a valer imediatamente.

A notícia rapidamente se espalhou pelos dois lados da Alemanha e leste-alemães começaram a se reunir nos check-points do muro de Berlim exigindo que os portões fossem abertos, enquanto berlinenses do outro lado se juntavam nas saídas com flores e champagne para recebê-los. Na confusão das informações, os guardas da borda não sabiam o que fazer e ninguém do governo queria ser o responsável por dar a ordem de atirar em quem atravessasse sem autorização, de maneira que eles acabaram por abrir os portões e massas de pessoas fluiram para Berlim Ocidental de encontro aos berlinenses do outro lado em uma grande e emocionante comemoração.

Com a grande multidão de pessoas de ambos os lados, logo os do lado Oeste subiram no muro para ajudar os do leste a escalar e pular para o outro lado, seguido pelas iniciativas de destruição do muro com marretas e o que tivesse disponível.

Eis um momento emocionante da história do mundo que eu gostaria de ter testemunhado em pessoa. Nem dá pra imaginar o que essas pessoas devem ter sentido ao poderem se reencontrar depois de mais de 50 anos divididos.

Fotógrafa: Sue Ream

Lear 21 via English Wikipedia.

Dois 9 de Novembros, um em 1938 e outro em 1989, que marcaram o início e o fim de tempos sombrios da história alemã, que esperamos que não se repitam. Infelizmente, há ainda aqueles que desejam tanto a perseguição e intolerância aos não-alemães quanto a separação com muros e fechamento das fronteiras. Em contextos um pouco diferentes, é claro, mas movidos pelo mesmo radicalismo, ódio e medo que no passado. Felizmente não são a maioria.

Se você quiser saber o que visitar em Berlim para saber mais sobre a história da cidade e da Alemanha durante o século XX, dá uma lida no post de dicas de viagem sobre Berlim!


(Publicado em 10 de Novembro de 2015)