aquecimento

Casas quentinhas

Essa semana o inverno chegou. (em vários sentidos, inclusive)

As temperaturas caíram bem e ontem, aqui em Dresden, veio a primeira neve da estação. Enquanto eu aproveitava o ar quentinho vindo do aquecedor durante o trabalho, percebi que ainda não escrevi muita coisa sobre aquecedores e tal. Ou melhor, sobre como que as casas ficam quentinhas no inverno, aqui.

No Brasil é comum a gente ouvir que alguns europeus passam mais frio no Brasil que na Europa porque fica gelado dentro de casa enquanto aqui tem aquecedor no inverno. Mas na verdade não é simplesmente o aquecedor que faz a casa ficar quentinha. Tem toda uma série de particulares das casas e prédios aqui que os mantém quentinhos no inverno.

É basicamente uma combinação de dois fatores: aquecimento e isolamento.

Pra isolar uma casa ou prédio da temperatura exterior, ele tem que ser completamente fechável. Quer dizer, não pode ter nenhuma frestinha constantemente aberta, como as casas brasileiras têm. Tipo aquela frestinha embaixo da porta de entrada em que as pessoas às vezes colocam uma borrachinha pra não entrar barata por ali, ou a frestinha que normalmente tem em janelas de correr entre as duas folhas? Aqui não dá pra ser assim, as portas e janelas têm que ser de uma qualidade melhor, bem mais isoladas, pra não deixar o ar quente sair. Além da ausência de frestinhas, os vidros são sempre duplos. Em algumas casas mais antigas, inclusive, não é incomum que tenham duas janelas, uma na frente da outra. Tipo no escritório onde eu trabalho:

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São duas janelas, mesmo, simplesmente. Isso certamente porque em algum momento do passado tinha só uma, aí pra melhorar a eficiência energética da casa hoje instalaram a segunda janela na frente, pra evitar a perda de calor para o exterior.

Em locais públicos a porta também é uma questão a ser resolvida. Numa loja, por exemplo, ou num shopping, a porta é aberta com muita freqüência, então o calor pode ser perdido muito facilmente pelas portas. Por isso que nesses lugares há sempre duas portas. Uma porta, aí um pequeno hall, e uns 2 metros mais pra frente, a segunda porta. E no espaço entre as duas, um aquecedor bem forte, de maneira que o ar no interior do edifício está sempre quentinho.

É aliás pra isso que existe porta giratória. Justamente pq aí a porta está sempre fechada, mesmo quando tem gente entrando. Claro que o ar quente tb sai dessa maneira, mas bem menos que em uma porta normal. Mas portas giratórias não são muito comuns por aqui, quando tem são umas bem grandes que cabe várias pessoas ao mesmo tempo. Isso porque essas portas giratórias (são bem mais comuns na américa do Norte) são pouco práticas em termos de fluxo de pessoa – você tem que esperar a sua vez de entrar e em locais com muito movimento às vezes acaba criando uma filinha atrás da porta.

Em locais menores com bastante movimento de pessoas, como restaurantes, é relativamente comum ter uma segunda porta “improvisada”. É basicamente um cubiculozinho feito de cortinas: vc entra pela porta de entrada nesse cubiculozinho de cortinas e aí passa pela cortina pra dentro do restaurante. Isso evita que o ar geladão lá de fora entre e incomode as pessoas que tão sentadas perto da porta comendo.

E além das janelas e portas, as paredes também têm que ser construídas de maneira a isolar o interior termicamente. Isso é feito com a adição de algum material isolante à construção da parede, normalmente é ou isopor ou lã mineral. É por isso, aliás, que vários edifícios (não todoss) são assim:

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O material isolante fica no exterior da parede, e como o porão não precisa ser isolado, porque não precisa ser aquecido, é comum que o isolamento não chegue no chão. Pela presença do isolamento também que as paredes externas aqui são bem mais grossas do que a gente está acostumado no Brasil, algo por volta de 45cm de espessura. O material isolante tem que estar não apenas nas paredes, mas também no telhado e no piso. A casa inteira tem que ser isolada de todos os lados em todas as direções. Só assim pra ficar bem quentinho lá dentro.

Então um edifício seguindo as idéias do modernismo brasileiro – todo aberto sem portas, como é o caso da Faculdade de Arquitetura da USP, a FAU – nunca ia rolar, aqui!

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Os arquitetos alemães bem que sentem uma invejinha de não poderem construir algo desse tipo!

Ah, e toda essa conversa sobre ar quente que sai e ar frio que entra também se aplica a outras coisas que não prédios: metrôs, trens e ônibus. Se você já esteve aqui, percebeu que pra entrar nos ônibus ou metrôs, você tem que apertar um botão que abre a porta. A porta fica sempre fechada, só abre quando algum passageiro aperta o botão pra entrar ou sair. Então se você pára em uma estação e ninguém desce ou sobe, a porta continua fechada. Se você pára em uma estação onde tem só uma pessoa, só a porta que essa pessoa for usar abre. Pra gente que não está acostumado, é meio confuso no começo: você fica de pé ali na porta esperando ela abrir até se tocar – ou alguém te avisar – que você tem que apertar o botão. Mas aí quando chega o inverno você entende exatamente porque é assim: cada vez que alguém entra ou sai do metrô ou ônibus pela porta mais próxima de você, você xinga a pessoa mentalmente por fazer o ar geladão lá de fora entrar, rsrsrsrs.

Mas claro, isolar não adianta se não tiver como aquecer o interior. Aí que entra o aquecimento. Normalmente os aquecedores daqui têm essa cara:

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Eles funcionam da seguinte maneira: a água é aquecida (normalmente a gas) no porão e distribuída pelos apartamentos por encanamentos que então chegam nesses aquecedores. O aquecedor mesmo é basicamente vários canos um do lado do outro por onde passa a água quente.

Esses aquecedores são reguláveis:

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Tem níveis de 1 a 5, 5 sendo o mais quente. 1 e 2 você basicamente só usa pra quando você vai ficar fora do cômodo mas quer que o cômodo ainda esteja aquecido quando você voltar. Por exemplo no escritório a gente deixa os aquecedores no 1 durante a noite pra não estar super gelado lá dentro quando voltamos no dia seguinte. Normalmente enquanto você está no cômodo vc deixa no 3, e só coloca no 5 quando está gelado e você quer esquentar o cômodo rapidinho.

Em casa, é importante lembrar de desligar os aquecedores quando você não estiver em casa ou não estiver usando determinado cômodo. O preço do aquecimento pelo ano inteiro vêm só no ano seguinte e na primeira vez, se você não prestou atenção, você vai se assustar com o preço salgadíssimo do gás e da água!

Em alguns prédios mais antigos, tem aquecimento a carvão: aí tem basicamente um forno em cada cômodo onde você queima o carvão. É um método antigo e bem menos eficiente de aquecer, mas andando pela rua em bairros com muitos prédios antigos você freqüentemente sente o cheiro típico do carvão queimado (é bem gostoso, na verdade, pq é um cheiro que te remete muito a inverno, alemanha, natal, sei lá. Já até escrevi um post sobre isso aqui.)

Como os pontos mais “vulneráveis” de qualquer casa ou edifício em termos de eficiência térmica são justamente as vidraças, é sempre logo abaixo da janela que fica o aquecedor. Ou, quando a janela vai até o chão, logo ao lado. Assim:

Você vai notar, se a sua casa tiver cômodos sem janelas (o banheiro, por exemplo), que esses cômodos raramente precisam de aquecimento. É o caso do nosso banheiro, que tem um aquecedor que nós nunca em mais de 4 anos morando aqui precisamos ligar. Ele tem até aquecedor no piso, que nós também nunca ligamos porque o banheiro nunca fica gelado, já que ele fica no meio de outros cômodos aquecidos.

Ah, e se você tiver um carro por aqui, ele quase com certeza terá aquecimento nos bancos! Sim, o banco fica quentinho! É a melhor coisa!

Mas se você usa óculos, você vai se incomodar profundamente cada vez que você entra da rua num ambiente fechado aquecido: o óculos fica embaçado imediatamente, como quando você entra num banheiro onde alguém está tomando banho…

Acho que é isso que há para falar sobre aquecedores e ambientes quentinhos, exceto pelas várias outras coisas que eu vou lembrar daqui a 10 minutos!


(Publicado em 13 de Novembro de 2016)

Plaquinhas coloridas pelas ruas

Se você mora ou já esteve na Alemanha, talvez tenha se deparado com uma plaquinha estranha na rua e se perguntado o que seria. Uma dessas aqui:

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Talvez você nunca nem tenha parado pra prestar atenção. Mas agora que você leu esse post, vai perceber que elas estão realmente por todo lado. Normalmente você vai vê-las nas paredes dos prédios ao longo das ruas. Mas, se não tiverem prédios, ou se o recuo frontal for muito grande, você vai vê-las também fincadas na grama ou em um lugar qualquer, assim:

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E o que é, afinal? Essas plaquinhas servem para indicar os poços de visita na rua em questão. Aquelas tampas que ficam na rua e dão acesso a infraestruturas diversas como encanamentos e outras coisas que ficam enterradas e podem precisar de manutenção. Eu tive que ir pesquisar esse nome “poço de visita”, eu chamaria de bueiro, mas bueiro é só o buraco pra onde vai a água da chuva, né. Então, poço de visita.

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Todas as aberturas nas ruas que dão acesso a serviços subterrâneos estão indicadas por plaquinhas desse tipo em alguma parede nas proximidades. E por quê? É que durante o inverno, em períodos com muita neve, as tampas podem ficar totalmente escondidas pela neve. Imagina os bombeiros chegando para apagar um incêndio e tendo que primeiro tirar a neve de toda a rua pra descobrir onde que está a tampa do hidrante?

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Daí as plaquinhas.

Vamos pegar uma de exemplo para ver como elas indicam a posição da tampa.

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Ok, essa está com uns adesivos em cima, mas dá pra ver. As laranjas indicam tampas que dão acesso à tubulação de aquecimento. São dois tubos, um por onde vem água quente, para o aquecimento dos edifícios (não sei exatamente como funciona) e outro por onde sai água fria. Acho que os acessos na rua devem ser para manutenção, ou talvez para registros onde pode-se desligar a água se necessário. Seja como for, a plaquinha indica a posição da tampa a partir do local onde está afixada. O número embaixo indica a distância perpendicular à rua a partir da plaquinha na qual está a tampa (no caso, 5m). O número à direita (0,3) indica que a tampa está a 30cm de distância da plaquinha, na direção da rua à direita da plaquinha.

As letras e números em cima (ES 25 no caso dessa plaquinha) indicam detalhes do tubo em questão, que tipo de tubo que é, tamanho, etc.

Já a cor da plaquinha indica o tipo de “serviço” (e está escrito em cima, também). A laranja então é para esses encanamentos para aquecimento; a azul, para água potável; a branca com as bordas vermelhas é para hidrante; a amarela para gás; a verde para encanamento de esgoto e; a branca, para a fiação elétrica. As indicações na primeira linha mudam um pouco, mas os números embaixo indicam sempre a distância da plaquinha até a tampa.

Engraçado é como essas plaquinhas passam totalmente batido até alguém apontar uma para você (como estou fazendo agora), e a partir de então você vai notá-las todas o tempo todo para sempre.


(Publicado em 4 de Junho de 2015)

 

Contas de consumo

Esse post talvez seja menos interessante para os curiosos regulares de cultura alemã, mas mais para aqueles que planejam vir morar na Alemanha e querem saber detalhes dos custos de vida.

Contas de consumo. Antes de falarmos das contas em específico, vale a pena discutir um pouco os típicos consumos de uma casa alemã. A primeira coisa bem óbvia é, claro, o aquecimento. Aqui na maioria das casas e prédios têm aquecimento a gás. O mais comum é um aquecimento central para o edifício inteiro, e, claro, em cada cômodo do seu apartamento você tem um aquecedor que você pode ligar, desligar, aumentar ou diminuir de acordo com o necessário. A conta a pagar é calculada do seu consumo particular. Algumas casas e apartamentos ainda têm aquecimento com carvão, mas não é muito comum.

Então o gás você usa para o aquecimento da casa, e para aquecer a água também. Lembrando que aqui tem água quente não só no chuveiro, mas também em todas as pias. Mas uma coisa que praticamente nunca é a gás são fogões. Fogão elétrico é muuuuito mais comum, e em vários – talvez a maioria – dos apartamentos nem tem ligação de gás para o fogão, de maneira que não é opção.

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A única outra coisa que gera gastos diferentes da casa média brasileira é a máquina de lavar louça, também extremamente comum por aqui. A princípio, lavar a louça na máquina gasta menos água que lavar a mão, mas vai também um pouco de energia no aquecimento da água (Aqui isso não faz muita diferença já que é comum usar água quente na torneira também). O que me lembra de mais uma diferença: aqui as máquinas de lavar roupa todas têm escolha de temperatura. É normal lavar roupas com água quente, especialmente para roupas de baixo e toalhas e panos de chão.

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Mas vamos para o que importa. Quanto você vai pagar por tudo isso? Caro. Caro pra xuxu. Eletricidade e água, na Alemanha, são caríssimos, mais que o dobro do preço no Brasil. Água em específico aqui é uma das mais caras do mundo. Vai aprendendo a racionar que a conta vai doer no bolso. Tem seus pontos positivos: esbanjos absurdos de água – como lavar a calçada ou o quintal com mangueira – é uma coisa que você jamais vai testemunhar por aqui.

E as contas de consumo funcionam de maneira um pouco diferente, por aqui. Ao invés de pagar mensalmente de acordo com o consumo, para todas as contas é calculado um valor fixo de acordo com o que é esperado que você gaste, e anualmente calcula-se a diferença do que foi gasto e o que foi pago.

Então por exemplo agora, Julho de 2014, acabamos de receber a conta para a diferença dos consumos e gastos de 2013 inclusos no condomínio. O condomínio por aqui costuma incluir a água, o aquecimento (gás) e eventuais pequenos gastos do edifício como limpeza semanal, manutenção do elevador se tiver, etc. Esses gastos são pequenos em comparação com as contas de consumo, já que os edifícios residenciais aqui não empregam porteiros, faxineiras, jardineiros ou manobristas (limpeza e eventuais serviços são contratados a parte por empresas terceirizadas). Então a maior parte do valor do condomínio são mesmo as contas de água e gás. O preço é calculado de acordo com o ano anterior, então, quando você se muda para um apartamento novo, o preço que você vai pagar vai ser aquele que o locatário anterior estava pagando. Se antes morava uma pessoa sozinha e agora você se mudou com mais outras duas pessoas para o apartamento, espere uma conta gorda no ano seguinte e um belo dum reajuste.

O que acontece, portanto, é que ao final do ano (ou melhor, lá pela metade do ano seguinte), eles fazem o cálculo do que foi gasto e do que foi pago, te cobram (ou devolvem) a diferença, e reajustam o valor do condomínio de acordo com os gastos do ano anterior para tentar equalizar a conta para o ano que vem.

Só que o consumo varia bastante de ano a ano devido ao aquecimento. Tem ano que o inverno é rigoroso e portanto o gasto com aquecimento é muito maior que em outros anos com invernos mais brandos.

Portanto, após invernos muito frios, pode ir contanto com uma conta salgada a chegar lá pelo meio do ano.

Com a conta de eletricidade é quase a mesma coisa, com a diferença de que é você que contrata a empresa fornecedora de energia por conta própria – tem várias opções, inclusive empresas que fornecem energia oriunda exclusivamente de fontes renováveis – e o valor a pagar será calculado de acordo com o tamanho da residência e o número de moradores.

Pesquisando sobre o assunto de preço de contas de consumo, encontrei esse interessante site que compara custo de vida em dois países de sua escolha:

http://www.numbeo.com/cost-of-living/compare_countries_result.jsp?country1=Germany&country2=Brazil

Dá para escolher duas cidades específicas também. Com a comparação desse site, dá para ver que uma das diferenças mais gritantes de custo de vida está mesmo nas contas de consumo, que na Alemanha são aproximadamente 3 vezes mais caras que no Brasil… Bom, pelo menos a água daqui é super bem tratada e é perfeitamente confiável para beber direto da torneira…


(Publicado em 29 de Julho de 2014)