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Trümmerfrauen – As mulheres que reconstruíram a Alemanha

Recentemente eu precisei para um projeto procurar algumas fotos antigas de uma rua aqui de Dresden. A dica de uma colega foi dar uma olhada no catálogo da Deutsche Fotothek – o departamento de fotografias históricas da Biblioteca Estadual da Saxônia, a SLUB (Sächsische Landesbibliothek – Staats- und Universitätsbibliothek), onde eu então me perdi por horas a fio. A Fotothek disponibiliza online as fotos do seu catálogo, um imenso banco de fotografias antigas – a maioria aqui da região, mas outras de outros locais também. Dá pra ficar horas lá assistindo a história de Dresden se desenrolar desde o advento da fotografia até anos recentes. Claro que as fotos mais impressionantes são as da época da guerra e especialmente do pós-guerra. Como expliquei no post sobre Dresden, a cidade foi destruída quase por completo em 13 de Fevereiro de 1945, um dos últimos bombardeios de grande escala da segunda guerra. Mais impressionante que as fotos da cidade destruída (que já são tão famosas e amplamente divulgadas) são porém as fotos dos anos seguintes, quando os sobreviventes limparam os destroços e reconstruiram partes da cidade.

A história da Enttrümmerung (remoção de destroços) e Wiederaufbau (reconstrução) de Dresden (e outras cidades alemãs) é particularmente interessante porque esse foi um trabalho realizado majoritariamente por mulheres. Os homens sobreviventes, que não eram muito velhos ou doentes para serem soldados, permaneceram algum tempo detidos pelas forças aliadas após o final da guerra.

Desta história criou-se o termo “Trümmerfrauen“, literalmente traduzido para “mulheres dos destroços”, para se referir ás mulheres sobreviventes que juntas removeram os destroços de suas cidades destruídas e reconstruíram as mesmas.

Em Dresden há inclusive um monumento à Trümmerfrau (Trümmerfrau – singular, Trümmerfrauen – plural), uma escultura bem na frente do edifício da prefeitura.

A iniciativa de recordar e comemorar o esforço dessas mulheres é bem digna. Foi um trabalho que não apenas exigiu muito esforço físico e muitas horas de trabalho árduo ao longo de vários meses, mas especialmente que necessitou uma tremenda resiliência e e força de vontade de ver sua cidade completamente destruída e ainda assim encontrar energia mental para se levantar todos os dias e ir empilhar tijolos.

Infelizmente essa memória é muitas vezes resignificada por grupos neo-nazis ou ultra-nacionalistas que usam esse e outros monumentos que glorificam os esforços de reconstrução do país como motivo para enaltecer e exaltar os alemães etcetc, convenientemente esquecendo de mencionar que a cidade precisou ser reconstruída porque foi destruída pela guerra que os maridos daquelas mulheres inventaram de começar, e que a sociedade como um todo leva a culpa pelas atrocidades cometidas durante a guerra, tenha sido por participação ativa ou passiva. Vítimas da guerra eram os sobreviventes de certa maneira, mas ainda sempre culpados pela mesma, e pelo assassinato em massa de judeus e outros grupos. Se não pela direta participação então pela silenciosa aquiescência aos horrores do holocausto.

Mas mesmo mantendo em vista o contexto, ainda é possível admirar os esforços da reconstrução, então voltando às fotos. Li as regras e consultei a Fotothek a respeito do uso das fotos da Fotothek e por sorte é permitido publicar as imagens na resolução disponibilizada gratuitamente online desde que seja para uso pessoal – no caso de websites, contam como uso pessoal aqueles que não visam lucro, não têm propagandas, etc.  E lá na Fotothek há inúmeras fotos desses trabalhos de remoção dos destroços e reconstrução e é um tanto engraçado ver que as mulheres que nas fotos aparecem são mesmo iguaizinhas à escultura! Nos tempos de austeridade pós guerra não era muita a variedade de vestimentas, de maneira que todas estão exatamente como a mulher símbolo esculpida: um avental para proteger as poucas roupas que sobraram, um pano na cabeça para segurar o cabelo e proteger a cabeça do sol, e uma machete, pá ou outra ferramenta similar na mão.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Rössing, Roger & Rössing, Renate. 1953.  http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88897352

(Clicando na foto você verá a página da mesmoa na Deutsche Fotothek, com todas as informações sobre a foto e link para download. Antes de sair compartilhando por aí, leia as regras de uso! Compartilhar em redes sociais, por exemplo, não é permitido.)

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham em montanha de destroços na frente da fábrica de cigarros Yenidze.

O que mais me impressiona nessas fotos é ver as mulheres rindo e sorrindo, como se cantassem e conversassem enquanto reorganizam sua cidade em ruínas. Me emociona ver a resiliência do ser humano simbolizada nessas imagens. Certamente todas as mulheres dessas fotos perderam um ou vários familiares na guerra, muitas certamente perderam suas casas e todos os seus pertences. Mas lá estão elas trabalhando juntas na reconstrução, ainda capazes de sorrir!

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301521

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SLUB/Deutsche Fotothek,  Höhne, Erich & Pohl, Erich. 1946. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/70600276

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301520

As pedras e tijolos retirados dos destroços que podiam ser reutilizados para a reconstrução eram meticulosamente organizados, empilhados e marcados.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, GERMIN. 1948. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71555864

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1954. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/90041153

Mas também é importante notar que a história das Trümmerfrauen é a partir de certo ponto um tanto exagerada. Se você procurar Trümmerfrauen no google, vai encontrar diversos artigos explicando que a idéia de que todas as mulheres sobreviventes se uniram para reconstruir suas cidades é um mito. Como explicam alguns pesquisadores e historiadores, embora a maioria dos trabalhadores no esforço de remoção de destroços e limpezas fossem de fato mulheres (e isso se vê com clareza nas fotos históricas), foi na verdade uma porcentagem pequena das mulheres sobreviventes que se dedicou a esse trabalho. A maioria da população ainda via esse tipo de trabalho manual e físico como algo indigno. Principalmente na Alemanha Ocidental a imagem da Trümmerfrau é uma distorção da verdade – uma vez que nas regiões do país então controladas pelos Estados Unidos, França e Inglaterra a imagem tradicional do papel das mulheres na sociedade tornava a realização de trabalho manual por mulheres ainda mais indesejado pela sociedade. Foi mais na Alemanha Oriental, então controlada pela União Soviética, em que as mulheres trabalhando na reconstrução das cidades eram em número mais significativo, pois fazia parte dos ideais soviéticos representar as mulheres também como trabalhadoras. Muitas faziam aquele trabalho não por ideais bonitos de esforços generalizados para a reconstrução do país, mas porque era o único trabalho disponível, ainda que pagasse quase nada.

Toda história tem muitos lados e um contexto muito mais complexo que o que pode ser mostrado em uma dúzia de fotos, é claro. Mas independente disso, não deixa de ser admirável o papel importante que as mulheres tiveram na recuperação do país no pós-guerra, e especialmente o quanto isso mostra a resiliência humana. No fundo é essa a principal mensagem passada pelo monumento à Trümmerfrau: a de sobrevivência.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham retirando destroços na frente das ruínas do edifício da prefeitura de Dresden, onde hoje localiza-se o monumento à Trümmerfrau.

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Alguns artigos sobre o assunto, onde pesquisei o tema para escrever esse post:

http://www.spiegel.de/spiegelgeschichte/mythos-truemmerfrauen-nachkriegs-elend-in-deutschland-a-1190734.html

https://www.dw.com/en/dismantling-the-german-myth-of-trümmerfrauen/a-18083725

https://www.welt.de/geschichte/article174070519/Was-die-echten-Truemmerfrauen-geleistet-haben.html

O site da Deutsche Fotothek:

http://www.deutschefotothek.de


(Publicado em 03 de Agosto de 2018)

Evacuações e bombas

Ontem uma área de Hannover, onde moram aproximadamente 50.000 pessoas, foi completamente evacuada. O motivo: encontraram três bombas da segunda guerra mundial durante excavações de construção civil.

O interessante disso, na verdade, é que é algo que acontece com relativa freqüência. Mesmo. Volta e meia você vê notícias de alguma área (normalmente não tão grande quanto a área de hoje em Hannover) que tem que ser temporariamente evacuada por causa de alguma bomba antiga que ressurgiu em algum canteiro de obras.

Estima-se que 10% das bombas derrubadas pelos aliados na Alemanha durante a segunda guerra mundial não tenham explodido. Mais de 1.800 toneladas POR ANO em bombas e munição não explodida são descobertas na Alemanha. E não é só na Alemanha que isso ocorre, claro. Em outros países fortemente bombardeados durante a guerra também são encontradas bombas antigas volta e meia.

Quando uma bomba é encontrada, a área ao redor é evacuada ou imediatamente ou alguns dias depois. As pessoas têm que sair de suas casas por algumas horas até os ténicos em bombas irem lá e neutralizarem a bomba em questão. Nesse caso de ontem de Hannover – olha que curioso – eles planejaram e prepararam a evacuação por duas semanas! Quer dizer, a bomba foi encontrada e ficou lá duas semanas esperando o planejamento da evacuação (marcada, propositalmente, para um domingo). Como essas bombas da segunda guerra estão espalhadas pelo país há 70 anos, algumas (de determinados tipos) não representam um risco imediato. É mais no momento de remoção da mesma que ela pode explodir. Elas têm que ser neutralizadas e removidas com todo o cuidado, e durante esse processo que a área ao redor é evacuada. A evacuação é sempre mais complicada do que a gente imagina, porque tem pessoas com dificuldades motoras como idosos e deficientes a serem considerados, além de possíveis hospitais ou clínicas presentes na área de evacuação, de onde pacientes internados também têm que ser movidos, claro. Então ter um tempinho pra planejar convém!

E não é frescura. É raro que essas bombas de fato explodam, mas em Janeiro de 2014, por exemplo, uma bomba explodiu em uma obra em Euskirchen ao ser atingida por uma escavadeira. Um pedreiro morreu e dois ficaram gravemente feridos. Felizmente, quase sempre as bombas são identificadas com antecedência e removidas com os cuidados necessários. Desde o ano 2000, 11 técnicos de neutralização de bombas morreram na Alemanha durante o trabalho de neutralização. Três desses morreram numa única explosão de uma bomba que estavam tentando neutralizar em Göttigen, em 2010.

Um tipo de bomba particularmente perigoso dessa época são as bombas “químicas”, ou sei lá que nome bonito elas tinham. Essas bombas foram projetadas com o propósito específico de que explodissem dias depois de serem derrubadas num determinado local. Funcionavam da seguinte maneira: As bombas eram mantidas com o nariz pra cima, mas quando as bombas eram derrubadas dos aviões, elas caíam com o nariz pra baixo, claro. Quando o nariz virava para baixo, um dispositivo no “rabo” da bomba entrava em funcionamento e quebrava uma cápsula de vidro contendo acetona corrosiva. Ao atingir o chão, com o nariz pra baixo, a acetona escorria e começava a corroer, aos poucos, o corpo da bomba. Esse processo demorava horas ou até dias, e quando a última camada que protegia o explosivo fosse corroída, a bomba finalmente explodia, inesperadamente, dias após o bombardeamento. Se apesar da minha incapacidade de explicar o funcionamento de bombas pela minha falta de vocabulário bombístico você entendeu o processo, veja só o problema: várias dessas bombas atingiram o chão em locais onde o solo era muito mole, de maneira que elas infiltraram o solo e viraram de cabeça pra cima (já que elas caem de cabeça pra baixo) dentro da terra. Então a acetona não corroeu as camadas de proteção do explosivo. Mas, em 70 anos, essas camadas vão sendo corroídas ou vão se desintegrando com o tempo e a qualquer momento essas bombas podem explodir, desavisadas. Fiz um desenhinho pra ilustrar:

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Uma cidade particularmente afetada é Oranienburg, onde muitas dessas bombas ainda continuam escondidas debaixo da terra. Entre 1996 e 2007, o governo do estado de Brandenburgo gastou 45 milhões de euros para localizar e neutralizar essas bombas em Oranienburg, mais que em qualquer outra cidade alemã.

Mas voltando ao caso de ontem em Hannover, felizmente, as três bombas foram neutralizadas e removidas com sucesso, e no final do dia as pessoas já puderam voltar para suas casas.

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Bomba encontrada em Koblenz em 2011. Foto de Holger Weinandt – Wikipedia, CC BY-SA 3.0

Aqui tem um artigo muito completo e explicativo do Smithsonian sobre as bombas não explodidas da segunda guerra mundial. Foi desse artigo que eu tirei os dados do post que não linkam para outros artigos.

Então, se você vier à Alemanha, lembre-se de tomar cuidado com bombas de 70 anos de idade!


(Publicado em 8 de Maio de 2017)

As manifestações de 13 de Fevereiro em Dresden

Na noite de 13/14 de Fevereiro de 1945, Dresden foi palco de um dos piores bombardeios da II Guerra Mundial.  Foi uma das ações mais controversas da guerra por parte dos aliados. O centro histórico ficou completamente destruído e aproximadamente 25.000 pessoas morreram. Por ter ocorrido no final da guerra, discute-se até hoje se o bombardeamento foi “justificável”, ou se foi um crime de guerra. Aceita-se amplamente que a ação foi desnecessária, pois a guerra já estava praticamente ganha, e que teria sido realizada principalmente como vingança pelo bombardeamento da cidade de Coventry, na Inglaterra.

Dresden após o bombardeio em 1945. -Bundesarchiv

Por esse motivo, a data acabou tendo uma importância simbólica para grupos neo-nazistas. Todos os anos, em 13 de Fevereiro, Dresden é palco de enormes manifestações. Neo-nazistas e a extrema direita realizam neste dia uma marcha pela cidade que constitui a maior concentração de neo-nazistas, vindos de todas as partes da Alemanha e da Europa. Só que a aversão ao nazismo aqui também é muito grande, então no mesmo dia, uma outra dezena de manifestações não-nazistas acontecem também, inclusive a organizada pelo Dresden-Nazifrei, que tem como objetivo simplesmente bloquear a marcha nazista e não deixá-los passar. Essa manifestação junta muita gente, muito mais que os nazistas. Os números variam de ano a ano e de fonte a fonte, então vale fazer uma rápida retrospectiva.

A primeira manifestação oficial dos nazistas foi em 1999, com aproximadamente 150 participantes. Oficial entre aspas. A manifestação em si foi oficial, mas ser nazista, fazer apologia ao nazismo, mostrar suásticas ou fazer aquele gesto nazista são crimes na Alemanha. Então a manifestação tem uma desculpa qualquer, “lembrar o dia do bombardeamento”, e são organizadas por grupos neo-nazistas.

Nos anos seguintes a manifestação foi crescendo e em 2009 atingiu o pico de 7.000 neonazistas. À medida que cresceu o número de neo-nazistas, cresceu também a reação e as manifestação anti-facismo no mesmo dia. Em 2009, dois grupos anti-facistas que se manifestavam na cidade tentaram se unir para bloquear os nazistas, sem sucesso devido à ação da polícia. O problema é que como a manifestação neo-nazista é autorizada, pq é uma “marcha silenciosa para lembrar o dia do bombardeamento”, a polícia tem que abrir espaço para eles passarem.

Após o fracasso em impedir a marcha nazista de 2009, os diversos grupos anti-facistas se uniram e criaram a organização Dresden-Nazifrei, com o único intuito de se organizar para bloquear a marcha nazista dos anos seguintes. Mais do que isso, Dresden-Nazifrei desde o início foi totalmente aberto e público quanto à intenção de bloquear a marcha nazista, ainda que isso fosse a princípio ilegal.

Em 2010, poucos dias antes da manifestação, a polícia tentou de diversas maneiras parar o grupo de manifestantes anti-nazistas, o que fez com que mais e mais pessoas se mobilizassem e aderissem à manifestação. Ao mesmo tempo, o prefeitura da cidade sofria pressão para mostrar alguma reação às manifestações nazistas, o que levou à mobilização para uma manifestação em forma de uma corrente humana em volta do centro histórico para lembrar o bombardeio e proteger a cidade da violência e do extremismo. O grupo Dresden-nazifrei conseguiu mobilizar mais de 12.000 pessoas vindas de várias partes da Alemanha, Áustria e Suiça para realizar bloqueios em massa e não deixar os nazistas passarem. Após diversos confrontos com a polícia, a manifestação nazista foi cancelada à tarde devido aos bloqueios em massa. Pela primeira vez os nazistas foram barrados de marchar pela cidade pela mobilização das pessoas. No mesmo dia, a mobilização da prefeitura para “abraçar” a cidade juntou entre 170.000 e 270.000 pessoas.

Em 2011, antes das manifestações uma corte local decidiu em favor das manifestações neonazistas que a polícia não fez o suficiente para assegurar que eles pudessem marchar. Além disso, Dresden-Nazifrei tentou organizar uma manifestação que seria um tour pela cidade parando em alguns pontos estratégicos onde historiadores explicariam parte da história da segunda guerra mundial (“aqui morou o fulano de tal, que assinou a ordem para assinar tantos mil judeus em câmaras de gás”, “aqui tinha uma biblioteca grande com importantes obras que foi incendiada pelos nazistas”, “aqui era uma indústria têxtil onde nazistas utilizavam trabalhos forçados para confeccionar uniformes para os soldados”, coisas desse tipo), como uma contrapartida à marcha nazista “para relembrar o bombardeamento”, no sentido de relembrar não só o bombardeamento, mas também os fatos que levaram ao mesmo. Porém, essa demonstração, denominada “Täterspurenmahngang” (marcha sobre os traços dos responsáveis, algo assim), não foi autorizada pela prefeitura, que como já deve ter dado pra perceber, é super de direita.

Novamente, as tentativas de opressão só levaram à mobilização de mais gente, e no dia da manifestação mais de 20.000 pessoas se uniram para bloquear a marcha nazista, apesar da forte repressão policial com cães, spray de pimenta, helicópteros, mangueiras jorrando água a 0˚C sobre os manifestantes (lembrando que fevereiro é invernão aqui) e outras táticas. A polícia atacou manifestantes totalmente pacíficos que sentavam na rua fazendo os bloqueios. A marcha nazista reuniu nesse ano 2000 pessoas, mas não obteve sucesso. O plano era vários grupos marcharem pela cidade para se encontrarem num único ponto, mas devido aos bloqueios apenas por volta de 50 pessoas conseguiram chegar ao ponto de encontro.

Apesar da repressão policial, os bloqueios anti-facistas tiveram apoio da mídia e da população. Historiadores e sobrevivente de Auschwitz criticaram fortemente a justiça saxônica, especialmente pela proibição da manifestação Täterspurenmahngang, aquele tour para relembrar as ações nazistas na cidade durante a guerra. No ano seguinte, a manifestação foi liberada e juntou 3000 pessoas. No dia 13 de fevereiro, por volta de 1600 e 2000 nazistas compareceram para a marcha, e 6000 pessoas vieram bloquear, enquanto 13.000 pessoas participaram daquele “abraço” na cidade. Dessa vez a polícia não atacou manifestantes, e tentaram apenas dispersá-los. Devido aos bloqueios, a marcha nazista foi reduzida a um passeio em volta do quarteirão da estação central.

Em 2012. -zeit.de

Na semana seguinte, Dresden-Nazifrei organizou uma manifestação para comemorar a vitória dos bloqueios, juntando 10.000 pessoas.

Em 2013, apenas aproximadamente 500 nazistas compareceram para a manifestação, mas nem conseguiram sair da estação central, enquanto milhares de manifestantes anti-nazistas jogavam bolas de neve sobre a barricada policial.

Mas a manifestação neo-nazista em Dresden ainda não é história. Nesse ano eles mudaram um pouco a tática e pegaram a população de surpresa. Como de costume, as manifestações eram esperadas para o dia 13 de fevereiro. A prefeitura, ainda super conservadora e estranhamente apoiadora do direito democrático de nazistas de manifestarem contra a democracia, recusou-se a passar informações precisas sobre os planos dos mesmos. Houve uma tentativa de organizar uma manifestação (nazista) estacionária na frente da Frauenkirche, o ponto turístico mais importante de Dresden, mas a justiça não autorizou. No dia 12 de fevereiro, alguns nazistas se agruparam na Theaterplatz (outro ponto turístico importante) , e a polícia bloqueou toda a área em volta. Os grupos organizadores dos bloqueios logo começaram a avisar pelo facebook e twitter que os nazistas estavam se organizando para realizar a marcha naquela noite, e várias pessoas foram para o centro tentar bloquear. Mas como foi inesperado, a quantidade de gente para bloquear não foi suficiente, conseguimos apenas atrapalhar um pouco o processo. Os nazistas, por volta de 300 a 350, realizaram uma marcha com tochas (creepy!) até a estação central. Os bloqueios não foram possíveis, mas a quantidade de pessoas presentes foi o suficiente para acompanhar a marcha com vaias e gritos de todos os tipos. Corremos de um lado para o outro pela cidade tentando descobrir a tática da polícia antes que eles bloqueassem nossa passagem. No ponto final da manifestação, a estação central, os nazistas se reuniram para assistir a um vídeo projetado a respeito dos bombardeios, sob incessantes vaias dos manifestantes anti-facistas atrás das barricadas policiais. Entre os gritos organizados destes ouvia-se “Nazis Raus!” (fora nazistas), “Haut ab!” (caiam fora), “Nazis, verpisst euch, Keiner vermisst euch!” (Nazistas, caiam fora, ninguém sente falta de vocês), “Alerta, alerta, antifascita!” (dispensa traduções, e é pra ser espanhol, só que eles pronuciam “antifaxista” que nem alemão.) e outros.

No dia seguinte (hoje!), as outras manifestações (Täterspurenmahngang” e a corrente humana) ocorreram sem problemas e não ouve grandes concentrações de nazistas (exceto por grupos pequenos de 20 pessoas aqui e ali).

A corrente humana (não sei que ano). -http://rt.com/

Embora a quantidade de nazistas na marcha do dia 12 tenha sido bem reduzida (350, comparando com os 7.000 de 2009), eles conseguiram novamente marchar pela cidade, o que certamente vai ser visto como positivo para eles e pode resultar num aumento no número no ano que vem. Infelizmente, neo-nazistas em Dresden ainda não são passado.

Abaixo, alguns vídeos das manifestações. O primeiro, parte da marcha de 12 de fevereiro de 2014, com vaias dos manifestantes anti-facistas:

Em 2013:

Em 2012:

Em 2011:

Em 2010:

Uma coisa que eu achei interessante, participando das manifestações esse ano, é que apesar da confusão, pessoas correndo de um lado para outro tentando bloquear nazista, muuuuuuuuuuuita polícia, nazistas marchando, em volta as lojas e restaurantes continuavam abertos normalmente! Então você estava lá, apostando corrida com a polícia, correndo de um lado para outro, mas aí se cansasse e desse uma fominha era só parar e entrar no primeiro restaurante ao lado.

Outra coisa que foi interessante notar é como as cidades aqui são mais democráticas. Porque praticamente não existem muros e portões, as ruas não são grandes canaletas penetráveis apenas pelas ruas transversais. O que significa, basicamente, é que é muito mais difícil para a polícia bloquear uma manifestação, porque você pode vir de qualquer lado e ir para qualquer lado.  Quer dizer, em qualquer ponto da cidade que você está, sempre tem muito mais opções de “saídas”, você como pedestre, nunca fica preso numa rua. Isso não vale para qualquer cidade, claro, nem mesmo para qualquer parte da cidade. Nos bairros mais antigos, onde as ruas são estreitas e os edifícios fecham as quadras, não é assim. Mas no geral as cidades são muito mais abertas, penetráveis, e democráticas.

Eu não participei das manifestações em 2010 e 2011, que foram menos calmas, mas pelo menos pela minha experiência desse ano deu para ver que o pessoal estava bem tranquilo. Correndo de um lado para outro tentando bloquear os nazistas antes da polícia bloquear a passagem, sim, mas sempre pacíficos, não vi nada que desse para colocar na capa de jornais ou revistas sensacionalistas (COFCOFCOFCOFCOFFOLHAVEJAESTADOCOFCOFCOFCOF). Tinha muita polícia, e os policias estavam calmos e tranquilos, sem se exaltar, e eles sempre filmam tudo.

A manifestação Täterspurenmahngang, com as paradas nos locais estratégicos e informações sobre a segunda guerra por historiadores também é muito interessante, e uma boa idéia de contraste à marcha neo-nazista. Vai gente de todo o tipo, com todo o tipo de manifestação (digo, se manifestando com bandeiras, por exemplo), é basicamente como se todo mundo se unisse contra o nazismo, é bem legal.

Aglomeração no início da Täterspurenmahngang.

Até o Grumpy Cat acha racismo bem tosco.

Até o Grumpy Cat acha racismo bem tosco.

"Dresden stellt sich Quer". Meio difícil de traduzir, mas Quer significa transversal, e nesse sentido significa algo como se colocar no caminho, no sentido de bloquear.  O outro lado da bexiga diz "Wi(e)der setzen. Nazis blockieren". Wieder setzen significa "sentar de novo" (no caminho, para bloquear) e "widersetzen" significa se opor. Um jogo sagaz de palavras.

“Dresden stellt sich Quer”. Meio difícil de traduzir, mas Quer significa transversal, e nesse sentido significa algo como se colocar no caminho, no sentido de bloquear.
O outro lado da bexiga diz “Wi(e)der setzen. Nazis blockieren”. Wieder setzen significa “sentar de novo” (no caminho, para bloquear) e “widersetzen” significa se opor. Um jogo sagaz de palavras.

E nessa data, pela cidade, você vê ainda várias demonstrações de apoio aos bloqueios e às manifestações anti-nazistas, como esse cartaz no teatro de Dresden:

Minha tradução livre: "De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram." Erich Kästner

Minha tradução livre: “De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram.” Erich Kästner

Os números divulgados de manifestantes de cada lado em cada ano são suuuper variáveis dependendo da fonte. As duas principais fontes de onde eu tirei as informações para esse post.

http://www.dissentmagazine.org/online_articles/dresden-nazi-free-the-new-politics-of-german-civil-disobedience

http://en.wikipedia.org/wiki/Neo-Nazi_marches_in_Dresden

Aí tem descrições bem mais completas, em inglês, e que vale a pena ler se você se interessou pelo assunto.


(Publicado em 14 de Fevereiro de 2014)