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Levando multa na Alemanha

Esses dias recebi algo inédito (pra mim) nesses 6 anos e meio de Alemanha… uma multa! Ops!

Por sorte foi uma multa bem pequena, 15 euros e nenhum ponto. Mas é uma ótima oportunidade pra falar um pouco sobre como funcionam as multas por aqui, os preços e o sistema de pontuação.

Primeiro, então, a multa em si. Como no Brasil, algumas semanas após ser pego no radar você recebe uma carta pelo correio com as informações da infração: local, carro, infração cometida, e a foto. Uma diferença das multas no Brasil, é que a foto que aparece na multa daqui é especificamente para fins de identificação do motorista. O carro em si nem aparece na foto, só aparece o rosto do motorista, para o dono de carro – que é quem recebe a multa – saber quem foi o responsável pela infração e redirecionar a multa. No verso da folha há o formulário a ser preenchido neste caso.

Uma diferença aqui é que você só precisa especificar quem cometeu a infração se a mesma der pontos. Nem todas as infrações de trânsito aqui dão pontos, só as mais sérias. Algumas dão pontos só quando cometidas pela segunda vez num determinado período de tempo. Mas as mais simples, como exceder a velocidade limite em menos de 10 km/h, não dão pontos mesmo que cometidas muitas vezes.

Foi o meu caso: eu não vi uma placa que reduzia a velocidade máxima permitida em uma rua para 30 km/h num trecho próximo a uma escola. Passei pelo radar a 41 km/h. Como há uma tolerância de 3km/h para cobrir eventuais imprecisões do velocímetro ou do radar, fica registrado que eu estava a 38 km/h, portanto menos de 10km/h acima da velocidade permitida. Assim, a multa foi de 15€ e sem pontos.

Pagando essa multa em menos de 1 semana, fica dispensada a necessidade de especificar quem era o motorista no momento da infração.

Ok, mas o que provavelmente mais interessa saber é o preço das multas, e como funciona o sistema de pontuação.

Começando pelo sistema de pontuação. Como você já percebeu pela primeira parte do post, nem todas as infrações computam pontos na carteira. As mais simples normalmente não dão pontos. As que dão, dão entre 1 e 3 pontos.

Mas antes que você diga “nossa, que beleza, muito mais justo, demora bem mais pra vc chegar no limite dos pontos, awawa indústria de multas no Brasil awawawa”, lembre-se que a escala de pontos é de acordo com o limite. No Brasil, o limite de pontos é 20. Aqui é 8. Então a escala acaba sendo a mesma: 3 infrações gravíssimas = perda do direito de dirigir. Também diferente do Brasil é que as infrações graves, mesmo que não somem o limite de pontos, já resultam automaticamente numa suspensão temporária de habilitação. Quer dizer, se você cometer uma infração que dê dois ou três pontos, você vai ficar proibido de dirigir por um a três meses (dependendo da infração), mesmo que ainda não tivesse nenhum ponto na carteira antes.

Além disso, a soma de pontos tem diferentes consequências, antes do limite de 8 que resulta na perda da habilitação. São essas:

1 a 3 pontos: Ficam registrados, mas ainda não há nenhuma conseqüência.
4 a 5 pontos: O motorista recebe uma advertência com a recomendação para comparecer a um seminário de direção que resultará no cancelamento de alguns pontos.
6 a 7 pontos: Advertência e recomendação para comparecer ao seminário. O cancelamento de pontos não é mais possível.
8 pontos: perda da habilitação. Iniciar o processo de recuperação da habilitação só é possível após de 6 meses.

Também diferente do Brasil, o tempo em que os pontos permanecem na habilitação são bem maiores. No Brasil, após 12 meses da data da infração, os pontos resultantes da mesma expiram, independente da infração. Na Alemanha, depende: para infrações que computam 1 ponto, o prazo é de 2 anos e meio. Para infrações que resultam 2 pontos, o prazo é de 5 anos. E para infrações que dão 3 pontos, os pontos permanecem registrados por 10 anos.

Agora vejamos uma seleção de algumas infrações e a multa, pontuação e conseqüências resultantes, pra dar uma idéia. Já aviso que assuta, fiquei aqui um tempo olhando o catálogo e agora estou com medo de dirigir.

Velocidade

As de velocidade são as menos preocupantes, o que talvez seja de se esperar no país da BMW, Porsche, Mercedes, Audi, e das Autobahn sem limite de velocidade.
Uma observação: as consequências para excesso de velocidade são diferentes se você estiver dentro ou fora de uma cidade/vilarejo

A tabela para infrações dentro de cidades:

ExcessoMultaSuspensãoPontos
até 10 km/h15 €
11 a 15 km/h25 €
16 a 20 km/h35 €
21 a 25 km/h80 €1
26 a 30 km/h100 €1 mês (na segunda vez)1
31 a 40 km/h160 €1 mês2
41 a 50 km/h200 €2 meses2
51 a 60 km/h280 €2 meses2
61 a 70 km/h480 €3 meses2
mais de 70 km/h680 €3 meses2

A tabela para infrações fora de cidades:

ExcessoMultaSuspensãoPontos
até 10 km/h10 €
11 a 15 km/h20 €
16 a 20 km/h30 €
21 a 25 km/h70 €1
26 a 30 km/h80 €1 mês (na segunda vez)1
31 a 40 km/h120 €1 mês (na segunda vez)1
41 a 50 km/h160 €1 mês2
51 a 60 km/h240 €1 mês2
61 a 70 km/h440 €2 meses2
mais de 70 km/h600 €2 meses2

Passar no Vermelho

Brasil, passar no vermelho é uma infração gravíssima e dá 7 pontos na carteira. Mas a multa é apenas R$190 e alguns quebrados. Se você acha isso muito, veja só os preçosdas multas de sinal vermelho aqui – que variam de acordo com vários critérios:

Passar no vermelho…ValorPontosSuspensão
…menos de um segundo depois
do sinal fechar
90 €1 
+ Colocando alguém em risco200 €21 Mês
+ Danos materiais240 €21 Mês
…mais de um segundo depois
do sinal fechar
200 €21 Mês*
+ Colocando alguém em risco320 €21 Mês*
+ Danos materiais360 €21 Mês*
…virar à direita na flecha verde
sem parar**
70 €1 
+ Colocando alguém em risco100 €1 
+ Danos materiais120 €1 
+ atrapalhando a passagem de
ciclistas, pedestres, ou
carros na direção liberada
100 €1 

*Pode decorrer em perda da habilitação ou prisão dependendo do caso
**Aqui tem alguns semáforos onde tem uma placa com uma flecha verde apontando para a direita. Significa que os carros na faixa da direita podem fazer a conversão à direita com o semáforo fechado. Mas é obrigatório parar antes e, óbvio, dar preferência para quem está vindo na rua para a qual o semnáforo está aberto. Se você está atrás de outros carros que não querem virar à direita, mesmo numa situação em que você poderia virar antes de abrir o semáforo, você tem que esperar. Quer dizer, você não é obrigado a fazer a conversão se você está na faixa da direita com uma flecha verde, você pode esperar o semáforo abrir e ir em frente normalmente.

Então basicamente a multa é diferenciada entre se você passou no vermelho logo depois do farol fechar, ou se você passou no vermelhão bem óbvio. E a situação mais simples, passar assim rapidão depois que deu o vermelho, sem acontecer nada, sem ninguém por perto, já dá uma multa de 90 € e um ponto na carta.

Além disso as multas (não só as de vermelho, várias outras também) tem esses extras se tem alguém por perto que foi colocado em risco pela sua infração

Distância

Uma outra multa comum por aqui é relacionada à distância de segurança entre você e o carro da frente. Quer dizer, se você colar o carro no da frente, fazendo pressão pro motorista ir mais rápido ou dar espaço pra você ultrapassar, a multa pode sair caríssima. O preço muda de acordo com a distâcia e a velocidade. A distância de segurança tem que ser em metros mais do que 5/10 da velocidade em km/h. Assim: Se a velocidade é de 100 km/h, a distância tem que ser de pelo menos 50m (100*5/10 = 500/10 = 50 m).  Eis aqui a tabela das multas:

Violação da distância de segurançaMultaPontosSuspensão
… a menos de 80 km/h25 €  
+ Colocando alguém em risco30 €  
+ Danos materiais35 €  
… Entre 80 e 99 km/h   
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor
no velocímetro
75 €1 
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
100 €1 
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
160 €1 
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
240 €1 
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
320 €1 
… Entre 100 e 129 km/h   
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor 
no velocímetro
75 €1 
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
100 €1 
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
160 €21 Mês
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
240 €22 Meses
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
320 €23 Meses
… A mais de 130 km/h   
… distância entre 4/10 e 5/10 do valor 
no velocímetro
100 €1 
… distância entre 3/10 e 4/10 do valor 
no velocímetro
180 €1 
… distância entre 2/10 e 3/10 do valor 
no velocímetro
240 €21 Mês
… distância entre 1/10 e 2/10 do valor 
no velocímetro
320 €22 Meses
… distância menor que 1/10 do valor 
no velocímetro
400 €23 Meses

Dirigir alcoolizado

Sem dúvida uma das piores infrações que você pode cometer aqui é dirigir alcoolizado. A multa também varia de acordo com a situação. O limite é uma concentração de 0,05‰ no sangue, exceto para motoristas com carteira provisória (a definitiva tira-se depois de um ano), para quem a proibição é completa – quer dizer, qualquer concentração de álcool no sangue já é uma infração. Então vamos à tabela:

Concentração de álcool
no sangue
MultaPontoSuspensão
Com carteira provisória,
menos de 0,05‰
250 €1
Para todos os motoristas,
mais de 0,05‰
500 €21 Mês
… quando for uma segunda
ofensa relacionada a álcool
1.000 €23 Meses
… quando for a terceira ofensa1.500 €23 Meses
Concentração maior que 1,1‰Multa a decidir,
possivelmente
resultando em
prisão
3a decidir
Concentração menor que 1,1‰
mas com visíveis déficits
de atenção 
Multa a decidir, 
possivelmente 
resultando em 
prisão
3a decidir

Portanto as conseqüências são bem pesadas em qualquer situação. Nos casos mais graves, a serem decididas pela justiça caso a caso.

Bom, não vou colocar todas as tabelas de todas as possíveis infrações aqui porque seria uma coisa infinita. Mas tem vários sites onde você pode ver as conseqüências para cada infração possível, por exemplo http://www.bußgeldkatalog.de, que foi a fonte que eu usei pros dados aqui compartilhados, e que é atualizada sempre que há alguma mudança nas leis.
Mas para terminar, só mais alguns exemplinhos básicos sem especificar as diferenciações:

Estacionar em calçada ou ciclovia: 20 a 35 €
Mexer no celular na direção: 100 a 200 €, 1 a 2 pontos, 1 mês de suspensão
Não parar na placa de Pare: 25 a 100 €
Não parar antes atrás da linha (no farol vermelho): 10 €
Não parar na faixa de pedestre quando há alguém querendo atravessar:
80 €, 1 ponto
Fazer conversão sem dar preferência para pedestres atravessando:
70 a 85 €, 1 ponto
Virar sem dar seta: 10 €

Ok, acho que já deu pra dar uma idéia, e esse post já está gigante!

Eis aqui outros posts no tema direção e carteira de habilitação alemã:

Sobre trocar sua CNH brasileira pela alemã
Sobre a prova teórica
Sobre a prova prática
Sobre estacionar em cidades alemãs
Sobre as regras relacionadas a atravessar a rua, quando tem faixa, quando tem semáforo, etc.
Um dos primeiros posts do blog, sobre as Autobahns.

(Publicado em 29 de Novembro de 2018)

 

Diferenças entre a Alemanha e a América do Norte

O blog anda meio parado, mas é por um bom motivo: passei as últimas três semanas de férias. Aproveitamos o tempo para viajar para os Estados Unidos e Canadá, e fazia já um tempo que eu não viajava para fora da Europa (2 anos e meio desde minha última visita ao Brasil). Essa viagem foi interessante para eu perceber como várias coisas que são diferentes aqui eu já me acostumei tanto que até esqueci que são diferentes em outros lugares. Nesse sentido é interessante também notar o quanto os países do continente americano têm muitas semelhanças entre si. Diferenças também, claro. Mas muitas coisas que eu notei serem diferentes nos EUA daqui são no Brasil assim também.

Então resolvi fazer um post listando as principais diferenças que notamos entre a América do Norte e a Alemanha/Europa.

Restaurantes/Comida
A primeira coisa que notamos – e que nos incomodou muito – foi que nos EUA em fast foods e cafés você sempre seeeempre recebe talheres e pratos e copos descartáveis. Não importa se você especificar que vai comer no local, em qualquer restaurante ou café onde você tem que pedir a comida no balcão vem tudo, sempre, em pratos e copos de papelão ou plástico. Não dá pra acreditar a quantidade desnecessária de lixo gerado. Cada cafézinho num copo descartável, que desespero! Na Alemanha as coisas realmente só vem em copos descartáveis quando você especifica que quer não vai comer no local. Mas isso também é uma diferença que notamos: na América do Norte as pessoas frequentemente tomam café e comem andando na rua, indo de um lugar pro outro. Principalmente em cafés eram poucos os que sentavam para tomar o café no local. Aqui sentar num café pra tomar uma xícara de café com calma e comer um bolinho é um costume bem típico.

Aliás comida foi outra coisa, embora não seja nenhuma surpresa: nossa, como foi difícil achar comida decente nos EUA! Tudo fast food, tudo cheio de açucar, cheio de óleo… eu não sou nenhuma fã de comida alemã, mas pelo menos em qualquer supermercado você encontra várias coisas saudáveis e não se costuma colocar tanto açucar em tudo.

E finalmente, em relação a restaurantes, outra diferença grande é como se dá a caixinha. Na Alemanha você recebe a conta e na hora de pagar diz quanto quer que o garçom cobre, adicionando normalmente algo entre 5 e 10% de caixinha. Normalmente as pessoas arredondam o valor da conta em algo próximo a 10%. Por exemplo, se a conta deu algo entre 22 e 23,5 euros, você falaria para cobrar 25. Se você estiver pagando com cartão ou com diheiro a mais. Se você está pagando com 25 euros, digamos, uma conta de 22, aí vc diz “está certo assim”. Nos EUA a caixinha varia entre 15% e 20%, ou até 25% se o cliente for bem generoso. Mas nunca se dá a caixinha direto pro garçom, você sempre deixa na mesa depois de pagar a conta. No Canadá a caixinha era sempre 15%, e na hora de passar o cartão a maquininha pergunta se você quer deixar uma caixinha e você digita a porcentagem que quer deixar de caixinha.

Pessoas
O que eu mais gostei durante essa viagem foi da simpatia das pessoas. As pessoas na América do Norte (e isso vale 100% pro continente americano inteiro) são muuuuuuuito mais simpáticas e amigáveis que os alemães meudeusnemsecompara. Os alemães (pelo menos – ou principalmente – os saxões) são com bastante frequencia super grossos sem a menor necessidade. As palavras trocadas com desconhecidos são sempre limitadas ao mínimo necessário, e sorrisos parece que custam dinheiro. Nos EUA era tão fácil falar com as pessoas em qualquer situação… No Canadá nem tanto porque estávamos na parte francesa e alguns realmente não queriam falar inglês. Mas fora esses, os outros eram bem simpáticos também.

Outra coisa é que nesses dois países a sociedade é tão diversa e misturada (mais que no Brasil) que ninguém se sente peixe fora d’água. Você pode ter qualquer cara e se encaixar bem por  lá (numa cidade grande, claro, não numa vilazinha no meio do nada onde todo mundo vota Trump, né). Aqui se você é um pouquinho diferente em aparência, todo mundo te olha o tempo todo. É bizarro. Eu tenho a sorte de passar um tanto despercebida por aqui em termos de aparência, mas vejo isso com clareza quando estou com amigos mais obviamente estrangeiros que eu. Não quero nem imaginar como uma pessoa negra ou árabe se sente o tempo todo aqui. Um amigo meu brasileiro que parece um pouco árabe nos poucos dias que passou aqui me visitando para o meu casamento relatou todo tipo de olhar feio e falta de educação que ele passou. No tram as pessoas evitando sentar perto dele, ignorando totalmente quando ele tentava parar alguém pra pedir informações de como chegar em algum lugar… se foi assim em poucos dias, imagina morar aqui…

Aliás, uma coisa que notei é que nos EUA e Canadá as pessoas SEMPRE perguntam de onde você é. Sempre mesmo, as pessoas têm essa curiosidade, e eu acho que é na maior parte das vezes só curiosidade mesmo, não uma necessidade de categorização. Aqui um desconhecido nuuuuunca te perguntaria de onde você é, nunca mesmo. E as pessoas conhecidas esperam um tanto pra perguntar. Eu acho que as pessoas acham que é um pouco mal-educado perguntar, talvez pq pareça que elas queiram te julgar de acordo, se perguntarem? Não sei, mas o fato é que não se pergunta nunca.

Carro
Uma diferença gritante é em relação ao uso de carro. Aqui na Alemanha as pessoas adoram carro, claro, no país da VW, Porsche, Audi, Mercedes, BMW e tantas outras marcas de carro não tinha como ser diferente. Mas nossa, nem se compara às américas. Nos EUA e Canadá – e no Brasil também é assim – as cidades são feitas pra carros. É comum morar em subúrbios onde se faz tudo de carro, todo mundo tem carro e todo mundo usa carro diariamente. Aqui é comum deixar o carro em casa em várias situações, muita gente vai pro trabalho de bicicleta ou transporte público e o mais comum é ter só um carro por família, e não um pra cada membro maior de 18 anos. E a gasolina nos EUA é absuuuurdamente barata, chegamos a pagar uns 2,80$ por galão, que são 3,7L. Ou seja, 0,75$ por litro. Na Alemanha custa por volta de 1,30€ (1,57$) por L, o dobro do preço!

Pagamentos
E finalmente, um ponto bem diferente é como as pessoas pagam por coisas. Aqui na Alemanha é comum pagar as coisas do dia a dia (comida, restaurante, supermercado, coisas do dia-a-dia) com dinheiro. Vários lugares nem aceitam cartão de crédito, só o cartão de débito europeu. Alguns não aceitam cartão nenhum. Então tem que sempre ter dinheiro na carteira. Nos EUA, Canadá, e no Brasil também, qualquer lugar aceita cartão. Não sei exatamente como é no Brasil atualmente, mas nos EUA você pode pagar qualquer quantia com cartão de crédito, até uma garrafinha de água. E quase todo mundo paga tudo sempre com cartão. Bem mais prático, mas perigoso de gastar muito dinheiro sem perceber. Já escrevi um post falando sobre esse costume alemão e suas origens aqui.

É isso! Bom, não, tem várias outras diferenças, claro, mas isso foi o que a gente notou com mais clareza e imediatamente.

Pedalando na Alemanha – Parte 1: Onde e pra quem?

Há tempos estou planejando um post sobre bicicletas por aqui (ok “tempos” é um certo exagero já que o blog existe faz um mês e pouco) mas tem tanta coisa para falar sobre bicicletas que fica difícil escrever um texto que englobe tudo.

Mas para comemorar a recente aquisição na minha nova super fofa bike Diamant Topas Damen vermelha, começo hoje com um post sobre bikes, a primeira de três ou quatro partes.

Então, como o título sugere, a parte 1 será sobre onde pedalar e quem pedala.

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O vô e a vó também vão de bike

Todos os alemães tem uma bike. Da vovó mais velhinha até o criança mais novinha, do entregador de pizza até o(a) diretor(a) geral da BMW, eu diria que 100% dos alemães que já aprenderam a andar têm uma bike. Na dúvida até duas. Logo, fazer as coisas de bike é a coisa mais normal do mundo. A bicicleta é o principal meio de transporte de estudantes, principalmente nas cidades pequenas com grandes universidades.

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Estudante em cidade pequena com grande universidade indo para a aula de bike. (atenção: legendas das fotos do blog podem incluir especulações)

Ok, tô na Alemanha, tenho uma bike. Onde andar? Na calçada? Na rua? Na guia? Tem ciclovia?

A maioria das cidades têm ciclovias pelo menos ao longo das grandes avenidas com maior movimento. Andando na ciclovia, você é como um carro numa faixa mais estreita. Significa que, por exemplo, se vc quer ir em frente e um carro atrás de você quer fazer uma conversão para a direita, ele vai esperar calmamente você seguir antes de virar. Em casos onde tem uma faixa para conversão, a ciclovia segue em frente no lado esquerdo da faixa para conversão. Em cruzamentos complicados, onde tem ciclovia, vai tranquilo que você pode fazer todas as conversões que os carros também podem. Se não tem ciclovia, você é um carro que fica sempre na faixa da direita.

E vai pedalando calmamente no seu ritmo, sem desespero, que ninguém vai buzinar loucamente achando que a rua lhe pertence.

ciclovia 3

ciclovia 4

Total madness!

Na foto acima, diversos cruzamentos e conversões possíveis e a sua complicada mistura de faixas para carros com ciclovias!

As ciclovias nem sempre estão nas ruas, claro, às vezes estão nas calçadas. Na sua maioria, são identificadas pela cor vermelha (especialmente se estiver na calçada), mas pode ser também indicada por essa linha branca tracejada com espaços pequenos como na foto acima.

Quando tem ciclovia, tem atê semáforo pra bike:

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Como nos semáforos para carro daqui, o amarelo acende também antes do verde, não só antes do vermelho, para avisar pra você ir se  preparando que já vai dar verde. (normalmente entre o vermelho e o verde o amarelo acende bem rapidinho, tipo 2 segundos). O branco em cima do vermelho tem em semáforos de pedestre também, e é para indicar que alguém já apertou o botão para atravessar e daqui a pouco vem o sinal, espera aí de boa. O botão para atravessar, também para bikes, e  o farol branco não estão presentes em todos os semáforos para bikes, mas só nos ao longo de ciclovias que estejam em calçadas, e portanto você-bike terá que atravessar a rua como pedestre e não como carro, daí o botão.

Bom, então nas avenidas maiores tem ciclovia, normalmente uma de cada lado da rua para cada sentido. E nas ruas mais estreitas, onde não cabe ciclovia, devo ir pelo leito carroçável, e não pela calçada, beleza. Mas e se a rua for mão-única? Posso ir de bike?

Depende. Regra geral, você vai de bike no mesmo sentido dos carros, sempre. A exceção é quando são ruas muito pequenas no meio do bairro onde o tráfego de bicicletas é alto. Normalmente nessas ruas você pode ir de bike também na contra-mão. Você vai saber que pode quando vir essa placa aqui:

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A placa redonda vermelha com o traço branco indica que vc não pode entrar de carro nessa rua porque é contra-mão. A plaquinha embaixo, branca com a bicicletinha e a palavra “frei” ou “livre”, indica que o tráfego é livre para bikes em ambos os sentidos.

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Note que nesse exemplo a rua é não apenas mão única, mas tem realmente só uma faixa. Não dá nem para ultrapassar o caminhão de lixo. Fica meio apertadinho para encaixar uma bike + um carro em sentidos diferentes, mas não se preocupe, os carros, vendo você vir no sentido oposto, vão diminuir a velocidade e quase parar na hora de passar do seu lado para evitar acidentes. No caso de você estar descendo a rua de bike no mesmo sentido dos carros, os carros atrás de você não vão tentar te ultrapassar até ter suficiente espaço para uma ultrapassagem segura. Enquanto não tiver, eles vão calmamente dirigindo atrás de você sem stress.

Ao invés da plaquinha com a palavra frei, às vezes aparecem também plaquinhas de bike com flechinhas pra cima e pra baixo, que significa a mesma coisa, que o tráfego de bikes é permitido em ambos os sentidos.

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Na verdade, a diferença aqui é que, nesse caso, a placa “Einbahnstraße” indica que é uma rua de mão-única (e você pode entrar nela, porque você está no sentido certo), e a plaquinha extra da bicicleta para te avisar que, apesar de ser mão-única, tem tráfego de bicicletas nos dois sentidos, então preste atenção ao entrar na rua. A plaquinha de antes estava indicando que, embora carros não possam entrar naquela rua por ser contra-mão, bicicletas podem porque o tráfego é liberado. Então a placa com as flechinhas é também para avisar os carros que terão bikes vindo no sentido contrário.

Tá, então, mas é que eu sou mó desequilibrado e acabei de aprender a andar de bike e morro de medo de andar na rua… posso andar na calçada?

Quando tiver ciclovia, não. Os pedestres ficarão bravos com você. Se não tiver ciclovia, a princípio o certo é você andar na rua, mas não é o fim do mundo andar na calçada. Desde que você vá devagar e com cuidado para não atropelar ninguém, não tem tanto problema. Inclusive é bem comum andar na calçada quando é uma mãe ou pai na sua bike junto com a criança pequena na bicicletinha de criança. As crianças vão sempre andar pela calçada, claro.

Para proteger a identidade desta criança desconhecida, adicionei uns óculos-escuros-photoshop

Para proteger a identidade desta criança desconhecida, adicionei uns óculos-escuros-photoshop

E numa rua de pedestres? Tipo um calçadão, e tal? Pode andar de bike?

Na grande maior parte das vezes, pode. Você saberá que pode, novamente, pela plaquinha “Frei.” como nesse exemplo:

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A placa azul da mamãe (ou papai escocês) com a criança indica que o local é exclusivamente para pedestres. A plaquinha embaixo com a bike, e novamente a palavra “frei”, indica que você pode também ir de bike. Mas na calçada ou rua de pedestres aposente a buzininha da bike que a prioridade é da mamãe (ou papai escocês) com a criança. Vá devagar, parando, desviando, e com cuidado.

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Ciclistas em rua de pedestres desviando com segurança e cuidado de velhinhos que andam devagar.

Ok, chega por ora! No próximo post sobre bikes, você descobrirá Quando andar de bike e Onde estacionar sua bike!

Mas antes disso vem um post sobre 1˚ de Maio e tradições do dia!


(Publicado em 29 de Abril de 2013)

O paraíso dos carros amarelos

As estradas alemãs – Autobahn – têm uma certa fama mundo afora. O motivo é que, em vários longos trechos das mesmas, não existe limite de velocidade. Aparecem às vezes placas com velocidade máxima permitida quando é um trecho de obras, ou próximo a saídas importantes, etc.
Mas se você vir uma placa assim:

Aproveita! Essa é a hora de testar os limites do carro. Pode ir à velocidade que quiser que não vai chegar multa em casa.

MAAAAAASSSSS calma, não é tão simples assim.

Na verdade, embora oficialmente não tenha um limite de velocidade, existe uma velocidade recomendada, que é de 130km/h. Qualquer coisa acima disso é um risco que você pode escolher correr. Significa que, se você estiver dirigindo a 200km/h, você não vai levar multa, mas se ocorrer qualquer acidente você será responsabilizado seja ele qual for.

A grande questão é, por que, então, não existe limite?

Alguns irão sugerir, bom, a Alemanha é um país fortemente controlado por indústrias automobilísticas! Alemães adoram seus carros!

Outros talvez dirão, acontece que os alemães são ótimos engenheiros, eles sabem calcular estradas onde velocidades altas são seguras!

Nah. Nada disso. O problema é a língua alemã.

A singela palavra alemã para limite de velocidade é “Geschwindigkeitsbegrenzung”. Repito. Geschwindigkeitsbegrenzung. Não, isso não foi um gato pisando no teclado, eu digitei certo.

Para ler Geschwindigkeitsbegrenzung numa placa, só se o limite de velocidade for 20km/h…

(E se você não entendeu o título do post: presta atenção, na próxima vez que você estiver viajando de carro, em todos os carros amarelos que passarem por você.)


(Publicado em 18 de Março de 2013)

Empregos que não existem na Alemanha

Aí vai uma lista de empregos que não existem na Alemanha. Se você trabalha em qualquer uma das áreas abaixo e pretende vir morar na Alemanha, fique avisado que sua experiência não terá valor! Vai pensando em outra carreira…

Frentista – Precisando reabastecer o carro, pode esquecer a ajuda. Melhor já ir descobrindo onde que fica o tanque e como que usa a bomba de gasolina que aqui ninguém vai fazer isso pra você!

Porteiro de prédio residencial – “Deixa com o porteiro se eu não estiver em casa” é uma frase que você nunca precisará saber em alemão. Os prédios residenciais não têm porteiro, quem recebe as cartas são as caixinhas de correio com o seu nome na entrada do prédio, e quem abre a porta para a visita é você apertando o botão do interfone. Aliás, detalhe interessante: normalmente você usa uma única chave para abrir o portão do prédio, a porta do prédio, a porta do porão com os depósitos dos apartamentos, a porta da garagem de bicicleta, e a porta do seu próprio apartamento. Ainda assim, a sua chave não abre o apartamento do vizinho. Hi-tech!

Cobrador de ônibus – Sua passagem você compra na maquininha de passagens no ponto ou estação, e carimba na maquininha dentro do ônibus/tram/metrô ao entrar. Se não carimbar, viaja de graça. A não ser, claro, que entre o fiscal no seu ônibus para fiscalizar as passagens de todo mundo. A multa por não carimbar o bilhete, se você for pego por um fiscal, é de 40 euros. Não adianta tentar fazer as coisas a la Brasil, eles calculam a quantidade de fiscalizações necessárias para que, estatisticamente, não valha a pena o risco de não carimbar. Tudo bem alemão.

Entregador de sofá – sei lá, não precisa ser só sofá. Mas aqui, se vc compra alguma coisa numa loja, você é que se vira para levar pra casa. De um gato a um piano de cauda, não é muito comum as lojas oferecerem serviço de entrega. Ok, talvez pro piano de cauda, que é um artigo mais específico, mas para trazer o sofá que compramos outro dia, precisamos alugar uma van e ir na loja buscar.

Os caras da mudança – Ok, não é que não existe. Dá para contratar uma empresa para fazer a sua mudança. Mas é super caro e bem incomum, mais para famílias maiores e casas grandes. Se você for estudante, ou um casal novo morando junto num apartamento, ou enfim uma pessoa jovem sem rios de dinheiro para distribuir, é normal você fazer a sua mudança por conta própria. Alugue uma van por um dia, escale alguns amigos e amigas fortes e energéticos, e ponha-se a carregar móveis pra cima e pra baixo!

Empregado doméstico – Tudo bem, existe também pessoas que você pode contratar para limpar sua casa um dia ou outro. (Aliás, aqui não é nada incomum a pessoa da limpeza ser um homem) Mas ter alguém que vá todos os dias arrumar sua cama e lavar sua louça, esquece. Pode ir descobrindo como funciona a máquina de lavar roupa. E esse negócio de “ajudar” a esposa a limpar a casa, só se você tiver mais de 40 anos. Aqui os homens não “ajudam”, eles fazem metade da limpeza e cuidados da casa que é de obrigação de todo mundo que lá mora.

Manobrista – Pfffffff…. esquece.

Ok, esses são só alguns exemplos. Aliás, são também empregos que provavelmente serão mais e mais raros no Brasil também, com o preço da mão-de-obra subindo para, imaginem, salários justos, e tal! Enfim, seja como for, o fato é que os europeus não são nada preguiçosos, por aqui você não contrata ninguém para fazer coisas que você pode fazer sozinho! Nada mal!


(Publicado em 17 de Março de 2013)