Casa

Barulho em casa

Uma das coisas difíceis quando você se muda para um país novo é saber o que pode e o que não pode. Fica especialmente fácil enganar um imigrante, bradando regras e leis que não existem, sabendo que ele não vai saber e não vai ter como verificar em curto tempo pela barreira da língua.

Pensando nisso conclui que preciso escrever alguns posts sobre coisas que são ou não são permitidas na Alemanha. Esse post é sobre barulhos dentro de casa que incomodem os vizinhos. O que pode, o que não pode, a partir de que ponto os vizinhos podem reclamar, e em que situações as reclamações podem te trazer conseqüências.

Para discutir esse assunto a primeira coisa a apontar é o que os alemães chamam de Ruhezeit, ou horários de descanso. São os horários do dia em que não é permitido fazer barulhos além do normal, que incomodem os vizinhos. Os horários de descanso são: segundas a sextas das 22h às 6h. E no horário após o almoço, entre 13h e 15h. Domingos e feriados são dias completos de descanso. Esses horários podem variar um pouco de acordo com o seu contrato de aluguel, que pode adicionar uma hora a mais de manhã, por exemplo. Mas vai ser algo nessa linha.

Isso significa que nesses horários você não pode, por exemplo, usar uma furadeira, ligar o rádio no volume máximo, tocar bateria ou cantar no banho. Mas há barulhos que você não tem como evitar ou que são do uso normal da casa. Alguns exemplos:

Se quando você abre uma torneira ou dá descarga, a água correndo pelos encanamentos incomoda o seu vizinho, ele não tem direito de reclamar disso para você. Você tem direito, afinal, de levantar no meio da noite para um xixizinho. Mas se a água correndo nos encanamentos pode ser mesmo ouvida nos outros apartamentos, há um limite para o tempo de barulho. Então você pode, por exemplo, tomar banho às três da manhã, mas por no máximo 30 minutos. Mas vamos entre nós combinar que, se o isolamento acústico do seu prédio é ruim assim, tenta se planejar pra tomar banho num horário de gente que só um vizinho muito imbecil iria tomar banho todo dia às 3 da manhã sabendo que isso vai acordar todo mundo no resto da casa! Mas tá, né, de repente você tem uns horários peculiares de trabalho e só te resta a madrugada para tomar seu banho…

Outro exemplo é criança pequena chorando, rindo ou gritando. Se você se incomoda com o pentelho do apartamento ao lado que acorda toda noite às 2 da manhã pra abrir um berreiro, oh well. Não há muito que você possa fazer, já que não dá pra controlar nenês ou crianças muito pequenas. Mas se forem crianças mais velhas aí sim, você pode reclamar do barulho excessivo em horários de descanso.

Outros barulhos de uso normal da casa também tem que ser tolerados pelos vizinhos mesmo em horários de descanso. Por exemplo: se o barulho da sua veneziana abrindo e fechando incomoda o senhor rabugento do apartamento debaixo, pode deixar ele esbravejar à vontade: você tem direito de abrir ou fechar suas janelas em qualquer horário do dia.

Mas claro, se você resolver jogar basquete na sala do seu apartamento à meia noite, conte com reclamações bem justificadas dos moradores debaixo.

Claro que a discussão não se limita aos horários de descanso. Só porque tem horários definidos em que barulhos evitáveis devem ser obrigatoriamente evitados, não significa que você possa das 7 da manhã até às 10 da noite ininterruptamente treinar pro seu próximo show com sua banda de heavy metal na sua kitnet.

Então para abordar alguns exemplos do que pode e do que não pode fora dos horários de descanso, vamos separar por temas.

Instrumentos musicais

Se você toca piano, violino ou algum outro instrumento musical cujo som atravesse paredes e lajes, como faz? Pode tocar, os vizinhos têm direito de reclamar?

A princípio todos têm direito de ter um instrumento musical em casa e tocá-lo regularmente, mas há limites  nos horários e na quantidade de tempo que você pode praticar o seu acordeão ou o seu banjo. Os limites dependem do instrumento. Uma bateria, por exemplo, pode ser tocada no máximo 45 minutos por dia. O piano pode ser tocado entre às 10 da manhã e as 8 da noite, excluindo o horário entre 13h e 15h, e por um limite de 2h a 3h por dia. Instrumentos cujo volume possa ser ajustado, devem ser tocados sempre no volume que eles chamam de “Zimmerlautstärke”, algo como “volume de cômodo”, que significa o volume que fora do apartamento mal possa ser notado.

Você talvez esteja se perguntando: o que significa limite de 2h A 3h? É duas ou é três? Bom, acontece que para essas coisas não há uma regra específica, não tem uma lei que diz que o piano que seja ouvido nos apartamentos vizinhos possa ser tocado até 2 horas por dia. O que existem são decisões diversas de processos judiciais passados, que são o que se leva em consideração em futuras decisões de futuros processos judiciais. Como cada caso é um caso, não dá para fazer uma lei com regras rígidas. Mas o que você pode ter certeza é que se você se mantiver dentro dessa faixa de horário e tocar apenas 2 horas por dia, ninguém vai conseguir te despejar por isso.

Mas e se eu for pianista profissional e precisar praticar o dia inteiro pro meu próximo concerto? Aí a solução é alugar um escritório acusticamente isolado e colocar o seu piano lá. É o que fazem os músicos profissionais, porque a regra não é diferente para eles. Aliás ao contrário, se você for músico profissional pode até ocorrer (se alguém entrar com um processo judicial pra isso) que seu tempo máximo por dia para praticar o seu instrumento seja reduzido dessas duas horas, já que o som de um profissional praticando um instrumento às vezes é mais chato e incomoda mais (constante repetição de um mesmo trechinho, coisas assim).

Mas claro, todas essas regras podem ser bem mais flexíveis num simples e direto acordo verbal com seus vizinhos. Se você quer praticar o seu acordeão com mais frequência, pode ser só uma questão de discutir com os vizinhos se incomoda, ou que horário que não incomoda, etc. A minha professora de piano, por exemplo, definiu com os vizinhos que ela vai praticar o piano durante as manhãs. Como de manhã tá todo mundo trabalhando ou estudando, não incomoda ninguém e ela pode tocar por 4, 5 horas seguidas. E aí as aulas e outras obrigações profissionais ela marca para as tardes. Quando eu comprei o meu piano, perguntei aos vizinhos de baixo e ao lado se incomoda e disse para por favor avisar se incomodar. Por sorte eles todos gostam do som do piano e pedem sinceramente que eu toque com mais frequência! Ufa. É muito caso a caso, depende muito das pessoas envolvidas e também do local onde você mora. Se os seus vizinhos forem pessoas flexíveis e dispostas a conversar para resolver os problemas, tudo pode ser resolvido com facilidade. Se for um fulano rabugento e ainda por cima que detesta imigrantes, morando bem do seu lado… É.

AH, e uma observação importante: embora domingos e feriados sejam Ruhetage, ou dias completos de descanso, isso não vale para os instrumentos musicais. Você pode, sim, tocar seu oboé numa ensolarada manhã de domingo. E em feriados como o Natal você pode, inclusive, tocar o seu instrumento em horários em que normalmente isso não seria permitido – já que é tradicional que algumas famílias cantem músicas natalinas na noite de Natal, por exemplo. Onde o uso do instrumento for necessário para manter e praticar tradições locais é aceitável tocá-lo em horários diferentes.

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Cachorros e outros animais de estimação

A questão de latido de cachorro e outros barulhos de animais é bem difícil de definir. De novo, acaba sendo uma situação meio caso a caso. Se o seu cachorro dá um latido ou outro esporadicamente, não tem problema nenhum. Por exemplo um cachorro geralmente quieto mas que faz a maior escândalo quando alguém toca a campanhia tudo bem porque o barulho, embora alto, é esporádico e de curto tempo.

Já, se o cão passa horas da noite chorando sem parar, ou latindo frequentemente, você pode ter certeza que vai dar problema com os vizinhos. Se toda vez que você sai de casa o bicho fica lá chorando ininterruptamente até você voltar, mesmo que seja em horários fora do período de descanso, vai dar problema. O que vai ser determinante, se rolar uma briga na justiça, é o tempo de duração do barulho além de quão irritante ele é. No geral, qualquer barulho muito irritante não vai te gerar grandes problemas se durar menos de meia hora, e não ocorrer várias vezes ao dia.

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Crianças

Choros, gritos e vozes altas de crianças são barulhos que os vizinhos têm que tolerar. Como já mencionei lá em cima, não dá pra esperar que um nenê não chore durante a noite e, embora a princípio seja possível reclamar se os pais não fizerem nenhum esforço para acalmar a criança, quem é que pode dizer que não fizeram? A justiça tende a descartar reclamações relacionadas a barulhos de crianças pequenas por aqui. Crianças mais velhas, que já tem idade para entender regras e obedecer ordem dos pais (crianças em idade escolar), essas sim têm que respeitar os horários de descanso e não fazer barulhos desnecessários nesses horários.

Festas e comemorações

Se você quiser dar uma festa na sua casa, com música alta, pessaos bêbadas falando alto, etc, isso pode gerar reclamações dos vizinhos. Se for de vez em nunca provavelmente ninguém vai se dar ao trabalho de reclamar, mas se forem festas frequentes isso pode criar problemas para você. O ideal, se você quiser por exemplo comemorar o seu aniversário para além das 22 horas, é avisar os vizinhos com alguns dias de antecedência. Assim você deixa claro que se preocupa com o bem estar dos seus vizinhos e indica que está aberto para reclamações diretas (e é bem melhor que eles venham reclamar diretamente com você do que que façam uma reclamação oficial para o locador).

Furadeiras, cortador de grama, máquinas diversas e barulhentas

Bem importante aqui é respeitar os horários de descanso. Você provavelmente está pensando que não te ocorreria de cortar a grama à meia noite ou pendurar os quadros da sua casa às 3 da manhã. Mas não se esqueça que domingos e feriados são dias completos de descanço, então nada de aproveitar o domingão ou o feriado para cortar a grama ou dar uma reformada na casa. Respeite também o horário de descanço após o almoço (cheque o seu contrato de aluguel para saber os detalhes de horários de descanço).

Para concluir:

Algumas dessas regras (por exemplo as referentes ao uso de máquinas barulhentas e os horários de descanso) são fixas e rígidas, definidas por leis específicas. Mas muitas outras – como a referente aos instrumentos musicais ou aos barulhos de animais de estimação – não seguem uma norma definitiva porque a situação varia muito caso a caso. Por isso as regras são definidas quando há um processo judicial a respeito, e os processos seguintes têm que levar em consideração os processos passados e fazer decisões similares. Quer dizer, se você tem um cachorro e ele late esporadicamente, pode ser que algum vizinho emburrado reclame e resolva levar isso para a justiça querendo que você ou se livre do cão ou se mude. Talvez o seu vizinho diga que o seu cachorro late continuamente, e para você os latidos parecem bem esporádicos. Quem vai dizer onde fica o limite? Por isso o mais importante é sempre estar aberto para se comunicar diretamente com os seus vizinhos. Vai começar um novo hobbie que pode incomodar – por exemplo comprar um piano? Dá uma perguntada quando você encontrar os vizinhos no corredor do prédio se eles ouvem e se se incomodam. Ou então avise que eles provavelmente vão ouvir o piano sendo tocado regularmente e que sintam-se à vontade para avisar caso incomode. As crianças estão fazendo frequentes escândalos no corredor na hora de colocar o sapato pra ir pra escola? Comente com os vizinhos, peça desculpas e mostre-se aberto a conversas. Tem bem menos chances dos seus vizinhos criarem problemas para você se você deixar sempre claro que se preocupa em não incomodá-los.

E o que pode acontecer se eles de fato fizerem reclamações oficiais? A primeira medida é que o seu locador vai te mandar uma carta avisando da reclamação, claro. Se as reclamações continuarem, você pode ser despejado – mas claro, só depois de uma decisão judicial dando razão ao locador que quer te despejar. Se você é dono da sua casa, as decisões judiciais provavelmente envolverão multas caso não sejam cumpridas. Mas vai ser tudo, claro, sempre em partes: primeiro o aviso, depois o processo na justiça, depois a decisão, depois as consequências caso a decisão não seja cumprida, etc. Não é nada que, se você fizer uma festa no seu apartamento hoje a noite, amanhã seu locador pode te botar pra fora (meio óbvio, né, mas…).

Algumas das fontes que eu usei para escrever esse post:

http://www.t-online.de/finanzen/immobilien/id_67089050/mittagsruhe-und-nachtruhe-verhaltensregeln-bei-ruhezeiten.html

http://www.mietrecht.org/mietvertrag/klavierspielen-mietwohnung/

https://www.urbia.de/magazin/recht-und-finanzen/wie-viel-kinderlaerm-ist-erlaubt


(Publicado em 7 de Abril de 2018)

Sternsinger – Cantores da Estrela

Esse blog já tem 3 anos e meio. Eu nunca teria imaginado, quando comecei a escrever, que teria assunto o suficiente pra continuar escrevendo por 4 anos. Mas mesmo depois de tanto tempo eu ainda frequentemente me deparo com coisas que eu nunca tinha percebido antes e que dão um ótimo post.

Recentemente, por exemplo, notei uma coisa curiosa na porta da casa dos meus sogros:

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Aqueles escritos ali em cima da porta: 20 * C + M + B + 16.

Não era exclusivo da casa deles. Achei várias outras casas na vizinhança e também em outras cidades com escritos similares:

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A maioria das casas que vi tinha apenas “20 * C + M + B + 16“, mas a dos meus sogros em especial (a porta azul acima) tinha vários: 20 * C + M + B + 12, 20 * C + M + B + 14, 20 * C + M + B + 15 e 20 * C + M + B + 16, sendo o último o que estava mais claro, os outros mais apagadinhos.

Quem escreveu esses estranhos códigos? O que eles significam? Porque alguns estão mais apagados que os outros? Como que em 4 anos de Alemanha eu nunca tinha notado esses negócios escritos em vááárias portas??

As respostas para essas perguntas não foram difíceis de descobrir, qualquer alemão saberá te dizer o que significam esses códigos. São uma benção à casa.

No dia 6 de Janeiro, o dia dos três reis magos, grupos de crianças vestidas de três reis magos (ou 4, ou 5, ou quantos reis magos (e rainhas magas) forem necessários para o grupo de crianças em questão) carregando uma estrela vão de porta em porta cantando umas músicas e oferecendo uma bênção para a casa, em troca de uns trocados para projetos de caridade das igrejas, e também uns doces – que né, doces são sempre necessários.

Assim:

Hans Kadereit – Wikipedia

Chamam-se “Sternsinger”, ou “Cantores da estrela”

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Vários grupos de Sternsinger reunidos na igreja. Hans Kadereit – Wikipedia

E os códigos? 20 * C + M + B + 16? Os códigos são a bênção em si, que as crianças escrevem com giz. Os números, vc já deve ter concluido, significa o ano, no caso 2016. CMB é uma sigla para a frase em latim “Christus mansionem benedicat“, “que Cristo abençoe essa casa”. Mas também são popularmente interpretados como os nomes dos três reis magos: Caspar, Melchior e Balthasar. Só não sei como as crianças conseguem escrever a tal bênção lá no topo da porta… suponho que algum adulto dê uma ajudinha!

A benção do ano atual você encontra em várias portas, mas em algumas poucas portas você encontra ainda, meio apagadinho, as bênçãos de anos anteriores, como na porta dos meus sogros. Algumas casas têm até uma pequena lousinha na porta, especificamente pra esse fim (como a segunda foto lá em cima, da porta branca).

É isso! Um fato curioso que pode passar facilmente despercebido se você mora em apartamento! Agora fiquei pensando que teria feito mais sentido escrever esse post no dia 6 de Janeiro… oh well, 6 de Setembro é quase 6 de Janeiro!


(Publicado em 6 de Setembro de 2016)

Contas de consumo

Esse post talvez seja menos interessante para os curiosos regulares de cultura alemã, mas mais para aqueles que planejam vir morar na Alemanha e querem saber detalhes dos custos de vida.

Contas de consumo. Antes de falarmos das contas em específico, vale a pena discutir um pouco os típicos consumos de uma casa alemã. A primeira coisa bem óbvia é, claro, o aquecimento. Aqui na maioria das casas e prédios têm aquecimento a gás. O mais comum é um aquecimento central para o edifício inteiro, e, claro, em cada cômodo do seu apartamento você tem um aquecedor que você pode ligar, desligar, aumentar ou diminuir de acordo com o necessário. A conta a pagar é calculada do seu consumo particular. Algumas casas e apartamentos ainda têm aquecimento com carvão, mas não é muito comum.

Então o gás você usa para o aquecimento da casa, e para aquecer a água também. Lembrando que aqui tem água quente não só no chuveiro, mas também em todas as pias. Mas uma coisa que praticamente nunca é a gás são fogões. Fogão elétrico é muuuuito mais comum, e em vários – talvez a maioria – dos apartamentos nem tem ligação de gás para o fogão, de maneira que não é opção.

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A única outra coisa que gera gastos diferentes da casa média brasileira é a máquina de lavar louça, também extremamente comum por aqui. A princípio, lavar a louça na máquina gasta menos água que lavar a mão, mas vai também um pouco de energia no aquecimento da água (Aqui isso não faz muita diferença já que é comum usar água quente na torneira também). O que me lembra de mais uma diferença: aqui as máquinas de lavar roupa todas têm escolha de temperatura. É normal lavar roupas com água quente, especialmente para roupas de baixo e toalhas e panos de chão.

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Mas vamos para o que importa. Quanto você vai pagar por tudo isso? Caro. Caro pra xuxu. Eletricidade e água, na Alemanha, são caríssimos, mais que o dobro do preço no Brasil. Água em específico aqui é uma das mais caras do mundo. Vai aprendendo a racionar que a conta vai doer no bolso. Tem seus pontos positivos: esbanjos absurdos de água – como lavar a calçada ou o quintal com mangueira – é uma coisa que você jamais vai testemunhar por aqui.

E as contas de consumo funcionam de maneira um pouco diferente, por aqui. Ao invés de pagar mensalmente de acordo com o consumo, para todas as contas é calculado um valor fixo de acordo com o que é esperado que você gaste, e anualmente calcula-se a diferença do que foi gasto e o que foi pago.

Então por exemplo agora, Julho de 2014, acabamos de receber a conta para a diferença dos consumos e gastos de 2013 inclusos no condomínio. O condomínio por aqui costuma incluir a água, o aquecimento (gás) e eventuais pequenos gastos do edifício como limpeza semanal, manutenção do elevador se tiver, etc. Esses gastos são pequenos em comparação com as contas de consumo, já que os edifícios residenciais aqui não empregam porteiros, faxineiras, jardineiros ou manobristas (limpeza e eventuais serviços são contratados a parte por empresas terceirizadas). Então a maior parte do valor do condomínio são mesmo as contas de água e gás. O preço é calculado de acordo com o ano anterior, então, quando você se muda para um apartamento novo, o preço que você vai pagar vai ser aquele que o locatário anterior estava pagando. Se antes morava uma pessoa sozinha e agora você se mudou com mais outras duas pessoas para o apartamento, espere uma conta gorda no ano seguinte e um belo dum reajuste.

O que acontece, portanto, é que ao final do ano (ou melhor, lá pela metade do ano seguinte), eles fazem o cálculo do que foi gasto e do que foi pago, te cobram (ou devolvem) a diferença, e reajustam o valor do condomínio de acordo com os gastos do ano anterior para tentar equalizar a conta para o ano que vem.

Só que o consumo varia bastante de ano a ano devido ao aquecimento. Tem ano que o inverno é rigoroso e portanto o gasto com aquecimento é muito maior que em outros anos com invernos mais brandos.

Portanto, após invernos muito frios, pode ir contanto com uma conta salgada a chegar lá pelo meio do ano.

Com a conta de eletricidade é quase a mesma coisa, com a diferença de que é você que contrata a empresa fornecedora de energia por conta própria – tem várias opções, inclusive empresas que fornecem energia oriunda exclusivamente de fontes renováveis – e o valor a pagar será calculado de acordo com o tamanho da residência e o número de moradores.

Pesquisando sobre o assunto de preço de contas de consumo, encontrei esse interessante site que compara custo de vida em dois países de sua escolha:

http://www.numbeo.com/cost-of-living/compare_countries_result.jsp?country1=Germany&country2=Brazil

Dá para escolher duas cidades específicas também. Com a comparação desse site, dá para ver que uma das diferenças mais gritantes de custo de vida está mesmo nas contas de consumo, que na Alemanha são aproximadamente 3 vezes mais caras que no Brasil… Bom, pelo menos a água daqui é super bem tratada e é perfeitamente confiável para beber direto da torneira…


(Publicado em 29 de Julho de 2014)

 

Camas Alemãs

Pode parecer um tópico estranho para um post, mas certas coisas devem ser ditas sobre camas alemãs. Elas não são como as nossas. A foto a seguir mostra bem algumas diferenças:

A primeira coisa estranha são as opções de tamanho de camas de casal. No Brasil, o tamanho mais comum para um colchão de casal é 1,60m, o dito Queen Size. Esse tamanho é quase inexistente na Alemanha. Os colchões maiores disponíveis (ok, dá para achar maiores, mas não é padrão) são de 1,40m. Tudo bem que embora altos, os alemães costumem ser bem magrelos, mas 1,40m para duas pessoas? Aí que tá, na verdade a cama de 1,40m não é pensada para duas pessoas, mas só para uma pessoa bem espaçosa.

Sim, na Alemanha existem já vários casais não tradicionais que escolhem dormir em camas e até quartos separados, mas lógico que muitos outros ainda preferem dormir de conchinha, ainda mais confortável quando neva lá fora. Na verdade a cama de casal padrão tem 1,80m, só que com dois colchões de 0,90m. Como na foto acima. (O que não facilita dormir de conchinha, a propósito.)

Mas os alemães te explicarão que blábláblá dos movimentos durante o sono, que awawaw você dorme melhor se o seu colchão não está sujeito aos movimentos do parceiro, etcetc. Pf. Sei não, não compro essa história. Mas seja como for, se você ficar com seu namorado/a/esposo/a/amigo colorido ou o que for num hotel alemão, a cama de casal provavelmente terá dois colchões. Pelo menos é grande.

A segunda coisa são os cobertores.

Os cobertores aqui são meio como travesseiros. São “recheados” com pena, como edredons, só que são colocados dentro de lençóis de cobertor, tipo fronhas. São mega confortáveis e como você consegue tirar o lençol que o cobre facilmente, fica fácil de lavar. O cobertor mesmo, vc acaba precisando lavar só muuuito de vez em quando. (se você tiver um cachorro pequeno, talvez com mais freqüência…). Além disso, vc não precisa de vários cobertores/edredons diferentes para variar a aparência da sua cama, é só trocar o lençol, que obviamente dobrado no armário ocupa bem menos espaço que um cobertor inteiro.

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Eles têm, ainda, cobertores de inverno e de verão. Basicamente o que muda é a espessura e quantidade de penas dentro. Tem uns sete níveis de cobertor.

Além disso, seguindo a lógica dos colchões separados, na maioria dos casos as pessoas têm dois cobertores de solteiro, ao invés de um de casal. Isso sim é uma idéia sagaz. Depois de usar cobertores separados, não vejo a menor possibilidade de explicação lógica para um único cobertor para duas pessoas. Muuuuito mais prático cada um ter seu cobertor, e ninguém ficar com frio durante a noite pq o parceiro roubou o cobertor todo pra si.

A maneira como eles arrumam a cama também é diferente. Os alemães não costumam usar lençóis na cama, exceto pelo lençol com elásticos que cobre o colchão, claro. Isso acho estranho. Nos dias quentes, eles dormem sem nada mesmo. Estranho. Mas pelo menos facilita para arrumar a cama. E ao fazer a cama, é normal deixar o cobertor dobrado ao meio, como na primeira foto.

E finalmente, o travesseiro. Travesseiros alemães também são feitos com pena de pato (acho que é de pato. Não é de ganso) e são bem moles e deformáveis. Eles não ficam bonitinhos retangulares. E aliás, nem retangulares eles são. O tamanho padrão de travesseiro aqui é 80x80cm.

Travesseiros

É isso! E aliás, se você vier para a Alemanha e experimentar os deliciosos travesseiros e cobertores alemães no hotel ou albergue, e ficar com vontade de levar uns pra casa, saiba que é perfeitamente possível! Eles vêm enroladinhos e mega-comprimidos, vai caber fácil na mala. Basta dar um pulo no IKEA mais próximo.


(Publicado em 27 de Julho de 2013)

IKEA

Essa post com certeza não vale só para a Alemanha, mas para qualquer país que tem IKEA.

IKEA, para quem não sabe, é uma loja sueca de móveis e coisas para a casa. Tem uma parecida em São Paulo, a Etna. Só que a Etna, como tudo em SP, é super cara. No IKEA você mobilia sua casa inteira com uns 500 euros. Tá, vai, 500 talvez não. 550.

O fato é que o IKEA vende móveis baratíssimos. E de qualidade razoável. Não é que você vai comprar uma estante de madeira maciça por 10 euros, os móveis são feitos nos mais simples compensados e MDFs disponíveis, mas não são ruins. Eles apostam muito na flexibilidade, então você encontra vários móveis modulares personalizáveis.

Mas enfim, não estou escrevendo post para fazer propaganda da loja. Quero falar é da influência do IKEA nas casas alemãs.

Basicamente, é o seguinte: Toda casa alemã tem pelo menos uma coisa do IKEA dentro. Provavelmente várias. Se for casa de estudantes, ou pessoas novas sem altíssimos salários, pode apostar que uns 80% dos móveis e objetos básicos de casa (travesseiro, cobertor, talheres, pratos, etcetc) vieram do IKEA. Depois de duas ou três visitas a uma das enormes lojas para comprar seus próprios móveis e objetos de casa, você já será capaz de reconhecer de longe, numa foto embaçada e torta e de baixa resolução, um móvel do IKEA, e ainda saber o nome em sueco do mesmo. A primeira coisa que você pensará ao visitar um amigo pela primeira vez será algo tipo “Puxa, ele tem a [estante] Expedit na versão maior! Olha, esse é o Puf do conjunto da [cadeira] Poäng que eu tenho em casa! Ah, eu tava pensando em comprar essa [mesa] Lack, só que branca! Nossa, ficou bom, essa [cama] Malm do lado desse [gaveteiro] Bestä!

A repetição é tão grande que, outro dia, andando pela rua, começamos a contar quantas luminárias Regolit dava para ver pelas janelas acesas dos apartamentos em volta. A Regolit é a luminária mais barata que você encontra no IKEA, custa exatos 1,99 euros.

Em três quarteirões, contei 32 luminárias Regolit. Nas janelas acesas. Nas em que dava para enxergar a luminária.

Acho que dá para dizer com uma quantidade razoável de certeza que 100% das casas alemãs contém pelo menos uma Regolit em algum cômodo.

Enfim. Talvez seja meio entediante a repetição de móveis em todas as casas, ninguém tem nada original. Mas, fato, não precisar casar e convidar 378 pessoas para conseguir mobiliar o apartamento ao deixar a casa dos pais: não tem preço.

Só fica feio quando você vai num restaurante e os móveis também são do IKEA…


(Publicado em 26 de Março de 2013)

Morando em casas alemãs

As casas na Alemanha têm várias diferenças rapidamente perceptíveis, e bem esquisitas.

A primeira coisa que você vai notar ao visitar um amigo alemão é que você não vai entrar na casa dele pela sala. Todas as casas e apartamentos tem um pequeno (ou grande) hall de entrada para deixar seus vários casacos e, importante, os sapatos também. Ninguém na Alemanha anda de sapato em casa. Pode parecer frescura, mas é totalmente compreensível no inverno, quando você chega em casa depois de andar pela neve, e seu sapato tá cheio de neve que dali a um minuto vai derreter e virar uma bela poça de água suja embaixo do sapato. Preste atenção nisso se for visitar alguém na Alemanha. Os alemães vão achar muito estranho e mal-educado da sua parte se você entrar na casa sem tirar o sapato.

Então você chega na casa, e meia hora depois (se for inverno) você está finalmente pronto para atravessar o hall de entrada. É comum também, para os alemães, usar pantufas em casa. É tão comum que, ao visitar alguém, normalmente te oferecerão pantufas emprestadas. É tão comum que as pessoas de vez em quando até levam suas próprias pantufas quando vão na casa de alguém. Normal. Ok, sapatos e casacos devidamente guardados, pantufas nos pés, finalmente em casa. Nas casas alemãs, especialmente nos apartamentos, a planta normalmente é desenhada de maneira que todos os cômodos são acessados do hall. Às vezes a cozinha é aberta para sala (totalmente aberta, mesmo, parte da sala), mas normalmente são dois cômodos diferentes que não têm uma porta entre si. Sempre achei isso estranho!

Os cômodos costumam ser grandes e espaçosos, e repúblicas de estudantes normalmente não têm salas. Aquela medida padrão de quarto de apartamento em SP, 3x3m, é quase impensável, por aqui. Os quartos costumam ser bem maiores. Mas apartamentos nunca têm área de serviço. A máquina de lavar roupa costuma ficar na cozinha.

E entrando na cozinha, vc vai notar outra coisa muito muito esquisita. As bancadas da pia, nas cozinhas alemãs, não são de pedra! Normalmente são ou de alumínio ou de madeira! Alumínio até vai, mas madeira, que é super comum, é bizarro, você tira uma panela quente do fogão e precisa de um descanso de panela para poder colocar a panela para não queimar a pia? Nada a ver…

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Mesmo no banheiro também é raro ver bancadas de pedra. Pedra deve ser caro por aqui. O mais comum é só a louça, mesmo, no banheiro. Aliás, o banheiro é cheio de esquisitices. A coisa mais bizarra de todas é: NÃO TEM RALO! Quer dizer, tem um ralo para o chuveiro, mas um ralo para o banheiro todo, não! Aí você dirá, tudo bem, eu empurro a água com o rodo para o box e pronto, né?

Não. Para o chuveiro, os banheiros costumam ter ou banheira, ou um negócio muito esquisito de louça uns 10 ou 20cm elevado do chão. Assim:

Que idéia de girico, colocar o piso do chuveiro ELEVADO do banheiro… naaaada a ver. Acontece que eles não tiveram a brilhante idéia de rebaixar o forro do banheiro do apartamento de baixo para colocar as instalações hidráulicas do banheiros do apartamento de cima. É, os alemães não são muito bons de banheiro. Até porque box, como o que aparece na foto acima, também não são regra. O normal é aquela cortininha tosca que fica grudando em você durante o banho.

Aliás, voltando para cozinha, outro ponto interessante é que, normalmente eles só colocam azulejo em cima da bancada, em uma faixa de uns 70cm. Isso é legal, certamente a cozinha fica bem bonita sem ser coberta de azulejo.

Andando até o quarto, não sei dizer se é regra, mas percebi que não é nada incomum as camas não terem cabeceira. Super estranho.

Coisas boas das casas alemãs, porém, são:

– Aquecimento, óbvio, com -20˚C lá fora não ia rolar de ficar com frio dentro de casa também. Quando está a maior neve e frio do lado de fora, as casas parecem tão aconchegantes!

– Aquecimento também no piso do banheiro. Aí sim!

– Janelas de alta qualidade, nada daquelas terríveis janelas Sazazaki de todos os prédios de SP. (aquela toscona de alumínio que nunca dá para abrir o vão inteiro). As janelas daqui não costumam ter veneziana, e abrem de duas maneiras. Elas têm uma maçaneta, que nem de porta, que fica virada para baixo quando fechada. Virando a maçaneta na horizontal, a janela abre totalmente, como uma porta. Virando a maçaneta para cima, vira uma tipo uma janela maxim-ar de cabeça para baixo. Assim:

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São ótimas, essas janelas. Até porque elas precisam ser super bem isoladas, claro, então elas também cortam o barulho de fora de maneira bem eficiente quando fechadas.

Quanto a eletrodomésticos, na Alemanha é comum ter:

– fogões elétricos

– máquina de lavar louça (bem comum)

e

– fervedor de água (um bule que liga na tomada e ferve a água super rápido, aparece na foto da cozinha lá em cima)

Ok, acho que não esqueci de nada! Ah, sim, tem mais uma coisa que eu notei. Os alemães, embora super organizados na vida, são super desorganizados na casa. Sério, as casas por aqui são mó bagunçadas, e eles guardam muuuuito lixo. Sei lá, o trabalhinho que o filho – hoje com 30 anos de idade – fez no pré, coisas assim.. Achei uma contradição engraçada, os alemães, um povo super organizado, com casas bagunçadas. Os brasileiros são super desorganizados, mas as casas costumam ser super arrumadas!

Enfim, falando de casa tem que falar de IKEA, também. Mas fica para o próxima post.


(Publicado em 23 de Março de 2013)

Cadê minha casa?

Quem nunca morou fora do país talvez nunca tenha percebido que no Brasil a gente tem o sistema mais sagaz ever de numeração de edifícios. Esse é o tipo de coisa que em cada país é diferentes, e a gente nunca ouve falar sobre como é em outros países uma vez que não é um assunto importante a não ser que você more lá, e obviamente se você mora no local você sabe como funciona.

Mas no Brasil isso funciona brilhantemente. O número da casa ou prédio é a distância da mesma até o início da rua. Apartamentos em prédios são numerados por andar. Tudo faz sentido.

Na Alemanha, não. Quer dizer, faz sentido, mas bem menos.

Pra começar, os edifícios são numerados sequencialmente. Pelo menos aqui em Dresden, um lado da rua tem numeração ímpar, e do outro lado, par. Mas já me disseram que em Berlim algumas ruas tinham numeração sequencial que começava de um lado, 1, 2, 3, 4, ia até o final da rua, e daí voltava do outro lado na direção oposta. Ou seja, vc teria de um lado da rua o número 1, e, do outro, digamos, o número 139.

Tá, até aí não é tão mal. Você não sabe quanto você vai ter que andar para chegar de onde você está até o número x, mas pelo menos você sabe em que direção andar (desde que você não esteja em Berlim).

Mas para encontrar um determinado apartamento num edifício a coisa complica. Seu endereço diz somente “Rua Tal, número X”. Apartamentos não têm números! Na porta do prédio tem o interfone, e para cada apartamento, a pessoa que mora lá põe o seu sobrenome na frente do botão. Se você estiver visitando alguém que more numa república com outros 4 ou 5 estudantes, pode ficar complicado achar o sobrenome do seu amigo escrito minúsculo junto com outros 4 sobrenomes num papelzinho de 2x5cm… Mas tudo bem, consegui interfonar e a pessoa apertou o botão para abrir a porta para mim. Mas como eu faço para achar a porta do apartamento no prédio? Se a pessoa esqueceu de te avisar, você vai ter que ir subindo de andar em andar e ler o nome do morador na frente de cada porta até achar seu amigo!

Bom, pelo menos os prédios têm bem menos andares e apartamentos…


(Publicado em 14 de Março de 2013)