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Trümmerfrauen – As mulheres que reconstruíram a Alemanha

Recentemente eu precisei para um projeto procurar algumas fotos antigas de uma rua aqui de Dresden. A dica de uma colega foi dar uma olhada no catálogo da Deutsche Fotothek – o departamento de fotografias históricas da Biblioteca Estadual da Saxônia, a SLUB (Sächsische Landesbibliothek – Staats- und Universitätsbibliothek), onde eu então me perdi por horas a fio. A Fotothek disponibiliza online as fotos do seu catálogo, um imenso banco de fotografias antigas – a maioria aqui da região, mas outras de outros locais também. Dá pra ficar horas lá assistindo a história de Dresden se desenrolar desde o advento da fotografia até anos recentes. Claro que as fotos mais impressionantes são as da época da guerra e especialmente do pós-guerra. Como expliquei no post sobre Dresden, a cidade foi destruída quase por completo em 13 de Fevereiro de 1945, um dos últimos bombardeios de grande escala da segunda guerra. Mais impressionante que as fotos da cidade destruída (que já são tão famosas e amplamente divulgadas) são porém as fotos dos anos seguintes, quando os sobreviventes limparam os destroços e reconstruiram partes da cidade.

A história da Enttrümmerung (remoção de destroços) e Wiederaufbau (reconstrução) de Dresden (e outras cidades alemãs) é particularmente interessante porque esse foi um trabalho realizado majoritariamente por mulheres. Os homens sobreviventes, que não eram muito velhos ou doentes para serem soldados, permaneceram algum tempo detidos pelas forças aliadas após o final da guerra.

Desta história criou-se o termo “Trümmerfrauen“, literalmente traduzido para “mulheres dos destroços”, para se referir ás mulheres sobreviventes que juntas removeram os destroços de suas cidades destruídas e reconstruíram as mesmas.

Em Dresden há inclusive um monumento à Trümmerfrau (Trümmerfrau – singular, Trümmerfrauen – plural), uma escultura bem na frente do edifício da prefeitura.

A iniciativa de recordar e comemorar o esforço dessas mulheres é bem digna. Foi um trabalho que não apenas exigiu muito esforço físico e muitas horas de trabalho árduo ao longo de vários meses, mas especialmente que necessitou uma tremenda resiliência e e força de vontade de ver sua cidade completamente destruída e ainda assim encontrar energia mental para se levantar todos os dias e ir empilhar tijolos.

Infelizmente essa memória é muitas vezes resignificada por grupos neo-nazis ou ultra-nacionalistas que usam esse e outros monumentos que glorificam os esforços de reconstrução do país como motivo para enaltecer e exaltar os alemães etcetc, convenientemente esquecendo de mencionar que a cidade precisou ser reconstruída porque foi destruída pela guerra que os maridos daquelas mulheres inventaram de começar, e que a sociedade como um todo leva a culpa pelas atrocidades cometidas durante a guerra, tenha sido por participação ativa ou passiva. Vítimas da guerra eram os sobreviventes de certa maneira, mas ainda sempre culpados pela mesma, e pelo assassinato em massa de judeus e outros grupos. Se não pela direta participação então pela silenciosa aquiescência aos horrores do holocausto.

Mas mesmo mantendo em vista o contexto, ainda é possível admirar os esforços da reconstrução, então voltando às fotos. Li as regras e consultei a Fotothek a respeito do uso das fotos da Fotothek e por sorte é permitido publicar as imagens na resolução disponibilizada gratuitamente online desde que seja para uso pessoal – no caso de websites, contam como uso pessoal aqueles que não visam lucro, não têm propagandas, etc.  E lá na Fotothek há inúmeras fotos desses trabalhos de remoção dos destroços e reconstrução e é um tanto engraçado ver que as mulheres que nas fotos aparecem são mesmo iguaizinhas à escultura! Nos tempos de austeridade pós guerra não era muita a variedade de vestimentas, de maneira que todas estão exatamente como a mulher símbolo esculpida: um avental para proteger as poucas roupas que sobraram, um pano na cabeça para segurar o cabelo e proteger a cabeça do sol, e uma machete, pá ou outra ferramenta similar na mão.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Rössing, Roger & Rössing, Renate. 1953.  http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88897352

(Clicando na foto você verá a página da mesmoa na Deutsche Fotothek, com todas as informações sobre a foto e link para download. Antes de sair compartilhando por aí, leia as regras de uso! Compartilhar em redes sociais, por exemplo, não é permitido.)

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham em montanha de destroços na frente da fábrica de cigarros Yenidze.

O que mais me impressiona nessas fotos é ver as mulheres rindo e sorrindo, como se cantassem e conversassem enquanto reorganizam sua cidade em ruínas. Me emociona ver a resiliência do ser humano simbolizada nessas imagens. Certamente todas as mulheres dessas fotos perderam um ou vários familiares na guerra, muitas certamente perderam suas casas e todos os seus pertences. Mas lá estão elas trabalhando juntas na reconstrução, ainda capazes de sorrir!

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301521

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SLUB/Deutsche Fotothek,  Höhne, Erich & Pohl, Erich. 1946. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/70600276

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1955. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71301520

As pedras e tijolos retirados dos destroços que podiam ser reutilizados para a reconstrução eram meticulosamente organizados, empilhados e marcados.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, GERMIN. 1948. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/71555864

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard jun. 1945/1954. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/90041153

Mas também é importante notar que a história das Trümmerfrauen é a partir de certo ponto um tanto exagerada. Se você procurar Trümmerfrauen no google, vai encontrar diversos artigos explicando que a idéia de que todas as mulheres sobreviventes se uniram para reconstruir suas cidades é um mito. Como explicam alguns pesquisadores e historiadores, embora a maioria dos trabalhadores no esforço de remoção de destroços e limpezas fossem de fato mulheres (e isso se vê com clareza nas fotos históricas), foi na verdade uma porcentagem pequena das mulheres sobreviventes que se dedicou a esse trabalho. A maioria da população ainda via esse tipo de trabalho manual e físico como algo indigno. Principalmente na Alemanha Ocidental a imagem da Trümmerfrau é uma distorção da verdade – uma vez que nas regiões do país então controladas pelos Estados Unidos, França e Inglaterra a imagem tradicional do papel das mulheres na sociedade tornava a realização de trabalho manual por mulheres ainda mais indesejado pela sociedade. Foi mais na Alemanha Oriental, então controlada pela União Soviética, em que as mulheres trabalhando na reconstrução das cidades eram em número mais significativo, pois fazia parte dos ideais soviéticos representar as mulheres também como trabalhadoras. Muitas faziam aquele trabalho não por ideais bonitos de esforços generalizados para a reconstrução do país, mas porque era o único trabalho disponível, ainda que pagasse quase nada.

Toda história tem muitos lados e um contexto muito mais complexo que o que pode ser mostrado em uma dúzia de fotos, é claro. Mas independente disso, não deixa de ser admirável o papel importante que as mulheres tiveram na recuperação do país no pós-guerra, e especialmente o quanto isso mostra a resiliência humana. No fundo é essa a principal mensagem passada pelo monumento à Trümmerfrau: a de sobrevivência.

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SLUB Dresden/Deutsche Fotothek, Peter, Richard sen. 1945. http://www.deutschefotothek.de/documents/obj/88950446

Mulheres trabalham retirando destroços na frente das ruínas do edifício da prefeitura de Dresden, onde hoje localiza-se o monumento à Trümmerfrau.

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Alguns artigos sobre o assunto, onde pesquisei o tema para escrever esse post:

http://www.spiegel.de/spiegelgeschichte/mythos-truemmerfrauen-nachkriegs-elend-in-deutschland-a-1190734.html

https://www.dw.com/en/dismantling-the-german-myth-of-trümmerfrauen/a-18083725

https://www.welt.de/geschichte/article174070519/Was-die-echten-Truemmerfrauen-geleistet-haben.html

O site da Deutsche Fotothek:

http://www.deutschefotothek.de


(Publicado em 03 de Agosto de 2018)

Lixo e reciclagem

Importante ao morar num lugar diferente é saber quais são as regras referentes ao lixo doméstico. Onde jogar o quê, o que pode ser jogado no lixo doméstico e o que tem que ser levado para locais específicos, como se desfazer de objetos maiores, etc.

No primeiro ano de vida deste blog eu escrevi um post sobre o lixo reciclável na Alemanha, mas faz um tempo que estou querendo escrever um atualizado e mais abrangente.

Primeiro tenho que especificar uma coisa importante: Cada cidade alemã têm suas regras específicas referentes à coleta de lixo, como no Brasil. Eu vou falar do lixo em Dresden, que é onde moro. Mas antes de sair por aí separado o lixo da maneira que eu descrevi, melhor você checar se há diferenças na cidade onde você mora. Você pode fazer isso procurando no google “Abfallratgeber + Nome da sua cidade” que você certamente encontrará um site ou PDF da prefeitura local com todas as regras de coleta de lixo naquela cidade.

Provavelmente a maioria das regras vai ser igual às que eu vou descrever.

Muito que bem.

A primeira coisa que você precisa saber é como separar o lixo corretamente. Na Alemanha tem diferentes tipos de lixo que são coletados em diferentes dias da semana e com diferentes freqüências. Você pode, claro, dar uma de João sem braço e jogar todo o seu lixo na lata de lixo preta, a para “outros”, em vez de separar. Mas seria um tiro no pé já que a esse é o lixo mais caro. Você (ou o prédio onde você mora) paga pela quantidade de lixo retirado, e o lixo preto, de outros, é o mais caro. Logo, melhor separar.

Tá, como?

Normalmente na sua casa você vai ter quatro tipos diferentes de latas de lixo:

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Lata de lixo amarela – Leichtverpackungen (embalagens leves)

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A lata de lixo amarela é onde vão a maior parte dos lixos recicláveis. Embalagens de plástico, de alumínio, tetrapak, é lá que joga. Por exemplo: embalagem de shampoo, tubo de pasta de dente, saquinho de plástico, caixa de leite, caixa de suco, embalagem de café, papel alumínio, etc.

As embalagens que vão na lata amarela costumam ter esse símbolo aqui:

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Se tiver o símbolo, o lugar da embalagem é no lixo amarelo. Se não tiver mas atender aos critérios que eu descrevi, também vai no lixo amarelo.

A coleta do lixo reciclável na sua casa é gratuita. Na verdade, quem paga pela coleta desse lixo são as próprias empresas que produzem esse lixo. E claro que esse valor é repassado pro consumidor no preço dos produtos no supermercado. Então na verdade você já pagou pela coleta desse lixo quando comprou o mesmo.

“Ah, tá, já sei, vou jogar todo o lixo na lata amarela e pronto, então!”

Lógico que não funciona: se tiver outro tipo de lixo na lata amarela (e é bem fácil de perceber, na verdade) o caminhão de lixo não retira o lixo e cola um grande adeviso vermelho dizendo que você colocou o lixo errado ali, pra todos os seus vizinhos verem e te olharem feio depois. Ou então eles retiram o lixo como se fosse lixo normal – lata preta –  e te mandam uma multa.

Ah, e claro, não esqueça: a embalagem tem que estar vazia! Se você for jogar, sei lá, um iogurte fora, e ele estiver cheio, ou você separa o iogurte no lixo orgânico e a embalagem no lixo amarelo, ou joga tudo no lixo preto. Mas jogar a embalagem com a comida dentro no amarelo não pode. Já lavar a embalagem não precisa. O Iogurte tem que ir no orgânico, mas a embalagem pode estar suja de iogurte.

O caminhão de lixo reciclável passa na sua casa (em Dresden) uma vez a cada duas semana.

Lata de lixo marrom – Bioabfall (lixo orgânico)

 

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No lixo orgânico vai resto de comida e comida fora da validade (mas sem ossos!); papel-toalha e guardanapo usado; borra de café INCLUSIVE o filtro de papel; restos de jardim como plantas, flores, terra, folhas; pequenas quantidades de óleo e gordura que estejam em papel-toalha.

Sim, as pessoas têm uma lata dentro de casa para lixo orgânico. Não, não vem barata nem outros insetos (bom, se você deixar o lixo lá vários dias sem levar pra fora, certamente eventualmente aparecerão umas larvinhas, né. Mas fora isso, não aparecem outros insetos e aqui não tem barata e é por isso que eu amo a Alemanha.

Não pode jogar o lixo orgânico na lata marrom dentro de sacos plásticos!! Você provavelmente coletará o lixo na sua casa num saco plástico, mas o certo é jogar o conteúdo na lata marrom e aí o saquinho na lata amarela. Se tiver saco plástico na lata marrom, eles não retiram o lixo.

Pedrinha de gato e fraldas não vão no lixo orgânico.

A coleta do lixo orgânico é paga, e passa na sua casa (em Dresden) uma vez por semana.

Lata de lixo azul – Altpapier (Papel)

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Essa é fácil. Papel você joga nas latas azuis. Revista, jornal, folheto, livro, papéis diversos, papel de presente, papelão e caixas de papelão dobradas, amassadas ou em pedaços (quer dizer, não é pra jogar uma enorme caixa de papelão vazia e ocupar a lata inteira, é pra desmontar a caixa antes).

Só que é só papel seco, né. Então por exemplo caixa de pizza toda oleosa da pizza vai pro lixo preto. Fotos, pôsteres ou papel de parede com resto de cola também. Embalagens de comida de papel (a embalagem de papel, não a comida, hehe) com resto de comida vão no lixo amarelo. Quer dizer, se for assim uma caixa onde tinham, sei lá, maçãs, aí é o lixo de papel. Se for uma embalagem de todinho, é no lixo amarelo. Enfim, deu pra entender. Nem tem todinho, aqui.

A coleta das latas de lixo azul acontece uma vez a cada duas semanas aqui em Dresden. Às vezes se você tem muito papel pra jogar fora, muitas caixas, sei lá, e não cabe tudo na lata de lixo do seu prédio ou da sua casa, você pode levar para alguns dos diversos contêiners de papel espalhados pela cidade. Sempre tem algum (ou vários) perto da sua casa. Normalmente eles estão lotados. Mas tem. E aí você tem que prestar atenção que os contêineres para papel são separados em papel normal e papelão.

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Lata de lixo preta – Restabfall (lixo comum)

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A quarta e última lata de lixo que você encontrará na sua casa é a lata de lixo preta, para o lixo comum.

Que que vai no lixo comum? Artigos de higiene, absorvente, sujeira acumulada no aspirador de pó, lenços úmidos, bituca de cigarro, pedrinha de gato, fralda de nenê, cerâmica, porcelana, papel de parede, restos de tinta, tecidos sujos, sapatos estragados, couro, restos de medicamentos e remédios fora da validade, cartucho de impressora, e tudo que for resto e que não entrar em mais nenhuma categoria.

A lata de lixo preta é coletada uma vez a cada duas semanas e você tem que pagar pela coleta. Então são dois motivos pra te incentivar a separar o lixo direito: primeiro que pelo reciclável você não paga, e segundo que se você jogar tudo no lixo preto, vai ficar um monte de lixo acumulado na sua casa já que o caminhão só passa uma vez a cada duas semanas.

 

Então são esses os quatro lixos que você vai ter na sua casa. Mas você talvez tenha notado que tem outras coisas das quais você precisa se desfazer que não se encaixam em nenhuma das categorias até agora descritas. Essas coisas você tem que levar em lugares específicos. São esses:

Contêiners para vidro – Glasverpackungen (embalagens de vidro)

Vidro é uma coisa a parte. Vidro não vai no lixo doméstico, você tem que levar num dos contêiners espalhados pela cidade. Tem muitos e certamente tem vários bem perto de casa, então não é lá grande esforço. Mas vc vai acumulando vidros em algum canto de casa até juntar tudo pra levar.

Aí chegando lá você tem que prestar atenção em qual contêiner colocar qual vidro. Tem diferença, são três opções: o Weißglascontainer – contêiner para vidros brancos (incolor) –, o Braunglascontainer – contêiner para vidros marrons – e o Grünglascontainer – contêiner para vidros verdes, ou outras cores que não seja marrom ou incolor.

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Ok, até aí tá fácil.

MAS PÉRA! Não é tão simples assim. Tem certos vidros que não devem ser jogados nos contêineres de vidro. São esses: copos, bules de chá, cristais, tigelas de vidro, vidros planos (como vidro de janela, ou espelho) e lâmpadas. Isso porque esses vidros são fabricados com uma composição química diferente daquela usada para garrafas, e portanto não podem ser reciclados. Esses vidros devem ser jogados no lixo normal (preto). Já lâmpadas de LED devem ser jogadas junto com o lixo eletrônico. Meio óbvio. Tá.

MAS PÉRA! Não é só isso! Nem toda garrafa de vidro deve ser jogada fora!! Muitas garrafas de vidro têm um depósito. Quer dizer que você pode devolver a garrafa para a loja, ou supermercado, e eles te devolvem o valor do depósito. (entre 8 e 25 centavos). Normalmente está escrito na garrafa se tem depósito ou não, chama Pfand.

Então basicamente o que você faz é: acumula todos os vidros num canto (bom, exceto os copos, bules de chá, tigelas e vidros planos, que você joga no lixo comum) e aí faz um passeio até os contêineres de vidro, onde joga os vidros que não têm depósito (normalmente garrafas de vinho, garrafas de óleo ou azeite, potes de azeitona…), e aí anda mais um pouquinho até chegar no supermercado pra devolver os outros vidros, que tem depósito (normalmente garrafas de cerveja e outras bebidas), na maquininha de devolver garrafas que tem em qualquer supermercado. Garrafas de plástico (como garrafinhas pet) também têm depósito!! Não jogue fora!

MAS PÉRA! Tem mais uma coisa! Não é qualquer horário ou dia que você pode ir até os contêineres jogar os vidros fora! Isso porque jogar vidro numa enorme lata de lixo só pra vidro = barulho irritante de vidro quebrando. Claro. E aí para não incomodar as pessoas que moram logo ao lado dos contêineres de vidro, tem horários específicos em que eles podem ser utilizados, são esses:

De segunda a sexta-feira das 7 da manhã às 19 horas.
Sábados das 7 da manhã às 13 horas e das 15 às 19 horas.
Domingos e feriados não pode jogar fora vidro nos contêineres de vidro.

Ahhh, Alemanha…

Elektrogeräte – Lixo eletrônico 

Lixo eletrônico como eletrodomésticos, cabos, etc, obviamente não podem ser jogados no lixo comum. Para se desfazer desses, são algumas as alternativas:

Você pode levar num dos pontos de coleta de lixo, aqui em Dresden tem 8 lugares. O inconveniente é que eles só abrem de dia de semana até às 19h ou sábado de manhã, então tem que se organizar pra ir num horário que esteja aberto. Esses lugares chamam “Wertstoffhof“.

Você pode marcar com a prefeitura de eles irem buscar na sua casa o lixo eletrônico, caso sejam coisas grandes como geladeiras. Mas claro, para isso tem que pagar.

Lojas grandes de eletrônicos também coletam eletrônicos e eletrodomésticos velhos para o lixo. A regra oficial é que as lojas com mais de 400m² recolhem qualquer objeto de até 25cm de tamanho. Objetos maiores eles recolhem se você comprar um similar. Então, por exemplo, quando compramos uma máquina de lavar nova, eles ao entregarem levaram a antiga já de graça.

Schadstoffe – Poluentes e substâncias nocivas

Pilhas e baterias, produtos de limpeza inflamáveis, óleos e gorduras, termômetros, inseticidas, etc. Também são algumas alternativas:

Pode ser num dos Wertstoffhöfe, os pontos de coleta de lixo que eu mencionei no item acima. Lojas que vendem esse tipo de produto também coletam esse lixo.

Ou, uma outra opção são os Schafstoffmobil: Duas vezes por ano, na primavera e no outono, a prefeitura circula um contêiner específico para coletar esse tipo de produto. O contêiner passa em vários endereços na cidade e a agenda com o dia e o horário que o mesmo estará num endereço mais próximo de você você pode olhar no site da prefeitura.

 

Outros lixos que não se encaixam exatamente em nenhuma dessas categorias descritas podem sempre ser recolhidos num desses Wertstoffhöfe. Por exemplo móveis velhos, madeira, um sofá, brinquedos, ou qualquer coisa que se encaixa nas categorias descritas mas é muito grande para colocar na lata de lixo da sua casa ou prédio: tudo isso vai pro Wertstoffhof. Procure no site da prefeitura local para saber os endereços e horários de funcionamento dos Wertstoffhöfe da sua cidade, e o que eles recolhem.

Acho que é isso! Super complicado, mas os detalhes você encontra fácil no site da prefeitura ou em livretos que a prefeitura produz e distribui com todas as informações referentes a lixo! E não se esqueça do que eu falei lá em cima: esse post é especificamente sobre as regras de coleta de lixo em Dresden. Outras cidades terão sistemas parecidos, mas podem existir pequenas diferenças.


(Publicado em 17 de Fevereiro de 2018)

Rios na Alemanha

Esse post é o segundo post sobre meio ambiente na Alemanha (Na verdade tem outros e terão outros, mas esse é o segundo de uma série de três). O primeiro foi sobre o meio ambiente em obras alemãs e você pode lê-lo aqui.

Na Alemanha, rios são um elemento urbano bem importante. Quase toda cidade de um tamanho razoável é cruzada por um grande e importante rio. Algumas cidades inclusive têm o nome do rio como “sobrenome”, como é o caso de Frankfurt, cujo nome “completo” é Frankfurt am Main, ou Frankfurt sobre o Meno. Main, Meno em português é o nome do rio que cruza a cidade. O fato de as grandes cidades européias terem se desenvolvido sobre rios não é coincidência, claro. Historicamente os rios têm importâncias diversas pras cidades: a força da água corrente já têm sido utilizada para a transformação de energia desde anos antes de cristo com moinhos de água.

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Além de energia, os rios forneciam (e fornecem) ainda a água que é utilizada para beber, para lavar e para depositar os dejetos da cidade.

Hoje, com infraestruturas mais desenvolvidas, sistemas de tratamento e transporte de água, outras fontes de energia, a presença de um grande rio na cidade não é mais tão essencial para a economia urbana. Mas certamente ainda é um fator bem importante para a qualidade de vida.

E nesse sentido, a Alemanha de fato tem bastante a oferecer. Os rios e suas margens nas cidades daqui ganham vários usos urbanos que, embora “óbvios”, são quase totalmente inexistentes em rios nas cidades brasileiras.

Os rios em si, claro, são sempre utilizáveis. Os maiores, navegáveis, todos utilizáveis para remo e outros esportes similares, e alguns também para banho.

Barcos turísticos fazendo passeios simpáticos ao longo dos rios são extremamente comuns em praticamente todas as cidades, mas o uso da navegação para fins comerciais também é bem comum em rios maiores como o Reno, que cruza a Alemanha de norte a Sul no seu lado Oeste.

Pra gente parece quase inimaginável que alguém chegue com seu próprio barquinho e simplesmente comece a remar num rio no meio da cidade. Uma coisa que eu custei a internalizar é essa possibilidade do acesso livre aos corpos de água presentes, que eles não são só um objeto intocável – na maior parte das vezes indesejável e evitável – da paisagem. Não dá pra imaginar nem em chegar perto de um rio em São Paulo: eles são ou “invisíveis”, escondidos embaixo de grandes avenidas, ou simplesmente inacessíveis fisicamente por barreiras formadas, também, por grandes avenidas marginais. Eu já escrevi em um post passado sobre o sentimento estranho e diferente de se nadar em um lago na cidade – algo totalmente comum na Alemanha. Esse acesso aos corpos de água naturais, entrar em contato com água sem ser no banho, na chuva ou na piscina é uma coisa quase impensável pra quem mora em grandes cidades brasileiras.

Isso é um ponto extremamente positivo de se morar na Alemanha, esse acesso à água “natural” te coloca num contato muito próximo com a natureza. Não tem como não se importar com o meio ambiente quando ele tem uma participação tão importante no seu dia-a-dia.

E não é só a água em si, claro. São as margens também – um fator urbano completamente essencial numa cidade alemã. Não dá pra imaginar uma cidade alemã onde as margens dos rios não sejam acessíveis para pedestres, e onde essa acessibilidade não seja desejada ou não seja requerida.

(Nas fotos acima, da esquerda pra direta e de cima pra baixo: Dresden, Colônia, Nuremberg, Dresden, FrankfurtBerlim e Dresden.)

O tratamento e o uso urbano das margens nos rios varia um tanto de cidade pra cidade, mas é na grande maioria das vezes um espaço extremamente agradável.

Em Dresden, por exemplo, as margens do ao longo de praticamente toda a cidade são extremamente largas e totalmente verdes:

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Dos dois lados, um caminho pavimentado serve aos pedestres e ciclistas como uma importante conexão urbana: em várias situações vale mais a pena ir pelo caminho ao longo do rio (que é bem sinuoso) que pelo caminho mais curto – simplesmente pelo prazer de caminhar ou pedalar nessa área.

Dresden

Foto aérea de Dresden, com o rio Elba cruzando a cidade, e suas margens largas bem visíveis.

As generosas margens não são por acaso, claro. São elas que acolhem o rio em períodos de cheias.

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De cima pra baixo: Elba mini (Julho 2015), Elba regular (Fevereiro 2010) e Elba Maxi (Junho 2013).

Mas mesmo com essas margens infinitas, eventualmente ocorrem cheias tão extremas que o rio avança para a cidade causando grandes problemas. Em Dresden, cheias desse tipo aconteceram em duas datas recentes: 2002 e 2013. Em 2002, a água chegou a invadir partes do centro histórico, inundando ruas, casas, etc. O porão de alguns museus no centro foram inunandos, destruindo importantes obras de artes históricas.

Desde então, várias medidas foram tomadas pela cidade para evitar novas inundações. Em momentos de cheia você vai perceber várias paredes e muros que misteriosamente apareceram do nada em lugares onde antes não havia nem parede nem muro, mas uma rua. Diferentes tipos de paredes retráteis foram desenvolvidas e instaladas em diversos locais:

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Sem água, sem parede

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Com água, com parede

Mas mesmo com esses muros, paredes e diversas outras medidas criadas depois da inundação de 2002 para evitar outra cheia desastrosa, em 2013 o rio subiu mais uma vez acima do esperado. Dessa vez, o centro foi poupado, mas em alguns pontos mais afastados da cidade a água chegou a invadir casas e deslocar pessoas temporariamente. A cidade têm continuamente desenvolvido e executado planos para evitar novos desastres. No escritório em que trabalho recentemente fizemos um projeto para sugerir alternativas para usar áreas inundáveis com os jardins loteáveis típicos daqui (Clique no link pra entender o que eu quero dizer com jardins loteáveis, tem um post sobre isso).

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Não é incomum encontrar em diversos lugares pela cidade pequenas plaquinhas colocadas em paredes em alguns edifícios aqui e ali mostrando o nível que o rio atingiu em determinada cheia – às vezes bem acima do chão!

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Plaquinhas em uma parede no castelo de Pillnitz, em Dresden, marcando as cheias do Elba. A plaquinha mais alta se refere à cheia de 2002.

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Marcações em um dos pilares da Ponte Velha, em Heidelberg, marcando as cheias do rio Neckar.

Deixar as margens desocupadas e de preferência verdes é a maneira ideal de lidar com as enchentes. Embora não seja tão comum ter tanto espaço para o rio como em Dresden, outras cidades também aproveitam as margens dos rios para grandes calçadões ou outros tipos de espaços utilizáveis mas não construídos.

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Frankfurt

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Hamburg

Verdes ou pavimentadas, as margens livres em dias quentes ou de sol tornam-se gigantes parques lineares que cruzam a cidade. O clima bem variado da Alemanha é uma parte importante do estilo de vida das pessoas, e por causa dos invernos longos e frios, assim que sai um solzinho mixuruca em Abril as pessoas já correm para qualquer pedacinho de grama disponível.

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Berlim

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Berlim

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Dresden

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Frankfurt

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Em Dresden, as margens do Elba também são freqüentemente usadas para a decolagem de balões de vôos turísticos!

Nesse contexto, as margens-parques dos rios alemães têm uma importância urbana enorme para as pessoas daqui.

Outros usos típicos são Biergartens:

São uma espécie de bares ao ar livre, onde você pode tomar uma cerveja e comer um salsichão. Super típicos na Alemanha toda, os instalados ao longo dos rios são os mais adorados.

Mas não são todos os rios cujas margens são livres. Em algumas cidades com rios menores, onde enchentes são um problema menos presente, os rios por vezes cruzam por entre as casas e edifícios. Mesmo assim o espaço é de uma forma ou de outra utilizado de maneira urbanisticamente positiva. Um bom exemplo de cidade onde o rio tem esse tipo de estrutura urbana é Nuremberg, mais especificamente o centro histórico de Nuremberg, cruzado pelo rio Pegnitz. Passeando pelo centro, apenas em alguns poucos trechos é possível andar ao longo do rio. Mas o rio aparece, desaparece e reaparece em momentos diversos do seu percurso pelo centro, sob pontes ou mesmo edifícios.

Esses pequenos espaços criados pelo encontro do rio com a cidade têm uma enorme qualidade urbana e dão um imenso charme pra cidade – uma das mais simpáticas cidades alemãs na minha humilde opinião.

Rios e a maneira como eles são tratados são realmente uma das melhores partes de se viver na Alemanha.

Mas como pra tudo há uma exceção, fica aqui uma foto de Wuppertal:

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Jesus, que quê isso!?

Pra terminar o post, uma série de outras fotos bonitas de rios na Alemanha que eu não consegui incorporar no texto mas quero colocar mesmo assim:

(Da esquerda pra direita de cima pra baixo: Bautzen, Berlim, Berlim, Dresden, Dresden, Dresden, Dresden, Görlitz, Heidelberg, Passau, Würzburg e Tharandt.)

Ficou ainda faltando falar de pontes, outro elemento urbano também mega importante, mas esse post já está quilométrico e pontes dá um outro post igualmente longo, então fica pra outro post.

O próximo post e último da série meio ambiente na Alemanha será sobre árvores nas cidades alemãs.


(Publicado em 11 de Junho de 2016)

Cadê minha casa?

Quem nunca morou fora do país talvez nunca tenha percebido que no Brasil a gente tem o sistema mais sagaz ever de numeração de edifícios. Esse é o tipo de coisa que em cada país é diferentes, e a gente nunca ouve falar sobre como é em outros países uma vez que não é um assunto importante a não ser que você more lá, e obviamente se você mora no local você sabe como funciona.

Mas no Brasil isso funciona brilhantemente. O número da casa ou prédio é a distância da mesma até o início da rua. Apartamentos em prédios são numerados por andar. Tudo faz sentido.

Na Alemanha, não. Quer dizer, faz sentido, mas bem menos.

Pra começar, os edifícios são numerados sequencialmente. Pelo menos aqui em Dresden, um lado da rua tem numeração ímpar, e do outro lado, par. Mas já me disseram que em Berlim algumas ruas tinham numeração sequencial que começava de um lado, 1, 2, 3, 4, ia até o final da rua, e daí voltava do outro lado na direção oposta. Ou seja, vc teria de um lado da rua o número 1, e, do outro, digamos, o número 139.

Tá, até aí não é tão mal. Você não sabe quanto você vai ter que andar para chegar de onde você está até o número x, mas pelo menos você sabe em que direção andar (desde que você não esteja em Berlim).

Mas para encontrar um determinado apartamento num edifício a coisa complica. Seu endereço diz somente “Rua Tal, número X”. Apartamentos não têm números! Na porta do prédio tem o interfone, e para cada apartamento, a pessoa que mora lá põe o seu sobrenome na frente do botão. Se você estiver visitando alguém que more numa república com outros 4 ou 5 estudantes, pode ficar complicado achar o sobrenome do seu amigo escrito minúsculo junto com outros 4 sobrenomes num papelzinho de 2x5cm… Mas tudo bem, consegui interfonar e a pessoa apertou o botão para abrir a porta para mim. Mas como eu faço para achar a porta do apartamento no prédio? Se a pessoa esqueceu de te avisar, você vai ter que ir subindo de andar em andar e ler o nome do morador na frente de cada porta até achar seu amigo!

Bom, pelo menos os prédios têm bem menos andares e apartamentos…


(Publicado em 14 de Março de 2013)