cultura

7 coisas que demoraram 7 anos

Ontem completei 7 anos na Alemanha, e nada melhor que uma data desse tipo pra filosofar sobre o que passou e o que aconteceu.

Esse ano tem sido muito significativo na parte Alemanha da minha história pessoal, e 7 é um número que sempre soa importante. Quebrar espelho dá 7 anos de azar, a semana tem 7 dias, as maravilhas do Mundo eram 7, o Brad Pitt passou 7 anos no Tibet…

O processo de adaptação não é uma coisa que dura uma quantidade finita de anos, é um processo contínuo e possivelmente infinito. Há sempre coisas que vão mudando em você de acordo com as circunstâncias da sua vida e mesmo depois de muitos anos num lugar diferente há ainda coisas que você faz como fazia antes, ou que você foi mudando tão gradualmente que só depois de uma década percebeu de repente que não é mais do jeito que você lembrava. Então, pensando nas coisas que mudaram e nos anos de Alemanha, pensei em escrever sobre 7 coisas que demoraram 7 anos pra acontecer.

1. Vencer a fobia de conversas telefônicas
Eu nunca fui fã de resolver as coisas por telefone já antes de vir pra Alemanha. No curto tempo que trabalhei no Brasil depois de me formar, antes de mudar pra cá, eu já sentia um certo frio na barriga quando meu chefe pedia para resolver algo por telefone. E era raro, nos escritórios em que trabalhei no Brasil eu nunca tive meu próprio ramal de telefone e só precisava atender telefone quando por acaso do destino era a única pessoa presente no escritório no momento.

Daí comecei a trabalhar aqui e essa dificuldade, que era antes um problema pequeno, virou realmente um bicho de sete-cabeças (outra coisa com o número 7!). Pra somar à aversão que eu já tinha de telefone, veio: o fato de que os alemães preferem resolver as coisas por telefone; o fato de que nos escritórios o normal é cada um ter seu próprio ramal e resolver as coisas independentemente e não via chefe; e, claro, a maior pedra no caminho de qualquer imigrante na Alemanha: a língua level Extra Hard. Entender o que alguém está falando por telefone é sempre mais difícil do que entender a pessoa quando você está olhando ela falar. E qualquer coisa não compreendida tem muito potencial de gerar uma situação constrangedora.

E com isso, receber telefonemas ou precisar resolver coisas pelo telefone no trabalho virou um pesadelo, quando eu ouvia o telefone tocar já dava náusea. Quando eu tinha que entrar em contato com alguém, quase sempre dava pra deixar o telefone quietinho na base e resolver por email, mas quando ele tocava não tinha como fugir de atender.

Mas com a constante repetição da experiência, o medo foi bem gradualmente desaparecendo, até que percebi, há pouco tempo atrás, que ele não existia mais. Se preciso resolver algo que é mais simples e rápido de resolver com um rápido telefonema, nem penso duas vezes. E não sinto mais nenhum frio na barriga quando toca o telefone.

Aliás, uma dica de algo que ajudou a lidar com conversas telefônicas é: sempre que eu estou no telefone com alguém eu escrevo as palavras chave do que a pessoa está falando. Isso ajuda pra caramba pra lembrar a conversa em detalhes, porque com línguas estrangeiras é sempre o caso que o seu vocabulário passivo (as palavras que vc entende) é muito maior que o seu vocabulário ativo (as palavras que você usa). Então às vezes você está falando com alguém e entendendo 100% do que a pessoa está te dizendo, mas dois minutos depois, se você precisa repetir o que a pessoa falou vc não consegue porque muitas das palavras que vc compreendeu sem nenhum problema te faltam na hora de formar suas próprias frases. E aí se o negócio é resolver um problema, às vezes é essencial você lembrar mais detalhadamente as palavras que a pessoa usou depois que você desliga o telefone. Então eu vou escrevendo tudo, mesmo que eu esteja entendendo sem o menor problema. E eu percebi que eu faço isso totalmente automaticamente.

2. Me sentir segura o suficiente para ir sozinha em reuniões externas de trabalho
Também gradualmente com a experiência isso foi mudando. Eu me lembro da minha primeira reunião externa de trabalho nesse emprego, eu estava com meu chefe e um colega senior, eu nem precisava falar nada na reunião, meu chefe só estava me levando justamente pra eu acostumar com reuniões, e mesmo assim eu estava super nervosa. Embora eu já tivesse aprendido alemão até o nível C1 na época, eu entendia beeeeeem menos do que hoje, e ficava super perdida em reuniões ou conversas com mais de uma ou duas pessoas. Quanto mais experiência eu fui adquirindo, mais eu compreendia do que estava sendo dito, claro. E por sorte meu chefe me designava tarefas com uma graduação bem precisa de responsabilidades. Primeiro eu fui em reuniões em que algum outro colega era o principal responsável pelo projeto, com o colega em questão e o chefe, só pra assistir; depois eu fui em reuniões onde eu era a principal responsável pelo projeto depois do chefe, mas em que ele explicava o que tinha que ser explicado e respondia a maior parte das perguntas e eu só dava apoio aqui e ali em coisas q eu sabia melhor pq eu que tinha desenhado; depois fui em reuniões em que eu era a principal responsável, e em que eu explicava as coisas e meu chefe só ajudava adicionando algo aqui e ali e respondendo as perguntas mais difíceis; depois fui em reuniões em que eu tive que apresentar um projeto para um grupo grande de pessoas, com meu chefe junto só pra vir socorrer se o alemão abandonasse meu cérebro; daí comecei a ir sozinha em reuniões de trabalho menores com poucas coisas a resolver; comecei a ir sozinha em reuniões de obra; até culminar no desafio mais difícil até agora em termos de reuniões, no mês passado: ir sozinha numa reunião para dar uma apresentação de 20 minutos de um projeto para um grupo de umas 25 pessoas de vários departamentos da prefeitura.

E embora eu tenha ficado tensa pra essa apresentação, não foi nada além da tensão normal que eu teria sentido se fosse apresentar o negócio na minha própria língua.

3. Entender as coisas sem prestar atenção, entender o que está sendo dito em segundo plano
Isso parece que foi de um dia pra outro. Até pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que entendia praticamente tudo o que me fosse dito numa conversa direta com alguém, mas que eu não conseguia entender o que estava sendo dito numa conversa de fundos, no rádio enquanto eu trabalho, ou em qualquer situação similar em que eu não estou me comunicando diretamente com a pessoa que está falando.

Outro dia eu peguei um trem e atrás de mim duas pessoas conversaram a viagem inteira sobre os mais diversos temas. Eram amigos de escola que por acaso se encontraram no trem muitos anos depois e estavam conversando sobre tudo o que tinha acontecido no meio tempo. Eu passei parte da viagem lendo, outra parte fazendo sei lá o quê no computador, outra parte fazendo coisas no celular, mas o tempo inteiro eu fui involuntariamente acompanhando a conversa atrás de mim e trocando olhares com meu marido em reação a determinadas coisas que estavam sendo ditas. E aí que eu percebi que eu estava entendendo coisas de fundo sem prestar atenção, de repente. Não sei desde quando, foi daquelas coias tipo background conversation mode on *plin!*.

Também percebi essa mudança em outros aspectos: até há pouco tempo atrás, se alguém aleatório me falasse alguma coisa na rua inesperadamente, eu só entendia se pedisse pra pessoa repetir, pq na primeira vez eu não estava preparada pra prestar atenção. Notei que ultimamente eu tenho entendido de cara. O que pode ser inconveniente, também, não é mal não entender quando um desconhecido fala algo desagradável pra vc desnecessariamente.

4. Não me incomodar tanto com certas diferenças culturais
Outra coisa que mudou em um período curto de tempo durante o último ano foi o nível de incômodo que sinto com certas diferenças culturais. As pessoas aqui – especialmente aqui em Dresden – podem ser bastante grossas com desconhecidos, em situações totalmente desnecessárias. Qualquer “problema” que aconteça, por menor que seja, as pessoas envolvidas tendem a imediatamente assumir uma posição defensiva de “isso com certeza não foi minha culpa e portanto só pode ter sido culpa sua”. Mesmo quando é completamente desnecessário definir de quem foi a “culpa” pelo “problema” gerado por qualquer leve desentendimento de fácil e rápida solução. E se a pessoa tem bom motivo pra acreditar que está certa e o outro está errado, minha nossa senhora, a atitude de superioridade moral que a pessoa assume é pra deixar até Deus certo de que o erro foi dele.

Isso é uma coisa que pode gerar tanto, mas TANTO stress desnecessário que você fica se perguntando pra quê.

E lidar com isso, se você é de uma cultura diferente pode ser um exercício constante durante anos. Mesmo alemães de outras regiões da Alemanha sentem essa dificuldade por aqui.

Nossa, como eu me estressei com essas coisas nos últimos 7 anos.

E foi interessante perceber como eu passei pelas fases mais diversas pra lidar com isso. Mas, nos meses mais recentes, percebi que parece que essas coisas estão me incomodando bem menos. Que nessas situações eu dou de ombros e poucos minutos depois já esqueci do ocorrido. Bem diferente de antes, quando eu passava o resto do dia remoendo o acontecido, com raiva, ou até chorando pela grosseria com que me trataram tão desnecessariamente. Hoje é mais: whatever, quer se estressar com pouco, fique à vontade, eu tô de boas.

Tomara que continue assim, que não me incomodar tanto com essas coisas é um peso gigante que sai das costas!

5. Me sentir capaz de me integrar num grupo de alemães
Tem vários fatores que influenciam isso. Quem morando aqui nunca sentiu dificuldade de se integrar num grupo de alemães com certeza é exceção. Diferente de no Brasil, onde as pessoas (normalmente) se esforçam para fazer alguém recém chegado no grupo se sentir à vontade, além de mostrar uma clara curiosidade com a pessoa fazendo logo todo tipo de perguntas, na Alemanha as pessoas geralmente não fazem esse esforço. Elas esperam que o esforço de se integrar num grupo já existente seja todo da pessoa nova. Se você estiver tímido ou inseguro, é raro alguém mostrar interesse em você.

Escrevi alguns posts sobre isso, nos meus primeiros anos aqui. Foi motivo de muita frustração no início. Eu já não sou uma pessoa extrovertida, aí ser 100% responsável por me incluir em grupos alheios ou quase forçar as pessoas a me aceitarem como parte do grupo (seja lá que grupo for esse) era uma coisa totalmente estranha para mim.

Mas de uma maneira ou de outra, isso foi mudando aos poucos, talvez eu tenha começado a entender melhor como as pessoas são, o que elas esperam de você, o que elas não esperam de você… algumas diferenças culturais às vezes são tão sutis que não dá nem pra descrever, só sentir. E parece que essas são as que mais influenciam sua habilidade de fazer amigos num lugar novo.

6. Me sentir tão capaz profissionalmente quanto os colegas alemães
Outra coisa que demorou muito mais tempo do que eu imaginava. Eu já escrevi alguns posts sobre o exercício da profissão de arquiteto na Alemanha, onde eu comentei que tem grandes diferenças não só em como determinadas coisas são construídas, mas também como funciona o processo de projeto, licitação, construção no sentido formal e burocrático. Tem tanta coisa nova e diferente que a experiência fora da Alemanha é quase negligenciável. Eu sinto que meus primeiros anos no escritório foram quase uma nova formação, como se eu tivesse que aprender quase tudo do zero, novo, diferente e em alemão. E só depois de um bom tempo é que eu comecei a me sentir capaz de fazer as coisas sem grandes inseguranças de se estava certo ou errado ou o que poderia acontecer se estivesse errado, etc. Principalmente de um ano pra cá mais ou menos (depois de quase 3 anos de experiência no escritório) é que eu me sinto profissionalmente segura e no mesmo nível de capacidade profissional que os colegas alemães de mesma idade.

Ainda há coisas que eu sinto que falta um certo conhecimento, mas há outras coisas que eu faço no trabalho tão bem que no meio tempo acabei virando a pessoa no escritório pra quem os colegas perguntam como faz isso ou como é certo aquilo. E, curiosamente, as coisas que eu faço melhor são bem aquelas das quais eu realmente não tinha a menor ideia antes de trabalhar aqui.

Foi um caminho bem espinhoso, mas é das coisas mais difíceis que você sente mais orgulho no final.

7. A Laís que eu conhecia antes de mudar pra cá reaparecer
A principal consequência de todas essas mudanças (especialmente da última, da confiança na própria capacidade profissional) é que, de repente, pela primeira vez desde que eu cheguei na Alemanha, parece que a Laís que eu conhecia antes reapareceu. (Laís sou eu, tá).

Depois que eu mudei pra cá, e até há pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que a Laís versão Alemanha era uma Laís completamente diferente da Laís que eu conhecia antes de 2012. A Laís no Brasil era uma pessoa confiante, eloqüente, engraçada, segura de si, corajosa. A Laís versão Alemanha 2012-2018 era uma Laís medrosa, insegura, menos capaz, pouco eloqüente, tímida. Tive sérias crises de identidade imaginando o que as pessoas daqui, especialmente colegas de trabalho, deviam achar de mim dado que eu não conseguia demonstrar nenhuma das características que eu considerava que tinha e que eram tão importantes pra minha auto-identificação (principalmente a parte da eloqüência).

E isso foi mudando gradualmente, claro, mas foi bem de um dia pra outro – outro dia – que eu percebi que a Laís tinha voltado, que de repente eu me sentia aqui exatamente como eu me sentia no Brasil, em termos de identidade e personalidade. Perceber isso foi um dos melhores sentimentos que eu já tive!


Antes de terminar esse post, é bom lembrar que a experiência de cada um é diferente. Essas adaptações que pra mim demoraram 7 ou quase 7 anos, pra algumas pessoas podem ter demorado só 7 meses e outras pessoas talvez mesmo depois de 17 anos ainda não sintam que essas coisas mudaram. O tempo que o processo de adaptação leva pra cada um e pra cada aspecto da vida que exige adaptação num país e cultura novos depende de inúmeros fatores: as circunstâncias em que você está, o círculo social à sua volta no país novo, as minúcias culturais da região específica onde você está, o apoio que você tem à sua disposição, e, claro, sua própria personalidade e aquilo que é mais ou menos importante pra você.

Mas uma coisa é certa: o processo de adaptação não é, nunca, fácil. E como eu falei no começo, é constante e infinito. Mas dá um grande alívio ver as enormes pedras que ficaram para trás!


(Publicado em 22 de Julho de 2019)

Impressões sobre o Brasil

Há alguns dias atrás voltei de uma curta viagem a São Paulo, a terceira desde que mudei pra Alemanha, mas a primeira desde 2015. Fazia 4 anos desde minha última visita!

Eu achei que fosse parecer tudo muito estranho, sei lá, diferente ao mesmo tempo que familiar. Mas não, tava tudo igual. Na verdade o mais estranho dessa viagem foi chegar e tá tudo bem normal e me sentir tão normal quanto se eu tivesse ficado fora um fim de semana. E aí voltar pra cá alguns dias depois e ter exatamente o mesmo feeling. Foi como se a gente não tivesse viajado continentes mas só ido visitar a mãe noutra cidade rapidinho!

Mas claro, houveram algumas coisinhas que eu notei. A maioria das coisas que eu achei que fosse estranhar depois de tanto tempo fora eu não estranhei nenhum pouco, foram totalmente normais. Mas uma em especial eu estranhei demais, algo que eu, enquanto morava no Brasil, nunca tinha notado. Nem quando mudei pra cá tinha percebido a diferença. Só agora voltando depois de vários anos que eu notei. Que coisa é essa?

1 . BARULHO, VOLUME, ALTO, SOCORRO

Todo o resto das coisas diferentes eu achei adaptável, pelo menos assim só por duas semanas. Mas isso me incomodou DE-MAIS. Tudo. É. MUITO. Barulhento. A cidade é barulhenta, tem muito carro, muito ônibus, motos extremamente barulhentas em grandes quantidades, tudo muito denso, os prédios muito altos em grandes quantidades só contribuem pra reverberação infinita dos barulhos, nas casas os materiais mais comuns refletem em vez de absorver os sons (pisos frios, janelas de alumínio…), e nenhum lugar tem nenhum tipo de isolamento acústico. E como tudo é muito barulhento, as pessoas ficam menos sensíveis ao volume e coisas que nem precisavam ser barulhentas acabam sendo. Como restaurantes, vários dos quais tem música de “fundo” tão alta que você tem que levantar a voz pra conversar com seu amigo. E aí o restaurante é grande e como brasileiros têm muitos amigos e famílias grandes, vão todos em grandes grupos no restaurante, e todos tem que levantar a voz, e aí fica maior barulho e aí todo mundo tem que falar ainda mais alto e aí fica mais barulho e aí as pessoas têm que falar ainda mais alto e etc etc espiral infinita de volume cada vez maior e sensibilidade para barulho cada vez menor.

Nesses poucos dias que estivemos lá, fomos num show com amigos e tivemos que sair mais cedo por causa do som em volume exagerado. Mas era exagerado MESMO. Era num volume absolutamente intolerável, de doer os ouvidos. E antes mesmo de começar o show (tinha um DJ colocando algumas músicas pra ir animando a platéria) o volume já estava exageradamente alto a ponto de ser completamente impossível conversar. Completamente impossível. Isso antes do show começar… não deu pra ficar. Que decepção.

Tudo bem que eu sempre fui particularmente sensível a barulhos muito altos (se quiser me ver desejar a morte lenta e dolorida de alguém, basta passar de moto com o escapamento alterado por perto), mas até passar um tempo num país e cidade onde as casas e apartamentos são super bem isolados acusticamente, as pessoas no geral fazem menos barulho e o trânsito é bem mais tranquilo, nunca tinha percebido o quão exagerado é o volume de São Paulo. Sério, foi uma coisa que me incomodou demais nesses últimos dias. A única coisa que me incomodou, na verdade. Outras coisas eu tinha esquecido ou achei curioso lembrar que era assim ou assado, mas essa foi a única que me incomodou profundamente.

Mas já que esse não é um post de um tema só, vou continuar e comentar as outras coisas que eu notei diferentes (que eu obviamente já sabia ser diferentes, mas que foi interessante perceber com clareza de novo):

2 . Pessoas muito simpáticas, muito fáceis de conversar, tudo fácil

MEUDEUS como os brasileiros são simpáticos! Que alívio passar alguns dias numa cidade onde as pessoas sorriem ao conversar com você SEM MOTIVO ESPECÍFICO! Apenas pq estão sendo tão simplesmente simpáticas e só isso! E as pessoas desconhecidas não fazem um tremendo esforço sobrehumano pra fingir que todas as outras pessoas na rua são absolutamente invisíveis! Elas pedem desculpas se esbarram em você! Elas falam com você quando necessário! Elas sorriem quando querem ser educadas! Elas riem pra ser simpáticas, só pq faz bem! Dava vontade de abraçar todo mundo!

Não estou dizendo que os alemães são maus. Mas é que na Alemanha, as pessoas só são simpáticas com você (talvez) quando elas te conhecem. Não assim, na rua, só porque sim. Entre desconhecidos, os alemães tentam sempre não ver ninguém. A diferença já notamos logo no ônibus do aeroporto pra casa (ao voltar pra Alemanha, digo). Nossas malas estavam no espaço do ônibus para malas, bicicletas ou carrinhos de bebê. Ao fazer uma curva mais brusca, as nossas e a mala de uma outra senhora escorregaram rápido em direção à porta do ônibus. Nós teríamos ficado de pé na frente das malas para evitar que isso ocorresse, já que elas têm rodinhas, mas assim que colocamos as malas lá um outro fulano – um com mala pequena de carregar no ombro – colocou a sua lá também e postou-se de pé na frente de todas as outras malas. Quando as mesmas escorregaram na curva, dito fulano pula para longe das mesmas deixando-as escorregar descontroladamente e cair-se umas por cima das outras. Uma mãozinha estendida teria evitado que as malas escorregassem. Até aí até tudo bem. Nós levantamos para colocar as malas de volta no lugar (desta vez, claro, deitadas), mas o fulano tinha se postado do lado da sua mala não espaçosa de maneira a ocupar todo o espaço dedicado a malas. A gente colocou uma no cantinho que ele deixou sobrando, meu marido pediu licença, ele ignorou, e ficaram as duas outras malas (a nossa e a da outra senhora) no meio do corredor. Porque o fulano queria ficar lá de pé no lugar dedicado as malas para não ficar longe da sua MALINHA DE OMBRO que tinha que ficar no chão. Ah, não…… após colocar nossas malas de volta no local – depois da pessoa mega simpática finalmente descer do ônibus – eu e meu marido comentamos um pro outro: “ah, que alívio voltar pra Saxônia, não?”…

Mas sério. De verdade. Eu sei que você vai dizer “Ai, magina, aqui no Brasil tem muita gente mal educada!” ou então talvez “Ah, quando eu estive na Alemanha achei todo mundo muito simpático.”, mas acredita no que alguém que mora aqui há sete anos tá dizendo: os brasileiros são MUITO simpáticos e amigáveis. MUITO. Existe amor em SP e como!

3 . Amigos tranquilos, soltos, relax

Não apenas as pessoas no geral são mais simpáticas, mas inclusive os amigos são mais soltos. O que quero dizer com isso é que, entre alemães demora demais pra uma amizade chegar num nível tal que as duas pessoas se sintam plenamente confortáveis uma com a outra pra falar sobre assuntos mais difíceis ou íntimos. Eu tenho duas amigas alemãs que eu gosto muito e com quem me dou muito bem, mas mesmo com elas ainda tem uma certa pequena barreira ainda existente, em que nem eu nem elas nos sentimos 100% no pleno conforto de uma amizade próxima. Com os amigos do Brasil – lógico que eles são amigos de mais tempo, mas mesmo assim – rola uma tranquilidade maior na relação, um comforto muito grande. Aliás eu sinto essa tranquilidade e abertura mesmo com amigos brasileiros que eu fiz aqui, quer dizer, que são mais recentes. Sei lá, tem um nível de tranquilidade entre as pessoas que aqui na Alemanha parece que só se atinge depois de décadas de amizade, sei lá.

4 . Trânsito muito lento, mesmo quando não tem mto trânsito

Quando a gente reclama de trânsito em São Paulo, ou outras grandes cidades brasileiras, normalmente a gente pensa que a causa desse problema é ou a quantidade de carros ou a quantidade de faixas disponíveis para carros. Como boa urbanista que sou, meu argumento teria sido quantidade de carros e insuficiência do transporte público. Tá certo, claro. Mas é mais que isso. Tem um outro fator que eu desconhecia, que eu só percebi agora após reaprender a dirigir na Alemanha, ter um pouco de experiência no tráfego urbano alemão (como pedestre, ciclista e motorista) e voltar para o Brasil.

Esse fator é a organização do tráfego.  A impressão que eu tive nessa curta viagem a São Paulo é que os carros têm que parar com muita freqüência, mesmo quando a rua está vazia, e as paradas são muito longas. Você estará pensando “Pô, isso não precisa ir pra Alemanha pra perceber, eu sou motorista no Brasil e sempre reclamei dos muitos semáforos e que ficam muito tempo no vermelho.”. Tanto não sou a primeira pessoa a achar isso que umas pessoas lá a uns anos atrás resolveram desenhar uma cidade inteira pensando no bom fluxo ininterrupto de carros.

Então o que estou dizendo é que o modelo de Brasília é a solução pro trânsito das metrópoles brasileiras ou mundiais? Não mesmo. Nem de longe.

O que eu percebi e não sabia antes foi só a comparação de como funcionam as coisas aqui. Em primeiro lugar: muitas ruas não tem semáforo pq a regra de quem tem preferência é sempre MUITO clara. Se você já leu meu post sobre a prova teórica para habilitação alemã, você já tem uma idéia: tem várias regras diferentes e específicas e placas específicas diversas definindo quem tem a preferência em cada caso. Foi o fator que eu mais senti dificuldade em me acostumar ao tirar a carta de motorista aqui, porque no Brasil é uma coisa bem mais instintiva. Às vezes tem placa de pare, mas muitas outras vezes a regra é mais vaga e as pessoas se entendem ao chegar no cruzamento. Dá certo também, mas não quando é uma rua com mais movimento. Aí tem semáforo. Aqui é sempre bem precisa, a regra. Então tem menos semáforo.

Em segundo lugar: quase sempre (exceto em avenidas grandes) você pode fazer a conversão à esquerda num cruzamento daqui, raramente você precisa dar a volta no quarteirão virando à direita três vezes pra conseguir entrar à esquerda.

E finalmente, quando tem semáforo, são normalmente só duas fases, e não  três. O que quero dizer é: num cruzamento com semáforo na Alemanha, tem a fase em que está vermelho pra rua Norte-Sul (por exemplo) e verde pra rua Leste-Oeste, e aí a fase em que está vermelho pra rua Leste-Oeste e verde pra Norte-Sul. No Brasil em cruzamentos maiores têm ainda a terceira fase: vermelho pras duas ruas e verde pros pedestres.

Você está pensando: mas nossa, super centrado no motorista esse sistema, péssimo pro pedestre, você não consegue atravessar é nunca!

Pois é, aí que está a GRANDE diferença. Por lei, e isso é igual na Alemanha e no Brasil, na conversão a preferência é do pedestre. Isso significa que, ao virar à esquerda ou à direita para entrar numa rua, você tem que parar se tiverem pedestres atravessando (ou ciclistas à sua direita que sigam em frente). Se essa regra é levada a sério, como é aqui, você não precisa da terceira fase do semáforo, nem precisa sempre de semáforo pros pedestres conseguirem atravessar com segurança, pq quando está vermelho pra rua que você está atravessando, os carros entrando da rua em que está verde vão necessariamente esperar você atravessar antes de fazer a conversão.

A diferença de respeitar regras que são mais difíceis de multar (multar violação do semáforo é fácil, é só colocar um radar. Mas multar o não respeito à preferência do pedestre na conversão, ou o não respeito às regras de preferência gerais, precisa necessariamente de um fiscal de pé na esquina assistindo o trânsito) é uma coisa tão profundamente cultural que eu fico meio desenperançosa que dê pra mudar no curto prazo, no Brasil. Interessante que é o nosso próprio desrespeito como motorista às regras de trânsito que faz com que a gente fique parado no trânsito mais tempo….

Então não vejo que simplesmente adotar o sistema alemão de tráfego resolveria os problemas do trânsito paulistano. Teria que ter uma mudança muito mais profunda da cultura de respeito às regras… sei lá… acho que investir em muito metrô é uma solução mais realista (e bom, essencial AINDA QUE o sistema alemão pudesse ser adotado no Brasil).

5 . MUITO plástico

Uma coisa muito positiva dos alemães é que eles realmente não são fãs de plástico. Qualquer coisa de plástico é vista como tosca e se dá sempre preferência a outros materiais como madeira, metal, louça, vidro ou o que for dependendo do objeto em questão.

Mas uma reclamação recorrente por aqui é a quantidade de plástico em embalagens de supermercado. Em muitos supermercados, as frutas e verduras já vêm pré-embaladas em plástico, algo que mais e mais alemães criticam. Não é incomum por aqui a embalagem ser critério de decisão na compra de um produto – muita gente prefere comprar a marca que vem menos embalada.

Embora isso também venha mudando no Brasil, a diferença ainda é gritante. Sacos plásticos ainda são muito comuns, mesmo em situações em que qualquer sacola é completamente desnecessária. Tipo, sei lá, comprar frutas ou verduras no supermercado e colocar as frutas/verduras escolhidas numa sacolinha transparente que depois vai dentro da sacola das compras no caixa. Tá, se você estiver comprando trinta limões, tudo bem colocá-los numa sacola ali na hora de escolher pq não é muito fácil carregar trinta limões na mão, assim. Mas se for um ou dois limões, que vão no carrinho, e depois vão na sacola quando passarem no caixa, pq uma sacola extra? Na feira, a mesma coisa, vc compra um abacaxi, sei lá, e você tem lá sua sacola retornável, e mesmo assim te dão o abacaxi numa sacola plástica pra vc colocar dentro da sacola retornável. como se as frutas e verduras diferentes não pudessem se encostar, sei lá? E na hora de passar no caixa, no supermercado, é um exagero de sacolas, como se cada produto ligeiramente diferente precisasse de uma sacola pra si porque ai de todos nós se a banana encostar no Iogurte. ?? Sei lá, é um exagero grande de plástico, um uso completamente desnecessário…

Mas, como eu falei, isso vem mudando bastante também no Brasil. Da última vez que eu fui pra lá, em 2015, isso me incomodou também, e era bem pior que agora. Dessa vez, se eu não quisesse sacola plástica, eu conseguia que não me dessem nenhuma sacola. Da outra vez eu lembro de precisar tirar as coisas de sacolas que eu não queria e devolver as mesmas pq antes que eu pudesse dizer que não precisava de sacola para levar A UMA CAIXINHA DE ASPIRINA que eu tinha comprado na farmácia, a mesma já tinha sido colocada dentro de uma sacola plástica altamente desnecessária. Dessa vez senti que em vários lugares as pessoas perguntavam se eu queria sacola, antes de ir colocando as compras na mesma.

 

Enfim, acho que esses foram os pontos principais! Eu gostei muito de voltar pro Brasil – a longa ausência já estava ecoando. Pena que foram poucos dias e acabou não dando pra rever todo mundo que eu gostaria de ter revisto. Mas fez bem, voltar. E o marido desatou a falar um português que impressionou todos!


(Publicado em 12 de Maio de 2019)

 

Quem paga o jantar

Regras sociais na hora de pagar a conta em jantares ou outros eventos sociais podem variar muito de uma cultura pra outra. E desconhecê-las nessas situações pode resultar em grandes constrangimentos e mal-entendidos.

Mas não tema! As regras alemãs nesse quesito são bem precisas (ok, tem nuances também) e eu vou descrevê-las logo a seguir.

A primeira coisa que você precisa saber – e a mais importante – é o significado subentendido do verbo “convidar” em alemão (einladen) , ou sua tradução em qualquer língua quando expressada por um alemão. Se um alemão diz que está te convidando, isso significa que ele vai pagar pra você. Se a pessoa usar o verbo einladen significa especificamente que ela vai pagar pra você.

Da mesma maneira, você tem que tomar cuidado ao formular sua pergunta se quiser convidar alguém para alguma coisa. Se você usar o verbo einladen, “convidar”, a pessoa esperará que você pague a conta. Uns exemplos de diálogos:

Komm, lassen wir uns ein Eis essen gehen. Ich lade dich ein!

(“Bora tomar um sorvete? Eu te convido!”)

“Eu te convido” = “eu pago”, a pessoa está especificamente se dispondo a te pagar um sorvete.

Gehen wir zusammen mittagessen? Es gibt einen Italiener dort am Albertplatz, die Pasta schmeckt super!

“Vamos almoçar junto? Tem um restaurante italiano ali na Praça, a massa deles é ótima!”

A pessoa está te convidando pra ir comer junto, mas cada um paga o seu.

Também é comum que o tal “convite” seja especificado só na hora de pagar. Se na hora de pedir a conta o seu amigo disser qualquer coisa com o verbo einladen, ele está se dispondo a pagar a conta. Frases comuns:

Darf ich dich einladen? 

“Você me deixa pagar pra você?” (tradução literal: “Posso te convidar?”)

Heute lade ich dich ein!

“Hoje eu pago!”  (tradução literal: “Hoje eu te convido!”)

Muito importante também é saber o que é educado ou mal-educado responder nessas situações. Se um alemão se ofereceu para pagar pra você, não sinta a menor necessidade de dizer não por educação. “Não por educação” é um conceito inexistente aqui. Na verdade, normalmente uma recusa significa que a pessoa se ofendeu com a oferta de alguma maneira., quase só ocorre quando a oferta foi inconveniente ou indecorosa até. Por exemplo se um homem se oferece para pagar a janta ou almoço com uma colega de trabalho, ela pode interpretar a oferta como uma paquera e se ofender e recusar. Ou então duas pessoas conhecidas, mas não muito próximas, vão almoçar juntas pra discutir alguma coisa e uma delas se oferece para pagar a conta: a outra recusaria se quisesse deixar claro que não é só porque eles foram almoçar juntos que agora viraram amigos, e quiser manter uma clara distância na relação entre as duas pessoas.

E como se aceita ou se recusa a oferta, então? Alguns exemplos:

– Heute lade ich dich ein!

– Och, danke schön, das ist ja sehr nett!

(“Hoje deixa que eu pago!”

“Ah, muito obrigada, que legal da sua parte!”)

– Darf ich dich einladen?

– Ach, gerne, danke schön!

(“Você me deixa pagar pra você?”

“Uai, com prazer, muito obrigada!”)

– Ich lade dich ein.

– Nein, nein, auf keinen Fall.

(“Eu pago.”

“Não, não, de jeito nenhum.”)

Como falei, como a recusa quase só aparece numa situação em que a pessoa se ofenda com a oferta, a resposta negativa seria direta, prosaica, sem sorriso.

Alternativamente, a recusa pode ocorrer também numa situação em que a pessoa não se sentiu ofendida, mas desconfortável. Por exemplo numa situação de trabalho. Você poderia recusar a oferta se sentisse a necessidade de manter uma distância profissional da pessoa que ofereceu, mesmo que a oferta não tenha sido inadequada. Nesse caso a resposta seria direta, mas um tanto mais delicada, por exemplo:

– Ich lade Sie ein.

– Nein, nein, das müssen Sie nicht.

(“Eu pago.”

“Não, não, não precisa.”)

Da mesma maneira que a oferta de pagar pra você deve ser levada ao “pé da letra” por assim dizer, uma recusa também tem que ser interpretada como real e ser aceita. Quer dizer, se a pessoa disse que não quer que você pague pra ela, ela tem um motivo pra não aceitar e você tem que respeitar isso. Seria mal-educado insistir.

Há várias situações possíveis, claro. Às vezes, se uma pessoa sentir que tem por algum motivo alguma obrigação de pagar a conta, ela talvez faça isso antes que você possa aceitar ou recusar. O caso típico é uma pessoa mais velha, por exemplo alguém da sua família como um tio, o seu chefe em alguma situação de trabalho, coisas assim.

Na semana passada, por exemplo, fui com uma colega do trabalho e dois arquitetos de outro escritório com quem estamos fazendo um projeto em conjunto apresentar o mesmo na prefeitura, e antes da apresentação tomamos um café. Estávamos eu, minha colega, o chefe do outro escritório e uma moça que trabalha com ele. As três bem mais jovens que o chefe, que, além disso, era o único chefe presente. Ele pagou a conta sem pensar duas vezes.

Nessas situações é importante agradecer, claro. Depois da conta ter sido paga e quando estão se levantando todos para sairem do restaurante, um “Danke schön” ou “Danke für die Einladung” é essencial.

Também é importante não assumir que alguém vai pagar pra você, mesmo sendo numa dessas situações onde esse seria o esperado. Então na hora de pedir a conta, tenha a carteira em mãos, pra deixar claro que você pretende pagar sua parte.

Uma situação que pode ser problemática é alguém sente que deve sempre pagar a conta mesmo estando no mesmo “nível de hierarquia” que a outra pessoa. Porque a outra pessoa pode entender que não está sendo vista de igual pra igual. Por exemplo. Temos um amigo que ganha muito bem, além de ser gente boa e generoso, e por isso sempre que vamos jantar juntos – seja aqui na cidade em que moramos ou lá na cidade que ele mora – ele sai pagando a conta sem perguntar. Isso é uma coisa que me incomoda pra caramba, porque eu sinto como se ele estivesse desrespeitando a gente, como se ele achasse que pagar um jantar fosse fora da nossa capacidade financeira. Melhor seria se ele perguntasse antes, se nos desse a oportunidade de dizer “Não, hoje é minha vez”. Ele se dispor a pagar todas as vezes, pq sabe que ganha muito mais que os outros envolvidos, até tudo bem. Mas ir pagando sempre, sem perguntar, é desrespeitoso, uma vez que ele tem nossa idade, é um amigo de igual pra igual, não é pai, chefe ou tio.

No geral, as regras culturais de quem paga a conta não são muito diferentes do que estamos acostumados no Brasil, é mais o fator da comunicação direta que tem que ser levado em conta.

Aproveita também para ler sobre restaurantes na Alemanha!


(Publicado em 10 de Fevereiro de 2019)

Sternsinger – Cantores da Estrela

Esse blog já tem 3 anos e meio. Eu nunca teria imaginado, quando comecei a escrever, que teria assunto o suficiente pra continuar escrevendo por 4 anos. Mas mesmo depois de tanto tempo eu ainda frequentemente me deparo com coisas que eu nunca tinha percebido antes e que dão um ótimo post.

Recentemente, por exemplo, notei uma coisa curiosa na porta da casa dos meus sogros:

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Aqueles escritos ali em cima da porta: 20 * C + M + B + 16.

Não era exclusivo da casa deles. Achei várias outras casas na vizinhança e também em outras cidades com escritos similares:

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A maioria das casas que vi tinha apenas “20 * C + M + B + 16“, mas a dos meus sogros em especial (a porta azul acima) tinha vários: 20 * C + M + B + 12, 20 * C + M + B + 14, 20 * C + M + B + 15 e 20 * C + M + B + 16, sendo o último o que estava mais claro, os outros mais apagadinhos.

Quem escreveu esses estranhos códigos? O que eles significam? Porque alguns estão mais apagados que os outros? Como que em 4 anos de Alemanha eu nunca tinha notado esses negócios escritos em vááárias portas??

As respostas para essas perguntas não foram difíceis de descobrir, qualquer alemão saberá te dizer o que significam esses códigos. São uma benção à casa.

No dia 6 de Janeiro, o dia dos três reis magos, grupos de crianças vestidas de três reis magos (ou 4, ou 5, ou quantos reis magos (e rainhas magas) forem necessários para o grupo de crianças em questão) carregando uma estrela vão de porta em porta cantando umas músicas e oferecendo uma bênção para a casa, em troca de uns trocados para projetos de caridade das igrejas, e também uns doces – que né, doces são sempre necessários.

Assim:

Hans Kadereit – Wikipedia

Chamam-se “Sternsinger”, ou “Cantores da estrela”

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Vários grupos de Sternsinger reunidos na igreja. Hans Kadereit – Wikipedia

E os códigos? 20 * C + M + B + 16? Os códigos são a bênção em si, que as crianças escrevem com giz. Os números, vc já deve ter concluido, significa o ano, no caso 2016. CMB é uma sigla para a frase em latim “Christus mansionem benedicat“, “que Cristo abençoe essa casa”. Mas também são popularmente interpretados como os nomes dos três reis magos: Caspar, Melchior e Balthasar. Só não sei como as crianças conseguem escrever a tal bênção lá no topo da porta… suponho que algum adulto dê uma ajudinha!

A benção do ano atual você encontra em várias portas, mas em algumas poucas portas você encontra ainda, meio apagadinho, as bênçãos de anos anteriores, como na porta dos meus sogros. Algumas casas têm até uma pequena lousinha na porta, especificamente pra esse fim (como a segunda foto lá em cima, da porta branca).

É isso! Um fato curioso que pode passar facilmente despercebido se você mora em apartamento! Agora fiquei pensando que teria feito mais sentido escrever esse post no dia 6 de Janeiro… oh well, 6 de Setembro é quase 6 de Janeiro!


(Publicado em 6 de Setembro de 2016)

Olhando nos olhos

Esse é um assunto que eu já mencionei de passagem em alguns outros posts, mas vale a pena um post só pra falar disso.

Eu tenho percebido cada vez mais claramente que os alemães olham nos olhos uns dos outros MUITO mais que a gente. Isso é uma coisa que eu jamais teria imaginado, porque eu nunca achei que eu ou as pessoas no Brasil evitassem olhar nos olhos umas das outras. Olhar nos olhos é uma característica forte da cultura ocidental, da qual nós também fazemos parte. Então é uma surpresa pra mim perceber que isso aqui é tão diferente.

Os alemães olham nos olhos das pessoas com quem estão falando SEM.PRE. Em qualquer diálogo, por mais curto que seja, eles olham bem diretamente nos olhos da outra pessoa.

A primeira situação em que eu percebi isso foi na hora de brindar. Os alemães ADORAM brindar, eles brindam em tipo QUALQUER situação. E aí, eu já estava morando aqui há uns 2 anos quando uma amiga brasileira comentou que tinha aprendido que é uma regra mega importante olhar nos olhos durante o brinde. Nunca tinham me falado isso, mas desde então eu comecei a prestar atenção e, de fato, as pessoas estavam sempre me olhando nos olhos quando brindavam comigo! Realmente era uma regra tão básica que ninguém nunca tinha pensado em me falar… eu escrevi um pouco sobre esses e outros costumes que os alemães não te avisam que é assim porque é óbvio demais pra eles nesse post aqui.

Depois disso, eu comecei a prestar atenção e perceber que várias outras situações em que eu desviava o olhar e a outra pessoa estava olhando diretamente pra mim. A primeira e que mais me “chocou”, por assim dizer, foi em lojas/padarias/restaurantes ou similares. Eu percebi que eu nunca olhava no olho da pessoa do balcão, do caixa, etc. Quando eu comecei a prestar atenção nisso, vi que aqui as pessoas do outro lado do balcão estavam sempre me olhando nos olhos quando vendiam alguma coisa, pegavam o dinheiro que eu estava pagando, pegavam meu pedido, o que for. Pode parecer meio absurdo o que eu estou falando, mas presta atenção: normalmente nessas situações a gente tende a desviar o olhar – você olha pro dinheiro, pro pãozinho que vc está comprando, pro menu, o que for. Quando vc olha pra pessoa, vc olha rápido e meio de lado, não diretamente nos olhos. Aqui as pessoas realmente se olham nos olhos nessas situações.

E mais recentemente, eu andei notando isso novamente em outras situações. Como nos últimos meses eu tenho passado mais tempo com alemães que eu não conheço super bem (colegas de trabalho, por exemplo), eu andei percebendo também que eles fazem questão de olhar nos olhos do interlocutor em situações que a gente não faz, por exemplo, quando eles estão andando lado-a-lado com alguém na rua conversando, ou então no carro, um dirigindo e um sentado no banco do passageiro. Nessas situações eu notei que eu costumo mais olhar pra frente, ou por onde estou andando, e não necessariamente virar pra olhar a pessoa com quem eu estou falando o tempo todo. Mas eles realmente me olham diretamente quando estão falando comigo, mesmo andando ou dirigindo.

Não sei se sou eu que evito olhar nos olhos das pessoas quando não sou super próxima delas por alguma fobia social (não sou lá a pessoa mais confortável em situações sociais), de repente é isso. Mas acho mesmo que no Brasil as pessoas não se olham tão diretamente em todas as situações, porque eu nunca tinha sentido esse olhar direto tão freqüentemente por lá.

Pode ser um pouco desconfortável em algumas situações, mas certamente olhar nos olhos do seu interlocutor mostra um respeito pelo mesmo, mostra que você está realmente prestando atenção nele e no que ele está dizendo, e isso é bem positivo. E talvez seja a maneira dos alemães compensarem pelo fato de eles nunca encostarem uns nos outros e não serem tão simpáticos e delicados como nós, hehehe!

Se você tem uma experiência similar ou totalmente oposta nesse assunto com os alemães, conta lá nos comentários!


(Publicado em 4 de Março de 2016)

Como passar uma boa impressão entre alemães

Eu queria ter lido as coisas que vou escrever antes de ter vindo pra Alemanha. Mas ninguém me falou, nem meu namorado alemão, provavelmente porque pra ele é tão óbvio que nem lhe passou pela cabeça que essas dicas seriam necessárias.

Então, depois de cometer muitos erros em como interagir com os alemães que eu acredito que tenha dificultado minha integração por aqui nos primeiros anos, aos poucos fui aprendendo pequenas regras de convivência que fazem toda a diferença na impressão que as pessoas criam sobre você.

Nunca é tarde demais para aprender essas pequenas regras e aplicá-las. A minha impressão é de que desde que eu tenho mudado pequenos elementos do meu comportamento para se adequar à cultura local, as pessoas têm respondido de maneira bem mais positiva.

Então, quem sabe, com esse singelo post de pequenas dicas eu consiga ajudar alguém a se integrar entre os alemães com mais facilidade.

Algumas das coisas que eu vou mencionar já foram discutidas em diferentes posts sobre outros assuntos, mas achei que valia a pena juntar num único post algumas regrinhas.

Primeira coisa. Ao conhecer um alemão, o cumprimento básico de qualquer situação é um aperto de mão. Um aperto de mão nunca é demais nem de menos. Se você esperar o alemão em questão tomar a iniciativa do cumprimento, pode ser que ele só acene com a cabeça ou até te dê um semi abraço (se for, digamos, alguém muito próximo de alguém muito próximo de você). Mas se você tomar a iniciativa, pode ter certeza que em qualquer situação um aperto de mão sempre cabe. Sempre. Nunca é demais ou de menos. É a opção mais segura.

Mas a dica mais importante na verdade não é essa, mas outra: ao apertar a mão do seu novo conhecido alemão, certifique-se de dar um aperto bem forte e decidido. Os alemães as vezes quase quebram os ossos das mãos uns dos outros com seus apertos-de-mão-braço-de-ferro. Um aperto de mão solto, sem vontade, passa uma má impressão.

Não tenho fontes, mas poderia apostar que isso tem uma importância triplicada numa eventual entrevista de emprego. Tenho quase certeza que na decisão desse aperto de mão inicial pode estar contida uma impressão forte sobre sua personalidade. Aperto forte: pessoa forte, decidida. Aperto fraco: pessoa fraca, insegura.

Segunda coisa: limite toques ao aperto de mão. Não encoste em pessoas desconhecidas. Aliás, não encoste em ninguém, por via das dúvidas. Se precisar muito chamar a atenção e a pessoa não estiver te ouvindo, um toque bem de leve no braço, ou nas costas, basta (quando digo costas me refiro àquela região das costas perto do braço, onde tem aquele osso sobressalente. Nunca na cintura!) Não encoste em outras partes do corpo, jamais no ombro (que pra gente é meio comum). Essas regras de toque eu aprendi meio sem perceber. Fui internalizando esses costumes até que quando um amigo brasileiro veio me visitar e pediu licença para uma moça desconhecida dando um típico tapinha no ombro, eu fiquei quase indignada com o atrevimento, rsrsrs!

Terceira coisa: ao comer com alemães, algumas coisas básicas não devem jamais ser esquecidas, jamais. Já falei disso umas duas vezes, pq é importante mesmo. Nunca, nunca, nunca comece a beber antes de brindar. Os alemães brindam quase sempre, quase em qualquer ocasião, eles adoram mesmo brindar. É muito mal-educado começar a beber antes de brindar com todo mundo.

E super importante: ao brindar, olhe nos olhos da pessoa com quem vc esta brindando, faça absoluta questão de olhar nos olhos. Eu não tinha a menor ideia de que isso era importante, e ninguém nunca me avisou que eu estava fazendo errado. Provavelmente são aquelas coisas que vc nem pensa a respeito conscientemente, mas passa uma impressão sobre a pessoa. Quer dizer, talvez os alemães à minha volta não tenham pensado “Nossa, como essa moça é grossa, nem me olhou ao brindar!”, mas tenho quase certeza que a impressão que eles tiveram de mim, inconsciente, foi diferente do que se eu tivesse olhado nos olhos.

Eu sempre olhei pro copo, ué, pra saber onde bater meu copo, não derrubar a bebida, e tal. Só descobri que estava fazendo errado quando uma amiga brasileira comentou o assunto. Desde então, fui olhar e, realmente, durante TODOS os brindes os alemães estavam sempre me olhando diretamente nos olhos. Certamente devem ter achado ruim eu não ter respondido de acordo. Agora tomo o maior cuidado com isso.

Já no que diz respeito à comida: nem sempre os alemães esperam todos os outros para começar a comer, eu ainda não sei bem quando eles acham que faz sentido esperar, e quando eles acham que não precisa. Mas uma coisa é constante: eles SEMPRE falam bom apetite (Guten Apetit) antes de começar a comer  sempre, sempre. Portanto, na dúvida, eu fico olhando em volta e esperando até alguém começar a comer, pra saber que já é ok. E não esqueça do Guten Apetit.

Uma coisa que os alemães esperam de você é que você seja direto. Se eles, por exemplo, te convidarem para uma coisa qualquer, e você não quiser ir, nunca diga “vou dar uma passada” sem a menor intenção de ir. Diga que não vai. Se vc der a entender que vai e não for, eles podem ficar seriamente ofendidos. Nunca ofereça algo se não for de verdade. Se você disse algo do gênero, “ah, quando você vier para o Brasil, pode ficar lá em casa!” e aí arranjar uma desculpa esfarrapada quando eles te derem as datas da viagem, eles vão ficar muito ofendidos, também. Só ofereça se for sincero, pra qualquer coisa. E qualquer coisa que você queria pedir deles, ou não queria aceitar, seja direto, diga que não, e porquê. Evite mentir, mas claro, também não precisa ser grosso e dizer que não vai na festa porque acha ele um chato. Os alemães muitas vezes acabam indo em eventos que não querem ir pq o motivo para dizer não não pode ser dito, eles não querem mentir sobre o motivo, e também não querem disfarçar, dizer que vai, e não ir. A regra é: Não minta, não desconverse, mas não seja grosso. É uma linha tênue entre ser direto e ser grosso, mas ela existe e aos poucos você vai enxergá-la melhor.

E finalmente, uma regra que vc vai aprender na primeira aula de qualquer curso de alemão, mas que sempre é bom falar: trate desconhecidos por Sie (senhor/a), nunca por du (você). Isso é super difícil de acostumar, já que a gente usa você pra quase qualquer um em quase qualquer situação. Mas aqui, tome o cuidado de usar sempre o modo formal da linguagem quando a pessoa for desconhecida. Se for alguém mais jovem, pode não ter tanto problema, mas na dúvida use o Sie.

É isso! Espero sinceramente ajudar outros desavisados com essas dicas, hehehe! Boa sorte!


(Publicado em 23 de Maio de 2015)

Manda um abraço!

Os alemães levam tudo a sério. Já discuti aqui como se um alemão te oferece alguma coisa você pode aceitar tranquilamente porque não é só por educação. E se vc disser não, eles não vão insistir. Assim como se você oferecer algo, tenha em mente que eles vão se sentir na liberdade de aceitar. Sarcasmo não é uma figura de linguagem comumente empregada por alemães nem em piadas nem em conversas, e se usado em discussões será um tanto ofensivo para os eles.

E uma das coisas que eles levam muito a sério são cumprimentos remotos. Sabe quando vc fala pra alguém “ah, manda um abraço para o fulano!”? Eles mandam. Mesmo.

Essa diferença você percebe bem rápido ao conhecer alemães, quando começa a receber cumprimentos remotos dos familiares ou amigos de amigos que te conhecem. Uma coisa bem comum, por exemplo, é, após um telefonema do meu namorado com alguém da sua família, ele vir me dizer que o tio/tia/pai/mãe/primo/irmã/avó me mandou um abraço. Tá, com telefonemas não é tão estranho, porque você está ali do lado quando a pessoa te manda o abraço, então está fácil para o “entregador” do abraço remoto lembrar de te avisar que a outra pessoa pensou em você. Mas eles levam a sério mesmo. Ontem encontrei uma amiga para um café, é bem no final, quando estávamos nos despedindo, ela falou: “ah, já estava esquecendo! O Andreas [namorado dela, também meu amigo] te mandou um abraço! Ah, e fala pro seu namorado que eu mandei um abraço pra ele também!”. E ela falou de um jeito tão sério que deixou bem claro que era realmente importante, para ela, lembrar de me dizer que o Andreas lembrou de me mandar um abraço.

Claro que eu não lembrei de repassar o abraço para o meu namorado como ela pediu, porque para mim lembrar de mandar um abraço para alguém da família do seu amigo é algo que vc faz não para que esse familiar saiba que vc lembrou dele, mas para que o seu amigo saiba que vc lembrou das pessoas que lhe são importantes. Pra gente, no Brasil (me corrijam se discordarem), o importante do cumprimento remoto é mostrar para o seu interlocutor que você lembra dos nomes das pessoas importantes para ele, das pessoas com quem ele vive, e tal. Certo que em algumas situações vc lembra sim de repassar o abraço – digamos por exemplo se você encontrar alguém que você não vê há um tempo e a pessoa manda um abraço pro seu marido. Aí a noite você encontra seu marido e comenta “ah, eu encontrei o fulano, hoje, imagina!” “Puxa, sério? Que legal, como ele tá?” “Tá ótimo, te mandou um abraço!”. Mas para pessoas que você encontra regularmente, jamais lhe ocorreria de lembrar de comentar que a pessoa mandou um abraço. E os alemães fazem questão não apenas de repassar os tais abraços, como de lembrar de mandá-los em basicamente todas as situações.

E depois que você percebe isso, uma dúvida cruel segue: será que eles te acham super antipático se você não mandar um abraço? Ou se você não repassar o abraço enviado por outro, corre o risco de fazer com que este seja falsamente acusado de antipático por ter esquecido de mandar um abraço, quando na verdade foi você que esqueceu de repassar?

Não tenho certeza da resposta. Na dúvida, o mais seguro é sempre lembrar de mandar e repassar abraços (eu ainda não me acostumei).

E, aliás, uma observação. Na verdade em alemão não é abraço que se manda, mas um cumprimento, mesmo. Em alemão se diz, por exemplo, “Grüß den Andreas von mir!”, ou “Cumprimente o Andreas por mim!”. Claro, eles não mandariam abraços, é íntimo demais, né? E cumprimentos remotos eles mandam realmente pra todo mundo, lembro de receber cumprimentos remotos de familiares do meu namorado antes mesmo de conhecê-los pessoalmente…


(Publicado em 21 de Novembro de 2014)