cultura

Quem paga o jantar

Regras sociais na hora de pagar a conta em jantares ou outros eventos sociais podem variar muito de uma cultura pra outra. E desconhecê-las nessas situações pode resultar em grandes constrangimentos e mal-entendidos.

Mas não tema! As regras alemãs nesse quesito são bem precisas (ok, tem nuances também) e eu vou descrevê-las logo a seguir.

A primeira coisa que você precisa saber – e a mais importante – é o significado subentendido do verbo “convidar” em alemão (einladen) , ou sua tradução em qualquer língua quando expressada por um alemão. Se um alemão diz que está te convidando, isso significa que ele vai pagar pra você. Se a pessoa usar o verbo einladen significa especificamente que ela vai pagar pra você.

Da mesma maneira, você tem que tomar cuidado ao formular sua pergunta se quiser convidar alguém para alguma coisa. Se você usar o verbo einladen, “convidar”, a pessoa esperará que você pague a conta. Uns exemplos de diálogos:

Komm, lassen wir uns ein Eis essen gehen. Ich lade dich ein!

(“Bora tomar um sorvete? Eu te convido!”)

“Eu te convido” = “eu pago”, a pessoa está especificamente se dispondo a te pagar um sorvete.

Gehen wir zusammen mittagessen? Es gibt einen Italiener dort am Albertplatz, die Pasta schmeckt super!

“Vamos almoçar junto? Tem um restaurante italiano ali na Praça, a massa deles é ótima!”

A pessoa está te convidando pra ir comer junto, mas cada um paga o seu.

Também é comum que o tal “convite” seja especificado só na hora de pagar. Se na hora de pedir a conta o seu amigo disser qualquer coisa com o verbo einladen, ele está se dispondo a pagar a conta. Frases comuns:

Darf ich dich einladen? 

“Você me deixa pagar pra você?” (tradução literal: “Posso te convidar?”)

Heute lade ich dich ein!

“Hoje eu pago!”  (tradução literal: “Hoje eu te convido!”)

Muito importante também é saber o que é educado ou mal-educado responder nessas situações. Se um alemão se ofereceu para pagar pra você, não sinta a menor necessidade de dizer não por educação. “Não por educação” é um conceito inexistente aqui. Na verdade, normalmente uma recusa significa que a pessoa se ofendeu com a oferta de alguma maneira., quase só ocorre quando a oferta foi inconveniente ou indecorosa até. Por exemplo se um homem se oferece para pagar a janta ou almoço com uma colega de trabalho, ela pode interpretar a oferta como uma paquera e se ofender e recusar. Ou então duas pessoas conhecidas, mas não muito próximas, vão almoçar juntas pra discutir alguma coisa e uma delas se oferece para pagar a conta: a outra recusaria se quisesse deixar claro que não é só porque eles foram almoçar juntos que agora viraram amigos, e quiser manter uma clara distância na relação entre as duas pessoas.

E como se aceita ou se recusa a oferta, então? Alguns exemplos:

– Heute lade ich dich ein!

– Och, danke schön, das ist ja sehr nett!

(“Hoje deixa que eu pago!”

“Ah, muito obrigada, que legal da sua parte!”)

– Darf ich dich einladen?

– Ach, gerne, danke schön!

(“Você me deixa pagar pra você?”

“Uai, com prazer, muito obrigada!”)

– Ich lade dich ein.

– Nein, nein, auf keinen Fall.

(“Eu pago.”

“Não, não, de jeito nenhum.”)

Como falei, como a recusa quase só aparece numa situação em que a pessoa se ofenda com a oferta, a resposta negativa seria direta, prosaica, sem sorriso.

Alternativamente, a recusa pode ocorrer também numa situação em que a pessoa não se sentiu ofendida, mas desconfortável. Por exemplo numa situação de trabalho. Você poderia recusar a oferta se sentisse a necessidade de manter uma distância profissional da pessoa que ofereceu, mesmo que a oferta não tenha sido inadequada. Nesse caso a resposta seria direta, mas um tanto mais delicada, por exemplo:

– Ich lade Sie ein.

– Nein, nein, das müssen Sie nicht.

(“Eu pago.”

“Não, não, não precisa.”)

Da mesma maneira que a oferta de pagar pra você deve ser levada ao “pé da letra” por assim dizer, uma recusa também tem que ser interpretada como real e ser aceita. Quer dizer, se a pessoa disse que não quer que você pague pra ela, ela tem um motivo pra não aceitar e você tem que respeitar isso. Seria mal-educado insistir.

Há várias situações possíveis, claro. Às vezes, se uma pessoa sentir que tem por algum motivo alguma obrigação de pagar a conta, ela talvez faça isso antes que você possa aceitar ou recusar. O caso típico é uma pessoa mais velha, por exemplo alguém da sua família como um tio, o seu chefe em alguma situação de trabalho, coisas assim.

Na semana passada, por exemplo, fui com uma colega do trabalho e dois arquitetos de outro escritório com quem estamos fazendo um projeto em conjunto apresentar o mesmo na prefeitura, e antes da apresentação tomamos um café. Estávamos eu, minha colega, o chefe do outro escritório e uma moça que trabalha com ele. As três bem mais jovens que o chefe, que, além disso, era o único chefe presente. Ele pagou a conta sem pensar duas vezes.

Nessas situações é importante agradecer, claro. Depois da conta ter sido paga e quando estão se levantando todos para sairem do restaurante, um “Danke schön” ou “Danke für die Einladung” é essencial.

Também é importante não assumir que alguém vai pagar pra você, mesmo sendo numa dessas situações onde esse seria o esperado. Então na hora de pedir a conta, tenha a carteira em mãos, pra deixar claro que você pretende pagar sua parte.

Uma situação que pode ser problemática é alguém sente que deve sempre pagar a conta mesmo estando no mesmo “nível de hierarquia” que a outra pessoa. Porque a outra pessoa pode entender que não está sendo vista de igual pra igual. Por exemplo. Temos um amigo que ganha muito bem, além de ser gente boa e generoso, e por isso sempre que vamos jantar juntos – seja aqui na cidade em que moramos ou lá na cidade que ele mora – ele sai pagando a conta sem perguntar. Isso é uma coisa que me incomoda pra caramba, porque eu sinto como se ele estivesse desrespeitando a gente, como se ele achasse que pagar um jantar fosse fora da nossa capacidade financeira. Melhor seria se ele perguntasse antes, se nos desse a oportunidade de dizer “Não, hoje é minha vez”. Ele se dispor a pagar todas as vezes, pq sabe que ganha muito mais que os outros envolvidos, até tudo bem. Mas ir pagando sempre, sem perguntar, é desrespeitoso, uma vez que ele tem nossa idade, é um amigo de igual pra igual, não é pai, chefe ou tio.

No geral, as regras culturais de quem paga a conta não são muito diferentes do que estamos acostumados no Brasil, é mais o fator da comunicação direta que tem que ser levado em conta.

Aproveita também para ler sobre restaurantes na Alemanha!


(Publicado em 10 de Fevereiro de 2018)

Sternsinger – Cantores da Estrela

Esse blog já tem 3 anos e meio. Eu nunca teria imaginado, quando comecei a escrever, que teria assunto o suficiente pra continuar escrevendo por 4 anos. Mas mesmo depois de tanto tempo eu ainda frequentemente me deparo com coisas que eu nunca tinha percebido antes e que dão um ótimo post.

Recentemente, por exemplo, notei uma coisa curiosa na porta da casa dos meus sogros:

img_3145

Aqueles escritos ali em cima da porta: 20 * C + M + B + 16.

Não era exclusivo da casa deles. Achei várias outras casas na vizinhança e também em outras cidades com escritos similares:

img_2027img_2028

A maioria das casas que vi tinha apenas “20 * C + M + B + 16“, mas a dos meus sogros em especial (a porta azul acima) tinha vários: 20 * C + M + B + 12, 20 * C + M + B + 14, 20 * C + M + B + 15 e 20 * C + M + B + 16, sendo o último o que estava mais claro, os outros mais apagadinhos.

Quem escreveu esses estranhos códigos? O que eles significam? Porque alguns estão mais apagados que os outros? Como que em 4 anos de Alemanha eu nunca tinha notado esses negócios escritos em vááárias portas??

As respostas para essas perguntas não foram difíceis de descobrir, qualquer alemão saberá te dizer o que significam esses códigos. São uma benção à casa.

No dia 6 de Janeiro, o dia dos três reis magos, grupos de crianças vestidas de três reis magos (ou 4, ou 5, ou quantos reis magos (e rainhas magas) forem necessários para o grupo de crianças em questão) carregando uma estrela vão de porta em porta cantando umas músicas e oferecendo uma bênção para a casa, em troca de uns trocados para projetos de caridade das igrejas, e também uns doces – que né, doces são sempre necessários.

Assim:

Hans Kadereit – Wikipedia

Chamam-se “Sternsinger”, ou “Cantores da estrela”

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Vários grupos de Sternsinger reunidos na igreja. Hans Kadereit – Wikipedia

E os códigos? 20 * C + M + B + 16? Os códigos são a bênção em si, que as crianças escrevem com giz. Os números, vc já deve ter concluido, significa o ano, no caso 2016. CMB é uma sigla para a frase em latim “Christus mansionem benedicat“, “que Cristo abençoe essa casa”. Mas também são popularmente interpretados como os nomes dos três reis magos: Caspar, Melchior e Balthasar. Só não sei como as crianças conseguem escrever a tal bênção lá no topo da porta… suponho que algum adulto dê uma ajudinha!

A benção do ano atual você encontra em várias portas, mas em algumas poucas portas você encontra ainda, meio apagadinho, as bênçãos de anos anteriores, como na porta dos meus sogros. Algumas casas têm até uma pequena lousinha na porta, especificamente pra esse fim (como a segunda foto lá em cima, da porta branca).

É isso! Um fato curioso que pode passar facilmente despercebido se você mora em apartamento! Agora fiquei pensando que teria feito mais sentido escrever esse post no dia 6 de Janeiro… oh well, 6 de Setembro é quase 6 de Janeiro!


(Publicado em 6 de Setembro de 2016)

Olhando nos olhos

Esse é um assunto que eu já mencionei de passagem em alguns outros posts, mas vale a pena um post só pra falar disso.

Eu tenho percebido cada vez mais claramente que os alemães olham nos olhos uns dos outros MUITO mais que a gente. Isso é uma coisa que eu jamais teria imaginado, porque eu nunca achei que eu ou as pessoas no Brasil evitassem olhar nos olhos umas das outras. Olhar nos olhos é uma característica forte da cultura ocidental, da qual nós também fazemos parte. Então é uma surpresa pra mim perceber que isso aqui é tão diferente.

Os alemães olham nos olhos das pessoas com quem estão falando SEM.PRE. Em qualquer diálogo, por mais curto que seja, eles olham bem diretamente nos olhos da outra pessoa.

A primeira situação em que eu percebi isso foi na hora de brindar. Os alemães ADORAM brindar, eles brindam em tipo QUALQUER situação. E aí, eu já estava morando aqui há uns 2 anos quando uma amiga brasileira comentou que tinha aprendido que é uma regra mega importante olhar nos olhos durante o brinde. Nunca tinham me falado isso, mas desde então eu comecei a prestar atenção e, de fato, as pessoas estavam sempre me olhando nos olhos quando brindavam comigo! Realmente era uma regra tão básica que ninguém nunca tinha pensado em me falar… eu escrevi um pouco sobre esses e outros costumes que os alemães não te avisam que é assim porque é óbvio demais pra eles nesse post aqui.

Depois disso, eu comecei a prestar atenção e perceber que várias outras situações em que eu desviava o olhar e a outra pessoa estava olhando diretamente pra mim. A primeira e que mais me “chocou”, por assim dizer, foi em lojas/padarias/restaurantes ou similares. Eu percebi que eu nunca olhava no olho da pessoa do balcão, do caixa, etc. Quando eu comecei a prestar atenção nisso, vi que aqui as pessoas do outro lado do balcão estavam sempre me olhando nos olhos quando vendiam alguma coisa, pegavam o dinheiro que eu estava pagando, pegavam meu pedido, o que for. Pode parecer meio absurdo o que eu estou falando, mas presta atenção: normalmente nessas situações a gente tende a desviar o olhar – você olha pro dinheiro, pro pãozinho que vc está comprando, pro menu, o que for. Quando vc olha pra pessoa, vc olha rápido e meio de lado, não diretamente nos olhos. Aqui as pessoas realmente se olham nos olhos nessas situações.

E mais recentemente, eu andei notando isso novamente em outras situações. Como nos últimos meses eu tenho passado mais tempo com alemães que eu não conheço super bem (colegas de trabalho, por exemplo), eu andei percebendo também que eles fazem questão de olhar nos olhos do interlocutor em situações que a gente não faz, por exemplo, quando eles estão andando lado-a-lado com alguém na rua conversando, ou então no carro, um dirigindo e um sentado no banco do passageiro. Nessas situações eu notei que eu costumo mais olhar pra frente, ou por onde estou andando, e não necessariamente virar pra olhar a pessoa com quem eu estou falando o tempo todo. Mas eles realmente me olham diretamente quando estão falando comigo, mesmo andando ou dirigindo.

Não sei se sou eu que evito olhar nos olhos das pessoas quando não sou super próxima delas por alguma fobia social (não sou lá a pessoa mais confortável em situações sociais), de repente é isso. Mas acho mesmo que no Brasil as pessoas não se olham tão diretamente em todas as situações, porque eu nunca tinha sentido esse olhar direto tão freqüentemente por lá.

Pode ser um pouco desconfortável em algumas situações, mas certamente olhar nos olhos do seu interlocutor mostra um respeito pelo mesmo, mostra que você está realmente prestando atenção nele e no que ele está dizendo, e isso é bem positivo. E talvez seja a maneira dos alemães compensarem pelo fato de eles nunca encostarem uns nos outros e não serem tão simpáticos e delicados como nós, hehehe!

Se você tem uma experiência similar ou totalmente oposta nesse assunto com os alemães, conta lá nos comentários!


(Publicado em 4 de Março de 2016)

Como passar uma boa impressão entre alemães

Eu queria ter lido as coisas que vou escrever antes de ter vindo pra Alemanha. Mas ninguém me falou, nem meu namorado alemão, provavelmente porque pra ele é tão óbvio que nem lhe passou pela cabeça que essas dicas seriam necessárias.

Então, depois de cometer muitos erros em como interagir com os alemães que eu acredito que tenha dificultado minha integração por aqui nos primeiros anos, aos poucos fui aprendendo pequenas regras de convivência que fazem toda a diferença na impressão que as pessoas criam sobre você.

Nunca é tarde demais para aprender essas pequenas regras e aplicá-las. A minha impressão é de que desde que eu tenho mudado pequenos elementos do meu comportamento para se adequar à cultura local, as pessoas têm respondido de maneira bem mais positiva.

Então, quem sabe, com esse singelo post de pequenas dicas eu consiga ajudar alguém a se integrar entre os alemães com mais facilidade.

Algumas das coisas que eu vou mencionar já foram discutidas em diferentes posts sobre outros assuntos, mas achei que valia a pena juntar num único post algumas regrinhas.

Primeira coisa. Ao conhecer um alemão, o cumprimento básico de qualquer situação é um aperto de mão. Um aperto de mão nunca é demais nem de menos. Se você esperar o alemão em questão tomar a iniciativa do cumprimento, pode ser que ele só acene com a cabeça ou até te dê um semi abraço (se for, digamos, alguém muito próximo de alguém muito próximo de você). Mas se você tomar a iniciativa, pode ter certeza que em qualquer situação um aperto de mão sempre cabe. Sempre. Nunca é demais ou de menos. É a opção mais segura.

Mas a dica mais importante na verdade não é essa, mas outra: ao apertar a mão do seu novo conhecido alemão, certifique-se de dar um aperto bem forte e decidido. Os alemães as vezes quase quebram os ossos das mãos uns dos outros com seus apertos-de-mão-braço-de-ferro. Um aperto de mão solto, sem vontade, passa uma má impressão.

Não tenho fontes, mas poderia apostar que isso tem uma importância triplicada numa eventual entrevista de emprego. Tenho quase certeza que na decisão desse aperto de mão inicial pode estar contida uma impressão forte sobre sua personalidade. Aperto forte: pessoa forte, decidida. Aperto fraco: pessoa fraca, insegura.

Segunda coisa: limite toques ao aperto de mão. Não encoste em pessoas desconhecidas. Aliás, não encoste em ninguém, por via das dúvidas. Se precisar muito chamar a atenção e a pessoa não estiver te ouvindo, um toque bem de leve no braço, ou nas costas, basta (quando digo costas me refiro àquela região das costas perto do braço, onde tem aquele osso sobressalente. Nunca na cintura!) Não encoste em outras partes do corpo, jamais no ombro (que pra gente é meio comum). Essas regras de toque eu aprendi meio sem perceber. Fui internalizando esses costumes até que quando um amigo brasileiro veio me visitar e pediu licença para uma moça desconhecida dando um típico tapinha no ombro, eu fiquei quase indignada com o atrevimento, rsrsrs!

Terceira coisa: ao comer com alemães, algumas coisas básicas não devem jamais ser esquecidas, jamais. Já falei disso umas duas vezes, pq é importante mesmo. Nunca, nunca, nunca comece a beber antes de brindar. Os alemães brindam quase sempre, quase em qualquer ocasião, eles adoram mesmo brindar. É muito mal-educado começar a beber antes de brindar com todo mundo.

E super importante: ao brindar, olhe nos olhos da pessoa com quem vc esta brindando, faça absoluta questão de olhar nos olhos. Eu não tinha a menor ideia de que isso era importante, e ninguém nunca me avisou que eu estava fazendo errado. Provavelmente são aquelas coisas que vc nem pensa a respeito conscientemente, mas passa uma impressão sobre a pessoa. Quer dizer, talvez os alemães à minha volta não tenham pensado “Nossa, como essa moça é grossa, nem me olhou ao brindar!”, mas tenho quase certeza que a impressão que eles tiveram de mim, inconsciente, foi diferente do que se eu tivesse olhado nos olhos.

Eu sempre olhei pro copo, ué, pra saber onde bater meu copo, não derrubar a bebida, e tal. Só descobri que estava fazendo errado quando uma amiga brasileira comentou o assunto. Desde então, fui olhar e, realmente, durante TODOS os brindes os alemães estavam sempre me olhando diretamente nos olhos. Certamente devem ter achado ruim eu não ter respondido de acordo. Agora tomo o maior cuidado com isso.

Já no que diz respeito à comida: nem sempre os alemães esperam todos os outros para começar a comer, eu ainda não sei bem quando eles acham que faz sentido esperar, e quando eles acham que não precisa. Mas uma coisa é constante: eles SEMPRE falam bom apetite (Guten Apetit) antes de começar a comer  sempre, sempre. Portanto, na dúvida, eu fico olhando em volta e esperando até alguém começar a comer, pra saber que já é ok. E não esqueça do Guten Apetit.

Uma coisa que os alemães esperam de você é que você seja direto. Se eles, por exemplo, te convidarem para uma coisa qualquer, e você não quiser ir, nunca diga “vou dar uma passada” sem a menor intenção de ir. Diga que não vai. Se vc der a entender que vai e não for, eles podem ficar seriamente ofendidos. Nunca ofereça algo se não for de verdade. Se você disse algo do gênero, “ah, quando você vier para o Brasil, pode ficar lá em casa!” e aí arranjar uma desculpa esfarrapada quando eles te derem as datas da viagem, eles vão ficar muito ofendidos, também. Só ofereça se for sincero, pra qualquer coisa. E qualquer coisa que você queria pedir deles, ou não queria aceitar, seja direto, diga que não, e porquê. Evite mentir, mas claro, também não precisa ser grosso e dizer que não vai na festa porque acha ele um chato. Os alemães muitas vezes acabam indo em eventos que não querem ir pq o motivo para dizer não não pode ser dito, eles não querem mentir sobre o motivo, e também não querem disfarçar, dizer que vai, e não ir. A regra é: Não minta, não desconverse, mas não seja grosso. É uma linha tênue entre ser direto e ser grosso, mas ela existe e aos poucos você vai enxergá-la melhor.

E finalmente, uma regra que vc vai aprender na primeira aula de qualquer curso de alemão, mas que sempre é bom falar: trate desconhecidos por Sie (senhor/a), nunca por du (você). Isso é super difícil de acostumar, já que a gente usa você pra quase qualquer um em quase qualquer situação. Mas aqui, tome o cuidado de usar sempre o modo formal da linguagem quando a pessoa for desconhecida. Se for alguém mais jovem, pode não ter tanto problema, mas na dúvida use o Sie.

É isso! Espero sinceramente ajudar outros desavisados com essas dicas, hehehe! Boa sorte!


(Publicado em 23 de Maio de 2015)

Manda um abraço!

Os alemães levam tudo a sério. Já discuti aqui como se um alemão te oferece alguma coisa você pode aceitar tranquilamente porque não é só por educação. E se vc disser não, eles não vão insistir. Assim como se você oferecer algo, tenha em mente que eles vão se sentir na liberdade de aceitar. Sarcasmo não é uma figura de linguagem comumente empregada por alemães nem em piadas nem em conversas, e se usado em discussões será um tanto ofensivo para os eles.

E uma das coisas que eles levam muito a sério são cumprimentos remotos. Sabe quando vc fala pra alguém “ah, manda um abraço para o fulano!”? Eles mandam. Mesmo.

Essa diferença você percebe bem rápido ao conhecer alemães, quando começa a receber cumprimentos remotos dos familiares ou amigos de amigos que te conhecem. Uma coisa bem comum, por exemplo, é, após um telefonema do meu namorado com alguém da sua família, ele vir me dizer que o tio/tia/pai/mãe/primo/irmã/avó me mandou um abraço. Tá, com telefonemas não é tão estranho, porque você está ali do lado quando a pessoa te manda o abraço, então está fácil para o “entregador” do abraço remoto lembrar de te avisar que a outra pessoa pensou em você. Mas eles levam a sério mesmo. Ontem encontrei uma amiga para um café, é bem no final, quando estávamos nos despedindo, ela falou: “ah, já estava esquecendo! O Andreas [namorado dela, também meu amigo] te mandou um abraço! Ah, e fala pro seu namorado que eu mandei um abraço pra ele também!”. E ela falou de um jeito tão sério que deixou bem claro que era realmente importante, para ela, lembrar de me dizer que o Andreas lembrou de me mandar um abraço.

Claro que eu não lembrei de repassar o abraço para o meu namorado como ela pediu, porque para mim lembrar de mandar um abraço para alguém da família do seu amigo é algo que vc faz não para que esse familiar saiba que vc lembrou dele, mas para que o seu amigo saiba que vc lembrou das pessoas que lhe são importantes. Pra gente, no Brasil (me corrijam se discordarem), o importante do cumprimento remoto é mostrar para o seu interlocutor que você lembra dos nomes das pessoas importantes para ele, das pessoas com quem ele vive, e tal. Certo que em algumas situações vc lembra sim de repassar o abraço – digamos por exemplo se você encontrar alguém que você não vê há um tempo e a pessoa manda um abraço pro seu marido. Aí a noite você encontra seu marido e comenta “ah, eu encontrei o fulano, hoje, imagina!” “Puxa, sério? Que legal, como ele tá?” “Tá ótimo, te mandou um abraço!”. Mas para pessoas que você encontra regularmente, jamais lhe ocorreria de lembrar de comentar que a pessoa mandou um abraço. E os alemães fazem questão não apenas de repassar os tais abraços, como de lembrar de mandá-los em basicamente todas as situações.

E depois que você percebe isso, uma dúvida cruel segue: será que eles te acham super antipático se você não mandar um abraço? Ou se você não repassar o abraço enviado por outro, corre o risco de fazer com que este seja falsamente acusado de antipático por ter esquecido de mandar um abraço, quando na verdade foi você que esqueceu de repassar?

Não tenho certeza da resposta. Na dúvida, o mais seguro é sempre lembrar de mandar e repassar abraços (eu ainda não me acostumei).

E, aliás, uma observação. Na verdade em alemão não é abraço que se manda, mas um cumprimento, mesmo. Em alemão se diz, por exemplo, “Grüß den Andreas von mir!”, ou “Cumprimente o Andreas por mim!”. Claro, eles não mandariam abraços, é íntimo demais, né? E cumprimentos remotos eles mandam realmente pra todo mundo, lembro de receber cumprimentos remotos de familiares do meu namorado antes mesmo de conhecê-los pessoalmente…


(Publicado em 21 de Novembro de 2014)

 

Música alemã

Um tema nunca antes abordado aqui no blog é música alemã. Mas talvez convenha fazer um post mencionando algumas bandas boas alemãs, especialmente para quem gosta de aprender alemão ouvindo música. Então separei 3 bandas que eu acho particularmente boas, como recomendação, e falo um pouco sobre cada uma delas aqui:

Dota, die Kleingeldprinzessin
Gêneros (segundo o wikipedia): Jazz, Bossa Nova.

Dota Kehr und die Stadtpiraten

A primeira que merece atenção chama-se Dota. Tem vários nomes na verdade. Dota Kehr é o nome da moça, mas ela tem esse “apelido artístico também”, Kleingeldprinzessin. E alguns dos álbuns dela ela gravou com uma banda, denominada “Dota und die Stadtpiraten”. Dota Kehr é uma guitarrista e compositora berlinense que tem influências brasileiras! Ela sempre gostou muito de música brasileira, e você percebe isso na música dela. Volta e meia ela dá shows no Brasil, também, e alguns dos seus álbuns têm músicas em português e músicas brasileiras (ela tem uma versão linda de À primeira vista em que o Chico César canta alguns versos da música original, e ela canta um trecho que ela traduziu para o alemão.

Ela dá shows por toda a Alemanha com freqüência, e como ela não é super mainstream, se você for a algum show dela pode ser que tenha a chance de conseguir uns autógrafos nos seus CDs, se vc ainda for desses que compra CDs.

Um ou outro exemplo:

Ela é também conhecida pelo apelido “Kleingeldprinzessin”.

 

Wir Sind Helden
Gêneros (ainda segundo o Wikipedia): Pop rock, Rock alternativo, Indie rock, Pós-punk

wsh

Uma das bandas mais legais da Alemanha, Wir Sind Helden está infelizmente inativa no momento! =( Tomara que apenas temporariamente. Wir Sind Helden é uma banda bem famosinha pela Alemanha, que tem até o momento 4 álbuns super ótimos. As músicas deles são mais alto-astral e dançantes

Dois exemplinhos:

Wise Guys
Gênero: A capella, pop

startseite-buehne0925

Wise Guys é uma banda de Colônia com uma intenção mais cômica. As músicas deles têm letras engraçadas, fazendo piada com coisas diversas como o IKEA, A Deutsche Bahn (companhia de trens alemães), entre outras coisas banais do dia-a-dia. Eles também às vezes fazem versões cômicas em alemão de músicas conhecidas como Hit Me Baby One More Time da Britney Spears. Todas as músicas deles são totalmente à capella, ou seja, sem instrumentos, só vozes. Dá um efeito bem legal. Mas por essa intenção de comédia, acho que não tem muita graça ouvir se vc não entende alemão, as músicas não são daquelas que são legais mesmo sem entender a letra…

 

Alguns vídeos:

 

Ok, esses foram apenas 3 pequenos exemplos de boas bandas alemãs. Obviamente existem muitas outras, mas acho que três já cabe bem em um post!


 

(Publicado em 28 de Setembro de 2014)

5 coisas da Alemanha e do Brasil das quais eu sentiria/sinto falta

Esses dias descobrimos no youtube um canal engraçadíssimo de um britânico que mora na Alemanha e faz vídeos similares aos posts desse blog, mas com uma intenção mais cômica.

É esse aqui:

http://www.youtube.com/user/rewboss?feature=watch

Claro, eu já sabia quando pensei em começar esse blog que ele não seria novidade nem inovação. Tem uma pá de expatriados de todos os países do mundo em todos os países do mundo compartilhando suas experiências com o resto do mundo. Afinal, se tem uma coisa com que absolutamente todo mundo tem que lidar ao mudar de país são, óbvio, as diferenças culturais. Que na maioria das vezes são interessantes, engraçadas ou curiosas. E o legal é que, como cada um têm suas próprias impressões, experiências, e vivências, o resultado é sempre diferente.

Mas enfim, encontrei esse canal no Youtube, me diverti com alguns dos vídeos e um deles achei que dava um ótimo post, porque é realmente específico da experiência pessoal. O vídeo era sobre 5 coisas da Alemanha das quais o moço não sentiria falta, e 5 coisas das quais ele sentiria falta.

Resolvi fazer minha versão, ligeiramente alterada: ao invés das 5 coisas das quais eu não sentiria falta, escrevo 5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta (e que portanto eu não sentiria falta daqui se voltasse a morar no Brasil). Então vamos lá. Em alguns pontos tem links para posts onde eu já escrevi sobre aquele assunto.

5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta aqui:

1. A facilidade em fazer novas amizades.
Sei lá, no Brasil você conhece uma pessoa, e, se der com a cara, na mesma hora vocês já estão se tratando como amigos. E uma vez que você tenha se dado bem com alguém logo de início, parece que já fica meio regra que vocês vão se dar atenção na próxima vez que se encontrarem, entende? Quer dizer, você conheceu alguém, digamos, numa aula, na próxima aula vocês vão provavelmente sentar perto e conversar. Aqui, sei lá, é uma aventura fazer amizades. É meio devagar, demora dias e dias para você sentir que tem liberdade de chamar a pessoa para fazer alguma coisa no fim de semana, ou de comentar numa foto da pessoa no facebook, sei lá. Mais daí eu também não sou a pessoa mais sociável do mundo, sou bem introvertida. Talvez pessoas mais extrovertidas não vejam essa dificuldade.

2. Co-mi-da. 
Gente, como comida alemã é bizarra, credo. Como eu sinto falta de um arroz e feijão, açaí na tigela com banana e granola, coca-cola com gelo e limão, pãozinho de padaria recém-saído do forno, bife à parmigiana, pavê, palmito, pizza normal, coxinha, tapioca, pudim de leite, omg morri escrevendo isso.

photo (9)

Parecem vermes, mas é só comida alemã.

3. Pessoas que sabem falar coisas sem parecer grossas.
Claro, gente grossa tem em qualquer lugar do mundo, o Brasil certamente não é exceção. MAS a diferença é que aqui às vezes a pessoa está sendo super educada e soa totalmente grossa. Sei lá, alemão (a língua) não tem entonação nem delicadeza nas palavras escolhidas. A comunicação é sempre muito direta, e às vezes dá a impressão que a pessoa está sendo horrível mesmo quando não é o caso. É meio difícil acostumar.

4. Abraços e toques em geral (de amigos, claro, não de desconhecidos!)
Aqui encostar é mó proibido. Amigos só se abraçam na hora de falar oi e tchau, e não se encostam no meio tempo. Sei lá. Eu preciso de mais contato humano.

5. Da ausência de neve.

Schnee... schrecklich!

Schnee… schrecklich!

5 coisas da Alemanha das quais eu sentiria falta de voltasse a morar no Brasil

1. Total e completa ausência de assédio de rua.
Aqui, assediar mulheres na rua é totalmente impensável, e não importa o que ela vista, todo mundo tem noção de que respeitar as pessoas (no caso, as mulheres) não é condicional, é obrigação. Só ouvi assédio uma vez, de um cara que estava bem obviamente tentando arranjar briga com pessoas na rua. Foi um caso totalmente isolado.

2. A aversão geral e profunda à extrema-direita
Se tem neonazistas, tem 10 vezes mais gente bloqueando-os.

IMG_5960

3. Equidade e respeito entre as classes
Aqui ninguém se acha melhor que o garçom ou que o faxineiro. (bom, tá, “ninguém” certamente é generalização. Mas basicamente, no geral, as pessoas não acham que merecem mais respeito do resto da sociedade pq têm mais dinheiro ou pq fizeram faculdade).

4. Poder escolher seu meio de transporte à vontade
Ir de bike é possível sem ser atropelado, andar na rua é possível sem ser atropelado, andar de ônibus e metrô é possível sem ser comprimido, e enfim, é tão menos estresse na vida.

IMG_4409

5. Da neve.

Schnee... wunderbar!

Schnee… wunderbar!

Schnee... super!

Schnee… super!

Schnee... schön!

Schnee… schön!

Schnee... klasse!

Schnee… klasse!

Schnee... toll!

Schnee… toll!

Schnee... kalt!

Schnee… kalt!

Schnee... mal wieder...

Schnee… mal wieder…


(Publicado em 19 de Fevereiro de 2014)