diferenças culturais

7 coisas que demoraram 7 anos

Ontem completei 7 anos na Alemanha, e nada melhor que uma data desse tipo pra filosofar sobre o que passou e o que aconteceu.

Esse ano tem sido muito significativo na parte Alemanha da minha história pessoal, e 7 é um número que sempre soa importante. Quebrar espelho dá 7 anos de azar, a semana tem 7 dias, as maravilhas do Mundo eram 7, o Brad Pitt passou 7 anos no Tibet…

O processo de adaptação não é uma coisa que dura uma quantidade finita de anos, é um processo contínuo e possivelmente infinito. Há sempre coisas que vão mudando em você de acordo com as circunstâncias da sua vida e mesmo depois de muitos anos num lugar diferente há ainda coisas que você faz como fazia antes, ou que você foi mudando tão gradualmente que só depois de uma década percebeu de repente que não é mais do jeito que você lembrava. Então, pensando nas coisas que mudaram e nos anos de Alemanha, pensei em escrever sobre 7 coisas que demoraram 7 anos pra acontecer.

1. Vencer a fobia de conversas telefônicas
Eu nunca fui fã de resolver as coisas por telefone já antes de vir pra Alemanha. No curto tempo que trabalhei no Brasil depois de me formar, antes de mudar pra cá, eu já sentia um certo frio na barriga quando meu chefe pedia para resolver algo por telefone. E era raro, nos escritórios em que trabalhei no Brasil eu nunca tive meu próprio ramal de telefone e só precisava atender telefone quando por acaso do destino era a única pessoa presente no escritório no momento.

Daí comecei a trabalhar aqui e essa dificuldade, que era antes um problema pequeno, virou realmente um bicho de sete-cabeças (outra coisa com o número 7!). Pra somar à aversão que eu já tinha de telefone, veio: o fato de que os alemães preferem resolver as coisas por telefone; o fato de que nos escritórios o normal é cada um ter seu próprio ramal e resolver as coisas independentemente e não via chefe; e, claro, a maior pedra no caminho de qualquer imigrante na Alemanha: a língua level Extra Hard. Entender o que alguém está falando por telefone é sempre mais difícil do que entender a pessoa quando você está olhando ela falar. E qualquer coisa não compreendida tem muito potencial de gerar uma situação constrangedora.

E com isso, receber telefonemas ou precisar resolver coisas pelo telefone no trabalho virou um pesadelo, quando eu ouvia o telefone tocar já dava náusea. Quando eu tinha que entrar em contato com alguém, quase sempre dava pra deixar o telefone quietinho na base e resolver por email, mas quando ele tocava não tinha como fugir de atender.

Mas com a constante repetição da experiência, o medo foi bem gradualmente desaparecendo, até que percebi, há pouco tempo atrás, que ele não existia mais. Se preciso resolver algo que é mais simples e rápido de resolver com um rápido telefonema, nem penso duas vezes. E não sinto mais nenhum frio na barriga quando toca o telefone.

Aliás, uma dica de algo que ajudou a lidar com conversas telefônicas é: sempre que eu estou no telefone com alguém eu escrevo as palavras chave do que a pessoa está falando. Isso ajuda pra caramba pra lembrar a conversa em detalhes, porque com línguas estrangeiras é sempre o caso que o seu vocabulário passivo (as palavras que vc entende) é muito maior que o seu vocabulário ativo (as palavras que você usa). Então às vezes você está falando com alguém e entendendo 100% do que a pessoa está te dizendo, mas dois minutos depois, se você precisa repetir o que a pessoa falou vc não consegue porque muitas das palavras que vc compreendeu sem nenhum problema te faltam na hora de formar suas próprias frases. E aí se o negócio é resolver um problema, às vezes é essencial você lembrar mais detalhadamente as palavras que a pessoa usou depois que você desliga o telefone. Então eu vou escrevendo tudo, mesmo que eu esteja entendendo sem o menor problema. E eu percebi que eu faço isso totalmente automaticamente.

2. Me sentir segura o suficiente para ir sozinha em reuniões externas de trabalho
Também gradualmente com a experiência isso foi mudando. Eu me lembro da minha primeira reunião externa de trabalho nesse emprego, eu estava com meu chefe e um colega senior, eu nem precisava falar nada na reunião, meu chefe só estava me levando justamente pra eu acostumar com reuniões, e mesmo assim eu estava super nervosa. Embora eu já tivesse aprendido alemão até o nível C1 na época, eu entendia beeeeeem menos do que hoje, e ficava super perdida em reuniões ou conversas com mais de uma ou duas pessoas. Quanto mais experiência eu fui adquirindo, mais eu compreendia do que estava sendo dito, claro. E por sorte meu chefe me designava tarefas com uma graduação bem precisa de responsabilidades. Primeiro eu fui em reuniões em que algum outro colega era o principal responsável pelo projeto, com o colega em questão e o chefe, só pra assistir; depois eu fui em reuniões onde eu era a principal responsável pelo projeto depois do chefe, mas em que ele explicava o que tinha que ser explicado e respondia a maior parte das perguntas e eu só dava apoio aqui e ali em coisas q eu sabia melhor pq eu que tinha desenhado; depois fui em reuniões em que eu era a principal responsável, e em que eu explicava as coisas e meu chefe só ajudava adicionando algo aqui e ali e respondendo as perguntas mais difíceis; depois fui em reuniões em que eu tive que apresentar um projeto para um grupo grande de pessoas, com meu chefe junto só pra vir socorrer se o alemão abandonasse meu cérebro; daí comecei a ir sozinha em reuniões de trabalho menores com poucas coisas a resolver; comecei a ir sozinha em reuniões de obra; até culminar no desafio mais difícil até agora em termos de reuniões, no mês passado: ir sozinha numa reunião para dar uma apresentação de 20 minutos de um projeto para um grupo de umas 25 pessoas de vários departamentos da prefeitura.

E embora eu tenha ficado tensa pra essa apresentação, não foi nada além da tensão normal que eu teria sentido se fosse apresentar o negócio na minha própria língua.

3. Entender as coisas sem prestar atenção, entender o que está sendo dito em segundo plano
Isso parece que foi de um dia pra outro. Até pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que entendia praticamente tudo o que me fosse dito numa conversa direta com alguém, mas que eu não conseguia entender o que estava sendo dito numa conversa de fundos, no rádio enquanto eu trabalho, ou em qualquer situação similar em que eu não estou me comunicando diretamente com a pessoa que está falando.

Outro dia eu peguei um trem e atrás de mim duas pessoas conversaram a viagem inteira sobre os mais diversos temas. Eram amigos de escola que por acaso se encontraram no trem muitos anos depois e estavam conversando sobre tudo o que tinha acontecido no meio tempo. Eu passei parte da viagem lendo, outra parte fazendo sei lá o quê no computador, outra parte fazendo coisas no celular, mas o tempo inteiro eu fui involuntariamente acompanhando a conversa atrás de mim e trocando olhares com meu marido em reação a determinadas coisas que estavam sendo ditas. E aí que eu percebi que eu estava entendendo coisas de fundo sem prestar atenção, de repente. Não sei desde quando, foi daquelas coias tipo background conversation mode on *plin!*.

Também percebi essa mudança em outros aspectos: até há pouco tempo atrás, se alguém aleatório me falasse alguma coisa na rua inesperadamente, eu só entendia se pedisse pra pessoa repetir, pq na primeira vez eu não estava preparada pra prestar atenção. Notei que ultimamente eu tenho entendido de cara. O que pode ser inconveniente, também, não é mal não entender quando um desconhecido fala algo desagradável pra vc desnecessariamente.

4. Não me incomodar tanto com certas diferenças culturais
Outra coisa que mudou em um período curto de tempo durante o último ano foi o nível de incômodo que sinto com certas diferenças culturais. As pessoas aqui – especialmente aqui em Dresden – podem ser bastante grossas com desconhecidos, em situações totalmente desnecessárias. Qualquer “problema” que aconteça, por menor que seja, as pessoas envolvidas tendem a imediatamente assumir uma posição defensiva de “isso com certeza não foi minha culpa e portanto só pode ter sido culpa sua”. Mesmo quando é completamente desnecessário definir de quem foi a “culpa” pelo “problema” gerado por qualquer leve desentendimento de fácil e rápida solução. E se a pessoa tem bom motivo pra acreditar que está certa e o outro está errado, minha nossa senhora, a atitude de superioridade moral que a pessoa assume é pra deixar até Deus certo de que o erro foi dele.

Isso é uma coisa que pode gerar tanto, mas TANTO stress desnecessário que você fica se perguntando pra quê.

E lidar com isso, se você é de uma cultura diferente pode ser um exercício constante durante anos. Mesmo alemães de outras regiões da Alemanha sentem essa dificuldade por aqui.

Nossa, como eu me estressei com essas coisas nos últimos 7 anos.

E foi interessante perceber como eu passei pelas fases mais diversas pra lidar com isso. Mas, nos meses mais recentes, percebi que parece que essas coisas estão me incomodando bem menos. Que nessas situações eu dou de ombros e poucos minutos depois já esqueci do ocorrido. Bem diferente de antes, quando eu passava o resto do dia remoendo o acontecido, com raiva, ou até chorando pela grosseria com que me trataram tão desnecessariamente. Hoje é mais: whatever, quer se estressar com pouco, fique à vontade, eu tô de boas.

Tomara que continue assim, que não me incomodar tanto com essas coisas é um peso gigante que sai das costas!

5. Me sentir capaz de me integrar num grupo de alemães
Tem vários fatores que influenciam isso. Quem morando aqui nunca sentiu dificuldade de se integrar num grupo de alemães com certeza é exceção. Diferente de no Brasil, onde as pessoas (normalmente) se esforçam para fazer alguém recém chegado no grupo se sentir à vontade, além de mostrar uma clara curiosidade com a pessoa fazendo logo todo tipo de perguntas, na Alemanha as pessoas geralmente não fazem esse esforço. Elas esperam que o esforço de se integrar num grupo já existente seja todo da pessoa nova. Se você estiver tímido ou inseguro, é raro alguém mostrar interesse em você.

Escrevi alguns posts sobre isso, nos meus primeiros anos aqui. Foi motivo de muita frustração no início. Eu já não sou uma pessoa extrovertida, aí ser 100% responsável por me incluir em grupos alheios ou quase forçar as pessoas a me aceitarem como parte do grupo (seja lá que grupo for esse) era uma coisa totalmente estranha para mim.

Mas de uma maneira ou de outra, isso foi mudando aos poucos, talvez eu tenha começado a entender melhor como as pessoas são, o que elas esperam de você, o que elas não esperam de você… algumas diferenças culturais às vezes são tão sutis que não dá nem pra descrever, só sentir. E parece que essas são as que mais influenciam sua habilidade de fazer amigos num lugar novo.

6. Me sentir tão capaz profissionalmente quanto os colegas alemães
Outra coisa que demorou muito mais tempo do que eu imaginava. Eu já escrevi alguns posts sobre o exercício da profissão de arquiteto na Alemanha, onde eu comentei que tem grandes diferenças não só em como determinadas coisas são construídas, mas também como funciona o processo de projeto, licitação, construção no sentido formal e burocrático. Tem tanta coisa nova e diferente que a experiência fora da Alemanha é quase negligenciável. Eu sinto que meus primeiros anos no escritório foram quase uma nova formação, como se eu tivesse que aprender quase tudo do zero, novo, diferente e em alemão. E só depois de um bom tempo é que eu comecei a me sentir capaz de fazer as coisas sem grandes inseguranças de se estava certo ou errado ou o que poderia acontecer se estivesse errado, etc. Principalmente de um ano pra cá mais ou menos (depois de quase 3 anos de experiência no escritório) é que eu me sinto profissionalmente segura e no mesmo nível de capacidade profissional que os colegas alemães de mesma idade.

Ainda há coisas que eu sinto que falta um certo conhecimento, mas há outras coisas que eu faço no trabalho tão bem que no meio tempo acabei virando a pessoa no escritório pra quem os colegas perguntam como faz isso ou como é certo aquilo. E, curiosamente, as coisas que eu faço melhor são bem aquelas das quais eu realmente não tinha a menor ideia antes de trabalhar aqui.

Foi um caminho bem espinhoso, mas é das coisas mais difíceis que você sente mais orgulho no final.

7. A Laís que eu conhecia antes de mudar pra cá reaparecer
A principal consequência de todas essas mudanças (especialmente da última, da confiança na própria capacidade profissional) é que, de repente, pela primeira vez desde que eu cheguei na Alemanha, parece que a Laís que eu conhecia antes reapareceu. (Laís sou eu, tá).

Depois que eu mudei pra cá, e até há pouquíssimo tempo atrás, eu sentia que a Laís versão Alemanha era uma Laís completamente diferente da Laís que eu conhecia antes de 2012. A Laís no Brasil era uma pessoa confiante, eloqüente, engraçada, segura de si, corajosa. A Laís versão Alemanha 2012-2018 era uma Laís medrosa, insegura, menos capaz, pouco eloqüente, tímida. Tive sérias crises de identidade imaginando o que as pessoas daqui, especialmente colegas de trabalho, deviam achar de mim dado que eu não conseguia demonstrar nenhuma das características que eu considerava que tinha e que eram tão importantes pra minha auto-identificação (principalmente a parte da eloqüência).

E isso foi mudando gradualmente, claro, mas foi bem de um dia pra outro – outro dia – que eu percebi que a Laís tinha voltado, que de repente eu me sentia aqui exatamente como eu me sentia no Brasil, em termos de identidade e personalidade. Perceber isso foi um dos melhores sentimentos que eu já tive!


Antes de terminar esse post, é bom lembrar que a experiência de cada um é diferente. Essas adaptações que pra mim demoraram 7 ou quase 7 anos, pra algumas pessoas podem ter demorado só 7 meses e outras pessoas talvez mesmo depois de 17 anos ainda não sintam que essas coisas mudaram. O tempo que o processo de adaptação leva pra cada um e pra cada aspecto da vida que exige adaptação num país e cultura novos depende de inúmeros fatores: as circunstâncias em que você está, o círculo social à sua volta no país novo, as minúcias culturais da região específica onde você está, o apoio que você tem à sua disposição, e, claro, sua própria personalidade e aquilo que é mais ou menos importante pra você.

Mas uma coisa é certa: o processo de adaptação não é, nunca, fácil. E como eu falei no começo, é constante e infinito. Mas dá um grande alívio ver as enormes pedras que ficaram para trás!


(Publicado em 22 de Julho de 2019)