educação

Pequena regrinha em reuniões

Recentemente descobri, meio por acaso, uma regra social não muito discutida mas frequentemente adotada. Eu estava lendo um livro sobre linguística que aborda diversos aspectos da linguagem, etc, e um exemplo que o autor mencionou sobre normas linguísticas de boas maneiras era não usar pronomes para se referir em terceira pessoa a alguém que está presente.

Quando li isso nem entendi direito o que ele estava querendo dizer. Como assim, não pode se referir a uma pessoa que está presente na conversa por “ele” ou “ela”? Tive que ir pesquisar. Embora o autor seja britânico e estivesse se referindo a uma regra britânica, quando entendi do que ele estava falando realmente ficou claro que tem uma diferença. E aí pensando sobre o assunto me toquei que de fato me parecia que aqui essa regra também é válida. Perguntei para alemães de plantão que confirmaram que em situações formais, realmente isso existe.

Mas péra, do que eu estou falando, afinal?

Imagina a seguinte situação. Você está numa reunião de trabalho, com algumas pessoas, digamos um grupinho de 4 pessoas. Digamos, você, o Sr. Einsenmann, a Sra. Müller e a Profa. Seidel. A Sra. Müller expões alguma ideia, da qual o Sr. Einsenmann discorda e você percebe que ele discordou porque não entendeu exatamente a idéia. Você quer explicar melhor o que a Sra. Müller quis dizer, pra isso você precisa se referir à Sra. Müller em terceira pessoa: “O que ela quis dizer foi…”, “a idéia dela, na verdade…”. Aí é que usar um pronome, como eu fiz nos dois exemplos (ela e dela) é que é mal-educado. A opção educada e mais formal de se referir à Sra. Müller seria “O que a Sra. Müller quis dizer foi…” ou “a idéia da Sra. Müller, na verdade…”

Quer dizer, não chega a ser mal-educado, mas é mais informal e menos atencioso. Com certeza soa bem mais polido se referir à pessoa pelo nome, nessas situações. E como aqui na Alemanha títulos também são muito importantes, você também pode se referir à pessoa pelo seu título. Por exemplo, se a idéia fosse não da Sra. Müller mas da Professora Seidel, você poderia dizer “O que a professora quis dizer foi…”

Essa é uma daquelas coisas que você nunca perceberia conscientemente mas talvez depois de um tempo comece a adotar sem se tocar. E acho que também é uma daquelas regras que ninguém discute mas todo mundo inconscientemente adota em quase qualquer língua. Eu teria que prestar atenção em situações formais no Brasil, mas não é difícil imaginar que isso também seja automaticamente adotado. Mas como no Brasil as pessoas costumam ser bem mais informais, esses detalhes não são nunca tão importantes.

Em todo o caso, fica a dica: preste atenção de tratar as pessoas presentes pelo nome e passe uma boa impressão entre os alemães!


(Publicado em 11 de Novembro de 2017)

Escolas alemãs

Esses dias eu recebi um email de um rapaz me pedindo para escrever sobre o dia-a-dia nas escolas alemãs.

É um assunto um tanto difícil uma vez que eu vim pra cá bem depois de terminar a escola, e não tenho filhos ainda para acompanhar seus dias escolares.

Mas, andei dando uma perguntada para alguns alemães e juntei algumas informações que dão um post talvez interessante sobre escolas por aqui. E também é um ótimo momento pra escrever esse post, já que amanhã começa o ano letivo por aqui (mas isso varia de estado pra estado, então em alguns estados já começou na semana passada ou anterior, e em outros ainda vai começar na semana que vem ou seguinte).

No geral, me parece que as escolas aqui funcionam de maneira bem parecida às escolas no Brasil. O sistema educacional eu já expliquei como funciona neste post aqui, onde eu expliquei também como funciona o sistema de notas, que é bem diferente.

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Uma escola, aí.

Já as aulas são mais ou menos as mesmas: 5, 6, ou 7 por dia dependendo da escola e da série, de 45 min, com 5 minutos de intervalo entre as aulas e 20 minutos a cada 2 aulas. As matérias são mais ou menos as mesmas, mas no colegial você tem algumas opções de matérias. Por exemplo, além de inglês você tem que estudar uma outra língua estrangeira. Na escola do meu namorado, as opções eram francês ou latim. Nos últimos dois anos você ainda pode escolher algumas matérias para focar. Então por exemplo, se você escolher física você tem 5 aulas de física por semana, enquanto os que não escolheram física têm só 3. Isso considerando que você escolheu fazer o Gymnasium, ou seja, estudar todos os 12 anos de escola (lê lá o post do sistema educacional pra entender as possibilidades e diferentes tipos de escola. Gymnasium é a versão mais “completa”, que te dá como diploma o Abitur, que é o que você precisa para ingressar em uma universidade). No Abitur (o exame final de término da escola, seria como um vestibular, só que em vez de ser um exame de ingresso na universidade é um exame de término do ensino médio) você também pode escolher algumas matérias para fazer o exame, mas tem algumas regras: parece que tem 4 “blocos” de matéria (por exemplo, um bloco seriam as línguas estrangeiras, outro, as matérias exatas, etc), e você tem que fazer o exame para pelo menos uma matéria de cada bloco. Você vai escolher, claro, baseado no curso que você quiser estudar na universidade e as matérias exigidas no Abitur para aquele curso.

Uma diferença é que não tem períodos diferentes (matutino, vespertino, noturno…). Todo mundo estuda no mesmo horário, começando lá pelas 8 da manhã (varia de escola para escola e principalmente nos diferentes estados), e vai até por volta da hora do almoço, embora em algumas ocasiões, séries ou semestres pode ir até um pouco mais tarde, também. Outra coisa é que se você chega atrasado você não espera até a segunda aula pra entrar, você entra quando chegar para perder o mínimo possível da aula. Mas, claro, chegar atrasado é bem problemático, a “punição” (sei lá, ligar para os pais, nota, o que for) variando de escola para escola.

E freqüentar a escola é obrigatório aqui. Se você faltar muitas vezes sem uma justificativa dos pais (atestado médico ou o que for), a polícia pode ir até a sua casa te buscar e te levar para a escola (e seus pais certamente enfrentarão problemas com as autoridades se você não estiver freqüentando a escola). O que significa que por aqui não existe aquela alternativa de educar os filhos em casa que é relativamente comum nos EUA. Todo mundo tem que ir pra escola, aqui.

Tem escolas particulares também, mas não é tão comum como no Brasil. São mais escolas com iniciativas pedagógicas diferentes como a Escola Waldorf, escolas Montessori, ou internatos. Mas tem escola pública pra todo mundo e elas são bem boas, então as particulares são mesmo para casos “especiais” (pais que queiram uma educação particular, e tal).

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Um Gymnasium cuja construção tinha acabado de terminar, prestes a ser inaugurado.

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O mesmo Gymnasium

Positivo é que, mesmo a maior parte das escolas sendo pública, elas não estão hiper saturadas de alunos. Como eu falei tem só um período, e as salas costumam ter não mais que 30 alunos, mesmo no colegial. Normalmente a classe é a mesma através dos anos (exceto, claro, quem saiu e quem entrou na escola, mas no geral eles não costumam misturar os alunos de novo a cada início de ano letivo).

Uma coisa particular é que, pelo que me disseram, não é sempre que tem cantina na escola. Normalmente os alunos trazem comida de casa. Meu namorado contou que na escola dele tinha uma cantina que era gerida pelos pais, que faziam comidinhas para vender lá. Mas não é a regra. E em nenhuma escola tem lanche ou almoço ‘incluso’, você que traz ou compra o seu.

Mas os livros parece que você ganha da escola, não precisa comprar.

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Uma sala de aula fofinha da primeira serie, com os livrinhos e uns docinhos pras crianças preparadinhos para receber os alunos no primeiro dia de aula. Deu até vontade de voltar pra primeira série!

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Outra salinha preparada pro início das aulas, com os livrinhos novos separadinhos ali do lado. A coleção de livros novos no começo do ano letivo era a melhor parte de estudar, não era?

Uma diferença bem grande é que aqui só se chama os professores e professoras pelo sobrenome, com Frau (senhora) ou Herr (senhor) na frente. Imagina você chamando a sua tia da primeira série de Senhora Oliveira? (mas no jardim da infância eles também chamam as tias de tias, ufa!) Ah, os professores e professoras são senhores, mas as alunas e alunos eles (profs) chamam pelo primeiro nome, mesmo. E aqui se aplica aquela regrinha que você aprendeu na sua aula de alemão: Os professores você trata por Sie (senhor/a), os alunos e alunas são tratados por du (você).

Talvez a coisa mais interessante é que tem um ano de escola – o décimo ano, que seria o correspondente ao primeiro colegial – em que os alemães estudam o ano inteiro a respeito do 3˚ Reich (o período entre 1933 e 1945). Quase em todas as matérias esse tema é tratado exaustivamente nesse ano, e os jovens alemães terminam o décimo ano sabendo nos mínimos detalhes todas as atrocidades cometidas pelo país durante a segunda guerra mundial. A idéia é chocar, mesmo, para que a história não seja repetida.

Mas, de longe, de looooooooonge a melhor parte de estudar em uma escola alemã é a Schultüte!! Escrevi um post inteiro sobre isso aqui, mas vou dar uma resumida: no primeiro dia de aula da primeira série, ou seja, quando as crianças entram na escola, todas as crianças ganham uma Schultüte. É um cone gigante cheio de doces e brinquedos dentro, preparados pelos pais! É uma coisa totalmente regra, todo mundo ganha, e é meio que um símbolo de início da escola, você vê sempre por aí.

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Nessas duas salas de aula preparadas para o início das aulas, por exemplo:

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Ali no mural ali atrás uns desenhinhos de Schultüte.

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Ou nessa daqui, com os desenho de uma Schultüte na lousa! Fofo.

Acho que é isso o que eu tenho a falar sobre escolas. Se uma hora dessas eu resolver arranjar alguma criança, saberei mais sobre escolas alemãs e escreverei um outro post. (Provavelmente quando esse blog estiver comemorando seu décimo aniversário, ou coisa assim.)

Pra terminar, umas fotos de umas escolas por aqui:

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Ah, sim, vale lembrar que a maioria das coisas que eu escrevi aqui foi baseado no que alguns poucos alemães me contaram sobre suas experiências em suas escolas. Pode ser que algumas das informações passadas não sejam gerais e variem entre escolas em diferentes lugares da Alemanha. Se você tem alguma coisa pra adicionar, deixa um comentário! =)


(Publicado em 23 de Agosto de 2015) (Espero que o post tenha te ajudado um pouco no que você queria saber, Rômulo! =) )

Universidades alemãs: bibliotecas

Não sei se dá pra falar sobre bibliotecas de universidades alemãs como um conjunto e tão distinto de bibliotecas de universidades brasileiras. Mas eu adoro visitar bibliotecas públicas em lugares novos porque volta e meia você encontra umas muuuuito legais. E na minha universidade, a TU Dresden, tem um ótimo exemplo de uma biblioteca imperdível.

O nome da biblioteca é Sächsische Landesbibliothek Staats- und Universitätsbibliothek Dresden, convenientemente abreviado para SLUB. É a biblioteca central da universidade de Dresden, e também a biblioteca estadual da Saxônia.

O edifício da SLUB foi projetado pelo escritório de arquitetura Ortner & Ortner, e inaugurado em 2003, e tem essa cara:

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Mas essa é só uma partezinha da biblioteca. Na verdade, a maior parte da biblioteca – incluindo praticamente toda a parte aberta ao público – é subterrânea.

Vou fazer basicamente um tour virtual mostrando as diferentes coisas legais dessa biblioteca. A entrada se dá pela avenida principal que cruza a universidade, em uma pequena praça que se abre para a entrada da biblioteca. Essa praça fica literalmente lo-ta-da de bicicletas em fins de semestre e durante o verão (Não é o caso dessa foto).

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Entrada a partir da rua, chegando na praça das bicicletas

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A praça com o estacionamento de bikes (nesse dia com poucas bikes). A entrada da foto anterior aparece ali no canto à direita

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Praça de bikes na entrada, com poucas bikes. Essa foto é no outono, ou seja, bem no início do semestre de inverno. Durante o verão e primavera tem várias linhas de bicicletas no centro da praça.

Aliás, é interessante saber os momentos em que a biblioteca fica cheia. A época mais crítica é em fevereiro. Fevereiro é final do semestre de inverno na faculdade e freqüentemente o mês mais frio do inverno. Em fevereiro, se você chegar na biblioteca depois das 10 da manhã já não encontra lugar pra sentar. E olha que mesa de trabalho é o que não falta! Mas o mesmo não acontece no final do semestre de verão, em Julho/Agosto. Mesmo nas semanas de prova dá pra chegar tranquilamente a tarde e achar lugar pra sentar. Com o sol e tempo bom lá fora, acho que as pessoas não ficam muito animadas em estudar dentro da biblioteca, muito menos nessa que é subterrânea…

Mas voltando. Entrando então pela entrada principal, a primeira coisa são os armários. Uma saguão gigante lotado de armários (e em fevereiro é difícil até encontrar armário vazio, se você chegar tarde).

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Saguão de entrada, com os armários. Seguindo ali pela esquerda têm bem mais armários do que os que aparecem na foto.

Em dias de chuva as pessoas deixam seus guarda-chuvas secando sobre os armários e fica parecendo uma intervenção artística.

Em dias de chuva as pessoas deixam seus guarda-chuvas secando sobre os armários e fica parecendo uma intervenção artística.

Os armários nessa biblioteca assim como em qualquer outra biblioteca ou aliás em qualquer lugar que tenha armários para guardar coisas, na Alemanha, funciona, da seguinte maneira: A chave fica presa ao armário quando ele está aberto. Você coloca as suas coisas, e pra trancar e tirar a chave, você tem que depositar uma moeda de 1 ou de 2 euros (tem armário que aceita moeda de 1 euro, armário que aceita moeda de 2 euros, e armário que aceita as duas). Assim:

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Uma vez colocada a moeda, você fecha o armário e a ao trancar, a chave sai. Quando você voltar e colocar a chave para destrancar, a moeda inserida cai nessa bandejinha que aparece na foto, e você pega ela de volta e sai feliz e contente com seu euro. Mas isso significa que convém ter sempre uma moeda de um ou dois euros guardada num local separado da carteira para essas situações. Nessa biblioteca tem em um canto do saguão uma máquina de troco, para você trocar dinheiro e pegar umas moedas caso tenha gastado a sua moeda-de-biblioteca pra comprar um docinho na padaria de manhã.

E de quebra você ainda volta e meia encontra uma moeda esquecida num armário recentemente esvaziado! (e em compensação também esquece moedas de quando em quando ao esvaziar seu armário) Aliás, muitas coisas seguem esse esquema de depositar moeda, carrinhos no supermercado, carrinhos no aeroporto, armários em museus, academias, lugares diversos… é bem prático.

Bom. Como qualquer biblioteca, você deve deixar sua mochila e casaco no armário e entrar só com o material que for usar. Mas na verdade, ao passar pela catraca e entrar na biblioteca, o primeiro espaço é um salão de trabalho com muitas mesas onde você pode levar sua mochila e casaco. Nesse salão você pode também conversar em voz alta, diferente do resto da biblioteca. Então é onde ficam as pessoas que estão fazendo trabalhos em grupo, por exemplo, ou aquelas que chegaram realmente sem nenhuma moeda e conseqüentemente não puderam usar os armários, hehe.

Num dos lados têm os balcões e máquinas onde você empresta os livros. Nos balcões o funcionário da biblioteca faz o empréstimo pra você. Nas máquinas, você passa o código de barra do livro e a sua carteirinha e faz o empréstimo self-service! Bem prático.

Ali do lado do balcão tem também umas estantes onde ficam os livros encomendados. Nem todos os livros do acervo ficam acessíveis para você na parte aberta da biblioteca. Vários dos livros ficam guardados nos depósitos. Aí quando você quer retirar algum desses livros, você reserva e eles trazem para você do depósito e colocam naquela estante, marcado com o número da sua carteirinha para você encontrar. Os seus livros ligados à sua carteirinha vão sempre ser colocados mais ou menos no mesmo cantinho específico. E uma coisa muito legal – que eu infelizmente não tenho uma foto pra colocar – é que os livros são retirados do depósito (3 andares abaixo) e trazidos para o lugar onde ficam essas estantes automaticamente! Quando você reserva um livro (dá pra reservar pela internet), uma máquina o encontra no depósito e o coloca no elevador. Tem umas janelas dentro da biblioteca que mostram os livros chegando nas esteiras rolantes e subindo nos elevadores de livros, é bem legal! Mas eu infelizmente não tenho uma foto para mostrar. Volte aqui daqui a umas semanas e quem sabe eu tenha tirado uma foto e colocado aqui.

Também ali do lado ficam outros armários. Esses são especiais: para usar um você precisa se cadastrar e reservar. Você receberá uma chave assim que liberar um armarinho, e poderá usá-lo por 14 dias. As portas dele são transparentes de maneira que é possível ver que neles são guardados apenas livros: A idéia é que você pode usá-los para guardar os livros que estiver usando na biblioteca. Quer dizer, se você tem um livro que você está usando, mas não quer levar ele pra casa todo o dia só pra trazer de volta pra biblioteca no dia seguinte, você pode deixá-los lá nos armarinhos transparentes. Os livros dentro dos armarinhos têm que estar emprestados normalmente como se você os tivesse levado pra casa. É só um jeito sagaz de você não precisar carregá-los para lá e para cá caso vá trabalhar principalmente na biblioteca.

Daí seguindo pelos corredores da biblioteca você vai encontrar, além das várias estantes com muitos livros, muitas mesas de trabalho diferentes.

Tem mesa com banquinho alto, mesa com cadeira normal, mesa sem banquinho… e tem sempre pelo menos uma tomada por mesa com cadeira. Algumas mesas têm computadores, eu chutaria que uns 10% das mesas têm computadores fixos. E todas têm lâmpadas, claro. É bem comum para as pessoas que estão trabalhando na biblioteca deixar suas coisas na mesa quando precisa sair para ir ao banheiro, comer, fumar, sei lá. Se for uma coisa breve como ir ao banheiro, as pessoas deixam até o laptop na mesa. Se for algo mais longo como almoçar ou tomar um café na cantina, aí normalmente as pessoas levam seus eletrônicos e deixam só os livros/cadernos, etc. Não sei o quão seguro é, eu costumo deixar o laptop em saídas curtas, mas não sejamos ingênuos de achar que não há nenhuma possibilidade de furto. É um risco, talvez pequeno, mas ele existe.

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Falando ainda em mesas de trabalho, uma das melhores opções se silêncio é importante para você é o salão de leitura, ou Lesersaal, em alemão. Ele fica no nível -2, o nível mais baixo da parte aberta da biblioteca, mas tem um pé direito tão alto que chega à superfície. Ele é iluminado por aberturas zenitais (janelas no teto), sendo uma das poucas partes da biblioteca com iluminação natural durante o dia. Nesse salão há também uma área em que não é permitido usar eletrônicos, de maneira que nem o som de alguém digitando no teclado do laptop deve te incomodar.

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Lesersaal

Caso você queira fazer um trabalho em grupo na biblioteca, tem ainda outra alternativa bem legal: as salas para trabalhos em grupo. Tem salas de diversos tamanhos, para 4, 6, 10, 15 e até 20 pessoas. São salas fechadas, algumas com computador, algumas com projetor, outras só com mesas. E qualquer um pode reservá-las e usá-las gratuitamente pela internet. No site da SLUB tem um calendário mostrando os horários em que cada sala está ocupada. Claro que em certos períodos – como fim de semestre – fica difícil achar uma sala livre em horários normais (que não seja domingo às 8 da manhã, por exempl0). Mas reservando com antecedência, tudo é possível. No formulário de reserva online você pode até reservar ela repetidamente sempre naquele mesmo horário toda semana – e fazer um grupo de estudo, por exemplo. Bem legal!

E uma dessas salas de grupos é uma sala especial para pais com crianças. Tem uns brinquedos, colchões, e coisas para entreter as crianças enquanto os pais ficam trabalhando nos seus trabalhos ali do lado! Aliás, a universidade me parece bem friendly para pessoas com filhos (Não sei pq não tenho filhos, mas pelo que sei tem muitas opções pra quem quer estudar e não tem com quem deixar as crianças).

E ainda outra opção de mesa de trabalho na biblioteca – possivelmente a opção mais legal de todas – são as salinhas individuais. Você pode reservar uma salinha individual pra seu uso próprio para usar por 3 meses. Você recebe a chave da salinha e pode inclusive deixar suas coisas lá, fica sendo sua sala, mesmo. Só que claro, tem bem menos sala do que pessoas que gostariam de usar essas salas, então funciona da seguinte forma: As salas são emprestadas por 3 meses. Algumas semanas antes de começar um trimestre abre no site na biblioteca as inscrições para usar as salinhas. Você se inscreve e eles sorteiam aleatoriamente os nomes dos alunos que poderão usar as salinhas. Se você for sorteado, eles te avisam por email e você vai lá buscar a chave para usar a salinha naquele trimestre. A única condição para se inscrever para as salinhas é que você precisa estar fazendo um trabalho de conclusão de curso, dissertação ou tese. No momento de receber a chave você tem então que apresentar uma carta do seu orientador ou orientadora atestando que você está, de fato, escrevendo um TCC, tese ou dissertação. Dentre as, se não me engano, 40 salinhas disponíveis, 10 são isoladas acusticamente para que eventuais estudantes de música possam usá-las para seus trabalhos com música, também.

E, porque sentar em mesas não é o suficiente, tem pela biblioteca, também, sofás. Algumas opções diferentes de sofás. Que são usados majoritariamente para tirar uma sonequinha depois do almoço. Eu, por exemplo, fiz bom uso de um dos sofás quando tive a brilhante idéia de ir à biblioteca ler para um trabalho no dia 22 de dezembro, o último dia antes das férias de natal. Cheguei quase na hora do almoço, fiquei meia hora lendo, fui almoçar, e voltei morrendo de sono. Pensei “puxa, vou continuar lendo sentada naquele confortável sofazinho!”. Acordei 3 horas depois.

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Sofás dentro da biblioteca, ao lado do salão de leitura, freqüentemente ocupado por estudantes capotados.

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Sofás no saguão de entrada. No fundo aparecem as máquinas de devolução self-service e de troca de dinheiro.

Além de tudo isso, a SLUB tem em seus três andares abertos ainda áreas de revistas e jornais, áreas de livros raros, área de CDs e DVDs, área com copiadora e impressoras, livros de qualquer área de conhecimento (embora o acervo não seja suuuuuper bom, segundo o que me contam os alunos alemães, porque o governo gastou todo o dinheiro para construir a biblioteca e depois não tinha mais dinheiro para comprar livros! Mas não sei até que ponto essa história é verídica ou lenda urbana entre os estudantes), etc.

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E como faz para encontrar um livro específico nessa infinidade de salas, corredores, cantos e estantes? Muito fácil! No site da biblioteca tem nada menos nada mais que um mapa 3D virtual da biblioteca! Quando você procura um livro no catálogo, tem lá do lado do código de identificação do livro um botãozinho para mostrar em que estante ele está, no mapa virtual.

Pela internet, fazendo o login com seu número de carteirinha e senha, você pode ver todo o histórico de livros emprestados, livros a serem devolvidos e quando, pode fazer a renovação online, reservar as salas de grupos, reservar livros, pedir livros, etcetc. Tudo é possível pela internet. A maior parte das mídias são emprestadas por 28 dias, exceto CDs e DVDs que são emprestados por 14 dias. Esse período pode ser renovado duas vezes se não houverem reservas. E se você esquecer de devolver o livro, pode ter certeza que não escapará da multa! Só não consegui descobrir pelo site qual o número limite de mídias que podem ser emprestadas simultaneamente. Será que não tem limite?

Aliás, para ser associado da biblioteca e emprestar livros, não é necessário ser estudante da universidade. Como é uma biblioteca estadual, qualquer um pode ser membro, basta ter 14 anos de idade ou mais.

Assim como a máquina self-service de empréstimo, tem também a máquina self-service de devolução. Você passa a carteirinha, e coloca o livro numa esteira que lê o código de barras, engole o livro, e te dá um recibo de devolução. Bem prático, especialmente se você quiser devolver livros aos domingos.

Aos domingos?

Sim, aos domingos. A SLUB fica aberta todos os dias da semana e quase todos os dias do ano com pouquíssimas exceções! De segunda a sábado, o horário de funcionamento é das 8:00 à meia noite. De domingo, das 10:00 às 18:00. Alguns feriados durante o ano têm horários reduzidos de abertura, e em outros a biblioteca fecha. Mas o fato é que a maior parte do tempo a biblioteca está aberta.

Só que aos domingos e depois de certo horário não tem funcionários nos balcões de empréstimos e em outras áreas da biblioteca. De maneira que, se você quiser emprestar ou devolver um livro no domingo, tem que usar as máquinas self-service de empréstimo e devolução.

MAS, calma, não acaba aí! Saindo da área da biblioteca, e voltando ao saguão, temos ainda algumas opções de entretenimento na SLUB. Subindo um andar chegamos no andar onde tem o auditório e a cantina. A cantina, claro, possivelmente o lugar mais importante da biblioteca, tem opções diversas de sanduíches, cafés, doces e frutas, pãezinhos e salsichas. Eles pedem pra não levar marmita de casa, mas sendo essa a única área da biblioteca com mesas onde é permitido comer, esse pedido é solenemente ignorado pelos estudantes.

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Subindo mais um andar, no nível +2, tem um pequeno museu. Com livros raros, originais de pessoas importantes, e tal. O museu é uma grande sala com uma outra sala dentro dessa sala. A sala dentro da sala chama-se Salão dos tesouros! Essa sala fica trancada, mas para visitar bastar usar um interfone na porta da sala para pedir que suba alguém da administração para abrir a sala para você. Dentro dela você encontra partituras originais de Beethoven, desenhos originais de Dürer, mapas e livros extremamente antigos, e, pasmem, pasmem, o calendário maia do Fim do Mundo! Sim, ele mesmo, aquele calendário que terminava em 2012 e fez as pessoas acharem que o mundo terminaria então fica ali, no salão dos tesouros da biblioteca de Dresden, acessível para visita de Segunda a Domingo das 10:00 às 18:00!

É isso, agora acho que falei tudo. Provavelmente amanhã eu vou lembrar de mais alguma coisa muito legal relacionada a essa biblioteca que eu esqueci de falar, mas enfim. De qualquer maneira, fica a dica: se você for arquiteto, a visita à biblioteca é imperdível. Se você não for arquiteto, mas for um amante de bibliotecas, também. Se você não for nem arquiteto nem amante de livros ou bibliotecas, vá pelo menos para ver o tal calendário Maia.

Ficam aí mais algumas fotos:

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(Publicado em 31 de Março de 2015)

 

Gentileza cotidiana

Em comparação com brasileiros, americanos, sul americanos em geral e mesmo vários europeus, os alemães podem parecer bastante grossos. Não é só o fato de eles serem bem diretos, tem várias coisinhas do dia a dia que também passam essa impressão. Por outro lado, pequenas diferenças culturais às vezes também dão a impressão de que eles são mais educados que a gente. Tudo depende do ponto de vista, tudo tem dois lados.

Então vou falar de algumas dessas diferenças de como as pessoas por aqui se comportam no dia-a-dia, que pra gente são interpretadas como diferenças positivas ou negativas. Começando pelas negativas:

– Se você estiver num lugar cheio de gente, como digamos um mercado de natal, é bem comum as pessoas esbarrarem em você e não fazerem o menor esforço de pedir desculpas. Aliás, às vezes eu tenho a impressão de que eles nem fazem esforço de não esbarrar em você se tiver muita gente. Claro, se for uma situação em que reeeealmente a pessoa não precisava mesmo ter encostado em você, e foi um super acidente, com certeza vai rolar um pedido de desculpas. Mas numa situação que tem mta gente e encontros são quase inevitáveis, esquece.

– Atendentes em lojas, fast-food e lugares assim, raramente são simpáticos ou bem humorados… Principalmente fast-food, lanchonete, tal, raramente a pessoa do caixa vai te atender com um sorriso. Em várias situações vai parecer, pelo jeito que eles tão te tratando, que você está fazendo algo super errado – sem nem saber o quê. É. (isso pode ser que seja diferente em outras partes da Alemanha… mas pelo menos aqui na Saxônia é bem assim).

– Os alemães costumam ser muuuito apressados. No supermercado, no caixa, assim que você paga, o caixa já começa a passar as compras do próximo cliente, mesmo que vc não tenha terminado de guardar as suas compras ainda e mesmo que não tenha espaço nenhum pra você fazer isso. No começo pode parecer super grosso, mas depois que você acostuma, até faz sentido, o caixa vai bem mais rápido, assim. E, com certeza, se os caixas fizessem diferente, os alemães iam se incomodar pra caramba com a demora. Essa pressa pra fazer logo as coisas é meio geral. Pra pagar, por exemplo, se tiver uma fila atrás de você, deixe o dinheiro preparado e pronto pra pagar. Uma vez passeando com uma amiga que estava de visita, num ponto turístico, ela se atrapalhou para achar o dinheiro certo (já que não estava acostumada com as moedas diferentes) e a mulher do caixa foi suuuuper grossa, ficou fazendo óbvios sons e caras de impaciência e desaprovação, parecia que era a minha amiga que estava sendo mal-educada e fazendo algo errado. E, de fato, para os alemães é isso mesmo.

– Eles assoam o nariz super alto em qualquer situação ou ambiente.

– No trem, metrô e meios de transporte, é muuuito comum as pessoas ocuparem dois assentos, um para si e um para a mochila/bolsa/o que for. E com freqüência eles só tiram a mochila do outro banco quando alguém pede pra sentar lá. Mesmo quando está bem cheio isso acontece (embora menos, claro). Um exemplo emblemático foi uma vez que eu e uma amiga pegamos um trem, era uma viagem de 15 min. Estava bem cheio quando entramos, mas achamos um banco vazio. Quando a minha amiga foi sentar, o cara do lado falou “não, aqui está ocupado, aquele homem está sentado aqui” apontando para um cara que estava de pé conversando com umas pessoas que estavam sentadas uma fileira na frente. Até aí tudo bem. A gente ficou de pé do lado daquele banco e durante os 15 minutos de viagem, o tal homem não se sentou no banco que era “dele”. Foi muito grosso, ele viu que a gente quis sentar lá, ele viu que a gente estava de pé ali do lado, e ele mesmo não pretendia voltar a sentar no banco até o destino final. Me arrependi de não ter falado bem alto “nossa, que mal-educado!” ou coisa do tipo…

– Também nos transportes públicos, uma coisa que pra gente é muito comum e aqui ninguém faz jamais é quem está sentado oferecer pra segurar a bolsa ou o que for de quem está de pé. Isso seria totalmente estranho aqui.

– Outra coisa que pode parecer estranha pros brasileiros é que os alemães quase nunca oferecem aquilo que estão comendo ou bebendo para os outros provarem. Claro, sei lá, se o fulano estiver com um enorme saco de cookies e vários amigos do lado, a pessoa vai oferecer. Mas se for uma coisa pequena, sei lá, um chocolate, o que for, eles vão comer na tranquilidade sem oferecer. E oferecer para desconhecidos (tipo, sei lá, no trem, whatever) também seria totalmente estranho por aqui.

Mas as coisas positivas também existem:

– É super comum os alemães segurarem as portas uns para os outros. Qualquer pessoa pra qualquer pessoa, desde que você passe por uma porta e tenha alguém vindo na direção daquela porta, você segura a porta pra pessoa. Às vezes até já me seguraram a porta embora eu ainda estivesse super longe da porta quando a outra pessoa passou por lá. Segurar porta é regra.

– Voltando ao transporte público, se você estiver com carrinho de bebê, sempre alguém vai dar uma ajuda pra subir ou descer o carrinho do trem, se precisar. Quando você tá obviamente precisando de ajuda com alguma coisa, assim, bem óbvia, os alemães percebem de longe e vem ajudar sem hesitar.

– Se você estiver correndo pra não perder o tram, sempre alguém vai ver e segurar a porta pra vc, pro tram não ir embora sem você. Algumas vezes, mesmo depois de o/a maquinista (maquinista?) do tram já ter fechado as portas definitivamente, se ele vir você correndo pra pegar o tram às vezes eles te esperam e abrem de novo só a porta que você vai usar. Nem sempre, porque eles têm uma agenda pra cumprir. Mas se der pra esperar, eles esperam.

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– É muito raro alguém ouvir música alto nos transportes públicos. Ás vezes tem uns que ouvem tão alto no fone que é quase como se não tivesse o fone. Mas sem o fone, mesmo, acho que nunca vi.

– Os alemães seeeeeeeeeempre esperam todos antes de começar a comer ou beber. Sempre rola um tim-tim antes de beber. Mesmo que você estiver, sei lá, comendo junto no McDonald’s, eles sempre esperam todo mundo estar sentado com a comida antes de começar a comer. Eu tenho a impressão de que, principalmente com bebida, no Brasil a gente não espera. E brinde é só em situações bem especiais, e tal. É super comum eu começar a beber e de repente me toco que tá todo mundo esperando e aí tenho que pedir desculpas e explicar que pra mim isso é super incomum!

– Eles também sempre dizem “bom dia!” ou “olá”, e “tchau”, mesmo para desconhecidos. Claro, não no meio da rua numa cidade de tamanho razoável. Mas dentro do seu prédio sempre, num local em que tenham só você e outra pessoa mesmo que desconhecida (elevador, por exemplo), ou até se você estiver, por exemplo, fazendo uma trilha na floresta e cruzar com outras pessoas, eles sempre dirão bom dia/boa tarde.

– Eles não riem de você. Se você, por exemplo, tropeçar e cair, na rua, vem logo alguém perguntar se você se machucou ou se está bem. Ninguém, nem conhecido nem desconhecido, acha engraçado ver outras pessoas se machucarem. Eles também não fazem piadas preconceituosas. Piadinhas machistas, racistas e homofóbicas, que são super comum numa mesa de família ou no escritório, no Brasil, por aqui é muuuuuuuuuuito raro ouvir. Aliás, por exemplo, com aquele resultado do jogo Brasil x Alemanha da Copa. Imagina se fosse 7×1 pro Brasil e fosse um alemão no Brasil. Tooooooooodo mundo ia ficar enchendo o saco do fulano, fazendo graça, e tal. Nenhum alemão fez isso comigo. Ok, mentira, lembrei de um, um professor. Mas só. Os outros ou nem comentaram o assunto, ou, quando comentaram, foi mais num sentido “nossa, o que aconteceu naquele jogo, hein? Que resultado inesperado!”, coisa do tipo.

– E, pra mim, o ponto mais importante e mais positivo dos alemães, é que eles sempre te deixam em paz. Os alemães sempre. deixam. as pessoas. em paz. Sempre. Ninguém mexe com você na rua, assédio de rua, chamar moça de gostosa ou o que for, é uma coisa que simplesmente não existe aqui. Os alemães respeitam muito a privacidade das pessoas na rua e em locais públicos. Ninguém jamais fala com você sem ser necessário. Quer dizer, pode até ser que em um caso ou outro eles puxem conversa (por exemplo já aconteceu de algum alemão que se interessa pelo Brasil e fala um pouquinho de português puxar conversa comigo e algum amigo ao nos ouvir falar português, e tal), mas é sempre de maneira super respeitosa e tranquila, e sem insistência. Essa característica é uma das coisas que eu mais gosto nos alemães.


(Publicado em 10 de Janeiro de 2015)

 

Primeiro dia de escola

Tem vezes que eu fico sem nenhuma inspiração para escrever um post novo, e todos os assuntos planejados para posts futuros são muito compliados, exigem ainda uma pesquisa, ou precisam fotos que eu ainda não tirei… e aí quando eu menos espero, descubro algo que não conhecia antes e que é absolutamente perfeito para um post!

Hoje foi um desses dias. Passeando por uma grande loja de departamentos com o namorado, de repente nos deparamos com isso:

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Eu nem prestei muita atenção, passei o olho e ignorei imaginando que fossem chapeuzinhos de festa ou coisa do tipo, mas realmente nem olhei duas vezes para perceber que eram meio grandes demais para chapeuzinhos. Por sorte o namorado parou todo feliz para explicar o que eram.

Não eram chapeuzinhos de festa.

Nem aqueles chapeuzinhos de colocar na criança mal-comportada pra sentar no canto da sala.

New York : Underwood & Underwood, publishers – US-LOC

Mas tem, sim, a ver com escola e criança. Os cones coloridos de papel são entregues para crianças que estão começando o primeiro ano do primário, cheios de doces e brinquedos!

Muito prático para convencer crianças assustadas a irem para a escola! No primeiro dia, ao final da aula (os pais acompanham a criança na escola no primeiro dia), cada criança ganha dos seus pais um enorme cone de doces e brinquedos. Imagina que ansiedade, sabendo o que te espera ao final do primeiro dia?

Schultüte

Que bonitinho! E os tais cones – em alemão chamados Schultüte (sacola de escola) ou Zuckertüte (sacola de açucar) – já são uma tradição há vários anos…

Para ser mais exata, eles têm origem na cidade de Jena, no estado da Turíngia, em 1817! Desde então, o costume rapidamente se espalhou pela Alemanha inteira e alguns países vizinhos (Áustria e República Tcheca). Hoje os pais entregam os cones diretamente para as crianças, mas originalmente não era assim. Os pais deixavam os cones identificados com o nome da criança com a escola, que os pendurava em uma árvore. As crianças tinham então que encontrar os seus cones e retirá-los da árvore sem quebrar. A historinha que se contava para as crianças da época é que na escola havia uma árvore de doces, e quando a “fruta” com o seu nome amadurecesse e estivesse pronta para ser retirada da árvore, é porque era hora de começar a ir à escola!

Achei a historinha muito muito profundamente simpática! Imagina que felicidade a da criança ganhando o seu cone e esvaziando ele todo no chão da sala para descobrir seu conteúdo?

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Hoje você pode comprar esses cones pré-prontos em qualquer papelaria nas semanas próximas ao início do ano letivo (final de agosto/começo de setembro). Mas acho que grande parte dos pais ainda preferem construir seus próprios cones. Às vezes são até as próprias crianças que montam o cone, que depois são enchidos de doces e brinquedos pelos pais.

Dá para comprar também um cone pronto só de papelão, para decorar como quiser

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E se você, vendo essas fotos, percebeu logo os tamanhos diferentes de cones e se preocupou com as crianças que ganham os pequenos enquanto assistem seus amiguinhos ganharem cones gigantes, não se preocupe. Pelo menos segundo o namorado, os cones pequenos na família dele eram usados como presente de consolação para os irmãos mais novos não ficarem com ciúmes!

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(Mas os cones ficam muito mais bonitos quando estão preparadinhos, então aí vai umas fotos aleatórias de internet de crianças com seus cones:)

Muito fofa!


(Publicado em 23 de Agosto de 2014)

Universidades alemãs: professores

Continuando o tema de universidades alemãs, algumas particularidades no comportamento dos professores daqui são dignas de nota.

A primeira e mais bizarra de todas: 100% das aulas que eu tive na Alemanha até o presente momento começaram com o professor perguntando aos alunos se tem mais gente chegando, ou se ele pode começar a aula. Essa é uma pergunta que me irrita profundamente. Eu entendo que o professor não queira ser interrompido por alunos chegando atrasados. Mas o que ele espera, quando pergunta aos alunos já presentes na sala, se tem outros alunos que estão a caminho? Sabe, eu não telefono para todos os meus colegas de classe de manhã para saber se eles vêm ou não à aula, ou a que horas pretendem chegar! Como é que eu vou saber se tem mais gente a caminho? Os professores devem imaginar que moramos todos na mesma república, ou então que a primeira coisa que fazemos ao acordar de manhã é postar na página do facebook da turma o horário em que pretendemos chegar na universidade, sei lá! Não faz sentido, essa pergunta! Eu tenho uma vontade muito incontrolável de responder “COMO vc espera que a gente saiba onde estão os outros!! Nós já estamos aqui!”. E sabe, no nosso caso, a gente é uma turma de 15 pessoas, dá até pra perguntar se a turma está completa ou não, isso dá pra responder. Só que mesmo na disciplina que dividimos com outro curso, somando umas 40 ou 50 pessoas na sala, os professores fazem a mesma pergunta! Quer dizer, eu não sei nem dizer se tem alguém faltando, eles ainda querem que eu diga se os faltantes estão ou não estão a caminho! Sei lá, olha pela janela e vê se tem mais alguém vindo! De verdade, essa pergunta me tira do sério.

Aliás quanto à pontualidade, os alemães são mesmo bem alemães. Pela minha experiência, os professores ficam com tudo preparadinho, powerpoint no modo apresentação, olhando pro relógio esperando dar a hora oficial de início da aula, para começar a falar. Se isso parece exagero desnecessário, pelo menos é positivo no fim da aula. Eles são conseqüentes: as aulas nunca ultrapassam o horário de término. O professor fica de olho no relógio para ter certeza que vai respeitar o horário da aula. Com freqüência, se der o horário de término e o professor ainda não tiver terminado o que pretendia falar, ele interrompe mesmo, com bom-obrigado-até-logo. E se ocorrer de ele passar do horário, ainda que só dois minutos, não é desrespeitoso se algum aluno avisar que o horário de término já passou. Eles respeitam e ainda pedem mil desculpas. Mas bom, essa é a minha experiência particular. Não sei dizer se vale para qualquer curso em qualquer universidade. No nosso é sempre assim.

Sobre a quantidade de mulheres em cargos de professores universitários, não tenho dados concretos, mas pela minha impressão e experiência, aqui tem bem menos professoras que no Brasil. Pelo menos comparando com a faculdade que eu cursei, Arquitetura da USP, onde a taxa era de 44% de professoras e 56% de professores (contei agora pelos nomes no site da faculdade). Meu namorado, que cursou arquitetura aqui, conseguiu apontar apenas duas professoras na sua faculdade. Na minha, ainda não conheci nenhuma.

Embora a Alemanha esteja bem na frente em termos de igualdade de gêneros, essa diferença é bem gritante. Talvez o motivo seja o fato de que aqui os professores das universidades (que são todas públicas) não são contratados por concurso público, mas indicados para o cargo por outros professores ou pessoas em altos cargos na universidade. Basicamente não dá para você se candidatar, alguém tem que te indicar. Estranho, fato. Mas pelo menos existem algumas políticas que admitem o problema e tentam corrigi-lo: no caso de um homem e uma mulher terem sido apontados para o cargo e terem qualificações semelhantes, a preferência será dada à mulher.

Outra peculiaridade é que os professores, todos, são sempre tratados pelo sobrenome, e sempre tratam os alunos pelo sobrenome. Isso faz parte daquelas coisas que a gente já sabe sobre os países norte-americanos e norte-europeus, mas é mto difícil se acostumar a ser tratada pelo sobrenome! Isso, claro, é característica da relação professor-aluno por aqui. Aqui os alunos têm bem menos contato direto com o professor, a relação é bem distante. Ninguém jamais adicionaria seu professor no facebook (mas bom os alemães quase não usam facebook. Preciso falar disso em outro post.)

Para finalizar, algumas fotos de universidades alemãs:

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O belo edifício da faculdade de biologia da TU Dresden. Droga, devia ter estudado biologia. (Hm, só que aí eu não poderia apreciar o quão belo é esse edifício! Esquece.)

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Auditório da TU Dresden

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Edifício do Instituto de gestão florestal da faculdade de ciências ambientais da TU Dresden no outono.

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Mesmo edifício por dentro, também bem legal. Aliás, todos os edifícios de universidades alemãs que eu visitei até agora são super novinhos e bem cuidados e limpinhos. Not bad, Alemanha, not bad.


(Publicado em 4 de Dezembro de 2013)

 

Universidades alemãs: aplausos curiosos

Universidades alemãs tem diversas particularidades interessantes e diferentes do Brasil. Não vou abordá-las todas num único post, ouvi dizer que é melhor criar suspense.

Mas uma das peculiaridades mais interessantes, e totalmente específica da Alemanha, são os “aplausos” ao final da aula.

Você já está pensando aí com seus botões, como assim, o que tem de especial em aplaudir a aula, super normal, a gente também aplaude!

Mas a diferença reside no aplauso. Eis que na Alemanha não é exatamente um aplauso. Ao final de uma aula na universidade – e isso é exclusivo das universidades, em outros eventos aplaudíveis o aplauso é normal – os alunos batem na mesa com os nós dos dedos (também não sabia que chamava assim, quem me disse foi o Google translator, mas nó dos dedos são aqueles ossinhos da mão que você usa para verificar se um mês tem 30 ou 31 dias), da mesma maneira que você bateria numa porta antes de entrar, só que na mesa! Assim:

Eu sei, eu sei, é provavelmente a coisa mais bizarra que você já ouviu sobre a Alemanha nesse blog ou em qualquer outro lugar! Mas é verdade e totalmente difundido: provavelmente qualquer aula em uma universidade alemã que você presencie terminará com a típica batidinha de nós-de-dedos na mesa. Se você chegar desavisado vai achar totalmente incompreensível e talvez imaginar que os alunos estão fazendo graça do professor ou coisa do tipo. Mas é o equivalente de um aplauso.

Pesquisei um pouco e descobri um artigo no Deutsche Welle sobre o assunto, que descreve algumas possibilidades para a origem deste curioso costume alemão. Segundo o artigo, não existem estudos sobre o assunto e portanto a origem não é certa. Mas o autor sugere (entre outras alternativas) que possa ser relacionado ao fato de que ao final das aulas, há uns dois séculos atrás, aos alunos munidos de suas penas e pergaminhos (ok, pergaminhos talvez não) restava apenas uma mão livre para demonstrar seu entusiasmo com a proeminente fala de seu ilustre professor. Aparentemente deixar a pena de lado por alguns segundos para um aplauso normal era irrealizável restando-lhes apenas a oportunidade de bater na mesa como se fosse uma porta. Plausível.

Origens duvidosas à parte, interessa saber que bater na mesa é um gesto multifuncional!

Se quando realizado ao final da aula representa aplausos, ao ser efetuado poucos minutos antes do horário de término da mesma indica ao professor que a aula já durou o suficiente e os alunos estão cansados e desesperados para que chegue ao fim. Alunos batendo na mesa com esse intuito eu nunca presenciei, mas segundo o meu namorado, com mais anos de experiência em universidades alemãs que eu, acontece sim, de vez em quando, e não é desrespeitoso como soa! Conveniente!


 

(Publicado em 13 de Novembro de 2013)