emprego

Ausbildung – cursos técnicos

Algo que eu acho interessante na Alemanha é que para muitos empregos que não exigem qualificação superior acadêmica, você ainda precisa de um diploma de um curso técnico para poder exercer aquela profissão.

Na verdade, são pouquíssimas as profissões que você pode exercer de maneira fixa sem nenhum tipo de curso profissionalizante, se é que tem alguma.

Para falar disso, primeiro tenho que explicar como funciona o sistema educacional na Alemanha. Mas eu já fiz isso, nesse post aqui. Resumindo a história, você tem alguns caminhos possíveis: ou você faz o Gymnasium e o Abitur, que seria o equivalente a fazer o ensino médio até o final e ter o ENEM como um diploma final de ensino médio, ou você faz ou a Realschule ou a Hauptschule, que são menos anos de escola e com o diploma dessas escolas você pode fazer cursos profissionalizantes ou técnicos, mas não ingressar na universidade. Para entrar numa universidade você precisa do tal Abitur, algo similar ao ENEM.

Existem também algumas combinações possíveis, por exemplo colégios técnicos, onde você pode fazer um curso técnico e o Abitur ao mesmo tempo.

Terminado a escola você tem então dois caminhos possíveis: ou você entra numa universidade (Universität) ou numa escola superior (Fachhochschule), ou você faz uma Ausbildung, que é um curso técnico profissionalizante de, normalmente, 3 anos.

A diferença importante entre uma Ausbildung e um curso universitário (além da diferença óbvia de um ser acadêmico e o outro técnico) é uma Ausbildung é sempre diretamente conectada com uma bolsa, até porque é uma mistura de trabalho e estudo, você aprende aquela profissão enquanto a exerce, e é portanto pago por isso. A Ausbildung é por isso uma boa alternativa pra quem quer já receber um salário diretamente depois de sair do ensino médio, e também para quem não tem muita afinidade com a academia, já que é um curso mais prático.

Mas alguns desses cursos podem ser beeeem concorridos. Principalmente aqueles que dão acessos a profissões mais procuradas, claro. Você pode fazer Ausbildung pra ser padeiro/a, vendedor/a, carpinteiro/a, para trabalhar numa piscina pública, costureiro/a ou até profissões que precisam de uma qualificação mais específica como fonoaudiólogo/a, parteiro/a, entre outros. Praticamente qualquer emprego que não exige uma qualificação universitária exige uma Ausbildung.

Alguns exemplos:

A minha cunhada fez o Gymnasium + Abitur, então poderia se inscrever numa universidade. Mas como ela não se dava muito bem com a área acadêmica, preferiu seguir uma carreira mais prática, onde ela pudesse aprender a profissão enquanto trabalhava. Ela primeiro conseguiu um emprego numa loja de móveis de couro. O emprego era ligado a uma Ausbildung que era parte na universidade – com aulas teóricas sobre marketing, business, etc – e parte na própria loja aprendendo a profissão. Com o diploma dessa Ausbildung, depois que ela resolveu sair dessa loja, ela conseguiu um emprego trabalhando para uma rede de supermercados como responsável por encomendar os produtos que o supermercado vende: ela tem que saber otimizar as quantidades a serem encomendadas para evitar que os produtos esgotem ou sejam disperdiçados, ela tem que saber quando encomendar cada tipo de produto de acordo com as vendas, etcetc.

Uma amiga minha brasileira que mora aqui resolveu, depois de vir pra cá, seguir uma carreira diferente. Ela tinha curso superior em biologia, mas estava se interessando por obstetrícia e resolveu tentar uma Ausbildung para ser parteira. Ela conseguiu uma vaga bem concorrida para a Ausbildung do hospital universitário local, que tem duração de 3 anos. Nos dois primeiros anos, o curso alterna entre 5 semanas de teoria, com aulas normais e provas, e 5 semanas de prática no hospital. O último ano é inteiro no hospital, exceto por 5 semanas de aula preparatória para o exame final que dá a certificação para exercer a profissão. Fazer a Ausbildung significa que ela é contratada pelo hospital como um emprego normal, recebe um salário suficiente, além de todos os benefícios obrigatórios de contratação como férias, seguro de saúde, previdência, etc. Completando a Ausbildung no hospital ela ainda tem boas chances de ser contratada pelo próprio hospital para exercer sua profissão lá.

Não é incomum que algumas pessoas façam uma Ausbildung para começar uma profissão e alguns anos depois acabem se inscrevendo em cursos universitários também relacionados. Um exemplo é um colega que trabalha junto com meu namorado, que primeiro fez uma Ausbildung de desenho técnico e depois, já trabalhando, resolvou ir estudar arquitetura na universidade.

A maioria desses cursos têm 3 anos de duração, mas há alguns com 2 ou 4 anos de duração. As bolsas variam entre aproximadamente 500 a 950 euros no primeiro ano e 750 a 1400 euros no último ano (Em todos os cursos a bolsa aumenta ao longo do curso). Alguns valores mais específicos:
Um aprendiz de padeiro recebe no primeiro ano 458 euros, no segundo 620 euros, e no terceiro, 750. (valores mensais, claro).
Um aprendiz de construtor de ruas recebe no primeiro ano 755 euros, no segundo 1.115 euros, e no terceiro, 1400 euros.
Um aprendiz de sapateiro recebe no primeiro ano 710 euros, no segundo 740, e no terceiro 830 euros.
Aqui tem uma lista com as diferentes profissões e o salário médio da Ausbildung para cada ano de curso.

A maior diferença que eu percebi entre a Alemanha e o Brasil nesse sentido de cursos ténicos e profissões que não exigem curso superior é que essas profissões não são desvalorizadas como no Brasil. No Brasil, quem não faz curso superior ou exerce uma profissão que não exige qualificação acadêmica de nível superior é sempre visto como alguém inferior, menos capaz. Tem uma separação muito grande entre as profissões e como elas e as pessoas que as exercem são vistas. Aqui alguém que exerce profissões menos acadêmica não é visto como uma pessoa menos capaz ou inferior em nenhum sentido. E o fato de todas as profissões exigirem algum diploma para serem exercidas – seja um diploma universitário ou de curso profissionalizante – também faz com que as profissões mais práticas também sejam valorizadas, e poucas profissões sejam vistas como “algo que qualquer um pode fazer”. Até porque não é assim, nenhuma profissão pode ser feita por qualquer leigo, todas exigem experiência, habilidade e prática.

Empregos que não exigem nenhum tipo de qualificação costumam ser empregos temporários, bicos, e são exercidos mais por estudantes universitários aproveitando as férias ou o tempo livre pra ganhar um dinheiro extra pra bancar os estudos. E por aqui, qualquer profissão que você escolha exercer vai quase com certeza te dar acesso a uma vida bem normal de classe média.

Edit: Eu tenho recebido muitas perguntas genéricas via esse post referente a Ausbildung, como “Pra fazer Ausbildung precisa disso ou daquilo?”, ou “Como que se inscreve?”, etc. Nenhuma dessas perguntas eu tenho como responder porque Ausbildung não é UMA coisa, é um modelo de curso profissionalizante. É como se me perguntassem “Quero fazer faculdade, como se inscreve?”. Ué, como que eu vou saber, pra cada curso, pra cada faculdade vai ser uma resposta diferente. Ausbildung é um tipo de curso, não é um curso único que vale pra tudo. Então se você quiser saber mais informações sobre alguma Ausbildung, você tem que: saber que curso vc quer fazer; descobrir que instuituições/organizações/empresas oferecem esse curso; e então procurar informações sobre inscrições no site dessa instituição, organização ou empresa! Boa sorte!


(Publicado em 12 de Fevereiro de 2017)

Arquitetando na Alemanha

Como eu já comentei em outros posts, eu sou arquiteta e atualmente trabalho em um escritório de arquitetura e planejamento da paisagem aqui.

No último post sobre escritórios alemães, eu falei um pouco sobre as diferenças entre trabalhar na Alemanha e no Brasil, mas tentei me limitar a questões mais genéricas, não relacionadas a escritórios de arquitetura especificamente. Nesse post eu vou falar mais precisamente sobre as diferenças (algumas mais básicas) e similaridades de se trabalhar como arquiteto aqui e no Brasil.

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A primeira diferença que eu notei (e eu já mencionei isso no outro post também como uma coisa geral) é a quantidade de burocracia. No Brasil, trabalhando em escritório de arquitetura, eu basicamente só desenhava. Foram pouquíssimas as vezes que eu tive que fazer algum texto, tabela, preencher formulário, sei lá. Claro que tinham burocracias relacionadas ao projeto também, mas isso quem fazia eram principalmente os chefes, mesmo. Aqui TUDO vem com um papel extra: um formulário pra preencher, um protocolo pra escrever, uma lista detalhada de tudo o que tá no desenho, etc… Os alemães adoram umas listas e formulários. E isso, claro, acaba sendo uma dificuldade extra pra quem é de fora. Se alemão já é difícil, alemão formal, lei em alemão, etc, nem se fala… Aí vai da sorte de encontrar um escritório onde os chefes ou colegas entendam que isso é uma dificuldade extra pra você e ou não se incomodem de fazer essa parte enquanto você nos foca nos desenhos, ou de te dar um tempinho extra pra se entender com a língua.

De uma maneira ou de outra, cedo ou tarde (provavelmente mais cedo que tarde) você vai ter que fazer essas coisas, de maneira que se sua intenção é trabalhar aqui, se esforça muito pra aprender bem alemão o mais rápido possível, que vai ser importante.

Isso também tá bem relacionado ao próximo ponto: responsabilidades. A minha impressão até agora é que trabalhando como arquiteto num escritório aqui você tem bem mais responsabilidades que fazendo o mesmo tipo de trabalho no Brasil. Por exemplo, ir em reunião com o cliente, ir em obra, etc. Nos escritórios que eu trabalhei no Brasil, quem fazia isso eram os chefes, só em algumas ocasiões eu fui, e sempre acompanhando os chefes. Aqui espera-se que você vá em reuniões inclusive sozinho. O trabalho no geral é bem mais independente do chefe que a minha experiência no Brasil.

Por isso também uma outra diferença: no Brasil os escritórios (não todos, mas vários) sempre têm muitos estagiários, não raramente mais estagiários que arquitetos formados. Aqui – a não ser que seja um escritório muito grande – tem, quando muito, um estagiário. E sempre tem uns arquitetos que trabalham naquele escritório há 10, 15 anos. Me parece que a média de idade dos arquitetos que trabalham em escritórios é bem mais alta que no Brasil, onde a maioria são jovens.

Tem duas maneiras de trabalhar como arquiteto aqui: ou você é contratado pelo escritório num esquema equivalente a CLT (Festanstellung) que pode ser tanto sem tempo definido quanto um contrato com tempo específico, de maneira que você tem todos os direitos trabalhistas, ou você pode ser autônomo (Selbstständig) prestando serviços para o escritório meio estilo freelancer (Freie Mitarbeiter). Nesse caso você não está preso a um único escritório, mas pode fazer projetos para diferentes escritórios, fazer sua própria hora, e tal. Mas, claro, tem que cuidar do seu próprio seguro de saúde, seguro desemprego, etc. É lógico que oficialmente se você está trabalhando em período integral num único escritório por um tempo mais longo, o escritório é obrigado a te dar o contrato fixo, a Festanstellung. Se você ficar nesse esquema de Freie Mitarbeiter por muito tempo (um ano +-) trabalhando só para um único escritório, o escritório vai ter problemas com a receita federal por não ter te contratado oficialmente. O que acontece muito em arquitetura é que você começa como Freie Mitarbeiter, mas trabalhando lá em período integral, mesmo, e depois de um tempo eles te dão um contrato fixo. Mesmo como Freie Mitarbeiter o escritório te dá um contrato, você emite uma nota, declara tudo direitinho.

Uma pergunta certamente bem importante é como validar o diploma de arquiteto na Alemanha. A princípio você pode trabalhar em escritório de arquitetura sem validar o diploma, mas sem poder assinar projeto. Para se registrar no equivalente ao CAU, daqui, a Câmara dos Arquitetos (Architektenkammer) você precisa ter dois ou três anos de experiência trabalhando em escritório e, em alguns estados (as regras específicas variam de estado pra estado), algumas horas de cursos extras. Aí a câmara vai analisar seu currículo (da sua faculdade) pra ver se é equivalente ao currículo alemão, e decidir se você pode então receber o título de arquiteto daqui. Aí sim você pode assinar projetos, ter seu próprio escritório, participar de concursos e licitações, e tal. Essas regras, inclusive, são as mesmas para os próprios alemães. Mesmo se formando aqui eles também precisam desses 2, 3 anos de experiências e horas de cursos extra curriculares, e tal.

Mas esse post tá ficando muito chato com toda essa parte burocrática, vamos voltar ao dia-a-dia do escritório.

Outra coisa diferente aqui tb é em relação aos programas que eles usam. No Brasil quase todo mundo usa AutoCAD, pelo menos enquanto eu trabalhava lá eram raríssimos os escritórios que trabalhavam com outro programa que não CAD. Aqui isso varia bastante. Como tem muito escritório que usa Mac e não Windows, vários trabalham com Vector Works, ArchiCAD, entre outros. E outra coisa é que todos os escritórios trabalham sempre com versões oficiais de todos os programas. Nada de programa pirata por aqui. Isso acaba resultando em algo às vezes irritante: versões muito antigas de programas… eu fiz um trabalho num escritório ano passado onde eles estavam usando CAD 2008… era uma tortura. Mas nem sempre é assim, vários escritórios estão sempre com as versões mais atuais dos programas, ainda bem. Eu atualmente trabalho no CAD 2016, o que é ótimo, mas com o Adobe CS2 para Photoshop e Indesign.

E quanto ao tipo de trabalho, uma questão importante daqui é que paisagismo, arquitetura e urbanismo são coisas bem separadas. Paisagismo é uma faculdade diferente, separada, e quem se forma arquiteto não faz paisagismo e quem se forma paisagista não faz arquitetura. Urbanismo é algo extra na faculdade de arquitetura que pra fazer profissionalmente você tem que fazer algumas eletivas e fazer seu TFG nisso (acho que talvez tenham algumas faculdades só de urbanismo também, mas não tenho certeza).

Volta e meia me perguntam se é difícil conseguir emprego como arquiteto por aqui. Eu diria, bem sinceramente, que sim. Ainda é no geral bem mais difícil conseguir emprego sendo estrangeiro por aqui do que sendo alemão, e arquitetura é uma área onde tem bastante gente se formando. Mas, lógico, isso não significa que seja impossível ou que é pra desanimar. Uma coisa que ajuda muito (me parece) é ter uma formação aqui, então se você está pensando em tentar trabalhar por aqui, pense na possibilidade de fazer um mestrado ou algo assim, antes, acho que dá uma boa vantagem extra. Aprender alemão é suuuuuuper mega importante, não se iluda achando que vai dar pra se virar trabalhando aqui só falando inglês. Talvez até tenham alguns escritórios internacionais que trabalham em inglês, mas não são muitos e esses certamente serão os mais concorridos. Também vale a pena lembrar que tem diferença entre Alemanha oriental e ocidental. Na parte Oeste eles já estão mais acostumados com estrangeiros e não tem tanto medo e preconceito, então eu suponho que por lá seja mais fácil que por aqui, na parte leste. Aqui, qualquer escritório em que você trabalhar você vai ser o único estrangeiro… o que coloca uma pressão muito maior, né.

Não falei tanto do trabalho em si, ou de diferenças de como se faz arquitetura por aqui… mas esse é um tema que também já dá uns 3 outros posts, que certamente serão escritos no futuro!


 

(Publicado em 8 de Fevereiro de 2016)