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A Xenofobia dos outros estrangeiros

Há um tempo atrás eu escrevi um post sobre xenofobia na Alemanha, onde falei um pouco sobre algumas situações onde eu ou amigos estrangeiros nos sentimos discriminados pelos alemães, ou sentiram em que havia uma diferença clara na maneira como éramos tratados pelos alemães. Você pode ler esse post aqui.

Mas um outro assunto relacionado à xenofobia vem me incomodando muito e também precisa ser tratado: a xenofobia de outros estrangeiros.

Nos grupos de facebook das comunidades internacionais na Alemanha – certamente no daqui de Dresden – volta e meia aparecem posts com relatos de pessoas que foram vítimas de racismo e xenofobia em alguma situção. No mais recente que li, um homem árabe, engenheiro que mudou com a família pra cá a trabalho, contou que num domingo à tarde sua família (ele, a esposa e dois filhos) foi verbalmente agredida e intimidada num trem por um grupo grande de torcedores bêbados do Dynamo – o time de Dresden. Assustado e indignado, o homem contou que nesse dia finalmente viu de perto o “outro lado” de Dresden, o lado racista, xenófobo e preconceituoso. A torcida do Dynamo é bem conhecida na Alemanha por ser racista, agressiva e violenta, nos jogos sempre dá briga, o ambiente é sempre meio pesado. E Dresden, berço do movimento xenófobo Pegida, é conhecida na Alemanha por ser uma das cidades menos receptivas a estrangeiros.

Mas dessa vez o que mais me chocou nesse relato foram os comentários dos outros estrangeiros do grupo. Poucos eram realmente comentários de apoio: “poxa, que horror…”, “Já passei por isso, foi péssimo”, “não quero nem imaginar como vc deve ter se sentido!”, “Se quiser sair pra conversar, podemos marcar um café.”. A maioria dos comentários tentava desesperadamente defender a Alemanha e os alemães de três principais maneiras: ou invalidando a experiência que aquela pessoa compartilhou, ou generalizando a sua própria experiência positiva, ou, pior de tudo, culpabilizando a vítima da agressão racista/xenófoba pela agressão que sofreu.

O primeiro tipo – o que invalida a experiência do outro – é aquele que lê essa história e comenta “não liga”, “ignora”, “esquece” ou “Mas isso poderia acontecer em qualquer lugar”, “idiotas existem no mundo inteiro, não é só aqui”, “sempre tem uns assim, aposto que no seu país também tem”. Tinham muuuitos comentários nessa linha. Não importa se isso acontece em outros lugares com outras pessoas também, aconteceu aqui com essa pessoa que está lá desabafando que teve que passar por isso. E COMO que alguém “esquece” ou “ignora” ou “não liga” pra uma situação dessas? Um grupo de homens bêbados querendo briga xingando e intimidando vc e suas crianças pequenas num trem, com ninguém em volta te defendendo ou te ajudando? Mas, né, poderia ter acontecido em outras cidades ou outros países também, então relaxa e aproveita a Alemanha e pare de reclamar que aqui é obviamente tudo lindo e perfeito.

Depois, vêm sempre aqueles fulanos que, quando alguém conta que passou por alguma agressão racista ou xenófoba, comenta que “eu sou assim, assim e assado e nunca me aconteceu nada, logo, não é verdade que existe racismo/xenofobia”. Amigo, você não é 100% das pessoas, só porque vc não passou por nada assim – sorte sua – não faz a experiência de outros que viveram tais situações menos válidas ou menos verdadeiras.

Lendo essas coisas a impressão é de que muitos estrangeiros gostam tanto daqui que se recusam a acreditar que possa existir qualquer tipo de ponto negativo, lado ruim ou coisas que poderiam ser melhores na Alemanha. Essa impressão é reforçada cada vez que eu vejo alguém fazer qualquer tipo de crítica – por menor que seja – à Alemanha por exemplo no grupo da comunidade brasileira daqui. SEMPRE, mas sempre sem exceção, metade das respostas é “MAS É MUITO PIOR NO BRASIL!!!” “MAS AQUI TEM ISSO ISSO E AQUILO QUE É MUITO MELHOR QUE NO BRASIL!!!”. Não é essa a questão. Não importa se a Alemanha é melhor ou pior que o Brasil. Nada disso invalida uma crítica a algo que não é legal. Eu fico me perguntando porque a pessoa acha tão importante acreditar que a Alemanha é PERFEITA SEM DEFEITOS pra poder ser feliz aqui? Eu gosto de morar aqui. Não quero voltar. Mas critico a Alemanha em vários pontos. Nem de longe diria que ela é “melhor” que o Brasil, acho que todos os países têm lados melhores e piores que os outros. A qualidade de vida é melhor aqui, mas a comida é melhor lá. Aqui vc se sente mais seguro, mas as pessoas são mais simpáticas lá. Tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Mas o terceiro tipo é de longe o mais ofensivo. A pessoa contou esse caso e um dos comentários – de uma ucraniana branca, loira de olhos azuis – dizia que basta vc ficar na sua e não chamar a atenção que nada nunca vai acontecer com você – ela diz isso por experiência já que já morou 4 anos em Berlim e 4 em Dresden e nunca aconteceu nada com ela. Nossa, será que de repente é pq vc não é negra, nem tem cara de árabe, nem oriental, mas obviamente europeia e passa despercebida aqui? “Claro que não”, responde a ilustre pessoa, “não tem nada a ver com cor de pele, pare de se vitimizar! Em todos os casos que eu presenciei algum tipo de agressão era pq a pessoa vítima da agressão estava se comportando de maneira estranha, e quando vc vai morar num país vc tem que se comportar e fazer tudo exatamente como as pessoas daquele país. Ah, e quanto a crianças, gente, um aviso, fiquem de olho nas crianças, não deixem elas correrem ou falarem alto no trem, que afinal é um lugar público e isso pode incomodar as outras pessoas. E não encare esses torcedores de futebol, eles não gostam.” e partiu daí a explicar como algumas ucranianas também foram vítimas de agressão, mas foi culpa delas mesmas por terem saídos bêbadas sozinhas de uma festa à noite. Eu ainda cortei vários trechos dos comentários dela (eram uns 5 comentários bem compridos) pra não me estressar demais transcrevendo.

Isso abre uma outra discussão importante quando a gente fala de xenofobia. Esse mito de o bom imigrante X o mau imigrante. O bom imigrante seria aquele que veio estudar, ou que veio porque a empresa realocou ele pra cá, o bem qualificado, bem educado, que já sabe a língua, que não tem uma religião diferente nem uma cara diferente. Basicamente é o imigrante que não é tão diferente. O mau imigrante seria o refugiado, o imigrante que veio porque as coisas não estavam boas no seu lugar de origem, o que não tem qualificação, não tem educação, depende de assistência governamental, demora pra aprender a língua, segue uma religião diferente, se veste diferente, resumindo: o diferente demais. Que as pessoas locais separem os imigrantes nesses dois grupos (isso as pessoas que se dizem não-xenófobas, as abertamente preconceituosas detestam todo mundo igual) é meio óbvio e esperado – embora não menos triste ou preconceituoso. Mas o que me deixa triste mesmo é ver os próprios imigrantes (os do primeiro grupo, claro), fazendo essa distinção e a partir dela sendo xenófobos com os do segundo grupo. Crentes de que por fazer parte do primeiro grupo eles estão seguros e protegidos aqui e que ninguém vai mexer com eles. E tomando as “dores” dos xenófobos locais em relação ao imigrante “diferente demais”. Só que, como deixou clara a história do rapaz engenheiro, o grupo de torcedores racistas bêbados não vai antes te perguntar se vc é refugiado ou intercambista antes de te agredir quando não tiver ninguém por perto pra te ajudar. Ninguém vai te perguntar se você é advogado ou desempregado antes de te xingar na rua. O chefe da empresa pra qual você mandou seu currículo também vai estar bem menos preocupado com a sua qualificação do que você imagina antes de descartar o currículo do fulano de nome estranho e cara esquisita (você) em favor do alemão “normal” com nome “pronunciável”. Na rua, você só vai passar despercebido se tiver a sorte de ser branco o suficiente. Então quando você reproduz o discurso xenófobo, seguro de que ele não se aplica a você, pode ter certeza que o que você está usando pra atacar os outros imigrantes é um belo dum bumerangue.

É triste demais perceber quando a comunidade internacional, em vez de se ajudar e se apoiar nesses casos, tão freqüentemente reproduz os discursos dos piores mais racistas e mais xenófobos alemães que você poderia encontrar por aqui. Eis aqui um belo exemplo: Um post no grupo da comunidade de brasileiros avisando que teria uma manifestação neo-nazi (sim, tem dessas em Dresden.) e recomendando ficar longe do local onde ocorreria a manifestação. Esse nobre comentário foi o primeiro a aparecer no post:

???

Nem sei o que comentar a respeito.

Mas pra terminar o post com um tom positivo: Eu acredito que essas pessoas não sejam a maioria, felizmente. Pelo menos dos estrangeiros que eu conheço pessoalmente, não saberia mencionar nenhum que pense assim (Bom, provavelmente eles não gostam de fazer amizade com outros estrangeiros, né…). E é assim aqui em Dresden – e acredito que na maioria das outras cidades alemãs também – tem sempre um grupo de estrangeiros e alemães que se ajudam, se apoiam no que precisar, e tal. Certamente vale a pena entrar em alguns grupos da sua cidade no facebook até achar aquele onde estão as pessoas mais prestativas e amigáveis, certamente tem um. É importante fazer amizade com pessoas locais para facilitar sua integração, mas também é muito importante pro bem estar pessoal ter um grupo de amigos que estão “na mesma situação” que você, com quem você pode desabafar quando as coisas estiverem difíceis, quando der saudades de casa, quando você estiver mega irritado com alguma característica típica daqui, quando você precisar de alguém que saiba exatamente o que você está passando…

Então fica aqui meu pequeno-longo manifesto para todos os estrangeiros na Alemanha: bora se ajudar que tá todo mundo no mesmo barco!


(Publicado em 3 de Maio de 2016)

A pirâmide social alemã

Um tópico sugerido por uma amiga que eu achei interessante para discutir aqui é sobre os empregos que não exigem qualificação acadêmica. Eu já escrevi, bem no começo do blog, sobre empregos que não existem na Alemanha. Em um país onde a desigualdade é uma das mais baixas do mundo (12˚ lugar de acordo com o índice de GINI que mede a desigualdade dos países), empregos com baixos salários e que não exigem alta qualificação são bem menos numerosos. Um texto muito interessante (e já extensivamente compartilhado em redes sociais) sobre o assunto da desigualdade nos países europeus é esse, escrito por um brasileiro que mora em Amsterdam.

Mas vamos ao assunto. Quem faz os trabalhos com menores salários, na Alemanha?

Vários empregos são ocupados majoritariamente por estrangeiros. Peões de obra, por exemplo, especialmente na ex-Alemanha Oriental, são em sua grande maioria poloneses. Na Alemanha Ocidental, turcos. Outras ocupações empregam esses mesmos grupos, como lixeiros e trabalhadores rurais.

Já para ocupações relacionadas a atendimento – caixa de supermercado, atendentes em padarias, garçons em restaurantes – que para a gente no Brasil estaria no mesmo patamar de salário dos peões de obra, a situação é um tanto diferente. Em cidades como Dresden, com poucos estrangeiros (em relação ao resto da Alemanha), mas em que mesmo assim as obras são realizadas em peso por poloneses, os empregos de atendimento são ocupados principalmente por alemães.

Mas entre esses empregos também há uma diferença: enquanto, por exemplo, atendendo em uma padaria ou dirigindo um ônibus você vai encontrar alemães de diferentes idades, garços e garçonetes de restaurantes e cafés são na maioria jovens de menos de 30 anos.

Essa breve descrição mostra então três “níveis” de empregos de baixa-qualificação, e que, no Brasil, estão mais ou menos na mesma linha: Trabalhos pesados braçais, ocupados por estrangeiros; garçons e garçonetes, ocupados por jovens alemães e outros empregos gerais de baixa qualificação, ocupados por alemães em geral.

Por que a diferença?

Acontece que por aqui, mesmo um emprego que exige baixa-qualificação é razoavelmente bem pago. Esse ano mesmo o governo alemão aprovou o salário mínimo de 8,50 euros por hora, o que corresponde a aproximadamente 1360,00 euros por mês em um trabalho de período integral. 1360 euros, como você pode imaginar, é dinheiro suficiente para uma vida decente por aqui. Somando ainda extras que você recebe do governo alemão, por exemplo, se tiver filhos, um emprego em período integral que pague o salário mínimo é suficiente para morar num lugar bom, sustentar os filhos, opções de lazer, compras necessárias e algumas desnecessárias, e assim vai. Vejo esse salário mínimo não como “o mínimo salário que alguém pode pagar”, mas como “o mínimo salário que alguém pode receber”. Por isso esses empregos gerais são ocupados por alemães diversos de várias idades. Para quem escolhe não continuar a educação em uma instituição de ensino superior (leia aqui como funciona o sistema educacional alemão), as opções são suficientes e proporcionam vidas dignas.

A diferença dos garçons e garçonetes é que não são empregos vistos como duradouros, digamos assim, não são vistos como profissões. A maioria desses cargos são ocupados por estudantes universitários aproveitando as horas livres para ganhar um dinheiro extra durante os estudos. Essas ocupações são no geral mais flexíveis e pagam por hora.

E, finalmente, na base da pirâmide social, empregos braçais. Esses, sim, são última alternativa. Além dos malefícios para a saúde que essas profissões causam a longo prazo, empregos como trabalhador rural e trabalhador em canteiro de obras são por temporada: não existem no inverno. Os imigrantes que ocupam esses cargos são normalmente pagos salários bem abaixo daqueles que recebem os alemães (mesmo alemães exercendo a mesma função), mesmo trabalhando aqui legalmente. 3 ou 4 euros por hora, são porém salários mais altos que receberiam nos seus países de origem (mesmo no caso da Polônia, ainda sendo um país vizinho), e por isso continuam atrativos. Mas, para os alemães, tais empregos com piores conseqüências para o corpo e a saúde, são de fato última alternativa.

(Ironicamente, na Suiça os alemães é que são a mão-de-obra barata)

Vale ainda fazer uma pequena observação a respeito de estrangeiros na Alemanha. Embora os empregos menos desejados por alemães sejam ocupados majoritariamente por estrangeiros, não significa que a maioria dos estrangeiros ocupem tais empregos por aqui. Na verdade, de acordo com uma pesquisa recente, a população de origem não-alemã, na Alemanha, é em média mais qualificada que a população alemã. O que também não significa que tendo um doutorado você tem entrada livre no mercado de trabalho alemão, muito pelo contrário. Já escrevi um pouco sobre a aceitação dos alemães aos imigrantes aqui, mas para resumir: a língua é uma barreira difícil de transpor, e a “desconfiança” dos alemães por profissionais estrangeiros é, infelizmente, ainda bem alta.


(Publicado em 7 de Novembro de 2014)