língua alemã

O (ou a falta de) senso de humor alemão

Sempre que algum colega faz aniversário, no escritório, o chefe dá de presente um buquê de flores para o aniversariante. Já comentei em outro post que, aqui, os aniversários redondos (20, 30, 40, 50…) são especialmente importantes. Hoje foi o aniversário de 40 anos de um colega meu, e por isso o buquê de flores dele foi particularmente especial: veio com diferentes tipos de massa como enfeite! Massa, macarrão, mesmo. Curioso. Eu queria tirar uma foto mas acabei esquecendo. Eram basicamente diferentes tipos de macarrão, embalados num plástico transparente (pq a idéia, é, de fato, fazer o macarrão eventualmente) de tal maneira que pareciam, no buquê, flores curiosas.

Todos acharam bem inusitado. Ele foi logo colocar o buquê num vaso com água, para não secar, e eu não resisti fazer uma piadinha: “Só não deixe na água muito tempo se não fica mole demais!”. Estava me referindo ao macarrão lógico. Ele não entendeu. Tive que explicar.

Há duas semanas atrás fui a Paris encontrar uma amiga que estava viajando lá. Ela estava com um grupo de outros brasileiros. Fizemos um picnic. Compramos, no supermercado, muitos queijos. O supermercado tinha um funcionário que era especificamente um recomendador de queijos. Brincamos que ele era “queijoliê”. Durante o picnic, combinamos que não era para conversar sobre trabalho. O assunto ficou voltando repetidamente como piada, cada vez que alguém comentava qualquer coisa que poderia ser minimamente relacionada à profissão de alguém presente, a pessoa em questão logo comentava que não podia responder porque não era pra falar de trabalho. Ao conversarmos sobre os vários queijos que estávamos comendo, eu comentei “Ainda bem que nenhum de nós é queijoliê”. Foi uma piadinha bobinha puxando os assuntos daquele dia – o queijoliê e o não falar sobre trabalho. Todos riram, felizes. Eu percebi que era a primeira vez que todos riam, felizes, de alguma piadinha boba que eu fiz EM ANOS. (É possível que o vinho tenha ajudado)

Mas esse comentários bobos fazendo referência a outras partes da conversa é algo que nunca teria gerado risos num grupo de alemães. O senso de humor alemão (ou a falta dele) é uma característica conhecida e frequentemente apontada em piadas e comentários a respeito da cultura alemã. É verdade que o humor alemão é diferente do que a gente conhece.

Uma diferença grande está muito á língua alemã. Em comparação ao português, a língua alemã tem bem menos variações na entonação. A gente sempre ouve (de vários estrangeiros, não só alemães) que o português brasileiro é uma língua muito “cantada”. Em português é fácil, alterando só a entonação das palavras, denotar maior informalidade, maior formalidade, carinho, sarcasmo, impaciência, e vários outros significados subentendidos. Você pode falar uma frase cujo significado é quase exatamente o oposto do que as palavras usadas indicam, e só pela entonação deixar o significado real claro. Digamos, um exemplo bem simples: “Nossa, você canta bem, né?”. Dá pra falar essa frase com uma entonação honesta e uma sarcástica. Ou então meio sem entonação, pra demontrar que você não está nem um pouco interessado nas habilidades de canto da pessoa em questão, um significado de indiferença. Outras pequenas indicações físicas reforçam um significado ou outro. Se você fala isso olhando diretamente pra pessoa, é ou a frase honesta ou a sarcástica. Olhando pra outro lado é a frase indiferente. Expressões faciais também colaboram. E assim vai. Na nossa cultura e na nossa língua, o significado de uma frase vai muito além do significado real das palavras usadas, dependendo de todo um conjunto de expressões faciais, comportamento, entonação e contexto pra ser entendido.

Não é que em alemão não tenha isso também. Tem. Só que esses outros fatores são bem menos importantes pra compreensão do significado. Eles contribuem, mas o principal mesmo são as palavras usadas. Muitos alemães entre brasileiros se confundem na comunicação achando que coisas que foram ditas tinham significado literal, quando não tinham. Um caso típico é você comentar com um alemão “ah, então passa lá em casa qualquer hora” e aí ele te liga no fim de semana perguntando se pode ir na sua casa às 16h.

São várias as vezes que eu faço comentários sarcásticos, deixando bem claro pelo meu tom de voz que é sarcasmo, e vejo que os interlocutores alemães estão me olhando com cara de quem não sabe se eu tô falando sério ou não. Em situações em que seria bem óbvio, num grupo de brasileiros, que eu não estava falando sério.

Além disso, uma outra característica da língua que dificulta certas piadas, é que ela é muito precisa e dá menos margem para ambigüidades em comparação com outras línguas. E eu suspeito que seja isso responsável por impossibilitar o senso de humor como o que a gente conhece, que é uma aparente incapacidade de relacionar comentários com temas anteriores da conversa. Como o caso do queijoliê. Ou o macarrão nas flores. Porque colocar as flores na água mto tempo faria elas ficarem moles? Pq não era óbvio que eu estava fazendo uma piadinha me referindo ao macarrão? Suponho que seja essa ausência de ambigüidade da língua alemã é que faça com que eles sejam menos “treinados” pra identificar outros tipos de ambigüidade. Será? Não sei. Só sei que são vááários os exemplos de piadinhas desse tipo que eu faço e me vejo tendo que explicar pra pessoa o que eu quis dizer.

Quando eu estava pra casar, ano passado, o tema casamento era um assunto recorrente nas conversas de almoço entre as colegas do trabalho. Numa ocasião estávamos falando do meu vestido, que eu tinha escolhido que seria vermelho, e não branco. Eu tinha acabado de buscar o vestido, pronto, da costureira, daí o assunto. Poucos minutos depois, o assunto mudou para a apresentação do coral de uma colega. O nome do coral tem qualquer coisa a ver com frutas vermelhas, e por isso as meninas (é um coral feminino) tinham que todas ir com roupas vermelhas, rosas ou roxas para a aprensentação, e minha colega estava comentando que não tinha nenhuma roupa vermelha, rosa ou roxa (ela usa mais roupas de cores azuladas). Eu comentei, brincando “Bom, eu tenho um vestido vermelho novinho se você quiser emprestado…” me referindo, é claro, ao meu vestido de casamento, que eu tinha acabado de buscar, que era vermelho, e sobre o qual tínhamos conversado poucos minutos depois. Ela não entendeu. Eu tive que explicar.

Também numa conversa de almoço do trabalho, estávamos conversando sobre o fato de que a máquina de café estava na assistência técnica. A máquina de café do escritório faz cafés maravilhosos, eu (e outros colegas também) estava bem transtornada com a ausência da máquina de café. Minha colega comentou que a outra colega que tinha levado a máquina pra assistência técnica, a Ana, disse que provavelmente ficaria pronta e voltaria no dia seguinte. Algumas frases depois, comentando sobre alguma outra coisa da tal Ana, a mesma colega com quem eu estava conversando sobre a máquina de café falou que a Ana parecia estar com um início de gripe e se pá ia acabar tendo que ficar o resto da semana em casa. Eu comentei, com um tom dramático exagerado “Ó Não!! A Ana não pode ficar em casa o resto da semana!!!” me referindo, na verdade, ao fato de que se a Ana não viesse ela também não traria de volta a máquina de café. Quer dizer, a gente tinha conversado sobre a máquina de café SEGUNDOS antes, sério. Nope, não rolou uma compreensão direta, tive que explicar que eu estava brincando que não era a Ana que faria falta, mas a máquina de café.

As piadas dos alemães são como a comunicação alemã: diretas, sem sutilezas, sem risco de serem mal compreendidas.

E pra pessoas de outras culturas – especialmente pra nós, que fazemos graça de tudo, que floodamos a internet com memes de qualquer situação segundos depois dela ter ocorrido – pode bem parecer que os alemães não têm senso de humor. Mas talvez o pior resultado disso seja que se você estava acostumado a fazer as pessoas rirem com o que você fala no Brasil, aqui você perca essa habilidade…


(Publicado em 28 de Agosto de 2018)

Portingalemão

Uma conseqüência inevitável de se mudar pra um país que fala outra língua é a mistura das línguas. Algumas misturas de língua têm até nome oficial, tipo o famoso Spanglish dos latinos nos EUA, o nosso portunhol ou portuñol entre sulamericanos, o Denglisch (Deustch + Englisch), etc. Mas quando vc está num país em que a língua é mais difícil que a média e vários dos estrangeiros não falam ou não aprenderam ainda a língua local, inevitavelmente acaba entrando uma outra língua na mistura, o inglês claro.

Esses dias eu olhei uma lista de coisas a fazer que eu tinha escrito rapidinho no trabalho, listando as coisas a fazer naquele dia, e notei que a lista estava uma mistura louca de alemão, inglês e português.

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A lista em questão

O curioso é que essa mistura nem é relacionada à sua fluência em cada língua. Acaba sendo uma questão de praticidade, mesmo. Então quando, por exemplo, eu escrevo algo que é só pro meu próprio uso, a mistura é inevitável, acabam saindo coisas em português, inglês ou alemão, dependendo da língua que estava na cabeça em cada momento.

Como estrangeiro morando na Alemanha, vc querendo ou não acaba usando muito o inglês – mesmo que seu alemão já seja fluente – pq é inevitável que vc tenha vários amigos que não falam nem alemão nem português. Então você acaba mesmo usando as três línguas regularmente.

Aí tem situações em que você não mistura: por exemplo se vc está conversando em alemão com um alemão: vc fala tudo em alemão, mesmo. Mas tem situações em que você mistura por questão de conveniência: se você está por exemplo conversando com outro brasileiro e vai usar alguma palavra específica que vc teria que inventar uma tradução pra poder falar em português pq é algo específico daqui. Aí vc acaba falando aquela palavra em alemão mesmo. Ou às vezes simplesmente pq vc tá falando rápido e não quer ficar toda hora parando pra pensar qual é a palavra naquela língua que vc tá falando, quando vc sabe que a pessoa com quem vc tá falando entende a outra língua também, então vai a primeira palavra que veio na sua cabeça e pronto!

De exemplo, peguei rapidinho aqui umas frases tiradas de conversas com outros brasileiros recentemente pelo face ou whatsapp:

“Alguém por aí que poderia me informar onde fica a loja portuguesa em DD que possa achar polvilho? Haltestelle? Danke
(Haltestelle = ponto de ônibus/tram)

“Fui numa Fahrschule aqui para me registrar para a prova escrita e a mulher me orientou ir ao Führerscheinstelle primeiro.. Vou lá amanhã.”
(Fahrschule = autoescola. Führerscheinstelle = o equivalente ao Detran)

“Em meißen eles vão começar a oferecer Ausbildung ano que vem, tem 2 vagas”
(Ausbildung = tipo um curso técnico de 3 anos para alguma profissão)

“Mas aí fiquei pensando q eu tô com horários malucos no Praktikum aqui, e se não tiver ninguém em casa vai derreter.”
(Praktikum = estágio)

Ou com outros estrangeiros:

“And there’s a Ferienwohnung right in front of the restaurant which is also good.”
(Ferienwohnung: apartamento de férias, pra alugar)

“Are you thinking Eis Becher or cone ice cream?”
(Eis becher: uns sorvetes gigantões todo produzidos)

“So now, even if the contract should end, the gesetzliche Krankenkasse has to then give you an option to stay as a freiwillig versicherter member which is loads cheaper than being in a private one.”
(gesetzliche Krankenkasse: seguro de saúde público. freiwillig Versicherter: segurado voluntário) (ainda preciso fazer um post sobre seguros de saúde, dá assunto pruns 10 posts…)

E algumas situações acabam ficando até absurdas: outro dia eu estava andando na rua com meu namorado e encontrei uma amiga brasileira. Começamos a conversar, os três. Ela falando em alemão, ele em inglês e eu em português. Os três falam as três línguas e por algum motivo essa mistura funcionou bem assim. Foi bem uma questão de tentar facilitar pro outro: ela estava falando alemão pq o meu namorado é alemão. Eu estava falando em português pq ela é brasileira. Ele falando em inglês pq ele não fala português tão bem e nenhuma de nós era alemã. Resultado: portingalemão.

(ou, se vc preferir, Portalinglês, Aleminportuguês, Aleportinglês, Inglaleportuguês ou Inportalemão)

Teve também outra situação bizarra: eu estava com um grupo de pessoas de países de língua espanhola num encontro dos alunos do curso de alemão. Eu aprendi espanhol na escola, e entendo razoavelmente bem – como não é difícil para qualquer brasileiro – mas não consigo falar praticamente nada em espanhol. E eles, lógico, estavam falando entre si em espanhol. Eu entendia o que eles falavam e respondia em alemão – que eles entendiam já que eram alunos do curso de alemão. E de alguma maneira a comunicação assim acabou funcionando. Também assim se comunica meu namorado quando estamos com um grupo de brasileiros. Ele entende razoavelmente o que está sendo dito, mas não consegue responder bem em português, então responde em inglês, mesmo.

E essa mistura também acaba sendo comum pra quem tá começando a aprender alemão. Quando você está aprendendo a língua, é comum você entender mais do que consegue falar porque muitas palavras vc ou conhece mas não lembra na hora de usar, ou não conhece mas entende o significado pelo contexto. Então em um determinado momento, é comum vc entender bastante mas não conseguir falar quase nada, e acaba se comunicando com outros alemães nesse modo bilíngue: eles falando em alemão e você respondendo em inglês.

Eu acho bem interessante ver como as pessoas se arranjam pra se comunicar.

Eu já escrevi um post grande sobre a relação dos alemães com a sua língua (escrito em um momento de frustração). Esses dias também me veio na cabeça uma analogia muito boa pra essas questões de língua: quando você está tentando falar alemão num grupo de alemães, é como se você tivesse jogando uma partida de Scrabble em que todos os outros jogadores têm um set inteiro de letras pra jogar e você tem só as 8 que as regras do jogo permitem. E aí os outros te perguntam porque você não está se divertindo com o jogo, e quando você explica o quão injusto é o jogo eles te dizem “ah, mas vc está indo tão bem com essas letras que vc tem! Se você jogar mais 100 partidas você ganha mais uma letra! É só jogar bastante que vc vai juntar todas as letras, também!”

scrabble

Mas o que isso tem a ver com o portingalemão?

A questão é que os alemães vão o tempo todo fazer uma pressão louca pra vc aprender alemão perfeito o mais rápido possível. É lógico que é importante vc aprender a língua do lugar que você mora, se vc quer ter uma vida normal e participar 100% na sociedade não tem como sem saber a língua. Mas essa pressão constante e exagerada não ajuda em nada – só te deixa mais frustrado e se sentindo culpado quando vc escolhe falar com alguém em inglês em vez de alemão, ou ler alguma coisa traduzida em vez do original alemão, ou assistir um filme alemão com legenda, sei lá.

E isso eu acho inaceitável. Eu acho que a prioridade é se conseguir se comunicar o melhor possivel.

Eu falo alemão razoavelmente bem, trabalho num escritório onde não falo inglês com ninguém, só alemão, e de uma maneira ou de outra funciona. Às vezes é frustrante, às vezes eu me comunico aos trancos e barrancos, e às vezes é tudo lindo e perfeito. Mas de uma maneira ou de outra, funciona. Mas com meu namorado, que é alemão, eu falo a maior parte do tempo em inglês. E TUDO BEM que seja assim. Eu ouço muuuuuita crítica dos alemães (críticas discretas) de que eu deveria falar só em alemão com ele. Mas por quê? Os dois falam inglês fluentemente e com facilidade. Eu me viro em alemão, mas ainda é um esforço constante com vários momentos de frustração. É a analogia do jogo de Scrabble. Por que eu teria que passar por isso o tempo todo, jogar o jogo com as regras injustas constantemente com meu próprio parceiro, na minha própria casa? Na minha casa eu falo a língua que eu quiser. A única pessoa no mundo que pode me dizer que língua eu tenho que falar com meu namorado é meu namorado. Se ele dissesse que não quer mais falar inglês pq pra ele é um esforço e é frustrante, aí a gente ia ter que falar ou alemão ou português, ou os dois. Mas se os dois estão satisfeitos assim, porque as pessoas acham que têm que me dizer em que língua a gente tem que falar na nossa própria casa?? Acho isso o cúmulo. E isso é seeeeempre assim com qualquer casal internacional, as pessoas vão sempre te pressionar pra falar a língua do outro e te fazer sentir culpa por escolher a língua que for mais confortável para os dois.

Também recentemente, conversando com a minha professora de alemão, comentei que participo de um clube de leitura. Ela perguntou em que língua são os livros e eu disse que são em inglês. Ela passou daí a me falar que eu deveria ler em alemão, pq se aprende a língua muito mais rápido, blábláblá. Eu leio bastante, leio muitos livros. Às vezes eu leio em alemão também. Mas a maioria dos livros que eu leio ainda é em inglês ou português, já que em alemão eu ainda leio muito mais devagar, e não entendo 100%, e não é  a mesma coisa. Então às vezes eu leio em alemão, e às vezes, não. E TUDO BEM. Mas ela me criticou muito e falou que eu tinha que ler só em alemão! Como assim? Minha vida tem que se tornar um constante exercício, um constante treino, até eu falar alemão 100%? Eu não posso fazer nada simplesmente pelo prazer de fazer aquilo, eu tenho que fazer tudo no formato exercício-aprendizado-de-língua? Eu leio porque eu gosto de ler, e eu quero entender o que estou lendo. Não quero o tempo todo ter que ficar olhando o que significa aquela ou essa palavra, ou tirar do livro apenas uns 60% do que eu poderia ter tirado se tivesse lido numa língua em que sou mais fluente. Ler na língua que você quer aprender de fato ajuda pra caramba – aliás foi principalmente lendo que eu aprendi inglês. Mas não dá pra querer que a pessoa faça APENAS isso. Essas coisas me incomodam pra caramba.

Outra coisa que me incomoda profundamente (isso não acontece mais, mas no começo). No começo quando meu alemão era mais ou menos, freqüentemente alguns alemães falavam pra mim que só iam falar alemão comigo pq eu precisava treinar. Eu acho uma coisa super paternalista a pessoa decidir POR VOCÊ que você precisa treinar. Tudo bem, em várias situações eu queria de fato falar em alemão pra treinar. Mas em outras, eu queria me comunicar. Em outras situação eu queria, sei lá, discutir a legalização do aborto, ou a situação política do Brasil, ou sei lá que outro assunto polêmico e difícil que nem em sonho eu conseguiria discutir em alemão com o vocabulário que eu tinha. E eu acho uma atitude muito paternalista do meu interlocutor – se ele fala inglês perfeitamente bem – me obrigar a me comunicar com ele APENAS na língua nativa dele que pra mim ainda é super difícil! Por que não deixar eu escolher quando eu quero treinar a língua e quando eu quero me comunicar plenamente? Eu não sou nenhuma criança, não é você que define todas as regras da nossa relação, sabe? Não é assim que funciona.

Então tudo isso é pra falar que: tudo bem misturar as línguas. Tudo bem se você precisar falar um portingalemão ou um Denglisch com alguém porque sua fluência na língua ainda não é suficiente. E se vc quiser mudar e falar só em inglês pq naquele momento sua prioridade é comunicação, e não treino, tudo bem. Ninguém tem que te criticar por isso. É importante se esforçar pra aprender alemão, lógico, mas todo mundo tem seu tempo, todo mundo aprende no seu tempo, ninguém aprende de um dia pro outro. É importante se esforçar e procurar situações em que você possa praticar, mas se em algum momento você não quiser praticar, porque você está cansado, porque você está frustrado, pq vc não quer se sentir constantemente como uma criança de 3 anos conversando com advogados e juristas: TUDO BEM. Não deixe que outras pessoas te façam sentir que você está fazendo algo errado porque não está falando/lendo/escrevendo/ouvindo alemão CEM POR CENTO do seu tempo aqui.

(Ai, volta e meia eu vou escrever um post sobre alguma coisa que eu achava que era bobinha e acaba saindo o maior desabafo, no post!)


(Publicado em 26 de Junho de 2016)

Nö?

Quando se aprende uma língua nova, demora um pouco pra conseguir começar a perceber e reconhecer sotaques diferentes dentro da mesma língua. E o alemão tem uma particularidade nesse sentido. Existe uma pronúncia específica do alemão que é a correta. Esse alemão padrão se chama “Hochdeutsch“, ou “Alto alemão”. É esse alemão que se ensina em cursos de alemão e na escola, que se fala na televisão, etc. Qualquer sotaque diferente, aqui chamado de dialeto, é considerado uma variação local não-oficial da língua. Isso inclui gírias e palavras locais como também a pronúncia típica do alemão naquela região. Cada região tem o seu dialeto local.

No começo você percebe que tem uma dificuldade maior pra entender algumas pessoas enquanto outras você entende com mais facilidade, mas não consegue apontar precisamente as diferenças em como cada pessoa fala o alemão.

Aqui na Saxônia é falado o alemão saxão, ou Sächsisch. Eu trabalho com pessoas daqui que falam com um sotaque local BEM carregado, e tem vezes que eu não entendo patavina do que a pessoa tá falando. Mas as poucos o ouvido vai ficando treinado a perceber as sutilezas (ou obviedades) nas diferenças de pronúncia.

O dialeto saxão, para o ouvido dos alemães não-saxões, soa bem engraçado e um tanto ridículo. Deve ser principalmente por causa das vogais:

O → Ö – talvez o som mais notavelmente diferente e que faz o sotaque soar engraçado é que na maioria das palavras com o, eles pronunciam ö, que é uma mistura entre o e e. Fica como se em português em vez de a vc falasse ã em todas as palavras que são com a.

A  O – E o a, em vez de eles falarem um som aberto, eles falam ele bem fechado, soa como o.

EI → ÊI – O ditongo ei em alemão se pronuncia ai, com a, mesmo. Mas no dialeto saxão eles falam ei fechado, com som de ê.

Então basicamente em Sächsisch as vogais são pronunciadas fechadas onde em Hochdeutsch elas são abertas. Eu tenho a impressão de que deve soar para os alemães meio que nem aquelas venusianas daquele episódio do Chapolin Colorado em que ele vai pra Vênus, saca? Esse aqui:

Outras diferenças:

CH → SCH – Aquele som típico do alemão, que não existe em português, o ch em palavras como ich (eu). É tipo um som de x só que com a língua presa. Mas na saxônia eles falam ch como x, mesmo (ou o equivalente alemão sch).

T  D, P  B – Alguns sons, tipo T, e P, são as vezes em Sächsisch falados mais fortes, tipo D ou B. Por exemplo: Tag (dia) às vezes é pronunciado Dag.

Nicht  Ni – Ao falar nicht (não), os saxões muitas vezes não pronunciam o cht, falando apenas “ni”.

Um exemplo do Sächsisch escrito com fonemas alemães nesse quadrinho:

Flix.jpeg

Flix (www.der-flix.de) – Das war mal was

Essa tirinha é de um livro de quadrinhos onde o autor, Flix, conta a impressão que ele e seus amigos tinham da Alemanha Oriental antes da queda do muro. Na historinha acima, a dele, ele conta como ele tinha ouvido falar que na Alemanha Oriental era proibido ter tanques de guerra de brinquedo. Então ele imagina vários esquemas para contrabandear um tanque de guerra de brinquedo da Alemanha Ocidental para a Alemanha Oriental – por exemplo escondendo o tanque dentro de um ursinho. O guarda da Alemanha Oriental olha o carro e comenta, com seu sotaque forte saxônico: “Podem passar! Posso ver claramente que vocês não estão trazendo nenhum tanque de guerra de brinquedo!” ou algo assim: “Bõdem bossar! Bõsso ver gloromente gue võcês não esdão drozendo nenhum donque de guerra de bringuedo!” (a fala do guarda em alemão normal seria: “Sie können passieren! Sie haben ja offensichtlich keine Spielzeugpanzer dabei!!”)

Mas depois desse post inteiro que certamente está bem chato pra quem não fala alemão, a grande questão é: Que que é o Nö? do título, afinal?

Nö? é uma palavra-interjeição saxônica muuuuuuuito utilizada por aqui. Eles brincam que Nö? quer dizer Sim, mas na verdade você pode imaginar o Nö? como sendo um “Né?”, é basicamente isso. E eles usam pra responder perguntas ou até só pra dizer “aham”.

Eis alguns exemplos de diálogos onde o Nö? pode ser utilizado:

“Eu queria dois pãezinhos, por favor?”
“Nö?”

“Bonito o dia hoje, não?
“Nö?”

“Nossa, tá quente aqui, vou abrir a janela.”
“Nö?”

“Posso pegar essa caneta?”
“Nö?”

“Vou te mandar os dados por email, então.”
“Nö?”

Ou seja. É basicamente um é-ok-aham-tá-sim-pois não-fique à vontade.

O engraçado é que eles usam esse Nö? com tanta frenqüência que às vezes vc ouve alguém daqui falando no telefone e a conversa inteira que você está ouvindo é só uma sucessão de Nö?s. Talvez a pessoa do outro lado da linha também esteja falando só Nö?s e a conversa é um código secreto que só as pessoas da Saxônia compreendem!

Eis um vídeo bem bobo que eu achei no Youtube sobre o dialeto saxão:

No vídeo, uma moça aborda alguns rapazes em Colônia, falando no dialeto saxão, convidando-os pra ir tomar um café ou uma cerveja, e todos recusam. Depois ela tenta de novo falando em Hochdeutsch e todos aceitam. Achei meio preconceituoso e não creio que seja de fato tão extremo assim, mas realmente pelo que parece na Alemanha o dialeto saxão é mesmo um tanto desprezado. Isso pode ter também um pouco (ou muito) de fundo no fato de a Alemanha Oriental e os alemães orientais serem vistos como um tanto atrasados pelos ocidentais depois da reunificação. Certamente também por isso o sotaque do leste acabou ganhando essa conotação negativa. Segundo meu namorado, que é da região de Colônia mas mora em Dresden há mais de dez anos, na verdade qualquer dialeto soa meio ridículo e dá a impressão de que a pessoa não é muito educada, e tal (educada no sentido de ter ido pra escola, mesmo).

E para concluir, aqui nesse artigo do Bild tem um mapa da Alemanha com áudios dos dialetos típicos de algumas regiões.


(Publicado em 22 de Março de 2016)

A relação dos alemães com a língua alemã

Uma coisa definitivamente frustrante sobre morar na Alemanha é, claro, a língua. Não porque ela seja particularmente difícil. Sim, é difícil, mas certamente bem mais fácil que muitas outras línguas. O que torna a experiência frustrante é a relação dos alemães com a língua alemã.

Eles gostam demais da própria língua.

Você deve estar pensando que ué, não tem nada de errado nisso. Eu também gosto bastante de português. Normal gostar da sua própria língua, não é?

Claro. Só que a maneira como as pessoas lidam com pessoas que aprendem ou estão em processo de aprendizado da sua língua é variada. E a maneira como as pessoas se dispõe a tentar entender outras pessoas em outras línguas que não a sua própria também é bem variada.

Já antes de vir para Alemanha essa relação dos alemães com sua própria língua me incomodava bastante. Eu morei na Itália por um ano e lá fiz alguns amigos alemães e austríacos. E quando esses falantes nativos de alemão estavam juntos, mesmo que com outras pessoas que não entendiam nada de alemão, eles falam alemão entre si e não faziam o menor esforço em te incluir na conversa. Em várias situações em que eu estava em um grupo onde a maioria presente era falante nativo de alemão, eles se comunicavam só em alemão, excluindo da conversa, sem a menor cerimônia, eu e os outros não-alemães presentes.

E nas primeiras vezes que eu visitei o namorado na Alemanha, antes de morar aqui, passei por várias situações semelhantes. Entre amigos dele, fosse um grupo pequeno ou grande, ninguém fazia o menor esforço para me incluir na conversa sabendo que eu não entendia uma palavra de alemão. Mesmo todos sendo perfeitamente capazes de falar inglês, ninguém se dava ao esforço. E eles não achavam nem um pouco estranho nem se sentiam nem um pouco mal de te excluir completamente da conversa. É quase como se você, não falando alemão, se tornasse completamente invisível.

Aos poucos, especialmente durante meu primeiro ano aqui, fui aprendendo alemão até chegar em um ponto de fluência em que conversas cotidianas não são mais problema. Mas mesmo já podendo participar das conversas ainda sinto demais os problemas dessa relação que os alemães têm com a própria língua.

Essa exigência que os alemães fazem com os estrangeiros aqui de falar e entender alemão perfeitamente independente do tempo que vc teve para aprender acaba sendo uma maneira discreta mas muito efetiva de várias pessoas extravasarem sua xenofobia. Mesmo quem não é particularmente anti-imigrante e não tem necessariamente nada contra estrangeiros acaba revelando muito da sua xenofobia escondida quando se discute a necessidade de falar alemão.

É necessário falar alemão para viver na Alemanha? Óbvio. É necessário para um estrangeiro aprender alemão se quiser viver aqui? Necessário é, mas essa é uma questão bem relativa. Ninguém aprende uma língua de um dia pro outro. Alemão não é uma língua fácil, e para quem nunca aprendeu outra a não ser a própria língua nativa, ficar fluente em uma língua nova é um processo bem demorado. E isso é uma coisa que me parece que os alemães não estão dispostos a entender. Claro, há excessões. Mas eis um exemplo que ilustra muito bem esse problema: numa conversa entre colegas de trabalho sobre refugiados, uma mulher estava contando que foi em um evento sobre refugiados em que um jovem sírio contou a sua história. O rapaz tinha 17, 18 anos, chegou na Alemanha há uns 2 anos, e, segundo a pessoa que estava contando a história, falava alemão perfeito. Ele estava contando que nos últimos anos fez o colegial aqui na Alemanha, sem problemas, mas ao terminar o curso, não foi autorizado a participar do Abitur – a prova nacional de ensino médio que te dá acesso à universidade, algo mais ou menos equivalente ao ENEM. A mulher que estava contando essa história disse que não sabia porque ele não podia fazer a prova. Então os outros colegas em volta começaram a discutir a situação tentando imaginar qual poderia ser o motivo. A conclusão imediata, automática, foi de que provavelmente ele não sabia alemão suficiente. Vai ver – concluíram os alemães – que é necessário um determinado certificado de alemão para fazer a prova, que ele não conseguiu obter. Confusa com essa conclusão curiosa, questionei: “ué, mas você não disse que ele falava alemão perfeito?”. A resposta: “Bom, ele falava alemão muito bem, mas vai ver ele não escreve alemão bem o suficiente e por isso não passou na prova de língua”.

Quer dizer.

Um estrangeiro estava contando que não podia fazer o Abitur que lhe daria acesso à universidade. Segundo a narradora da história, ele falava alemão perfeito. E AINDA ASSIM a conclusão imediata dos alemães presentes era de que se ele não podia fazer o Abitur, devia ser quase com certeza porque ele não sabia alemão suficiente.

Burocracias complicadas referente aos direitos dos refugiados? Leis injustas para estrangeiros? Não, nada disso passou pela cabeça como possibilidade. O problema certamente era a incapacidade do menino – que falava alemão perfeito – de falar alemão. Coerência zero.

Isso para mim ilustra bem a questão: os alemães acham que para viver aqui é necessário falar alemão PERFEITO. E que qualquer coisa que você não consegue, como estrangeiro, qualquer acesso que você não tem, certamente é porque você não fala a língua suficientemente bem. Entendem o problema?

É praticamente impossível atingir um nível de perfeição em uma língua estrangeira aprendida depois de adulto. Mesmo que você fale a língua muito muito bem, seu vocabulário vai sem dúvida ser menor do que o de alguém que aprendeu a falar falando aquela língua. Sua pronúncia nunca vai ser totalmente perfeita. Nenhum estrangeiro que aprendeu alemão depois de adulto será capaz de falar alemão – gramática, vocabulário e pronúncia – melhor que um alemão. A grande maioria vai falar um alemão suficiente, mas com uma forte pronúncia e vocabulário reduzido. E ISSO TUDO BEM. Só que a língua vai sempre ser uma maneira dos alemães extravasarem discretamente sua xenofobia e insistir que é porque você não fala alemão bem o suficiente que você não consegue as coisas aqui.

Meio do gênero: “ah, não tenho nada contra estrangeiros virem morar aqui. Mas tem que falar alemão perfeito.”. Ou seja, a pessoa diz pra si mesma que não tem nada contra, mas impõe uma barreira intransponível. E não se dispõe ao menor esforço para ajudar o outro a transpor essa barreira.

Claro que não são todos os alemães que são assim. Muitos alemães – principalmente pessoas mais jovens e que já moraram um tempo em outro país e sabem o sufoco que é se comunicar diariamente em uma língua estranha – não exigem de ninguém uma pronúncia ou compreensão perfeita de alemão para respeitá-los igualmente. Muitos se esforçam pra te ajudar com a língua e não se incomodam com seus erros. E, claro, é bom lembrar que a minha frustração é muito relacionada ao fato de eu morar em Dresden – uma cidade com relativamente poucos estrangeiros, onde as pessoas têm pouquíssima convivência e tempo de convivência com pessoas de fora no seu dia-a-dia. Certamente em muitas cidades grandes da Alemanha Ocidental a experiência é bem diferente, e as pessoas são bem mais tranqüilas em relação à língua.

E, mesmo aqui em Dresden, acredito mesmo que isso melhore aos poucos nos próximos anos, com mais e mais pessoas indo morar no exterior, e mais pessoas vindo do exterior morar aqui.

Mas de uma maneira ou de outra, uma dica importante para quem está querendo vir morar na Alemanha: aprende alemão. Corre, faz curso, estuda, se esforça, porque não falar alemão vai complicar demais pra você ser aceito por aqui.


 

(Publicado em 22 de Dezembro de 2015)

Sobre a língua alemã

Eu não costumo falar muito sobre a língua alemã, já que o blog é mais sobre curiosidades do país, e tal. Mas fiquei pensando que talvez valesse a pena abordar uma questão importante que ocorre sempre a quem pensa (ou não pensa) em aprender alemão:

Alemão é uma língua feia?

Eu achava que sim, e parei de achar quando comecei a aprender a língua. A primeira coisa que eu percebi foi a suavidade de alguns sons. Tipo, digamos, a palavra Tag, que significa dia. Tag eles não falam com um G forte, soa quase como “tak”, um g bem suave. Outras consoantes soam assim mais suaves também em algumas palavras.

Claro que o som do R, que é bem forte, às vezes faz a língua soar meio feia. Mas mesmo o R só soa ruim quando pronunciado com mais intensidade que o necessário. Em alguns casos, o R nem é pronunciado, tipo no final de palavras, depois de vogais. Mutter (mãe), por exemplo, o ER no final é pronunciado mais como um A. Mir (mim) por exemplo, pronuncia-se “Mía”. O R no final vira quase um A, é muito louco.

Outro som que as vezes soa bem ruim é o som do CH depois de A, O e U. Doch, Ach, Rauch. Também soa um pouco como um R forte. (é muito difícil descrever em português sons que não existem em português, né. Mas minha intenção não é ensinar como se pronuncia o alemão, mas falar sobre a língua, mesmo, então não se preocupe tanto com os detalhes)

Mas eu acho que não é nada disso que faz com que alemão seja uma língua “feia” de acordo com a opinião de muita gente. Todas as línguas tem um ou outro som que soa meio estranho e desagradável a ouvidos alheios. Eu tenho uma teoria de que as pessoas só dizem que alemão é uma língua “feia” porque a maioria das pessoas só conhecem a língua alemã de filmes de segunda guerra. Onde, claro, as pessoas falando alemão são nazistas gritando coisas horríveis. E é óbvio que alguém gritando algo ofensivo e violento, seja em que língua for, vai soar totalmente horrível. E se esse é o único alemão com que você teve contato, é óbvio que vc vai achar que alemão é uma língua totalmente péssima que você nunca quer aprender.

Eu, por exemplo, nunca tinha tido interesse em aprender alemão até conhecer o namorado alemão. Aprendi um monte de língua, mas alemão, nunca. E por ironia da vida, era justo alemão que eu tinha que ter aprendido, hehehe.

Mas para provar que alemão poder soar super fofinho, basta ouvir uma criança fofa falando alemão. Não sobram dúvidas. Para mostrar, peguei como exemplo o trailer do novo filme do Snoopy (vi esse trailer esses dias no cinema e achei um ótimo exemplo):

Talvez você já tenha visto algum vídeo desses comparando palavras em várias línguas, no qual a palavra em alemão é sempre dita de maneira agressiva e híper exagerada, para soar horrível? Que tal esse aqui pra te fazer crer o contrário?

Basicamente o alemão que você acha que soa ruim é o alemão falado da maneira como essas pessoas nesse vídeo estão falando as outras línguas!

Portanto, se você estiver planejando vir para a Alemanha, não tenha medo de aprender o alemão. Não é a língua mais fácil de todo tempo, mas certamente não é a mais feia nem a mais difícil, também.

Adendo: me perguntaram lá no facebook sobre os diferentes sotaques de alemão. Uma coisa curiosa aqui, é que alemães diferentes são chamados de “dialetos”, não de sotaques. Isso porque existe um alemão padrão, inclusive com pronúncia padrão, que é o que eles chamam de Hochdeutsch, É o alemão que se aprende nas escolas, que é falado em situações oficiais, etc. Variações são então chamadas de dialetos, pq não são consideradas o alemão correto. É diferente da gente no Brasil. Nossos diferentes sotaques são todos igualmente corretos, meu sotaque paulistano é português tão correto quanto o sotaque carioca ou o baiano.


(Publicado em 18 de Julho de 2015)

Interjeições alemãs

Embora esse blog não seja sobre a língua alemã, de vez em quando algumas observações sobre o alemão vale a pena fazer.

Uma delas é uma pequena explicação de algumas das mais comuns interjeições alemãs, que volta e meia aparecem na linguagem e no começo é um pouco difícil de entender o que significa. Eis aqui cinco bons exemplos:

Naaa…?

O misterioso Naaa…? Pode ser ouvido entre alemães no começo de conversas de pessoas que acabaram de se encontrar. Basicamente significa algo como “Ahh, vc aqui, e aí, tudo bem?” ou “oi, que bom falar com vc de novo, como vc tá?”. É comum começar conversas telefônicas com amigos com um “Naaa?” e especialmente comum usá-lo ao encontrar alguém por acaso no tram, na fila do supermercado ou na padaria.

Oha!

Oha é uma interjeição bem específica mas bem comum. Usada para situações em que vc fica surpreso, de uma maneira negativa, mas ao mesmo tempo aceitando a realidade. Sei lá, digamos assim que vc conte prum alemão que não estava acompanhando a copa, que o Brasil perdeu da Alemanha de 7×1. “Oha!” seria uma reação plausível, se a pessoa não ficou particularmente feliz que a Alemanha ganhou de 7×1, mas entendendo que deve ter sido chato pros brasileiros, entende? Imagina que seu colega de apartamento te ligou para pedir para trazer papel higiênico pq o seu gato destruiu todo o papel higiênico disponível no banheiro. “Oha!”.

Pronúncia: “Ô-rrá”

Naja….!

Naja significa, literalmente, “não sim”. Pode ser usado de diferentes maneiras. Se você estiver tendo uma conversa que de repente parou e você não tem nada mais a dizer sobre o assunto, pode soltar um “Naja…”, do tipo “Pois é…”.  Ou ainda, se você perguntar alguma coisa para alguém, e a pessoa quiser responder tanto sim quanto não. Por exemplo… “Você tem mesmo que ir trabalhar nesse fim de semana?” “Naja… não é que eu TENHO que, mas ia ficar chato não ir…”.

Pronúncia: Naiááá

Ach so!

Meu preferido, o Ach so! aparece uma vez a cada 10 palavras, pelo menos!  Muito antes de eu entender qualquer palavra em alemão, já tinha percebido que eles falavam Ach So! com muita freqüência! A interjeição mesmo é “Ach!”, “so” significa “então”. Mas a interjeição “Ach so!” ou “Ach so?” significa algo como “é mesmo?”, “Sério?”, “Oh puxa!”, “Orly?”, e tal. Pode ser tanto uma perguntinha como uma exclamação. Pode ser usado em qualquer contexto, o tempo todo, por qualquer um. Se quiser soar alemão, insira bastantes Ach sos nas suas conversas.

Pronúncia: Arrr zôôô?

Tja!

Outro bom para se usar com freqüência é o “Tja”. É um “Ja” (sim) meio enfatizado, tipo um sim insatisfeito. Digamos… “Vc trabalha de sábado tb?” “Tja… que fazer, né?”. Ou… “Nossa, que tempo ruim, hein?” “Tja…”. Pode ser usado mesmo sem contexto, só para representar um “Pois é, que vida, né…”.

Pronúncia: Tchá….


(Publicado em 19 de Julho de 2014)

 

O paraíso dos carros amarelos

As estradas alemãs – Autobahn – têm uma certa fama mundo afora. O motivo é que, em vários longos trechos das mesmas, não existe limite de velocidade. Aparecem às vezes placas com velocidade máxima permitida quando é um trecho de obras, ou próximo a saídas importantes, etc.
Mas se você vir uma placa assim:

Aproveita! Essa é a hora de testar os limites do carro. Pode ir à velocidade que quiser que não vai chegar multa em casa.

MAAAAAASSSSS calma, não é tão simples assim.

Na verdade, embora oficialmente não tenha um limite de velocidade, existe uma velocidade recomendada, que é de 130km/h. Qualquer coisa acima disso é um risco que você pode escolher correr. Significa que, se você estiver dirigindo a 200km/h, você não vai levar multa, mas se ocorrer qualquer acidente você será responsabilizado seja ele qual for.

A grande questão é, por que, então, não existe limite?

Alguns irão sugerir, bom, a Alemanha é um país fortemente controlado por indústrias automobilísticas! Alemães adoram seus carros!

Outros talvez dirão, acontece que os alemães são ótimos engenheiros, eles sabem calcular estradas onde velocidades altas são seguras!

Nah. Nada disso. O problema é a língua alemã.

A singela palavra alemã para limite de velocidade é “Geschwindigkeitsbegrenzung”. Repito. Geschwindigkeitsbegrenzung. Não, isso não foi um gato pisando no teclado, eu digitei certo.

Para ler Geschwindigkeitsbegrenzung numa placa, só se o limite de velocidade for 20km/h…

(E se você não entendeu o título do post: presta atenção, na próxima vez que você estiver viajando de carro, em todos os carros amarelos que passarem por você.)


(Publicado em 18 de Março de 2013)